segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Ônibus: mais aumento na passagem!


                                    

           Sem cobertura na imprensa, o infeliz usuário do transporte coletivo no Rio de Janeiro topou nesta segunda-feira, com mais um aumento nas passagens. Concedido em silêncio pela administração Eduardo Paes, os concessionários deste péssimo serviço ao carioca impõem uma alta de quarenta centavos nos bilhetes para o transporte metropolitano.

          Rio de Janeiro, a dita Cidade Maravilhosa, tem maltratado singularmente os usuários desse transporte. Se o senhor Prefeito e sua claque deles se servissem - o que é a regra em muitos países - eles sentiriam mais de perto a  maneira brutal com que a indiferença por qualquer respeito a condições mínimas de  conforto é escrachada diante de passageiros sem escolha.

         A antiga Cidade Maravilhosa vem ficando mais quente a cada verão. Mais do que surpreender, revolta que o número de ônibus com ar condicionado continue ridiculamente baixo.

          Passar de quarenta minutos a mais de uma hora em  veículo em que a temperatura ambiente é ainda mais alta do que a da rua não é um acaso para o carioca.

          Que se venha onerar ainda mais o usuário, para repetir a expressão, mais do que uma besteira, é uma violência contra esse público que tem de utilizar ônibus em estado deficiente de conservação, e ainda por cima transformados em verdadeiras saunas rodantes.

           É imoral e antiético que a Prefeitura do Senhor Paes, tão preocupado com os seus lances publicitários (tipo Paes, o taxista simpático, ou Paes, o anfitrião olímpico) não encontre tempo para corrigir uma jogada deplorável e tão desconfortável para o passageiro - obrigado pelo trabalho diário a servir-se desses sonoros calhambeques que constituem a maior parte da frota do transporte coletivo no Rio -  do que forçá-lo a atravessar e muita vez ficar parado no trânsito, como agora é comum na Lagoa, dentro de condições de temperatura (acentuada pela costumeira superlotação) que não são compatíveis com uma administração que se quer moderna.

           Qual a razão de deixar os   ônibus climatizados em um número ridículo, o que caracteriza o tokenismo [1](estão aí para inglês ver), quando deveriam ser a regra. Nesse aspecto, grita aos céus a necessidade de modernizar a frota dos ônibus, hoje  coleção de calhambeques,  saunas  que tornam os longos trajetos, em que a ZN, o ponto de embarque dos coletivos, está bastante afastada do Centro e da Zona Sul, aonde desembarcam os usuários.

           Agora ao invés de uma atualização no conforto e no respeito ao seu público, o serviço de ônibus, essa concessão da municipalidade, chega mais cara ao usuário, com o mesmo velho e cínico desconforto, enquanto em São Paulo o Senhor Fernando Haddad, do PT - e ele pensa reeleger-se! - também aumenta o transporte coletivo.

           Onde estás, espírito das passeatas de junho de 2013, que não mais te vejo?

 

( Fonte: Folha de S. Paulo _



[1] Palavra de origem inglesa, que reflete a tentativa de iludir o usuário com o emprego esporádico de um recurso, para dar-lhe a impressão de que o parcial seria, a realidade, quando, na verdade, não passa de uma exceção à regra do desserviço habitual..

Crise entre Irã e Arábia Saudita


                     

        É  bela lenda da História que, com a passagem de ano, se vira a página e tudo tem o recomeço da Esperança. A coisa fica decerto mais complicada se os países - como o Irã e a Arábia Saudita - se pautam por outro calendário, e não estão nem aí para as comemorações do Ocidente do transcurso entre 31 de dezembro e o 1° do ano, que assinalam a feérica comemoração do Ano Novo, com suas rituais esperanças. Para quem já viveu - e a serviço - em terra islãmica, a noite entre 31 e Primeiro de Janeiro é silenciosa e lúgubre, eis que as comemorações espoucam muito longe e só são captadas por quem tenha tevê com ligação por satélite com o circuito de Elizabeth Arden.

       Enfrentam-se no Médio Oriente dois pesos pesados do mundo islâmico. Ryadh, capital da Arábia, é a metrópole do sunismo, o tronco e corrente ortodoxa do islamismo. Por sua vez, Teerã - e máxime no regime dos ayatollahs - reponta como o centro da heterodoxia xiita.

       A sua coexistência nunca foi fácil, e os movimentos políticos se regulam pelas pregações dos mullahs (líderes na oração) nas mesquitas respectivas, jamais esquecendo que o adversário - quando não o inimigo - se encontra nos perenes embates entre o sunnah, de que Meca é a sede, e o Xia, de que o regime iraniano é o principal campeão.

        Compreende-se, assim, as razões imediatas e mediatas dessa nova crise em terras  do Islam (que, com certa ironia, significa submissão). O conservadorismo wahabita da dinastia de Ryadh se choca, amiúde, com a corrente - para eles herética - do Xia, que se origina de um descendente do Profeta que, afastado da sucessão, originou a dissidência na religião muçulmana.

         Dada a importância da mesquita no mundo islâmico, as alianças se formam precipuamente sob a direção do credo respectivo, e por isso as relações políticas são decorrência do fato de seguirem seja o Sunna, seja o Xia.

         A oposição entre Ryadh e Teerã entrou em fase de ebulição com a prisão e posterior execução de um clérigo xiita, Sheikh Nimr al-Nimr, que se assinalava por pregações havidas como subversivas pelo estamento conservador de Ryadh. 

         Com essa escalada, houve protestos de rua em Teerã e posterior invasão da missão diplomática da Arábia Saudita. Diante do desrespeito das normas da Convenção de Viena, que regula as relações diplomáticas e o caráter exterritorial das missões diplomáticas e consulares, não há de surpreender que Ryadh tenha rompido relações diplomáticas com Teerã, como significou o Ministro saudita do Exterior, Adel al-Jubeir.

