segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Helder Câmara, um Santo brasileiro

                              

        Para os que tiveram a fortuna de conhecê-lo pessoalmente, Dom Helder impressionava pela humildade. Recordo-me de suas visitas ao gabinete de um ministro de estado. A batina poderia ser a de um anônimo sacerdote, assim como a surrada pasta que trazia.  Vinha sempre sozinho, como se na sua modéstia, não carecesse de secretário ou de qualquer aparato eclesial.
        Tampouco dom Helder costumava marcar hora. Chegava com seu jeito discreto e a cruz de madeira, para pedir – e nunca por ele - a atenção da autoridade. Com a simplicidade que constituía a sua própria natureza, vinha e  sentava-se nas salas de espera.

       Tinha sempre o que fazer. Ou lia o breviário, ou fazia anotações. Os demais se dariam conta daquela presença verdadeiramente ilustre, embora não o acompanhasse a soberba de tantos príncipes da igreja. Nunca vi exemplo de maior naturalidade no ser simples e humilde, por mais que conhecido fosse.
       Dom Helder Câmara – ou padre Helder Pessoa Câmara, como gostava de ser chamado – não afetava nem riqueza, nem poder. A cruz de madeira e a vestimenta sem qualquer adereço ou fímbria eclésio-palaciana constituíam apenas o que um modesto cura de campanha portaria.

       Se a afetação pode ser arma de dois gumes, quem o conhecesse jamais sequer imaginaria que existisse qualquer coisa de artificial na sua atitude. Na verdade, ter a ventura de vê-lo já era oportunidade de mergulhar no mistério da santidade.   
      Para quem excelera em todas as suas atividades – de padre a arcebispo – sempre voltado para ajudar o próximo e, em especial, os mais desfavorecidos, e para quem o renome nacional e internacional, clerical e laical, jamais lhe deformaria a personalidade voltada para servir, há de surpreender deveras a derradeira provação que lhe foi imposta.

        Com efeito, após a renúncia canônica, e tornar-se Arcebispo emérito, Dom Helder Câmara assistiu ao desmantelamento de toda a sua obra pastoral pelo sucessor D. José Cardoso Sobrinho, O.C.
        Como toda prova imerecida, muito terá exigido de sua capacidade de obediência e resignação eclesial.  Com isso, sofreram não só os seus devotados auxiliares, mas sobretudo o povo humilde de Olinda e Recife. 

        D. Cardoso Sobrinho golpeou de forma tão incompreensível, quanto sem limites o trabalho espiritual e material que a presença de dom Helder na Sé de Olinda havia desenvolvido.  Todas as missões espirituais e temporais criadas pelo exemplo e a iniciativa desse grande arcebispo foram ou desativadas, ou desencorajadas, com grande prejuízo para todas as comunidades carentes que delas muito dependiam.
        Não é difícil, outrossim, imaginar o golpe assestado contra a religião e o seu recuo, que previsivelmente redundou no afastamento de grande número de fiéis da religião católica.

       Esse apóstolo das gentes, que tanto se empenhara pelo respeito aos direitos humanos, e cujo voto de pobreza se refletia não só na citada modéstia das vestes sacerdotais e na singela cruz de madeira que levava ao peito, também se marcou como apóstolo da paz. Teria sido certamente declarado Prêmio Nobel, se o Comitê de Oslo, que não se curvaria aos herdeiros de Mao, não houvesse cedido à pressão de então regime militar brasileiro.

       Aspecto não de somenos importância – que lhe realça a grandeza da personalidade e a vocação pastoral  - foi a obediência e a humildade demonstradas diante da atitude hostil e tão pouco cristã do sucessor, que envidou, por todos os meios e modos, atingir-lhe a obra pastoral. Até o limite da heroicidade, Dom Helder nunca incentivaria os seus discípulos e antigos subordinados a se indisporem e reagirem contra as medidas adotadas pelo sucessor, malgrado a compreensível revolta e mesmo indignação que o caráter regressivo e intolerante da nova gestão estava fadado a provocar.
       Isto representou, certamente, a prova mais cabal da humildade de Padre Helder Pessoa Câmara, humildade que se fazia cruelmente provar pelo caráter negativista, a beirar os limites da compreensão, e pelo manifesto sentido contrário que perpassava as determinações do novo Arcebispo.

