terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

De novo, Minsk ?

                                              

          Revisitar Minsk parece ter sido o resultado dos contatos europeus retomados com Vladimir Putin.  Como se sabe, em Minsk, capital da vizinha Bielorrússia, ao prenunciar-se o frio e a estação invernal, o presidente russo gentilmente acedera em estabelecer um cessar-fogo entre os ditos separatistas de Donetsk e a invadida Ucrânia oriental. A União Europeia, através da Alemanha e da França, terá entrevisto nesse processo um desejo de paz do Senhor do Kremlin.

          Na verdade, a suposta cessação – inda que temporária – das hostilidades correspondeu a imperativo climático. Nessa época, com as nevascas e  frios extremos, a guerra é exercício penoso, que muita vez os exércitos preferem reduzir drasticamente, dada a sua inclemência nas gélidas estepes daquelas partes. Mesmo sem documento firmado, é o que a natureza impõe. Exemplo disso está no fato de que a Wehrmacht parou diante de Moscou, forçada pelo ‘general frio’, em dezembro de 1941, para retomar, à vera, as hostilidades na primavera de 1942.

           Por isso, no exemplo anterior, gospodin[1] Putin estava apenas conformando-se às realidades do tempo. Como o futuro demonstraria, o presidente russo determinou aos ‘rebeldes separatistas’ que interrompessem por uns meses o confronto ativo com o regime de Kiev. E, como os meses posteriores o demonstrariam, o cessar-fogo não passava de artifício para deixar para trás os meses mais inclementes, retomando-se a guerra não-declarada tão logo quanto possível.

            E como o noticiário o confirma amplamente, a encenação do Presidente Putin ainda durou menos de o que esperado, com o amplo desrespeito, tanto pelos rebeldes, quanto pelos seus senhores russos, do pedaço de papel assinado em Minsk. E para não desmentir tais arreganhos guerreiros sazonais - que os novos mapas indicam profusa e deslavadamente - os ditos rebeldes, com o apoio de Moscou, progrediram bastante na sua metódica e encomendada apropriação para alheia serventia das plagas da extrema Ucrânia oriental, tão convenientemente dispostas junto da península da Crimeia (a primeira conquista de Moscou em abril de 2014).

            Kiev paga agora a sua negligência das províncias orientais, de fala russa. Enquanto a ocidente, o ucraniano é a língua franca, a leste predomina o idioma do poderoso vizinho do Setentrião. Segundo referem visitantes nos rincões orientais, o braço da metrópole semelhava meio ausente, o que gerava resmungos e desafeição. Havia também no Leste geração de nostálgicos da velha URSS. Compondo o quadro, malgrado a riqueza de certas áreas – como a bacia de Donetsk – com tal presença meio absenteísta do governo de Kiev, aventureiros e descontentes aí encontravam o terreno favorável justamente  que Moscou, com apoio dessas franjas irredentistas, encontraria para facilitar os respectivos projetos de conquista.

            Dizer hoje que a fronteira da Federação Russa com a Ucrânia é apenas linha indefesa no mapa reflete laxismo que não é de hoje. Tampouco não saber onde começa o FSB (que é atual designação do antigo KGB) não é figura de linguagem, mas incômoda realidade no governo ucraniano. Nesse contexto, não surpreenderá que se proponha abertamente que se descarte o atual Estado Maior em Kiev, para estruturar um outro que não esteja infiltrado por espiões e simpatizantes do Kremlin.

              Por isso, para o aventureirismo imperialista de Vladimir Putin, não há melhor limite do que a fronteira da Ucrânia. Com tal vizinho nostálgico das antigas extensões da União Soviética, mais do que uma omissão, constitui grave erro mantê-la apenas fiado na cartografia, sem qualquer outra elementar precaução.

            Os avanços na Transnístria e na Abkhazia do Sul refletem tal apetite, que Putin cuida de alimentar e aguçar.

            Que me perdoem Frau Angela Merkel e Monsieur François Hollande, mas como está estruturado o projeto de ajudar a Ucrânia contra o urso russo tem demasiadas semelhanças com outro plano salvador da paz no século passado, esposado por Neville Chamberlain e Édouard Daladier, no auge do apaziguamento de Adolf Hitler (Munique, 30 de setembro de 1938).

           É trazer água para o moinho de Vladimir Putin reunir-se com ele para supostamente costurar a paz entre Moscou e Kiev. Será ainda melhor para o presidente russo compor o quadro da negociação com a pré-condição (colocada pela Chanceler alemã) de que não se concedam armas letais à Ucrânia...

           Um dos problemas principais do Presidente Petro Poroshenko é estar à frente de país com fronteiras porosas e forças armadas com armamento deficiente. Dessarte, os rebeldes do Leste tem avançado bastante – como o mostram os mapas – na sua preparação da próxima ligação com a Criméia, que já virou província russa.

