terça-feira, 5 de maio de 2015

Eleições no Reino Unido


                                        
          O antigo bipartidismo inglês – já contestado na última eleição, com a aliança entre conservadores e liberais-democratas – corre o risco de ser desmentido de modo mais fragoroso nos comícios desta quinta-feira, sete de maio.

          O problema com os conservadores começa com o seu líder, David Cameron. Largando antigas bandeiras como participação mais intensa na União Europeia – com sinais nada animadores, mais preocupados com o crescimento de contestações anti-européias – e com perfil algo decepcionante se comparado com outros moradores no passado de Downing Street 10, Cameron mesmo assim lidera.

          No entanto, não logrando congregar alianças em torno do Partido Conservador, ele está politicamente isolado. Os próprios aliados formais, os liberais-democratas de Nick Clegg, avaliam acordo com os trabalhistas e ... o Partido Nacional da Escócia.

          Assim, se os conservadores terão entre 270 e 280 cadeiras no Parlamento, estão longe de alcançar a maioria absoluta para o governo (326 em  um total de 650).

           Os liberais de Clegg, como o parceiro júnior no gabinete atual, não têm mais a força de 2010, e correm risco de sofrerem pesadas perdas. Voltariam, assim, aos patamares históricos do partido, desde que, com o crescimento dos trabalhistas, em princípios do século XX, perderam o anterior espaço, quando alternavam maiorias com os conservadores.  

           Há outro desenvolvimento que pode ser preocupante. Os independentistas escoceses do SNP (Partido Nacional da Escócia) que, após o otimismo inicial quanto ao triunfo no referendo, amargaram inequívoca derrota, poderiam agora, através da votação surpreendente que lhes é prevista nas sondagens retomar a  marcha batida para tentar recriar a velha (e pequena Escócia). Essa fragmentação secessionista dentro da U.E. – de que, na Espanha, a Catalunha  é  o principal exemplo – pode receber forte empurrão se o SNP for na prática o grande vitorioso no pleito da quinta-feira. Tal ocorreria se conseguissem eleger para Westminster cerca de cinquenta dos 59 assentos alocados à Escócia. Como os liderados de Nicola Sturgeon estão mais interessados em desestabilizar o gabinete conservador, a sua eventual participação ao lado dos trabalhistas seria apenas um exercício de oportunismo. Votariam por Ed Miliband, mas não participariam do gabinete. Como aos secessionistas escoceses não interessam governos estáveis no Reino Unido – a que se opõem – a sua aliança com o Labour é vista apenas como instrumento na caminhada pela restauração plena da pátria de Mary Stuart.

                                  O nascimento da Princesa Charlotte        

              Para os rituais prognosticadores do desaparecimento da realeza como instituição política na velha Inglaterra, a atitude de seu povo, ao saudar com entusiasmo mais um nascimento real – desta feita o da princesinha Charlotte -, neste último sábado, como sempre na centenária e provada showmanship da dinastia. É ritual que mantém a própria atualidade,  e, nesse sentido,  continua largamente popular.  Ao vê-lo , não se tem a impressão de que estaríamos vendo antigas formalidades da monarquia. Basta contemplar o jovem e sorridente casal William e Kate Middleton, para que se tenha noção de quão imbricado essas apresentações reais se inserem no dia-a-dia da monarquia, como se verifica na dignidade a um tempo simples e cativante que foi  exibida aos súditos pelo sorridente casal real.

              O jovem matrimônio, com jovialidade e naturalidade, caíu nas graças do povo britânico. Não é muito difícil que isso ocorra, tão entranhada está a monarquia nos costumes dessa peculiar ilha.

             A esse propósito, nos anos cinquenta do século passado, o deposto rei Faruk do Egito, perguntado por repórteres acerca da sobrevivência da monarquia como instituição, disse o que não é exatamente apenas um dito irônico: no futuro haverá cinco reis, os quatro do baralho e o da Inglaterra.

 

( Fonte:  Folha de S. Paulo )

Dengue: isto é Brasil ?


                                        

        A reação do Ministro da Saúde, Arthur Chioro, é tristemente típica da atitude de boa parte das autoridades diante da dengue. Em entrevista à imprensa em São Paulo, tentou a princípio negar que houvesse epidemia no país. Confrontado com os números, acabou confirmando: “Tivemos 745.957 casos até o dia dezoito de abril e sabemos que esse número aumentará. O Brasil vive uma situação de epidemia.”