        Dom Helder era homem de paz, e o provou cabalmente ao ser submetido a   tal ingente provação.  Coube-lhe presenciar o desfazimento de sua obra na Sé de Olinda e Recife, o que se procedeu com encarniçamento que costuma golpear não os trabalhos apostólicos e de caridade, mas de bem outro gênero de atividade.
        Depois de seu benemérito empenho como Arcebispo-auxiliar do Rio de Janeiro, onde tanto se prodigou pela população menos favorecida, deixando, ao partir para o Recife uma esteira de benemerência que até hoje se evidencia na Feira da Providência e outras inúmeras obras para as classes menos favorecidas, como poderia ele imaginar que o seu maiúsculo trabalho pelos pobres na Sé de Olinda e Recife terminaria com tanta  incompreensão e por espírito tão pouco imbuído da caridade e da compreensão de Nosso Senhor Jesus Cristo ?

         Dom Helder Câmara em vida foi a personificação da bondade e da obediência eclesial, obediência esta realizada até ponto que semelha difícil não confundir-se com a disposição heroica de cumprir as ordens do Senhor, por mais dificultoso e incompreensível que fosse o exercício para tanto exigido.
         Sacerdotes e religiosos, assim como as comunidades eclesiais e leigas, que tão entusiasticamente acolheram esta grande dádiva do apostolado, que D. Helder personificou com humildade e a infinita capacidade de fazer o bem à sua volta, receberiam com jubilosa gratificação e não menor gratidão que a causa deste Servo de Deus mereça a necessária atenção para que se lhe faça justiça.

         O processo de beatificação de dom Helder Pessoa Câmara faria justiça a uma personalidade que foi um dom de Deus para quem teve o privilégio de conhecê-lo ainda que de forma perfunctória, o que dizer então do enorme rebanho de fiéis, no Brasil e pelo mundo afora, que tiveram o benefício de seu carisma e empenho ?

domingo, 8 de dezembro de 2013

Colcha de Retalhos A 45

                                    

Apoio de Dilma a Arno Augustin ?

      A notícia de O Globo, inserida em página interna do caderno de Economia, na verdade chove no molhado. Como Dilma Rousseff poderia decidir não apoiar o secretário do Tesouro, Arno Augustin, se o referido senhor é uma criatura da Presidenta?
      Nos últimos dias, a imprensa noticiou uma reunião da equipe do Secretário do Tesouro que não saíu como esperava o senhor Augustin. Nada feito, para Dilma. Augustin, o secretário do Tesouro, continua prestigiado. A palavra, se tem um significado equívoco no jargão esportivo (técnico prestigiado pela diretoria é técnico ameaçado de iminente destituição), e tampouco foi expressamente dita por Sua Excelência, no entanto, está no ar, além dos aviões de carreira, na frase de Aporelli.

      A pergunta que o mercado há de fazer-se decorre da avaliação de Dilma segundo a qual “Augustin ainda tem condições de mostrar aos investidores que o governo está comprometido com um superávit primário – economia para o pagamento de juros da dívida – capaz de manter a dívida pública em trajetória de queda.”
      Nesse sentido, para a Presidenta “Augustin e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, apontados como responsáveis pela deterioração das contas públicas, mudaram a política fiscal a partir do meio do ano, falando publicamente que não haveria mais manobras para se chegar ao (superávit) primário e suspendendo a política de desonerações, que vinha reduzindo a arrecadação”.

      De acordo com fonte governamental, “esta equipe que está aí fez uma política até o meio do ano e outra depois. Isso mostra que as pessoas são maleáveis. Portanto, hoje, não há intenção de mudar ninguém”.
      Nesse contexto, a rósea visão da unidade da equipe econômica e a propalada mudança na política fiscal sem manobras para se chegar ao (superávit) primário é comovente, mas alguma coisa aqui não bate. Como se interpreta a recentíssima tentativa de utilizar a Caixa Econômica (como antes o BNDES) para um empréstimo ao Tesouro afim de abater a dívida contraída o subsídio à conta de luz ?  Se a disposição de Augustin (e de Mantega) é assim tão firme na mudança da política fiscal sem mais maquiagens, porque essa operação foi mandada às urtigas pela péssima repercussão das primeiras sondagens?

       O quadro fica mais claro se soprarmos o segredinho de Polichinelo. Na verdade, as duas personagens, tanto o favorito Arno Augustin, quanto o Ministro Mantega, são executores de uma alegada (e assaz questionável) política fiscal que sai prontinha da usina de dona Dilma. Tanto um, quanto o outro, dançam conforme a música, e quem a está compondo e tocando por enquanto é a Presidenta Dilma.

 
O Brasil e as boas Notícias na Economia Americana

 
        As estatísticas do Departamento do Trabalho trouxeram boas notícias para os observadores da economia americana. Em novembro, houve aumento no emprego de 203 mil, bastante mais pronunciado do que as estimativas anteriores.  Com isso, o desemprego cai para o seu mais baixo nível em cinco anos, alcançando os totais de 2008, vale dizer 7% da força de trabalho.
         Ainda há muito caminho a percorrer para se alcançar números  que se insiram na faixa do pleno emprego (em torno de 5,5%).  Existe ainda muito desemprego (inclusive aquele de longa duração), sobretudo nos setores menos sofisticados da economia.

