Mais uma vez o Ministério Público entra com ação judicial em defesa do meio ambiente. Talvez seja esta a melhor criação da Constituição de cinco de outubro de 1988. Novamente o Ministério Público Federal evidencia a própria independência e a não submissão às injunções do Governo Federal.
Com efeito, diante da tibieza e condicionamento às determinações do governo Dilma Rousseff ao IBAMA em conceder autorização para a construção da usina ao consórcio ‘Norte Energia’ (V. blog de três de junho corrente, O Ibama e Belo Monte), a representação do Ministério Público Federal no Pará entrou ontem com ação civil pública, pela qual questiona o licenciamento da Hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu.
Em sua fundamentação, a Procuradoria sustenta que, além da falta de levantamento das famílias atingidas e da navegabilidade, quarenta por cento das condicionantes de saúde, educação e saneamento não foram cumpridas pelo consórcio ‘Norte Energia’.
A esse respeito, aduz o Procurador da República no Pará, Felício Pontes Filho: “Achamos que o não-cumprimento de 40% das condicionantes é muito alto para que uma licença seja emitida. É uma irresponsabilidade muito grande do Ibama”.
Nos motivos desta ação, releva assinalar que várias condicionantes receberam as rubricas “em cumprimento” e “parcialmente atendidas”. É maneira bastante óbvia de o Ibama mascarar a sua excessiva flexibilidade, enquanto deixa de cumprir com requisitos mínimos para a concessão da licença.
A esse respeito, o procurador Pontes Filho comparou o processo de licenciamento de Belo Monte ao das obras das usinas em construção no rio Madeira, em Rondônia: “Nossa preocupação é que possam ocorrer estragos ainda maiores que os de Rondônia. Sabemos qual é o impacto de se levar cem mil pessoas para um local sem preparação adequada. Seria como dobrar a população de Altamira em um ano, coisa para que nenhuma cidade brasileira está preparada.”
Por sua vez, como seria de prever, a ministra Izabella Teixeira, em palestra para servidores do Ibama em Brasília, tentou encenar a defesa do Instituto, na presença de seu atual presidente, Curt Trennepohl. “A licença é robusta e com critérios técnicos, jurídicos e legais”, sentenciou a ministra, aditando que o Ibama destacou equipe para acompanhar e monitorar o andamento da obra.
Semelhando não dar-se aparentemente conta da ironia na assertiva, a ministra afirmou que o órgão “não se submeterá a pressões” e contará com a sua defesa dentro do governo: “ A equipe de fiscalização está de parabéns pelo trabalho que tem feito. Processos técnicos têm que ser respeitados. Não deve haver interferência de ministros nesse trabalho técnico.”
Frases de discutível efeito à parte, resta a realidade de que a defesa da sociedade e, em especial, das comunidades atingidas na área do Xingu, recai exclusivamente nos esforços do Ministério Público Federal. É luta árdua, diante dos instrumentos de que dispõe o Governo Federal para derrubar a ação interposta pelo M.P.F. do Pará.
Por ser o único órgão realmente autônomo, incumbe ao Ministério Público a magna tarefa de defender a população ribeirinha da pressurosa ânsia da Presidenta. Na batalha jurídica que vai começar, sabemos bem quem defende a sociedade. Malgrado os ‘parabéns’ da Ministra Izabella Teixeira à equipe de fiscalização do citado Ibama, permanece no ar a pergunta do porquê o MPF tem de intervir, se o aludido Instituto não se submete a pressões e deve ter respeitados os respectivos ‘processos técnicos’.
Se o órgão oficial, por motivos não tão insondáveis, não tem condições de assegurar a defesa do meio ambiente em obra do interesse direto da Presidenta, talvez o seu silêncio seria a reação mais apropriada e condigna.
( Fonte: O Globo )
terça-feira, 7 de junho de 2011
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Dona Crise
Ela chegou de repente. Trazida pelas páginas de um jornalão, sem cerimônia, instalou-se no Palácio do Planalto. A princípio, o atingido e a envolvida, ainda que indiretamente, pensaram que o remédio para este mal súbito fosse a negação, seja de sua existência, seja das implicações dentro e fora do palácio.
Daí, duas negações principais: a das convocações por comissões do Congresso e a das entrevistas explicativas. Se não regassem a planta, pensaram que murcharia e feneceria, sob as vistas indiferentes do poder.
Ora, a tática do silêncio não funcionou. A princípio a oposição, antes havida como incompetente, quase supérflua, ensaiou as primeiras chamadas, que a coesa maioria recusou.
Sem embargo, as linhas Maginot estão aí para serem testadas, provadas e circundadas. E a insídia do ataque residirá sempre na iniciativa e na consequente surpresa.
A persistência também trará seus frutos, sobretudo se o mutismo, ao invés de abafar, comece a espicaçar a antes sólida formação defensiva.
E a maioria, nascida do oportunismo eleitoral, e sem maiores laços que não a conveniência, principia a perder a coesão nas próprias fileiras.
Então o núcleo da perturbação, instado ou não, resolve falar. Não sabe que, na volúvel dinâmica das crises, a entrevista para o nervoso jornalista nas cancelas escancaradas do Jornal Nacional já chega tarde.
Tampouco a loquacidade das declarações, e a enganosa confiança trazida pela impressão de hábeis respostas, lançará para o público o que quer ouvir: o nome dos clientes, a natureza das consultorias, e o montante da paga pelos serviços.
O corifeu da crise acreditou agradar à sua senhora e soberana ao dizer que ela é pessoal e não de governo.
Como jeitoso cortesão, com esse gesto de generosa aparência, pensa atingir dois objetivos: encolher a crise, ao individualizá-la, e agradar à presidenta, que, talvez em se julgando imune, possa ser mais condescendente com o pesado súdito.
Infelizmente tudo indica que não será assim. No ar, além dos aviões de carreira de Aporelli, existem muitas tramas e conluios. Que me recorde, por leituras e experiências, nenhuma presidência repontou nos seus primeiros meses de forma tão incerta e claudicante.
