segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A Morte Cerebral do Cinegrafista Santiago

                           

      A morte cerebral do cinegrafista da TV Bandeirante, Santiago Ilídio Andrade, anunciada nesta manhã, aumenta exponencialmente a gravidade do delito cometido na manifestação de protesto contra o aumento das passagens, na quinta-feira, seis de fevereiro. O pobre Santiago, que estava ali a trabalho, foi covardemente atingido pelas costas por um rojão. Desde então, perdera a consciência e a operação cirúrgica a que foi submetido não impediu que, por falta de irrigação de parte do cérebro, lhe tenha sobrevindo a morte cerebral. Com a falta definitiva da consciência, a morte física é o seguinte e inelutável passo.

      Na verdade, a morte cerebral não é a antecâmara da Morte. Constitui, na prática, o seu anúncio, ainda que de forma embuçada.

      Nesse contexto, há um ataque contra o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). Há fundadas dúvidas quanto à procedência de tais acusações. A propósito, o próprio Freixo declarou em nota: “Além de a fonte da informação ser de uma fragilidade absurda e de a própria ativista negar ter-me associado ao ocorrido, nenhuma prova concreta foi apresentada. Aqueles que afirmarem que o responsável pela explosão é ligado a mim terão que provar. Caso contrário, serão devidamente processados. Sempre repudiei a violência nos protestos, seja ela praticada por manifestantes ou policiais.” Além disso, pelo Twitter, Freixo ainda lembrou que Jonas (Tadeu Nunes) defendeu o ex-deputado Natalino Guimarães, preso em 2008 acusado de chefiar milícias na Zona Oeste. Freixo presidiu a CPI das Milícias que investigou Natalino.                         

      No lançamento da acusação a Marcelo Freixo, a participação de Jonas Tadeu Nunes merece atenção. Primeiro, lança suspeitas de ligações de Freixo com o black bloc. Mais tarde, segundo se depreende da transcrição de O Globo, reconsidera e volta atrás da imputação.

      Enquanto o delegado Maurício Luciano de Almeida, titular da 17ª DP (São Cristovão) estava reunido com Jonas Tadeu (que defende o tatuador Fabio Raposo), discutindo sobre a tipificação do crime que seria imputado ao jovem, uma suposta ligação de celular atendida pelo estagiário do advogado Marcelo Matoso acabou envolvendo o nome do deputado estadual Marcelo Freixo no caso. Segundo Jonas, o telefonema era da ativista Elisa de Quadros Pinto Sanzi, a Sininho, que afirmava oferecer apoio jurídico de pessoas ligadas a Freixo.

      O advogado ainda acrescentou que Sininho teria dito que tanto Fábio, quanto o homem ainda não identificado que atirou o rojão na direção do cinegrafista Santiago teriam ligação com Freixo.

      O deputado, sem embargo, negou veementemente qualquer ligação com Fábio ou o outro suspeito.

       A tal respeito, Jonas Tadeu Nunes refere: Fiz um termo circunstanciado registrando o fato na delegacia, porque me senti pressionado por aquela ligação da Sininho. Queria deixar registrado que, se eu fosse futuramente afastado do caso, foi porque pessoas usaram advogados ligados a um nome de peso para me substituir, não por incompetência minha ou algo do tipo. O termo acabou sendo registrado em nome do meu estagiário por um erro técnico, já que ele foi a pessoa que atendeu a ligação dela num primeiro momento. Mas fui eu que ouvi Sininho se referir ao Freixo. Como eu estava muito nervoso, resolvi registrar (segundo afirma o dito Jonas). Agora, com mais calma, tenho certeza de que usaram o nome do deputado indevidamente. Não acredito que ele tivesse tido tamanha falta de ética. A conduta dele seria diferente.

       No entanto, à imprensa, Sininho negou ter falado sobre qualquer ligação entre o homem que atirou o rojão e Freixo. A ativista foi convocada, contudo, para depor amanhã e esclarecer as declarações sobre o parlamentar.

       Por fim, a mãe de Fábio Raposo, Marise Raposo, confirmou que recebeu ontem um telefonema de Sininho, mas preferiu não revelar o teor da conversa. Disse, porém, acreditar que o filho (o tatuador Fábio) tenha algum tipo de ligação com o deputado Freixo.