          No entanto, a notícia é sem dúvida  boa  e assaz positiva para a Administração Obama. O Presidente, decerto, a saudará com entusiasmo, máxime depois da serie de problemas com as barbeiragens na implantação do site da reforma da saúde, a qual, diga-se de passagem, a julgar-se pela discrição da mídia,  aponta agora para o lado positivo, com a inegável melhora no site Healthcare.gov
          Por outro lado, boas novas na terra de Tio Sam nem sempre são motivo de idêntico júbilo nas economias emergentes, como, v.g.,  o nosso mercado. Com o melhor desempenho da economia da superpotência, principiam os rumores sobre eventuais novos procedimentos da Federal Reserve, no que tange à política de estímulos. Transformadas as condições, os instrumentos da Junta de governadores do Banco Central americano carecerão de adaptações  às novas circunstâncias econômico-financeiras.

          A tendência, se a recuperação se reforçar e a recessão ficar para trás, aponta para possível e mesmo provável  mudança na política atual do dólar barato, com os presentes juros, próximos de zero. Se a taxa de juros do dólar estadunidense for alterada em tal sentido pelo Fed, haverá alguma inquietude em Pindorama, se o fluxo dos greenbacks para os novos mercados (leia-se Brasil) tiver inflexão que, por força do crescimento das oportunidades na maior economia do planeta, não será exatamente um desenvolvimento em nosso favor, eis que o fluxo das inversões deverá decrescer.

         O dinheiro é volúvel e está sempre à procura de aplicações mais vantajosas. Essa regra do Conselheiro Acácio é geral. Só se dão mal aqueles que pensam que as épocas de ventos favoráveis e de bonança são permanentes.

 

 A Revolução Ucraniana

 
          Passam as semanas e as manifestações continuam a crescer em Kiev. Aumentou a indignação do povo com a recente reunião entre os presidentes Viktor Yanukovych e Vladimir Putin. Vindo da China, Yanukovych encontrou-se com o presidente russo em Sochi. Embora as autoridades neguem, existe a forte suspeita de que os dois líderes teriam chegado a um acordo, em que o ingresso da Ucrânia na Zona Aduaneira seja agilizado com a concessão de vantagens no gás ( que Kiev adquire da Rússia) e outras mais não especificadas.

          A suspeita de grande parte da população é de Yanukovych firmou acordo secreto com Putin. Malgrado o desmentido do Primeiro Ministro Mykola, as suas declarações ainda mais contribuíram para aumentar a suspicácia, eis que este último afirmou que se ‘avançara  em parceria abrangente e estratégica’.

          Grande parte do povo ucraniano depositava esperança no anunciado pacote de acordos políticos e comerciais com a União Européia. Que Viktor Yanukovych os tenha jogado fora do dia para a noite, representou uma bofetada na população. A via europeia ocidental de uma probabilidade teria passado para certeza de progresso tanto no domínio econômico e comercial, quanto no político (democracia). Na revolução laranja de 2004 já este anelo estava presente, e a circunstância de que as conquistas (eleição de Yushchenko) não tenham trazido grandes avanços, permanece o anseio pela democracia.

            Daí a concordância com a liberação de Yulia Timoshenko, dado o manifesto injusto julgamento de que foi vítima, tão impregnado da judicialização do regime autoritário russo de Vladimir Putin.
            Como o Presidente Viktor Yanukovych dispôs dessa esperança do povo ucraniano, é mais do que compreensível o denodo e a raiva das multidões que acorrem à capital, para exigir mudanças.

             Além do aumento do poder do Presidente, e a maneira brutal com que mandou às urtigas o acordo com a União Europeia, a oposição do povo ucraniano está plenamente consciente de que não pode forçar a renúncia de Yanukovych por meios legais. Daí, as reivindicações se tenham orientado para exigir a renúncia do também impopular Mykola Azarof, o primeiro ministro de Yanukovych, e de cambulhada todo o gabinete ministerial.

              Como o número dos manifestantes só tem feito crescer, compreende-se as cautelas do poder simbolizado por Yanukovych. Hoje está prevista na principal praça de Kiev uma grande manifestação, e os comitês informais de liderança contam com a possibilidade de que se reúna um milhão de pessoas.

              Esse número – que obviamente é impossível de ser computado aritmeticamente – pode, no entanto, impor-se pelo flagrante afluxo de gente e pela avassaladora aparência da realidade. Esta mágica conjunção, se acaso sentida pelos partícipes, poderá criar situação revolucionária. Como na revolução laranja, o movimento de agora escreverá as próprias regras, mormente se se tornar presente e real a formação desse mítico quórum do repúdio da massa aos acordos secretos de Yanukovych e à sua manifesta intenção de impor fatos consumados ao Povo, que nas ruas, praças e espaços públicos se crê soberano, e quer democracia com mais Ocidente, e menos Kremlin e a mediocridade da União Aduaneira mercadejada por gospodin Putin.