         Nessa atitude, está encapsulada a reação da população brasileira diante do desafio. Na primeira resposta, a negação da evidência; diante da realidade que a imprensa não ignora, a autoridade a reconhece, ainda que forçada.

          Essa postura de avestruz, não serve a ninguém. Em meio a uma epidemia, essa tentativa de apequenar a ameaça, posterga apenas a sua solução

          Para entender melhor esse fenômeno, tão tristemente brasileiro, que é o de tentar esconder o sol com peneira, repassemos com a rapidez possível os fatos.

          A dengue, que tinha sido eliminada no Brasil no tempo de Juscelino Kubitschek, voltou com força mais tarde. Terá vindo através da Venezuela.  A realidade é que convivemos com o Aedes Aegypti desde o século passado.

          O desleixo e a ignorância da população, a par da ausência da autoridade municipal e estadual, são os grandes fatores para o alastramento dessa perene ameaça.

          Caro leitor, se nunca teve a dengue, pergunte a seu redor, dando preferência aos trabalhadores e empregadas. Essa mini-estatística  o informará acerca da inquietante expansão desse flagelo,mas  não deve, no entanto, tranquiliza-lo. Pois o maldito e rajado mosquitinho não faz exceções. Se o subúrbio e as favelas, pela falta de saneamento básico, concentram os grandes viveiros da praga, ela não se cinge às classes menos favorecidas, pois o danado do mosquito ataca a todos, e é rapidamente fecundado e em condições de fazer o mal, em espaço muito curto de tempo. Só carece de poças d’água, de preferência limpas, e de todas as gretas da incúria para levar a doença e até a morte àqueles que vivem em tais áreas.

           Assim, a falta d’água em São Paulo (capital e interior) funcionou como um cruel inimigo de nossa gente. O poder mandou armazenar água, pela sua frequente falta nas torneiras. As donas de casa e suas eventuais empregadas obedeceram. Só que o mandonismo da autoridade, posto que bem intencionado, esquecera um pormenor: essa água deveria estar coberta, porque sem o saber a boa gente dispunha as condições ideais para a criação dessa peste (que, repita-se, só se forma em águas limpas). Vejam só! De um esforço bem-intencionado, o que se lograva era uma contribuição poderosa para incrementar o maldito mosquito Aedes Aegypti.

            Para combater o flagelo da dengue e para diminuir-lhe os casos (e as mortes), se carece de uma ação sustentada. O fogo de palha, no entanto, parece ser mais veraz quanto à atitude não só da população, mas também no que concerne às autoridades. O nosso defeito é que nos falta  continuidade no empenho. Sob o látego da epidemia – e de suas piores consequências – há uma certa conscientização da população (e dos governos, notadamente o municipal). No entanto, aquela tendência de avestruz (recusar-se, após um primeiro momento, de conscientização pelo medo) que prefere tirá-la da mente, como se isto bastasse para fazê-la desaparecer, paira sempre nos arredores. Arrefecida a ameaça,  pensam deixar a conscientização e o medo para trás, como se a página tivesse sido virada.

              É importante não esquecer que a dengue se espalha por causa do subdesenvolvimento cultural, da falta de capacidade de manter o entorno residencial sem poças e sem espaços para os criadouros infernais. É uma enfermidade, fruto do subdesenvolvimento e do  atraso cultural.

              Também é relevante ter-se presente que precisamos de  uma qualidade que nos falta: a persistência, a atenção ao próprio entorno, a vigilância (que não convive nem deixa conviver com casas fechadas, nem com piscinas não-cloradas), pois o direito à privacidade não se acompanha do direito de propagar o mal, pela própria incúria ou desmazelo.

               A continuidade  e a persistência, além da limpeza, são indispensáveis nessa guerra. De nada serve que a autoridade – seja federal, estadual ou municipal – se encastele na presunção de que escondendo o mal, a sua imagem ganhará com isso. Nada mais cretino e autodestrutivo do que tal atitude.

               Recordemos, portanto, que o flagelo da dengue é o distintivo do subdesenvolvimento, com o seu desleixo e falta de higiene.

               A conscientização das comunidades não deve ser peneirada pela hipocrisia e o preconceito.

               Vejam os países em que a dengue se alça, com as negras raias do Aedes Aegypti, e de outros parasitas menos populares – não haverá distintivo mais façanhudo e desmoralizador para aquelas nações – como o Brasil – que através da corrupção e da ignorância se crêem na senda do desenvolvimento ?  De que serve isso, se a epidemia se alastra, mostrando pelo esgar desdentado  o que  valhe a estatística que não se traduz em qualidade de vida.

