quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Notícias direto do Front


                                    
O preço do petróleo despenca
 

        A queda do preço do barril de petróleo Brent continua. Não é só a Petrobrás, obviamente, que sofre com esse fenômeno comercial, que decorre do excesso de oferta dessa importante commodity no mercado.

        Países que dependem dos rendimentos provenientes do ouro negro - que apesar de continuar negro, cada vez mais perde a sua conexão com o ouro - como, por exemplo,  a Federação Russa, de V. Putin, e a Venezuela, de Maduro sofrem em consequência.

        Nesse sentido, a situação econômico-financeira da Venezuela fica ainda mais precária, dada a sua grande dependência das vendas de petróleo. Não se há de esquecer que no tempo das vacas gordas, quando o preço do barril estava acima de cem dólares, Caracas podia financiar as compras desse produto subsidiado a Cuba e outros países da Alba.

        A desvalorização do petróleo decorre, notadamente, da superprodução atual, com a política nesse sentido do maior produtor, a Arábia Saudita. Tampouco diminui a oferta a maciça extração pelos Estados Unidos de óleo através do xisto betuminoso, com que Washington atingiu uma posição confortável no mercado.

        Os dados do mercado são os seguintes: o petróleo fechou nesta 4ª feira, dia seis, abaixo de US$ 35 pela primeira vez desde 2004, após um aumento acentuado nos estoques de gasolina nos Estados Unidos reforçar o cenário de excesso  de oferta no mercado.

          Assim, se os dados do governo estadunidense mostraram uma queda inesperada de 5,1 milhões de barris nos estoques de petróleo na semana passada, que foi ofuscada por um aumento de 10,6 milhões de barris de petróleo nos estoques de gasolina, que foi a maior alta semanal desde 1993.

 

A Coreia do Norte Nuclear

 

            Na passada noite, a Coreia do Norte anunciou o seu primeiro teste 'com sucesso' de uma bomba de hidrogênio, que tem potencial destrutivo muito maior do que o da bomba atômica tradicional.

             Dentro da atmosfera de opera-buffa que preside ao regime comunista de Kim Jong-un, a experiência teve caráter comemorativo, tendo sido autorizada pelo ditador dois dias antes de seu aniversário. Ele completa trinta e três anos nesta sexta, oito de janeiro.

             Há ceticismo nos meios especializados. Conquanto o tremor tenha sido realmente gravado nos sismógrafos, para muitos técnicos o choque não teria a força que se associa a uma experiência com bomba de hidrogênio. Consoante os especialistas, a explosão deveria ter uma potência  dez vezes superior do que a registrada.

             Ao contrário dos testes anteriores de 2006, 2009 e 2013, este experimento não foi comunicado à China e aos Estados Unidos com um dia de antecedência.

             Segundo o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, que a bomba de hidrogênio deve ser visto com ceticismo. "O que é verdade é que a Coreia do Norte continua sendo uma das nações mais isoladas do mundo, e esse isolamento só se aprofunda à medida que eles tentam envolver-se em atos crescentemente provocatórios".

              Há previsão de ulteriores sanções sobre o regime de Kim Jong-un, dado o virtual consenso que existe entre os membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, quanto à necessidade de demonstrar alguma firmeza no capítulo.

              As sanções - cuja eficácia é relativizada pela própria capacidade dessa rogue-country (país bandido) de contorná-las, como se o próprio avanço nesse campo o demonstra - incluem embargo à exportação e importação de tecnologia nuclear e de mísseis, assim como proibição de todas as exportações bélicas. Assinale-se, outrossim, que os Estados Unidos da América também impõem sanções unilaterais a esse regime comunista.

 

Lula, o patrão esquerdista de Dilma

 

             Segundo tem sido filtradas pelo noticiário,  Lula da Silva se tem associado com crescente desenvoltura à corrente mais à esquerda dentre aquelas que ainda apóiam a Presidente Dilma Rousseff.

             Teria sido dele o lançamento do torpedo que afundaria o ex-Ministro da Fazenda Joaquim Levy. Nesse contexto, a Presidenta teria afinal abraçado a tese do patrono do delenda Levy, ao convencer-se de que a posição do Ministro da Fazenda se tornava cada vez mais insustentável.

             O líder máximo do PT deve estar convicto quanto à respectiva tese de ganhar eleições com a esquerda e de governar com a direita. Se analisarmos o comportamento de Lula desde 2002, data de sua eleição para a presidência, as suas posições provocaram os piores índices economico-financeiros, índices tais que seriam posteriormente corrigidos por Palocci e mudaram deveras a imagem de Lula, até que, com a saída de Palocci e a entrada de Guido Mantega as coisas  fossem piorando novamente.

             Agora o proceder de Lula se enquadraria no seu modelo duplo anterior, que se poderia traduzir pelo dito ganha as eleições com a esquerda e governa com a direita.

             De qualquer forma, a ascendência de Lula como chefe-máximo volta a níveis precedentes, em termos de submissão de Dilma. Nesse sentido, o ex-presidente barrou a entrada  do Ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, na reunião que se propunha discutir a posição do governo na matéria. Este teve de submeter-se ao ukase de Lula, que não quis saber de Barbosa opinando na mesa redonda.

              Por outro lado, vale a pena repetir o que escreveu Miriam Leitão na sua coluna:  "Ontem o ex-presidente voltou a Brasília para dar novas orientações a Dilma sobre como conduzir a economia. Não é necessário: ela sabe errar por ela mesma."

 

A dança de Del Nero

 

           A precipitada fuga de Del Nero de Zurich - quando José Maria Marin foi detido para ser extraditado para os Estados Unidos - já era mensagem não tão críptica quanto a precária situação do paredro, à vista do Ministério da Justiça dos Estados Unidos.

            Essa realidade se confirmaria a contrario sensu pelas pontuais recusas do dirigente - então já como virtual sucessor de Marin - de acompanhar a seleção em deslocamentos para o exterior, assim como negar-se a participar de qualquer reunião em terra estrangeira.

            Tal súbita fobia do senhor Del Nero só poderia acirrar as eventuais suspeitas. Licenciando-se da CBF, terá ele pensado que reduziria o controle e diminuiria a suspicácia?  É claro que não. Fala-se que ele estaria preparando a respectiva sucessão por alguém de sua confiança.

              Em tudo isso, mesmo no Brasil, em que o governo procura aparentar que não é com ele a gestão do futebol, devemos ter presente que para tudo há um limite. Isso de resto terá sido sentido pelo Senador Romário, que convocou o evasivo Del Nero para  sessão de sua Comissão de Inquérito.