          A crise diplomática no mundo islâmico terá prováveis consequências sobretudo nas guerras civis na Síria e no Yemen.

        Preocupado com os desenvolvimentos eventuais dessa crise, de sua casa em Idaho, nesse domingo, o Secretário de Estado John Kerry falou com o Ministro do Exterior do Irã,  Mohammed Javad Zarif.

        Tal é um desenvolvimento positivo das longas negociações para o acordo nuclear das principais potências com o Irã, e as boas relações entre os dois ministros. Embora o conteúdo não tenha sido revelado, o telefonema é um claro esforço para que os iranianos não agravem mais  a situação através de retaliações.

         A delicadeza da questão, no entanto, é enorme e as potencialidades de piora nesse difícil relacionamento não podem ser excluídas. Com a intervenção americana no Iraque - um óbvio passo em falso de Washington, sob a inexperiência de George W. Bush - e o surgimento da Primavera Árabe, com vários levantes no mundo islâmico, e a consequente oportunidade de ambas as Partes brincarem com fogo na busca do incremento da própria influência na região.

          Dessarte, as duas potências islâmicas ficaram em lados opostos em várias conflagrações: no Bahrein, sede de base da frota americana, a Arábia Saudita enviou tanques para respaldar a dinastia sunita que está no poder em um país de maioria xiita; na Síria, Teerã tem bancado o ditador alauíta Bashar al-Assad, enquanto Ryadh apóia os rebeldes sunitas (incluída a al-Nusrah, ligada a al-Qaida) que desejam derrubá-lo; e no Yemen, vizinho dos Sauditas, o regime de Ryadh se empenha em guerra aérea contra os rebeldes Houthi, que são xiitas.

            Como acentua o despacho do New York Times, ainda está atravessado na garganta de Teerã o tratamento dado à corrida em massa (stampede) durante a peregrinação sagrada do hajj (que o muçulmano deve cumprir pelo menos uma vez na vida) à kaaba, local santo para todos os islamitas. Em setembro último, quando da vinda em massa dos peregrinos, desagradou à Teerã o tratamento dado pelos guardas de Ryadh, com cerca de 2400 peregrinos mortos, dos quais mais de 450 iranianos.

             A causa imediata da crise foi a execução no sábado último do xeque Nimr, que discursara apelando para a derrubada da família real saudita, e que atuava  como líder espiritual da minoria xiita do Reino. Embora o governo de Teerã não tenha impedido a invasão da Embaixada, e a sua depredação (a força policial só interveio mais tarde), e o Presidente do Irã Hassan Rouhani (abaixo apenas do Aytollah Khamenej) tenha condenado  a execução, mas observou que os ataques contra a missão saudita na capital e o seu consulado em Mashad atingem a reputação do Irã (em termos do respeito devido à exterritorialidade diplomática) : "Não permitimos que grupos de fora-da-lei (rogue) cometam ações ilegais e prejudiquem a santa reputação da República Islâmica do Teerã.

            Provocou consternação nos meios das Nações Unidas a execução do Xeque Nimr e os outros homens (na verdade uma execução em massa) "por juízos que levantam sérias preocupações quanto à natureza das acusações e a objetividade do processo". Por sua vez, a União Européia citou questões similares quanto à "liberdade de expressão e o respeito a direitos básicos, tanto civis, quanto políticos."

 

( Fonte:  The New York Times )

domingo, 3 de janeiro de 2016

Colcha de Retalhos D 1

             

A África do Norte e o Jihad

 
               Cresce e se intensifica a cooperação entre os movimentos jihadistas no Norte da África. Nesse sentido, o general David M. Rodriguez, que está à frente do Comando estadunidense para a África, advertiu em declaração para o Congresso em março último da "existência de uma larga rede, cuja coesão aumenta com afiliados e aderentes do Al Qaida" que "continua a valer-se de regiões africanas subgovernadas e de fronteiras porosas para treinamento e condução de ataques".

               Meses antes do ataque de 20 de novembro último, contra o Hotel Radisson Blu, que matou, pelo menos,  19 pessoas, em Bamako, na Capital do Mali, já se alertara sobre a atividade de "terroristas com filiações  a múltiplos grupos" que "estão expandindo a sua colaboração tanto no recrutamento e financiamento, quanto em treinamento e operações, seja dentro da África, seja de forma transregional".

               Tal transferência de conhecimentos técnicos pode ser observada no aumento dos bombardeiros suicidas (ou homens/mulheres bomba) na Líbia, Tunísia e Chade, e no incrementado emprego dos i.e.d.s  (artifícios improvisados explosivos) no Mali, que, como se sabe, surgiram na segunda fase da guerra do Iraque, com o emprego intensivo desses mortíferos artefatos pelos rebeldes islamitas contra o Exército americano (cujos veículos não dispunham então de blindagem adequada). Para o Pentágono a guerra seria breve.

                Há varias formas e modalidades nessas alianças de circunstância, em que os grupos mudam de forma, e por vezes se unem, ficando sob a asa  de chefes mais poderosos e distantes.

                 Nesse contexto, verificou-se a reunião - depois de cisma bastante difundido - entre os grupos norte-africanos do Al Qaeda e do Al-Mourabitoun.  Esses grupos atuam no Magreb, i.e.  o Norte da África, incluindo Marrocos, Argélia e Tunísia. A sua primeira anunciada operação foi a já citada do Hotel Bamako.

                Os chefes dos dois grupos - Abdelmalek Droukdel e Mokhtar Belmokhtar, ambos argelinos -  segundo assinala a matéria do New York Times têm lealdades que se estenderiam além da África.

                Como se sabe, a sublevação de grupos radicais islâmicos na Argélia, começara nos anos finais do século passado, e como os recentes ataques contra refinarias no Saara o demonstram, continuam bastante vivos e com extensa rede de alianças.

