quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Notícias direto do Front

                                

General americano morto no Afeganistão

 
        O major-general Harold J. Greene, com 55 anos de idade, foi morto nesta terça-feira, 5 de agosto, por soldado conscrito, em cerimônia realizada em academia militar afegã.

         O assassínio desse oficial-general – o primeiro desde a guerra do Vietnam – realizado por soldado raso, que atirou a esmo, e não por um talibã, reflete muito provavelmente a difusa raiva contra o prosseguimento da guerra.  O assassino, segundo se assegura, não tem ligações com os rebeldes talibãs, e terá agido em protesto sobretudo contra um governo corrupto que o exército americano, ao retirar-se dessa guerra, deixa no poder.

         O caráter inútil da longa intervenção estadunidense – que recalca outras expedições no passado, igualmente malogradas, e desde o século dezenove, nos tempos do Império Britânico  – terá atiçado tal reação provindas do próprio exército regular.

         A retirada promovida por Obama de uma aventura por que não se sente responsável, afigura-se, portanto, apenas o preâmbulo da inexorável reação do talibã. Esta muito provavelmente empolgará de novo o poder, com as previsíveis consequências.

 

Julgamento de Civis pela Justiça Militar       

 
              Em boa hora, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e congressistas questionam a constitucionalidade do julgamento de civis pela Justiça Militar.

              Quanto à existência dessa justiça castrense, o leitor do blog conhece a minha opinião a respeito, que não carece aqui repetir.

               Creio, por isso, de toda oportunidade a iniciativa da Procuradoria-Geral da República de questionar em juízo o julgamento de civis pela Justiça Militar.

               Nesse sentido, há recomendação da Corte Interamericana de Direitos Humanos que é, como se poderia esperar, contrária a tal prática.

               Espera-se, nesse sentido, que o Supremo Tribunal Federal atue com a presteza necessária e devida.  Trata-se de revogar artigo do Código Penal Militar, de 1969 – em pleno regime militar – que autoriza tais julgamentos.

              O artigo em apreço não foi recepcionado – i.e., não foi aceito – pela Constituição de 1988. É óbvio que em tais condições o Legislativo – ou o próprio Supremo – poderia ter tomado as naturais providências, dado o caráter democrático e o poder civil instituído pela Constituição Cidadã. 

            A matéria em tela, de resto, reflete sobretudo a lentidão do Congresso – e do Supremo – em retirar as consequências jurídicas de um artigo que não  se coaduna com a ordem civil vigente.  Por outro lado, sublinhando tal tendência, nas justiças militares estaduais, foi retirada a jurisdição sobre civis por meio de emenda constitucional de 2004.  Impõe-se, portanto, como assinala o Procurador da República Ivan Cláudio Marx que se dê à matéria em questão um tratamento isonômico.

 

O Escândalo da Vez – A  Farsa na arguição dos diretores da Petrobrás

  

               O escândalo revelado pela última VEJA – que é dentre as CPIs destinadas a virar pizza uma inovação, posto que não no bom sentido – recebe agora mais uma denúncia, que tende a aumentar-lhe o interesse para os faróis da opinião pública.

               Sindicância ou investigação, como remédio para tal procedimento que a PETROBRÁS decerto não merece, a FOLHA em cabeçalho de primeira página aponta: Planalto controlou perguntas e ações da CPI da Petrobrás.

               Segundo se revela, assessores do Palácio do Planalto coordenaram operação entre a Petrobras e a liderança do PT no Senado para combinar a atuação da CPI na investigação da estatal. A coordenação do grupo ficou a cargo do número dois do Ministro Ricardo Berzoini (Relações Institucionais). Dessarte, o Secretário-Executivo da pasta (Luiz Azevedo) ajudou a elaborar o plano de trabalho da comissão. O Planalto destacou ainda Paulo Argenta, outro assessor de Berzoini, para evitar que a CPI saísse do controle. Os dois tiveram acesso antecipado a perguntas da comissão.               

                Grita aos céus a necessidade de que as CPIs (Comissões parlamentares de inquérito), para que se assegure o respeito ao cidadão – e não que se dê oportunidade de montar CPIs chapa-branca, como o finado Orestes Quércia preferia para o preparo das pizzas – e por isso se tenha assegurada a participação regimental da Oposição, de forma em que os seus direitos constitucionais sejam assegurados. 