É hora de mostrar ao que veio. Deixou de ser – e não por vontade própria, mas por resolução de 55 milhões de votos – a gerente eficaz e enérgica, que carece da orientação do chefe.
Agora, quer queira ou não, precisa decidir e não esperar pela palavra dos outros, mesmo daquele a quem muito deve.
Os auxiliares, por capazes que sejam, serão sempre auxiliares. Se a chefe muito deles depende, tal se refletirá na qualidade da respectiva chefia.
Quem tem competência, deve estabelecer-se. E quanto mais cedo, melhor.
Daí, duas negações principais: a das convocações por comissões do Congresso e a das entrevistas explicativas. Se não regassem a planta, pensaram que murcharia e feneceria, sob as vistas indiferentes do poder.
Ora, a tática do silêncio não funcionou. A princípio a oposição, antes havida como incompetente, quase supérflua, ensaiou as primeiras chamadas, que a coesa maioria recusou.
Sem embargo, as linhas Maginot estão aí para serem testadas, provadas e circundadas. E a insídia do ataque residirá sempre na iniciativa e na consequente surpresa.
A persistência também trará seus frutos, sobretudo se o mutismo, ao invés de abafar, comece a espicaçar a antes sólida formação defensiva.
E a maioria, nascida do oportunismo eleitoral, e sem maiores laços que não a conveniência, principia a perder a coesão nas próprias fileiras.
Então o núcleo da perturbação, instado ou não, resolve falar. Não sabe que, na volúvel dinâmica das crises, a entrevista para o nervoso jornalista nas cancelas escancaradas do Jornal Nacional já chega tarde.
Tampouco a loquacidade das declarações, e a enganosa confiança trazida pela impressão de hábeis respostas, lançará para o público o que quer ouvir: o nome dos clientes, a natureza das consultorias, e o montante da paga pelos serviços.
O corifeu da crise acreditou agradar à sua senhora e soberana ao dizer que ela é pessoal e não de governo.
Como jeitoso cortesão, com esse gesto de generosa aparência, pensa atingir dois objetivos: encolher a crise, ao individualizá-la, e agradar à presidenta, que, talvez em se julgando imune, possa ser mais condescendente com o pesado súdito.
Infelizmente tudo indica que não será assim. No ar, além dos aviões de carreira de Aporelli, existem muitas tramas e conluios. Que me recorde, por leituras e experiências, nenhuma presidência repontou nos seus primeiros meses de forma tão incerta e claudicante.
É hora de mostrar ao que veio. Deixou de ser – e não por vontade própria, mas por resolução de 55 milhões de votos – a gerente eficaz e enérgica, que carece da orientação do chefe.
Agora, quer queira ou não, precisa decidir e não esperar pela palavra dos outros, mesmo daquele a quem muito deve.
Os auxiliares, por capazes que sejam, serão sempre auxiliares. Se a chefe muito deles depende, tal se refletirá na qualidade da respectiva chefia.
Quem tem competência, deve estabelecer-se. E quanto mais cedo, melhor.
domingo, 5 de junho de 2011
Colcha de Retalhos LXXXI
Preso suspeito da morte da Politkovskaya
Crítica impiedosa da política do Kremlin na república federada da Tchetchênia, e de seu proconsul, Ramzan Kadyrov, Anna Politkovskaya pagaria com a vida o seu ativismo jornalístico.
Por um assassino de aluguel, a Politkovskaya seria abatida na tardinha de sete de outubro de 2006, no elevador de seu prédio, com a arma do crime ao lado, como é o vezo dos matadores profissionais na violenta Federação Russa.
Anna Politkovskaya não era boa oradora, nem tinha grandes aptidões para cativar o público. No entanto, pela coragem e talento jornalístico, a sua crítica aos abusos do presidente da pequena república tchetchena – e um fiel aliado de Vladimir Putin – pesava fundo.
Politkovskaya acabou caindo vítima de um Rustam Makhmudov, que desde então esteve ao largo, a princípio homiziado na Tchetchênia, e mais tarde foragido na Bélgica.
O primeiro julgamento relativo à morte da jornalista se realizara em 2009. Terminou com anticlimático veredicto de inocência para dois irmãos de Makhmudov, mais explicado pela fragilidade da acusação – que não foi muito além das ligações dos celulares dos dois Makhmudov, feitas da cena do crime.
Faltava no processo o suspeito do assassínio. Os irmãos não passariam de cúmplices – um como vigia, e o outro, como motorista.
Lograda afinal a detenção do alegado matador – que é decorrência de movimento da opinião pública pelo fim da impunidade – o novo julgamento para determinar a autoria do crime de outubro de 2006 terá maiores probabilidades de condenar quem matou Anna Politkovskaya.
Decorridos quase cinco anos de sua morte, a Politkovskaya constitui uma dessas figuras cuja sombra continua a crescer na opinião pública russa. É um ícone do jornalismo investigativo – atividade prenhe de perigos na Rússia e sobretudo na violentíssima república da Tchetchênia. O seu vulto imponente é uma perene contradição da resposta do então Presidente – e hoje Primeiro Ministro – Vladimir Putin. Após longo silêncio inicial diante da brutal ocorrência, Putin acreditou oportuno declarar : ‘a sua influência na vida política foi em escala de extrema insignificância’. Sem o saber, desenhava o pano de fundo para personagem camoniana, que depois de morta se tornara inda maior do que em vida.
A minoria cristã no Egito revolucionário
Caído Hosni Mubarak, já existem setores que deploram a sua falta. O saudosismo é atitude bastante difundida. Dos fatores que contribuem para a sua difusão, surgem o esmaecimento da memória e a simultânea tendência de idealizar o passado, escoimado de muitos aspectos negativos.
Como referido nesse blog, a revolução egípcia tem estimulado distúrbios na sociedade, em que, entre outros, se manifestam episódios de violência contra jornalistas e contra os cristãos coptas.