 

( Fontes: O Globo, Folha de S. Paulo )   

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Rescaldo do Fim de Semana

                         
 
Candidata republicana

 

                 Carly-Fiorina, que fez nome no mundo empresarial (Hewlett-Packard) lançou-se para disputar a candidatura do GOP. É arqui-conservadora (combate o aborto[1]) e não tem anterior experiência política. A sua esperança é pendurar-se na front-runner (líder na corrida) democrata, Hillary Clinton, e merecer-lhe alguma atenção. Doce ilusão.   

                 Por ora, a respectiva popularidade mal chega aos primeiros dígitos. No pelotão republicano, o dianteiro é  Jeb Bush e, bem mais atrás, entre os conservadores do Tea Party, Ted Cruz e Marco Rubio. Mas os candidatos a candidato tendem a crescer e mesmo inchar, até que, com suas primárias e debates, a campanha presidencial, no ano e meio que tem pela frente, os vá devorando.

 
Preparação para as Olimpíadas?

 
                Segundo noticia a imprensa, neste fim de semana, sete praticantes do mountain bike tiveram as bicicletas roubadas. Assaltantes estavam à espreita em trilhas da Floresta da Tijuca.

                Depois que o Jornal Nacional mostrou o bando de ‘de menores’ que há mais de ano se especializa em infernizar a vida daqueles que têm de ir ao centro da Cidade Maravilhosa, vemos a displicência policial estender-se também às matas.

                Ao invés de desmantelar a rede no centro – pois os de menores se especializam em roubos de cordões de ouro, colares e outros adereços – que pressupõe  base próxima de receptadores,  a PM permite pela ausência e a falta de qualquer operação digna desse nome, que a praga se eternize, para vergonha de seu governo e  revolta crescente de seus cidadãos.

 
Morre Maya Plisetskaya
 

                  Aos oitenta e nove anos de idade morre um ícone do Ballet Bolshoi, a bailarina Maya Plisetskaya.

                  Recordo-me que na década dos anos oitenta (do século passado) ela ainda dançou em espetáculo realizado em Florença. Os admiradores romanos não perderam a oportunidade de vê-la, embora , pela idade,  os seus movimentos não mais tinham a leveza e a técnica que lhe assinalara as apresentações. Mas a graça e o estilo ainda a acompanhavam, o que motivou para muitos a travessia de duas horas e tanto de autoestrada.

 

Vasco, campeão carioca de 2015

 

                  Os campeonatos regionais são hoje uma sombra de o que foram nos passados calendários futebolísticos.  Antes do Roberto Pedrosa e do consequente lançamento de certamens nacionais – que tiveram o mérito de pôr teoricamente no mesmo nível as equipes dos diversos estados – os torneios estaduais eram o indiscutível centro de atenção das torcidas (que costumavam ser civilizadas).

                  Hoje os campeonatos citadinos funcionam mais como preparação para o  Nacional. Os pequenos deles participam de início  (inclusive equipes que antes foram até campeãs, como Bangu, América e São Cristóvão). A sua função se confunde à abertura da temporada, até ceder a vez para o campeonato nacional, que reúne os principais times brasileiros.

                 De qualquer forma, o carioca – sobretudo na fase final – motiva o público. E foi com muita alegria que a sua grande torcida presenciou algo que não experimentava há doze anos: depois de longo período no deserto, o Clube de Regatas Vasco da Gama voltou a ser campeão.

                 Devemos esse campeonato a Eurico Miranda, que retornou para recuperar o time da Colina, baqueado que estava pela gestão desastrosa de antigo craque do CRVG,  que atende pelo nome de Roberto Dinamite.

                 Não é que o Vasco, pelas suas atuações, bateu a todas as principais equipes cariocas, Fluminense, Flamengo  (desculpa, pessoal de O Globo!) e, no final, o próprio Botafogo, em que ignorou a escrita do team da estrela solitária vencer sempre o cruzmaltino nas grandes decisões ?

 

( Fontes:  The New York Times,  O Globo ) 



[1] Desde a sentença Roe vs. Wade  da Suprema Corte americana, de 1973, que deu à mulher o direito de abortar, a sua oposição passou à extrema direita na Terra de Tio Sam.

domingo, 3 de maio de 2015

Colcha de Retalhos C 16

                                         

A PF investiga João Santana

 
        O marqueteiro do PT, que se ocupou das últimas três campanhas presidenciais – uma de Lula em 2006, e duas de Dilma, em 2010 e 2014 – agora é investigado pela Polícia Federal.  Trata-se de outra campanha do Partido dos Trabalhadores, seja a eleição do ‘poste’ Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo (2012).

