sábado, 14 de março de 2015

Manifestações chapa-branca ?

                                      

         Tendo presente a incógnita do domingo, as organizações com laços umbilicais com o PT saíram à rua nesta sexta-feira. Além de defender a investida e questionada Presidenta – sobretudo pelas mentiras nos debates e a propaganda eleitoral enganosa – muitos desses órgãos heteróclitos – que são chapas-branca enquanto lhes aproveita e até oposição – como se poderia qualificar-lhes a atuação como paladinos de causa  que o Povão não mais abraça?

        A tintura do oficialismo pode ser útil pelas verbas e dotações. No entanto, o uso da coleira – através de subvenções e prebendas outras – vai fundo, roubando-lhes a autenticidade. O exemplo está na UNE de hoje, sobre que pesa o estigma das dotações oficiais e, sobretudo, da chapa-branca, terá alguma semelhança, excluída a sigla, com a associação de antanho, que lutava pelos direitos dos estudantes diante do poder, fosse ele o constitucional ou o militar, aí computada a sua truculência?

        Tal maldição não se cinge à entidade estudantil. Sob a consigna do apoio à Presidenta, saíu às ruas bem-comportada a sopa de letras das entidades oficialistas.

        Terão cumprido com a sua parte a Central Única dos Trabalhos (CUT), o Movimento dos Sem Terra (o exército de Stédile, nutrido pelo Tesouro, e na aparência força de apoio de Lula da Silva), e tantos outros, todos ligados à munificência oficial, que está, salvo ordem em contrário, sob o mando, direto ou indireto, do Partido dos Trabalhadores e, por consequência, enquanto no poder estiver serão mantidos pelos recursos do Estado, que ao Povo Soberano pertence.

         A insegura Dilma, fustigada por impopularidade que lhe caíu de repente, pelas contradições entre promessas de campanha e revelações posteriores,  resolveu à última hora dar marcha-à-ré, ficando em Brasília, e não aderindo à manifestação de Belo Horizonte.

         Esses movimentos sociais se espalharam pelo menos em 23 capitais. Não houve excessos, se às reuniões faltou o entusiasmo, dado o caráter burocrático que as caracteriza. Essa falta de espontaneidade – que é adereço de movimentos encomendados – se reflete no respeito das consigna, não esquecido o apoio à Presidente Dilma Rousseff, que, sem dúvida, dele está bem precisada.

        Pena que falte a esses movimentos oficiais ou oficialóides a marca da autenticidade  do que nasce, não por ordem de gabinetes, mas por vontade própria. Daí a falta de entusiasmo entre os militantes, que se reflete sobretudo nos claros advindos daqueles que preferiram quedar-se em casa. Daí também a patética inchação das presenças: sem pejo de agredir a verdade ou de mergulhar no ridículo, para o maior ato sindical, acontecido em São Paulo, a CUT orçou a presença em cem mil, enquanto o serviço da PM apontava para doze mil manifestantes.  Essa discrepância, com variações entre os números cantados pela entidade organizadora e o cômputo da realidade pela aferição da PM, estaria presente por toda parte, como se o velho teatrólogo italiano, Luigi Pirandello, ali pairasse com o seu dito “Assim é, se lhe parece...”   

 

( Fontes:  O Globo, Folha de S. Paulo )

sexta-feira, 13 de março de 2015

A Saga de Cesare Battisti

                                    

        Cesare Battisti buscara refúgio no Brasil, e vinha sendo tratado com a generosidade da gente brasileira.

        Como já disse nessas linhas, a controvérsia cerca o seu caso. Na Itália, sobre ele pesam alegados crimes das Brigadas Vermelhas (condenado in absentia pelo suposto assassínio de quatro pessoas - um militante, um carcereiro, um policial e um joalheiro), Battisti pagou o cruel preço de não ter defesa no julgamento, por já haver fugido para a França, onde fruíu do asilo do Presidente François Mitterrand.

        Terminado o mandato de Mitterrand, a direita retomou a perseguição à la comissário Javert[1].  Battisti foge para o Brasil em 2004, e tem a prisão preventiva decretada três anos depois. Com  a prisão  decretada, é transferido do Rio, onde morava, para a penitenciária da Papuda, em Brasília.