           O pequeno presidente da Rússia gosta de receber nos salões do Kremlin – que espelham a antiga opulência dos velhos tzares, e de seu propósito de impressionar vizinhos e vassalos – o que fez com prazer, ao se prestarem Merkel e Hollande ao fútil exercício de discutir sobre a paz com o imperialista Putin.

           Diz o velho ditado, que quem ignora o passado, está condenado a repeti-lo. Reunir-se com Vladimir Vladimirovich é um exercício de quase inutilidade, se chegas ao encontro marcado com mãos abanando.

            Putin está disposto a arrostar as sanções comunitárias e as meias-medidas que lhe trazem a Merkel e Hollande. Acaso lhes terá escapado a observação do Senhor do Kremlin que, em termos de Acordo de Minsk, não concorda em recuar dos avanços alcançados por seus destacamentos e os dos aliados rebeldes, às custas das terras ucranianas.

            Putin é cópia escarrada mais para Mussolini, do que Hitler. Aquele, pela sua ênfase no aspecto histriônico, dele mais se aproxima.

            Confiar na diplomacia, sem qualquer instrumento ou meio de pressão, é prestar-se ao jogo do Presidente russo. Apodá-lo de poder regional como o fez Barack Obama é singrar as mesmas águas do que o seu predecessor George Bush, que se deu muito mal tentando barrar o caminho deste mesmo Putin, nos episódios da Geórgia e da Moldova. A linguagem que este gospodin respeita não tem sido usada até agora pelo Ocidente, o que lhe tem aproveitado bastante na sua metódica apropriação sob encomenda das alheias terras da Ucrânia oriental.      

( Fontes subsidiárias: The New York Times, O Globo )


[1] Senhor, em russo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A Cara de Pau de Lula


                                        

          Na coluna de Ricardo Noblat, que é ponto de encontro marcado para o leitor nas segundas-feiras, revisitamos a cara de pau de Lula da Silva, que ainda crê factível, nessa altura do campeonato, depois de Mensalão e agora Petrolão, manipular a notícia e pensa possível impingir-nos a mentira, como se verdade fora.

          É época de carnaval, mas não pense, por favor, que está de volta o bom-mocismo e a ingenuidade dos bailes de outrora. Os tempos mudaram, não sei se no geral será para melhor ou pior.

          Forçoso, no entanto, será reconhecer que a realidade de Lula, assim como a de Dilma, será tão veraz quanto a cor dos respectivos cabelos. Não é que o torneiro-mecânico, o indômito líder que em tempos idos chamou Sarney de ladrão – muito mais tarde encheria a boca para afirmar que Sua Excelência não era um cidadão comum – e hoje renunciou aos cabelos grisalhos, e os pintou da mesma cor acaju dos de Dilma...

         As fotos da dupla aos cochichos – e eles protegem os grandes segredos que guardam, tapando cuidadosamente os lábios para evitar a indiscrição dos leitores labiais – é característica das reuniões do Partido dos Trabalhadores. Hoje, como temem o povão, eles as realizam a portas fechadas. Quem tanto mudou dos tempos do pequeno partido ético e aguerrido, quase estalinista nas suas práticas – não é que puseram pra fora uns poucos eleitos que tiveram a ousadia de votar em Tancredo – é inteligível que tenham de limitar o ingresso a um punhado de gatos gordos, como o foi em Fortaleza, e há pouco a festejar os trinta e cinco anos, o fizeram para homenagear o caixa do PT, João Vaccari Neto, que resistiu o quanto pôde ao ser levado pela Polícia Federal para uma delegacia, a fim de depor.

           Lula se gaba não só de esperteza política, senão da própria rejeição do conhecimento e da informação. Já declarou alto e bom som que tem azia pelo que consta da imprensa. Não são só os avestruzes que enfiam a cabeça na areia em horas de perigo. Lula, também, há de ler sempre menos, e de cochichar sempre mais com a discípula Dilma (que há pouco lhe deu boa rasteira, barrando-lhe o caminho para postular nova eleição). Como há muito a dupla mergulhou no mundo dos segredos – primeiro, o mensalão – em que, malgrado Joaquim Barbosa, ainda pôde sair no lucro – e agora, o petrolão, que é uma revisita piorada e cujo fim – ainda desconhecido – a Deus pertence...

            Não creio que Lula da Silva haja lido ‘1984’ de George Orwell. Aí, no entanto, a sua intuição há de funcionar, e seria como se o tivesse perlustrado e até decorado... Como disse Noblat no exórdio da coluna, quem ousaria tanto afirmar que “a recente campanha eleitoral foi a mais suja. Aquela em que nossos adversários utilizaram as piores armas para tentar nos derrotar. Tentaram fraudar a vontade política da maioria, usando todos os seus recursos de comunicação para manipular, distorcer e falsear?”

