segunda-feira, 14 de maio de 2012

O Modelo Econômico Brasil

                             
          A  semana  não se inicia com boas notícias para a economia brasileira. A tendência inflacionária persiste. O mandonismo de Dilma Rousseff também se estende ao Banco Central. Ainda que a autonomia do BC no tempo de Henrique Meirelles não fosse a que se recomenda aos bancos centrais, segundo o exemplo do Federal Reserve Bank estadunidense, ela era bem maior do que a atual. O exercício do Comitê de Política Monetária (Copom) tem evidenciado essa autonomia relativa.
         Ao contrário de o que pensa D. Dilma – e bafejada pela popularidade, os vezos presidenciais se acentuam – a negligência inflacionária não é o bom caminho para o desenvolvimento.
        Por isso, e a despeito das dílmicas declarações de que o B.C. de Alexandre Tombini tem a mesma independência que tinha na época de Henrique Meirelles, a continuada queda da Selic cuida de desmentir essa lorota.
       Para um país cuja única defesa contra a carestia está precipuamente no emprego das taxas de juros, é estranhável que não se atente para o fato de que continue, ano após ano, a inflação de seis por cento ao ano. Os especialistas assinalam que conviver com esse teto é exercício perigoso. Para um país que tanto sofreu com o dragão, não é prudente pensar que a sua presença nesse nível seja confiável.
      Se o governo almeja reduzir os juros a patamares de primeiro mundo, deve tratar igualmente de ter inflação do mesmo nível.
     A investida de Dilma contra a caderneta de poupança pode, no entanto, ainda fazer parte de um esquema de desindexação da economia, que até agora a atual administração e as anteriores deixaram a meio caminho.
     A cultura inflacionária perdura não só na profusão de índices que, a cada novo ano, e sob pretextos vários, reacionam as tarifas dos serviços. Existem outros fatores na realimentação da besta-fera. O salário mínimo – e sobretudo o último do arsenal petista – trata de aquecer inda mais a economia, sob o duplo mote (se não foi seu pai, foi seu avô) exemplificado não só pela inflação pregressa, senão pelo crescimento do PIB. Esta concessão às centrais sindicais não se sustenta em critérios macro-econômicos.
     A Folha publica entrevista de um guru indiano, Ruchir Sharma. Se este senhor pisou na jaca ao atribuir a Fernando Collor a criação do real, isto não se afigura decerto suficiente para desmerecer-lhe o conhecimento. O analista aponta para o previsível baixo crescimento, ‘alavancado’ por uma série de fatores: reduzido investimento em infraestrutura, o real sobrevalorizado e o peso dos gastos sociais. Nesse sentido, o  empreguismo e o assistencialismo desviam recursos, boa parte dos quais poderia ser empregado em inversões mais produtivas.
      Por outro lado, os economistas Fabio Giambiagi e Armando Castelar, no livro ‘Além de Euforia’, a ser lançado nesta semana, batem em tecla similar. Sem mais produtividade, o país crescerá pouco. Segundo eles, o Brasil estaria perto de seu limite, e já não teria como aproveitar a capacidade ociosa do mercado de trabalho ou os bons ventos que sopraram no cenário externo na última década.
      Além de não haver mais desempregados a serem contratados, há outras condicionantes que poderiam mudar o quadro, se não houvesse sido perdida a janela de oportunidade ao longo do período anterior com vistas a promover reformas mais estruturais que garantissem o aumento da produtividade.
      O pouco investimento em educação e a não-valorização do professor garantem a falta de mão-de-obra qualificada. Esse déficit tem sido sentido em vários setores, condicionando inclusive o recurso à mão-de-obra especializada estrangeira.
     O peso do impostômetro é outro indício de um estado patrimonialista, que privilegia o alto tributo sem que haja retorno comparável nos investimentos estatais. O imposto se alastra como manifestação do Estado atrasado, que, na sua orgia tributária,  sobrecarrega todas as atividades. Para onde  acaso se lance o olhar, se verá a carga abusiva (como na eletricidade e nos remédios), cuja fome omnivora é ‘compensada’ pelos múltiplos ralos da ineficiência e da corrupção.  
      No parecer da coluna de hoje de Ricardo Noblat, a presidente Dilma “administra sem brilho até aqui. A nova versão do Programa de Aceleração do Crescimento emperrou. A versão anterior avança devagar. O governo carece de um projeto ambicioso para o país. Com ou sem motivo, os ministros (...) temem trombar com a presidente. O receio fortalece a impressão de paralisia. E no entanto... aos olhos de quase 80% dos brasileiros, Dilma vai muito bem.”
      Qual será o remédio, é o caso de perguntar. Que tal enfrentar as lacunas, apontadas por gente daqui e d’além-mar ? Para as grandes reformas – a fiscal e a política – a hora terá passado. Talvez fosse demasiado esperar da criatura de Lula um tal passo, nas circunstâncias de seu advento.
       O futuro, no entanto, não pertence só a Deus. E já se lembrou que as grandes caminhadas podem começar com um só passo.
 