         Mais tarde, obtém a condição de refugiado político, que lhe é reconhecida pelo Ministério da Justiça. Em 2010, a instâncias da Justiça italiana, o Supremo Tribunal Federal decidiu por sua extradição, seguindo parecer do Ministro Gilmar Mendes. É feita, no entanto, a recomendação de que a decisão final caiba ao Presidente da República.

          No último dia de seu mandato (31 de dezembro de 2010), Lula acata parecer da Advocacia Geral da União, e nega a extradição, argumentando que tal agravaria a situação de Battisti.

           Em 2011, a defesa pede que o ex-ativista seja solto. O Governo italiano contesta a decisão, e apela para revisão da Presidente Dilma Rousseff. Por seis votos a três, em junho de 2011,  o Supremo rejeita o pedido de extradição, e decide pela libertação de Cesare Battisti.

           Battisti deixa então a prisão e permanece no Brasil, onde se tornou escritor.

           No início de março, nova reviravolta na vida de Battisti. A 20ª Vara da Justiça Federal do Distrito Federal determina a deportação de Battisti.  A decisão ocorreu em resposta a ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal. Essa ação do MPF poderia estar ligada à questão da extradição de Henrique Pizzolato, autorizada em princípio pela Corte de Cassação, mas ainda pendente de decisão do governo italiano.

           A juíza Adverci Rates Mendes de Abreu, da 20ª Vara, acatou o pedido do MPF : “trata-se, na verdade, de estrangeiro em situação irregular (sic) no Brasil e que, por ser criminoso condenado em seu país de origem por crime doloso, não tem o direito de aqui permanecer e, portanto, não faz jus à obtenção nem de visto, nem de permanência.”

           O ex-ativista chegou à sede da Polícia Federal de São Paulo às 18:30hs. Ele não foi algemado, nem resistiu à prisão em casa, onde estava com a mulher e a filha.

            A tal respeito, assim se manifestou o seu advogado Igor Sant’anna : “Ele está na carceragem, sereno, mas revoltado com a decisão. Estamos fazendo tudo para revogar uma  decisão absolutamente absurda.  Acreditamos que isso é uma violência tremenda com o Cesare Battisti. Tinhamos informado que ele estava à disposição da Justiça depois da decisão. Embora sob protesto por essa decisão ilegal e inconstitucional. Estamos tentando uma contraordem.” A qual tardou um pouco, mas não tanto, para honra de nossa Justiça.

              Por determinação do desembargador Cândido Ribeiro, Presidente do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região, foi concedido habeas corpus a Cesare Battisti, sob a justificativa de que a prisão e a ordem de deportação feriam uma decisão do presidente da República, que só poderia ser alterado pelo Supremo Tribunal Federal. 

              De posse do diploma legal, Battisti deixou a carceragem da Polícia Federal em São Paulo, na companhia do advogado  e também do Secretário municipal de Direitos Humanos, de São Paulo, o ex-Senador Eduardo Suplicy.

 

( Fonte:    O  Globo )



[1] Personagem de Victor Hugo no romance Os Miseráveis, Javert encarna o perseguidor implacável.

Desordem e Regresso ?

                                           

        Talvez esta expressão, que é o reverso do mote positivista de nossa bandeira, sirva não como lema mas à guisa de descrição do delicado momento que vive o Brasil.

         Mais cedo de o que esperava o Governo Dilma Rousseff paga o preço de propaganda enganosa, alimentada por façanhudas mentiras, a proteção dos tribunais, e a consequente destruição da única candidatura alternativa (Marina).

         Vaiada em São Paulo, em exposição a que chegara cedo (para evitar a presença do público), se tal, no entanto, não fora bastante para silenciar os apupos do pessoal de serviço e dos responsáveis pela feira da construção civil, Dilma Rousseff hoje, acuada pela mesma impopularidade, cancela sua ida a Minas Gerais. Teme vaias e protestos, que vem de direita e esquerda.