Com o desaparecimento político de Mubarak, evaporou-se igualmente o sistema prevalente nas relações entre a maioria muçulmana e a minoria copta.Correspondendo a cerca de dez por cento da população, os cristãos coptas se abrigavam sob a proteção de seu papa, Shenouda III. Em troca do apoio da comunidade, o braço do ditador cuidava de assegurar-lhes o espaço da coexistência.
Se a equiparação tinha seus limites, a convivência entre muçulmanos e coptas obedeceria a regras mínimas, de forma a garantir atmosfera suportável na prática do dia-a-dia.
O relacionamento teria seus pontos frágeis – como as dificuldades de construção de igrejas em comparação com as facilidades para a edificação de mesquitas -, porém a ordem e o geral entendimento eram mantidos.
Derrubado Mubarak, aumentou a violência. Na comunidade copta, houve 24 mortos, mais de duzentos feridos, e três igrejas incendiadas. Há motivo de preocupação no segmento copta com a deterioração das relações. Nesse contexto, existe o exemplo da comunidade caldaica no Iraque, e a crescente intolerância de que vem sendo objeto desde a queda de Saddam Hussein.
Sem embargo, a principal diferença entre as duas comunidades copta e caldaica reside no respectivo peso social. Os coptas têm presença muito maior na sociedade – malgrado todas as limitações a que estão sujeitos. Tal se deve simplesmente ao seu número, o que tende a representar um óbvio incentivo para a construção de convivência pacífica.
Sinal positivo nessa tendência foi dado pela Fraternidade Muçulmana – que é considerada o mais forte partido político no Egito. A Fraternidade designou um cristão como vice-líder da nova agremiação. Segundo Essam el-Erian, um dos próceres da Fraternidade, “ Estamos conclamando por um estado civil”. Propunha-se estabelecer leis derivadas dos elementos da Lei Islâmica que são comuns aos de outras grandes religiões, como ‘a liberdade de culto e de fé, igualdade entre as pessoas, direitos humanos e dignidade humana.’
A tirania do alauíta Bashar al-Assad.
Continuam as manifestações contra o presidente al-Assad, apesar de sua repressão pelo governo. Desde o início da sublevação, as mortes de populares terão ultrapassado o milhar.
De todos os trucidados, muitos deles após torturas, nenhum produziu impressão tão forte da brutal crueldade das forças de al-Assad quanto o cadáver de um jovem de treze anos, Hamza Ali al-Khateeb, natural de Jiza, cidade do sul da Síria. Detido a 29 de abril, o corpo de Hamza foi devolvido à sua família, sob a condição de que fosse mantido em segredo o estado em que se achava.
As marcas da tortura eram tamanhas no corpo do adolescente que a família, apesar das ameaças e do risco decorrente, fez um vídeo de Hamza. Refletindo a condição desfigurada e inchada do cadáver, objeto de incontáveis feridas, muitas delas adrede não mortais, a imagem de Hamza constitui a denúncia mais forte da barbara, estúpida tortura inflingida sobre menino de treze anos.
Nas ditaduras árabes não será por acaso que as maiores demonstrações ocorram durante os enterros das vítimas. Hamza Ali al-Khateeb e o seu vídeo evidencia a bestialidade da repressão dos aliados do ditador. Como chama em terra ressequida, a sua visão por vídeos na internet reacendeu com maior força a reação contra al-Assad. Em Douma, um subúrbio de Damasco, manifestantes marcham de noite gritando ‘Vá embora!’ para Assad, enquanto brandem faixas que dizem ‘Nós todos somos Hamza al-Khateeb’. Em Dereya, outro subúrbio, mulheres e crianças protestam contra o regime, e seguram uma faixa com os dizeres ‘Por quê têm tanto medo de Hamza ?’
Talvez em resposta ao recrudescimento generalizado dos protestos, o ditador prometeu nesta semana que dará uma anestia geral, extensível a todos os prisioneiros políticos. A arma da anestia e da revogação de leis especiais – como a do estado de emergência – constitui um conhecido recurso de Bashar al-Assad.
Através dessas promessas, ele conta dividir o movimento, enquanto acena com o ramo de oliveira. Na verdade, a utilização de tais expedientes teria eventual eficácia se aplicada no início dos distúrbios, naquela primeira fase em que a revolução ainda carece de força inercial. Como al-Assad já encenou tais intentos durante as manifestações, sem no entanto complementá-los com iniciativas tendentes a dar credibilidade à sua suposta boa fé, há fundados motivos para que, de parte a parte, não haja qualquer disposição de entabular negociações de paz entre os dois campos antagônicos.
Com efeito, no corpo do jovem Hamza al-Khateeb os esbirros de Assad grafaram não só a natureza, mas os reais e inomináveis propósitos daqueles empenhados em reprimir a revolução democrática na Síria.
Iêmen – da contestação à guerra civil ?
O bombardeio do palácio presidencial, ao contrário das notícias iniciais, produziu estragos bem maiores no grupo ligado ao presidente Ali Abdullah Saleh. O ferimento sofrido pelo Presidente do Iêmen tornou inevitável que fosse conduzido a Ryadh, na Arábia Saudita, para urgente intervenção neuro-cirúrgica.
Os estragos do míssil rebelde não se cingem ao presidente iemenita. Também carecem de atenções médicas os seus aliados, o Primeiro Ministro Ali Mujawar e os presidentes da Shura e do Parlamento. Ao partir, Saleh transmitiu o poder para o seu Vice-presidente, Abed Rabbo Mansour Hadj.
O ataque contra Saleh e o seu núcleo diretivo motivou represália contra a casa fortificada de Sadeq al-Ahmar, o chefe tribal cujos seguidores são os principais suspeitos do ataque contra o presidente Ali Saleh. Em consequência, desse bombardeio contra o quartel-general da liga Hashed houve dez mortes e 35 feridos.
Na confusa situação iemenita, as manifestações populares prosseguem na sua exigência da saída do presidente Saleh, que há vários meses procura ganhar tempo.
