quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Fim de Reinado ?

                                  

          O velho Lula vai retirando todos os truques da sacola, a sua Candidata se esforça na estridência dos ataques, a vasta orquestra auxiliar de ministros, altos e até baixos funcionários, parlamentares e toda a tropa petista se empenha, por seu turno, na monocórdia cantilena de loas à Chefa em perigo.

           Mas se falam bem da Presidenta, também despejam em contrapartida toda sorte de avaliações negativas sobre a rival. Assim, no amplo estuário da propaganda obrigatória na tevê se desfiam mais qualidades e previstas bondades  no longo, interminável discurso das muitas decantadas qualidades do Primeiro Poste, colocado em 2010 pelo Líder Máximo.

           E não param aí as fotos sob encomenda, as tomadas de grandes obras inacabadas - como a transposição do Velho Chico – e de tudo o que de pretexto possa ser arrumado à guisa de cenário para ulteriores grandiosos projetos.

           A par disso, a campanha da fenomenal  prossegue com o entusiasmo sob encomenda – em tomadas e fotos que nos parecem evocativas do antigo poderio de outro partido hegemônico, o famoso PRI (partido revolucionário institucional) que apesar da aparente contradição resistiu no México por muitas décadas.

          Nosso torneiro mecânico, pensando ter soldado no Partido dos Trabalhadores uma empresa duradoura, ora vê com preocupação que o seu legado estaria ameaçado. Por isso se desdobra, em empenho comovente, na tentativa de salvar a sua pupila em perigo.

         No seu entender, doze anos é pouco para a obra de sobraçar o Estado e de lançar fundamentos para um reinado, com mais doze pelo menos.

         Para tanto, se prodiga e se entrega com louvável denodo na empresa de salvar a nave em perigo.

         Mas como seria isso   possível, se tudo tem sido feito com afinco para reforçar as estruturas e com o dinheiro do Tesouro montar uma nave que se proponha realizar a boa obra, se por boa obra se entende, é certo, a consolidação do domínio do Partido dos Trabalhadores ?

          Essa interrogação é dura para o tarimbado político. Como isto é possível, dada a sua dedicação ? Não se limita, por certo, aos canais oficiais o apoio e o reforço à candidatura de Dilma Rousseff.  Também se conta com as intervenções de intelectuais e profissionais do amplo espectro petista – no caso com a vantagem adicional de as suas opiniões não serem rotuladas com carimbos oficiais e aquela incômoda suspeita que cerca as várias peças da engrenagem oficialista.

          Com as múltiplas exigências, e o desafio - que não obstante tantos rios que se despejam no estuário conhecido  - insolitamente não desaparece, mas dá a impressão de aumentar a cada ataque, a cada dito ferino, a cada investida mesmo abaixo da linha d’água?

           E não é que Lula tudo fizera para prevenir e evitar essa desconfortável situação? E, sem embargo, para sua surpresa, a fatalidade perversa lhe armou uma rasteira daquelas terríveis, daquelas que irrompem não se sabe bem de onde, e que, num piscar de olhos,  mudam tudo!

             Sem querer, a grande aliança serve para pouco e os acordos que acreditava seguros ora se lhe afiguram de pouca valia.

             O problema do poder é que sói cegar os poderosos. O que muita vez está escrito em letras garrafais nas ruas, logradouros e em manifestações, eles o tomam como criaturas similares àquelas que não só lidam, mas constroem no dia a dia. A História, esse amontoado de fatos sem sentido, na verdade fala para quem deseja e pode ouvir. Em geral, os palácios e o luxo embotam a percepção daqueles que antes, quando na planície, assombravam pela esperta visão.

              Lula e sua criatura se empenham em desconstruir o fenômeno Marina. Na verdade, a realidade lhes escapa.

              Em sua coluna de O Globo, José Casado nos presta um serviço, que pode ser de serventia para o líder máximo do petismo. Lula e Dilma, criador e criatura “tentam dissimular um fato relevante que emergiu com as manifestações de rua do ano passado, ganhou corpo nesta campanha e, em boa medida, independe do resultado das urnas dentro de quatro semanas: sobram indícios do fim de um ciclo na política brasileira.”

               É por isso que, a despeito de todo o denodado esforço oficialista, as tentativas de mudar as condições da atual eleição  resultam em nada. O grande Chefe não quer ver – nem a sua pupila. O sentir do Povo, quando entranhado, vira força da Natureza. Não há o que fazer.

 

( Fontes:  O  Globo,  Folha de S. Paulo )  

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Notícias direto do Front

                     

Campanha eleitoral

 

            Traindo o apego ao status quo por pior que seja o Governo, a Folha, em análise de Gustavo Patu, assinala no artigo de referência: “Alvo preferencial de todos os adversários, Dilma recomendou pés no chão: falou de limitações orçamentárias, da crise internacional e da necessidade de barganhar apoios no Congresso.  Inédito em campanhas petistas ao Planalto, tamanho realismo nasceu da necessidade de improvisar um contraponto à ascensão de Marina e seu programa de utopias e generalidades.” (meu o grifo)

             O que se nota em boa parte da imprensa – que vê Marina crescendo nas pesquisas e inviabilizando a oposição preferida (no caso de Merval Pereira, no que tange a Aécio),  ou então no exemplo presente, em que se ataca Marina por promover utopias e generalidades.