          Se as mentiras da propaganda, urdidas pelo marqueteiro de fé,  lhe permitiram, ainda que a duras penas, vencer por 3% o desafiante Aécio Neves,  elas deixam um rastro de insatisfação e mesmo revolta, que germina, se inflama e supura em manifestações de direita e esquerda, que pouco semelham ter em comum, a não ser a repulsa à Presidenta.

         Não é só o pesado preço de suas façanhudas falsidades, ditas com a convicção e a empáfia de quem está vestida nos ouropéis do poder. Tratar de burro o povo, que antes já elegera a ‘mulher do Lula’ é empresa arriscada, porque a raiva da gente humilde e laboriosa que nela acreditou há de aumentar diante das expostas artimanhas e dos embustes que repontam por todo lado.

         Já diz a sabedoria de nossos antepassados que quem semeia ventos colhe tempestades. Não se pode dizer uma cousa antes, e outra depois das eleições. Com o Plano Cruzado, o governo José Sarney e o PMDB obtiveram esmagadora vitória nas urnas. Comprovado o ludibrio, Sua Excelência sequer podia sair à rua, tal a revolta popular. Fica-nos na lembrança o presidente e comitiva no Rio de Janeiro, colhendo precário refúgio em um ônibus que populares coléricos com a trampa eleitoral apedrejavam.

           Nossa gente cunhou expressões que próximas de sua labuta diuturna expressam e mesmo vincam a veracidade desses tempos – que os chineses chamam de interessantes – em que entusiasmo e aplauso são escorraçados pela sanha da multidão. Na hora da onça beber água, convém que o espaço seja largo, e por isso a vaca sequer há de conhecer o próprio bezerro.

            Assim, não surpreende que Dilma Rousseff arrefeça caminho e cancele a ída às Minas Gerais. Lá, em outros tempos, não encontraria Dom Pedro I as aclamações do início do reinado, e de lá voltaria, em marcha quase batida, para o aziago Sete de Abril[1].

            Fica em Brasília, porque pode vir ‘fogo amigo’ das manifestações sindicais, que querem mais, e rejeitam o Ajuste Fiscal, que Joaquim Levy foi chamado a aplicar, por causa das insânias fiscais do Dilma I. Nesse quadro, e nessa travessia, nem a CUT, a valida claque de comícios passados, apresenta quadro confiável.

           Doutra parte, Lula da Silva quer voltar. Para tanto, todo meio seria válido. Chegou mesmo a invocar o exército de Stédile, o dos sem terra, capitaneado por quem é dito mamar nas tetas do governo. Como estultas palavras ao ar, já tiveram um efeito, ao destruírem o trabalho de longa pesquisa. Os atos vandálicos são o ápice da boçalidade. O que desejaria o torneiro mecânico com tal façanha? Na verdade, dirá, apenas um apelo a um cumpanheiro, do qual sequer pensou as consequências.

           O PT mostra cada vez mais, na inexperiência de Dilma e na improvidência do grande capitão, que o Brasil, pela sua democracia e desenvolvimento, prescinde desse sindicalismo de fancaria, a la Maduro ou a la Cristina Kirchner. Por contingência de um mando despreparado, abandonamos a diplomacia de estado para nos colocar o roto manto daquela de partido.

           Nessa funda incompetência, que ocasionais grosserias sequer disfarçam, eles ignoram até o lema de nossa bandeira, para não falar nos princípios da Constituição.

 

 

( Fontes:  O  Globo, Folha de S. Paulo )     




[1] Abdicação do Imperador, em favor do filho menor, D. Pedro II.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Bate - Pronto (II)

                                     

No reino da Fantasia

      

         Depois de seu discurso na CPI da Petrobrás, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB/RJ) recebeu saraivada de elogios, uma comovente rasgação de seda, que, apesar das aparências, nada tem a ver  com o corporativismo no Legislativo...

         Terminada a alocução magna de Sua Excelência, sucedeu-se na tribuna uma troca de gentilezas. Que se cuide o Procurador-Geral Rodrigo Janot, se pensa que o indiciamento de tão resplendente figura – a ponto de nele choverem encômios de todos os quadrantes da antiga sólida base de apoio – há de render-lhe gretas na muralha do intemerato deputado Cunha.