Testemunhos sobre a agressão sofrida pelo cinegrafista Santiago.

       Na cobertura de O Globo, cabe registrar dois testemunhos de interesse.

       O presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB, Wadih Damous, classificou como ‘irresponsabilidade criminosa’ o uso de rojões na manifestação contra o aumento das passagens de ônibus. Na avaliação de Damous, atos violentos em manifestações públicas devem ser repudiados, partam da polícia ou de manifestantes.

      “O Estado tem que entender que tratar como guerra a segurança pública e as manifestações só contribui com essa violência. O trágico episódio que vitimou o cinegrafista, no entanto, não deve servir de pretexto para criminalizar os atos públicos, que são um direito constitucionalmente assegurado.”

      Por sua vez, o antropólogo Lenin Pires, do Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos, da UFF, vai além: para ele “ o Estado necessita, urgentemente, criar  um protocolo de ação das agências públicas nas manifestações. Observa ele, nesse contexto, que pelo desenrolar dos acontecimentos, 2014 será um ano de muitos protestos, e que, apesar das experiências do ano passado, ainda não há uma iniciativa de interlocução.

     O governo precisa conversar com essa parcela da sociedade que se manifesta democraticamente, para garantir o direito de ir às ruas fazer suas reivindicações. Esses manifestantes legítimos nada têm a ver com os grupos autoritários  que aproveitam os protestos para tentar impor pela violência a ideia de que a democracia não tem valor algum. É preciso – assinala o antropólogo – permitir a manifestação legítima da sociedade e protegê-la desses grupos que querem ver o circo pegar fogo.

     Na avaliação de Lenin Pires, na falta do protocolo, a polícia acaba agindo  de forma autoritária. “Não podemos prescindir das agências públicas de segurança. Mas quando você manda o Batalhão de Choque para uma manifestação, está dizendo, de certa maneira, que considera ruim as pessoas protestarem. E isso não é bom para a sociedade.”    

 

(Fontes:  O Globo; O Globo on-line)

Rescaldo de Fim de Semana (8)

                           

O Mensalão Tucano

 
     Depois do Mensalão do P.T. (a Ação Penal 470) e do mensalão do DEM (com as filmagens incriminatórias do governador José Roberto Arruda, da deputada Jaqueline Roriz e um vastíssimo etc.), entra em cena o Mensalão do PSDB.

     Estamos nas primícias, com a pena proposta pelo Procurador-Geral da República, de 22 anos para o ex-governador Eduardo Azeredo (PSDB). Inova no capítulo o PGR, eis que, na citada Ação Penal 470 o seu predecessor se absteve de quantificar a pena dos acusados.

     A propósito do processo, o deputado Eduardo Azeredo (PSDB/MG) afirmou ser tão inocente no mensalão tucano quanto o ex-presidente Luiz Inacio Lula da Silva o é, em sua opinião, no caso petista: “Minha situação é semelhante à do Lula. Corretamente, não foi responsabilizado.”

      Interessante a declaração do ex-governador. Inteligente, sem dúvida. E sibilina, a fazer gosto à pitonisa de Delfos.


 Protestos em Kiev

 
       A Praça Maidan voltou a reunir cerca de setenta mil manifestantes, que exigem a renúncia do Presidente Viktor Yanukovych. Entrementes, o diálogo do palácio com os líderes oposicionistas está em ponto morto.

       Os ressaibos do desastrado telefonema da Secretária-Assistente para a Europa, Victoria Nuland para o embaixador americano em Kiev, ficam no ar, para agrado de espectadores privilegiados do Kremlin.
       O marasmo nos protestos e a ineficácia de Bruxelas – a par da desastrada participação estadunidense – só aproveitam ao palácio (leia-se Yanukovych) e a Vladimir Putin.

 
A Confederação Helvética e os Imigrantes         

 

      Era segredo de Polichinelo que o referendo para a criação de cotas na entrada de imigrantes europeus teria a aprovação da população helvética. A boa notícia é que a  imposição de limites à entrada de imigrantes vindos da União Europeia passou por estreitíssima margem (50,3% dos votantes).

      Não é de excluir-se, assim, que o povo suíço venha a ser um pouquinho mais liberal com relação a estrangeiros do que na atualidade. Tenha-se presente que não é de hoje que a Confederação impõe regras draconianas para alienígenas e italianos, em particular.