              O descalabro público do Governo Dilma e o cinismo de seus defensores de alto bordo é havido como fato existencial, como se fora pesada canga a que deveríamos submeter-nos. Parece que tais senhores e senhoras passaram em branca nuvem os movimentos de junho de 2013, em que a demagogia petista se viu exposta a nu.

              Combater Dilma é combater quem trouxe a inflação de volta, pela sua política econômica irresponsável, sustentada investida contra o Plano Real e a Lei de responsabilidade fiscal. Atribuem submissão a bancos a providência anunciada de dar autonomia ao Banco Central. Como já foi dito, não dispomos de muitas balas para combater a inflação.  Atacar esse propósito de Marina ou é rematada má-fé, ou ignorância crassa. Em todas as grandes economias, a autoridade financeira é autônoma, dispondo para tanto de mandatos adequados. Isso evita o caudatarismo a contingências políticas e ideológicas, preservando o equilíbrio da moeda de investidas demagógicas, como foi o caso nos pródromos do governo Dilma, em que a gastança prevaleceu sobre a cautela fiscal indispensável, levando de roldão a chefia do Banco Central, por ser demissível ad nutum pela Presidenta.

                No segundo debate, realizado em horário vespertino, aos três candidatos – únicos com chances de vitória – foram agregados os nanicos, v.g. o Pastor Everaldo (PSC), Eduardo Jorge (do Partido Verde).  Levy Fidelis, do PRTB e Luciana Genro do PSOL.                 

                 O excesso de partidos no Brasil, como se a possibilidade de crescimento das ideologias fosse uma progressão ad infinitum – situação que foi criada, de forma ,no mínimo, insensata, em jurisprudência do STF – além de restringir o tempo das verdadeiras opções democráticas, contribui para de certa forma transformar esses partidos nanicos em massa de manobra.

                 A extremamente concessiva jurisdição partidária – que permite um desperdício acintoso de créditos a esses partidos (cem mil reais mensais para o PRTB de Levy Fidelix, que perdeu a calma quando qualificado como legenda de aluguel pelo repórter Kennedy Alencar).  No entender de Kennedy, a sua pergunta é legítima, uma vez que o Brasil possui 32 partidos (!), sendo que muitas legendas utilizam o Fundo Partidário como “oportunidade de negócio”. Enfurecido pela pergunta ‘se vivia de negociações partidárias para fazer ataques terceirizados, já que se candidatou dez vezes sem conseguir se eleger’,  Levy Fidelix replicou que  o jornalista do SBT era representante da “mídia vendida”.

 

A Guerra na  Ucrânia

 

                      O  Secretário-Geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Fogh Rasmussen, tenciona formar uma força de emprego rápido, para ações pontuais na sua área, com vistas a defender países atacados por outras potências.

                      Diante da ineficácia das reações pontuais até agora contra as intervenções da Federação Russa na vizinha Ucrânia, feitas com sempre maior desenvoltura por determinação do Presidente Vladimir Putin, há o propósito de criar um instrumento ad hoc que vise a evitar o que a Rússia vem fazendo com a Ucrânia, intervindo na guerra civil, com auxílios pontuais para as milícias separatistas pró-Rússia. Além da derrubada, sem dúvida criminal, do vôo da Malaysian Airlines, com tantas vítimas inocentes, Moscou vem desrespeitando sistematicamente as fronteiras ucranianas, como se fossem terra de ninguém, e adentrando a Ucrânia oriental para subverter a evolução dos combates, favorecendo sistemática e cinicamente as milícias contra o exército ucraniano.  A audácia do Kremlin tem aumentado de forma consistente, e tal se deve à fraqueza do adversário e das autoridades competentes, que se crêem manietadas por formalidades diplomáticas diante de alguém que por elas só tem respeito quando lhe convém.

                        Por isso, dada a disparidade de força militar e a timidez da própria  liderança, o governo de Kiev tem sido até agora presa fácil das armações de gospodin Putin.

                         Sem falar do despudorado desrespeito à norma do direito das gentes, agindo como se tivéssemos voltado às funduras dos tempos hobbesianos[1] do direito do mais forte e da impunidade dos Estados,  as sucessivas e ilegais intervenções de Putin na república da Ucrânia têm provocado muito sofrimento das populações atingidas e grande prejuízo para as vítimas.

                          Uma Força de ação rápida da OTAN, com caráter defensivo, representaria, nesse campo, um avanço de monta, pois tornaria muito mais onerosa  – e não destituída de eventuais consequências – a intervenção do forte sobre o fraco na área do Tratado.

                           É importante, no entanto, ter presente que a sugestão do Secretário-Geral Rasmussen depende da concordância dos países-membros da NATO.  Dada a sua inação até o presente, é de augurar-se que, com os cuidados indispensáveis, a medida seja aprovada. Nesse sentido, há de aguardar-se o parecer do primus inter pares na Organização, i.e. Barack Obama, a quem aproveitaria acolher a iniciativa, desde que com parâmetros responsáveis.