        Nas vitórias, sobretudo a de Dilma em 2014, o suposto mago João Santana contou com a preciosa ajuda tanto do escasso tempo de Marina Silva, quanto da atitude do órgão fiscalizador, que lhe denegou direito de resposta, em absurdo filmete em que a autonomia do B.C. era apresentada como a oportunidade dos banqueiros de tirar a comida da mesa dos pobres. A denegação pelo TSE do direito de resposta por Marina Silva facilitou além disso o que essa candidata chamara de campanha de mentiras. Foi fácil ao suposto ‘mago’ desconstruir a vantagem inicial de Marina Silva. Logrou assim o PT livrar-se de Marina no turno final, pela ameaça maior que representaria para a candidata oficialista Dilma Rousseff.

        Desta feita, João Santana – que já teve problemas na Ação Penal 470 (Mensalão) – é agora alvo de inquérito da Polícia Federal. Apura-se se suas empresas trouxeram de Angola US$ 16 milhões em operação de lavagem de dinheiro  para beneficiar o Partido dos Trabalhadores.

       Nesse ano de 2012, o publicitário fez a campanha eleitoral no país africano, em que foi novamente reeleito o Presidente em funções, José Eduardo dos Santos. Com efeito, dada a prevalente corrupção em Angola, as reeleições desse presidente são formalidades, atendidas as características do pleito e a sua ‘apuração’, que não se assinala pela transparência.

       A PF suspeita dos recursos transferidos de Angola – que o COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) considerou operação atípica  para a conta do marqueteiro. Para os policiais  os recursos de Angola (US$ 16 milhões) poderiam ter sido pagos por empreiteiras brasileiras que atuam naquele país.

        Dentro desse raciocínio, tal poderia ser, nesta hipótese, maneira de saldar o débito de R$ 20 milhões da campanha de Haddad para a prefeitura, com a empresa de João Santana.

        O marqueteiro nega haver praticado irregularidade, eis que, no seu entender, não teria sentido operação de lavagem de dinheiro para o PT. Segundo declarou Santana, ‘trata-se de operação legal e totalmente transparente’. Sem embargo, segundo frisa a Folha, especialistas em finanças ouvidos pelo jornal, dizem que não é comum o “internamento” (remessa de dinheiro do exterior para o Brasil), mesmo sendo legal, por causa da elevada carga tributária e da burocracia brasileira para alguém que tem negócios no exterior.

         É por esta razão que a P.F. acha que o dinheiro trazido de Angola em 2012 seria  para pagar dívidas do PT no Brasil. Nessa interpretação, seria operação de lavagem de dinheiro para beneficiar o Partido dos Trabalhadores.

 
Aprovada a Desinformação

      

             Como diz Bernardo Mello Franco, na sua nota editorial na Folha,  “a votação de um projeto de lei sobre rotulagem de alimentos, na última 3ª Feira, ajuda a explicar o Congresso que está aí.”

             Liberado no Brasil, o plantio de transgênicos até hoje deve ser levado ao conhecimento do consumidor (as embalagens com organismos geneticamente modificados devem trazer um pequeno triângulo amarelo com a letra T – de transgênico).

            Pois se prevalecer a votação na Câmara – favorável por 320 votos a 135 ao projeto do deputado Luiz Carlos Heinze (PP-RS), da bancada ruralista – o símbolo informativo será retirado das embalagens.

 
Esforço Fiscal

 

         Uma não tão diáfana cortina desce sobre as despesas do Governo. Pelo resultado do primeiro Trimestre, verifica-se que há muito por fazer nos nove meses restantes. Constata-se que o esforço de conter despesas e incrementar receitas terá de ser proporcionalmente maior no restante do ano.

         A boa surpresa – diante dos pífios números federais – é apresentada por um desempenho excepcional de municípios e Estados.

         Muito baixa a queda na despesa federal – só 0,8% - mas a rcceita  - que deveria subir – caíu muito mais depressa (4,4%).

         Na verdade, se o Governo federal reduziu seus investimentos em quase um terço, todo esse esforço foi afetado pelo aumento na conta da Previdência e de benefícios sociais.