Com a sua brusca retirada médica para os hospitais sauditas, e por instâncias do rei Abdullah e do Príncipe herdeiro, foi assinado um cessar-fogo pelo governo, representado pelos filhos de Ali Saleh, e a oposição.
Por esta, firmou o general-de-brigada Ali Mohsen al-Ahmar, que abandonou não faz muito as hostes da situação. Como as perturbações no Iemen, sobretudo pelas repetidas procrastinações do presidente, cujos acenos de saída do poder são apenas meios de ganhar tempo, tem levado a uma progressiva radicalização, a aparente solução da crise não mais estaria na voz das ruas e das praças, porém em um enfrentamento tribal que só pode prenunciar outra guerra civil.
Como o governo saudita de Ryadh vê com inquieto nervosismo as intermináveis perturbações no Iemen – e o eventual descambar do seu pobre vizinho do Sul para a guerra civil – compreende-se o próprio interesse na negociação do cessar-fogo por iniciativa do monarca Abdullah. Quanto aos eventuais resultados, contudo, dadas as intratáveis características dos pugnazes vizinhos, toda cautela nos prognósticos será pouca.
( Fontes: International Herald Tribune, CNN )
Crítica impiedosa da política do Kremlin na república federada da Tchetchênia, e de seu proconsul, Ramzan Kadyrov, Anna Politkovskaya pagaria com a vida o seu ativismo jornalístico.
Por um assassino de aluguel, a Politkovskaya seria abatida na tardinha de sete de outubro de 2006, no elevador de seu prédio, com a arma do crime ao lado, como é o vezo dos matadores profissionais na violenta Federação Russa.
Anna Politkovskaya não era boa oradora, nem tinha grandes aptidões para cativar o público. No entanto, pela coragem e talento jornalístico, a sua crítica aos abusos do presidente da pequena república tchetchena – e um fiel aliado de Vladimir Putin – pesava fundo.
Politkovskaya acabou caindo vítima de um Rustam Makhmudov, que desde então esteve ao largo, a princípio homiziado na Tchetchênia, e mais tarde foragido na Bélgica.
O primeiro julgamento relativo à morte da jornalista se realizara em 2009. Terminou com anticlimático veredicto de inocência para dois irmãos de Makhmudov, mais explicado pela fragilidade da acusação – que não foi muito além das ligações dos celulares dos dois Makhmudov, feitas da cena do crime.
Faltava no processo o suspeito do assassínio. Os irmãos não passariam de cúmplices – um como vigia, e o outro, como motorista.
Lograda afinal a detenção do alegado matador – que é decorrência de movimento da opinião pública pelo fim da impunidade – o novo julgamento para determinar a autoria do crime de outubro de 2006 terá maiores probabilidades de condenar quem matou Anna Politkovskaya.
Decorridos quase cinco anos de sua morte, a Politkovskaya constitui uma dessas figuras cuja sombra continua a crescer na opinião pública russa. É um ícone do jornalismo investigativo – atividade prenhe de perigos na Rússia e sobretudo na violentíssima república da Tchetchênia. O seu vulto imponente é uma perene contradição da resposta do então Presidente – e hoje Primeiro Ministro – Vladimir Putin. Após longo silêncio inicial diante da brutal ocorrência, Putin acreditou oportuno declarar : ‘a sua influência na vida política foi em escala de extrema insignificância’. Sem o saber, desenhava o pano de fundo para personagem camoniana, que depois de morta se tornara inda maior do que em vida.
A minoria cristã no Egito revolucionário
Caído Hosni Mubarak, já existem setores que deploram a sua falta. O saudosismo é atitude bastante difundida. Dos fatores que contribuem para a sua difusão, surgem o esmaecimento da memória e a simultânea tendência de idealizar o passado, escoimado de muitos aspectos negativos.
Como referido nesse blog, a revolução egípcia tem estimulado distúrbios na sociedade, em que, entre outros, se manifestam episódios de violência contra jornalistas e contra os cristãos coptas.
Com o desaparecimento político de Mubarak, evaporou-se igualmente o sistema prevalente nas relações entre a maioria muçulmana e a minoria copta.Correspondendo a cerca de dez por cento da população, os cristãos coptas se abrigavam sob a proteção de seu papa, Shenouda III. Em troca do apoio da comunidade, o braço do ditador cuidava de assegurar-lhes o espaço da coexistência.
Se a equiparação tinha seus limites, a convivência entre muçulmanos e coptas obedeceria a regras mínimas, de forma a garantir atmosfera suportável na prática do dia-a-dia.
O relacionamento teria seus pontos frágeis – como as dificuldades de construção de igrejas em comparação com as facilidades para a edificação de mesquitas -, porém a ordem e o geral entendimento eram mantidos.
Derrubado Mubarak, aumentou a violência. Na comunidade copta, houve 24 mortos, mais de duzentos feridos, e três igrejas incendiadas. Há motivo de preocupação no segmento copta com a deterioração das relações. Nesse contexto, existe o exemplo da comunidade caldaica no Iraque, e a crescente intolerância de que vem sendo objeto desde a queda de Saddam Hussein.
Sem embargo, a principal diferença entre as duas comunidades copta e caldaica reside no respectivo peso social. Os coptas têm presença muito maior na sociedade – malgrado todas as limitações a que estão sujeitos. Tal se deve simplesmente ao seu número, o que tende a representar um óbvio incentivo para a construção de convivência pacífica.
Sinal positivo nessa tendência foi dado pela Fraternidade Muçulmana – que é considerada o mais forte partido político no Egito. A Fraternidade designou um cristão como vice-líder da nova agremiação. Segundo Essam el-Erian, um dos próceres da Fraternidade, “ Estamos conclamando por um estado civil”. Propunha-se estabelecer leis derivadas dos elementos da Lei Islâmica que são comuns aos de outras grandes religiões, como ‘a liberdade de culto e de fé, igualdade entre as pessoas, direitos humanos e dignidade humana.’
