sábado, 15 de fevereiro de 2014

O Elefante na Sala de Estar

                                   

      O gerrymander existe em toda parte, mas em nenhuma democracia  ele está sendo utilizado de forma tão aberta e descarada quanto nos Estados Unidos dos dias atuais.
        Valho-me neste blog de dois artigos, o de Andrew Hacker[1] e aquele de Jeffrey Toobin[2]. Devo igualmente mencionar a politóloga Elizabeth Drew, pelo seu relevante trabalho de conceituação desse tema, e da complexidade política em geral.

         Se o gerrymander é invenção estadunidense, não surpreende que em democracias com representação distrital essa fraude política, urdida por Elbridge Gerry, governador do estado do Massachusetts em 1811, seja fenômeno corrente. Sem embargo, o próprio Gerry ficaria decerto lisonjeado pelo ardor e a extensão com que a sua criação vem sendo imitada nos dias que correm na terra de Tio Sam.
               Por que gerrymander? Gerry redesenhara os distritos eleitorais de Massachusetts de tal forma que eles se assemelhavam a salamandras. Daí se cunhou a prática, com a simbiose de Gerry e salamandra.

               Hoje em dia, conquanto os democratas não sejam imunes de tal deslize, não há negar que o Partido Republicano é o principal beneficiário do processo.
               Antes de especificar aqueles estados em que esta prática fraudulenta se tem assinalado – para tanto o software do computador transformou a arte do gerrymander, nas palavras do jurista Toobin, em verdadeira ciência – semelha oportuno assinalar característica hodierna importante do Grand Old Party. Por força de suas bases, o Partido Republicano se arrima em correntes conservadoras e mesmo reacionárias. Enquanto o Partido Democrata atrai as minorias – as quais por sua união se tornam maiorias – o GOP, o partido do status quo a despeito de dispor de simpatizantes determinados e intransigentes, tem um problema com o pluralismo do seu principal adversário.

               Posto que esquerda não seja vocábulo bem visto nos EUA, o observador atento logo se há de aperceber que os republicanos defendem a ordem estabelecida, vale dizer, as grandes empresas, os grandes negócios e seus privilegiados executivos. É intuitivo, portanto, que sintam um problema com o número dos eleitores. Nesse contexto, o GOP tem adotado estratégia voltada contra o número. Para dar um exemplo: os Estados Unidos da América gostam de marcar a sua diferença. Afinal de contas, apesar do chamado declínio, continuam a ser a superpotência. Daí, persistem em enjeitar o sistema métrico que é adotado mundialmente, preferindo o arcaico sistema dos pés e polegadas. Outra singularidade: no mundo lá fora, o vermelho é a cor característica da esquerda, mas não nos EUA. Lá, o vermelho é a cor do partido da direita conservadora, o GOP, enquanto os liberais do Partido Democrata preferem a cor azul...
                A estratégia republicana contra o número há pouco recebeu senhora ajuda da Corte Suprema. Sob especioso pretexto, a maioria de direita da Corte anulou relevante conquista do governo de Lyndon Johnson. Os estados do Sul profundo (Deep South) podem voltar a impor restrições às minorias (leia-se afro-americanos) no seu exercício de voto, o que antes não era possível, por força do controle impeditivo pelo Congresso federal  quanto à imposição de obstáculos legais às comunidades negras pelas legislaturas desses estados.

                Por força desse seu temor do número, nos estados em que detém o mando, o GOP se empenha em dificultar o livre direito do sufrágio por negros, latinos, idosos, pobres et al. No Texas, na Flórida, no Ohio e em muitos outros estados em que o controle legal esteja em mãos do GOP, a palavra de ordem será dificultar ao máximo a votação dessa gente, que sufraga maciçamente os candidatos democratas. Tal não ocorre por acaso. Não foi um acidente que a revelação de que Mitt Romney considerava que 47% do eleitorado era de parasitas (que votavam nos democratas) partiu do bartender de reunião confidencial com ricaços contribuintes do rival de Barack Obama...

                 Descrição mais ampla desta estratégia impeditiva demandaria um outro artigo. Basta dizer que as enormes filas na Flórida, as seguidas dificuldades diante da exigência de apresentação de ulteriores documentos de identidade, a redução nos horários de abertura das seções eleitorais, a não-permissão de votação antecipada, todas fazem parte de  estratégia geral tendente a reduzir ao máximo as correntes de voto das classes desfavorecidas (essa gente não é boba, e vota em quem a ajuda). Por isso, Barack Obama e o Partido Democrata empreenderam luta titânica para criar meios e modos  com que as massas desfavorecidas logrem chegar até a urna para votar.    
                  Esse horror do Partido Republicano diante do número potencial dos votantes democratas se reflete tanto na Casa de Representantes (de que me ocuparei adiante), quanto na tentativa reacionária de restabelecer a eleição dos senadores por Estado pela forma primitiva (que foi ab-rogada por emenda constitucional). Nada é mais ilustrativo desta postura anti-povo que a  anacrônica campanha republicana para a eleição dos Senadores federais voltar a ser indireta, ficando a cargo das assembleias legislativas. É pouco provável que o GOP logre retirar dos respectivos eleitorados estaduais a capacidade de eleger os dois senadores. Mas o caráter  tentativa de manipulação mostra o quanto possa ser cínica, reacionária e antipopular a estratégia republicana.