              Há muito tempo que se sabe de grossas irregularidades na Confederação competente para tratar-se do esporte em que éramos preponderantes (escrevo do período anterior ao vexame do 7x1 em Minas Gerais) e merecíamos respeito.  Depois daquela infausta data, e da atitude apática de Felipão, o técnico brasileiro, sequer tentando redespertar o time para que reagisse no campo e no futebol contra o vexame histórico e a pública, penosa humilhação, que lhe estava sendo alegre e profusamente infligida, tem-se a impressão de que regredimos no campo e fora dele.

             Não que os nossos paredros - excluído Paulo Machado de Carvalho e pouquíssimos outros - tenham tido comportamento que fosse de maneira a que pudéssemos admirá-los.  Dado o afastamento dos governos, a CBD teria ficado com a impressão de que poderia fazer o que bem entendesse - o que aliás, pelo registro agora das falcatruas cometidas a impressão tende a reforçar-se, aproximando-se da convicção.

            Esse desgoverno de dona Dilma, que até Ministro para o Esporte tem, deveria mostrar mais atitude e mais respeito com os dirigentes da CBF, porque eles de alguma forma representam o Brasil, sendo o nosso país o que é em termos de manancial de jogadores, eis que tantos atletas abandonam a cidadania brasileira, naturalizando-se em "n" países para tentar a sorte nas respectivas seleções. Nesse sentido, non sò se è vero peró è ben trovato (não sei se é verdade, mas está bem imaginado) que a FIFA terá criado regras que impeçam que outras seleções tenham mais de um brasileiro naturalizado no time respectivo... Por isso, esse senhor ministro do esporte deveria tratar da questão de forma que se procedesse a entregar a direção da CBF à pessoas de folha corrida com bons serviços ao esporte, e em especial uma ficha ilibada, no Brasil e no exterior.  Nós que já tivemos Paulo Machado de Carvalho a honrar a nossa Confederação, o que impede de que encontremos gente digna e com ótima fé de ofício?

( Fontes:  O Globo, colunas de Merval Pereira e de Miriam Leitão; Folha de S. Paulo; site de O Globo )

A Crise política na Venezuela


                                         
        Não foi por certo o acaso  que determinou a impugnação de quatro deputados oposicionistas na nova Assembléia Nacional da Venezuela.  Sem a supermaioria de dois terços (112 em 167 cadeiras) a Assembléia não disporia de amplas prerrogativas para legislar e fiscalizar outros poderes da República. Dentre tais poderes, está a possibilidade de destituir altos funcionários e reformar a Constituição, para abreviar o mandato de Maduro.

        Dado o calamitoso estado da economia e a sólida, inatacável (in)competência do ex-caminhoneiro Maduro no exercício da Presidência, não se carece de ser nenhum Nostradamus para prever a próxima queda do sucessor de Hugo Chávez, que, por grande maioria popular, é havido como o principal responsável pela monumental bagunça em que se acha a economia venezuelana.

        Tampouco é necessário dispor de poder divinatório para ser assaltado por mais que uma dúvida quanto às reais motivações desse raio em céu sereno que é produzido por Judiciário notoriamente controlado pelas instâncias do chavismo ou do madurismo, se reconhecermos a já considerável influência do Presidente Nicolás Maduro na situação da Venezuela.

         Que coincidência miraculosa esta a da impugnação de quatro deputados da coalizão opositora MUD (Mesa da Unidade Democrática), acusados de compra de voto por decisão do Tribunal Superior de Justiça, que acatou ação do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), para suspender o resultado das urnas no Estado de Amazonas. A mesma resolução igualmente afetou a eleição de um deputado do PSUV, que tampouco foi juramentado.

          Assinale-se que, por ação de estranhíssima coincidência, a resolução do Tribunal favoreceria o PSUV de Maduro! Sem os tais quatro deputados, a MUD não teria a maioria de dois terços (112 em 167 cadeiras) que lhe  confere amplas prerrogativas para destituir altos funcionários e reformar a Constituição, inclusive abreviando o mandato de Maduro.

          Caso o que aparenta ser um golpezinho do Judiciário muy amigo do chavismo vier a ser mantido, a oposição terá menos poderes. Só na metade final do mandato do Presidente Maduro poderia ser então convocado o referendo revogatório, o que já começa a correr a partir de fevereiro próximo, quando se inicia a metade final do mandato deste presidente (não há impeachment na Venezuela). Tenha-se, de resto, presente que em tempos mais tranquilos, o caudilho Hugo Chávez logrou sobreviver a dois referendos revocatórios.

         No seu discurso de posse, o novo Presidente da Assembléia Nacional, Henry Ramos Allup, deixou meridianamente claro que a Mesa da Unidade Democrática (vale dizer, a Oposição unida) usará de todos os mecanismos possíveis para derrubar "de forma constitucional" o governo Maduro.

        No crescendo de ameaças, com que o PSUV deseja inviabilizar o domínio legislativo da MUD - logrado após 17 anos de poder hegemônico chavista - a bancada madurista fez saber que irá denunciar a oposição por desacato à decisão judicial, e anunciou, outrossim, que poderá  deixar de reconhecer a legitimidade do Parlamento.

       Diosdado Cabello, deputado reeleito do PSUV, entregou o cargo de Presidente da Assembléia (eis que não mais dispunha de  dócil maioria para mantê-lo) e prometeu acionar o TSJ para denunciar a medida. Não se deve esquecer que 17 anos não passam em vão. Por ora, os chavistas dispõem de dócil, esmagadora maioria nos tribunais. Semelha natural para o chavismo que a atual Justiça - que se pauta pela docilidade ao Poder político do Chavismo - se torne mais do que um braço do Executivo (o que, por ora, já é).

      Seguindo na escalada de uma descabelada e ilegal reação contra a maioria da MUD, Cabello (sem trocadilho)  pediu ao governo de Maduro, que corte verbas ao Legislativo e ignore decisões da  Assembléia.

       Essa estratégia é perigosa, e ameaça sobretudo o chavismo.  Durante a Revolução Francesa, o poder real tentara ignorar as determinações da Assembleia Nacional.  Com o apoio popular, os defensores do Ancien Régime (antigo regime) nada lograram de positivo, aumentando de resto as manifestações pró-Assembleia revolucionária.

       Ainda na mesma linha de desrespeito à maioria eleita pelo Povo,  Cabello - que está habituado a ditar posições e não a negociá-las, à conta da cômoda maioria de que dispunha - declarou: "Essas pessoas não são deputadas neste momento... Ninguém vai dar a mínima para as leis que saírem desta Assembléia Nacional. São nulas (sic)" E como se tal não bastasse, segundo ele,  as leis aprovadas pela MUD não serão publicadas no Diário Oficial.

       O Chavismo - ou o Madurismo, porque custa crer que Hugo Chávez fosse tão canhestro a adentrar a linha ditatorial e ilegal antecipada por Diosdado Cabello, que deve estar nervoso, porque sobre ele pesam outras graves acusações, que  o fazem temer sobremodo pela Justiça estadunidense...