         A demagógica campanha contra o Plano Levy e o Ajuste Fiscal explica boa parte desse malogro. Cortes na Previdência no que tange a pensões excessivas para gente jovem, entre outras bondades, tem sido ignorados por motivos políticos.

        E o Ministro Levy, preso a uma Presidente impopular e sem poder no Congresso, já avisa que se o Ajuste Fiscal não funcionar, a queda do conceito para grau especulativo se afigura bastante provável.

 
Tramitação do Impeachment

 

             O painel da Folha informa que a bancada do PSDB na Câmara procurou  Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para tratar do pedido de Impeachment que considera apresentar contra Dilma Rousseff. Cunha respondeu que o pedido não será descartado de pronto.  Pretende ele contratar  pareceres jurídicos independentes, equivalentes aos apresentados pelos tucanos.

              Semelha óbvio que a pressão sobre a Presidente tenderá a aumentar, considerado o viés dos aludidos pareceres.

              Nesse contexto, é intenção de Aécio Neves (PSDB-MG) sinalizar de forma positiva não só a contratação de novos pareceres jurídicos pelos tucanos, mas também levar o tema à reunião com presidentes dos partidos aliados na próxima 4ª feira, dia seis de maio.

              Pelo andar da carruagem, parece enfraquecida a oposição interna contrária à movimentação pró-impeachment, assumida por FHC e os dois senadores por São Paulo,  José Serra e Aloysio Nunes Ferreira. 

 

A   Crise  da  Petrobrás

 

               Se 2014 não foi um ano bom para as petroleiras, por força da queda na cotação do barril de petróleo,  a ineficiência somada com a corrupção contribuíram para que a Petróleo Brasileiro S.A. tenha experimentado a maior baixa contábil, com R$ 44 bilhões, seguida pela BP (British Petroleum) com R$ 22 bilhões e a Total com R$ 21 bilhões.

 

( Fontes:  Folha de S. Paulo,  O  Globo ) 

sábado, 2 de maio de 2015

Por que acusas, Lula ?

                                       

          A ambição desmedida faz esquecer não só as promessas, mas as obras feitas. Ei-lo de retorno – se, por acaso, antes pensara recolher-se – a apontar, na foto da Folha, nas seis colunas da primeira página, o cartaz ‘Abaixo Plano Levy’.

          Será tanta a tua ânsia de voltar, que terás acaso esquecido de que o que aí está é também obra tua, pois Dilma Rousseff a tiraste da algibeira para suceder-te. Se tal empresa só é possível no Brasil, pelo despreparo de boa parte do eleitorado,  teu comportamento agora desperta espécie, como se no afã de regressar, ages como se nada fora? E, sem embargo, não te faltaram ponderações, como abalizado comentarista não deixou de sublinhar.

          Pensavas talvez que ela se contentaria com um único mandato – e a sua desastrosa travessia confirma que tal seria melhor, inclusive para a própria – mas assim não estava escrito e a ambição fê-la dar um passo além.

          Já dizem os franceses que quanto mais uma coisa mude, mais ela fica igual. E ao ver-te verberar em praça pública – e as velhas lembranças das grandes multidões em praça pública, que foram rampa de lançamento para o futuro na política, te sacudiam a memória – hão de pensar no primeiro avatar de Lula o sindicalista.

          Nas reivindicações sindicais – derrotar as MPs 664/665 e com elas o Plano Levy – esqueces acaso o ‘Lula Paz e Amor’?  Em 2002, com postura de estadista, venceste afinal uma eleição majoritária, e chegaste ao Palácio do Planalto, meta inatingível por três eleições ?

           Pensas ser possível desta feita de novo empolgar o poder, apoiado no teu carisma, mas esquecido do líder conciliador, que se votava a continuar a obra de FHC, posto que o PT se aferrara à oposição sem quartel, contra o Plano Real, inclusive intentando o impeachment?

           E o que imaginas conseguir com essa derrubada do Plano Levy?  Ele é um técnico respeitado, ainda que jovem, e foi convocado por tua criatura para salvar a economia do Brasil, após a desastrosa gestão do Dilma I.

           Como o teu Ministro da Fazenda, Antonio Palocci, te acertou as contas – apesar do excesso nos gastos correntes, motivados por teu aparelhamento do poder estatal – e depois, infelizmente se foi, levado pelo caso do caseiro – por que ages como se nada tenhas a ver com as imprudências e equívocos na economia do teu primeiro poste?