A tirania do alauíta Bashar al-Assad.
Continuam as manifestações contra o presidente al-Assad, apesar de sua repressão pelo governo. Desde o início da sublevação, as mortes de populares terão ultrapassado o milhar.
De todos os trucidados, muitos deles após torturas, nenhum produziu impressão tão forte da brutal crueldade das forças de al-Assad quanto o cadáver de um jovem de treze anos, Hamza Ali al-Khateeb, natural de Jiza, cidade do sul da Síria. Detido a 29 de abril, o corpo de Hamza foi devolvido à sua família, sob a condição de que fosse mantido em segredo o estado em que se achava.
As marcas da tortura eram tamanhas no corpo do adolescente que a família, apesar das ameaças e do risco decorrente, fez um vídeo de Hamza. Refletindo a condição desfigurada e inchada do cadáver, objeto de incontáveis feridas, muitas delas adrede não mortais, a imagem de Hamza constitui a denúncia mais forte da barbara, estúpida tortura inflingida sobre menino de treze anos.
Nas ditaduras árabes não será por acaso que as maiores demonstrações ocorram durante os enterros das vítimas. Hamza Ali al-Khateeb e o seu vídeo evidencia a bestialidade da repressão dos aliados do ditador. Como chama em terra ressequida, a sua visão por vídeos na internet reacendeu com maior força a reação contra al-Assad. Em Douma, um subúrbio de Damasco, manifestantes marcham de noite gritando ‘Vá embora!’ para Assad, enquanto brandem faixas que dizem ‘Nós todos somos Hamza al-Khateeb’. Em Dereya, outro subúrbio, mulheres e crianças protestam contra o regime, e seguram uma faixa com os dizeres ‘Por quê têm tanto medo de Hamza ?’
Talvez em resposta ao recrudescimento generalizado dos protestos, o ditador prometeu nesta semana que dará uma anestia geral, extensível a todos os prisioneiros políticos. A arma da anestia e da revogação de leis especiais – como a do estado de emergência – constitui um conhecido recurso de Bashar al-Assad.
Através dessas promessas, ele conta dividir o movimento, enquanto acena com o ramo de oliveira. Na verdade, a utilização de tais expedientes teria eventual eficácia se aplicada no início dos distúrbios, naquela primeira fase em que a revolução ainda carece de força inercial. Como al-Assad já encenou tais intentos durante as manifestações, sem no entanto complementá-los com iniciativas tendentes a dar credibilidade à sua suposta boa fé, há fundados motivos para que, de parte a parte, não haja qualquer disposição de entabular negociações de paz entre os dois campos antagônicos.
Com efeito, no corpo do jovem Hamza al-Khateeb os esbirros de Assad grafaram não só a natureza, mas os reais e inomináveis propósitos daqueles empenhados em reprimir a revolução democrática na Síria.
Iêmen – da contestação à guerra civil ?
O bombardeio do palácio presidencial, ao contrário das notícias iniciais, produziu estragos bem maiores no grupo ligado ao presidente Ali Abdullah Saleh. O ferimento sofrido pelo Presidente do Iêmen tornou inevitável que fosse conduzido a Ryadh, na Arábia Saudita, para urgente intervenção neuro-cirúrgica.
Os estragos do míssil rebelde não se cingem ao presidente iemenita. Também carecem de atenções médicas os seus aliados, o Primeiro Ministro Ali Mujawar e os presidentes da Shura e do Parlamento. Ao partir, Saleh transmitiu o poder para o seu Vice-presidente, Abed Rabbo Mansour Hadj.
O ataque contra Saleh e o seu núcleo diretivo motivou represália contra a casa fortificada de Sadeq al-Ahmar, o chefe tribal cujos seguidores são os principais suspeitos do ataque contra o presidente Ali Saleh. Em consequência, desse bombardeio contra o quartel-general da liga Hashed houve dez mortes e 35 feridos.
Na confusa situação iemenita, as manifestações populares prosseguem na sua exigência da saída do presidente Saleh, que há vários meses procura ganhar tempo.
Com a sua brusca retirada médica para os hospitais sauditas, e por instâncias do rei Abdullah e do Príncipe herdeiro, foi assinado um cessar-fogo pelo governo, representado pelos filhos de Ali Saleh, e a oposição.
Por esta, firmou o general-de-brigada Ali Mohsen al-Ahmar, que abandonou não faz muito as hostes da situação. Como as perturbações no Iemen, sobretudo pelas repetidas procrastinações do presidente, cujos acenos de saída do poder são apenas meios de ganhar tempo, tem levado a uma progressiva radicalização, a aparente solução da crise não mais estaria na voz das ruas e das praças, porém em um enfrentamento tribal que só pode prenunciar outra guerra civil.
Como o governo saudita de Ryadh vê com inquieto nervosismo as intermináveis perturbações no Iemen – e o eventual descambar do seu pobre vizinho do Sul para a guerra civil – compreende-se o próprio interesse na negociação do cessar-fogo por iniciativa do monarca Abdullah. Quanto aos eventuais resultados, contudo, dadas as intratáveis características dos pugnazes vizinhos, toda cautela nos prognósticos será pouca.
( Fontes: International Herald Tribune, CNN )
sábado, 4 de junho de 2011
Economia: Primeiro Trimestre
No primeiro trimestre da economia brasileira em 2011, a moderação é a regra. Até a notícia ruim na aparência, se for lida no contexto amplo, terá viés positivo.
O crescimento do P.I.B. foi de 1,3% diante dos últimos três meses de 2010. Se cotejado com o primeiro trimestre em 2010, o incremento será de 4,2%.
Até mesmo o dado negativo da desaleceração relativa no consumo das famílias – que se alçou apenas em 0,6%, o que é bem menor do que os 2,3% de outubro dezembro de 2010 -, na verdade reflete igualmente algo de positivo, eis que tal inflexão acontece condicionada pelas medidas de contenção ao crédito adotadas pelo Banco Central.