             A desfaçatez tem um limite. Talvez seja por isso que as ‘reuniões dos companheiros’ precisam ser a portas fechadas. Depois de tudo o que fizeram – com a ajuda prestimosa dos órgãos públicos aparelhados no figurino chavista – não espanta que tenham medo de aglomerações não-controladas,  em que o Povo Soberano apareça...

 
( Fonte: Coluna de R. Noblat, em O Globo )

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Colcha de Retalhos C 5

                

Eike Batista – considerações

 
      De sétima maior fortuna do planeta à situação atual , a condição do empresário Eike Batista coloca questões importantes que não concernem a ele apenas, mas a toda a sociedade.

      Há vários aspectos a ser considerados, envolvendo questões éticas, psicológiacas, salvaguardas no mercado acionário, medidas de proteção aos acionistas, defesa do interesse macroeconômico, eventual intervenção preventiva no âmbito industrial e fazendário, e, não por último, salvaguarda dos direitos do réu.

     Não conheço o Senhor Eike Batista, nem tenho qualquer outro interesse na matéria que não o do cidadão. A democracia não é apenas um biombo a que são chamados os eleitores para escolher seus dirigentes e representantes. Ela também deve prevalecer em outros planos, em que o respeito ao acionista e a todo  cidadão  (inexiste ou não deve existir em qualquer plano diferença entre o cidadão comum e aquele dito privilegiado. Tal distinção se funda em errônea premissa o que talvez explique  parte do descalabro que o Brasil ora atravessa) deve  ser tônica corrente, não a mutante circunstância.

      Como há de intuir o leitor, esses direitos e deveres têm mão dupla. A autoridade, seja ela de que ramo for, deve pautar-se pelo respeito ao interesse público e àquele do cidadão.

       As árvores e os cidadãos podem ser grandes ou pequenos. Assim, as pessoas eminentes, quando abatidas, surgem em toda a sua grandeza. Não é o caso de Eike Batista, mas tal circunstância não lhe derroga os direitos a que faz jus enquanto cidadão.

       A reversão da fortuna pode ter efeitos pedagógicos para quem a sofre, na medida em que o ajude a melhor valorizar o que realmente interessa em termos existenciais. O aspecto punitivo deve trazer consigo um elemento pedagógico, mas tal não implica em que apenas sirva para humilhar o réu.  

       Eike Batista cometeu, decerto, erros graves de avaliação, e a queda  da empresa petroleira OGX é decorrência disso. A OGX, principal empresa do grupo X, entrou em recuperação judicial em 2013. A degringolada começa depois de outubro de 2012, quando foi divulgada a cláusula put  que previa aporte de US$ 1 bilhão pelo empresário na OGX (atual OGPar, petroleira em recuperação judicial), o qual nunca foi realizado.  Nesse sentido, a inadimplência da put é havido como o marco do início da crise nas empresas do grupo X.

        Talvez tenha sido a aposta do empresário Eike na exploração petrolífera, quando da abertura do leilão do pré-sal, o início de gravosos compromissos de sua parte em uma área que não se revelaria das mais promissoras em relação a outras então arrematas por firmas concorrentes.

         Tem sido difícil a  relação entre a banca que defende o empresário, encabeçada pelo advogado Sérgio Bermudes, e o juiz titular da 3ª Vara Criminal da Justiça Federal, Flávio Roberto de Souza. Em dezembro último, os advogados de Eike Batista contestaram no Tribunal Regional Federal (TRF) a parcialidade do juiz para seguir conduzindo o processo.

             Esse recurso, no entanto, teve um efeito inesperado, segundo o Dr. Sérgio Bermudes.Assim o causídico se referiu à questão: “A decisão é de uma fúria brutal. O juiz Flávio Roberto de Souza está fazendo uma clara retaliação ao fato de termos questionado sua parcialidade na condução do caso.  E esse processo ainda não foi julgado pelo Tribunal Regional Federal”.

             E acrescenta o Dr. Bermudes: “Nós vamos recorrer ao TRF também quanto às apreensões. Não ficou dinheiro nem para comprar o leite do menino, para comprar comida. O juiz calculou, não sabemos como, em US$ 3 bilhões o prejuízo causado por Eike a vítimas (da crise de suas empresas). Mas esse valor ainda não foi decidido. E só seria decidido depois de uma sentença condenatória transitada em julgado.”

            Para o juiz titular da 3ª Vara Criminal da Justiça Federal, as movimentações financeiras de Eike representam risco quanto ao pagamento de indenizações futuras e mesmo de fuga do empresário.