 

( Fontes:   Folha de S. Paulo,  O  Globo,  CNN )   



[1] Thomas Hobbes (1588-1679) filosófo político britânico, provavelmente o maior deles, famoso igualmente pela sua paradigmática descrição da existência primitiva.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A Guerra não-declarada de Putin

                                  

          Segundo todas as aparências o Presidente Vladimir Putin julga possível seguir  adiante, como se nada fora.

           Por um lado, incentiva a reunião em Minsk, na Bielo-Rússia, em que procura desenvolver uma via diplomática para o alegado contencioso. No entanto, mesmo nesse âmbito propõe negociações entre as partes – Kiev e as milícias pró-Rússia, para a concessão àquelas províncias de ‘statehood’. O termo inglês é propositalmente ambíguo, pois não esclarece se se trata de maior autonomia provincial, ou de um novo Estado naquela área.

            Por ora, o presidente Petro Poroshenko tem empregado uma linguagem elíptica, em uma tentativa de não carregar nas tintas ou talvez, se vem aferrando a uma tática negacionista da realidade, como se o fato de não reconhece-la contribuiria a afastá-la.

            No entanto, essa postura reflete uma atitude de fraqueza. A linguagem diplomática, se é concebida para não acirrar os ânimos, não deve ser usada contra a realidade, o que na prática a equivaleria a uma postura de avestruz.

            Para a Chanceler Angela Merkel – que tem sido frequente interlocutora do presidente russo – o que está acontecendo naquele país “não é um conflito dentro da Ucrânia, mas um conflito entre a Rússia e a Ucrânia”.

            Por conseguinte, para a Chanceler da Alemanha, não é uma opção aceitar o comportamento da Rússia.

            Nesse sentido, o governo alemão junto com Bruxelas estuda novas sanções pontuais para a Federação Russa. Isso será feito, segundo afiançou, ainda que as ulteriores sanções europeias terão impacto sobre as companhias alemãs que exportam para a Rússia.

             Empregando linguagem mais forte – e que poderia ser imitada do outro lado do Atlântico – a Chanceler observou que também existe impacto quando alguém se permite mexer com as fronteiras na Europa e atacar outros países com suas tropas.

             É uma descrição do comportamento fora-da-lei de Vladimir Putin. Tem praticado com intensidade crescente – desde a cínica anexação da Crimeia – uma política de gato e rato no que tange às relações  entre Moscou e Kiev. Depois da queda de Yanukovych e a retomada das negociações com a U.E., Putin vem incentivando a desestabilização da Ucrânia oriental. Para tanto, através da infiltração pelas porosas fronteiras orientais, foram criados ou apoiados grupos separatistas pró-Rússia. A região visada, que é na maioria de fala russa, constitui o principal centro siderúrgico da Ucrânia (bacia de Donetsk).

               Foram tentados, como no modelo da Crimeia, referendos para legalizar a cessão branca da região à Rússia. Como por falta de apoio local – continua majoritária, segundo as aparências, a aspiração de continuar na Ucrânia, posto que com mais autonomia – essas consultas pela sua ilegalidade e pela falta de um mínimo de respeito à livre expressão das populações envolvidas perderam qualquer credibilidade. 

               O autoritarismo de Putin, se, por ora, lhe rendeu a anexação da Crimeia, em ambiente de flagrante desrespeito a qualquer liberdade de expressar o dissenso – e valha como parêntese que a diplomacia de Dona Dilma forneceu um triste espetáculo de o Brasil subscrever uma flagrante infração ao direito internacional – tem, por outro lado, contribuído para a volta em caixões para o solo de Mãe Rússia de muitos voluntários.

              Esse tipo de retorno – mesmo para um governante autoritário e admirador do ditador italiano Benito Mussolini – pode não ajudar-lhe em termos de avaliação de opinião pública. Decerto não é nada popular engajar soldados e aventureiros em missões estrangeiras, para acabar deixando famílias acéfalas, sobretudo se se trata de uma empresa imperialista (não é de crer-se que a Rússia careça de mais terras). Por outro lado, essa aventura imperialista, com desenvoltura do século XIX, de gospodin Putin nos traz um fait-divers[1] : Lev Shlosberg, legislador do distrito de Pskov, no oeste russo, sofreu sevícias nesta última sexta-feira por causa de sua denúncia na mídia quanto a mortes de paraquedistas russos empenhados na campanha da Ucrânia. O grupo que o atacou, no entanto, foi de desconhecidos, que não tiveram sequer a fineza de deixar o cartão...

            Compreende-se, outrossim, que o novel Presidente ucraniano esteja ficando pessimista quanto às perspectivas desse contencioso.  Na cidade de Bruxelas, após reunião com líderes europeus, Poroshenko declarou que “Estamos muito perto de um ponto sem volta.  O ponto sem volta é a guerra total, o que já aconteceu no território controlado pelos separatistas”.

            Até o presente, no entanto, o que se observa é a desenvolta invasão das fronteiras ucranianas nas áreas sul e leste. Os blindados russos  estão entrando para desafogar os seus aliados rebeldes separatistas. Assim, as forças da Ucrânia tiveram de recuar do aeroporto de Luhansk, pelo ingresso de um batalhão de tanques russos.

            Os embates tem crescido em volume e importância: quatro batalhões blindados, com quatrocentos homens cada um invadiram a Ucrânia. As forças locais destruíram sete tanques.