                Também na Tunísia, os ataques contra estrangeiros e turistas continuam. O líder do Ansar al-Shariah, Seifallah Ben Hassine, seria responsável pelo massacre de 38 pessoas (turistas na maioria) em centro praieiro turístico em junho último, e do ataque ao Museu Bardo em Túnis, em março último, com a morte de outras vinte e duas pessoas.

                 Os dois argelinos e o tunisiano são veteranos do Afeganistão nos anos oitenta, durante os quais no combate ao invasor russo se realizou o macabro treinamento de tais futuros terroristas - como aqueles que voltaram para a Argélia e estabeleceram rede de extermínio sobretudo no interior desse vasto país norte-africano.

                  Os três homens, antes leais a Osama bin Laden, mantêm a sua professa lealdade para o presente líder do Al-Qaida, Ayman al-Zawahri, que tem igualmente  base no Paquistão, como o seu antecessor que foi morto pelos comandos da Marinha americana.

                  Como se verifica, parte não-negligenciável da atividade terrorista desses grupos é de atacar o turismo - sobretudo na Tunísia - e os museus de nomeada, como o Bardo, em Túnis. O escopo precípuo de tais investidas contra turistas nas praias da Tunísia - na Argélia, não há praias turísticas - assim como contra entidades culturais tem a fria objetividade de quem deseja abalar  bases e rendas desse país magrebino, o que deu início com o auto-sacrifício de um vendedor ambulante à revolução da Primavera Árabe, que tirou de seus pedestais os ditadores da Tunísia, da Líbia e do Egito.

                   A Primavera Árabe - que desencadearia também a insurreição e posteriormente a guerra contra Bashar al-Assad, na Síria - se é apresentada como movimento malogrado, dada a força de seu simbolismo se me afigura mais uma extensa vaga que tem derrubado ou enfraquecido vários ditadores. No entanto, só um tolo poderia imaginar que terras, como a argelina, submetidas há longos anos à aliança entre as forças armadas e a corrupção, poderiam ser presa fácil para as legiões libertárias. São vagas imensas essas que percorrem o Magreb, a África Subsaárica e a dita Arábia felix. A democracia virá mas, infelizmente, ela não se implanta sem muito sangue e luta, e não só contra os ditadores de plantão, mas tambem contra roubocratas que infestam a África negra.

                   Droukdel, cujo bando foi desbaratado no Mali em 2013, está escondido nas montanhas do  desértico sul da Argélia. Por sua vez, Belmokhtar e ben Hassine estão homiziados na Líbia - que, nos dias que correm, infelizmente é viveiro de terroristas e de chefes de facções armadas, defronte de um governo impotente e ineficaz (forte candidato a estado-fracassado).

                   A França mantém na África negra laços de cooperação com cinco paises vulneráveis  - Mauritânia, Mali, Níger, Burkina Faso e Chade. Se foi cortado o laço colonial, persiste a presença das forças francesas como barreira contra a subversão dos grupos guerrilheiros islâmicos.  É um esforço ponderável do Estado francês, haja vista os ataques sofridos por outros grupos, como a operação do Bataclã.  Nessa área do Sahel e do próprio Saara, a presença francesa se traduz em caminhões de 30 toneladas, com suprimentos de combustível e alimentos, acompanhados por veículos blindados com canhões de 80 mm e um caminhão médico.

                     A presença do Ocidente não se restringe apenas à França.  As Forças de Operações Especiais estadunidenses atuam no Níger, bem como agora nos Camarões (batalhão com trezentos homens) para defender o regime legal contra o Boko Haram, que se infiltrou no país vindo da Nigéria.

                     O trabalho principal do Ocidente é o de quebrar as comunicações e as linhas de fornecimento do contrabando e do terrorismo, que provêm da Líbia, a qual virou, após a queda do ditador Kadafi uma espécie de entreposto  terrorista.

                     Tampouco é por acaso que o exército francês patrulhe essas linhas de comunicação dos jihadistas com a Líbia.  A rota do contrabando de armas e droga vem do sul da Líbia, que as forças francesas consideram como enorme 'autoestrada' (os gauleses gostam muito de sua rede de autoestradas) para abastecer-se nesse 'super-mercado' para armas.

                 Esta estrada atravessa regiões que testam a capacidade humana de sobrevivência. São áreas desérticas remotas e sem qualquer vestígio de implantação humana, com insuportável calor no verão e despojadas de poços e quaisquer cursos d'água, em ambiente lunar, excetuada a insuportável canícula. E, sem embargo de tais obstáculos, pequenos grupos de contrabandistas  tentam atravessá-los várias vezes por semana.

                 Essa operação anti-contrabando e de busca e apreensão, se assemelha segundo o próprio comandante,  o ten.cel. Étienne du Peyroux, a missão no oceano. A área de operações é de quarenta mil km2, do tamanho da Holanda, para os trezentos homens da dita missão.

                Outras comparações que vem à mente são as das forças da Legião Estrangeira, que atravessava os imensos espaços do Saara, nos seus vários avatares - seja o rochoso, seja o arenoso.

                Malgrado os esforços, os militares franceses raramente logram apreender um comboio contrabandista.  No entanto, as suas operações provocam graves transtornos nos movimentos dos jihadistas (a última apreensão foi em junho de 2015).

                 As possibilidades de êxito são muito fracas. O chamado terrorismo tem crescido na África e muito por causa da corrupção generalizada dos regimes, e do caos relativo produzido por tais condições, que, no entendimento do coordenador do comitê que monitora a atuação da Al-Qaida "levam sempre ao terrorismo".

                 O que mais preocupa é a atração que tais condições fornecem à vinda de combatentes terroristas estrangeiros, sempre com a marca da Al Qaida. O Norte Africano e o Sahel é área com a extensão dos Estados Unidos. A sua vulnerabilidade é evidente, fundada na pobreza das populações, nos estados fracos, em que prevalecem as eleições trucadas. A base da propaganda está pré-feita, dada a sua enorme vulnerabilidade, a indigência de grande parte da população  (que a torna campo fértil para a pregação islamista).