                Grita aos céus que esse Congresso das quartas-feiras elabore lei constitucional para a designação dos membros das ditas CPIs, em que maioria e minoria devem estar representadas, e a par disso e a fortiori, a relatoria deve ser sempre entregue à Oposição, e não à Situação.  Caso contrário, une-se o apetite à vontade de comer, e nada se apura, e ninguém será indiciado, se a iniciativa couber à maioria e não à oposição.  A raposa pode invadir o galinheiro, mas justamente levando em consideração tal fato, não deve ser a encarregada da investigação.

 

(Fontes:  The New York Times;VEJA; Folha de S. Paulo;  O Globo.)    

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Dilma, a epimetéica

                                               

         Se o termo não está acolhido pelos dicionários, o seu oposto o é.  Com efeito, prometéico está no Houaiss, mas não epimetéico. Esses adjetivos se reportam, obviamente, a Prometeu, o personagem mitológico que deu o fogo à humanidade, e a quem se volte para o passado. Tais termos foram, de certa forma, cunhados pelo grande historiador Arnold Toynbee, autor de Um Estudo da História, que foi o seu magnum opus.

         No seu entender, prometéico  é o inovador, voltado para o futuro, e epimetéico, o conservador, com as vistas no passado.

         Assumindo a presidência pela vontade de seu criador, Lula da Silva, Dilma Rousseff deveria passar a impressão de estar do lado do progresso, ou dentro de terminologia mais afeita aos tempos correntes, à esquerda.

         No entanto, o seu governo – e planos para um eventual segundo mandato – têm mais laços com o passado e certo conservadorismo, do que a grande gestora – nas melífluas palavras de seu protetor e último recurso, nos moldes do velho Maximato[1] mexicano – pensaria transmitir a impressão.

          Senão vejamos.  O bom governante é aquele que não se deixa levar pela corrente. No entanto, não é o que deparamos na administração Dilma. Em mundo que procura aligeirar o Estado, de forma a que tenha visão mais prometéica e inovadora, a nossa Presidenta cuidar de seguir pela trilha das estatais.

          O Globo de hoje nos informa que o seu Governo vai turbinar uma nova subsidiária da Infraero.  Forçada a entregar o Galeão e Confins à iniciativa privada, diante da situação criada pela Infraero – e o usuário de nossos aeroportos conhece essa paquidérmica realidade – a Presidenta apresenta o velho como se fora novo.

          Pelo visto, o PT continua a acreditar no estatismo como solução. De quê, é difícil saber, porque a Infraero Serviços que é o novo avatar de uma visão arcaica que permanece, enquanto a antiga Infraero ficará com o passivo trabalhista de R$ 213,5 milhões.           

          A dílmica movimentação, com o seu desenvolvimentismo do passado, o ônus crescente nos gastos correntes – que se deriva do peso excessivo de cargos nos dispêndios do Estado, gastança esta que não é própria de seu governo, pois também marcou a Administração Lula da Silva, em seus dois mandatos – continua a causar a inchação dos dispêndios do Governo Federal – que se eram 14% do PIB em 1997, passaram para 18,8% do  PIB.

          A compulsão da despesa em Dilma é conhecida. Não é outra a razão pela qual a Administração tem de recorrer a  série de mágicas para dissimular o peso crescente do passivo na Administração, o incremento da dívida pública e todas essas obras inacabadas.

               O muito-governo gera uma contradição, que não é benfazeja, eis que afeta a economia, e através das capitalizações e outros dúbios recursos aumenta a pressão inflacionária, pela inchação de meios de pagamento sem caução fiscal.

               Em termos de carestia, aqui não se faz o dever de casa. Em vez de sanar a economia, se aumentam as pressões inflacionárias, e não menos através de intentos de favorecer o consumo e não o investimento. Já se pensou no peso mais do que inútil, danoso, do enxame de ministérios (que beiram os quarenta) sem atribuições maiores de que a de garantir o apoio de um estamento partidário que é um escárnio ideológico, dado admitir uma pluralidade de posições políticas que não correspondem ao mundo das ideologias, mas apenas à partilha do bolo estatal até às suas migalhas?