Em outras palavras, é uma consequência da chamada ‘dádiva de Lula’, vale dizer, o irresponsável aquecimento eleitoreiro da economia que o Ministro Guido Mantega buscara mascarar como se fora efeito sazonal.
Assim, o recrudescimento da inflação, se acompanhado, como o foi, por medidas de contenção ao crédito – e, portanto, tendentes a reduzir a demanda – levou à desaceleração acima referida do consumo familiar. E se confrontado com cenário preterinflacionário como aquele que vivemos, não há de contribuir para trazer mais água para os moinhos da carestia.
Há outro dado igualmente positivo, que é o aumento do investimento em 1,2%.
A economia brasileira, pela tendência à baixa poupança da população – assim como a pouco recomendável ênfase do atrelamento do governo aos gastos correntes e inchamento do assistencialismo – não tem exibido sinais animadores na faixa dos investimentos.
Se aqui não é o lugar para frisar a crescente necessidade do aumento nas inversões – para um país que entre muitos desafios se ressente de enormes deficits na infraestrutura seja de transportes, seja sanitária, seja educacional – não será de somenos o regozijo, mesmo que motivado por um índice tão diminuto. Com efeito, se apontar para uma tendência sustentada no bom sentido, constituirá ulterior motivo para visão mais otimista quanto às perspectivas da economia nacional.
Desse modo, as taxas de investimento e de poupança, no primeiro trimestre de 2011 só são superadas pelas do primeiro trimestre de 2008. O viés para o decréscimo no consumo, se terá salutar efeito anti-inflacionário, deverá ser monitorado para evitar que o aumento nos estoques leve a crescimento negativo nos investimentos.
De nada serve o aquecimento do setor automobilístico, por exemplo, alimentado com excessivas facilidades de crédito, que só contribuem para as bolhas, com as consequentes pesadas remessas para as matrizes estrangeiras da ‘nossa’ indústria automobilística (o Brasil é o único país emergente sem nenhuma montadora nacional), e as inevitáveis moras dos compradores nacionais pelo endividamento cumulativo.
Se me relevam a introdução de dado não-macro econômico, ele semelha importante para mentalidade avessa aos cenários habituais das armadilhas eventualmente contrárias ao aumento do PIB. Pela análise dos dados principais, as projeções para o crescimento de nossa economia variam entre 3,6% e 4,7%. Não obstante, a maior parte das previsões tende a situar-se abaixo dos 4%. Se cotejada com a elevação de 7,5% de 2010, representará decerto flexão marcante.
Por fim, assinale-se que no primeiro trimestre de 2011 o Produto Interno Bruto ascendeu a R$ 939,6 bilhões. Aproximamo-nos, portanto, da marca do trilhão em reais.
( Fonte: O Globo )
O crescimento do P.I.B. foi de 1,3% diante dos últimos três meses de 2010. Se cotejado com o primeiro trimestre em 2010, o incremento será de 4,2%.
Até mesmo o dado negativo da desaleceração relativa no consumo das famílias – que se alçou apenas em 0,6%, o que é bem menor do que os 2,3% de outubro dezembro de 2010 -, na verdade reflete igualmente algo de positivo, eis que tal inflexão acontece condicionada pelas medidas de contenção ao crédito adotadas pelo Banco Central.
Em outras palavras, é uma consequência da chamada ‘dádiva de Lula’, vale dizer, o irresponsável aquecimento eleitoreiro da economia que o Ministro Guido Mantega buscara mascarar como se fora efeito sazonal.
Assim, o recrudescimento da inflação, se acompanhado, como o foi, por medidas de contenção ao crédito – e, portanto, tendentes a reduzir a demanda – levou à desaceleração acima referida do consumo familiar. E se confrontado com cenário preterinflacionário como aquele que vivemos, não há de contribuir para trazer mais água para os moinhos da carestia.
Há outro dado igualmente positivo, que é o aumento do investimento em 1,2%.
A economia brasileira, pela tendência à baixa poupança da população – assim como a pouco recomendável ênfase do atrelamento do governo aos gastos correntes e inchamento do assistencialismo – não tem exibido sinais animadores na faixa dos investimentos.
Se aqui não é o lugar para frisar a crescente necessidade do aumento nas inversões – para um país que entre muitos desafios se ressente de enormes deficits na infraestrutura seja de transportes, seja sanitária, seja educacional – não será de somenos o regozijo, mesmo que motivado por um índice tão diminuto. Com efeito, se apontar para uma tendência sustentada no bom sentido, constituirá ulterior motivo para visão mais otimista quanto às perspectivas da economia nacional.
Desse modo, as taxas de investimento e de poupança, no primeiro trimestre de 2011 só são superadas pelas do primeiro trimestre de 2008. O viés para o decréscimo no consumo, se terá salutar efeito anti-inflacionário, deverá ser monitorado para evitar que o aumento nos estoques leve a crescimento negativo nos investimentos.
De nada serve o aquecimento do setor automobilístico, por exemplo, alimentado com excessivas facilidades de crédito, que só contribuem para as bolhas, com as consequentes pesadas remessas para as matrizes estrangeiras da ‘nossa’ indústria automobilística (o Brasil é o único país emergente sem nenhuma montadora nacional), e as inevitáveis moras dos compradores nacionais pelo endividamento cumulativo.
Se me relevam a introdução de dado não-macro econômico, ele semelha importante para mentalidade avessa aos cenários habituais das armadilhas eventualmente contrárias ao aumento do PIB. Pela análise dos dados principais, as projeções para o crescimento de nossa economia variam entre 3,6% e 4,7%. Não obstante, a maior parte das previsões tende a situar-se abaixo dos 4%. Se cotejada com a elevação de 7,5% de 2010, representará decerto flexão marcante.
Por fim, assinale-se que no primeiro trimestre de 2011 o Produto Interno Bruto ascendeu a R$ 939,6 bilhões. Aproximamo-nos, portanto, da marca do trilhão em reais.