O recrudescimento do gerrymander.

                
                 No censo de 2010 – que custou à Pennsilvania a perda de dois assentos – os republicanos ‘resolveram’ o problema, redesenhando o mapa eleitoral. Antes o GOP tinha dez distritos e os democratas onze. Através do gerrymander os republicanos passaram a ter doze e os democratas, sete, embora os números político-eleitorais continuassem os mesmos.                

                 Como a Constituição americana é omissa sobre a forma de eleição da Câmara de Representantes - diz apenas que os membros da Casa ‘devem ser escolhidos a cada segundo ano pelo Povo dos vários Estados’ – a maneira de contestar a descarada afronta foi a de promover ação sob a argumentação de que o novo mapa eleitoral privava o povo da Pennsilvania de équa proteção legal, violando, portanto, a 14ª Emenda à Constituição.

                 A ação judicial – Vieth x Jubelirer – foi julgada pelo Supremo em 2004. Com maioria republicana, os ministros se recusaram a derrogar o mapa eleitoral da Pennsilvania.  Em decisão tão importante, quanto facciosa, estranhamente avalizaram o direito dos partidos políticos em valer-se do gerrymander em proveito próprio. Na motivação da sentença, o juiz Antonin Scalia (que junto com Clarence Thomas ocupa a ultradireita na Corte, que mantém a supremacia conservadora até hoje) lavou as mãos de possível intervenção do tribunal, sob o pretexto de que a Constituição garante a proteção equitativa a pessoas mas não a grupos.  

                 Essa sentença está na raiz do sistema iníquo e desigual que ora prevalece na Casa de Representantes. Em função da clamorosa parcialidade, como assinala Toobin, em 2012 os candidatos democratas à Câmara de Deputados receberam meio milhão de votos a mais que os seus adversários republicanos. No entanto, o GOP foi aquinhoado com mais 33 cadeiras do que o Partido Democrata !

                  Há estados, como a Pennsilvania,  em que o exame estatístico é ainda mais severo nos seus números em estigmatizar o sistema que cinicamente frauda a vontade popular. Assim, para presidente Obama venceu com 52% dos sufrágios, contra 47% para Mitt Romney. Já na votação para a Câmara, os democratas, apesar de terem 50% dos sufrágios, contra 49% do GOP, só venceram em cinco contra treze distritos arrebatados pelos republicanos! O truque na fraude eleitoral está em concentrar os eleitores democratas em um menor número de distritos. Assim, no quadro elaborado por Andrew Hacker o percentual vencedor democrata é altíssimo (no quinteto, há uma oscilação entre 89% e 60%), enquanto os contingentes vencedores republicanos estão distribuídos entre 66% e 52% ! Para fins estatísticos, os votos são considerados supérfluos acima dos 55% ! Vejam, portanto, como foi conservador o legislador estadual na Pennsilvania para os distritos a serem vencidos pelo GOP; e como foi pródigo, reunindo a cambada democrata em cinco distritos, com um grande acúmulo de votantes, que assim puderam mascarar um desequilíbrio na votação, que não corresponde ao sentir dos habitantes da Pennsilvania, se distribuídos de forma séria e honesta.

                   Mas a Pennsilvania, como o mostra o artigo de Andrew Hacker, não é a única campeã da fraude e de sistema adrede disfuncional. O corrente gerrymander republicano se origina da esmagadora vitória do GOP nas eleições intermediárias de 2010 (o amargo fruto de um presidente ainda inexperiente em termos de comunicação política, mas com respeitabilíssimo legado no que tange a esses solitários dois anos, em que teve também o controle do Congresso, como se verifica na lista abaixo de realizações). Como indica Andrew Hacker, apesar de Obama ter vencido em 2008 e 2012 em Michigan, Ohio, Pennsilvania,  Florida e Wisconsin, em 2010, por causa do shellacking (tunda), esses estados elegeram governadores e legislaturas republicanas.

                  Com a liderança do GOP no palácio do governo e nas assembleias desses estados – cabe a elas, a cada dez anos, elaborar o mapa de distritos eleitorais para a Câmara – fica mais fácil de entender, tanto a extensão do gerrymander, quanto a sua proficiência em assegurar aos republicanos a maioria na Câmara de Representantes.