               Dilma, no entanto, no Meio Ambiente, resolve economizar. O seu desinteresse no setor não se reflete apenas no Código Florestal, que foi aprovado com deploráveis emendas ruralistas, mas também na ausência de  defesa mais pró-ativa da Amazônia.

               Essa melancólica realidade se reflete nos fatos: no seu mandato, Dilma criou apenas três novas unidades de conservação, e nenhuma delas na Amazônia, que é a região mais ameaçada, (ainda ostenta a maior floresta tropical do planeta).

               Já os seus antecessores, com todos os reparos que se lhes possa dirigir, luzem muito mais forte: Lula, em dois mandatos, criou 54 unidades, e FHC foi o que mais fez nesse setor, com 81 novas áreas protegidas.

               Por isso, embora decerto não tenha ficado inativa, pode-se questionar a circunstância de que o ativismo de Dilma não haja aparecido nesta área do meio ambiente, cuja relevância não carece de sinalização.

               O Brasil não pode se dar ao luxo de primar pela ausência na área do Meio Ambiente. Além da discutível mega-obra da grande usina de  Belo Monte, no rio Xingu,                    com todos os problemas ecológicos que coloca, e o consequente mega-impacto ambiental, neste exemplo, como em outras bandas, a Administração Dilma parece pertencer ao passado, com as respectivas mazelas. Será por isso que, a despeito da relevância, é de gestão tão apagada?

 

( Fonte:  O Globo )



[1] Plutarco Elías Calles inventou o Maximato, quando terminou o seu mandato.  Impedido de reeleger-se por norma constitucional, cuidou de perpetuar-se no poder através dos presidentes peleles (títeres). Quem rompeu com a prática infernal foi Lázaro Cardenas, após aguentar, na década de trinta do século passado, por dois anos o mando do ‘Líder Máximo’.

Putin rasgará a máscara ?

                               

         Francamente, a pergunta tem mais para o retórico, do que a realidade. As dúvidas quanto às reais intenções do Presidente russo no que tange à Ucrânia – a quem parece não perdoar haver escorraçado o seu fiel servidor Viktor Yanukovich pela revolução da Praça Maidan – não se sustentam se nos dermos ao trabalho de singela análise lógica.

         É pacífica a atitude do Kremlin quanto ao novo governo de Kiev, com a eleição já no primeiro turno do presidente Petro Poroshenko?   Depois de sua operação de conquista da Criméia, que pelo cinismo e audácia recordam as operações das ditaduras do chamado Eixo no período de entre-guerras, Vladimir Vladimirovich Putin tem perseguido com comovente constância dois escopos que para ele não são conflitantes: confundir o Ocidente e o governo ucraniano com palavras de paz, ditas pelos seus dóceis canais informativos, a par do propósito de desestabilizar a área objeto de sua cobiça.

         Talvez para alguém ignorante da realidade na região, o falar em paz enquanto prepara a guerra, implicaria em contradição. Na verdade, não o é.

         Vejam ilustres passageiros do bonde da história. Diante da aparente deterioração da tentativa de desestabilizar – e possivelmente incorporar – a região oriental da Ucrânia, com o avanço do exército ucraniano, e a lenta e gradual retomada da área sob controle desse elemental político, que é o separatismo pró-Russia, calam-se as melífluas palavras de paz e volta a movimentação bélica na fronteira russa.

         Se a carta das milícias separatistas pró-Moscou não mais satisfaz ao escopo de gospodin Putin, eis que engrossa o número de batalhões na fronteira – de dezenove mil passam a 21 mil – com infantaria, blindados, artilharia e defesa anti-aérea a poucos km da fronteira com a Ucrânia.

         Esse súbito flexionar de músculos militares não se limita, no entanto, a essa arregimentação, de que o bom Vladimir vem cuidando. Cresce também o poder de fogo, com o número de unidades de mísseis terra-ar de oito para catorze, além de trinta baterias de artilharia.

         Há um outro aspecto que se encaixa em operações anteriores, como a atrevida ação da conquista da península da Criméia. Pois não é que agora reaparecem as insígnias que designam as unidades de benfazeja operação de manutenção da paz? Vê-se, portanto, que, na prática, Vladimir Putin é um admirador do mundo descrito por George Orwell[1] !