                   A corrupção abrangente, as eleições trucadas apontam para a extensão da presença da al-Qaida e as crescentes possibilidades de formação de Estados islâmicos.

                   O Boko-Haram é um gritante exemplo disso. A insurgência dura há seis anos, matou dezessete mil pessoas e deslocou mais de um milhão.  No entanto, o Boko-Haram e seu líder, Abubakar Shekau, receberam substancial aporte do Al-Qaida a partir de 2010, e se reforçou em consequência. Sob tal influência, o  Boko-Haram, em 2015, aderiu à fórmula do Estado  Islâmico.  Desde o ano passado, ele se estende ao Chad, Camarões e Niger.

                    O compromisso francês - que se comparado a outros países é muito maior, se atendidas as bases respectivas de recrutamento - tem levado suas forças também ao norte, de onde contemplam o imenso espaço arenoso que separa tais frágeis países ao presente entreposto do terrorismo islâmico, i.e., a Líbia.  A raiz do problema estaria em boa parte nesse desértico e igualmente imenso  país, hoje transformado em  quase terra de ninguém, dominada pelos grupos que derrubaram Kaddafi e implantaram o chamado caos, que muito tem favorecido o desenvolvimento de laços humanos com o continente europeu (a ver a perigosa travessia do Mediterrâneo em barcos disfuncionais, que muito rendem para os traficantes dessa carne humana).

                       A pobreza, miséria e consequente ignorância são as parteiras da corrupção e não só em África. Há muitos países envolvidos na criação de rede de sustentação militar desses estados em torno do Sahel, em que a praga da corrupção se alarga. Em seu entorno - que é gigantesco, como o referido artigo apenas esboça - progridem de forma mais do que preocupante a al-Qaida e as suas concorrentes (como o novo bicho na floresta, o ISIS), que em muitos casos se multiplicam como se fossem verdadeiras franquias da receita islamista. A África negra, com o al-Shabab sediado em uma Somália que vive bem-obrigada como Estado fracassado (desde a última década do século vinte), trazendo para a pós-modernidade o constrangedor desafio de um núcleo da pirataria, modelo de governança que já atazanava os cônsules romanos do final da República, com os conhecidos piratas da Cilícia...

                       Ao ver a corrupção em África, com os seus laços envolventes - que são encontradiços, oh! surpresa, com visitas de dignitários de diversos países, inclusive de Pindorama - e em certas estranhas práticas, como o perdão de empréstimos tomados pelos gerarcas africanos até mesmo no dílmico Brasil (com o nosso questionável perdão de divida de ditador corrupto africano) não serve só de contraponto a essa luta ingente contra a invasão da África subsaárica pelas franquias do mal.

                       Deveria também forçar uma luta mais pontual e incisiva contra a corrupção e os desmandos (V. o presidente do Sudão, que escapa regularmente do encontro com o Tribunal Penal Internacional, graças às conivências de tantos outros governantes africanos) e não apenas essas heróicas expedições de militares ocidentais, que intentam secar esse imenso e pútrido lago da corrupção.

                        Seria mais fácil de acreditar no real empenho do Ocidente em desmantelar essas franquias do mal, se a corrupção institucional - de que Mobutu seria a entidade protetora, dados os seus íntimos laços com o mesmo Ocidente - fosse atacada com real firmeza pelos demais países. Não ignoro que há muitas quintas-coluna (como antigamente se dizia) nesta força do bem.

                        Com menos hipocrisia e mais firmeza, se daria apoio muito mais forte à ingente luta contra as forças bem-intencionadas, mas com objetivos malignos, ao invés de recorrer a essas patéticas expedições de dedicados militares a cruzarem um dos espaços mais inóspitos do planeta Terra.

                        E não é que com um pequeno passo se encetaria o comovente embate entre o Bem e o Mal?  Continuar-se-á a lutar contra sombras, como dizem ser prática em Java, enquanto se continua a sangrar o continente africano (entre outros)? E como fazer definhar as franquias do Mal, com as suas leis de talião e respectiva hipocrisia, se não começamos a escorraçá-los de suas bases. Principiemos a brincadeira mandando para a Haia no TPI os bandidos com altos coturnos. Depois se pensa nos outros, enquanto a raia miúda pode afinal respirar e viver como gente.

 

A Crise no Cofre carioca

 

                        A Terra da Cuccagna (a mítica paragem em que tudo está à disposição de todos) não existe só na imaginação italiana.

                         O nosso governador Pezão terá pensado que o petróleo poderia continuar a representar a fonte paratributária especial para o Rio de Janeiro. O pobre Sérgio Cabral muito sofreu com as invasões de privacidade e saíu do poder com certa antecipação, acossado talvez pelas armadas das passeatas (geradas por outras, em junho de 2013). Soaram então os primeiros epicédios pela morte prematura do regime petista. Nesse sentido, muitos dos gerarcas do petismo agem como aqueles corpos que andam, pensando estar numa realidade, quando na verdade as coisas mudaram, com prisões e visitas da P.F. com lanterna na cara). Não sei se trocar idéias com lábios protegidos por dedos solícitos - como parece ser o hábito das duas maiores divindades do pavilhão que aqui se instalou desde 2003 - não traduziria um defeito horrível de comunicação, ou melhor de falta de.

                       Mas voltemos ao governador Pezão, que de chapéu estendido corre de Seca em Meca, à cata de créditos salvadores. Dona Dilma até que ajudaria, mas a sua situação é penosa mesmo, e, em consequência, milagres não podem ser feitos. Outras colunistas ora se lembram de que seria melhor fazer fundos de contingência. Mas desde Pindorama que vivemos assim, com falta de planejamento e poupança, debaixo do letreiro "Deus proverá".