 

(Fontes:  Folha de S. Paulo;  O Globo;  The New York Times)

sábado, 7 de dezembro de 2013

PIF PAF (IX)

                                               
Podando privilégios

 
           No país da igualdade formal (todos os brasileiros são iguais perante a lei) e da desigualdade na prática (Lula: Sarney não pode ser tratado como uma pessoa comum), a decisão da Justiça, determinando que os presos do Mensalão em Brasília tenham regime de visitas igual ao dos demais presos.
           A decisão sucede após pressão da Promotoria e da Defensoria Pública, que requereram o fim dos privilégios aos condenados pela Ação Penal 470.

           O objetivo é dar tratamento igualitário a todos os presos, evitando os privilégios gozados pelos mensaleiros, que vinham recebendo visitas na sexta, dia em que os demais internos na Papuda não as podem receber.
           O juiz substituto da Vara de Execuções Penais do Distrito Federal, Bruno André Ribeiro determinou, outrossim,  que todo visitante que não esteja relacionado no cadastro do próprio preso só poderá entrar no presídio se a Vara em apreço assim o decidir, depois de ouvidos o Ministério Público e o Sistema Penitenciário.

          Além disso, o Juiz mandou avaliar a viabilidade da extensão de direito de visita especial a internos do sistema prisional, para saber se é possível ampliar os dias para além das quartas e quintas feiras.

 
Mouros na costa para o foragido Pizzolato
     
      O figurino Salvatore Cacciola – que só desmoronou pelo agrado feito por esse foragido à namorada no passeio a Monte Carlo, aonde foi detido (o governo italiano negara a extradição) – não parece que vá ser a regra para Henrique Pizzolato, o único dos réus da Ação Penal 470 que logrou escapar até agora de mandado de prisão expedido pelo Presidente do STF, Joaquim Barbosa.

       Embora não haja sido localizado formalmente, a presunção é que Pizzolato, o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil, tenha escapado das garras da lei via Paraguai. Estaria atualmente na Itália.
       Com vistas a determinar tal suposição, o Secretário da Comissão de Relações Exteriores da Câmara de Deputados (Montecitorio), o Deputado Carlos Sibilia, do Movimento 5 Estrelas (hoje o segundo maior partido italiano), junto com outros sete deputados desse partido interpelou o governo para saber do eventual paradeiro do fugitivo.

       O Gabinete Enrico Letta tem sessenta dias  para responder, segundo Sibilia, “mas pode ser ainda mais tempo”. No caso de agravar-se a questão, “estamos dispostos até a fazer um pedido urgente na comissão. Neste caso, o governo terá uma semana para responder.”
       O Deputado Sibilia defende a extradição de Pizzolato ao Brasil.  No pedido de informações,  se indaga o que o governo italiano pretende fazer com o foragido ítalo-brasileiro, e além disso se há alguma negociação diplomática com o Brasil sobre o caso em tela.

 
Por que o  Mercosul  não  decola ?

 
       O  Mercado Comum Sul-Americano, o Mercosul, não está correspondendo aos sonhos de seus criadores na década dos oitenta. O espírito da integração sul-americana, que norteava os países fundadores – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – não foi forte o suficiente para transformar a Zona aduaneira em um real mercado comum sul-americano.

       Não há dúvida de que a falta de isonomia constituiu um dos motivos principais para esse virtual malogro. Com o PT, sob Lula da Silva e Dilma Rousseff, o imperativo comercial cede o lugar a contingências políticas. Na marra já o finado marido Nestor Kirchner e agora, de forma descarada e continuada, Cristina Kirchner tranca as operações de exportação do Brasil, por motivos de penúria de divisas.
       Esse tipo de operação – que é ilegal – tem sido aceita pelos companheiros do PT, com evidente prejuízo de nossos exportadores. Como não há retorsão das instâncias do comércio exterior brasileiro, a viúva Kirchner impera, eis que retem na marra as exportações de produtos brasileiros, sem pagar qualquer preço, político ou financeiro, pela contumácia.

        Por outro lado, em operação do Governo Dilma, que agiu com prepotência em relação ao pequeno Paraguai, forçando a respectiva suspensão do Mercosul (por causa do impeachment de Fernando Lugo). A dílmica mão forte foi o recurso in extremis para ensejar o ingresso da Venezuela chavista no Mercosul.
        Não se respeitou a isonomia em termos dos estados fundadores (pelo Tratado de Assunção do Mercosul), e se abriu a porta para a Venezuela chavista, malgrado o veto de Assunção à sua entrada.