            Até o fim de sexta-feira, seis de fevereiro, não havia estimativa da quantia atingida com a determinação do bloqueio dos ativos financeiros  e imóveis de Eike, dos seus dois filhos, da ex-mulher Luma de Oliveira, além de Flávia Sampaio, mãe do terceiro filho do empresário. A Justiça Federal convocou um perito  especializado para avaliar os bens apreendidos ontem.

            Assinale-se que a apreensão judicial abrangeu a Lamborghini (avaliada em R$ 2,8milhões, outros cinco veículos, um ovo Fabergé (jóia dos Romanoff, do império russo, não se sabe se cópia ou original), um computador, uma escultura, 16 relógios, dois motores de lancha, e até o telefone celular de Eike, além de um piano de meia cauda e R$ 90 mil em dinheiro e R$  37 mil em moedas  estrangeiras.

           Eike Batista tomou decisões erradas que provocaram a respectiva falência. Terá que responder na Justiça pelos prejuízos causados aos acionistas. Mas para tudo há o limite do bom senso. Se as declarações do advogado procedem, o réu não pode ser privado do mínimo necessário para o próprio sustento e o do filho menor.

           As aquisições de Eike em termos de carros e jóias (como, v.g., o ovo Fabergé) semelham indicar tendência para a prodigalidade e consumismo excessivo.

           No entanto, no passado, na época das vacas gordas, Eike Batista ajudou o Rio de Janeiro, custeando obras de saneamento na Lagoa Rodrigues de Freitas, a cargo da CEDAE, que é agência pública subordinada ao Governo estadual do Rio de Janeiro. Nada o obrigava a gastar do próprio bolso despesas consideráveis que ficaram a seu cargo, em benefício da população carioca, se procede o noticiário na imprensa da época de seu apogeu.    

           Por fim, seria oportuno e apropriado que o T.R.F. conhecesse dos recursos apresentados pelo Dr. Sérgio Bermudes e a sua banca. A fortiori, se a realização desse recurso teria – como acusa o advogado – influenciado negativamente o juiz da 3ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, Dr. Flávio Roberto de Souza, parece de elementar justiça que tal questão seja dirimida pela instância superior, com as determinações que couberem atendido o mérito e as questões formais envolvidas.

 
Despenca a popularidade de Dilma  

 
         Segundo a Folha noticia em primeira página o Datafolha aponta queda vertiginosa na avaliação de Dilma Rousseff. Na pesquisa anterior, de 2-3 dezembro de 2014, ela tinha 42% de aprovação (ótimo-bom) contra 24% de rejeição. Agora, a 3-5 fevereiro de 2015, a pesquisa registra a brutal queda para 44% (ruim/péssimo) contra 23 de aprovação (ótimo-bom). Além disso, maioria esmagadora de brasileiros (77%) dizem acreditar que Dilma sabia dos desvios na Petrobras. Nesse contexto, a corrupção é apontada como o segundo principal problema do país.

          Assinale-se que é a mais baixa avaliação de um presidente desde o tucano FHC, com 46% de reprovação em 1999.

          Aumenta, por outro lado, o pessimismo no país.  Mais da metade dos brasileiros (55%) acha que a situação econômica do país vai piorar – o que é o maior índice de avaliação negativa  desde 1997.

           Diante dessa avaliação do Datafolha, Igor Gielow adita avaliações que vão além dos números do instituto de pesquisa. Se os números do Datafolha impressionam negativamente quanto ao desempenho do governo, “é o contexto no qual eles se apresentam  que gera o adensamento das nuvens negras que se instalaram sobre o Planalto desde a reeleição da presidente.”

            Gielow aponta a diferença para o outro grande baque na sua popularidade (as passeatas de junho de 2013). Não há mais espaço para medidas reativas. Todos os elementos que derrubaram a aprovação da presidente estão aí para ficar: a destruição da Petrobrás, os impactos políticos do petrolão e as dificuldades econômicas. 

            “Inflação e desemprego irão subir para a maioria esmagadora dos pesquisados, e essas são percepções de vida real que nenhum programa eleitoral consegue nublar.”

             Também chama muito a atenção a circunstância de que a corrupção seja colocada como o segundo maior problema do país. Nem na crise do mensalão isso ocorreu.

              Se o lançamento de pacotes ou medidas não mais inspiram confiança, para os entrevistados “sai a Dilma decidida e sincera de 2011 e surge a presidente indecisa e falsa – e desonesta, segundo nova aferição que contraria a avaliação que pesquisas internas do Palácio sempre fizeram.