( Fontes:  Folha de S. Paulo, Veja, O Globo )

domingo, 13 de maio de 2012

A Censura e a Constituição

                       
         
         Alguém ousaria negar a atualidade  do número da revista Veja desta semana, em que o artigo 220 da Constituição de 5 de outubro de 1988 aparece na capa da revista ? Aí se lê que ‘a manifestação do pensamento,a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição’.
         E como se não bastasse, se acrescenta: ‘Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social’.
         Por fim, estas palavras, que forte  ressoaram  em 1988, com a frase do Ministro da Justiça de então, Fernando Lyra, ‘Censura, nunca mais !’ :
       ‘É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística’.
       O momento presente, em que a CPI do Cachoeira, nascida de forma quase concomitante com o anunciado tribunal do mensalão, uma vez mais semelha adentrar-se por  terreno que estaria fora dos limites da geração que acompanhou o processo de redemocratização e de consequente negação da censura.
       Sendo a censura uma verdadeira hidra, com tantas cabeças  quantas no momento lhe aprouverem, ou melhor, lhe parecerem aquelas com condições de contornar ou eludir a proibição constitucional, a luta dos inimigos da censura terá de ser sem quartel e sem falsos oportunismos.
      Não se pode pensar que se o interesse de uma parte está atendido, o restante do combate não nos concerne. Ledo e estúpido engano! Assim como a liberdade, cuja preservação exige a tão proclamada eterna vigilância, não diferem, em verdade, as condições para que a erva daninha da censura tampouco possa progredir.
     Passada a euforia do primeiro momento, não tardou muito para que o arrocho do livre pensar, a sufocação da verdade de outrem ensaiasse os seus passos. Tal ocorreu em manifesto desrespeito do desígnio do constituinte de 1988, que, após o vintênio da ditadura militar, sabia do flagelo da censura.
     Pode-se acaso afiançar que o artigo 5º, inciso IX, e o citado artigo 220, disposições lapidares no ático mármore de nossa Lei Básica, lograram a expulsão definitiva da censura ? 
    Como os inimigos da liberdade de pensamento não aceitam o ‘não’ como resposta aos seus ardilosos intentos de esvaziar as determinações e as barreiras que mantêm à distância da citadela da democracia essa torpe criatura de todos os desmandos, também a sagrada proibição da censura precisa ser alimentada não só com a vívida lembrança de um instituto de quase 25 anos, senão com intemerata vontade política, refletida em oportunas decisões do Supremo.
    Há tempo se aguarda uma palavra conclusiva sobre um dos últimos arreganhos da maldita censura, que se tenho horror em referir, forçoso será recordar que, malgrado todas as objurgatórias e artigos de condenação, não obstante tudo a inconstitucional sentença de um desembargador brasiliense continua de pé. É a censura judicial estabelecida ao arrepio da Carta Magna contra o Estado de São Paulo.
    Serei eu acaso o único que ainda não se conformou com esta inaceitável situação ?
    Que presidência do Supremo mais oportuna do que a de Ayres Britto para derribar mais esse protervo intento contra a liberdade de pensamento !
    A censura não é somente a ameaça e o perigo que se afiguram mais próximos para este ou aquele veículo de imprensa e da mídia em geral.
       Repito, a guerra contra a censura não se vence com o egoismo oportunista. Assim como a tentativa de abafar a incômoda liberdade de informação de uma revista, tampouco se pode admitir que sentenças inconstitucionais durmam um sono que não é o dos justos, dentre as causas que aguardam a palavra do STF.  
      O Supremo, através da desejada Súmula vinculante, poderia mandar de volta para a platônica caverna todos aqueles que acreditam possível reinstituir na democracia brasileira as situações prevalentes naqueles ínvios grotões de que nos falou o Moisés da nossa revivida democracia, Tancredo de Almeida Neves (1910-1985).
      O Nunca Mais! da Censura também carece de ser regado, para que essa e outras plantinhas não definhem.