            Em visita a Kiev, o Senador americano Robert Menendez  (Dem.-NJ) sublinhou a necessidade de fornecer armamento defensivo para Kiev. O exército ucraniano está mal-equipado, não dispondo inclusive de aparelhos de visão noturna.

          

(Fontes:  Folha de S. Paulo, The New York Times )     



[1] Notícia policial

Mundo, mundo, vasto mundo (II)


                            Mundo, mundo, vasto mundo (II)

 

Saudades de Danuza Leão

 

       Ao ler as primeiras linhas da crônica de Antonio Prata, na edição da Folha de domingo, e a sua falta de qualquer elegância, lamentei duas coisas – que a Folha delas tenha feito chamada de primeira página e, especialmente, o quanto diferiam dos textos de Danuza Leão, que no ano passado recebeu o bilhete azul por algum sub-editor.

      Que diferença mais uma vez senti de suas crônicas de que às vezes poderia o leitor até discordar, mas nunca rotular de vulgares ou coisa semelhante!

       Parece que o discurso das despedidas é cortado sob o molde de estranhos personagens, que costumam pôr a culpa nos caprichos do mercado. Seria como envergonhados, os seus superiores cuidam de poupar-se do inerente mau-caratismo da decisão...

       Mas como, passado o tempo, a sua falta ainda seja sentida, cabe a pergunta: Por que ela ? Será que a qualidade de sua coluna incomodava?

 

 Marina,  a candidata que assusta

 

        Como o fenômeno Marina não é mais miragem, e as prévias da Datafolha estão aí para demonstrá-lo, o nervosismo dos chamados observadores imparciais cresce a olhos vistos.

        Diante do preocupante desmoronamento dos respectivos candidatos – e me refiro à Presidenta Dilma Rousseff e ao ex-governador Aécio Neves – além das críticas decerto patéticas dos atingidos, intervém o coro dos ditos observadores imparciais, que sob o choque começam a livrar-se do alto coturno da própria judiciosidade.

        Assim, o renomado físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite aparece na página de Opinião da Folha para dizer que não se sente confortável em ter como Presidente uma pessoa que professa uma religião evangélica, que no seu Livro Sagrado estabelece um período para a criação, e uma data aproximada post quem.

        Na sua primeira página, a Folha estampa que ‘Marina fatura R$ 1,6 milhão com palestras em três anos’, e acrescenta pundonorosamente “a candidata do PSB mantém sob sigilo identidade de seus clientes’. Tudo isso em letras bem visíveis. Menos à vista, a verificação que tal é prática corrente entre outros famosos, como o professor FHC e o sem título Lula da Silva.

         Por outro lado, depois de menções entre-linhas e discretas observações, o imortal Merval Pereira resolve sair detrás das cortinas e dos parágrafos de seus pensamentos políticos, em que a discrição semelha a regra, e dizer: “o voto útil em Marina, para  garanti-la no segundo turno ou forçar uma derrota do PT já no primeiro, pode ser um tiro no pé nos eleitores que temem Marina presidente mas não querem Dilma reeleita. Nesse caso, fortalecer a votação do terceiro colocado é impor uma negociação política que demarcará um provável governo Marina.”

          O pensamento da direita envergonhada é realmente comovente. Enquanto Marina veio mostrar que a rainha Dilma – que Lula pensara blindar com o dinheiro dos contribuintes através da munificência da bolsa família e quejandos – não era mais o bicho papão de passadas eleições, depois dos elogios pro-forma à candidata do PSB, agora a tripulação da nave que rumaria para o segundo dílmico mandato começa a ficar nervosa.

           A sua reação é ambígua. Tentar desconstrui-la? Recorrer a um desses truques baixos, que depois o estadista Lula apoda de qualquer termo inconsequente, que, sob uma capa de ilusória reprovação, procura desmistificar o delito eleitoral como se fora coisa risível, de somenos importância?

            Não sei se o eleitorado será tão tolo que cairá uma vez mais nas balelas de quem se diz  ‘Nosso Guia’.

            Mas não há negar que a direita está nervosa. A provada incompetência de Dilma para ela constituía um refúgio de última instância. Com a sua fraqueza, a candidatura de Dilma Rousseff ganha em atrativos para quem deseja que tudo fique como está.

           Por outro lado, Aécio Neves ignorou as lições do avô. Integrando em eleições anteriores o cínico bloco do eu-sozinho, pensou haver reforçado para o futuro a sua candidatura. Pensou ser mais esperto do que José Serra e Geraldo Alckmin, embora lhes tenha negado, e de forma inesquecível, qualquer ajuda quando dela precisaram...

          Se o coro anti-Marina continuar a engrossar com tais personagens, ela terá em breve, se tiver juízo, um mar de almirante pela frente...

 

(Fontes: Carlos Drummond de Andrade; Folha de S. Paulo;  O Globo )

domingo, 31 de agosto de 2014

Colcha de Retalhos B 34

                                        

 Getúlio –  3º Volume

 
       Mesmo para os que não leram os dois volumes anteriores da biografia de Lira Neto, recomendo a leitura de Getúlio 1945-1954 (Da volta pela consagração popular ao suicídio), com que se conclui a bem-pesquisada e ampla narrativa da vida de  um dos maiores presidentes da história brasileira.