              O crescente isolamento de Dilma – derrota na Câmara para Eduardo Cunha – é ulteriormente demonstrado como ela está objetivamente só na política o indica a pífia e decepcionante escolha de Aldemir Bendine para o lugar de Graça Foster na Petrobrás.

              Depois de buscar tanto tempo na missão impossível de manter a amiga na Petrobrás, a saída para a seleção de Bendine pouco ou nada acrescenta, sublinhando a falta objetiva  de condições para a Presidenta lograr  uma saída por cima para a maior empresa nacional.

              Preparem-se, portanto, para os tempos interessantes que os chineses tanto temem, porque a dinâmica do Petrolão está apenas no começo. A escrita na parede aparece agora mais firme e determinada, e os que escaparam, seja por astúcia própria, seja por inépcia política da oposição da borrasca do Mensalão, desta feita deverão ter pela frente desafios (e ameaças) bem maiores.

 

( Fontes:  O Globo, Folha de S. Paulo )

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Notas da Crise (2)



Bendine na Petrobrás

        Confirmada escolha e queda nas ações, não surpreende a opção de Dilma. Ela não está interessada em grandes nomes – algum, por acaso, em seu ministério? – mas em pessoas que possa controlar.

        Tampouco cogita de grandes reformas. Conta com o banqueiro bem-sucedido no Banco do Brasil, para que faça os ajustes necessários na Petróleo Brasileiro S.A. para tapar as sangrias e tornar a empresa de novo rentável.

        Mais ou menos como agiu no B.B., mas sem a derrapada do empréstimo para a amiga socialite, que está sub judice.

 

PT: A Festa dos 35 Anos

        

      O aguerrido partido dos trabalhadores, que procurou modificar a política no Brasil, com o rigor ético, há trinta e cinco anos atrás, se revisitado agora por alguém que  recobrasse a consciência, o que acharia ele do PT de hoje?

      Assim como no velho Oeste, as carroças se fecham em círculo, na expectativa dos ataques. As reuniões agora estão fechadas para o povo – como em Fortaleza no ano passado, em Belo Horizonte, ontem.

      O tesoureiro João Vaccari Neto, acusado de receber propinas da corrupção na Petrobrás para o PT, e levado à força pela Polícia Federal para prestar depoimento em delegacia, foi aplaudido por petistas e defendido por Lula.

      Este último, que por azia enjeita a leitura, disse: “Na dúvida, fique com o companheiro.” Mas que dúvida, ó Lula? Como mostrou Chico Caruso, as tuas impressões digitais estão por toda a parte na Petrobrás...

      Na mesma linha, Dilma conclamou o partido a resistir “ao golpismo” dos adversários...

 

A Inflação continua subindo               

 

           Os preços medidos pelo IPCA – índice usado nas metas do governo – registraram alta de 1,24% em janeiro, o maior índice desde fevereiro de 2003 (quando houve a alça motivada pela posse de Lula).

          

           Nos últimos doze meses, a inflação rompeu o teto da meta e atingiu 7,14%, segundo  o IBGE. Analistas preveem inflação de 8% este ano, bem acima do teto da meta, que é 6,5%.

                            

( Fontes:  O Globo, Folha de S. Paulo )     

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Notas da Crise

                      

Nona Fase da Lava-Jato

 
          A Polícia Federal deflagrou ontem a nona fase da Lava-Jato. A ação se fundamenta no depoimento do delator-premiado Pedro Barusco, ex-gerente executivo da Petrobrás e braço direito do ex-Diretor de Serviços, Renato Duque (preso pelo juiz Sergio Moro, foi o único indigitado que logrou obter habeas corpus, dado pelo ministro do Supremo Teori Zavascki).
           Barusco, em sua delação, detalhou a corrupção na companhia e afirmou que o Partido dos Trabalhadores recebeu, de 2003 a 2013, de US$ 150 milhões a US$ 200 milhões de propina.

           Por isso, a P.F. fez uma visita à casa do Tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. Ele é acusado de receber diretamente US$ 50 milhões, e por isso foi levado para depor na Polícia Federal. Ele reputa legais as doações recebidas.
           A recepção de Vaccari aos agentes da PF não foi muito amistosa, eis que se negou em abrir a porta. Para adentrar o domicílio os policiais tiveram que pular o muro.

           Barusco, para azar dos corruptos, é metódico. A planilha que apresentou traça o mapa da corrupção com percentuais pagos sobre 87 contratos, e as diretorias envolvidas, inclusive a de Gás e Energia, então ocupada por Maria das Graças Foster (hoje presidente demissionária).
           Contou ele ainda que levava quinzenalmente R$ 50 mil a Renato Duque (o qual nega).

           Para o P.T. todas essas doações foram legais... Assinale-se que o apelido de Duque – My Way – foi utilizado para a operação.