( Fonte: O Globo )
sexta-feira, 3 de junho de 2011
O Ibama e Belo Monte
O Ministério Público Federal se tem provado a única instância confiável no processo de avaliação das condicionantes estabelecidas para a licença de instalação da usina de Belo Monte.
Ao passar as exigências para a fase de instalação de Belo Monte, segundo a procuradoria do M.P.F., o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ‘empurrou todas as condicionantes para a fase de instalação, que é quando os impactos se concretizam’.
Consoante ainda o Ministério Público, como se pode confiar em que o Instituto será agora rigoroso com o cumprimento das exigências, se durante o período da licença prévia não o foi ?
Os antecedentes demonstram que, ainda mais na presidência de Dilma Rousseff do que naquela de seu benfeitor Lula da Silva, o caráter governamental do Ibama e a consequente subordinação aos interesses políticos da Administração transparece na sua ‘flexibilidade’ quanto ao cumprimento dos requisitos impostos. Por isso, o M.P.F. assevera que o Ibama foi irresponsável. E com tais antecedentes, como é lícito presumir que o Instituto será rigoroso doravante ?
A pressa do governo Dilma se traduz em tácita permissão ao consórcio Norte-Energia de as exigências serem ou postergadas, ou negligenciadas. Nesse aspecto, o M.P.F. avalia a oportunidade de impetrar nova ação cível. Para tanto, não faltam válidos motivos.
Assim, até o momento, não existe nenhum saneamento na região. Negligenciada a qualidade da água (condicionante de número 2.7), nenhuma obra de esgoto foi iniciada. No contexto do facilitário, o Consórcio Norte-Energia acertou com o Ibama que o saneamento básico será implantado em 2014. Acresce notar que até lá o município de Altamira sofrerá invasão de trabalhadores.
Tampouco difere a apreciação feita pelas ONGs. Se não foi efetivada a lista da quarenta condicionantes encaminhadas pelo Ibama quando da licença prévia, a coordenadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre questiona da garantia existente para que elas sejam ora cumpridas.
Há muita manipulação, segundo essa coordenadora, eis que nada do que foi determinado na licença prévia foi feito. Com o aumento da população, e o desrespeito (das exigências) crescendo, se instaura o caos: “não dá para acreditar que agora as condicionantes serão cumpridas”.
Por outro lado, tampouco as condicionantes impostas pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) mereceram a devida atenção. Com efeito, apenas duas delas foram atendidas até o presente (a retirado dos posseiros das terras indígenas Cachoeira Seca e Arara da Volta Grande).
A virtual perda de autonomia do Ibama e o aumento da ingerência do Poder Executivo nas eventuais disposições desse Instituto, só tenderá a prejudicar os interesses do Brasil e, em última análise, do próprio governo. Ao confundir pressa com eficácia, a administração de Dilma Rousseff em última análise trabalha contra o seu próprio interesse, que deveria ser o da realização de obras compatíveis com as necessidades da população e do meio ambiente.
Não foi com tal propósito que o Ibama foi criado. De que serviria ao Brasil um instituto chapa-branca, mais dócil às injunções do poder do que àquelas do meio ambiente ?
( Fonte: O Globo )
Ao passar as exigências para a fase de instalação de Belo Monte, segundo a procuradoria do M.P.F., o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ‘empurrou todas as condicionantes para a fase de instalação, que é quando os impactos se concretizam’.
Consoante ainda o Ministério Público, como se pode confiar em que o Instituto será agora rigoroso com o cumprimento das exigências, se durante o período da licença prévia não o foi ?
Os antecedentes demonstram que, ainda mais na presidência de Dilma Rousseff do que naquela de seu benfeitor Lula da Silva, o caráter governamental do Ibama e a consequente subordinação aos interesses políticos da Administração transparece na sua ‘flexibilidade’ quanto ao cumprimento dos requisitos impostos. Por isso, o M.P.F. assevera que o Ibama foi irresponsável. E com tais antecedentes, como é lícito presumir que o Instituto será rigoroso doravante ?
A pressa do governo Dilma se traduz em tácita permissão ao consórcio Norte-Energia de as exigências serem ou postergadas, ou negligenciadas. Nesse aspecto, o M.P.F. avalia a oportunidade de impetrar nova ação cível. Para tanto, não faltam válidos motivos.
Assim, até o momento, não existe nenhum saneamento na região. Negligenciada a qualidade da água (condicionante de número 2.7), nenhuma obra de esgoto foi iniciada. No contexto do facilitário, o Consórcio Norte-Energia acertou com o Ibama que o saneamento básico será implantado em 2014. Acresce notar que até lá o município de Altamira sofrerá invasão de trabalhadores.
Tampouco difere a apreciação feita pelas ONGs. Se não foi efetivada a lista da quarenta condicionantes encaminhadas pelo Ibama quando da licença prévia, a coordenadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre questiona da garantia existente para que elas sejam ora cumpridas.
Há muita manipulação, segundo essa coordenadora, eis que nada do que foi determinado na licença prévia foi feito. Com o aumento da população, e o desrespeito (das exigências) crescendo, se instaura o caos: “não dá para acreditar que agora as condicionantes serão cumpridas”.
Por outro lado, tampouco as condicionantes impostas pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) mereceram a devida atenção. Com efeito, apenas duas delas foram atendidas até o presente (a retirado dos posseiros das terras indígenas Cachoeira Seca e Arara da Volta Grande).
A virtual perda de autonomia do Ibama e o aumento da ingerência do Poder Executivo nas eventuais disposições desse Instituto, só tenderá a prejudicar os interesses do Brasil e, em última análise, do próprio governo. Ao confundir pressa com eficácia, a administração de Dilma Rousseff em última análise trabalha contra o seu próprio interesse, que deveria ser o da realização de obras compatíveis com as necessidades da população e do meio ambiente.
Não foi com tal propósito que o Ibama foi criado. De que serviria ao Brasil um instituto chapa-branca, mais dócil às injunções do poder do que àquelas do meio ambiente ?