           Pensas de novo empolgar o poder, aferrado à cediça fórmula de trabalhar com a esquerda, para pavimentar-te o caminho?  Derrubar o Plano Levy não é demagogia barata, por que a quem interessa manter o que aí está, com a inflação de volta?

           Como deves ter aprendido a lição, se a tua discípula nos fez reencontrar o velho dragão, não será pela farra financeira, e os aumentos ilusórios, que vamos lograr reimplantar a estabilidade. Se o erro foi teu em recomendá-la como tua sucessora, por que te empenhas em pôr abaixo o trabalho do jovem Levy?

           Há muitas nuvens no teu horizonte. Em 2002 conseguiste alcançar a ambicionada meta. Mas hoje discutimos muita coisa que ainda te diz respeito, e que se refere ao Petrolão, em que ainda é preciso desvendar um segredo que para muitos já não o é.

           Nunca se terá visto coisa similar, muitos se animarão a dizer. No entanto, a história é velha senhora que nos impinge estórias incríveis, ou condena, pela ignorância, a repetir intentos que podem acabar ou em tragédia, ou ópera-bufa. Já nos disse outro senhor, palmilhando a mesma trilha, que ignorar o passado é condenar-se a repeti-lo.

           Por isso, quem se aferra a subir na tribuna, que tal um momento de análise ? O que está aí, quer queiras , quer não, não só os cartunistas, mas também o povo vai vendo como obra em que tens muita responsabilidade.

           Tu a impingiste à Nação, como a grande gestora. No primeiro mandato, ela aprendeu certas coisas, mas desfez muitas outras. E não só pôs a perder aquela conquista da nacionalidade – que o PT não teve a grandeza de assumir como também sua – mas aprontou um sem número.

            No teu primeiro mandato, um ministro se foi como se fora chefe de governo. No teu segundo, vendeste a mulher do Lula como se fosse primeiro ministro.

             Em política, o assim é se te parece, é máxima sinuosa, com prazo de validade bastante curto.

             Há políticos que pensam ser o poder eterno. O seu erro está não na máxima, mas em querer dela apropriar-se.

 

( Fontes: Folha de S. Paulo, Coluna R. Noblat, O Globo )

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Promotora acusa policiais de Baltimore


                                    

          A promotora afro-americana Marilyn J. Mosby – eleita para o cargo há cerca  de quatro meses – surpreendeu Baltimore ao indiciar nesta sexta-feira, 1º de maio, seis agentes policiais, por prisão ilegal e pela morte de Freddie Gray.

          Mosby, a promotora estadual para Baltimore, lavrou a acusação pouco tempo após receber o parecer médico-legal que determinara haver Gray morrido por homicídio.

          Note-se, que na sua investigação, divulgada um dia antes, a polícia procurou afastar qualquer responsabilidade dos policiais pela morte da vítima.

          A medida tomada pela senhora Mosby foi recebida com uma ovação no Monumento às vítimas da guerra. Enquanto os afro-americanos manifestavam satisfação, acrescida pela rapidez do procedimento da promotora, o cordão policial, com uniforme especial para enfrentar demonstrações violentas, contemplava impassível o júbilo da comunidade negra.

          Conforme o despacho da Sra. Mosby, Gray sofreu lesão fatal na coluna vertebral a 12 de abril, ao ser transportado pela van policial. Nada ocorrera quando fora detido. Segundo a promotora, a lesão se deveu à omissão dos policiais de pôr cinto de segurança em Gray.  “O sr. Gray sofreu grave lesão no pescoço, em consequência de ter sido algemado, com os pés imobilizados por grilhões, enquanto  seu corpo não o foi, sendo deixado solto no assoalho da caminhonete da polícia de Baltimore.

          “A par disso, apesar de repetidas paradas para verificar da situação de Mr. Gray, o motorista da caminhonete, policial Caesar R. Goodson Jr. e outros policiais nunca afivelaram o cinto de segurança da vítima, que por isso ficou várias vezes com o rosto contra o chão da van,  com as mãos presas nas costas”.

           A promotora inculpou o policial Goodson por assassínio em segundo grau, que é o indiciamento mais grave dentre os seis policiais.  Goodson foi também acusado formalmente de homicídio involuntário, agressão e má-conduta nas respectivas funções.