        O Governo petista de Dilma Rousseff se pautou por um figurino ideológico, que nada tem a ver com a política de Estado sempre seguida pelo Governo brasileiro desde  o Império. Não surpreende que com tais ações a progressão do pobre Mercosul seja uma caricatura cruel de o que entendiam os seus fundadores.

 

( Fontes:  O Globo;  Folha de S. Paulo )  

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Nelson Mandela (1918 - 2013)

                                          
         Todos os prêmios com que foi galardoado Nelson Mandela como que se apequenam diante da grandeza do personagem.

          Não nascido em berço de ouro, Mandela pela trajetória de vida e a capacidade de assimilar lições mostra que um ser humano feito com o barro que moldou Madiba pode surpreender não só correligionários, mas também os adversários e até mesmo seus algozes.
         A história da vida de Mandela é relevante menos pelos anos de sofrimento e de forçada reclusão, do que pela resposta que soube encontrar, em vários momentos determinantes de sua existência.

         Arnold Toynbee em sua obra[1], hoje esquecida (quem sabe temporariamente), nos mostra a importância nas civilizações não só do desafio (challenge), senão e sobretudo da resposta (response). Dessarte, a História nos ensina que o êxito reside na qualidade e na inventiva da resposta.
         Na vida de Mandela se patenteia com demasiada força que os desafios – e que desafios! prisão perpétua, depois comutada - não foram obstáculos, mas na verdade degraus para que surgisse o político Nelson Mandela.

         Sempre com generosidade e firmeza, venceu a todos os óbices (sem falar do regime do apartheid, os abusos da segunda esposa[2] e parentes, a resistências de antigos co-militantes) e caminhou para lograr o que muitos reputavam impossível, a união de negros e brancos.
         Após derrotar a Frederik de Klerk, no pleito de 1994, não fundou a própria ação na vingança, mas sim na reconciliação. Teve a força necessária de controlar pelo exemplo e a autoridade  franjas provocadoras na comunidade negra, que buscavam, na suposta justiça retributiva, enveredar pela senda sem retorno do ódio, da contraposição e da desagregação social.

          Ao enjeitar a caça às feiticeiras, teve a indispensável firmeza  de dar o exemplo, confirmando as autoridades constituídas no seu respeito às instituições. Para tanto, não lhe faltou carisma, nem coragem, e tampouco inventiva, como demonstraria na utilização do campeonato mundial de rugby, antes esporte da minoria branca, como forma de soldar a união de todas as camadas populares – negros e brancos. Com  empenho, denodo  e a personalidade do líder, pelo exemplo e a equanimidade, soube conduzir e possibilitar, diante do público multirracial nos estádios, a difícil, quase impossivel vitória-símbolo da União Sul Africana sobre a equipe adversária, a temível Nova Zelândia.
            Os presidentes sul-africanos que o sucederam – Thabo Mbecki que enxergou a Aids através do prisma racial, uma desculpa no seu entender, para reforçar estereótipos de africanos como primitivos e incapazes de controlar a libido. Ao combater a suposta centralidade dessa visão estereotipada, caíu presa de charlatães, acreditando até em que o flagelo da Aids pudesse ser vencido através de remédios tribais;  e Jacob Zuma, com as façanhas conjugais e a maneira constrangedora de instrumentalizar diante da mídia as aparições do nonagenário Mandela combalido e contrafeito – nos mostram que são feitos de outra matéria que Nelson Mandela.

            A dizer verdade, Mandela não carece deles para nada. O que dói é que com a partida de Madiba, a mediocridade ora se afirma como a prevalente  realidade  na União Sul-Africana.
            Pois os grandes homens, quando caídos parecem ainda maiores.

 

(Fonte subsidiária: Folha de S. Paulo)



[1] A Study of History (Um Estudo da História)
[2] Winnie Madikizela.

Notícias da Retaguarda

 
 Explodem seis bueiros em Copacabana

            No final desta manhã de sexta-feira, sob temperaturas de Rio 40°, explodiram seis bueiros em um único quarteirão da rua Barata Ribeiro. Trata-se de uma das principais artérias de Copacabana, com elevado tráfego, e é paralela à avenida NS de  Copacabana. Enquanto esta tem a mão no sentido do centro da cidade, a Barata Ribeiro está no senso inverso,  na direção de Ipanema e Leblon.
           A notícia do Globo on-line ainda não tem muitos detalhes, mas, pela falta de qualquer menção a pessoas acidentadas, é de supor-se que ou se trata de ferimentos sem gravidade, ou as explosões de bueiro não atingiram ninguém.