                  O que não se adequa bem com a especiosa fundamentação da sentença de 2004, a que me reporto acima, pode ser resumido em duas considerações básicas: o objetivo dos constituintes foi o de assegurar que a vontade do Povo seja respeitada. Por outro lado, esse desrespeito à vontade do Povo Soberano se reflete na eleição de uma Câmara em que o sentir majoritário da Nação não é obedecido. A composição da atual Câmara de Representantes está na contracorrente de o que povo americano deseja, e daí a disfuncionalidade atual do sistema, eis que um dos poderes não está constituído em forma que corresponda à vontade da maioria do eleitorado. Eis a razão básica pela qual Washington e o Governo são ditos não funcionarem. Depois dos dois primeiros anos de Obama, em que foram aprovadas a Reforma Sanitária (a lei da assistência médica custeável – ACA), a reforma financeira (a lei Dodd-Frank), o salvamento da indústria automobilística, a revogação da disposição não pergunte e não diga (don't ask, don't tell  vinda da Administração Clinton, quanto aos gays nas Forças Armadas), os estímulos (Tarp) para sair da grande recessão, e a ratificação de tratado de controle de armas com a Federação Russa, o 44° Presidente não conseguiu mais nada na prática do Congresso, pela oposição da Câmara dominada pelo Tea Party, e um Senado, em que o Partido Democrata não mais dispunha da maioria de sessenta para vencer os filibusters dos republicanos. 

                 O Partido Republicano, por uma série de fatores, tornou praticamente irrelevante a sua anterior corrente moderada, que funcionava como espécie de ponte com os democratas. Dadas as suas características, atuava em prol do espírito bipartidário.  Hoje em dia há pouquíssimos congressistas republicanos moderados. São uma espécie em extinção. Daí também a queda no espírito de entendimento bipartidário, que punha os interesses da Nação acima dos da facção.

                  O estudo da política nos tende a ensinar que todos os sistemas antifuncionais – e existe algo mais antifuncional do que a fraude erigida como base de uma organização ? – contêm dentro deles o próprio germe de sua eventual auto-destruição.

                  Existem traços no atual sistema disfuncional americano que podem dar guarida a uma avaliação mais otimista das possibilidades de superação de tais irregularidades (mesmo aquelas avalizadas pela toga). O processo, no entanto, é necessariamente lento.       

 

Fontes: The New York Review of Books; The New Yorker; The New York Times.                                               




[1] ‘2014: outra debacle democrática ?’,  em The New York Review of Books,  9/01/2014.
[2] “Nossa fraturada Constituição’, em The New Yorker, 9/12/2013.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Picadinho à Brasileira

                                          

A amarga prudência

              Lembram-se da fanfarronada do Ministro Edison Lobão, das Minas e Energia, dizendo-nos, literalmente às vésperas de um apagão, que o risco de desabastecimento de energia no país era “zero”?

              Agora, escaldados pelo ridículo da bazófia, o Comitê do Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) afirma que ‘o fornecimento de energia está garantido em 2014’, mas, por primeira vez, admite que, se a situação dos reservatórios piorar nos próximos meses, existe o risco de desabastecimento.

 

Esquecida a Fanfarronada ?

 
               Recordam-se da declaração de Dilma Rousseff, então candidata a presidente, desfazendo da suposta incompetência do Governo de FHC em matéria de apagão, afirmando com a sua tonitruante presunção, que tais deficiências jamais ocorreriam em governo do PT?

               Pois, como as coisas mudaram, não seria o caso de relembrar o respeitável público dessa vazia promessa, com que as assertivas de seu ministro agregam uma cômica pitada de desastrado compromisso?

 

Semelhanças com o  PRI ?     

                 No México, o PRI (Partido Revolucionário Institucional) começou desfraldando a bandeira da revolução mexicana, e com o passar do tempo institucionalizou a corrupção como instrumento do poder.

                Em todo documento governamental, se estampava o duplo mote: Não reeleição e sufrágio efetivo. Na sua longa permanência à testa do estado, o PRI respeitou a proibição da reeleição, lembrando-se da longa ditadura de Porfírio Diaz, mas utilizou a fraude eleitoral como meio de eternizar-se no poder.

               Seria interessante que os gerarcas do PT, com Lula da Silva à frente, não repetissem o vezo de considerar como inventor da pólvora o regime petista. Com feito, Nosso Guia tem o entranhado hábito de só reportar-se ao período em que assumiram o poder (acercam-se de doze anos). Será que algum ignaro há de pensar que os petistas construíram o Brasil moderno, e tudo de bom a eles se deve? Essa deturpação histórica é faca de dois gumes, eis que, se d.Dilma continuar a trapalhona na economia, ficará mais fácil lembrar-se dos tempos do Plano Real, com a inflação enfim domada? Será que o que aconteceu depois – notadamente no dílmico governo – com a volta da carestia possa ser explicado pela oposição frenética do P. T. ao Plano Real e a tudo que lhe dissesse respeito?