 

Wyllys e Feliciano juntos ?

 

        No parlamentarismo anglo-saxônico é comum falar-se em estranhos companheiros de cama. Seria a união ou a composição entre partidários de doutrinas opostas que, em consequência dos caprichos do parlamentarismo, acabassem do mesmo lado, ou, para ficar na imagem da língua inglesa, na mesma cama.

        Depois dos problemas do ano passado, com a desastrosa presidência Marco Feliciano, na Comissão de Direitos Humanos na Câmara, neste ano o PT preferiu aferrar-se à presidência que mal-avisadamente cedera para o PSC. A fim de  compor as outras duas correntes que timbram em ter protagonismo na dita Comissão, se passou para  solução dita salomônica, com a vice-presidência dividida entre Jean Wyllys (PSOL-RJ) e ...  Marco Feliciano (PSC-SP).  A dupla apoiaria, então, a presidência petista  com Paulo Pimenta (RS).

       A bancada evangélica não gostou nada de ver M. Feliciano partilhando a vice com Jean Wyllys. A composição, no entanto, não vingou, forçando o recuo de Feliciano. Dado o interesse evangélico em instrumentalizar os direitos humanos – sobretudo através de sua negação – a composição e a proximidade com o PSol não agradou à tropa de Feliciano. A questão ficou, então, para ser decidida no voto, o que, dado o interesse conservador pela comissão, não promete necessariamente um resultado equânime.

 
Lula quer mexer no ministério

 

        Com a baixa na popularidade de Dilma e a má relação com o Congresso, Lula está de novo irrequieto. Vendo o pessoal de sua especial confiança afastado pela Presidenta – máxime os ministros do palácio do Planalto – Lula da Silva sinaliza os pontos fracos no gabinete – o que, decerto, não é tarefa das mais difíceis – e propõe a troca de Mercadante (que falhou na articulação política) na Casa Civil, e de Pepe Vargas (nas Relações Institucionais).

       Mercadante aumentou a respectiva cota de prestígio junto a Dilma, ao tornar-se um virtual fac-símile da Presidenta. Com a presidenta botando pra quebrar, virar uma espécie de alter-ego não compõe nem cria opções. Lula abre a sua artilharia contra o Chefe da Casa Civil e pensando abrir saídas para uma Dilma encurralada sugere até que ele seja mantido no posto, inda que alijado das consultas políticas...

       Por outro lado, acha Pepe Vargas inexperiente para a função de recoser as alianças políticas, e sugere  a chamada de Jacques Wagner (Defesa) e Ricardo Berzoini para assumir a interlocução com o Congresso e os partidos. O maior cacife e experiência dessa dupla criaria melhores condições para o diálogo e reparar a calamitosa situação em que se acha a desmotivada e desgovernada base de apoio do governo.

      Nesse contexto, Lula se pergunta por que não um ministério a mais para o PMDB? Além de compor o mítico número dos quarenta, traria um nome de peso daquele partido para o gabinete, i.e.,  Henrique Eduardo Alves (PMDB/RN).  E não é que com isso o mago Lula da Silva faria um senhor agrado para o ex-presidente da Câmara, que guarda ainda ressentimento do ex-presidente pelo fato de haver apoiado um adversário seu, o que resultou na derrota de Alves, e na circunstância de ficar sem mandato?

 

( Fontes:  O Globo, Folha de S. Paulo )

Saudades de Joaquim Barbosa

                                      

      O Ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, ofereceu-se para integrar a turma que está com apenas quatro membros, por especial desatenção da Presidenta Dilma Rousseff, que até hoje não submeteu ao Senado a sua indicação para suceder ao Ministro Joaquim Barbosa, que optou, por motivos não revelados, antecipar o seu pedido de aposentadoria desse colendo tribunal.

      Como se sabe, essa omissão presidencial, que já dura dez meses, e que já foi, inclusive, objeto de duras palavras do decano do STF, Ministro Celso de Mello, vem criando alguns dispensáveis empecilhos para os julgamentos desse sobrecarregado colegiado.