       Sem tomar partido, o acompanhamento da trajetória de Getúlio Dornelles Vargas por Lira Neto é, em geral, equilibrado e minucioso.

       Em certos aspectos, basta a descrição isenta e pormenorizada para que se tenha ideia da atmosfera que preside à vida do ex-Presidente e recluso da Fazenda Itu, à de candidato a Presidente constitucional, e por fim a seu retorno ao Palácio do Catete, desta feita utilizando não apenas como gabinete e escritório presidencial, mas também como residência, eis que, talvez por lembranças desagradáveis, Getúlio não mais se serviu do Palácio Guanabara como residência oficial.

       O Brasil de então e sobretudo o Rio de Janeiro, capital da república, é um mundo bastante diverso do da atualidade. Mais acanhado e provinciano, as cenas no Palácio Tiradentes nos evocam  atmosfera que se tornaria irrespirável para o Presidente, dada a animosidade que prevalecia nas suas relações com as bancadas notadamente da UDN e a sua chamada Banda de Música.

        A descrição cuidadosa de Lira Neto reexuma esse mundo acanhado, provinciano, em que o fel do ressentimento será notado por Getúlio, seja senador, seja presidente constitucional a cada dia e a cada hora.

        A imprensa imita o estamento político – com a exceção do PTB – na oposição sem peias a quem consideram ainda como o Ditador do Estado Novo. Até o aparecimento do vespertino  Última Hora, de Samuel Wainer – já no último governo Vargas – não havia sequer jornal que defendesse o Presidente. Desde o principal, o matutino Correio da Manhã, de Paulo Bittencourt, passando pelo vespertino O Globo (de Roberto Marinho) até o pasquim da Tribuna de Imprensa (o jornal de Carlos Lacerda) não havia exceções na avaliação de Vargas. Todos, de forma uníssona, respondiam àquela pergunta pelo automatismo de parcial, até monótono refrão: Hay gobierno? Soy contra!  A própria rede dos Diários Associados,  com o oráculo Assis Chateaubriand, vertia o fel de seu negativismo. Era o maior conglomerado de imprensa e radiofonia no Brasil, com 36 jornais, 18 revistas, inclusive a maior delas, O Cruzeiro, e 36 emissoras de radio.

         A única coisa em que a imprensa de então diferia da atual seria na respectiva pluralidade, embora esse aspecto vário não se refletisse num arco de que constassem as diversas visões políticas. A tônica estava na oposição  e as variações em estilo, mas não na substância, que sofria de adiantado processo de provincianismo terminal. Até mesmo  revista nova que entra para fazer concorrência ao estabelecido semanário O Cruzeiro e que luta para ter substância além da boa feição gráfica – a Manchete dos irmãos Bloch – resolveria adentrar pela avenida oposicionista, pela mão do diretor Hélio Fernandes.

          Em termos de penetração popular, o Senador Getúlio Vargas estava em outro nível das igrejinhas que dele escarneciam. O lugar de crítico-mor seria em breve futuro – como nas velhas películas do cinema mudo tudo parecia ter pressa naquela corrida de lemingues – açambarcado por quem viria a confundir-se com o Corvo – e não o de Edgar Allan Poe, quase um brinquedo de criança perto das características do jornalista Carlos Lacerda.

           A bile que destila em sua coluna, a oratória a que a nascente televisão abre as então deficientes projeções, que por mais vezes se resumem a  torrente de apodos cercada de sombras, tudo isso teria a pertinácia (e a mendacidade) das acusações sem base que eram sédula e avidamente acolhidas pela carente  classe média.

           Sem que se pudesse saber, tudo fazia parte de um processo, como em tragédia grega, que algum diretor maluco tivesse transplantado para o trópico. O fim era a destruição do ditador (apesar de eleito com vasta maioria em pleito aberto). Para que tal fosse possível, qualquer pretexto seria acolhido e de braços abertos.

           A oposição tinha sólida implantação nas Forças Armadas de então. Conspirar naquela época para coronéis e generais – com as exceções de regra – constituía uma segunda natureza. As vivandeiras da política – boa parte da UDN e setores do PSD, como Armando Falcão por exemplo – se esmeravam em cultivar os militares (e já aparecem nas páginas de Lira Neto os nomes que pontificariam mais tarde na chamada Revolução de 31 de março).

           Por isso, Carlos Lacerda tomaria a si a triste missão de derrubar o presidente eleito, diplomado e reconhecido pelo Povo. As ofensas contínuas, a comovente má-fé, a parcialidade inabalável, tudo isso contribuiria para criar atmosfera que seria propícia para abater quem chamavam de Tirano. Não importa que não o fosse. Para Lacerda, talvez fiel ao seu namoro com o comunismo (logo enjeitado), o que era relevante seria o dito processo.

            Criada a atmosfera irrespirável, não assombra que repontaria um energúmeno nas hostes governamentais, que pensou fazer um serviço para o Chefe, armando a eliminação de quem lhe parecia um tão exasperante e pernicioso indivíduo.