 

A Histeria contra as Manifestações

                 Só à má-fé aproveita pôr as manifestações em único saco, como se todas fossem reprováveis. Por isso, não poderia estar mais de acordo com o artigo de mestre José Murilo de Carvalho, ontem publicado em O Globo, sob o título ‘O perigo White Bloc’.

                 Existe um ataque à liberdade de expressão, e só à direita – a raivosa e instrumentalizadora – interessa aplicar de forma genérica as supostas lições dos black blocs.  Se se parte para a legislação antiterrorista, os gritos de democracia ameaçada e a mentalidade de pôr todo protesto no mesmo saco, cabe citar a observação do historiador e cientista político: ‘prestar um serviço ao poder e  um desserviço à consolidação de uma democracia que consiga lidar com o protesto, preservados a integridade física das pessoas e o patrimônio público.’

 

E o desacato, quando nos veremos livres dele?

 
               Não há penalidade de índole mais repressiva e intimidatória do que a do desacato. Esse resquício fascistóide é um instrumento desigual, que arma, entre outras, a autoridade policial com artifício do código fascista que inspirou o da ditadura do Estado Novo.

               É mais do que tempo de livrar a nossa legislação desse ranço de viés impositivo e antidemocrático, eis que fornece às autoridades policiais  ferramenta muito útil para culpar inocentes, ou mascarar a respectiva incompetência sob a subjetividade de supostas afrontas ao poder constituído.

             O instituto do desacato tem de ser expurgado de nossa legislação. Para tanto, será sempre interessante verificar quem são os campeões da manutenção desse instrumento de coerção e de desigualdade jurídica.

 

 
(Fontes: O Globo;  Folha de S. Paulo)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Revista da Semana (IV)

                               

O Senado aprova elevação teto da dívida


      O Senado, de maioria democrata, votou por 67 a 31 para suspender o debate sobre a aprovação do teto da dívida fiscal – que por iniciativa do Speaker John Boehner, e por primeira vez sem impor condições, já havia passado na Câmara de Representantes.

       No entanto, não foi tão simples quanto parece a passagem da legislação. O Senador Ted Cruz, republicano do Texas e adepto do Tea Party, pretendia fazer um filibuster para tentar impedir que pela primeira vez desde 2009 o Congresso aprovasse, sem as habituais exigências e a ameaça do fechamento da Administração (além de um possível calote nas contas de Tio Sam) a elevação do teto da dívida fiscal.

      Por se tratar de legislação importante, a suspensão do debate requer maioria de sessenta votos (o Senado tem cem representantes), e não os cinquenta e um da recente modificação no regimento da Câmara Alta.

      Dado o desgaste eleitoral provocado por tais crises artificiais – provocadas pela facção de ultra-direita do Tea Party -, com prejuízos políticos para o GOP, o Senador Ted Cruz amargou mais uma derrota, eis que, além dos votos democratas, doze senadores republicanos se associaram àqueles que sufragavam a suspensão do filibuster capitaneado pelo Senador de primeiro mandato, Ted Cruz.

      Depois de um começo fulminante, em que gozou de influência muito superior ao que em geral frui um senador novato, Ted Cruz tem experimentado vários tropeços, o que reflete o distanciamento do Partido Republicano da linha demagógica desse movimento, surgido em 2009.



Lula e  a Nota Ruim do Fed     


       O ex-presidente Lula da Silva – que está em New York – movimentou-se rápido para ajudar a sua pupila Dilma Rousseff, dado o inesperado ataque ao flanco débil da Administração, de parte da nova presidente do Federal Reserve Bank, Janet Yellen.

      Nesse sentido, Lula tentou convencer  um público de investidores americanos e empresários brasileiros, a continuarem a ter confiança na economia do Brasil.

     O ex-presidente referiu-se ao crescimento do país nos últimos onze anos – por coincidência a nomenclatura petista só se reporta ao período em que o Partido dos Trabalhadores exerce a presidência – de forma muito positiva e para um assistente não identificado ele foi “bastante convincente”.

      O problema com a defesa de Lula é que ele não se valeu para os convidados (o evento foi fechado, sendo destinado a membros do Americas Society e do Council of the Americas, além de outros convidados ) de números concretos que fundamentassem a sua tranquilidade quanto à capacidade da economia de enfrentar choques externos.