       Perdurando em dez o número de ministros em atividade, a possibilidade de que os juízos quedem indecisos vem atrapalhando deveras os trabalhos. É difícil de entender que a Presidenta postergue tanto o que constitui um dever constitucional seu. As indicações do Planalto, pela omissão, que, por um conjunto de fatores que não carece esmiuçar, não semelha o Congresso levar muito a sério o ditame constitucional de examinar as qualificações (e eventuais ligações política não-recomendáveis) dos candidatos a serem submetidos ao Senado Federal.

       Em mais de cem anos de interação, desde a primeira constituição republicana saída da quartelada de Deodoro da Fonseca, o Senado apenas não aprovou uma indicação do Executivo, no caso do Vice-Presidente Floriano Peixoto, que apresentara como candidato ao Supremo o nome de um médico. Fê-lo amparado, ao seu dizer, no enunciado da então Constituição, que falava apenas de notório saber, sem especificar que de jurídico se tratava... Em todos esses anos – caminhando e cantando para o sesquicentenário - tão só rejeitar um único nome é acusação para lá de irrespondível, que muito diz, seja da displicência, seja negligência ou até mesmo reverencial temor do Senado diante da Presidência da República.

       O próprio Dias Toffoli, indicação petista de muitos costados, tinha contra ele o fato de ter sido secretário do então Ministro José Dirceu e, a fortiori, a circunstância importuna de haver sido reprovado em dois concursos para juiz singular. Nada disso, impediu que os senadores – inclusive os da oposição - o aprovassem no curso de uma única jornada, ao cabo de superficial sabatina...

       Agora Dias Toffoli atende ao apelo do Ministro Gilmar Mendes, e vai presidir – vejam só! – a turma que vai ocupar-se da questão da Lava Jato, cujas implicações se afiguram tão óbvias que não carece aprofundá-las. Seja dito de plano que Sua Excelência tem crescido no exercício de suas atribuições, em especial na presidência do Superior Tribunal Eleitoral. Submetê-lo, no entanto, a problemas de consciência, ao ver-se sob a injunção de pronunciar-se a favor de condenações, entre outras, de anteriores companheiros petistas, semelharia, S.M.J., provação desnecessária.

       Depois de aceitar o convite-aberto do veterano Gilmar Mendes – que é da safra de FHC – não é que o Ministro Dias Toffoli foi recebido pela atenazada Presidente Dilma Rousseff, em audiência em que estiveram presentes o Ministro Aloizio Mercadante (com a cabeça a prêmio pelo chefe Lula da Silva), e o Ministro José Eduardo Cardozo, que não por acaso é da Justiça, e, em tese, está em condições de opinar sobre a propriedade de ouvir as partes...

 

( Fontes:  O Globo, coluna de Merval Pereira )

quarta-feira, 11 de março de 2015

Castanhas no Fogo

                                  

A digestão da Crimeia

 

            Vladimir Putin, em veia reminiscente, se digna revelar que a anexação da península da Crimeia – que Krushev concedera em 1954 à Ucrânia, então república soviética – ele já a pensava há tempos, quando a revolução Maidan enxotara do palácio o cleptocrata Viktor Yanukovich. Afinal, na lógica do Senhor do Kremlin, o governo de Kiev deveria pagar de alguma forma por esse malfeito... 

             Passado um ano da anexação, excluído o papel pouco dignificante de alguns países[1], que se prestaram a aprovar um ato à revelia do direito internacional e dos pacta sunt servanda,  as sanções do Ocidente, e dos Estados Unidos em especial, continuam a punir o procedimento irresponsável e imperialista da Federação Russa sob o punho de gospodin Putin.

            O turismo não é bem-vindo por aquelas plagas, eis que os voos internacionais não mais incluem a península nas suas conexões. Por outro lado, o turista só pode virar-se com dinheiro vivo, eis que os cartões de crédito não têm validade naquela área. Tampouco pode usar celular. Quanto às franquias, como a McDonald´s, só ficou a casca, mas não o serviço. Dessarte, hotéis, restaurantes, bares e supermercados, como assinala um enviado da Folha, só aceitam o dito dinheiro vivo.