                        O que me intriga é que não será de hoje que despencou a cotação do barril de petróleo. Baltazar se assustou quando viu na parede de o que seria a derradeira orgia, o aviso da chegada do cobrador-assírio pela manhã.

                         Já dizia o frade medieval Roger Bacon - no tempo em que toda a Europa era católica - que "conhecimento é poder".

                         É estranho que saber já disponível nas trevas da Idade Média - quando a energia era braçal ou animal, e a luz, a trêmula flama da branca vela - tenha sido descurado.

                         Recordo-me das estórias que enaltecem a formiga e denigrem a cigarra. Mas como se vêem muito mais estas do que aquelas por essas bandas, o que se há de fazer  dentre os parâmetros bastante flácidos das previsões, que se acreditam até da lavra desse inseto voador e zoeiro tão adaptado ao ethos do carioca?

 
( Fontes:  The New York Times; O  Globo ) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

A visão de Jaques Wagner


                                
          Se fossem remédio, as afirmações do novo Chefe da Casa Civil de Dilma Rousseff, o ex-governador da Bahia Jaques Wagner, deveriam trazer um bem visível letreiro - a manipular com cuidado.

           Depois da abúlica pasmaceira da gestão do amigo (de Dilma) Aloizio Mercadante, que sabia manter o aplomb[1] mesmo quando a Casa parecia ameaçar desabamento,  o Senhor Wagner não tem papas na língua, e projeta senão a certeza, pelo menos a forte impressão de que a insegura presidenta das Pedaladas está agora ladeada por alguém, que se mede as palavras, deve servir-se de instrumentos bastante rústicos.

            Assim, os incríveis déficits do Dilma I foram tratados com largas e francas palavras - o governo errou. É óbvio que Wagner aparenta segurança e  desenvoltura que não deve encontrar similares entre aqueles que se movimentam no conturbado cenário da iracunda Presidente.

            Pelo visto, este novo animal na dílmica floresta pode ser interpretado como o oposto de o que a opinião pública estava acostumada a observar. Como político que é, Wagner esbanja franqueza e segurança. Nesse entorno planaltino, de onde no passado se deparava um deserto de atores com presença, e ignavo entorno, para quem o silêncio é de ouro. Se necessário, neste palco de medo e quase mutismo, será sempre preferível o comunicado anódino, em que se refugia o medo da responsabilidade.

            Tementes das broncas grosseiras e da chuva de palavrões, suas excelências e eventuais assessores preferiam transformar-se - se desejavam dormir tranquilos para o dia seguinte - em taciturnos aspones. É uma espécie animal muito comum nos atapetados corredores do poder brasílico. E diga-se de paso, com Dilma, o seu crescimento foi exponencial.

             A franqueza de Wagner pode valer por indicativa do fenômeno seguinte: a segurança do Chefe da Casa Civil, que nos surpreende com assertivas francas. Com isso, ele sintoniza o Planalto com a realidade. Postura de avestruz não é com ele: assim a Folha de hoje põe como manchete da edição: O PT se lambuzou, diz Jaques Wagner, chefe da Casa Civil.  Para ele, o PT errou ao não fazer a reforma política e acabou "reproduzindo metodologias" antigas da política brasileira. Wagner explicaria a corrupção do PT, com o dito "quem nunca comeu melado, quando come se lambuza".

              Será que uma conversa pachorrenta ao pé-do-fogo tudo explica? Em termos de banalização dos 'malfeitos' não há ninguém que se lhe compare. A tática parecia a de, na aparência admitir o fato, para repisar, com linguagem sofisticada (embora dê impressão do contrário) que em Pindorama é assim mesmo. Dessarte, se se fala de Mensalão ou de Petrolão, a toada de Jaques Wagner é de transformar os escândalos das administrações petistas em erros muito comuns a assaltar os inexperientes na política.

                 Em outros termos, é a velha banalização do mal.

                 Wagner exsuda segurança. Assim, consoante refere, sobre o pedido de impeachment da presidente, ele afirma que o governo conseguirá mais que os votos necessários na Câmara: "Nós vamos enterrá-lo."

                  Para o Chefe da Casa Civil, há uma "banalização do processo como recurso eleitoral", um "impeachment tapetão".

                  Como dirão em Brasília, Wagner é um craque.  O problema serão os fatos que estão aí.

                   Em política, não se deve menosprezar os fatos, nem maquiar realidades. Quem age dessa forma, corre o risco de a folhas tantas, voltar-se e encontrar a mesma tropa com que pensou tudo levar de cambulhada.

                   Mesmo para os craques, a verdade tende a repontar sempre, e não será sob fórmulas edulcoradas. Os seguros de si, os confiantes como J. Wagner, podem impressionar o povaréu nos primeiros rounds.

                   A dificuldade está naquela em que carregou a própria aposta. Muita vez, nessas grandes lutas, a campeã pode ser derrubada a nocaute por soco de que ninguém saberá dizer ao certo de onde saiu.

 

( Fontes:  Folha de S. Paulo; Miguel Álvaro Ozório de Almeida - in memoriam )



[1] postura serena, firme na aparência.

sábado, 2 de janeiro de 2016

A Presidenta e o Mercosul


                                            

           O  Mercosul surgiu como promessa, mas pelas suas regras  tem sido mais um estorvo para a ampliação do intercâmbio com outros grandes blocos, do que propriamente um ativador de correntes comerciais.

           No seu interior  está igualmente um país que nunca deveria ter entrado. Houve quebra da regra da unanimidade. Urdida por Dilma Rousseff, ou seu acólito petista, mais pareceu manobra reminiscente dos tempos das estórias londrinas de cloak and dagger (manteau e punhal).

           Na cínica truculência de usar a moto-niveladora da suposta cláusula democrática - o impeachment do presidente em funções - foi o pretexto para suspender um dos membros fundadores do Tratado de Assunção, o que, em expediente canhestro em que uma aliança de países se declarou mais igual que o Paraguai com o escopo de quase manu militari meter à força a Venezuela, então de Hugo Chávez, na organização para a qual vinha batendo à porta desde muito.