       Dados os totais de uma inflação que está sempre no teto da previsão,  o rombo nas suas contas externas (US$ 81,4 bilhões, i.e.,  3,66 % do PIB), e a recente redução suplementar pelo FMI na previsão de crescimento para 2014, vale dizer 2,3%, ou menos 0,2%, de o que anteriormente vaticinara, eis uma missão à altura da capacidade de persuasão do chefe máximo do estamento petista.

       A sua capacidade suasória, aperfeiçoada sobretudo a partir de sua eleição, após três derrotas seguidas (para Collor e duas para Fernando |Henrique) não pode ser subestimada. Mas bem que Lula gostaria de ter mais dados concretos que afirmassem a sua oratória e lhe tornassem a tarefa menos hercúlea.

       Os indicadores básicos de nossa economia carecem de uma melhora substancial. Havendo recebido o governo de seu mestre e chefe em boas condições, eis o cerne do problema. Para que a economia se recupere e deixe o grupo dos emergentes vulneráveis, Dilma Rousseff precisa mudar de linha na economia. As fragilidades em nossa situação são em grande parte consequência de sua orientação em termos de economia e finanças. Dessarte, se lograr convencer o eleitorado e for reeleita, o desafio será que de certa maneira deixe de ser a Dilma Rousseff que conhecemos.

       A questão, portanto, aparentemente simples, não o  é em verdade,  pois implicaria em uma transformação radical da orientação presidencial. Trocando em miúdos, conseguirá Dilma no seu segundo mandato fazer o que não fez no primeiro?

 

(Fontes: The New York Times; Folha de S. Paulo)  

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A Nota Ruim do Brasil

                               

        A  avaliação pela nova Presidente do Federal Reserve Bank, Janet Yellen, surpreende – e não pelo lado bom – diante da nota pouco favorável dada à economia brasileira.
        Até Miriam Leitão acha um tanto forte que o Brasil seja colocado como o segundo país emergente mais vulnerável, atrás apenas da Turquia. Nesse sentido, especula que a apreciação negativa do Fed foi influenciada pela resenha anterior do banco Morgan Stanley, a ponto de criar um consenso no mercado financeiro.

        Não é positivo – nem de bom augúrio – que se forme a idéia de que o Brasil está entre as cinco economias emergentes mais frágeis. Em um grupo de cinco – Índia, Indonésia, Africa do Sul, Brasil e Turquia – está em penúltimo.

        A citação por Janet Yellen e a inclusão em documento oficial do Federal Reserve Bank tem inegável valor simbólico – e não no sentido positivo – e, por isso, prejudica a imagem da economia brasileira. Afugenta investidores, cerceia investimentos e faz partirem daqui inversões.

        Há nada menos que oito citações ao Brasil no documento de política monetária que foi encaminhado pelo Fed ao Congresso americano.

        No índice de vulnerabilidade de quinze países emergentes, que leva em conta seis indicadores, o Brasil apresenta problemas em quatro: déficit em conta corrente, inflação média elevada nos últimos três anos, endividamento público alto, crescimento de empréstimos concedidos ao setor privado.

         Quanto à desvalorização do Real, na visão do mercado financeiro, a nossa moeda não deveria mais se desvalorizar em relação ao dólar, pela razão de que o real já foi a segunda que mais perdeu entre os quinze países. Em outras palavras, a desvalorização já estaria ‘precificada’. É um argumento de peso, mas nem sempre é dado determinar que a possibilidade de depreciação adicional esteja em tese excluída.

         No que respeita aos outros quatro indicadores, não há infelizmente nada a obtemperar. Quem lê os comentários econômicos e financeiros do blog, e a gestão da economia de Dilma Rousseff, tão diversa dos padrões anteriores, há de convir que infelizmente o Brasil está colhendo aquilo que foi semeado pela sucessora de Lula da Silva.

         Na própria inflação, o combate só se iniciou quando a presidenta se deu conta de que a opinião pública em todas as suas camadas estava plenamente consciente da responsabilidade da sucessora de Lula pela volta da carestia.

          É lamentável que depois da conquista do Plano Real e da estabilização da moeda, trabalho em que cooperou o presidente Lula e o Ministro Palocci, em anos posteriores a gestão com Guido Mantega e as primeiras mágicas fiscais a situação tenha piorado.

         A crescente participação do BNDES em manobras fiscais (notadamente as dúbias capitalizações), projetos que ameaçam a Lei da  Responsabilidade Fiscal – inclusive com o favorecimento indevido para com o pagamento da dívida da Prefeitura de São Paulo, agora entregue ao PT – que diferença tudo isso faz do quadro anterior, conquistado com trabalho aturado, seriedade e o dever de casa bem-feito! Então – e não foi há tanto tempo assim - o Real – por ser a moeda que mais se apreciara perante o dólar americano – colhia os cumprimentos e as finanças brasileiras o fluxo constante dos greenbacks[1], em inversões de curto, médio e longo prazo.  