       Por fim, um vídeo recém-gravado pela oposição está causando furor nas redes sociais da Guatemala. No filme, Ramos Allup surge instruindo funcionários a eliminar todos os retratos  de Hugo Chávez Frias (período presidencial 1999-2013) e símbolos chavistas da sede do Parlamento venezuelano: "Levem essa coisas para Miraflores (o palácio presidencial), mas aqui, nada !"

 

( Fonte: Folha de S. Paulo )

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

As lágrimas do Presidente


                                                
          Diante da cena do Chefe da Nação americana com os olhos marejados em cerimônia pública em salão da Casa Branca, a própria imprensa estadunidense  descobriu-se desconcertada com o quadro.

         Não há nada mais especificado e ordenado que solenidade em sala aonde se realiza audiência pública do Senhor Presidente. É trabalho a um tempo rotineiro, mas com presenças especialmente convidadas, jornalistas e público selecionado.

         Na grande democracia americana, Barack Hussein Obama é o primeiro afro-americano a ser eleito, e o quadragésimo-quarto na série presidencial. George Washington seria o primeiro  Presidente, empossado em 1789.

            Quando foi eleito por unanimidade, os Estados Unidos da América, eram ainda nação relativamente pequena, eis que reunia as treze colônias formadoras da União Americana. Um longo caminho tem sido percorrido por essa Nação, dentro da norma constitucional até hoje vigente - o que decerto é incomum diante de outros países em que as Cartas magnas podem ter vida curta.  O segredo talvez da Carta de Filadelfia foi o de cingir-se a princípios e normas genéricas, evitando a minudência de outras, que pelas suas próprias características e a facilidade com que são emendadas, tendem a envelhecer depressa.

            A  democracia americana já atravessou momentos difíceis, mas não há registro de quebra da Carta Magna. A maior democracia do Planeta tem enfrentado crises, mas ao contrário das restantes, não há golpes a registrar. Desafios do porte da guerra civil, encontraram em Abraham Lincoln a grande personalidade para conduzi-los nessa sua maior provação. E ela foi vencida, e seu general Robert Edward Lee rendeu-se, dentro da lei.

             Barack Obama, um presidente de dois mandatos (depois de Franklin D. Roosevelt foi emendada a Constituição para que só fosse possível uma única reeleição, sem qualquer exceção) é o primeiro mandatário afro-americano, e também o primeiro a enfrentar o declínio do poder estadunidense, por causa da guerra irresponsável de George W. Bush provocada pelas inexistentes armas de destruição em massa (WMD) tão a gosto da camarilha dos neoconservadores e do vice-presidente Dick Cheney. A única superpotência se dessangraria em bilhões de dólares nessa expedição para derrubar o tirano Saddam Hussein, e para implantar a democracia no Médio Oriente.

            Esse desperdício gigantesco deixou muitas feridas e chagas abertas nos Estados Unidos, notadamente nas  suas cidadezinhas internas, marcadas por esvaziamento econômico, em que os galpões desertos se sucedem  nas Main Street que tanto assinalaram a pátria americana. Cunhou-se o nome de decline (declínio) para tal silenciosa ocorrência, que se marca pela diminuição nas atividades das Main Street interioranas que Norman Rockwell desenhara então com as cores dos bons tempos.

            Obama adentrou a Casa Branca ainda jovem e pagaria o preço da relativa inexperiência política, com derrota nas eleições intermediárias de 2010, que ele próprio designaria como shellacking (tunda). A sua grande legislação - a reforma de Wall-Street,  os fundos para que a economia vencesse a Grande Recessão de 2007/08, com a falência do banco Lehman Brothers, o ACA - a Lei da Assistência Médica para todos - só seria possível implementar no primeiro biênio, quando os democratas dispunham de maioria nas duas Casas do Congresso. Em 2010 se instalou o bloqueio em Washington, eis que nenhuma legislação de peso podia mais ser aprovada, com a Câmara de Representantes (deputados) empolgada pelo Partido Republicano. Aliás, o GOP aprendeu depressa a lei, posto que o guerrymander a que recorreu (servindo-se do novo censo) criaria condições para que se tornasse quase impossível quebrar a maioria republicana na Câmara.

              O GOP seria uma dura prova para Obama, a ponto de o lider no Senado dos republicanos ter proclamado como maior objetivo do partido a não-reeleição do 44° Presidente. A paralísia em Washington e o radicalismo do movimento de extrema direita do Tea Party (uma criação dos irmãos petroleiros Koch, desafetos de Obama) tornaria possível até a queda na cotação do Tesouro americano por uma Agência de Classificação de Risco. Como a manobra tinha as marcas digitais do GOP, acabou prejudicando mais a Agência de Wall Street do que a Nação americana, dada a origem sectária da iniciativa.

               O jovem presidente cresceu no exercício de seu primeiro mandato, através do duro aprendizado e da superação dos eventuais erros. Por isso, o líder da minoria Mitch McConnell teve de engolir o segundo mandato de Barack Obama, e a manutenção da maioria democrata no Senado. As baixarias do Tea Party repercutiram a favor de Obama e dos democratas. Se  a Câmara está hoje ainda escandalosamente blindada contra maioria democrata - Nancy Pelosi desde 2010 deixou de ser a Speaker da Câmara, sucedida pelo católico do Ohio, o republicano John Boehner - este último  acaba de ser derrubado pelos ultras, com a eleição para Speaker de Paul Ryan, quem fora o candidato a vice na chapa de Mitt Romney, em  2012.

               Por outro lado, Obama cresce no respeito de seu eleitorado, assim como de uma parte de eleitores normalmente designados como indecisos. 2016 é na prática o seu último ano na presidência, mas apesar de o Partido Democrata haver perdido a maioria também no Senado, com as últimas eleições intermediárias, o 44° presidente está longe de ser um figure head  (mandatário sem poder).

               É a segunda vez que Barack Obama se vale dos decretos (executive action) para contornar o bloqueio do GOP. Lograra na imigração aprovar um projeto de lei no Senado, com apoio de Senadores republicanos importantes, como John McCain, que fora o candidato a presidente perdedor contra Obama em  2008. Representaria importante avanço social, trazendo para a legalidade um grande número de imigrantes ainda hoje ilegais nos States.  A rigidez da Câmara, cuja composição pelas graças do guerrymander não corresponde ao sentir da Nação americana, barrou a progressão dessa lei, que foi escandalosamente engavetada pelos deputados radicais de direita.

              Nesse contexto, Obama tenta contornar a rigidez republicana com o recurso à executive action (decretos), cuja legalidade pode ser contestada nos tribunais. E é o que está ocorrendo, com a reforma migratória parada pelo reacionarismo de direita do Tea Party.