           É difícil saber para o que a Sra. Rousseff serve. Como presidenta, como gosta de ser chamada, devo reconhecer que pretende ser comandante de  nau sem rumo. Pelas trapalhadas na economia forçou até o Super-Ministro Jaques Wagner a admitir que foi o governo o responsável pelos déficits e as pedaladas.

            Se a sua incômoda presença e ordens de gastança adoidada obrigam o ex-governador da Bahia a reconhecer, em mal disfarçada admissão daquilo que todos sabem - i.e., que a sua precipitação fazendária, ajudada pela dupla de saltimbancos Mantega & Augustin, criou a maior crise econômica em Pindorama, com este pobre país roçando até a inaudita depressão - eis que, à vista do festival de calinadas, todas elas para o maior bem do Povão, me dei conta de que a explicação de tantas trapalhadas, de tantos exemplos de como Primeiro Mandatário da Nação não deve agir, está no nome que ela própria se dá, e que é docemente constrangido goela abaixo e adentro de seus áulicos no Palácio do Planalto e adjacências.

            Pois ela não inventou esse senhor solecismo que é o vocábulo Presidenta ?

             Está tudo aí, minha gente! O que esperar se pode  de quem conjumina tal sonoro bestialógico com que, na própria proverbial delicadeza e escorreita linguagem, ela resolveu marcar presença na História do Brasil!

             Para isso, só cabe um estentórico  Olá !  

A questão dos Refugiados



          Michael Ignatieff,   professor universitário e articulista em The New York Review, escreveu em novembro último - e teve publicado com destaque pela aludida revista  - um seminal artigo sobre 'os Refugiados e a Nova Guerra'.

          Essa 'nova guerra' a que ele se reporta é o conflito na Síria que se arrasta há cinco anos, com consideráveis prejuízos e, sobretudo, perdas humanas entre os infelizes habitantes sob o tirano Bashar al-Assad.

          Enquanto o Ocidente e, em especial, Barack Obama preferiu na época negar armamentos aos sírios sublevados, Bashar teve os prognósticos de sobrevida política estendidos por especiais cortesias do Irã xiita - que não quer perder o apoio alauíta no seu permanente conflito com o Islã sunita, do também xiita Hezbollah, que é agente de Teerã. Tampouco, escafedeu-se do quadro o autocrata russo Vladimir Putin. Escorraçado dos conciliábulos das grandes potências, gospodin Putin continuou com as suas oportunas transfusões de soro, aeronaves e armamento para o ameaçado ditador de Damasco. Este último é talvez a última vítima da primavera árabe, só que Sua Excelência constitui vida política demasiado preciosa para que os seus aliados ideológicos e de oportunidade permitam que siga a trilha de Kadafi ou Mubarak.  Nesse contexto, máximo líder de o que Obama definiu como poder regional, Putin  poderia ser catedrático da matéria "como fazer o que bem entendo" e tempos mais tarde retornar ao círculo dos grandes, como se nada houvera. De qualquer forma, na cena internacional, logrou deixar na sombra a invadida Ucrânia,  enquanto os expertos  ainda trabalham em determinar  a atual ideologia  (ou postura) do Senhor do Kremlin.

           O Inferno de Dante é demasiado ordenado e os seus demônios bastante cônscios da hierarquia celestial para que cotejar-se  possa- não se falará sequer em comparar-se - com o que o ditador Bashar vem aprontando contra os infelizes que se acham, seja ao alcance de seus caças, seja nas suas próprias - se porventura contestadas por outrem - terras.

            Esse cadinho, alimentado pelos combates entre al-Nusra (parente de al-Qaida) e o preposto do Hezbollah, Hassan Nasrallah, os ataques do chamado Califado do Exército Islâmico, sem esquecer as incursões do bom Bashar que, por meio de sua aviação (que sobrevive graças a Putin)  se diverte em explodir as casas dos infelizes que ainda não fugiram da Síria (além de recorrer a pestilências e a manter bem viva a praga da poliomielite - a qual é julgada útil se direcionada contra os malditos rebeldes).

            Ignatieff começa seu artigo com a seguinte apósita sinalização: "Estrategistas lhe dirão que é um erro lutar em batalha que seus inimigos desejam que lute. Você deve impor-lhes a sua estratégia, e não deixar que eles lhe imponham a deles."  Assim, na argumentação de Ignatieff, o ISIS quer convencer o mundo da indiferença do Ocidente para com o sofrimento dos muçulmanos. Nesses termos, o Ocidente deve demonstrar o oposto.  Por outro lado, enquanto o E.I. deseja arrastar mais fundo a Síria para esse inferno, terminar a conflagração na Síria deve ser a primeira prioridade da Administração Obama, neste seu último ano que ora se inicia.

             Já está em andamento o processo de estabelecer cessar-fogo entre o regime Assad e seus opositores. Nesse sentido os primeiros acordos são assinados entre o Secretário de Estado John Kerry e o Ministro do Exterior Russo, Sergei Lavrov. A guerra na Síria ainda consume papel de imprensa e resta determinar se aproveitam a gospodin Putin tais acordos, eis que o conflito sírio já devorou muitas resmas de papel nas salas do Palais des Nations em Genebra, sem maior significado prático para o andamento das hostilidades.  Chamar Putin de aliado semelha otimismo excessivo. O presidente russo está sobretudo interessado em servir-se da fraqueza do aliado e hoje dependente Bashar al-Assad. Debilidade essa que está sendo posta a uso intensivo pelo bom Putin, como se depreende dos novos espaços abertos para a marinha e a aeronáutica russa no território da atribulada Síria.

             Como frisa Michael Ignatieff,  para que se deslinde a situação favorável ao ISIS. o objetivo  deve ser estabelecer um cessar-fogo entre o regime Assad e as oposições, para que se possa levar à sua conclusão a luta contra o E.I., e assim criar condições reais para que os deslocados sírios possam voltar para casa.                 