      Esses, no passado, tinham de sujeitar-se a estatuto temporário. Assim, depois de temporadas no paraíso helvético como Fremdarbeiter  (operários estrangeiros) – que em outras terras são denominados  de Gastarbeiter (operários hóspedes) - eram forçados a regressar à Itália.  Voltariam no ano seguinte, mas a regra existia para vincar o caráter provisório do trabalho prestado, por mais necessário e útil que fosse.

 

( Fontes:  O  Globo,  Folha de S. Paulo )

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Carta aberta ao Senhor Prefeito Eduardo Paes


Carta aberta ao Exmo.Sr. Prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes.                            

 
     Da Memória Perdida de Ipanema

       Na quinta-feira, dezessete de setembro de 2009, escrevi no meu blog “A memória perdida de Ipanema”.  O que me motivara a crônica fora o desaparecimento das plaquetas de metal nas calçadas do bairro a relembrarem, aos transeuntes de hoje, um passado de moradores famosos, bares e sorveterias, antigos cinemas, projetos arquitetônicos de nomeada e tudo o mais que caracterizara o arrabalde.
      O blog terá agradado e por isso foi oficializado, segundo igualmente estampado em ‘Projeto de Segurança – Ipanema’, com a mesma data.

      Apesar da veia saudosa que perpassava o blog, tinha ele objetivo bastante concreto e, no meu entender, de fácil consecução.

      Talvez ingenuamente, era minha impressão na época – e o passar do tempo não me privou dessa convicção – de que o poder público (no caso o Prefeito Eduardo Paes) poderia facilmente reparar este mesquinho atentado à memória do bairro.

      Hoje em dia, no local das referências a moradores e pontos de nomeada dos anos cinquenta e sessenta, ficaram cicatrizes, remendos apressados que tão só eternizam aquele furto em série da história e dos encantos daquela Ipanema, que vive na lembrança de comunidade, a qual sem pressa vai também se afastando.

      Outro dia, passando por um desses sítios, em que a ganância do gatuno parece rir desdentada no passeio público, ouvi dois senhores comentarem a indiferença do poder municipal em restaurar os fatos memoráveis do cotidiano. De forma sem querer irônica, resta nas pedras e cimento da calçada um vestígio tanto do boçal furto em série, quanto de o que se arrancou, que para uns poucos ainda pode ser intuído nas brumas da relembrança.
      Mas que forma egoísta e precária de homenagear o passado por uma simples e preguiçosa omissão!

      Tenho visto – e aprovo – a celeridade com que a autoridade do município atua toda vez que vândalos ou ladrões investem contra o monumento dedicado ao poeta Drummond de Andrade. Só gostaria de ver o atentado em série de Ipanema merecer a atenção de uma única resposta. Como já referi, seria obra de pouco custo e de rápida realização. Ao invés do bronze ou do metal que os larápios, por encomenda ou não, salivam coletar, penso que seria de custo risível – e, o que mais importa no caso, sem valor comercial para motivar a bandidagem – se fossem colocadas sobre os grosseiros remendos de agora placas de concreto (ou de cimento) – com o nome da personalidade, ou do estabelecimento comercial, ou do bar ou cinema.

       Seria o testemunho devido a pessoas ou locais que fizeram parte no passado de fama, legenda e encanto do velho bairro de Ipanema, em que a boemia convivia com a classe média.

        O fotógrafo Eugène Atget (1857-1927), se especializou em fotografia  urbana. Carregando a sua pesada câmara percorria as ruas e avenidas de Paris. As pessoas não lhe interessavam. Queria preservar as construções que sentia condenadas pelo avanço do chamado progresso, assim como recantos que, a seu ver, mereciam atenção por motivos que muita vez fugiam do transeunte apressado. Não será por ironia que se tornaria o grande fotógrafo que é senão depois de colher o laurel da morte.

        Conservar o belo e o perfil de um bairro é um trabalho meritório, e Ipanema faz por merecê-lo.

        Honremos, senhor Prefeito Eduardo Paes, a ideia e o empenho de um seu predecessor. Restauremos a sua evocação da Ipanema de meados do século passado, pela contribuição dada à alma carioca.