              Contudo, não há campanha em que o Presidente mais se empenhe do que no intento de criar restrições à irresponsável facilidade com que os indivíduos podem legalmente se armar - e que armas têm disponíveis! Com indubitável acerto e apoio de uma parte da Sociedade Civil, Barack Obama se tem empenhado com grande vigor para restringir a demagógica e nada responsável (em termos de controles) legislação que permite a farra na compra de toda a espécie de armamento.

                Fundado na dúbia legalidade de uma disposição constitucional - o direito de formar milícias armadas, que é um resíduo do período pós-colonial, em que o americano carecia de armas de fogos para proteger a respectiva fazendola ou outra propriedade das incursões dos temíveis peles vermelhas (de que os melancólicos e restantes sobreviventes estão hoje vivendo em reservas bastante isoladas dos grandes centros, sendo muita vez vítimas do alcoolismo e de outras afecções) - o Partido Republicano ( e uma parcela dos Democratas, diga-se a bem da verdade) se opõem com inaudita rigidez e firmeza à inserção de controles na Lei Americana, com vistas a estabelecer limitações de bom senso a esse frenesi armamentista.

                 Nem mesmo o massacre de San Bernardino, na Califórnia, perpetrado por  casal muçulmano contra inocentes membros de uma Clínica de Paternidade Responsável foi bastante para demover os membros do GOP a introduzir qualquer emenda ao direito sagrado do cidadão americano - ou residente nos EUA - de servir-se das armas de alto calibre e letalidade.

                  A negativa dos republicanos (e de uma parte de democratas) de sequer considerar emendas sensatas e moderadas a esse sagrado direito de matar, que é ritualmente defendido sob pretexto de ser um direito constitucional, vai constituindo uma atitude que pelas suas características e pela sua disposição infensa à qualquer mudança, mesmo perante horríveis massacres perpetrados por indivíduos instáveis, como em Connecticut, e em tantos outros estados americanos,  tudo isso agregado leva necessariamente a suspeitar que há boa parcela de irresponsável demagogia, que não trepida em brincar (literalmente) com fogo nesse país, mesmo sob golpes pesados como é a sucessão de massacres por arma de fogo pelos desequilibrados de plantão.

                   Chega a falta de bom senso a tais extremos - eis que as negativas ignoram o peso presente e imediato de uma série de massacres, todos eles caracterizados pelo total desequilíbrio de quem perpetra o ato respectivo, muito embora, em muitos casos, bastaria  rápida consulta aos antecedentes do interessado, para em atendimento ao bem público e à incolumidade que se deveria presumir na civilização americana, que o vendedor negasse, por interesse público, disponibilizar a um indivíduo sob suspeito de grave desequilíbrio, a posse de  instrumento letal que nada constrói e só destrói, com as benesses dos notórios demagogos da direita republicana.

                      As lágrimas de Barack Obama - que pensava nas crianças vítimas da fúria assassina de mais um desequilibrado a quem poderia ter sido negada a posse do instrumento, se se atendessem mínimas condições de bom senso.

                      As lágrimas de Obama são a comprovação de uma luta ingente. A mente sã recusa aceitar esse status quo povoado de crianças em necrotérios. Que Nação é essa que se aferra à influência da National Rifle Association e à sua colheita maldita, como se bastasse para autorizar a demência desses senhores a ritual e arcana reivindicação de uma emenda hoje irremediavelmente proscrita. Se valeu para defender, real ou putativamente, das investidas dos pele-vermelhas o colono americano, é mais do que tempo de introduzirmos o bom senso nas salas dos senhores legisladores.

                      As lágrimas de Obama, à vista da Nação americana, gritam mais forte do que todas as vozes dos portadores de arma.  Chorar perante a morte é o último recurso no macabro silêncio da câmara mortuária.

                       As lágrimas de Obama gritam mais alto que os demagogos do GOP. Pobre do Povo que for incapaz de entender o que aqui está em jogo.

 

( Fontes: Profundamente, de Manuel Bandeira; The New York Times; artigos de George Packer, no New Yorker  )

A Encruzilhada Brasil


                      

                  A quem tem olhos para ver e  cabeça para entender, não escapará o que está afinal acontecendo na América Latina. Depois da longa noite do regime militar, da  luta comprida para trazer a alvorada da democracia, surge entre os rivais por adentrar as cálidas, sedosas promessas na alcova do poder o assistencialismo sindical.

                  A vaga populista  passará por  movimento do proletariado, açulado pelos demagogos de plantão, supostamente sem preconceitos quanto aos meios e modos de chegar às instâncias dos meios do poder, se possível sem limites, e se for o caso, com a flexibilidade necessária para concluir arreglos e contubérnios, meros biombos democráticos, de que a seu tempo pensam desfazer-se.

                  A história da América Latina continua triste. Nesse vasto e fértil campo, eles deixam por um tempo arar a lavoura democrática. Dentre os pretendentes à cobiçada alcova, à falta do campeão dos muitos enganos e do certeiro golpe, poderá empolgar a dama de turno do poder aquele que diante dos obstáculos melhor saberá ou envolvê-los, ou superá-los, atendido e sopesado o desafio que se lhe depara.

                 Há três histórias pelo menos nas Américas: ao norte, cresceu o poder anglo-saxônico, que se alargou do Atlântico ao Pacífico, levando de cambulhada os avanços à oriente de Espanha; no meridião, nas Américas do Centro e do Sul, Espanha e Portugal lançaram suas pretensões,  e ali se implantaram os herdeiros de portugueses e espanhóis. Na América do Sul e Central, coube o Pacífico aos descendentes de Castela, com as numerosas culturas indígenas, que decairiam diante dos conquistadores; e no Atlântico, o português, com seu engenho e pertinácia, além do extenso litoral do continente Brasil, avançaria pelas entradas e bandeiras, à cata de ouro e pedras preciosas. Pelos imensos sertões o forte bandeirante, além do intrépido Pedro Teixeira que, em entrada grandiosa, assustaria aos meio-adormecidos súditos de Espanha nas alturas quitenhas.

                Dessarte, no ingente Sul e ao pé do Setentrião, os filhos de Portugal e Espanha criariam as nações respectivas. E ao Brasil, por graça da argúcia lusa, caberia a conquista de uma só Nação, que se estende do Oiapoque ao Chuí. Pelas aleias do governo, coube à fundação luso-brasileira, um país imenso e unido pela força inicial da legitimidade do regime dinástico. Enquanto aos filhos de Espanha e das civilizações maia, asteca, inca e aymará, couberam diversas regiões divididas pela tradição respectivas, e pelas sucessoras repúblicas, o prêmio alcançado pelo sagaz e providente colonizador luso seria o continente-Brasil, que o sangue de Pedro I e a pertinácia dos brasileiros saberia manter unido, no embate das porfias intestinas e nas levantadas cabeças de ocasionais regionalismos.  