           Se assim foi, a sorte do carioca não foi das menores. Como o ‘acidente’ ocorreu em área de circulação de muitos pedestres e sobretudo de veículos, as explosões dos bueiros (peças de metal pesado) representam sério, e até mesmo leta perigo  para os pedestres ou motoristas que tiverem o infortúnio de estar no caminho desses bólides.
           Em passado até recente se sucederam diversas explosões envolvendo bueiros nas ruas de Copacabana. Como, em muitos casos, tal se deva à manutenção deficiente de parte das companhias de gás e de luz dos seus equipamentos dispostos no subsolo, houve muitas promessas dos dirigentes com vistas a revisões e trabalhos urgentes.

          Transcorridas semanas e meses sem outros acidentes, a questão não recebeu – pelo menos no noticiário jornalístico – a antiga atenção. Agora, volta o movimento decorrente desse front subterrâneo e caberia esperar das autoridades competentes um novo interesse sobre a questão. Os alegres fregueses dos bares e restaurantes da Zona Sul podem não dar-se conta, mas  por autorização de um prefeito (hoje rebaixado a vereador) muitos estabelecimentos colocaram cadeiras e mesinhas nas calçadas. Ora, nessas calçadas o que não falta são bueiros, como qualquer transeunte mais atento logo se há de flagrar...                         

As prisões do  Mensalão

            Depois de uma pausa, o Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Joaquim Barbosa, mandou prender mais quatro deputados condenados na Ação Penal 470.
            Trata-se do ex-deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP), que prontamente renunciou ao mandato (o que faz por segunda vez). Desta feita, por força da Lei da Ficha Limpa, Valdemar perdeu os direitos políticos até 2029;  do ex-deputado Bispo Rodrigues (PR-RJ); e do deputado Pedro Corrêa (PP-PE); e do ex-dirigente do Banco Rural, Vinicius Samarane.

            Está pendente a prisão do chamado ‘delator’  do Mensalão, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ).  O presidente do STF ainda examina o laudo médico.
            Jefferson mandou dizer que só falará com a imprensa após  a decisão do Presidente Barbosa (sobre se cumprirá a pena em regime semiaberto na cadeia, ou se em prisão domiciliar).

 
As peripécias de José Dirceu  

 
            Não é sem razão que Fernando Henrique Cardoso, quando presidente, sopesava muita vez as suas atitudes no contexto de como as apresentaria, em seu cartum em O Globo, o chargista Chico Caruso.

           Passam os anos, a ironia e a comicidade de Chico não perdem o acume. Tem ele a capacidade de vencer o diuturno desafio da realidade política brasileira, posto que alguns de seus rivais estrangeiros poderiam argumentar que a terra de Pindorama também nisso é demasiado fértil.
          No passado recente, quando do juízo da Ação Penal 470, a caricatura do Ministro Lewandowski lendo um parecer – que vem enrolado em papel usualmente não utilizado para tais fins – me parece sátira terminal, na sua adaptada mas veraz mordacidade.

          Agora, Chico movimenta as primeiras páginas d´O Globo com Zé Dirceu envergando uniforme de bell-boy. Dizendo-se vítima do linchamento midiático, José Dirceu renunciou ao seu emprego de gerente administrativo do Hotel Saint Peter.
           Na verdade, a atenção da mídia fora levantada pelo salário de vinte mil reais, que lhe foi oferecido, em contraste gritante com a remuneração da gerente do mesmo hotel.  Por outro lado, a Rede Globo mandou repórter até o Panamá atrás do furo jornalístico, que não deixou de cair no colo de quem o procura.

         O público do JN foi então apresentado ao auxiliar de escritório José Eugenio Ritter, que na verdade é o presidente-laranja da empresa, com sede em paraíso fiscal no Panamá.

 

(Fontes:  O Globo; Rede Globo: Globo on-line; Folha de S. Paulo

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O Quebra-cabeça da Economia

                                     

        A retração do PIB de 0,5% surpreendeu como um raio  em céu sem nuvens. Essa inflexão de 0,5% do terceiro trimestre é motivo de espécie por um certo número de causas.
        Em primeiro lugar, é a primeira queda neste tipo de comparação desde o início de 2009, em plena recessão (a dita marolinha), após a eclosão da grande crise financeira, anunciada pela falência do Banco Lehman Brothers.

        Com base neste resultado, as consultorias revisaram suas estimativas para a expansão do PIB em 2013, a maioria para baixo. O PIB teria no último trimestre expansão entre 2,2% e 2,4%, vale dizer o dobro do crescimento de 1% de 2012.
        Pela ótica da produção (oferta), a agropecuária teve uma queda de 3,5% (devido à falta da soja), e o crescimento na indústria e nos serviços foi de 0,1%.