( Fonte subsidiária: Veja )  

sábado, 12 de maio de 2012

Notícias do Front (19)

                                   
A convocação pela CPI do Procurador-Geral

      Há notícias contrastantes sobre a convocação do Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel. Existe a óbvia intenção de um grupo de integrantes da CPI, que dança no compasso do Partido dos Trabalhadores, interessadíssimo em interrogar o Chefe do Ministério Público.
     Será que eles desejam mesmo esclarecimentos de Gurgel acerca da circunstância de não ter investigado o senador Demóstenes Torres em 2009, quando a Polícia Federal já tinha evidências de envolvimento do senador com o contraventor ?
    O Procurador-Geral aduziu a razão provável do desejo petista de colocá-lo no banco das testemunhas. No seu entender, os ataques partem de quem “está morrendo de medo do julgamento do mensalão”.
    Não se sabe ainda ao certo quando o juízo começará. Sem embargo, só quem acredita em estórias da carochinha alimentará a esperança de que o ‘juízo do século’ morrerá na praia. Por isso, manda a tática que é oportuno enfraquecer o promotor, que disporá de seis horas para a sua peça acusatória.
    Que melhor ocasião então para essa faina que o pretexto da convocação do Procurador-Geral ?
    Dentro da consueta prática parlamentar, o propósito de convocar o Chefe do Ministério Público vem precedido de vazamentos de fonte. Com isso, se mantém aceso o fogo da antojada inquisição, a par de aquilatar-se a força dos argumentos contrários e da anunciada rejeição.
     Por sua vez, o Deputado Odair Cunha (PT-MG), o relator da CPI do Cachoeira, se adentra na refrega. Diz ele considerar desnecessário que o procurador-geral seja convocado. O relator ficaria a meio-caminho: a seu ver bastaria que o Chefe do Ministério Público apresente as justificativas por escrito.
     Será uma solução de compromisso ? À primeira vista, não. Persiste, na versão alternativa, o questionamento pela CPI do procedimento pregresso do Procurador-Geral. A presunção de que Gurgel deva justificar-se continua.
     Tal opção será aceitável para o promotor do mensalão, ou no seu entender, nada muda ? Com a palavra o Procurador-Geral da República.



Afinal a Comissão da Verdade


      Infelizmente a Comissão da Verdade começa os seus trabalhos  cerceada por uma série de imposições, que aqui vingaram, ao contrário de o ocorreu nos demais países do Cone Sul.
      Este blog mostrou em artigos anteriores a principal razão porque a cama de Procustes foi aceita. O nosso estamento político deveria fazer um curso junto a nossos irmãos sul-americanos – e em especial a Argentina – quanto à maneira de exercer a primazia do poder civíl político. O caráter timorato de nossos estadistas confrange o observador nacional.
        Raul Alfonsin não pediu licença a ninguém para pôr no banco dos réus os generais da ditadura portenha. Fê-lo decerto com coragem, seguro do mandato popular que recebera. Os resultados falam por sim.
        Enquanto isso, até o Supremo desconhece a imprescritibilidade da tortura, à luz do direito internacional humanitário. Por quanto tempo ainda seremos chamados à ordem pelas instâncias supranacionais da Corte de São José ?
       A circunstância de que integrem a Comissão grandes nomes pode, quem sabe?, alentar a esperança de que a verdade os galvanize. Uma primeira e auspiciosa medida em tal sentido seria a declaração de que a Comissão se ocupará exclusivamente do período de primeiro de abril de 1964 até 15 de março de 1985, quando José Sarney assumiu interinamente a presidência.