       Mostre  grandeza  ao recuperar  o bom propósito de seu antecessor, e de  forma que seja infensa à cobiça dos gatunos.

       A cultura é importante, como dizia Rubem Braga, e mais ainda, se surge com as defesas para os tempos em que vivemos.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

As Grandes Potências e a Ucrânia

                              

         A revolução na Ucrânia continua nas ruas e na praça Independência de Kiev, assim como com reações nas províncias. Entrementes, três principais atores – que não se julgam coadjuvantes – acompanham, com interesse, por vezes atabalhoado, a evolução da crise, com vistas a trazer água para os respectivos moinhos.

        Houve nesta semana a enfermidade do Presidente Viktor Yanukovych, que o forçou a baixar ao hospital. A ausência do chefe de estado, em meio à sublevação de parte da população, os maus tratos dados ao ativista Dmitri Bulatov (que teve de ser atendido em nosocômio na Lituânia), junto com a demissão do Primeiro Ministro, acirraram a inquietação. Recuperado da afecção nas vias respiratórias, o retorno do Presidente, se afastou hipóteses alarmistas, de consequências imediatas, repõe a crise onde antes estava, vale dizer, o sentir majoritário da praça e das ruas com vistas à opção europeia.

        Não se deve esquecer, porém, que Yanukovych, por hubris ou incompetência, está na raiz da sublevação popular, surgida em novembro último. Seja por falta de sensibilidade, seja por tentativa de criar fato consumado, o presidente da Ucrânia preferiu ignorar a manifesta preferência de seu povo – sobretudo, mas não só, nas províncias ocidentais, de fala ucraniana - pela implementação do acordo de associação com Bruxelas.

       Não é ilusória veleidade dos ucranianos. Basta ver a vizinha Polônia e o quanto progrediu com seu ingresso na União Europeia, para aquilatar-se o que está realmente em jogo nesse embate entre Moscou e Bruxelas.  Firmar acordo com a Rússia pareceu aos manifestantes e aos seus muitos simpatizantes um retorno aos tempos em que a Ucrânia era uma das repúblicas da União Soviética. Ao libertar-se do pluricentenal abraço do urso moscovita, Kiev encetou difícil caminhada, mas significou sobretudo  opção por real independência.

       Dadas as limitações da decisão independentista – e tendo presentes as oportunidades apresentadas pela constituição da União Europeia – essa escolha pela Europa ocidental não é atitude superficial.

      O erro inicial de Yanukovych está na desenvoltura com que acreditou poder rejeitar funda aspiração da maioria do povo ucraniano como se fora questão de somenos importância, que pudesse ser cortada por uma penada. Não estamos mais no século XVIII, para que déspotas supostamente esclarecidos se assanhem a dispor, através de ‘troca de alianças’  da sorte dos povos respectivos.

       Dessa maneira, a súbita ‘troca de alianças’ – pela qual, às vésperas da assinatura em Vilnius, na Lituânia, dos acordos longamente negociados com Bruxelas, o presidente da Ucrânia se atreveu a descartá-los e a anunciar – na vigésima-quinta hora - o embarque no bonde de gospodin Vladimir Putin, decerto foi encarado pelo povo ucraniano como  provocação que lhes barrava o caminho de suas aspirações nacionais.

      Ao enjeitar de forma acintosa e até provocatória a associação com a União Européia, Yanukovych não só contrariou a vontade majoritária do povo ucraniano, mas também e em especial, ao recolocar na mesa a dependência histórica do império russo, escarneceu das aspirações de progresso e elevação de nível de vida, como perspectiva e mostra efetiva, que os seus compatriotas têm diante de si, na vizinha vitrina da Polônia.[1]

        O que terá induzido Viktor Yanukovych a trocar Bruxelas por Moscou? Parodiando a frase célebre de Jean-Jacques Rousseau sobre o Abbé de Saint-Pierre[2], tal se deveu menos a grandes idéias, mas sim a pequenas vistas sobre o futuro. Diante do caminho aberto pela União Europeia, com seus acordos e a abertura para o Ocidente, o presidente ucraniano optou por ganhos imediatos, na concessão de empréstimos pelo Kremlin e na redução da tarifa do gás importado, o que aliviaria a pesada dívida contraída com a antiga metrópole.