 

Pobre Petrobrás

          Transpirou na internet que Dilma Rousseff indicou como presidente da Petrobrás Aldemir Bendine.  Para evitar as previsíveis reações no pregão, o nome só será divulgado oficialmente quando as operações da Bolsa forem encerradas para o fim de semana.

           Dado o seu histórico no Banco do Brasil, Bendine – se confirmada a dílmica indicação – não é exatamente o grande nome que o mercado esperava.

 

Pezão e Tião Viana no STJ


            Os nomes dos governadores Luiz Fernando Pezão (PMDB) e Tião Viana(PT/AC) chegaram ao Superior Tribunal de Justiça, consoante petição do Ministério Público como citados na Operação Lava-Jato.

            Em nota, o Governador Pezão refutou ligação com a Lava-Jato, afirmando estar à disposição das autoridades para esclarecimentos. Por sua vez, a assessoria de Tião Viana asseverou que ele nunca teve contato com o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa. Viana acionou na Justiça o ex-diretor  e os veículos de comunicação que fizeram “tal ilação mentirosa”.
 

O que fazer da nova Capitalização do BNDES?

 
              Depois das capitalizações do BNDES que começaram com Guido Mantega ( a exultância de Lula com o novo brinquedo), e depois continuadas pelo mesmo Ministro sob o dílmico governo, compreende-se e aprova-se o pedido de comparecimento ao Senado de Joaquim Levy para explicar os motivos da nova capitalização no BNDES.

                Trata-se da MP 663, que entre outras disposições, prevê nova capitalização do BNDES. O montante autorizado  pela Medida Provisória é R$ 50 bilhões.  Além do pedido de explicações, o autor da iniciativa parlamentar Senador José Serra (PSDB/SP) apresentou emenda ao texto da MP exigindo transparência nos dados sobre as operações entre a União e o BNDES.

                De forma apropriada, a divulgação de informações sobre as chamadas capitalizações tem sido uma cobrança constante da oposição, e em especial do PSDB.

          
Reunião para  ‘quebrar o gelo’ ?

 
                 Eduardo Cunha se reuniu a pedido da Presidenta com a própria no Planalto.  Participaram da reunião, além do Presidente do Senado, Renan Calheiros, o vice-presidente Michel Temer, os ministros da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e de Relações Institucionais, Pepe Vargas.

                Na foto, o Ministro Mercadante ora  sorridente, enquanto estava carrancudo na visita a Cunha, quando da apresentação da formal Mensagem do Executivo ao Congresso.  No instantâneo, desta feita, quem menos sorri semelha ser Cunha.

                 A conversa, segundo foi informado, foi de temas gerais, inclusive relação do governo com o Congresso, e terão pregado a harmonia entre Executivo e Legislativo.

                  Talvez mais tarde o recheio desse diálogo possa ser mais precisado.

 
O PT e as Freiras

 
                Com interessante nota-editorial  de Bernardo Mello Franco sob o título acima, se resume o contraste entre o PT da fundação, em auditório de colégio de freiras, e a festa programada para Belo Horizonte. Tal contraste deveria envergonhar o partido e os respectivos militantes.

                Segundo o ex-gerente Pedro Barusco os desvios (que alimentaram as propinas) ocorreram de 2003 a 2011, assim do início do governo de Lula da Silva ao início do governo Dilma.

                O protagonista desse enredo é o tesoureiro do PT, João Vaccari.  O dito tesoureiro nega tudo, “mas o que ele diz não condiz com o que faz.”

                 Poucas horas antes, agentes da PF haviam tocado sua campaínha na zona sul de São Paulo. Embora os visitantes tivessem em mão um mandado judicial, o petista se recusou a abrir a porta. Os policiais tiveram que pular o muro da casa para conduzi-lo à força até a delegacia.  Na nota em que se refere ao depoimento prestado à PF Vaccari afirma que “há muito ansiava pela oportunidade de prestar os esclarecimentos que nesta data foram apresentados à Polícia Federal”.

 

( Fontes:  O  Globo; Folha de S. Paulo)

A Ucrânia pode ganhar a Paz ?

 

         A despeito da má-fé de gospodin Vladimir Vladimirovich Putin, Presidente de todas as Rússias, e de alguns enclaves ao longo de suas fronteiras[1], a diplomacia dos Estados Unidos, assim como a Alemanha e a França se empenham em persuadi-lo no sentido de restabelecer o cessar-fogo assinado em Minsk, na Bielorrússia, em setembro de 2014.

         É difícil determinar que argumentos trazem o Secretário de Estado John  Kerry, assim como os dois líderes de Alemanha e França, a Chanceler Angela Merkel e o Presidente François Hollande.  Merkel e Hollande, depois de encontro de cinco horas com o Presidente Petro Poroshenko, seguem para Moscou, onde discutirão meios de restabelecer a paz com o Senhor do Kremlin.