            "A destruição do projeto do ISIS de estabelecer um califado não porá fim ao niilismo jihadista, mas será um golpe determinante para a erosão do atrativo ideológico do ISIS."

            Dessarte, como assinala Gilles Kepel, especialista francês no Islã, se o ISIS busca provocar uma guerra civil na França, então o Estado francês não deve apelar para táticas e medidas extremas que lhe farão perder a lealdade de seus cidadãos mais vulneráveis e suscetíveis. Essa oportuna recomendação tática não vale apenas para desmontar a demagogia da líder de extrema-direita Marine Le Pen. Respostas truculentas similares - como a preconizada por outro demagogo, este americano, Donald Trump, líder na corrida para a nomination do GOP para Presidente - devem ser evitadas, pois fazem o jogo do ISIS.

            Como frisa Ignatieff - o seu artigo antecede ao histrionismo de Trump - seria estratégia desastrosa as detenções policiais, sem determinação judicial, deportações em massa, fechamento de fronteiras, interrogatórios no modelo Bush-CIA. No seu entender, campanha bem-sucedida contra o extremismo islâmico deveria aprofundar e não minar o compromisso com liberdade, igualdade e fraternidade entre os cidadãos muçulmanos.

            Ignatieff em seu longo artigo fala da tibieza da reação da administração Obama, mesmo depois da criança de colo síria que apareceu afogada em praia turca. O presidente americano aumentou a quota de refugiados sírios para dez mil, e então para quinze mil, sem satisfazer a ninguém. Na mesma linha de retração,  o governo polonês anunciou que não aceitaria a quota de nove mil refugiados que lhe fora alocada pela União Européia.

             Na Europa, até o momento, a Chanceler Angela Merkel se tem distinguido da geral fraqueza e reticência da posição européia. Ao falar do recuo da Administração Obama, pela mudança nas pesquisas de opinião da postura estadunidense depois do ataque contra o Bataclã,  os Estados Unidos passou a tratar a crise de refugiados na Europa como se fora simplesmente questão da responsabilidade da Chanceler alemã.

             Esta debilidade do governo Obama "é um erro político, assim como um engano moral. Se falha em oferecer um apoio tangível para a Chanceler Merkel pela sua atitude de acolher os refugiados, os Estados Unidos enfraquecem Merkel internamente, e apressam a sua queda." E expressamente assinala:"Ao tomar tão poucos refugiados - cerca de 1854 desde 2012 - enquanto os seus aliados europeus se debatem diante desse dilúvio humanitário, os Estados Unidos estão reforçando o sentimento populista da direita européia em um viés anti-americano, anti-imigratório e populista." Não ajudando a Europa, o presidente Obama dá ensejo a que líderes europeus orientais, como o Primeiro Ministro Viktor Orban se deixe levar para a órbita da Rússia e "disseminar a repugnante ficção de V. Putin de uma Europa Cristã assediada por hordas muçulmanas."

            E as consequências da inação americana, não param aí.  A administração Obama há de partilhar nas condenações, se crescer o poder de demagogos anti-americanos como Marine Le Pen.  Se os americanos podem achar que a crise dos refugiados  não é questão de sua responsabilidade, os europeus começam a ter a impressão contrária, assim como os próprios refugiados.

            Nesse sentido, enfatiza M.Ignatieff  "a fuga humana da Síria é um plebiscito da massa acerca do fracasso  da  política americana e do Ocidente para a Oriente Próximo.  O povo sírio chegou à conclusão de que a guerra por-procuração (proxy war) dos Estados Unidos, da Arábia Saudita e dos Estados do Golfo para derrubar Assad fracassou; que o território sírio será queimado até o litoral mediterrâneo antes que o ditador deixe o país; que a paz não virá antes que seus filhos cresçam; e mesmo que a paz venha não haverá nada a esperá-los em Homs, Kobani e Aleppo.

             E sublinha o articulista: "Os Estados Unidos não podem se dar ao luxo de que o fosso com a Alemanha cresça ainda mais. Os alemães têm boas razões para acreditar que enquanto eles suportam as consequências do colapso da Síria,  são os Estados Unidos que tem responsabilidade pelas causas. Até mesmo o ex-Primeiro Ministro inglês Tony Blair admitiu que o surgimento do ISIS e a desintegração da Síria devem figurar entre as catastróficas consequências da invasão do Iraque pelos EUA em 2003.

             Ignatieff enfatiza, no final de seu artigo, os desafios com que se deparam a Alemanha, os Estados Unidos, a China e a Rússia, entre outros. "Merkel se arrisca a cair se ela não puder demonstrar que tem as fronteiras sob controle".  Assim, "ao invés de estabilizar as sociedades fracassadas (failing societies) a reação dos Estados Unidos  tem sido de tornar mais difícil que os refugiados possam vir a ser admitidos." Nesse sentido, em vista de sucessos anteriores, M.Ignatieff sinaliza que a Administração Obama deveria aceitar o apelo da UNHCR para receber 65 mil refugiados. Se o fluxo de refugiados é de 4.1 milhões, tal seria visto, segundo o autor, como incentivo para outros aliados - Austrália, Nova Zelândia, Brasil, Argentina  - e outros países de imigração de fazerem a sua parte.

              Na sua cruzada de obter mais participantes no círculo de países que venham a  contribuir para dar condições ao programa amplo de admissão de refugiados, dispara Ignatieff: " É tempo para que os EUA venham a expor o blefe da China e da Rússia, também membros permanentes do Conselho de Segurança, e relembrá-los  de que se desejam ser levados a sério como líderes mundiais, eles devem contribuir com o que é por eles devido".