       O próprio Presidente Putin – que no passado, como se quisesse humilhar o vizinho, deixava Yanukovych pacientar longamente  para ser recebido em audiência – mostrou-se, nesta oportunidade, bem mais ágil e solícito. Para o povo ucraniano, contudo, tais condições de temporário alívio, a par da oferta do ingresso na União Aduaneira capitaneada pela Rússia, de que participam a Bielo-Rússia e o Kazaquistão, além de países menores e dependentes, tudo isso terá sido para a opinião pública ucraniana como se fosse agregar ao insulto a injúria.

      No entanto, em visita a Kiev da Assistente do Secretário de Estado para Assuntos Europeus, Victoria Nuland vazou – por aparente participação dos serviços russos informação – a gravação de comprometedora conversação telefônica entre a Assistente e o embaixador americano em Kiev, Geoffrey Pyatt.

      A par da incompetência e leviandade demonstradas pelo teor do telefonema entre Nuland e Pyatt, estarrece a grosseria de palavrão da Assistente de Secretário de Estado no que tange à atuação político-diplomática da U.E. No episódio, uma vez mais luziu a Chanceler alemã, Angela Merkel, que fez saber pela porta-voz Christiane Wirtz: “A Chanceler considera essas declarações absolutamente inaceitáveis. E destaca que a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, faz um excelente trabalho”.

      A Merkel continua, portanto, a sobressair nas relações internacionais. Não se deve tampouco esquecer a sua maneira comedida de apostrofar a espionagem da Agência de Segurança Nacional (NSA) com as palavras de que Alemanha e Estados Unidos “estão muito distantes quando se trata de ética”, entre “a liberdade e a ação do Estado”[3].

      Não sei se cabem saudades do Departamento de Estado dirigido por Hillary Clinton. Por enquanto, John Kerry nos induz a esperar mais, para que se possa fazer uma avaliação equilibrada.   

     No entanto, é importante que se tenha presente de o que está em baila na presente revolução ucraniana. Não é decerto um jogo de influências, como o teor do telefonema entre Nuland e Pyatt semelha enfatizar. A opção para o povo da Ucrânia – e se tem a impressão de que até na região oriental, feudo de Yanukovych por seu viés pró-Moscou, a relevância da associação com a U.E. esteja levando empresários de Dniepropetrovsk a expressarem o seu apoio a Bruxelas.

       Por isso, existe uma dicotomia que os manifestantes da Praça Maidan tem plena consciência, e ela se refere à opção pelo Ocidente ou pela Rússia. Nesse contexto, parece relevante que a diplomacia de Barack Obama entenda que Bruxelas não é adversária, ou pelo menos seria descomunal miopia política assim confundi-la.

       A Ucrânia desgarrada será presa fácil da Federação Russa. Quer queira o Departamento de Estado, quer não, a visão alternativa – e aquela que motiva os manifestantes – está no que oferece a União Europeia. A solução inteligente, portanto, não é digladiar-se, mas somar forças.

 

 

(Fontes: O Globo, Folha de S. Paulo, The New York Review, The New York Times )  



[1] A economia polonesa progrediu bastante com a sua participação na UE, assim como a própria moeda (zloty), elevando sensivelmente o nível de vida de sua população.
[2] Charles-Irénée de Saint-Pierre (1658-1743), autor do Projeto de Paz Perpétua.
[3] V. coluna de Janio de Freitas “Os fins dos meios”, na Folha de 2.02.2014.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Notícias em direto do Front

  
Pizzolato, o mensaleiro evadido

 
          A Corte de Bolonha acaba de denegar a liberdade provisória a Henrique Pizzolato, o mensaleiro que fugiu para a Itália após falsificar os documentos do irmão Celso, morto em 1978. Sem entrar no aspecto ético da instrumentalização por Henrique de documentos emitidos em nome de defunto, o fato de Pizzolato haver tirado todos os títulos a que não tinha direito (pelo fato de serem em nome de um morto), lança, entre outras, fundas dúvidas sobre a confiabilidade na emissão de tais documentos.