        E agora José ?


(Fonte: O Globo e Coluna de Miriam Leitão)




[1] Designação coloquial do dólar estadunidense.

Notícias em direto do Front

                         

Afirmação do Speaker Boehner


      Contrariando a avaliação em Washington de que John Boehner, republicano de Ohio, seria um dos Speakers[1] mais fracos da história, ele logrou fazer aprovar resolução pela Câmara que autoriza a elevação do teto da dívida pública até março de 2015.

      Outro elemento importante é que a medida não vem atrelada a qualquer condição, como desde 2009 vinha ocorrendo.  Assinale-se, portanto, que o Senado – com maioria democrata – deverá votar no mesmo sentido em breve.

      Com isso, se afasta até pelo menos o ano próximo as chantagens patrocinadas pela facção do Tea Party.  Boehner põe o seu pescoço a prêmio ao conduzir essa votação  - cujo placar foi de 221 a favor e 201 contra. Com efeito, somente 28 republicanos votaram a favor. Como da bancada democrata, que é minoritária, só houve dois votos negativos, a conclusão é que a resolução só passou graças ao preponderante apoio do Partido Democrata.

      Sem embargo, o fato de se ter tornado refém do Tea Party (facção de ultra-direita), o GOP vinha sofrendo desgaste com tal política, que ocasionara fechamentos da Administração Pública e até o perigo de default (impossibilidade de saldar compromissos financeiros internacionais, ou até bancarrota), o que atingia o dólar estadunidense e a confiabilidade das obrigações do Tesouro.

       Essa postura irresponsável, em que as finanças internacionais de Tio Sam e até o funcionamento de seus órgãos governamentais ficavam à mercê  dos fanáticos do Tea Party, trouxe danos eleitorais pesados para o GOP. Em verdade, as elevações do teto da dívida pública, dosadas para durarem por pouco tempo, vinham atreladas a exigências fiscais da bancada republicana. Na primeira oportunidade, as excessivas concessões de Barack Obama haviam colocado em risco a sua possibilidade de reeleger-se, o que ele logrou restabelecer, ao adotar postura mais firme no embate posterior.

       Tais chantagens e extorsões políticas – valendo-se da elevação do teto da dívida pública, que, no passado tinham sido sempre tratadas de forma burocrática pelos dois partidos (com a exceção de Newt Gingrich nos anos noventa, com péssimo resultado para o GOP) – foram agora escanteadas por Boehner. Resta determinar se ele, no futuro, por sua coragem política, terá o posto de Speaker contestado pela própria bancada.

 

Barbosa anula decisão de Lewandowski em favor de Dirceu


       Não será por acaso que, por suas decisões firmes, o nome de Joaquim Barbosa continue considerado para eventual candidatura à presidência da república.

       Desta feita, depois de puxar as orelhas dos colegas que o substituíram na presidência do STF ( Carmen Lúcia e Ricardo Lewandowski ) por não terem expedido  mandado de prisão para João Paulo Cunha, o Presidente Barbosa revogou decisão tomada pelo Ministro Ricardo Lewandowski, no recesso judiciário. O despacho de Lewandowski atendera a pedido da defesa do ex-deputado José Dirceu. Nesse sentido, Lewandowski determinara que a Vara de Execuções Penais de Brasília decidisse com urgência pedido para que Dirceu pudesse trabalhar fora da prisão.

       A análise de tal solicitação havia sido suspensa por Barbosa até que se apurasse se o ex-ministro usara celular no interior do presídio (o que é proibido). A revogação do ato do Ministro Lewandowski foi justificada pelo Presidente Joaquim Barbosa pela circunstância de o Ministério Público não ter sido ouvido.

       A conduta do Presidente – que foi firme e coerente – não é decerto inédita, mas rara (pelo costume da composição entre os membros do colegiado). Segundo noticia a Folha, três ministros disseram, sob  condição de anonimato, que o clima no tribunal está péssimo. No seu entender, a Corte deveria buscar harmonia como forma de se resguardar. Por isso, criticaram Barbosa por não ter buscado solução alternativa.

       Quanto a Ministros que falam pelas costas, e que se acobertam no anonimato, o valor de sua posição, em contraposição às atitudes do Presidente Joaquim Barbosa, tende a indicar-lhes o respectivo peso junto à opinião pública.

       Barbosa, por passar imagem de firmeza e de respeito à autoridade, pode ir a qualquer lugar e sair pela porta da frente. Além disso, a despeito das dificuldades que encontraria por circunstâncias de legenda, tem popularidade que o faz ser considerado potencial candidato à  presidência da república.