           Ainda segundo a promotora, a condição de saúde de Gray se deteriorou, ao ignorarem os policiais os seus apelos por cuidados médicos, como  também não atentaram para os óbvios sinais de que o seu estado se tornara crítico.  Em certo momento, quando os policiais tentaram ver como ele estava, o Sr. Gray não respondeu à intervenção policial. Mesmo assim, os seis policiais nada fizeram.  Ele morreu por essas  lesões sofridas em uma semana.

            A conduta policial foi censurada pela promotora  quase a partir do instante em que a polícia abordara o Sr. Gray.  Não havia motivo provável para prendê-lo, e por isso a detenção foi considerada ilegal.  Os policiais o acusaram de portar um canivete com mais de uma lâmina, mas a sra. Mosby afirmou: “A faca não era de lâmina cambiável, e é legal pela lei do estado de Maryland.”

            Os outros cinco oficiais que participaram da trágica operação policial também foram indiciados pela promotora. Nesse particular, pesam contra os policiais  Edward M. Nero e Garrett E. Miller as acusações de ataque, má-conduta na operação, e prisão injustificada.

            O sindicato policial defende a conduta dos seis policiais, e requereu da Sra. Mosby que abandone o caso e o repasse a um promotor especial. Tal pretensão foi por ela prontamente repelida.  Nesse contexto, Gene Ryan, o presidente do sindicato policial, ponderou que ela tinha conflitos de interesse, inclusive pelo fato de que foi apoiada politicamente pelo advogado da família Gray, William H. Murphy Jr. Na mesma linha, o chefe do sindicato assinalou que o marido da promotora é vereador da cidade de Baltimore, e que o futuro político dele será atingido diretamente, para o bem ou para o mal, pelo resultado da investigação da Sra. Mosby.

             A comunidade negra de Baltimore recebeu com júbilo a atitude da promotora. Muitos esperam que a sua ação contribua para acalmar as manifestações de protesto dos afro-americanos.

             O Prefeito Rawlings-Blake declarou que a maior parte dos policiais da cidade de Baltimore tem boa índole, mas acrescentou: “Para aqueles que preferem agir com violência, brutalidade e racismo, quero ser bem claro: não há lugar no Departamento Policial de Baltimore para eles.”

              Quando a van policial chegou ao Distrito Ocidental , e os policiais tentaram removê-lo, Gray não mais respirava. Convocado um paramédico, se determinou que Gray tivera parada cardíaca.  Ele foi então conduzido às pressas para o hospital.   

             O presidente Barack Obama preferiu não manifestar-se sobre as acusações. Disse que lhe interessa que o sistema de Justiça funcione a contento. “O que o povo de Baltimore quer mais do que outra coisa é a verdade. Isso é o que também espera o Povo americano”.

 

( Fonte:  The New York Times  )

Dilma: fecha-se o cerco?

                                            

           Dilma Rousseff, que hoje não dará as caras, nem na tevê, quebra ritual da Presidência da República desde Getúlio Vargas (que fazia o discurso de primeiro de maio no Estádio de São Januário, então o maior no Rio de Janeiro). Ao invés de aparecer em cadeia, temendo o panelaço, ela usará a internet, em três vídeos, de que a peça de destaque será o aumento do salário mínimo.

          Ao resolver não enfrentar a reação da cidadania, sem querer Dilma sublinha uma até hoje ignorada timidez, eis que no primeiro mandato a presidenta usara e abusara da faculdade de convocar rede televisiva (e radiofônica) para os respectivos pronunciamentos.

          Esse abuso – que alguns de seus antecessores não haviam  imitado – não deveria caracterizar as intervenções presidenciais. Quando o primeiro Magistrado da República vem a público comunicar algo  aos concidadãos, deveria fazê-lo em poucas datas, como a de hoje (dia do trabalho), a da República  e a do Natal. Poderia ter, assim, quota de cinco alocuções (essas três e mais duas, se houver necessidade), mas nunca o túrgido número de seus discursos anteriores,  que empregava muita vez com visível abuso e mal disfarçado escopo político-partidário.