         Assim, se esta estranha concentração militar tem a ver com o malogro da opção n°1,  isto é, intervir sob a capa de suposta manutenção da paz, se o plano ‘A’ – o dos separatistas pró-Rússia – estiver indo para o brejo.

         Dessarte, se além de Luhansk, e o setor mais a ocidente da área oriental, estiver retornando ao controle ucraniano, entrariam em ação as brigadas russas para reforçar o castelo de cartas hoje sob domínio das ditas milícias.

               Os combates se acirram no entorno de Donetsk e nos bolsões orientais.

               Até o presente, os Estados Unidos e a União Européia tem seguido estratégia de dissuasão por meio de sanções pontuais – como no que tange à explotação do Ártico – na tentativa de dissuadir o Presidente russo de levar adiante a sua mal-camuflada agressão da Ucrânia.

               Por fim, a matéria do New York Times alude à possibilidade de que através de sua ação militar o presidente Putin tenha o escopo de alcançar solução política.

               Esta pareceria ser a impressão do Presidente Barack Obama. Até o presente, no entanto, os avanços da Federação Russa tem sido à custa do braço militar, como nas pequenas repúblicas da Ossetia e da Abkazia do Sul, extraídas da Geórgia.

               Depois da anexação da Crimeia, acreditar em anódinas soluções políticas, ainda mais quando até agora desenvolvidas com comovente apoio militar, é um caminho a ser trilhado com muito cuidado, eis que os fatos têm costumado contradizer esses pios e supostos propósitos do Presidente de todas as Rússias.

 

 

(Fontes:  The New York Times,  O  Globo)  



[1] George Orwell (1903-1950), escritor satírico inglês, autor de ‘1984’ e ‘Fazenda Animal’.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

PIF PAF (VI)

                                                

            Outra Escola Atingida

 
            Nesta guerra entre Israel e o Hamas, novo ataque aéreo contra escola das Nações Unidas provoca a morte de dez civis palestinos, dentre os quais número impreciso de crianças.
            O Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon considerou o bombardeio “um ultraje moral e um ato criminoso”. Por sua vez, os Estados Unidos qualificou de “vergonhoso” esse ato, o terceiro contra instituição de ensino da ONU em onze dias.

            É prática do Hamas e também da Jihad Islâmica  servir-se de virtuais escudos humanos, de culto (igrejas e mesquitas) ou civis (escolas e até hospitais) para tentar escapar dos ataques aéreos e da artilharia israelense.
            Como se há de verificar, portanto, neste jogo de gato e rato, no enorme cortiço que é Gaza, as condenações podem ser relativizadas com muita, talvez demasiada, facilidade.

            E é aí que mora o perigo. 

 

            UPPs  pra que  servem ?

 
            Há vários interrogações sobre o programa das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs)  lançado com a primeira UPP, a da Favela Dona Marta, e hoje bastante desenvolvido, por mérito sobretudo do Secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame.

            Talvez a maior interrogação não esteja na retirada do Exército, e na entrega para a Polícia Militar, nas ocupações nas Favelas, sobretudo as maiores e com mais resistência da criminalidade, como é o caso do Complexo do Alemão, cujo reingresso sob o domínio da autoridade governamental e não mais do Tráfico, foi saudado com muito, quiçá excessivo otimismo, em 2010.

             O candidato Pezão, a quem Sérgio Cabral passou o governo do Estado, não decola nas pesquisas (está em terceiro lugar). Em primeiro lugar, por ora, se encontra o ex-governador Garotinho, cuja gestão anterior, começou com boas expectativas, e a participação na Secretaria de Segurança de Luiz Eduardo Soares e seu grupo.  Depois, a coisa deu chabu.

           Salvo erro ou omissão, não há declarações dos demais candidatos – excetuado o governador Pezão – quanto ao seu comprometimento com o atual programa das UPPs.  O único que, a meu conhecimento, se manifestou a respeito, foi o Senador Lindbergh (PT), e  para expressar reparos e restrições.

          O programa das UPPs não é perfeito, mas semelha incomparavelmente melhor ao que antes havia, i.e., na prática, nada. 