                Mas na república brasileira que no lusco-fusco do século dezenove nasceria de um parto imprevisto, pela mão de um militar que organizaria a quartelada do quinze de novembro - e que estadista argentino deploraria como o passamento da "última república americana” - nas vascas da agonia da mais longa ditadura castrense que nos coube no imenso latifúndio de Latino America, repontaria  a cabeça do assistencialismo, encimado com as letras do Partido dos Trabalhadores.

                 O PT, jacobino sem sabê-lo,  foi anunciado com o abraço da intelligentsia e a bênção de corrente igrejeira. Pretendia falar pela voz de jovem dirigente sindical - que já tivera o batismo do cárcere - e foi por isso saudado com o antegozo de conquistas futuras. O nascente petismo prezava os gestos de efeito, como quando se recusou a assinar a Constituição de 5 de outubro de 1988, a Constituição Cidadã. A sua bancada era então diminuta, mas em postura que repetiria no futuro, negou-se a subscrever a Carta Magna. A facilidade com que enjeitava a nossa alforria democrática refletia um zelo que mais tarde se desfaria, quando o seu líder e a pequena bancada lograriam ser introduzidos, a posteriori, entre os subscritores que haviam na devida data, com a tinta ainda úmida do compromisso assumido, após a longa noite da ditadura militar.

                 O Brasil progredirá mais no bom caminho, quando os gestos valerão por si mesmo. É muito fácil dar-se ares de zeloso e intransigente, negando-se a firmar documento que correspondera ao desejo da Nação, para depois da noite do jeitinho, pedir a alforria de uma escusa, e firmar a Carta, como se nada fora, quando a jogada do zelo intransigente fora cercada pela indiferença geral. Quem nega apoio na hora do perigo e da decisão, está decerto intitulado a exibir a sua intolerância de princípio, mas não tem direito a vir depois adentrar os signatários da primeira hora, como se o vazio gesto da recusa fosse apenas para a arquibancada. Quando o Brasil deixar de ser a terra do jeitinho teremos avançado em termos de responsabilidade e de respeito aos nossos concidadãos.

                 A demagogia desses regimes, filhos ilegítimos do poder sindicalista e da corrupção, atravessa, graças à crise do chavismo, um momento difícil, que esperemos, pela felicidade de Latino-América, possa conduzir à vitória da democracia.

                 Na Venezuela, aquele povo sofrido - qual não é nessa América Latina? - votou plebiscitariamente por dar enorme maioria à oposição na Assembleia Nacional.  Maduro, esse caricatural caudilho, que arremeda o primeiro homem-forte daquele país, Hugo Chávez Frias,  tenta valer-se de seus serviços ilegais de segurança para arrochar de novo o poder.

                 No Brasil, o petismo, dentre os seus muitos crimes, está a entrega do Itamaraty a oportunistas e aos seus supostos intelectuais, como Marco Aurélio Garcia Lograram fazer, com ministros fracos, muita vez apenas máscaras de proa, que a diplomacia brasileira se adulterasse em uma versão sindicalista.  O que os militares tiveram a sabedoria de manter - como carreira de estado sabiam que não era inteligente intrometer-se na diplomacia de Rio Branco - o PT de Lula e, pior ainda, com Dilma Rousseff - que rebaixou a Casa do Barão (a mais baixa verba entre os 39 ministérios do regime petista) a funções lamentáveis, como aliar-se a Putin na conquista da Crimeia, abstendo-se na Recomendação da Assembleia Geral, no que contrariou a nossa Constituição (que proíbe guerra de conquista).

                  Ao abraçarmos o sindicalismo à outrance do PT,  e a cair nesses enormes déficits,  crianças abandonadas pela incompetência de Dilma, o Brasil com o governo petista está no mesmo plano dos ditadores Rafael Correa (Equador), Evo Morales (Bolívia) e até há pouco Cristina Kirchner.  O povo argentino recusou o peronismo, ao eleger o democrata Macri.

                  No Equador e na Bolívia, o braço do homem forte - que se eterniza em reeleições sucessivas - está aí, como mais um avatar da ditadura sindical.

                  Essa noite da demagogia do poder sindical cujas teias se estendem à Justiça e a um ambiente em que se cultua o medo como gerenciador de condutas, se apresenta tanto na Nicarágua sandinista, no Equador de Márquez, na Bolívia de Morales, assim como e  a fortiori no corrupto desgoverno de Maduro. O seu emproado Diosdado Cabello já não é mais presidente da Assembléia Nacional, e ele teme pela sua entrega à Justiça Americana, para que explique o que tem a ver com o Narco-tráfico.

                Já o incrível Maduro construíu a sua própria cova. Não podendo mais, como era costume chavista, estufar as urnas, no lusco-fusco das eleições (porque até mesmo as populações das favelas se recusam a permitir esse truque comum nos países árabes e africanos, com que se debocha das maiorias que condenam os desmandos dos ditadores),  se a aliança democrática que assumiu a direção da Assembleia Nacional tiver juízo o fim do chavismo está escrito naquela enorme parede que a História mantém sob os seus cuidados desde que Baltazar leu o mene tekel nas paredes da própria derradeira orgia.

                 Começa a soar a hora de que o Brasil não mais achincalhe sua gente, seu governo e  sua diplomacia com um regime que abre as portas para a inflação, e que pensa cavalgar a corrupção.

                 O Brasil, a começar pela própria antiga diplomacia, tem muito a orgulhar-se. Vamos fechar esse parêntese que só nos tem trazido inflação, corrupção e tráfico de influência. Pela sua condição, o regime petista a tudo corrompe.

                 O Brasil é grande demais para sucumbir às tentações de imitações rasteiras.

                 Vamos ter governo com capital maiúscula. Não carecemos de imitar regimes que só trazem a fraude, tanto nas eleições trucadas, quanto nos contubérnios com a mala vita e a corrupção.

 

( Fontes:  O Globo, Folha de S. Paulo )  

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

PIF PAF


                                              

 Obama e a força do lobby das armas

           Em audiência hoje na Casa Branca, um emotivo Barack Obama, na presença de parente de vítima dos regulares anunciou a firma de decretos executivos, para tentar coibir esse estulto mercadejar com armas moderníssimas, dotadas de grande poder letal. Diante da oposição do Congresso, que defende o direito constitucional de portar armas como algo quase sagrado, o Presidente - que não tem maioria nem na Câmara, nem no Senado - se vê obrigado a recorrer à ação executiva (decreto), que tem alcance legislativo muito mais restrito. Os tiroteios, os massacres como o infligido recentemente por dois cidadãos americanos de origem árabe sem qualquer outro motivo que o radicalismo do ISIS - que mataram mais de duas dezenas de pessoas pela simples circunstância de que são americanos e não professam o credo de Maomé. Nesse contexto, semelha difícil entender porque o GOP, sob o pretexto do direito constitucional de portar armas,  continue a defender que não se introduza qualquer limitação ao suposto direito dos americanos de armar-se, inclusive com armas de grande poder letal.           