        Já pela ótica da demanda, o consumo ganhou fôlego (1%), enquanto os investimentos caíram (-2,2%), repetindo um modelo de crescimento baseado mais nos gastos das famílias (o que, consoante os especialistas, se está esgotando). No que tange ao setor externo, ele apresenta contribuição negativa ao PIB (exportações -1,4%; importações -0,1%).
        No entendimento de Zeina Latif (sócia da Gibraltar Consulting) – “O fato é que o país cresce pouco. Teremos um 2013 com expansão maior que em 2012, mas com uma fraqueza disseminada.”

        No campo internacional, quem mais cresceu foi a Coreia do Sul, com 1,1%. Seguem-se México e Reino Unido, com 0,8%, os EUA, com 0,7% e o Japão, com 0,5%. Dentre os resultados negativos, o Brasil está em terceiro, com os ditos -0,5%. Na sua frente, França e Itália, com -0,1%.

        Por sua vez, o Ministro Guido Mantega, o otimista de plantão, atribuíu o baixo crescimento da atividade econômica brasileira no terceiro trimestre aos ajustes feitos pelo IBGE no cálculo do PIB do primeiro e segundo trimestres (sic).
        A par disso, Miriam Leitão externa sua preocupação com a iminente nota a ser dada ao Brasil pela principal agência de avaliação de risco, a Standard & Poor.

        O ceticismo de muitos comentaristas econômicos sobre o governo Dilma aparece também no artigo de Vinicius Torres Freire “Não poderia ser melhor: economia já mal das pernas foi contaminada ainda pelo tumulto político e financeiro do trimestre”.  Parece-me de interesse cotejar o parágrafo inicial com o final: “Ator principal da comédia de erros encenada desde o fim de 2011, o governo foi coadjuvante menor do filme B do PIB do período”. E para completar: “para que nossa história em 2014 não seja pior que a de 2013, teríamos de contar com uma reviravolta incrível da política econômica de Dilma Rousseff, com uma transição suave nos EUA e com uma surpresa positiva no crescimento mundial. Muita sorte.”
         Com a devida vênia, talvez o colunista acrescente ao fator Dilma muitas outras incógnitas. O conselho da prudência é cair na real, e na reportagem da Folha “Indefinição fiscal leva Tesouro a ‘lavar roupa suja’.  Arno Augustin, Secretário do Tesouro, reuniu há dez dias a equipe para “lavar roupa suja”. Como costuma ocorrer em tais situações, a agenda da reunião fugiu do controle de quem a convocara. Por um lado, técnicos quiseram saber se há limites para as operações do BNDES, principal financiador da  área econômica.

          O inquirente não saberia da última manobra atribuída ao petista: um empréstimo da Caixa para a Eletrobrás pagar dívidas com o setor elétrico (diante da reação negativa, a operação teve de ser abortada, embora houvesse sido decidida em reunião com o Ministro Mantega e a própria Presidenta.

          Arno Augustin, em 2012, lançou mão de o que foi chamado de “contabilidade criativa”, para engordar o caixa do Governo sem, de fato, economizar. Essa prática consiste em tirar da conta dos gastos despesas como as feitas com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e inflar as receitas, antecipando, por exemplo, a entrada de dividendos de estatais.  Arno Augustin também é responsabilizado pela falta de transparência nas estatísticas oficiais.

          Os leitores me perdoem a suposta falta de coerência de certos personagens. Mas pensando bem, talvez essa aparente confusão ajude não só a enquadrar melhor a situação, mas especialmente lograr compor as peças deste quebra-cabeça.
           E não é que tudo fica mais claro quando nos recordamos que a Presidente da República, Dilma Rousseff,  é economista ?

 

 
 
(Fontes:  O Globo, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo)             

Trincheiras da Liberdade (X)

                                  
Manifestações na Ucrânia

 
       Os manifestantes ucranianos se preparam para  longa estada nos salões da prefeitura de Kiev. Com efeito, mesmo antes da entrada do inverno boreal, as temperaturas já estão bastante gélidas sobretudo à noite (15° graus abaixo não surpreende). Trouxeram, portanto, sacos utilizados para acampar, de modo a melhor enfrentarem o frio noturno.

       O Presidente Viktor Yanukovych, atualmente em visita a Beijing, procura manter-se informado sobre a evolução da situação em seu país. Enraivecidos pela súbita mudança de posição do governo, em atenção às pressões do Kremlin, para que a Ucrânia também se alinhasse na União Aduaneira de gospodin Putin, irromperam protestos em diversos centros desse grande país (que se libertou de Moscou, com a dissolução da URSS em 1991).
       A comparação com a revolução laranja de 2004, irada reação do povo diante das demasiadas fraudes na eleição de Yanukovych para presidente tende a prenunciar um cenário diverso para a evolução da crise.