( Fontes:  Folha de S. Paulo,  O  Globo )

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Da CPI e do Bom Senso em Geral

                           

        A CPI do Cachoeira, esta criatura amorfa criada em princípio para tratar das relações do bicheiro Carlos Cachoeira com políticos, se aprestaria a entrar em outra seara delicada.
       O P.T. e sua bancada na Câmara – e aliados como Collor – pretendem guerrear contra a mídia ? É o que se pergunta não só uma colunista, mas o próprio Planalto.
      Como investigar a imprensa não é dos impulsos mais sensatos, isso é visto como desvio perigoso, pois adentra área já visitada por outros, que intentaram o controle social da mídia. Seria bom que tais propósitos também acabassem na gaveta, pois a Constituição proíbe a censura e eventuais atividades correlatas de acosso.
      Nesse sentido, os jovens turcos da CPI alvitram não só a convocação do jornalista Policarpo Júnior, redator-chefe da revista Veja em Brasília. Pensaram até em chamar o  próprio dono da revista, Roberto Civita.
     Não escaparia a ninguém que a liberdade de imprensa em geral, e a da revista Veja, em especial, estaria em tela. Se nas gravações nenhum ilícito surgiu,  a relação entre jornalista e fonte deve ser preservada.
     A CPI – e a bancada do PT em particular – através de tal convocação não estaria reagindo contra as inúmeras denúncias divulgadas pela Veja ? Essa investida não seria suscetível de ser confundida com tentativa de intimidação das atividades jornalísticas?
     Soando a voz do bom senso, o deputado Cândido Vaccarezza (PT/SP) disse: “Acho que agora é cedo para a convocação (de Policarpo)”.  Nesse sentido, o deputado exterioriza o sentir do Palácio do Planalto, contra impulsos de aliados do ex-presidente Lula e de José Dirceu.   O escopo desses últimos é o de minar a credibilidade de reportagens que deram origem à questão do mensalão, prevista para julgamento ainda este ano pelo Supremo Tribunal Federal.

                                                                       *

     Por falar em bom senso, acreditando estar cumprindo mandamento constitucional, a maioria do STF decidiu que preso por tráfico tem direito a liberdade provisória.
     Nesse sentido, foi considerado inconstitucional um artigo da Lei de Drogas (11.343, de 2006), que proíbe a concessão de liberdade provisória a pessoas presas em flagrante por tráfico de drogas.
     Entendeu o Supremo, por maioria, que, mesmo diante de um crime grave, não se pode ignorar o princípio constitucional da presunção de inocência, pelo qual ninguém pode ser punido até que tenha uma condenação final, sem possibilidade de recurso.
    Nesse sentido, foi permitido a juízes colocarem em liberdade traficantes de droga presos em flagrante e que ainda aguardem julgamento.
    Tal excesso – que foi marcado perante a opinião pública no processo do jornalista Pimenta Bueno, réu confesso de assassínio que, não obstante, por força de tal exigência permaneceu em liberdade até esgotados todos os recursos judiciais – vai contra o bom senso, que é o grão de sal da sabedoria.
    Muito aplicada ultimamente – como no recente caso dos bicheiros libertos por tal presunção - tal jurisprudência estira por demais a correia da presunção de inocência.
    Basta um exame perfunctório de outros sistemas judiciais para verificar-se que não se deve estirar a disposição a tal ponto que vá brigar com o bom senso e o interesse da sociedade.