        A exemplo de seus predecessores Adolf Hitler e Benito Mussolini, a ‘paz’ de Putin costuma ter curta duração, e é apenas instrumento para ganhar tempo na estação invernal, e partir para novos ganhos na primavera.

        A guerra civil entre os ‘separatistas’ da Ucrânia oriental e o governo de Kiev é luta desigual e traiçoeira. Já matou mais de cinco mil pessoas no leste ucraniano, além de deslocar centenas de milhares desde o ano passado.

        Anunciado com o rapto da Criméia – que o Brasil, para vergonha de sua bicentenária diplomacia, reconheceu – esse conflito, fabricado na Rússia, avança aos trancos e barrancos, sob o bastão putinista. O objetivo é tosco, mas com a debilidade das forças ucranianas, não há defesas nas fronteiras a leste para a travessia das tropas de ‘voluntários russos’ assim como para as milícias dos ‘rebeldes separatistas orientais’ – que são armadas, financiadas e dirigidas por Moscou.

         A estratégia pode ser tosca, mas vai dilacerando as antigas províncias orientais da Ucrânia. A cada avanço, sucedem acenos de paz, incentivados por quem, à distância, puxa os cordéis seja dos ‘separatistas’, seja dos amigos de Moscou. E a tática não muda: dos ‘progressos’ da véspera, a trégua serve apenas para preparar a seguinte ofensiva.

         Depois de Minsk, os separatistas retomaram os ataques (obviamente sob direção russa) e se apossaram de mais trezentos km quadrados no leste, inclusive da área do antigo aeroporto de Donetsk. Ameaçam também Debaltseve, pequena cidade em estratégico entroncamento ferroviário.

        Nesta nova ‘ofensiva’ dos chamados ‘rebeldes separatistas’ (na verdade, quintas-colunas de Moscou) a característica dos embates não muda: se a tropa de Kiev se avantaja e ameaça as posições dos ‘rebeldes’, eis que, pelas porosas fronteiras orientais, adentram os ‘voluntários’ russos, para reforçar, com batalhões e armamentos pesados, as ameaçadas linhas dos separatistas.

         Mais uma vez, diante da má-fé de gospodin Putin, Washington considera da oportunidade de repassar às forças legalistas armas letais, que as habilitem a resistir com maior denodo às regulares investidas russas. Trata-se de mísseis antitanque, obuses, radares de campanha, ‘drones’ de reconhecimento, e outras armas suscetíveis de reequilibrar os combates, e convencer Moscou da oportunidade do cessar-fogo, com a retirada de armas pesadas e tropas, assim como respeitar a linha das fronteiras internacionais da Ucrânia.

          Dos obstáculos a serem vencidos se anotam os frouxos controles de Kiev sobre as províncias do Leste, a longa presença de Moscou nas suas relações com Kiev, e a existência de fornido círculo de espionagem russa na capital ucraniana.

          Corroborou velhas suspeitas quanto à seriedade da implantação da rede inimiga a recente prisão do Tenente-Coronel Mykhailo Chornobai. Este oficial infiltrado dirigia círculo de espionagem na capital federal, e repassava segredos militares para agente da chamada República Popular de Donetzk, inclusive a localização de regimentos de voluntários. Com tais informações, as forças pró-Rússia apuravam a respectiva pontaria para alvejar os destacamentos ucranianos. Para que se tenha idéia da extensão do número de infiltrados nas forças legalistas, cerca de trezentas pessoas já foram detidas desde o início dessa guerra não-declarada. As suspicácias de traição envolvem inclusive o Estado-Maior em Kiev.

            Nesse contexto,  há muitas suspeitas sobre a lealdade do Alto-Comando Militar ucraniano.  Segundo Semyon Semenchenko, ‘é difícil determinar aonde termina o FSB[2] e aonde começa a nossa rede militar’. Assim, antes de ser ferido nos cerrados combates em Debaltseve, ele recomendara, numa visita a Washington, que a ajuda militar fosse mandada diretamente para o front, contornando o estado-maior em Kiev.

             Se as coisas chegaram a tal ponto, o melhor seria implementar uma nova estrutura militar, expurgada de elementos sob suspeita de conluio com Moscou. O parecer do analista militar Igor Koziy vai neste sentido: ‘Devemos acaso mudar a estrutura de nossas forças armadas?  Se à primeira vista parece idéia maluca de criar um novo e paralelo estado-maior, por outro lado, se nos dermos conta de o que está ocorrendo no edifício (onde está o comando), você pode até pensar que é a decisão correta.’