             Seria interessante que os demais candidatos, com Garotinho e Marcelo Crivella à frente, fornecessem a sua posição a respeito. No capítulo, um eventual compromisso quanto à permanência do Secretário Beltrame, com carta branca, seria uma mão na roda para o apoio da opinião pública.

                 
              Fraude na CPI da Petrobrás

 
             Desse Congresso das quartas-feiras, até este é  fato novo, em terreno antes não palmilhado. Já é um escândalo que a CPI seja adulterada de forma a que a oposição nela não tenha qualquer vez.  As chamadas CPIs chapa-branca, aquelas que terminam em pizza, o finado Orestes Quercia  já nos mostrara a “serventia”...

            Sem embargo, o processo de transformação do PT continua a pleno vapor. Qualquer semelhança com aquele partido aguerrido, ético, e mesmo intransigente nos respectivos princípios, se alguém viu por aí nos últimos tempos, rogo-lhe o obséquio de  informar o paradeiro.

           Depois da aliança com Paulo Salim Maluf para eleger o ‘poste’ Fernando Haddad, desafia a expectativa a fraude na CPI da Petrobrás, denunciada pela revista VEJA no seu último número.

           É confrangedor que Graça Foster e Sérgio Gabrielli se tenham prestado – segundo a denúncia de VEJA – a tal procedimento.

           Estará a cargo do presidente da atual CPI chapa branca,  Senador Vital do Rego (PMDB-PB), a abertura dos procedimentos para apurar se a presidente  da Petrobrás, Graça Foster, o ex-Presidente Gabrielli e o ex-diretor Nestor Cerveró – e outros - tiveram acesso prévio a esta lição encomendada...

           A oposição quer levar o caso aos Conselhos de Ética da Presidência e do Senado. Terá votos para tanto?

            Por sua vez, Vital do Rego, em nota, destacou a importância da Comissão e disse que qualquer favorecimento que reduza o poder de investigação prejudica os trabalhos.

            Por outro lado, o Deputado Marco Maia (PT-RS) afirmou que defende a investigação das denúncias,  mas não quer que problemas da CPI do Senado contaminem a mista: “Isso não tem nada a ver com a CPI Mista. Não é o momento de politizarmos    o trabalho sério da CPI mista”.

           Quem deseja apostar que vão encontrar algum coelho nesta macega?

 

(Fontes:  Folha de S. Paulo, O Globo,  VEJA)

domingo, 3 de agosto de 2014

Colcha de Retalhos B 30


                               

Cinquenta Anos esta Noite

 
      O livro de memórias de José Serra  “Cinquenta Anos Esta Noite” nos relata os anos que levaram a 1964, vistos pelo então presidente da UNE, o paulista José Serra, a que se segue o trauma do golpe militar, em que o jovem personagem se descobre em outro mundo, aquele dos perseguidos e com a cabeça a prêmio.

      Da travessia do exilado, da súbita mudança de condição, do aturado esforço, sob outro compasso, ditado este pelo desterro, na companhia obstinada da esperança, e da luta sobretudo para mergulhar na terra estranha, e tentar transformá-la em conhecida, Serra nos conta com o cabedal da experiência, as peripécias – cômicas as vezes, mas também perigosas e traiçoeiras - que amiúde perseguem os viajantes do infortúnio.

     Com estilo escorreito, Serra nos transmite  a experiência vivida em condições em que facilidades e  tranquilidade costumam ser a exceção e não a regra.  

     Ao ler as suas duzentas e cinquenta páginas, o que mais impressiona é a capacidade de lidar com desafios e dificuldades, sem desfalecer diante dos mais árduos e chatos, retirando das muitas experiências lições úteis para o futuro.

     Nas páginas da própria vivência,  em que se conjugam a formação do lar e da família, no Chile pré-Pinochet, os estudos universitários sob céus estrangeiros, e os abruptos transes dos golpes, repontam também a regrada burocracia italiana, e o ocasional nirvana do espaço acadêmico americano.

      Nesses anos de formação que a deusa Fortuna, por vezes cruel, por vezes generosa, torna realidade, o leitor colhe igualmente a prazerosa impressão de anos de preparação a um futuro que se intui ou se deseja quem sabe ainda inconcluso.