            O que Putin tem feito com a Ucrânia, mandando doze mil soldados para transformar os ‘separatistas e rebeldes’ da região oriental em ameaça crível, além de toda a artilharia pesada para lá transportada, serve a projeto autoritário de poder, perante o qual o regime de Kiev ainda não encontrou a resposta adequada.

            Outra vítima desse processo foi o político honesto (uma raridade e não só naquelas paragens) e experiente Boris Nemtsov, abatido nas vizinhanças do Kremlin.  Ele, entre outros projetos, se preocupava com a agressão do regime Putin contra a vizinha Ucrânia. Nesse sentido, nas vésperas do assassinato, ele se empenhava na promoção de marcha em favor da terra de Kiev, infelizmente tão próxima da Rússia.

            Foram prontamente indiciados suspeitos tchetchenos para esse assassínio por encomenda.  Apresentadas celeremente pelo FSB (o sucessor do KGB), tais designações, dados os laços da poderosa agência com o poder, mais servem para mostrar serviço do que propriamente encontrar o mandante e eventuais autores materiais do magnicídio.

 

 Hillary responde a acusações

 
              Em discurso, a pré-candidata à presidência, Hillary Clinton, respondeu às acusações da mídia – notadamente do New York Times – que questionou a sua preferência pelos e-mails pessoais e particulares, ao invés dos oficiais, ao ensejo de sua longa presença à testa do State Department.

            Como é seu feitio, que lidera as pesquisas dentre os candidatos democratas à Casa Branca, respondeu de forma direta às dúvidas lançadas pelo grande jornal nova-iorquino acerca da propriedade de não utilizar-se de e-mails  oficiais.

            Disse Hillary que o fez por motivos de praticidade. Os meios publicísticos não estão convencidos, eis que, no seu entender, os e-mails oficiais, pela natureza das questões, muitas vezes seriam mais apropriados.

             Outra questão pendente é se a então Secretária de Estado terá tratado de assuntos classificados (i.e., confidenciais ou secretos) na sua longa série de e-mails particulares.  Hillary garante que não, mas para se ter certeza  um exame abrangente semelha indispensável.

             Visto de longe, o tópico pode ser de lana caprina, mas semelha difícil prima facie afastá-lo. De qualquer forma, por motivos nem sempre fáceis de determinar, a mídia não tem uma boa relação com Hillary Clinton.  O levantamento dessa questão, que corresponde decerto à indústria de um repórter, pode ser indicação suplementar  desse relacionamento não exatamente fácil.

 

Superpoderes para Maduro

 

             O país de Nicolás Maduro sofre de aguda desorganização. Falta tudo nos supermercados venezuelanos, a inflação é a mais alta da América Latina, e o sentir da população não pode ser mais o do início do mandato, tais as comoventes provas que o sucessor de Hugo Chávez vem dando. Daí o temor oficial de uma vitória oposicionista nos comícios para a Assembléia Nacional.

              Por outro lado, as prisões de expoentes da oposição se sucedem, sempre com acusações vagas de conspiração. Depois do prefeito de Caracas, mandado ilegalmente para a cadeia onde já está o líder López,  a perspectiva de cada prócer mais ativo das forças políticas contrárias ao regime chavista na sua versão atual do caminhoneiro é ser mandado para as masmorras do poder.

               Há pouco lá esteve uma missão da Unasul que não agradou aos lideres oposicionistas como Maria Corina Machado, pela timidez no que tange ao regime. Dessa forma, a missão não achou oportuno reunir-se com opositores, a par de não denunciar as violações aos direitos humanos.

               Como sói acontecer em regimes incompetentes (e corruptos), Maduro em discurso perante a Assembleia Nacional, pediu mais um ano de superpoderes. Ao agitar o espantalho da intervenção americana – sob a imposição de sanções pela Administração Obama a sete funcionários ligados ao Governo – Maduro pediu o apoio da maioria chavista para mais uma Lei Habilitante, que lhe permitirá governar por decreto.