           Através de decretos executivos - dada a manifesta inviabilidade de as medidas serem aprovadas pelo Congresso americano - Obama tenta colocar alguns empecilhos à compra de armas. Embora a imprensa declare que os resultados não terão grande efeito, creio que a ação do Presidente é meritória, porque dentro das circunstâncias, é a única providência que de algum modo trará algum empecilho à aquisição insana de armas.

           O mais impressionante é que, por mais grave que seja o eventual episódio de matança por arma de fogo - e a sua frequência já seria motivo de legislação mais severa - o efeito que os recorrentes morticínios podem acarretar tende para zero na sua possibilidade de que os legisladores afinal se compenetrem de que o presente regime de armas é irresponsável, antiético e imoral. É uma espécie de cegueira coletiva do legislador, que teria por premissa  o direito do povo americano às armas, como consta na Constituição (que é do tempo das milícias para combater as tribus indígenas, na época numerosas). Depois de sua regular matança, os indígenas restantes vivem em tristes reservas, geralmente em áreas de difícil acesso.  

 

 Ainda sobre o triplex no Guarajá

 
           Desde algum tempo,  constava que o suntuoso triplex nos últimos andares de prédio reformado pela OAS, estaria destinado a Lula da Silva e aos seus filhos.

           Testemunhas ouvidas pelo Ministério Público de São Paulo afirmaram que apenas o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus parentes foram visitar as obras de  apartamento triplex no Guarujá, reformado pela construtora OAS por R$ 700 mil.

           Segundo reportagem do jornal "Folha de S. Paulo" foram ouvidos engenheiros ligados a OAS, funcionários do prédio - como o zelador José Afonso Pinheiro - e de empresas subcontratadas para a obra. O MP investiga se a OAS favoreceu Lula ao reservar o apartamento para a família dele.

          De acordo, outrossim, com declarações do referido zelador aos promotores, foi dito que durante a reforma Lula e sua  mulher, Maria Letícia, estiveram no apartamento duas vezes. A coisa chegava ao requinte de que, em dias de visita, a OAS limpava e decorava o condomínio com 'arranjos florais'.

          Sempre consoante o zelador, nenhuma outra pessoa visitou o imóvel, nem mesmo um corretor. Nesse contexto, um funcionário da OAS  orientou o empregado a não falar da ligação de parentes de Lula com o triplex.

          Para a família do ex-presidente tudo acabaria, vale dizer o seu interesse de ficar com o triplex na beira da praia, não numa quarta-feira de cinzas, como sucede com o tríduo momesco, mas por causa do furo da Folha de S.Paulo, seguido por O Globo e outros jornais quando estourou na imprensa o filão das reportagens sobre o imóvel, e a consequente publicação por toda a imprensa de pormenorizadas reportagens sobre  o imóvel que seria, mas não foi ,doado à família do ex-presidente Luiz Inacio Lula da Silva.

 
Outra  Falsa Promessa de Dilma Rousseff

 
              No início de outubro último, pressionada por déficit de R$ 30,5 bilhões (previsto na ocasião para o orçamento de 2016), Dilma anunciou com estardalhaço uma reforma administrativa  que previa  reduções de salário, de ministérios, de secretaria especiais e de cargos comissionados.

               Como é usual, o desejado é apresentado como decidido e, a partir de tal momento, se age como se fora efetivamente implementado.

                 O único problema com esse tipo de evento-programa é que eles apresentam um altíssimo índice de não-efetivação. Lança-se ao público o que se desejaria realizar e, mais tarde, diante das óbvias dificuldades (resistência de burocracia, má-vontade dos ministros, ameaças consequentes, e por aí afora), o que ocorre habitualmente é que a tal reforma,  para todos os efeitos, dá chabu.

                Veja-se o que ocorreu com a promessa da Presidenta:

                 Nenhum ministério foi extinto.

                 Das 30 secretárias marcadas para morrer, apenas sete foram extintas.

                 Dos três mil cargos comissionados, apenas 346 foram suprimidos.

                 Então, dos R$ 200 milhões de corte, na verdade  a reforma podou apenas R$ 16,1 milhões.

                 Também a Rousseff prometeu cortar na carne o salário próprio, o do Vice e dos Ministros: até o momento não há qualquer redução.

             

( Fonte: O  Globo )

Fios Soltos ?


                                             

         Há dois fios principais que na evolução da crise política brasileira poderão vir a ligar-se, com as eventuais consequências que visitam as conexões acidentais ou não  desse tipo de vetores elétricos de carga disruptiva.

          Por enquanto, eles correm separados. Ambos são falados, e ambos têm ameaçadora potencialidade, no que concerne ao presente estamento sob domínio (ainda que precarizado) petista.

          O mais falado atualmente se reporta ao processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Como governante, em seu primeiro mandato, foi ela pior do que um macaco em loja de louças. Pois essa alimária, que consta ser nosso antepassado, se deixado solto em entreposto de cristais, produzirá estragos, mas sendo irracional, as quebras - numerosas decerto - serão debitadas ao acaso. Já no caso de quem se intitula presidenta não foi bem assim, porque ela se arrogava muitas ideias e projetos, que produziram enorme e triste confusão na seara economico-financeira. Melhor seria que acreditasse entender menos da disciplina economica, e que fosse cercada de gente com mais caráter e personalidade. Como nenhuma dessas condicionantes terá vingado, esta senhora resolveu faltar com a verdade para encobrir o próprio legado, o que só foi possível pelo torniquete petista que conseguiu emudecer o direito de resposta. Dilma mentiu, e muito, mas a conta só foi apresentada ao eleitorado depois da eleição.

           Daí, a generalizada revolta do povão, que admite quase tudo, menos ser enganado com o cinismo e a arrogância verificados no processo.

           O senhor chefe da Casa Civil, ex-governador Jaques Wagner, tem desenvoltura e personalidade, como já assinalei alhures. Sobressair ao antecessor não é tarefa hercúlea, tal a fraqueza do Ministro Mercadante. Dada a sua imagem anterior, fica-se na dúvida se a eclipse foi acidental. De qualquer maneira, apesar do tamanho da maioria - eleita pelo Governo petista - essa construção, sem bases sólidas, iria esboroar-se prontamente, como se viu na eleição do Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e na série de pontuais derrotas no Ajuste Fiscal do pobre Ministro da Fazenda Joaquim Levy, um grande funcionário de estado[1] perdido no mar de sargaços da demagogia e da falta de pulso do Planalto.