Guerra Israel – Hamas



       O desequilíbrio nesse enésimo conflito entre Israel e o Hamas (Faixa de Gaza) se reflete nas estatísticas de óbitos, ou melhor, na gritante disparidade do número de vítimas. Lançada pelo governo israelense a oito de julho último, a Operação Margem de Proteção, registra mais de 1600 palestinos mortos e sessenta israelenses. Nesses cômputos, mais de trezentas crianças, as mais das vezes dentro das escolas bombardeadas.

        Enquanto o número de baixas em Gaza reflete a absoluta preponderância de civis palestinos, no que tange a Israel, são poucas as vítimas civis e proporcionalmente avultam os militares.

         Veiculou-se a captura do segundo-tenente israelense conscrito, Hadar Goldin, de 23 anos. O Hamas nega, e o Tsahal fez frenéticas tentativas de descobrir o paradeiro do jovem soldado. O apresamento de um militar de Israel representa para Tel-Aviv o começo de um pesadelo e de longa negociação, pois um prisioneiro vivo na complicada matemática do conflito vale número exponencialmente maior de palestinos presos pela justiça israelense, como a recente última troca de soldado capturado o demonstra (o praça Gilad Shalit permaneceu 5 anos e quatro meses em cativeiro, até ser trocado por 1027 presos palestinos, a 18 de outubro de 2011).

         Pouco depois, as negativas do Hamas são aceitas por Israel. Há elementos para inferir que não há um cativo, mas sim um cadáver.  É o que confirma Israel. Na frieza da comunicação, pressente-se um quase alívio.

            As causas profundas da conflagração estão na negativa de Israel de fazer a paz com a Autoridade Palestina, com a distribuição do território em disputa de acordo com as inúmeras resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Tais determinações são ignoradas ou sabotadas pelo governo de Tel Aviv. A negativa israelense de proceder à partilha e de retirar as causas desse conflito tem mais de sessenta anos. Embora haja inúmeras resoluções do Conselho que determinam a devolução da terra à Autoridade Palestina por Israel (sobretudo na margem ocidental do Jordão), a negativa de Tel Aviv se sustenta, na prática, pelo apoio de Washington.

              Embora a relação entre EUA e Israel seja clientelar, desde os anos setenta Tel Aviv assegurou posição dominante na prática. A despeito de empenho político de presidentes americanos, o apoio que Israel tem no Congresso e povo americanos na prática inviabiliza o cumprimento das resoluções do CSNU. A injustiça com o povo palestino está na raiz de todas as guerras na região. E como há um processo em marcha – o da expulsão dos palestinos de suas terras em proveito dos chamados colonos, com a consequente construção de assentamentos ilegais, mas coonestados por governo e justiça israelenses – a perspectiva é a da sucessão dos conflitos. Não haverá paz enquanto não houver justiça.

               Os opositores palestinos de Israel podem variar na sua atuação. A Autoridade Palestina, com sede em Ramallah, se esforça em respaldar-se nas Nações Unidas, e em métodos pacíficos. Por sua vez, o Hamas, que Israel considera terrorista, domina a Faixa de Gaza, uma língua de terra superpovoada, que é cercada por Israel e pelo Egito. Por seus métodos, é combatida por Tel-Aviv, e atualmente tampouco tem boas relações com o Cairo. Outro inimigo de Israel está no Hezbollah, organização considerada terrorista pelo governo israelense. Esta última, chefiada pelo clérigo Nasrallah tem o apoio do Irã, dispõe de milícia bem armada, com condições até de enfrentar o exército judeu,  tem grande implantação no Líbano, e constitui um dos fatores do ressurgimento de Bashar al-Assad, na interminável guerra civil na Síria.

               As condições existenciais em  Gaza são caracterizadas pela hiper-população, a exiguidade de recursos, e o domínio da área pelo Hamas. Na prática, a comunidade civil nessa área é refém do grupo Hamas, e paga um preço exorbitante em vidas humanas por ocasião de tais conflitos. Na atualidade, como os moradores não têm para onde ir, são os que pagam a trágica conta das operações de Israel, em geral motivadas pelo lançamento de foguetes pelo Hamas, que são ou arcaicos, ou artesanais, contra o território israelense vizinho. A diferença de nível de vida é enorme, e o Hamas julga assim combater quem no seu entender é o invasor das antigas terras palestinas. Uma das tecnologias americanas cedidas a Tel-Aviv destrói desses mísseis cerca de 75 a 80 %.  Mas a porta entreaberta da estatística, nesse caso, também mata e destrói.