             Enquanto a Ucrânia não dispuser de uma força suscetível de impedir os avanços dos rebeldes separatistas com apoio russo, essas reuniões com Vladimir Putin de líderes ocidentais não farão o senhor do Kremlin desistir de seu plano pré-estabelecido, que é criar acessos para a Criméia, e uma base mais sólida no Leste ucraniano, partindo da chamada República de Donetzk, cujos precedentes irredentistas chegam até a derrocada do tzarismo, ao cabo da Grande Guerra (l914-1918).

             Não obstante os óbices, que são numerosos ( sanções de Washington, derrocada na cotação do petróleo, esfriamento de relações com a U.E.), até o presente Vladimir Putin não cede diante de Barack Obama, assim como faz ouvidos de mercador aos reclamos da Chanceler Angela Merkel. Tampouco o demove a maior movimentação da OTAN, assim como o desgaste para com os inquietos vizinhos da franja ocidental (países bálticos, Polônia, entre outros).

             Como com os seus antecessores – que dormem, escarmentados, o fundo sono de Totônio Rodrigues – a diplomacia só terá credibilidade se conjugada com medidas que tornem realmente pouco ou nada rentável o aventureirismo militar de Vladimir Putin.



( Fontes:  The New York Times; Profundamente, poema de Manuel Bandeira )  



[1] Transnistria é território dentro da Moldova; e a Abkhazia, é terra destacada da Geórgia. Essas duas ‘províncias’ estão sob controle da Federação Russa.
[2] A nova designação do KGB.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Petrobrás: Confusões de Dilma

                                   

          A incerteza na Petrobrás, incerteza essa que decorre do desconhecimento de Dilma dos limites de sua ingerência na maior empresa brasileira, constitui a chamada pedra no meio do caminho para a evolução da crise.

          Para Vinicius Torres Freire, Colunista econômico da Folha, assim se resume a questão: “Dilma Rousseff teve dez meses para pensar numa solução para a Petrobrás. Agora, terá 48 horas. Para piorar, ainda não se sabe se a presidente compreende o problema que tem de resolver”.

         Para Miriam Leitão, colunista de O Globo: “A maior empresa do Brasil estava ontem completamente acéfala. Se precisasse de alguém para tomar uma decisão relevante, não haveria. É claro que deveria ter sido convocada uma reunião extraordinária do conselho para a nomeação de uma nova diretoria, até porque a reunião de amanhã nem tem isso em pauta.”

          E, a propósito, conclui Miriam Leitão: “O que a presidente Dilma demonstrou neste evento, que acabou levando à saída de  Graça Foster e de cinco diretores da empresa, foi que os novos dirigentes não terão independência. A qualquer desgosto ou contrariedade, Dilma pode chama-los a Brasília e desautorizá-los.”

          Dilma parece ignorar que o seu poder, mesmo em tempos normais, tem limites.  Computemos agora o fator petrolão, e veremos que, com a decorrente crise, a sua suposta força fica bastante condicionada – e, em verdade, limitada – pelas incertezas na situação.

          Poderá delegar para Joaquim Levy a tarefa ingrata de indicar um candidato para a presidência da Petrobrás. Não creio que isto seja atribuição de Ministro da Fazenda. No faz-de-conta,  transfere  encargo que é dela, enquanto presidente da república.

          Pela situação da Petróleo Brasileiro S.A., com os riscos de ações pela SEC[1], assim como com as incertezas na elaboração de balanço que seja aceitável – eis uma grande interrogação que há de atazanar muito candidato a diretor.

          O segundo mandato de Dilma já começa trôpego. Pensou que a amiga Graça cuidaria da ordem unida dos cinco diretores restantes, quando foi defrontada com a recusa deles em curvar-se aos seus ukases. O poder tem limites e em  mar de procela, cada um cuida de si. Por isso, Maria das Graças Foster ficou de mãos abanando e, com ou sem a devida vênia, também se mandou.

          As listas de candidatos correm na imprensa, e refletem muita vez o viés da fonte. De qualquer forma, a má hora da empresa assusta os candidatos de nomeada. A Petrobrás carece de um grande nome, mas o momento não poderia ser pior. Há dois aspectos que contribuem para restringir o leque, e afastar os pesos pesados.

          A situação da empresa, enfraquecida pelo petrolão, afugenta executivos de renome, como lembra Merval Pereira. Por outro lado, o estilo invasivo e prepotente da Presidenta, com a sua veia estalinista, tampouco ajuda muito, em época de vacas magras e céus enfarruscados.

 

 

(Fontes: Folha de S. Paulo e Vinicius Torres Freire; O Globo e Miriam Leitão).



[1] O equivalente, bastante reforçado, da CVM nos USA.