          O meticuloso Henrique Pizzolato não se pejou de pedir vários documentos a instituições como a Receita Federal – em 2007, declaração anual de isento em nome do irmão (O Leão que a emitiu, não se deu ao trabalho de verificar por que um homem – com 53 anos na época – tenha ficado tanto tempo sem informar nada ao fisco...). Acertada a situação fiscal, Pizzolato regularizou o CPF de Celso. Assim, para a Receita, ele não deve nada e é um cidadão vivo.

          Chegava a vez do RG. Em Santa Catarina, o Instituto de Identificação do Estado expediu carteira de identidade em nome de Celso Pizzolato. Assim explicam a obtenção do documento: nem Celso, nem Henrique tinham C.I. em Santa Catarina.  Quem pediu o documento apresentou certidão de nascimento expedida pelo cartório de registro civil de Concórdia em 2007. Com comovente sinceridade, o responsável diz: não sabemos se era Celso ou Henrique. Na foto, está sem barba. Agora tem as digitais de quem fez o RG.

          Toda essa gincana burocrática se deveu à obtenção do passaporte. Primeiro, carecia de ter o título eleitoral.  A regularização da situação de Celso no Tribunal Superior Eleitoral – necessária para a obtenção do mágico passaporte – tampouco foi difícil, eis que ‘Celso’ (na realidade, Henrique) já tinha todos os documentos exigidos... Por alistar-se fora do prazo – na época Celso teria 54 anos (se fosse vivo) - Henrique pagou multa de R$ 3,51. Henrique, na suposta pele de Celso, ainda se deu ao luxo de faltar ao 1° e 2° turnos da eleição de 2010, mas, cidadão consciente, pagou a multa por não comparecimento (R$ 7,02 !)

          Duas conclusões: o humor negro do advogado de Henrique – que pleiteou da Corte de Bolonha a liberdade provisória para o cliente, por não apresentar perigo de fuga – não foi engolido pela Corte. Per caritá ! precisa ter muita cara de pau para dizer que o fujão Henrique Pizzolato é confiável !

           A segunda conclusão é também óbvia, mas um pouco mais dolorosa. Toda essa burocracia se escuda na parafernália digital e tecnológica. Em especial, o TSE se apresenta como baluarte contra a fraude eleitoral. Dada a facilidade do senhor Henrique em obter o título do irmão Celso, morto há tantos anos, quantos ‘defuntos’ estão por aí na pele de eleitores abnegados, zombando da Morte e, quem sabe, enchendo a antiga lista de votantes.  Pelo sim, pelo não, isto carece de ser verificado, e por gente especializada, e não por burocratas.

 

Cinegrafista da Bandeirante é ferido gravemente

 
            Muitos repórteres tenha caído vítima da violência dos protestos,  com o despertar, em meados de 2013, do movimento do passe livre. Há pouco, este blog registrou a jovem repórter da Folha que, alvejada por um policial com bala de borracha, perdeu a visão de um de seus olhos.

            As ditas balas de borracha, supostamente não-letais, representam um perigo para todos, e em especial para manifestantes e repórteres. Que as chefias de polícia continuem a permitir o uso desses projéteis, muita vez usados irresponsável ou covardemente por agentes mal-preparados, é algo que infelizmente só ocorre no Brasil ou em países autoritários em que a incolumidade de manifestantes e jornalistas não é respeitada.

           O cinegrafista Santiago Andrade, recolhido de urgência ao Hospital Souza Aguiar, no cenro do Rio,  teve o cérebro atingido por uma bomba de fabricação caseira. É lamentável que um profissional da televisão, empenhado em trabalho em área de risco, tenha sido de alguma forma visado, e com inaudita violência. Santiago, que perdeu muito sangue ainda no local, socorrido por um carro da PM chegou ao hospital em coma. O cinegrafista teve afundamento do crânio e perdeu parte da orelha esquerda.

          A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) repudiou o ataque ao cinegrafista da Band, e assinalou que Santiago é o terceiro jornalista ferido em protestos de 2014. Com a Abraji, é de esperar-se que o ataque ao cinegrafista seja investigado com toda a rapidez.

 

Dilma e os Apagões  
 

           Com o quarto ano de seu mandato presidencial já encetado, Dilma Rousseff – que falara grosso na campanha eleitoral contra os apagões sob o tucanato - agora se descobre a ter de justificar apagões seguidos na rede elétrica. Tampouco foi esquecida a dílmica frase: “no dia em que falarem para vocês que caíu um raio, vocês gargalhem. Raio cai todo dia neste país, a toda hora.  O raio não pode desligar o sistema. Se desligou, é falha humana, não é do raio.”