                Dessarte, as reações (e invasões) de Israel são periódicas, e sua principal causa está na abissal diferença entre os níveis de vida. Não terá sido por acaso que o então primeiro ministro, Ariel Sharon (falecido em janeiro de 2014, depois de longo coma), decidiu pela retirada de Israel da ocupação da Faixa de Gaza, em janeiro de 2005. A  resolução de Sharon, imposta com punho de ferro, não tinha qualquer motivo altruísta.  Visou a evitar o custo que implicava uma população crescente palestina (então 1,3 milhão), contra apenas nove mil colonos judeus.

                Se políticos corajosos, com a visão que os distingue da raia-miúda, enveredarem pela construção de uma paz verdadeira – que no momento não se divisa, quiçá sufocada pela fumaça dos artefatos bélicos – haverá condição para colocar-lhe as fundações. Por enquanto, tal não se afigura factível. Se a afluente minoria de Israel não ouvir no futuro os reclamos da razão, da justiça e do bom-senso,  até Jeová pode cansar-se desta luta infinda.   



(Fontes: Cinquenta Anos esta noite,  The New York Review; O Globo; Folha de S.Paulo)

sábado, 2 de agosto de 2014

Recessão às portas ?

                                      

        Há muitas notícias nos jornais que nos falam de queda em vários setores da atividade econômica. A manchete da Folha diz: Carros puxam pior queda da indústria em cinco anos.
        Segundo o IBGE, a produção da indústria brasileira caíu 6,9% em junho na comparação com o mesmo mês do ano passado. Foi a quarta queda consecutiva e o pior desempenho do setor desde setembro de 2009 (quando a indústria sofria os efeitos da ‘marolinha’ de Lula, que na verdade se tratava do contágio com a crise financeira internacional de então).

        Em relação a maio, o recuo da indústria foi de 1,4%.  Já no setor de bens duráveis (incluindo automóveis, eletrodomésticos e móveis) houve forte retração em junho último sobre junho de 2013: 34%.  Da queda acumulada da indústria (2,6%) em 2014, 1,9% ponto percentual vem do encolhimento do fabrico de veículos.

        As montadoras estrangeiras – e como o leitor bem sabe não há montadoras nacionais no setor automotivo – FIAT e Ford vão conceder férias coletivas aos trabalhadores em agosto vindouro (que é o primeiro recurso em período de crise nas vendas). Por sua vez, a General Motors avisou aos sindicatos que haverá suspensão temporária de contrato de trabalho.

        Por outro lado, no primeiro semestre, as compras brasileiras de produtos argentinos caíram 20% (importou  50% menos trigo e 28% menos automóveis).  Essa desaceleração da economia brasileira tornará mais difícil para a Argentina sair da crise (o Brasil é o principal destino das exportações portenhas).

        Por sua vez, O Globo, em manchete de primeira página, estampa que a produção industrial caiu em 21 de 26 setores. A crise no ramo de veículos mostra um recuo de 36,3% em um ano. Assim, dentro do setor de bens duráveis, a queda no fabrico de veículos é comparativamente maior a de eletrodomésticos e móveis. Em relação a junho do ano passado, a queda no desempenho industrial em geral foi de 6,9%, e no setor de bens de capital – máquinas para fazer máquinas, houve retração de 21,1% .

         Segundo mostra Miriam Leitão, “há muitas explicações para a queda da indústria, mas há uma única abrangente: o governo errou na política industrial, porque, em vez de remover os obstáculos ao aumento da produtividade, distribuíu incentivos fiscais, subsídios, e aumentou barreiras às importações”.

               A colunista de O Globo assinala que é errado escolher setores e empresas para serem campeões nacionais: “deu errado no governo militar e fracassa novamente agora”. Se a Copa foi uma razão pontual, com a sua série de paralisações,  as dificuldades principais são outras. “Os impostos já chegam a 38% do PIB e só alguns setores recebem benefícios”. Mas há outros indicadores negativos: a infraestrutura continua capenga, a taxa de investimento caíu para 17,7% do PIB e a taxa de poupança baixou (12,7% no primeiro trimestre).