( Fonte:  Folha de S. Paulo )          

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A Gritaria dos Mensaleiros


      A estratégia do P.T. contra o julgamento do mensalão é multiforme. Atua em diversas frentes. Houve há pouco recurso do advogado Márcio Thomaz Bastos, que pretendia o desmembramento do mensalão, sob o pretexto de que o réu que ele representa -  o ex-diretor do Banco Rural, José Roberto Salgado – deveria ser julgado em primeira instância, e não pelo Supremo.
      O recurso, de caráter processual, que visava ganhar tempo, foi denegado pelo Ministro-Relator, Joaquim Barbosa. De resto, já apresentara tal recurso anteriormente.  A motivação para a insistência seria de que o caso fosse a plenário. Joaquim Barbosa o denegou, porque os ministros do STF já manifestaram a decisão de julgar o processo na integra.
       Por outro lado, o processo se encontra com o Ministro revisor, Ricardo Lewandowsky. Há compreensível ansiedade em que este julgamento comece prontamente. No entanto, até o momento não tem sido possível indicar o mês do início do juízo. Indagado a propósito,  Lewandowski a definiu como pergunta de um milhão de dólares. Por não dar respostas conclusivas,  chegou a ouvir a  observação: você não vai querer ser  considerado como o ‘coveiro do mensalão’, não é ?
       O Presidente do Supremo, Ayres Britto, tem asseverado que o mensalão será julgado pelo STF. O problema é que o mês do início do julgamento continua a avançar. Por não ter  data fixa e determinada, cresce a expectativa e a decorrente apreensão de que continui a afastar-se, malgrado as declarações peremptórias de parte a parte.
       Por outro lado, a CPI do Cachoeira, de que o ex-Presidente Lula da Silva é um dos padrinhos, visaria não só a acertar contas com desafetos seus – como o Governador Marconi Perillo (PSDB-GO), mas também poderia ser empregada como artilharia diversionista.
      Uma vez iniciado o que muitos consideram o ‘juízo do século’, a banda de música da CPI viria a calhar. Representaria uma forma de desviar as atenções do escândalo do mensalão.
      A tática pode parecer muito hábil, mas na verdade é bastante primária. A opinião pública não é boba, nem será propensa a tomar gato por lebre.
     Vejam por exemplo os ataques de expoentes do P.T. contra o Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel.  Em sua resposta, o chefe do Ministério Público pôs o dedo na ferida: no seu entender os ataques que sofre por não ter investigado Demóstenes Torres em 2009 partem de quem “está morrendo de medo do julgamento do mensalão”.
     Roberto Gurgel será o promotor contra os réus do mensalão. Para ele, é “compreensível”que pessoas que buscam proteger os réus do mensalão, denunciados pela Procuradoria, queiram atacá-lo e a ministros do Supremo, que julgarão o caso.
     Já houve tentativa frustrada de convocar o Procurador-geral da República. Há críticas de petistas, como o deputado Candido Vaccarezza (SP), enquanto prosseguem os intentos de que Gurgel deponha no Congresso.
      Ora, inexistem fundamentos legais e constitucionais para justificar tal deposição, o que configuraria tentativa de intimidação ou de desvio de atenção.
      Após rememorar vários escândalos – recentes e não tão recentes da República – a colunista Eliane Cantanhêde alinha fatos e fitas, pergunta ‘Collor e o PT estão guerreando contra que mídia, e por quê ?’ e assinala, ao final, “contra fatos – e fitas – não há argumentos. O resto é chiadeira, retaliação e guerra, com mensalão e morte de Celso Daniel em julgamento...”
      E haverá alguma semelhança entre o P.T., de oposição,  magro, dogmático e inflexível,  da atual gorda e tentacular criatura do poder ?




( Fonte: Folha de S. Paulo )    

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Vetar ou não Vetar ?