           E não é que o Sr. Hermes Chipp, Diretor do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) veio a público dizer: “A descarga elétrica (raio) é uma das hipóteses. Vamos ver se há identificação pelos institutos especializados das descargas elétricas.”

           E de novo Super-Dilma se manifesta. Mas, surpresa!, não é a do ‘gargalhem’, ou a da especialista em energia, com o fundo menosprezo pelos apagões do tempo de FHC. Vejam o que diz agora a responsável-geral pelo sistema: “Se raios forem realmente responsáveis pela queda (de energia), cabe ao ONS apurar se operadores estão mantendo adequadamente redes de para-raios”.

          Terá a Presidenta tomado Maracugina ou está mais calminha porque não há outro jeito?

 

(Fontes: O Globo, O Globo on-line, Folha de S. Paulo)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Vária

                                     

Situação em Botafogo

      A leitura dos jornais nos dá agora um quadro em que bandidos e ladrões, que antes infernizavam a vida dos moradores de Botafogo, com sucessão de furtos, roubos, assaltos à mão armada e todas as variações da delinquência, passam a ser apresentados como pobres coitados, infelizes que têm os seus direitos humanos escarnecidos e pisoteados. Conhecidos especialistas em direitos humanos fazem advertências em prol dos ditos coitados, que estariam sendo vítima de uma privatização da violência repressiva.
      Antes a leitura era diversa: apresentava a revolta da cidadania, forçada a reagir, diante do abandono do bairro e adjacências, pelas incursões dos mesmos bandidos e ladrões, além da malta dos de menor, que são ditos ter o passe-livre para o crime, chegando a ser disputados pela bandidagem para a prática de crimes mais graves, que para eles prometem breve estada em alguma instituição para menores de idade, enquanto se suspeitos e indiciados por tais crimes, os de maior de idade, correm o risco de servir longos anos de prisão.

       É difícil determinar onde está a verdade, na volúvel mídia, que um dia publica e estampa uma coisa, e outra dia, se faz ventríloca de outros mágicos, e apresenta uma realidade de todo diversa.

       Em verdade, meus leitores, a situação continua na mesma. O papel é o mesmo, o jornal ou a estação é a mesma, só mudam as vozes e a ação dos personagens.

       Um palpite: por que a cidadania resolveu tomar a peito o problema?  Pela simples razão de que a polícia – militar ou não – primava pela ausência, deixando o campo aberto para os bandidos e os de menor. Daí, a reação da gente honesta, cansada de sofrer na carne a displicência das forças policiais, que primavam pela ausência.

        Se a polícia faz o seu trabalho de prevenção e de combate ao crime, dentro da lei, a cidadania será a primeira a bater palmas, em verificando que os seus impostos pagos estão servindo para bons fins.

        Mas não me venham, por favor, com choramingos sobre os direitos dos meliantes e assassinos. Foi por tripudiar sobre o direito alheio à paz e a segurança que os coitadinhos provocaram essa onda da reação de um povo que respeita a lei e só não gosta de ser roubado e assaltado a cada passo.

        Querem Botafogo e qualquer outro bairro vivível e habitável? Polícia nas ruas, repressão aos bandidos (assaltantes, ladrões, assassinos) e a cidadania feliz! Porque não se enganem com o choro do malandro e do bandido: ele só pede clemência, quando é apanhado em flagrante. Caso contrário, é o retrato de intolerância, da covardia e da perversidade...

        E não se esqueçam nunca: tudo fica melhor no respeito à lei e à ordem.

 

 Comissão de  Direitos Humanos da Câmara

 

         É ou não é  piada de salão ?       Depois de um ano de desastre causado pela presidência de Marco Feliciano (PSC-SP) na dita Comissão, não é que o deputado Jair Bolsonaro(PP-RJ) coloca a sua candidatura a presidir a Comissão ?  E para completar a piada de mau gosto, o deputado Feliciano apóia a postulação!       


           Antes que seja demasiado tarde e a comissão em apreço virar matéria de galhofa – além de comprometer Câmara e Congresso – urge que as lideranças, em geral ausentes, se façam presentes e escolham alguém capaz de tornar mais uma vez a Comissão de Direitos Humanos da Câmara algo sério, que trata de assuntos de importância, e não cuida de promover-se.