              O fator energético, cujos custos foram reduzidos em 2013, disparou em 2014 e virou uma interrogação para o futuro.

              Por fim, no setor de financiamento de campanhas políticas – em que a economia decerto interfere, mas sobretudo a avaliação da perspectiva do(a) candidato(a),  Dilma Rousseff arrecadou R$ 9,6 milhões no primeiro mês de sua campanha pela reeleição 35% a menos do que havia conseguido em período equivalente em 2010.

               Por sua vez, Aécio Neves arrecadou entre R$ 10 e 12 milhões (Serra arrecadara  R$ 4,7 milhões ). Já Eduardo Campos arrecadou neste ano R$ 8,2 milhões.

              

(Fontes:  O Globo,  Folha de S. Paulo)

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Diário da Mídia (XXI)

                                        

Deterioração nas contas governamentais



                No primeiro semestre do ano, o superávit do setor público (União, estados, municípios e empresas estatais) teve uma queda de 44% em relação ao mesmo período de 2013. É o pior resultado desde 2002.

                O total geral para o semestre foi de R$ 29,4 bilhões. Em junho e maio houve déficits primários, respectivamente R$ 2,1 bilhões e R$ 11 bilhões.      

                A meta da economia para o superávit primário (R$ 99 bilhões) deste ano se tornou muito difícil de atingir. Esse superávit primário se destinaria ao pagamento dos juros da dívida para 2014. Como no primeiro semestre, o que se economizou para esse pagamento foi de R$ 29,4 bilhões, só um milagre – e milagres não costumam acontecer em contas públicas – tornaria possível um total de R$ 69,6 bilhões.

                Os déficits primários ocorrem quando se gasta mais de o que se arrecada. Ao invés de fazer o dever de casa, a Fazenda pode lançar mão da chamada contabilidade criativa, que, como no ano passado, não passam de truques fiscais. Servem apenas para enganar o mercado por um curto período, até que a realidade reponte.

                Nesse contexto, já há especialistas que discernem falta de sustentabilidade no controle do endividamento.  Gastar mais de o que se arrecada resulta de uma ‘política do governo’, que não se sustenta no prazo médio.

                O que não é novidade. Qual é o destino de qualquer empresa ou núcleo familiar que gaste mais do que ganha?  Problemas crescentes de crédito que tendem a agravar-se com o efeito cumulativo.
               

 Crise Argentina   

 

                  Será que o governo peronista de Cristina Kirchner  é o retrato da Administração Dilma Rousseff se esta lograr vencer as próximas eleições ?

                  A grave crise enfrentada pelos nossos vizinhos já ameaça repetir o desastre do início da primeira década deste século.

                   Há muitos fatores negativos. Baixas reservas cambiais restringem a ação do Governo. Por sua vez, o calote provocado com a disputa judicial com os chamados ‘fundos abutres’ – por uma decisão polêmica de juiz de New York – cria imprevistas dificuldades para o pagamento.  Mesmo na hipótese de acordo nos próximos dias, os efeitos negativos serão bastante para acarretar alta do dólar, aumento da inflação e queda nos investimentos.

                 Nesse sentido, o Produto Interno Bruto terá uma queda de 3%. Diante da crise, e da consequente falta de recursos, as exportações brasileiras para a Argentina tenderão a sofrer. No primeiro semestre, caíram 20%, e as de automóveis, por não serem de primeira necessidade, decresceram ainda mais (para 30%).      

                 É uma sinalização lamentável que a crise volte a bater com força na economia argentina, em um período relativamente curto. Resta muito pouco tempo, segundo se assinala,  para que a moratória de técnica se transforme em efetiva.  Em prazo curtíssimo, pode acontecer a corrida para o dólar – que é sempre o refúgio preferido pelos portenhos para as borrascas financeiras – o que levaria a forte desvalorização do peso. Ter-se-á em mente que, com reservas escassas, a Argentina não dispõe de meios para contra-arrestar  um eventual e maciço ataque ao peso argentino.        



(Fonte: O  Globo)