                                
        A imprensa publica: Dilma estuda vetar Código Florestal na íntegra. Boa notícia? Não, necessariamente.
        De início, analisemos esta suposta intenção presidencial.
        A primeira vista, parece ser uma boa intenção. O projeto de Código Florestal aprovado pela Câmara  de Deputados no último dia 25 de abril – em uma quarta-feira, é claro – se baseia no relatório preparado pelo deputado Paulo Piau (PMDB/MG).
       O relatório Piau mutilara o já sofrível texto oriundo do Senado. A Ministra Izabella  Teixeira (Meio Ambiente) terá recomendado  à presidente o veto das chamadas disposições transitórias, nas quais se configura a anistia a quem desmatou ilegalmente.
        No entanto, por ter sido suprimido o artigo primeiro, que enuncia os princípios ambientais, entre outros trechos importantes do texto do projeto de Código Florestal aprovado pelo Senado, a Presidente consideraria pouco efetivo vetar apenas partes específicas do projeto de Piau.
       Estaria, portanto, propensa a vetar in totum o Código aprovado naquele infausto dia por 274 votos a 184. Vetado o projeto Piau, a matéria das APPs (áreas de proteção permanente)  seria regulamentada  por medida provisória, com o escalonamento das faixas de recuperação das matas ciliares de acordo com o tamanho da propriedade.
       Haveria na aludida projetada MP a chamada ‘escadinha’, ou o escalonamento das faixas de recuperação de florestas nas margens dos rios de acordo com o tamanho da propriedade. Nesse sentido, existem reivindicações de entidades de pequenos agricultores, insatisfeitas com a previsão de que os minifúndios tenham de recuperar quinze metros de suas APPs.
      Na hipótese de que vá baixar uma MP regulamentando as APPs, o governo tem de pautar-se por princípios ambientais e não por considerações do tamanho da propriedade. As matas ciliares existem para proteger as terras das inundações, ou pelo menos para minorar os respectivos efeitos. A sua largura deve ser estabelecida não pelo tamanho da propriedade – o que, no caso, é objetivamente irrelevante – e sim por outra largura, a do curso d’água. Por isso, a APP mínima deve ser de 15 metros. Uma extensão inferior não tem relevância se se deseja que a mata ciliar exerça o seu papel de contenção.
      Esse tipo de ‘bondades’ não tem o menor cabimento. Perguntem aos agricultores catarinenses se a APP de cinco metros, demagogicamente instituída por um código florestal estadual (e portanto inconstitucional) teve alguma serventia nas recorrentes inundações sofridas pelo Estado.
     No governo passado, Lula da Silva agravara o problema das multas para os desmatadores ilegais com o seu sistemático ‘sursis’concedido quando da aprovação de MPs relativas à questão.   
      Há sobejas dúvidas quanto à profundidade das convicções ambientalistas da Presidente da República. Como se verificou, não basta assinar documento de fé ecológica – como aconteceu entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial – para que Dilma Rousseff se paute pelos interesses do meio ambiente.
       No entanto, outros fatores que não o convencimento íntimo podem levar a posições e medidas favoráveis à proteção de nossos recursos naturais. No caso em tela, reporto-me à conferência Rio + 20, na qual a administração petista tem grande interesse no seu êxito, e no consequente afluxo de chefes de estado e governo de países importantes.
       Ora, a aprovação de medidas como a de um virtual código ruralista, no óbvio contramão da história, não transmitiria impressão favorável sobre a contribuição brasileira na batalha pró-ecologia.
       Dessarte, a inominável aprovação de um aleijume de código pela Câmara só poderia repercutir mal no que tange à seriedade do empenho do Brasil nesta área. Não é um bom cartão de visitas do país que ainda dispõe dos maiores recursos naturais em termos de florestas que venha a adotar  esse articulado. A sua eventual aprovação como legislação pretensamente ambiental representaria provocação grosseira e insensata.
        Está ainda em tempo de agir. Não me refiro a notas em jornal que depois não se traduzam em ações efetivas.
       Francamente, não tenho ilusões quanto ao empenho ambientalista de Dilma Rousseff. As suas convicções semelham orientar-se por outros faróis.
       Sem embargo, se tangida pelas circunstâncias, e ambicionando colher sucesso na Rio + 20, Dilma vier a vetar na íntegra a versão do Código Florestal aprovada pela Câmara, estarei entre aqueles que a aplaudirão.
      Quanto à mais legislação, o melhor seria manter o atual velho Código Florestal, feito em outros tempos e sob outros princípios, e que, no entanto, pasmem, continua a consultar os interesses ambientais. Cumpre evitar de qualquer modo muitas liberdades com os  relativos parâmetros físicos e naturais. De pouco adianta encolher a APP para baixo dos quinze metros. Também neste caso a demagogia tem pernas curtas.
      Seria o caso de, como Garrincha, perguntar: combinaram com os russos ? Ou melhor, combinaram com o rio ? Vejam só no que deu abaterem as matas ciliares nas Alagoas, em São Paulo, no norte fluminense...