            A morte do major Rubens Vaz e a participação de sicário da Guarda presidencial, estabelecido o mandante em Gregório Fortunato, criaria as condições para a crise política, a conspiração militar e a exigência do afastamento de Getúlio Vargas da Presidência. Com a dança macabra das traições (a começar pelo Vice Café Filho e o Ministro da Guerra Zenóbio da Costa) foram preenchidos os ulteriores detalhes para efetivar a demissão oportunista do Presidente. O sacrifício de Getúlio Dornelles Vargas não tinha sido inserido no script como suicídio. Estava computado como humilhação terminal ao presidente. Com o gesto extremo, Getúlio mostrou ao Povo quais eram os culpados e quem era a vítima. Venceu porque não trepidou em pagar o preço – mas sem concessões – de o que lhe era exigido. E com isso, mudaria o Brasil.  





Generoso aumento aos Ministros do STF?

 

              Já se comparou a inflação a muita coisa, mas a carestia – e o leitor bem sabe a quem devemos esse presente de grego – é um câncer que corrói o sistema econômico-financeiro, estimulando toda série de fenômenos negativos, dos quais o surto de greves no serviço público e nas diversas carreiras empregatícias é uma triste, lamentável e perniciosa consequência.

              O novel Presidente do Supremo Tribunal Federal vem suceder a quem sai com um alto nível de avaliação popular (o Ministro Joaquim Barbosa). Depois de entoar loas ao trabalhos dos magistrados no Brasil que por cumprirem o respectivo dever garantiriam a paz social, o presidente Lewandowski vai adiante. Prepara projeto de lei ao Congresso Nacional, com um aumento de 22% sobre a remuneração de Suas Excelências.

                R$ 35.919,00!  Ricardo Lewandowski acredita que este é o aumento da remuneração que serve de teto à remuneração de todo o funcionalismo público da União. Como a inflação ainda não está em 22% a.a., deverá haver outros motivos que justifiquem esse polpudo incremento  de R$ 6.457,00. Todo o procedimento do incremento do salário dos Ministros não durou nem cinco minutos. Á toque de caixa, a colenda assembleia aprovou o respectivo aumento, não havendo qualquer discussão sobre o assunto.

                 E, no entanto, além da pressa – que é um sinal premonitório do clima inflacionário prevalente – os Senhores Ministros terão presente que, excetuadas as alturas dos nobres dignitários,  não há registro de aumentos salariais em nove meses? E que o teto do Judiciário produz o chamado efeito cascata.

                 Aprovadas pelo Congresso Nacional as novas remunerações – e alguém duvida que tentarão reduzi-las, para poupar o Tesouro Nacional? – vão repercutir nos bolsos dos magistrados: eis que o salário de ministros  de tribunais superiores e do Tribunal de Contas da União (TCU) corresponde a 95% dos salários dos ministros do STF.  Por sua vez, a escadinha baixa, mas não tanto no salário de desembargadores de Tribunais de Justiça, que corresponde a 95% do valor pago a ministros de tribunais superiores.  Por sua vez, a primeira instância, a dos juízes singulares, em começo de carreira, recebe  salário 5% menor do que o pago a desembargadores.

                  Segundo consta, no entanto, da matéria de O Globo de 29 de agosto, o Presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), João Ricardo Costa, não está satisfeito: “Não é aumento, aumento  nós nunca tivemos. É uma recomposição que reduz as nossas perdas. Não era o que nós queríamos (alega-se 32% de defasagem). A  proposta  aprovada pelo STF é aquém do que estávamos esperando. É um valor que não satisfaz.”

  

Magia ao Luar

                         

                    O último filme de Woody Allen, lançado a meados do ano, retoma um filão a que o veterano diretor americano parece demonstrar crescente pendor. Na sua filmografia, é com óbvio prazer  que ele retorna aos roaring twenties (os ruidosos vinte). Meia noite em Paris é outra película dessa década entre-guerras, na qual a fantasia está presente, o que não é o caso de Magia ao Luar.

                   Espiar nesse pacífico, alegre e despreocupado período parece vir a calhar para o diretor de Manhattan. De um exórdio da Berlim dos vinte – que se diverte com a intensidade reservada aos intermezzi felizes  - de um espetáculo de mágica do falso chinês Wei Lin Soo surge o tema do filme que é o exame pelo cético Stanley Crawford – interpretado por Colin Firth – da suposta médium Sophie (Emma Stone). A tarefa é dada pelo amigo  Howard Burkan (o ator inglês Simon McBurney).

                    A dupla corre para a Riviera, onde W. Allen nos presenteia com a radiosa atmosfera dessa costa mediterrânea, com o azul encrespado daquele antigo mar. Crawford está ansioso em desmascarar a suposta charlatã, armado de seu sólido materialismo e confiante no próprio currículo de caçador de fraudes mediúnicas.

                     A simpatia da jovem prodígio enfrenta o mau humor persistente e as seguidas contestações do caçador de embustes. A paciência de Sophie e o encanto radioso da própria juventude não abalam a princípio o arraigado ceticismo ex-officio, que na insistência da desconfiança vai beirando os limites da cortesia, senão da boa educação.

                     Como a jovem não se abala, e continua a surpreender e a desconstruir aquele que pretende ser o seu algoz, a trama vai tomando um outro rumo que, se se tiver presente o estilo de Woody Allen, que, em surpreendendo, não há de espantar muito os admiradores desse quase isolado grande diretor no pálido cenário da presente filmografia.