             Falara acima em dois fios, ambos soltos e não recapados.  O segundo - como o leitor arguto já terá intuído - é a investigação da operação Lava-Jato (e seus eventuais filhotes) e a atuação serena, firme e coerente do Juiz Sérgio Moro, na Vara de Curitiba.

             A justiça costuma avançar lentamente, porque ela não se alimenta de colheitas ao deus-dará, mas a um trabalho abrangente, coerente e firme, como têm sido os interrogatórios e os julgamentos do Juiz competente, que vai de forma gradual e sucessiva armando esse gigantesco quebra-cabeças, que fora adrede espalhado e confundido pelas empreiteiras e seus até então intocáveis e inatacáveis dirigentes, assim como por inúmeros 'comissários' do petismo, que tinham no rosto afivelada a velha máscara da impunidade, como ora pululam os exemplos daqueles que demoraram para cair na real, e dar-se conta de que a drummondiana festa acabara.

              O ministério público costuma realizar seus interrogatórios além da imprensa. Já a P.F. cujas ações tantos sobressaltos trazem a poderosos do antanho-próximo, e que sequer podem tirar do gogó o clássico "sabe com quem está falando?", porque o pior no caso para o réu ou testemunha é que o agente tudo sabe sobre o interrogado, e que essa velha ameaça já não cola mais.

              Os processos atuais ganharam o aporte da chamada delação premiada, a que Dilma Rousseff, perguntada em plagas americanas, tentou desmerecer com uma interpretação que me pareceu, pela sua aparente obtusidade, apelar para uma sovada saída pelos delatores na história colonial (Claudio Manuel da Costa e até figuras inda mais sombrias como o Calabar), o que dá dor no pescoço de quem ouve - como dizia Lord Altrincham da voz esganiçada da jovem rainha Elizabeth. Porque a delação premiada leva o cúmplice a entregar o corrupto petista (ou de outro partido), assim como o voto aberto nas cassações acabou com o fenômeno Jaqueline Roriz (pegada entesourando dinheiro da Viúva ela não foi cassada da Câmara, porque então o voto era secreto...).  Que alguém venha a confundir alhos com bugalhos, como foi aí o caso de Dilma Rousseff, ou é burrice, ou é má-fé.

             Os interrogatórios, com a pachorra própria desta Senhora vendada, prosseguem. Essa ferramenta adicional, conhecida há muito na terra de Tio Sam, agora vai abrindo cofres e sobretudo mentes de delinquentes instrumentais que, através da moeda da verdade - e com doses ocasionais de soro de galo - podem reduzir as próprias penas, e não mais ficar com o pato entalado na garganta, como soía acontecer com os poderosos de turno.

              Há gente poderosa que vive os transes próprios de quem pensara fosse a impunidade uma cláusula pétrea escondida na nossa Constituição. Não há jurista, no entanto, por mais safo e escorregadio que seja, que possa lobrigar, no articulado da Cidadã seja o artigo, o parágrafo ou o inciso em que se encontre. Por isso, a impunidade semelhava escrita em algum canto dos manuais a que os leguleios podem acaso acenar a artigos que abrem aras e arcas de atingíveis alturas de automática anistia?

              Hoje, no entanto, os poderosos - seja os que já foram, seja os que podem voltar a ser - constituem esse tipo de fio não-recapado, que alguns funcionários e até autoridades hesitam em questionar e em interrogar com a liberdade concedida à autoridade pública. Pensarão acaso nos azares (e acasos da sorte) que são caprichosos e, por vezes, inopinados e até surpreendentes?

               Por isso, o juiz Moro pode surpreender - e sempre de forma favorável - com a sua serena aplicação da Justiça,  a quem não assusta o contraditório. Que ele seja admirado, e aplaudido como se dizia antigamente do Oiapoque ao Chuí não há, portanto de espantar.

               E é por isso também que outros tremem com a perspectiva de uma visita da Lava-Jato, porque não desconhecerão que às perguntas se seguirão outras, e que não se poderá excluir o contraditório, e nem assertivas vazias serão aceitáveis, valendo por respostas plenas. Afinal - e nisso o Juiz Sérgio Moro desempenha igualmente bem o próprio trabalho - o respeito é da essência do processo, tornando-se portanto as mesuras  dispensáveis se o interrogatório parte da curul do juiz.

 

( Fontes:  O Globo, Folha de S. Paulo; Carlos Drummond de Andrade )



[1] grand commis d'État, no modelo francês.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Putin: nova investida diplomática


 
           De Vladimir V. Putin, se pode dizer muitas coisas, mas não que lhe falte tenacidade (ou obstinação - que é a mesma característica, mas sem os atavios dos cortesãos à volta).

            Faz tempo a New York Review publicou artigo em que se ocupa da doutrina supostamente abraçada por gospodin Prezidént. Trata-se de uma composição a chamada doutrina eurasiana, que com elementos de pensadores da Direita (nazismo) e da Esquerda, nos apresenta o que o entorno de Putin quer fazer passar por maneira de ver própria das motivações de sua presidência.

            Não se pode negar que Putin é autêntico patriota - a princípio, funcionário categorizado na sede de Dresden (então República Democrática Alemã) do KGB. Sofreu bastante na fase terminal do governo de Mikhail Gorbatchev, quando o princípio das nacionalidades, desatado pelas forças da Peristroika e da Glasnost, desmantelava na prática o Império Soviético.

            E foi com mágoa no coração que ele queimou parte dos arquivos da Agência de Dresden, diante da audácia crescente dos alemães do leste, antes submissos diante dos representantes do serviço secreto soviético.

            A trajetória de Putin se assinala por grandes mergulhos em que pensa encontrar forças - e em geral as depara - para superar os desafios à sua suposta predestinação para restaurar, senão na integridade, pelo menos em boa parte, o antigo status da União Soviética.

            Na sua doutrina eurasiana - com os aportes supra-referidos - se deve vislumbrar um instrumento flexível, mas empregado de forma resoluta para levar à antiga grandeza da Rússia dos Tzares e da própria URSS no cenário mundial.

            Desde que na virada do século, assumiu o poder, que foi cedido mais pelo entorno oligárquico do que pelo próprio Boris Ieltsin, o que tem sido visto pela intelligentsia russa como um desastre.

            Como de resto se verifica nas obras significativas de duas mulheres - i.e., Masha Gessen, pela sua passagem (anos de aprendizado) como vice-prefeito em São Petersburgo, em que com o homem de frente Dmitri Medvedev ele forma o seu círculo de apoio, que inclui o ocasional recurso à mala vita; e mais adiante, em retrato sem retoques do livro "A cleptocracia de Putin" uma análise corajosa e precisa da formação do respectivo círculo de poder, pesquisado, aprofundado e preparado pela professora universitária americana  Karen Dawisha.