               Ao final, Ignatieff esboça um cenário tétrico, dentro da premissa de que os refugiados colocam tanto um desafio à segurança nacional, quanto crise humanitária.  Assim, se a Europa fecha suas fronteiras, se os estados na linha de frente não podem mais lidar com a situação, os Estados Unidos e o Ocidente terão pela frente milhões de apátridas, que nunca esquecerão que lhes foi denegado o direito de ter direitos.

              Ignatieff considera esta a mais alta prioridade da Administração Obama. O ruído do entorno até o momento pende mais para o silêncio.

              De qualquer forma, o bom senso recomenda prudência e dado o drama enfrentado por essa gigantesca corrente, parece impor-se uma solução que pelo menos torne manejável a crise.  Fazer-se de desentendido não vai resolver a questão.

 

 

(Fontes: Os Refugiados & a Nova Guerra, de Michael Ignatieff - The New York Review, nr. 020, Dante, La Commedia - Inferno )  

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Que fazer do fator Dilma?


                                   
       Chegamos afinal a 2016, e a profusão dos fogos no entorno marítimo de Copacabana nos mostrou duas coisas importantes: que podemos quebrar a monotonia dos anos anteriores, com momentos de especial beleza e, mesmo, originalidade.

       Os dois milhões de pessoas, turistas e locais, responderam com ainda maior entusiasmo, mostrando uma vez mais que o belo, ainda que fugaz, se ainda por cima vestido com os atavios da originalidade - que será sempre ocasional, e, portanto, evitando a monotonia, será sempre bem-vindo.

       A exibição dessa primeira, monumental noite de 2016, nos mostra a estranha relevância do espoucar de fogos de artifício. Para enfeitar - ou disfarçar - as verrugas e os dissabores do dia-a-dia, o passageiro mostra que é também relevante.

        Neste novíssimo ano, que apenas sai dos cueiros da sua já sovada representação, todas as (boas) esperanças são admissíveis.

        Já é mais do que tempo de nos vermos livres desse estranho fator Dilma, que Lula da Silva, com a sua facúndia costumeira, passou ao povo brasileiro desde 2010. Se é triste o reconhecimento objetivo da constrangedora falta de razões fortes e substanciais para que o Povo soberano sufragasse essa candidatura dita oficial, temos de admitir que enquanto subsistirem no Brasil grandes bolsões de pobreza e mesmo de miséria, Pindorama tenderá a ser presa fácil dos caprichos dos coronelões, como Lula da Silva, que a impingiu à maioria dos brasileiros, contra candidato, com fé de ofício imensamente superior.

        Como se vê, não é só no Nordeste e no Norte, onde o assistencialismo desvairado floresce, que os ditos coronelões imperam. A turma do PT, que chegou pela cegueira ou hübris coletiva a formar maioria em nosso Congresso das quartas-feiras, sofreu a circularidade conhecida, passando a acreditar na sua própria desvairada propaganda.

        Que a sociedade civil tenha encontrado na Operação Lava-Jato, e no Juiz Sérgio Moro a manifestação de antes recônditas aspirações - que prevaleça o bem e o jeitinho maldito (que o brasileiro não topa nem nas conduções, nem nas condições do trabalho do dia-a-dia) que vão aos poucos se desfazendo (com a lentidão própria dos arraigados maus-hábitos da turma do sabe com quem está falando?), se não é ainda suficiente, a sua presença e os êxitos acumulados (diretores de empreiteiras na cadeia não era nada comum na terra do sabe com quem está falando?) não são mais indícios esparsos, mas uma corrente do bem que, como os ventos da manhã, dissipam os nevoeiros da dúvida e do cinismo.

         Sob os olhares escarninhos dos profissionais da descrença, sopram os ventos da justiça, gente graúda vai parar em nossos infames presídios - o que por fim fornece dupla razão: que presídios como os de Porto Alegre e do Maranhão desapareçam, para abrirem lugar para cadeias  que não sejam mais avatares da corrupção que jogou os presos nessas enxovias, e que tenhamos Ministros da Justiça que, realmente, sejam instrumentais nesse campo, alocando as dotações necessárias para criar estabelecimentos penais  para todos, e não apenas para o subproletariado do mal.

          Por isso, a despeito de dúbias sentenças que são resultado da inépcia do Congresso (um dos mais bem pagos do mundo, e que só trabalha dois dias se tanto por semana), não creio que a sorte de dona Dilma esteja lançada com os dados de estranhas maiorias, construídas de repente, e na aparência esquecidas da vontade do Povo soberano.

          São tantos os campos em que se acumula, impávida e insolente, a dílmica incompetência que é mais do que tempo para darmos a essa senhora, com o respeito que lhe é devido, menos por suas realizações que são esgarçadas e poucas, do que pelo sentir nacional que a gente brasileira não faz por merecer o desemprego da crise por ela tão dedicada e entusiasticamente construída - com os tijolos mal cozidos da pressa, e com a areia no cimento das construções sem o alicerce da realidade.

           Por uma vez, na terra em que tudo se esquece, tenhamos presente a urgência da missão do Povo brasileiro. Basta de assistencialismos que transformem a miséria de cada dia em fonte de poder. O Brasil, que hoje até na diplomacia - porque delegada a figuras do passado, que ainda pensam em luta de classes e padrões marxistas para os herdeiros do Barão - acumula erros e vexames. Tratemos de dar com todo o respeito o bilhete azul para dona Dilma e, sobretudo, a toda a chusma que em torno dela enxameia, para reconstruirmos um novo Brasil, amparado na seriedade de um povo que trabalha, e no respeito que devemos à Justiça, não aquela amiga do Poder, mas a aberta e sem adjetivos.

            É preciso dar um basta ao PT, a seus líderes (Lula à frente) e à sua atual representante, Dilma Rousseff.  Mas não substituamos seis por meia-dúzia. Se for para eleger alguém do PMDB, o meu candidato é o deputado Jarbas Vasconcelos (PE).

 

( Fontes:  O  Globo, Folha de S. Paulo )