                    Não pretendo revelar o segredo do filme. Se a recepção da crítica pode-se considerar um tanto mista, de minha parte apreciei-lhe o estilo conhecido, com frases inteligentes e irônicas, distribuídas por cúmplices velhotas. As interpretações – notadamente de Colin Firth (lembram-se do discurso do rei ?) e de Emma Stone (esta diáfana e radiosa como um fim de tarde nas estradinhas da Riviera) – são primorosas.

                   Os filmes do quase exilado Woody, o mais europeu dos diretores nova-iorquinos, são em geral tarde ensolarada no atual pouco imaginativo panorama do cinema americano.

 

(Fontes:  Lira Neto (Getúlio 1945-1954, Cia. das Letras); O Globo; Magia ao Luar (Magic in the Moonlight), Woody Allen (2014).
 

sábado, 30 de agosto de 2014

Papai Putin bate à porta...


                                     

          É difícil determinar até que ponto o Presidente Vladimir V. Putin quer ir na sua campanha de baixa intensidade contra a Ucrânia. Como se vivesse em um mundo em que inexistisse direito internacional, em que o respeito às fronteiras constitui norma comezinha da lei das gentes, o presidente de todas as Rússias continua a agir de forma esquizofrênica, pairando em esfera que ele pensa sua, a qual em princípio deve permitir-lhe responder aos telefonemas de autoridades de vizinhos países europeus – como a Chanceler Angela Merkel - que porventura lhe peçam explicações sobre as repetidas incursões de seu exército na Ucrânia oriental.

          Com o nível de seu respeito à verdade, não semelha difícil que a gospodin Putin acudam desculpas verossímeis, que possam envolver com uma esgarçada tela as contínuas incursões de seu exército em terras ucranianas.

           No passado, existiam os chamados kremlinologistas, que eram jornalistas estudiosos do mundo soviético e, em particular, de sua instância colegial de governo. Não era, decerto, ciência exata, e muita vez as suas ilações sobre a posição e a influência dos membros do Politburo – que era a mais alta expressão do poder soviético – tinham de sustentar-se na ordem de colocação, sobre o monumento da Praça Vermelha, dos gerarcas soviéticos, na ritual assistência aos desfiles do Exército Vermelho, nas suas grandes datas.

            Na encolhida Rússia da atualidade, talvez a principal preocupação de seu Presidente, estaria na afirmação do respectivo poder internacional. Até hoje Putin guardaria rancor acerca da maneira com que se tratava o seu predecessor Boris Ieltsin, e a não suficiente deferência prestada pelo Ocidente à nova Rússia, saída do inusitado fenômeno da autodissolução da superpotência União Soviética.

           Não é de hoje que a Rússia de Putin brinca de gato e rato com os seus vizinhos menores, como foi no caso da Geórgia do Sul e da Abkazia do Sul. No entanto, George Bush Jr. sofreu na carne a passageira ilusão de que, enquanto superpotência, os Estados Unidos poderiam exercer alguma influência para impedir que o chamado modelo imperialista século XIX pudesse ser empregado impunemente por Moscou.

           Não tardou muito para que o 43º presidente americano se desse conta das tristes condições que pairam sobre os estados colindantes com o urso do Kremlin.  Já o 44º Presidente, Barack H. Obama, pode chamar a Federação Russa de potência regional – ali o jurista Obama sabe que toca em nervo à flor da pele de Putin – porque o que o antigo membro do Grupo dos Oito (dele afastado justamente pelas tropelias contra a Ucrânia)  mais anseia é voltar a ter posição similar à da extinta URSS.

            Se a Rússia é ainda o país mais extenso do planeta, a dissolução pacífica de 1992 a fez perder muito território – como as repúblicas do Báltico, e as suas vizinhas da Sibéria – mas conservou o assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas e a capacidade de influenciar as antigas repúblicas soviéticas.

             Se ainda por cima dispõe de considerável arsenal termonuclear, e a possibilidade de alimentar fumaças da chamada doutrina eurasiana (sob o corte do eclético alfaiate Putin, com suas pretensões de hegemonia a que servem fazendas de direita e esquerda). Esqueceu-me dizer que o braço do ex-KGB  também alcança o acrônimo BRICS...

                  Como já foi dito neste blog – e mais de uma vez – gospodin Vladimir Putin admira il Duce, aquele que inventou o Estado fascista, e que, à distância, lhe ensinou alguns truques como o do torso nu, na batalha do trigo, e o gosto tão italiano da encenação.

                  Nesse contexto, na internet tropecei em uma assertiva do presidente russo que me parece importante, na medida em que lhe desnuda o pensamento (mas também as próprias limitações).

                  Disse o Presidente: “Quero lembrar que a Rússia é uma das nações nucleares mais poderosas. Isto é a realidade e não somente palavras. Não se metam com a Rússia (don’t mess up)”.

                  Não há negar que, por tal circunstância, o presidente russo reivindica respeito. Dá a impressão, outrossim, de alguém que julga merecer mais atenção do que aquela que vem recebendo. Se não se pode duvidar do poder inerente às armas nucleares, dadas as suas implicações de destruição, na verdade esse poder é muito mais deterrente do que pro-ativo (dadas as impensáveis consequências de seu uso).  Em outras palavras, como instrumento de política esse arsenal se afigura bastante limitado em termos de uso.