            É amarga ironia que o círculo de oligarcas do entorno de Ieltsin, diante da decadência física dessa personalidade, e da consequente (e para eles inquietante) forte baixa na popularidade, optou por entregar o governo de todas as  Rússias (pelo menos aquelas que sobraram à catástrofe Gorbachev) a um gerarca do KGB, com um turvo passado como vice-prefeito em São Petersburgo.

            Além da queda dos oligarcas, desapareceram os ares democráticos da agitada presidência Ieltsin. Mas não é aqui o lugar para refazer essa trajetória. Em resumo, a democracia, imperfeita mas real, sob Ieltsin, passou a ser roída pela turma do KGB, com o grupo de Putin à frente.

              Hoje, na Federação Russa se afirma um novo Tzar (embora o chamem de Presidente), com a Duma e o Senado com maiorias governistas. A antiga liberdade nos órgãos de comunicação agora se acha sob controle do Kremlin.  Há mortes estranhas, como a do Deputado e ex-Ministro Boris Nemtsov, que preparava, ao ser executado por um contract-killer, um comício pró-Ucrânia (no modelo russo que vem abatendo tantos personagens incômodos, como a jornalista Anna Politkovskaya, que se assinalara em reportagens corajosas sobre a guerra-colonial da Tchetchênia e foi abatida no saguão do modesto edifício onde morava), esse formato costuma ser o mesmo, o que tende a dificultar ainda mais a identificação dos mandantes.

             A menção da Ucrânia vem a propósito. A expedição contra a Criméia e a palhaçada encenada - tropas descaracterizadas, como se fora necessário divisas russas em seus uniformes, para desvelar segredo de Polichinelo. Putin terá subestimado a reação do Ocidente. Não contava com a artilharia das sanções certeiras dos cupinchas e bancos do círculo do poder putinesco, empregada por Barack Obama, e com menos intensidade, por Frau Angela Merkel. Continuam de pé sanções sobre voos aéreos de e para a Crimeia, e outros obstáculos, como no uso de cartões de banco. Talvez o nadir da ofensiva de Putin para 'castigar' a  Ucrânia, tenha sido no desastre aéreo da Malaysian Airlines, com a morte de todos os passageiros, abatidos por míssil de fabricação russa.

             No momento, Putin aparece como virtual aliado do Ocidente na sua luta contra o ISIS. Os seus velhos caças, no entanto, também se empenham em fortalecer o poder do cliente Bashar al-Assad. É  filme que ainda não terminou.

             Com o despencar das cotações do petróleo, as finanças russas entraram em área de turbulência, mas o seu Presidente continua a exibir a costumeira arrogância. Esse 'castigo' imposto a Kiev pela derrubada de um presidente pró-Rússia, Viktor Yanukovich pela revolução popular da Praça Maidan, ,  ainda não se sabe como vai evoluir, embora a atitude de Frau Merkel não tem configurado uma aliada de grande valia para a Ucrânia.  Este último país aproveitará ou não o compasso de espera desejado por Putin na guerra de Kiev contra os clientes da Rússia (as chamadas repúblicas separatistas fomentadas pelo Kremlin, em outro avatar da punição ao governo ucraniano ).

              Depois de declarar que a Rússia é agora uma potência continental (excluída, portanto, o cotejo com a URSS superpotência), Obama teve de aceitar a dúbia adesão das forças de Putin na guerra contra o E.I. Os fins do presidente russo passam por Damasco e pelo seu submisso aliado (que lhe tem dado presentes comoventes, como espaço para nova base aeronaval mediterrânea para melhor aproximá-lo das proverbiais águas quentes do Mediterrâneo).

             Será nesse contexto - toda parceria com Vladimir Putin é empresa arriscada, atendidos os objetivos do Senhor do Kremlin. Desde que tomou posse, ele vem estendendo o próprio poder russo na área que é ominosamente denominada de 'o estrangeiro próximo'. A desenvoltura de Moscou é tal nesse particular que há uma legislação paralela relativa aos pequenos países que lindam com o colosso russo. Não é uma posição deveras confortável. Nesse particular, não é demais enfatizar a relevância da Ucrânia. Se Putin, de maneira aberta ou não, lograr impor a Kiev a mesma sorte da Abkhazia do Sul, Geórgia e congêneres, não será uma perda apenas para os pobres ucranianos (já penalizados pela derrubada do presidente pró-Rússia Viktor), mas como muito bem assinalou George Soros, esse avanço do urso russo será desenvolvimento ominoso e inquietante para a União Européia, e para certos grandes países (como a Polônia, v.g.) que serão relembrados de forma demasiado manifesta de o que significa ter uma Rússia em processo de reconstituição como sua vizinha.

                Se a anexação manu militari da península da Crimeia recebeu apenas um puxão de orelha das Nações Unidas (eis que a Assembléia Geral, ao contrário do Conselho de Segurança, só pode emitir recomendações e nunca resoluções), não é demais relembrar que por decisão da Presidente Dilma Rousseff o pobre Itamaraty teve de abster-se na Recomendação. Com isso, ela infringiu a própria constituição, que proíbe ao Brasil guerras de conquista.

                Para nosso vergonha, prevaleceu por ora o rudimentar e confuso conhecimento diplomático da Rousseff.

                Agora, o ambicioso Vladimir Putin - que não mais quer aguentar as capitis deminutio de um país que não é mais super-potência - faz circular estranho e veleitário documento, no qual o bom Putin desnuda a sua não-pequena ambição, a par do desejo irrefreável de voltar a circular nos clubes do poder, como era a sua posição anterior quando foi expulso do G-8. Leiam essa jóia - que não se assemelha àqueles trabalhos de ouriversaria, os Ovos Fabergé, em que os grão-duques e o próprio Czar dispensavam bom dinheiro:

                " A Rússia está interessada na construção de uma parceria de pleno direito com os EUA, baseada em interesses comuns, incluindo os econômicos, tendo em vista a influência das relações russo-americanas sobre a situação internacional como um todo."

                Já diziam os nossos maiores que "pretensão e água benta" não enchem barriga, nem criam situações reais e concretas.

                Mais uma vez Putin mostra - e não só no seu histrionismo - a sua semelhança com Benito Mussolini, que agia com a teatralidade que é inegável talento do povo itálico. Mas não se deve, lá como cá, confundir postura e arrogância, com a concretude do poder.

               Nesse campo, quer se queira ou não, há presenças mais marcantes e mais bem firmadas, em termos de realidades e potencialidades. Como o Império do Meio, por exemplo.

 

( Fontes: The New York Review, Putin's Kleptocracy, de Karen Dawisha, and The Man without a Face, de Masha Gessen ).