           Feliciano, não!  e Bolsonaro, também !

 

(Fontes: O Globo, Folha de S. Paulo)

Problema Anunciado

                              
 
          Não é de provocar surpresa que uma das profissionais médicas cubanas, mandadas vir pelo regime de Raul Castro, segundo o acordo firmado com Havana, que decerto não honra a democracia brasileira, tenha deixado o programa Mais Médicos e pedido refúgio no Brasil.
          A Dra. Ramona Matos Rodriguez, dada a estreita relação do governo petista com a ditadura cubana – não é fácil de esquecer a mancha deixada pelo Presidente  Lula da Silva, ao despachar de volta à ilha dos irmãos Castro os dois boxeadores que se haviam fiado da tradição democrática brasileira em matéria de asilo  - corre o risco de que o Conare, órgão do governo Dilma, não favoreça o pedido da médica. Sem embargo, deve notar-se que o Conare já concedeu refúgio para 71 cubanos que alegaram correr risco em seu país.

          Agora o Mais Médicos está sob os cuidados do flamante Ministro da Saúde, Arthur Chioro. Que o Brasil de Dilma Rousseff tenha entrado nesse acordo com Cuba, não deve surpreender, dado o histórico do relacionamento entre o PT e os Castro. O novel Ministro terá sido inteirado de o quê dizer, máxime no que tange à Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) que dá aval ao programa. Se não fala com a desenvoltura do antecessor Alexandre Padilha, com o tempo pela frente estará mais à vontade. Padilha, como se sabe, foi declarado, em junho de 2013, persona non grata pela Associação Médica Brasileira e o Conselho Federal de Medicina, por defender a importação de médicos estrangeiros para áreas remotas, sem a realização do exame Revalida.  O Dr. Padilha, que se declarara infectologista, teve o título impugnado pela Universidade do Pará.  

          O que repugna no programa Mais Médicos não é tanto o sigilo – que também aparece na concessão do Porto de Mariel, coisa de primeiro mundo, que muito gostaríamos de ter em Pindorama – mas as condições de servidão que impõe aos profissionais cubanos, com a conivência de Brasília.

         A médica Ramona Rodriguez está, como os demais médicos, submetida às condições draconianas da ditadura castrista.  Do salário de mil dólares, quatrocentos são depositados na sua conta, mas o restante é retido em Cuba. A empresa cubana – a intermediária no contrato – deve depositar nos municípios da Amazônia legal já no primeiro mês 70% da ajuda de custo (R$ 21 mil). Consoante a médica, ela  recebeu no seu segundo mês (salário e ajuda de custo) apenas R$ 4 mil.  Perguntado se os US$ 400 são insuficientes, o Ministro Arthur Chioro preferiu dizer tão só que o acordo entre Brasil e OPAS está sendo cumprido.

          A Dra.Ramona estava sediada em Pacajá, no Pará. Ajudada por amigos, viajou para Marabá, onde embarcou em voo para Brasília. Os seus amigos também a informaram de que a Polícia Federal a tinha procurado em Pacajá, o que, compreensivelmente, inquietou a cubana. Por isso, ela decidiu na terça-feira contactar o DEM, para pedir proteção. 

           Já sob a asa do DEM,  a médica para garantir-se bateu não só no Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), mas também na Embaixada americana.  Já no sábado primeiro de fevereiro, ela pediu visto de entrada em programa americano destinado a médicos cubanos que trabalham em outros países e decidem desertar. A resposta tarda entre três e quatro meses.

           Por outro lado, no pedido de refúgio, protocolado na quarta-feira, cinco do corrente, no Ministério da Justiça, Ramona argumenta que, se retornar a Cuba, sofrerá retaliação do governo e que será presa.  Tal pedido foi protocolado por parlamentares do DEM, que abrigaram Ramona desde a noite de terça-feira, quatro de fevereiro.

            Em intervenção pública, o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, negou as três imputações seguintes: que (a) a Polícia Federal a tenha procurado, (b) a médica esteja sendo investigada e (c) exista interceptação legal do telefone.

 

(Fontes: O Globo, Rede Globo, e internet)