                    Até o presente, o acosso da Ucrânia não tem custado demasiado à economia russa. São sabidas as limitações de sua economia. Até o momento as sanções do Ocidente podem ter incomodado Moscou, mas não são de molde a induzir o invasor russo a recuar.

                     O presidente Petro Poroshenko tem continuado a encontrar-se com quem instrumentaliza o acosso de seu país, com o provável escopo de apoderar-se de mais uma fatia de território ucraniano. Nada foi dito pelo governo de Kiev quanto a uma estratégia de reação na Ucrânia oriental e de eventual recuperação da Crimeia.

                      O Kremlin vem forçando a Ucrânia a batalhar em duas frentes, uma contra forças separatistas pró-Rússia (Donetsk e Luhansk) e a outra, em Novoazovsk, contra coluna entre quatro mil e cinco mil de militares russos.  O escopo dessa última incursão – fica a 20 km da fronteira e a sudeste de Donetsk – seria a de minorar o ataque das forças de Kiev contra o bolsão de Donetsk.

                      Caso não baste essa incursão no sul da Ucrânia, se prevê o recurso a um    exército russo com vinte mil homens na fronteira.  Nesse contexto, é importante a declaração do Secretário-Geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen: “Fique claro que tropas russas e equipamento ilegalmente atravessaram a fronteira na Ucrânia leste e sudeste. Malgrado os desmentidos sem consistência,  a real intenção é desestabilizar a Ucrânia como país independente e soberano.”

                       Pode-se dizer que a Ucrânia está sendo ‘castigada’ pelo atrevimento de escorraçar o quisling Viktor Yanukovych – que cancelara a assinatura do pacto com a União Europeia – através da revolta da Praça Maidan.  Como o escopo do então presidente ucraniano era fazer a Ucrania parte da União Aduaneira Russa,  a agressão sistemática contra a Ucrânia, nas suas províncias orientais, faz parte de um programa de desestabilização desse país, com o escopo de transformá-lo em algo similar à Bielo-Rússia.

( Fonte:  CNN )

                        

Dilma desmorona ?

                                         

        Notícias ruins nunca vem sozinhas, como reza a sabedoria popular.  No caso de Dilma Rousseff isso é mais do que compreensível.

        A grande gerente – no dizer de Lula da Silva – se fosse empreendedora privada, já teria falido, pela sua má-gestão da economia, e por uma série de escolhas insensatas.

        Além de ter trazido a inflação de volta – talvez o seu maior equívoco, dentre os erros garrafais com que nos tem mimoseado – a gerentona mostraria em relativamente pouco tempo o quão ilusório e mau-caráter tinha sido o famoso elogio do Líder Máximo.

        Segundo a fonte – que é das melhores – além de enveredar no que chamaríamos de propaganda enganosa, ele o fez, não por gesto de desprendimento, mas com o intuito de vender gato por lebre. Malgrado as advertências recebidas – e não teriam sido de má fonte – o ex-torneiro mecânico decidiu ir em frente, para guardar a carta junto ao peito de possível decisão de, em último caso, entrar ele na refrega.

        Tais espertas cautelas muita vez as levam, as águas do futuro. Como terá determinado, para seu desaponto, quem se intitula Nosso Guia, a astúcia em demasia pode às vezes sair pela culatra.

        Vejam só, ilustres passageiros do bonde Brasil, a peça que pregou o Destino. Lula da Silva, o estadista, apesar de todas as precauções – e, convenhamos, ele as tomou e muitas – ora vê afundar sua candidata de algibeira – cujo pregresso lançamento funcionara à maravilha para a eleição de 2010, desbaratando pela sagrada aliança do caudilhismo com a sólida ignorância, as hostes do então candidato tucano, José Serra, quiçá o brasileiro mais bem preparado para assumir a presidência da república.

         Convenhamos que dona Dilma exagera na sua bagagem de malogros. A economia continua a encolher, e a recessão está aí. Contra a cidadela petista, convergem muitos erros (inflação, gestão ruinosa, encolhimento do PIB, inchação da máquina, excesso de malfeitos – que é apenas o roto disfarce da corrupção,etc.).

          Por isso, o congresso das más notícias não acontece por acaso: enquanto se noticia o encolhimento da economia e a velha recessão, vêm as pesquisas bater nos pregos de um caixão ainda aberto: além de empatar com Dilma no primeiro turno, com 34% dos votos, Marina a ultrapassaria no segundo turno, com dez pontos de vantagem.

          Em tertius, assiste de longe o patético Aécio Neves. Depois de negar, em três campanhas seguidas, qualquer mãozinha aos companheiros tucanos de São Paulo, o neto de Tancredo Neves (que, pelo visto, dele herdou apenas a ambição, mas não a visão política e o bom-senso) se vê consignado à rabeira da eleição.

          O já-ganhou, esse nefário personagem – que reponta por esses brasis afora – é a grande ameaça para Marina Silva. Chegando tão alto, e com tantas risonhas perspectivas,  todo o cuidado será pouco.

           No mar de encômios e abraços que a sauda, ela deve seguir o conselho do jacaré. Nadar com prudência e de costas, semelha mandatório.

(Fontes:  O  Globo, Folha de S. Paulo)