         Aliás, isso de autoridade convocar rede nacional é um traço terceiro-mundista de que o Brasil faria bem em desfazer-se.  Nesse contexto, antes de passar a coisas de maior monta, a propaganda política pelos 32 partidos (e continuam crescendo!) é desrespeito à inteligência e ao  merecido lazer  da cidadania. É mais do que tempo de dar um basta a essas aparições de partidos corruptos, insignificantes ou até de legendas de aluguer, que, no cúmulo da ousadia, se colocam no horário hiper nobre do público, como se as palavras vazias e as  bobajadas desta gente devesse pautar-se pelo máximo incômodo a quem tem mais o que fazer. Falando em terceiro-mundo, eis que ele aparece com fantasia completa, ainda por cima graças à mal avisada sentença do Supremo não consentindo sequer o limite do bom-senso à explosão de legendas que ora nos toca suportar. O Supremo,ao enveredar pela supressão de qualquer limite aos partidos, esqueceu-se da máxima aristotélica do bom senso, que nos recomenda o emprego do meio termo. Os ministros deveriam ter olhado para o número de partidos que contam em grandes democracias ou então se perguntar se a cláusula de barreira na Alemanha (5%) a torna suspeita de lesa-democracia...

           Que o leitor me perdoe haver fugido por instantes da camisa-de-força do tema único.

            Enquanto o PSDB – como lhe é consueto – se debate na discussão interna se caberia ou não recorrer ao impeachment, tentemos acompanhar como vão as coisas em Pindorama. A CPI da Câmara já parece haver perdido a paciência com a Petrobrás. Não é que desde fevereiro último ela busca em vão acesso às atas das reuniões do Conselho de Administração da estatal, de 2003 a 2012 (ou em outras palavras, com a entronização do PT na República, a base das discussões e decisões na Petróleo Brasileiro S.A.). No entanto, se  deseja conhecer da motivação de tais decisões, é bom saber desde logo que as gravações das reuniões feitas no período sob investigação foram destruídas. Hoje a Petrobras afirma que isso é praxe.

             Como as aludidas atas só contêm decisões e não as razões que as motivaram – sem falar sequer de eventuais argumentos contrários – pode tirar o cavalinho da chuva quem pensa aí topar com motivações dos grandes da Petrobrás, como uma senhora que foi por largo período Presidente do Conselho de Administração...

             De qualquer forma, se a Petrobrás persistir no seu corpo mole, já nesta segunda-feira a CPI pedirá a competente busca e apreensão pela Polícia Federal na sede da Estatal.

             É compreensível, portanto, que haja quem sinta cheiro de Watergate nessa pressurosa eliminação de gravações de reuniões.

             Como os rios que correm para o mar, se acumulam as suspeitas contra o Partido dos Trabalhadores e de sua candidata no que tange ao último pleito.

              Assim, como se assinala em O Globo, na  Justiça Eleitoral, devido à revelação “de fatos gravíssimos” relativos às contas da campanha presidencial de 2014, o Ministro Gilmar Mendes, do TSE, “prorrogou por um ano a decisão que obriga que os arquivos eletrônicos  da prestação de contas da presidente e do comitê financeiro do PT em 2014 fiquem disponíveis no site do tribunal”.

              Por outro lado, segundo a mesma fonte “o Tribunal de Contas da União enviou  para o Ministério Público as conclusões de uma auditoria sobre as chamadas ‘pedaladas fiscais’, para ver se estão caracterizados crimes, que podem definir o crime de responsabilidade da  presidente Dilma, do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega ou de dirigentes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica.”

              Deve assinalar-se que o PT é acusado de usar gráficas para lavar dinheiro, tanto nas contas anuais, quanto nas da eleição de 2014. Assim, a Gráfica Atitude, cujo endereço é o mesmo do Sindicato de Metalúrgicos do ABC, teria sido usada em operações de lavagem de R$ 2,4 milhões. Note-se, a propósito, que parte da propina paga para Renato Duque, então diretor de Serviços da Petrobrás, foi direcionada por empresas do grupo Setal Óleo e Gás, controlado por Augusto Mendonça, para essa Editora Gráfica Atitude  Ltda., a pedido de João Vaccari Neto, então como se sabe Tesoureiro do PT.

               Outro dado de sumo interesse, no que concerne à campanha de Dilma Rousseff, no passado ano de 2014 “outra gráfica, a VTPB, teria recebido R$ 22,9 milhões da campanha de Dilma Rousseff para impressão de folhetos.” No entanto, há um pormenor de sumo interesse: “no seu endereço não há gráfica nenhuma. A explicação oficial é que ela servia de distribuidora dos serviços para outras gráficas, que imprimiriam os pedidos do partido, o que está gerando suspeita, de lavagem de dinheiro.

                Nesse contexto, o TSE condenou também o PT a multa de R$ 4,9 milhões por irregularidades nas contas do partido em 2009.  

                                                                                              (a continuar)

 

( Fontes: O Globo, coluna de Merval Pereira )