( Fonte: Folha de S. Paulo )  

terça-feira, 8 de maio de 2012

Notícias do Front (18)

                                    
A Posse de Putin

     Contrastando com o júbilo popular da eleição de François Hollande, a posse do Presidente Vladimir Putin não se caracterizou por excessos de euforia de seus partidários.
      Este é o terceiro mandato de Putin, desta feita alongado para um sexênio, com a possibilidade de reeleição. Tudo indo bem para gospodin Presidente, seriam mais doze anos no Kremlin, com uma extensão no poder que rivaliza com a de Josef Stalin.
     Se bem que os protestos contra a sua investidura não tenham a força anterior, eles prosseguiram, motivados sobretudo pela suspeitas de fraude na eleição. Assinale-se que há controle já nas candidaturas, com vistas à depuração na lista submetida ao eleitorado.



A CPI convocará Cabral ?



     Segundo a Folha, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB) procurou a cúpula de seu partido em busca de apoio para evitar que venha a ser convocado a prestar esclarecimentos a CPI sobre suas relações com a construtora Delta e o respectivo dono, Fernando Cavendish.
     Há três governadores passíveis de serem convocados: Marconi Perillo (GO-PSDB), Agnelo Queiroz (DF-PT) e Cabral. Dado o comportamento dos partidos majoritários, subsistem muitas dúvidas quanto ao papel da CPI. Por enquanto, não há elementos para assegurar da eficácia investigativa ou não dessa Comissão.
     Se bem que ainda seja prematuro para emitir um parecer sobre a sua contribuição, as chances de uma enorme pizza não podem ser afastadas.



Eleições europeias. Crise helênica.  


     A bolsa francesa respondeu favoravelmente à eleição de François Hollande. Há um certo otimismo quanto a uma composição entre Angela Merkel, a Chanceler alemã, e o novo Presidente francês, François Hollande. Não se deve esquecer que tampouco foi fácil, a princípio, concordância entre a Merkel e Nicolas Sarkozy.
      É o que será determinado dentro em breve. Feitos os necessários ajustes, o interesse de ambos é que a diarquia na União Europeia seja mantida, preservada a na prática precedência na U.E. de suas duas maiores economias. Como alta personalidade no campo socialista francês declarou, ambas as partes precisam ceder em algo, para que o acordo sobreviva.
      Na pequena Grécia, a leitura do resultado das eleições fez despencar a bolsa. Com o malogro da Nova Democracia de coser maioria – o que corresponde ao apoio de 151 deputados no Parlamento -, o Presidente Karolos Papoulias convocará Alexis Tsipras, lider da Syriza (Esquerda radical), que é a segunda bancada, e, em seguida, Evangelos Venizelos, do Pasok, para a improvável missão de constituir gabinete, com a referida sustentação parlamentar.  
      Terminada essa fase, com a possível rejeição do governo de união nacional – que congregaria as três forças -, a opção seria a convocação de novas eleições em junho. Como as condições na República Helênica não terão mudado, há poucas probabilidades de que haja mandato popular para viabilizar novo gabinete.
     As perspectivas de que a Grécia honre os compromissos assumidos anteriormente – e que têm motivado a engenharia econômico-financeira da U.E. no sentido de evitar o temido calote grego – tendem a tornar-se cada vez mais improváveis. Junho é também a data-limite para que Atenas faça cortes adicionais de onze e meio bilhões de euros no respectivo orçamento para 2013 e 2014.
     Mantidas as características atuais, as possibilidades de que o premiê Lucas Papademos – ou personalidade na mesma linha- venha a manter-se no poder, tenderão para zero. Excluídas mudanças de última hora, estaria afinal detonada a crise na Zona do Euro, com a saída da Grécia.




( Fonte: Folha de S. Paulo )