               Por outro lado, em ‘retaliação’ às sanções americanas, Maduro determina que o pessoal da embaixada americana seja reduzido para os mesmos dezessete funcionários que a missão venezuelano tem em Washington.  

               Eis uma medida típica do regime de Nicolás Maduro:  pro-forma e ineficaz, serve apenas para a dúbia satisfação de ter forçado a superpotência a manter o mesmo número de pessoal diplomático do que a sua própria embaixada na capital americana...

 

 
( Fontes:  Folha de S. Paulo, O Globo, The New York Times )



[1] Aí incluída infelizmente a diplomacia de D. Dilma.

Há razão para impeachment ? (2)

                                  

         Embalada talvez pelas sedosas palavras dos áulicos, a Presidenta terá pensado que os banhos de público, se escolhidos a dedo e com a prudência dos marqueteiros de ocasião, são boa ocasião para reverter a onda e voltar a rolar nas palmas, vivas e sorrisos  do povão...

         No meio palaciano, os cortesãos se assanham com os céus enfarruscados da popularidade. Tornam o humor da Senhora um pouco mais azedo  e um tanto inseguro. Quando sopram os maus ventos, a empáfia e a arrogância com que ela os fustiga, hão de encolher-se, nem que seja um pouco. Por um instante, se esquecerá de seus 54,5 milhões de votos. Parece difícil que tal aconteça, mas nada como um dia depois do outro para que a ficha caia.

        De repente, o velho cenário não mais funciona. Escolhe um evento, de preferência na locomotiva São Paulo, e lá pensa ter pela frente momento aprazível. Assim, em ambiente restrito – ela ali aparece antes da abertura ao público – como não estariam dadas as melhores condições para boas fotos de gente risonha, alegre em saudar a sua Presidenta?

        Estava combinado assim. Dilma será recebida no ‘Salão Internacional da Construção Civil’ com a acolhida bem-educada, que o PT de São Paulo e os profissionais da exposição, sem a interferência do zé-povinho, tampouco lhe negarão...

        Será que os suados, nervosos prepostos do núcleo palaciano nada temiam? Em que mundo vive essa gente?  Infelizmente nas horas de cara feia, broncas e grosserias da Presidenta, eles se refugiam nos tarjas-preta, nos Valium e  Lexotan, quando não em coisa mais forte...

        Pois não é que uma peça seria pregada aos pobres funcionários? Sob vaias, gritos de  ‘fora, Dilma!’ e  ‘fora, PT’, surge a turba de mal-educados, que de repente, saídos do nada, vem interromper e bagunçar a ocasião que eles pensavam ter organizado tão bem, com a providencial exclusão do público-visitante...

         Assim, em  passe de mágica, se esvanece a lorota de que  panelaço e vaias do domingo foram embustes da oposição, que os financiou em treze capitais...

         Será que os fins justificam os meios?  O marqueteiro fiel – de que ela é capaz de ler peças tão sensaboronas e potoqueiras, como a do passado domingo – crê ter a solução mágica que há de fazê-la singrar pelos mares encapelados da impopularidade, e chegar indene ao porto-seguro do regular e constitucional fim de mandato...

          E, no entanto, para quem navega com a altivez dos poderosos, não bastarão as tapeações dos marqueteiros e cortesãos de plantão, se de chofre o seu mundo começa a cair, e as verdades que os do seio de Abraão cochicham nervosos estourem para todos ver e ouvir, inclusive o próprio roufenho criador, que ainda acalanta esperanças para 2018...

         A mentira não é aconselhável como alavanca do poder.  Até que às vezes funciona, mas o seu prazo de validade nos parece curto por demais...

         Como para outros antecessores – Collor, Sarney – o refúgio da impopularidade e sobretudo da mentira, só funciona se a autoridade está em fim de mandato. A história pode ser outra, se a prometida feliz travessia de mais um quadriênio mal dá os seus primeiros e tenteantes passos...

 

( Fontes:  Folha de S. Paulo,  O  Globo )