      Então, o segundo turno de votação se realizara em dezessete dias, com o subsequente triunfo de Yushchenko sobre Yanukovych. Desta feita, os prazos deverão ser mais longos, mesmo na hipótese de que os manifestantes quebrem a resistência do regime.
      Defrontados com a abrupta reviravolta de Yanukovych, cancelando a última hora o amplo acordo comercial com Bruxelas, resultado de longas negociações, optando pelo abraço do urso russo, boa parte da população saiu às ruas, tangida por  profundo desagrado, em especial pela expectativa de futuro mais promissor pela abertura com o Ocidente. Para quem via na associação com a U.E., encetada por acordo comercial, a promessa de melhores perspectivas tanto econômicas, quanto políticas, foi duro e determinante golpe a súbita mudança do governo Yanukovych, voltando à velha aliança, não importa se  sob o knut[1] de fortes  pressões russas, seja mesmo por tardio repensamento político.

      Não se deveria esquecer, nesse contexto,  a prometida liberação da prisioneira do lazereto de Kharkov, a ex-Primeira Ministra Yulia Timoshenko, de início para tratamento da coluna em hospital alemão, que era uma das condições de validação do acordo a ser assinado na reunião de Vilnius, na Lituânia.
     São conhecidos os laços de Viktor Yanukovych com Moscou, eis que o seu partido cultiva o apoio de parte de população ucraniana que ainda emprega o idioma russo, e que tem laços mais estreitos com o antigo poder imperial e comunista. Nesse sentido, para boa parte dos ucranianos é  proposta com ressaibo do passado adentrar a União Aduaneira sob a égide de Moscou. Para a intelligentsia e boa parte da opinião pública é uma opção que recende muito da antiga Ucrânia, província do império russo.
        A própria constituição da dita União Aduaneira, com o seu viés autoritário, e a associação forçada de pequenos países sem condições de resistir às ameaças (e retaliações de Moscou) não constitui proposta para motivar boa parte do povo ucraniano. Como se sabe, a União Aduaneira conta com a participação da Bielo-Rússia e do Kazaquistão, além de pequenos países como os “convidados” Moldova e Armênia. O sonho democrático não convive bem com este súbito retrocesso.

         Por isso o entusiasmo dos manifestantes e a sua disposição de enfrentar as asperezas das noites passadas nos amplos salões da prefeitura. Dada a experiência pregressa, os populares que mergulharam nesse projeto exigem a saída do presidente Viktor Yanukovych, a demissão do Primeiro Ministro e de todo o gabinete.

        Têm eles como seu norte a revolução laranja. Resta verificar se desta feita a evolução lhes será uma vez mais favorável. Nesse sentido, vieram preparados para a Prefeitura de Kiev. Montaram todo um esquema de armadilhas (booby-traps) que não são letais, mas atrapalhariam deveras o avanço das forças da polícia e assemelhados.

 

Visita do Vice-Presidente Joe Biden a Beijing.

 
        Com sua conhecida desenvoltura, em entrevista com o presidente Xi jinping, Biden foi bastante enfático em manifestar a preocupação americana com as recentes medidas pela República Popular da China de zona aérea de identificação. Causou apreensão na região o modus faciendi desse estabelecimento (na área relativa às ilhas de ocupação japonesa e cuja posse territorial é disputada pela RPC e outros países), eis que o governo de Beijing procedeu de forma súbita e sem qualquer aviso.

      Outro tópico levantado em sua conversação com o líder chinês se reporta à situação dos correspondentes estadunidenses do New York Times e do Bloomberg News.

      Em função da reportagem investigativa publicada pelo New York Times, com extensa cobertura dos negócios de familiares do antigo Primeiro Ministro chinês Wen Jiabao.  Às considerações sobre a riqueza da família do ex-Primeiro Ministro se seguiram problemas com situação consular dos repórteres da sucursal chinesa do New York Times. A questão se arrasta desde o ano passado e há indicações de que o visto dos correspondentes não será renovado, o que, na prática, implicaria no fechamento virtual da representação do grande jornal nova-iorquino.

      Também os sites do New York Times (em chinês e em inglês) e do Bloomberg News estão bloqueados desde então.

      Por sua vez, o Bloomberg News  tem ameaçados igualmente os membros de sua representação de virtual expulsão (pela não-renovação do visto). Por outro lado, terá sido por pressão governamental chinesa que o serviço Bloomberg decidiu não publicar as próprias investigações a respeito dos laços dos líderes do Partido Comunista chinês com Wang Jianlin, o homem mais rico da China.

 

(Fontes: New York Times;  O  Globo; Rede Globo )



[1] Açoite, chicote.