        E os demais?



(Fontes:  The New York Times; Folha de S. Paulo)   




[1] Presidente da Câmara de Representantes
 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Trincheiras da Liberdade B 3

                        

Ontem, foi o sinuoso ataque contra o deputado Marcelo Freixo, saído de chamada mal-esclarecida, e difundido por alguém que se dizia convencido de que o deputado fora mencionado por Sininho, a simpática ativista, que mais tarde apareceria para desmentir a alegada ligação... Em seguida, o suposto acusador foi acometido de dúvidas – não tinha mais certeza – e achava mesmo que tal não correspondia à verdade, nem aos padrões do deputado do PSOL. Todo esse ir e vir para mencionar-lhe o nome como possível implicado com gente da pesada, como o tatuador Fábio Raposo e sabe-se lá mais quem...

Hoje a caça às bruxas continua. Em nome do pobre cinegrafista da Band, Santiago Andrade, essa vítima inocente do radicalismo, espremida entre as sub-manchetes ‘Polícia identifica e está à caça do homem que detonou explosivo’ e a declaração da Presidenta  ‘Liberdade de manifestação não pode ser usada para matar’. O jornalão O Globo estampa no meio da página, bem em cima dos petrechos por terra dos profissionais da notícia a frase

                Assessor  de  deputado

                                           do  PSOL dá assistência
                                           a manifestantes presos

        Em páginas interiores há outras estranhas frases, mas antes analisemos essa jóia do jornalismo pós-atentado. Então os assessores de deputado do PSOL – que deve ser o mesmo Marcelo Freixo de quem se desencavou uma alegada conexão com o black bloc e os dois elementos ligados ao rojão assassino – conexão esta que logo se dissipou no ar, como se quem a tivesse levantado seria movido pelo único intuito de associar Freixo àquele atentado sem nome, para depois, num volta-face estranho, dizer que a citação e a conexão não tinham substância, além da dúvida que se deixara pairar no ar...

         E agora, ei-lo de volta, sob a máscara de um assessor sem-nome, inserido no centro da página de rostro, como se se devesse assinalar que “assessor de deputado do PSOL dá assistência a manifestantes presos”...

          A tecla do deputado do PSOL e da assistência surgem aqui como verdadeiras assombrações.  Estamos no odioso domínio do subentendido...  Não se apostrofa o fato – verdade ou factoide “ – de que a gente do PSOL dá assistência a manifestantes presos...

         Vejam bem, senhores passageiros, não se fala de manifestantes envolvidos no covarde lançamento do rojão.  Aqui, a circunstância de dar assistência a manifestantes, ainda por cima presos, deve estabelecer, na cabeça desses febris redatores que têm missões a cumprir, imagens terríveis e condenações antecipadas...

         A dança das insinuações continua...  Em página interna, como se fora algo reprovável, o jornalão estampa “Assessor de Freixo ajuda presos em protestos”  Embaixo a frase não tão inocente: Advogado afirma que atividade em ONG é independente. Deputado diz que não exige dedicação exclusiva.

  Embaixo, na mesma página sob o dístico “DISSE ME DISSE”, aparece  o título
                     Troca de Acusações Continua

   A despeito do título, ver-se-á  que o advogado Jonas Tadeu Neves, que defende Fabio Raposo mudou o tom.  Ontem, ao deixar a delegacia, ele já disse ter-se retratado sobre o assunto em entrevista (...) na radio Globo.

     Freixo, por sua vez, sublinhou: “Por isso há de se ter cuidado em relação a qualquer denúncia que parta desse advogado contra a minha pessoa. A denúncia que ele ouviu, a ativista (Sininho) diz que não falou. Os dois têm que resolver isso diante do delegado e da Justiça.”

      Mas a reação não para por aí.  O Secretário José Mariano Beltrame sugere leis rígidas contra a violência.  No seu sentido, propõe a proibição do uso de máscaras e a tipificação dos crimes de desordem e associação.

     O Secretário de Segurança é movido por boas intenções, mas talvez não saiba que o tipo de legislação que sugere se aproxima muito da que existe na China Comunista, com punições a quem pratica a desordem em lugar público. Também é prevista, sob ângulo penal, a associação.

     São ideias perigosas... se interpretadas pelas pessoas erradas. No reino de Xi jinping há muita gente trancafiada nas masmorras do Império do Meio debaixo dessa acusação de turbar a ordem pública. Cuidado com os exageros, porque corremos o risco de trazer de volta a paz dos cemitérios ... e das ditaduras.

  

 

( Fonte:  O  Globo )

Diário da Mídia (VI)

                                
 
O  Governo  e  o  FGTS

      Segundo o Globo, o dinheiro do trabalhador tem sido utilizado com grande desenvoltura pelo Governo. Com efeito, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), dentro da agressiva e invasiva ação do Governo Dilma que ,no seu desespero em arranjar fundos para a gastança, se tem valido de forma crescente e preocupante do cabedal do FGTS  atendendo mal o interesse do trabalhador. O que está acontecendo? Quando o trabalhador,carente de fundos, requer  dinheiro depositado na sua conta e  este lhe chega com pífios juros de 3% a.a., mais a Taxa referencial, o que não o habilita a acompanhar a desvalorização do real.

      Para vencer esse esbulho do dinheiro do Fundo – que vem sendo desviado para programas como Minha Casa Minha Vida – o número de ações de trabalhadores tem crescido de forma bastante acentuada. O que os proponentes pleiteiam: juros de 3% a.a., mais a reposição por um índice de preços (INPC ou IPCA), vale dizer um cálculo veraz da perda do poder aquisitivo da moeda (cortesia da inflação que D. Dilma nos trouxe).

     A Caixa Econômica Federal, gestora do FGTS, pediu ajuda à Advocacia Geral da União (AGU) para recorrer das sentenças em primeira instância.  Na última sexta-feira, 7 de fevereiro,  o número de ações está em 45.343, das quais em 21.159 o governo teve ganho de causa  (mas em primeira instância).

     O governo Dilma Rousseff sabe que é uma luta com poucas probabilidades de vitória, e que o destino de tais ações é o Supremo Tribunal Federal. E é grande a probabilidade de que a Corte Suprema dê para os que carecem de sacar o FGTS um rendimento justo, adequado à verdade do poder aquisitivo da moeda, e não com taxa que lhe comprima o valor real.

     Dentro dos artifícios contábeis que caracterizam a atuação do Tesouro, a verdade no FGTS provocaria uma revolução quanto a esse fundo.  E por quê? Que o FGTS deixe de ser fonte de recursos para os programas sociais do governo (habitação, infraestrutura e mobilidade urbana). Na verdade, as ações dos trabalhadores – e muitas têm tido ganho de causa em primeira instância – se destinam a atender, dentro do espírito deste Fundo, a carências específicas dessa classe.  No seu compulsivo malabarismo,  o que o Governo deseja é despir um esfarrapado para vestir outro, e, em outras palavras, valer-se do FGTS para suprir lacunas de dotações específicas.

    Sempre o mesmo desrespeito fiscal, que como toda mágica engana  poucos e por pouco tempo.

 
O Cerco aos Jornais pelos Regimes autoritários Chavistas (e assemelhados)   

 
       O velho México do Partido Republicano Institucional (PRI) controlava a imprensa de forma um pouco mais sofisticada, fazendo pairar sobre os diários (grandes e pequenos) a não tão velada ameaça de dificuldades futuras na obtenção do papel de imprensa para aqueles veículos de opinião que desrespeitassem a regra básica do então regime mexicano. Regras básicas de um regime corrupto : O respeito ao poder e à atuação do Senhor Presidente (eleito por seis anos e sem direito à reeleição), assim como àqueles temas julgados delicados pela nomenclatura. A ditablanda[1] do PRI obedecia pretensamente a duas regras da Revolução Mexicana: Não-reeleição e Sufrágio efetivo. Dessas duas injunções, que constavam de todos os documentos oficais apenas a primeira era para valer, eis que a fraude comia solta nas apurações.

     Hoje em dia, com uma OEA desdentada e quase patética na sua incapacidade de lidar com as formas mais gritantes de desrespeito às liberdades individuais – aí incluídas as pertinentes ao direito de informação – os tiranetes sul-americanos, como o caminhoneiro Nicolás Maduro, na Venezuela, o mestre-escola Rafael Correia (no Equador), e a viúva de Kirchner (na Argentina) não tocam um samba (ou tango,ou salsa, ou cúmbia  de uma nota só), evidenciando certa sutileza para atenazar e sufocar o direito à liberdade, a que não contrapõem, nem de longe, capacidade de boa gestão dos negócios públicos.

    Dessarte, Maduro tem impedido que o papel chegue aos jornais de província (e que melhor maneira  para calá-los?); o presidente equatoriano busca intimidar jornais e jornalistas com multas pesadas e sem outro propósito que o de fazer calar os seus desrespeitos à liberdade alheia; e a Kirchner, alterna a sua investida contra o bicho-papão do grupo Clarin com o provado expediente de negar papel de imprensa à órgãos incômodos, enquanto lenta mas seguramente a antes flamante Argentina escorrega para o pântano das economias sem fundos nem créditos...

 

(Fontes:  O Globo; Folha de S. Paulo)     



[1] Regime autoritário supostamente menos severo do que a ditadura.