( Fonte: O Globo )
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Fardo Pesado
O tempo passa e a crise causada por denúncia da Folha de São Paulo não dá sinais de esmorecimento. Pelo contrário.
A despeito da tentativa do Governo Dilma Rousseff de tentar vencê-la pela não abertura de novas frentes , se tem evidenciado uma saída de Sísifo. Tão logo um intento é bloqueado pela maioria do PT e de aliados, outro reponta, com igual vigor.
O espetacular enriquecimento do Ministro Antonio Palocci representa um incômodo desafio. Pelo seu tamanho, é difícil deconhecê-lo. Por outro lado, a respectiva magnitude fragiliza o antes poderoso Ministro-Chefe da Casa Civil.
Nesse sentido, sua decantada habilidade política, assim como a experiência administrativa não podem mais ser utilizadas a pleno vapor. Os exemplos não faltam, como no episódio do ríspido diálogo com o Vice-Presidente, bem como no inábil e mal-dosado recado ao líder Candido Vaccarezza.
Atenazados pelos contínuos ataques da oposição e de supostos integrantes da maioria, o governo e a situação começam a sangrar. Vai-se, dessarte, desenhando um cenário em que boa parte das energias da nova administração são desviadas para a ingrata tarefa de tentar apagar os focos da insatisfação que teima em persistir, semana após semana.
Pouco importa se tal insatisfação seja instrumentalizada ou não. A fraqueza do jovem governo Dilma é demasiado tentadora para que os perenes mouros da costa dela não se prevaleçam. Desse modo, se sucedem os golpes infligidos pelos periféricos da maioria – como o do kit anti-homofobia – diante do sucesso obtido, pelo recurso da aberta chantagem, no que tange ainda à frente evangélica, liderada pelo ressurreto Anthony Garotinho.
Assim, forçoso será reconhecer que a temporada de caça está aberta, com previsíveis testemunhos, que irrompem de personalidades muita vez apenas ligadas por motivações as mais dispares. Se se trata, no entanto, de Pedro Simon ou de Roberto Requião, a importância das manifestações reside mais no seu número, do que do peso específico de cada uma delas.
A estratégia de estancar os vazamentos terá, sem dúvida, um prazo de validade. Se a nave governamental continuar a fazer água, a dúvida quanto à serventia dessas defesas tenderá a crescer, à medida que se espalha a consciência de que os esforços não estão tendo êxito, eis que a crise das consultorias de Antonio Palocci não dá sinais de enfraquecimento.
O penúltimo episódio – o da votação pela convocação do Ministro pela Comissão de Agricultura da Câmara – tem todas as características dessa incessante e desgastante tática da guerrilha. A aprovação dita polêmica pela presidência da Comissão foi temporária e penosamente sustada pelo recurso in extremis a ao presidente da Câmara, que se reservou o prazo de decidir sobre o ‘sim’ ou o ‘não’ para a próxima terça-feira.
A par disso tudo – de uma crise que paralisa a Administração Dilma e em que já repontam as comparações com a do mensalão – paira sobre o acossado Ministro outra ameaça. Com efeito, o Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, examina a resposta dada pelo Ministro-Chefe da Casa Civil ao questionário que lhe fora enviado pelo Ministério Público. Da importância de tal avaliação, máxime na situação presente, semelha escusado fazer ulteriores especulações.
( Fonte: O Globo )
A despeito da tentativa do Governo Dilma Rousseff de tentar vencê-la pela não abertura de novas frentes , se tem evidenciado uma saída de Sísifo. Tão logo um intento é bloqueado pela maioria do PT e de aliados, outro reponta, com igual vigor.
O espetacular enriquecimento do Ministro Antonio Palocci representa um incômodo desafio. Pelo seu tamanho, é difícil deconhecê-lo. Por outro lado, a respectiva magnitude fragiliza o antes poderoso Ministro-Chefe da Casa Civil.
Nesse sentido, sua decantada habilidade política, assim como a experiência administrativa não podem mais ser utilizadas a pleno vapor. Os exemplos não faltam, como no episódio do ríspido diálogo com o Vice-Presidente, bem como no inábil e mal-dosado recado ao líder Candido Vaccarezza.
Atenazados pelos contínuos ataques da oposição e de supostos integrantes da maioria, o governo e a situação começam a sangrar. Vai-se, dessarte, desenhando um cenário em que boa parte das energias da nova administração são desviadas para a ingrata tarefa de tentar apagar os focos da insatisfação que teima em persistir, semana após semana.
Pouco importa se tal insatisfação seja instrumentalizada ou não. A fraqueza do jovem governo Dilma é demasiado tentadora para que os perenes mouros da costa dela não se prevaleçam. Desse modo, se sucedem os golpes infligidos pelos periféricos da maioria – como o do kit anti-homofobia – diante do sucesso obtido, pelo recurso da aberta chantagem, no que tange ainda à frente evangélica, liderada pelo ressurreto Anthony Garotinho.
Assim, forçoso será reconhecer que a temporada de caça está aberta, com previsíveis testemunhos, que irrompem de personalidades muita vez apenas ligadas por motivações as mais dispares. Se se trata, no entanto, de Pedro Simon ou de Roberto Requião, a importância das manifestações reside mais no seu número, do que do peso específico de cada uma delas.
A estratégia de estancar os vazamentos terá, sem dúvida, um prazo de validade. Se a nave governamental continuar a fazer água, a dúvida quanto à serventia dessas defesas tenderá a crescer, à medida que se espalha a consciência de que os esforços não estão tendo êxito, eis que a crise das consultorias de Antonio Palocci não dá sinais de enfraquecimento.
O penúltimo episódio – o da votação pela convocação do Ministro pela Comissão de Agricultura da Câmara – tem todas as características dessa incessante e desgastante tática da guerrilha. A aprovação dita polêmica pela presidência da Comissão foi temporária e penosamente sustada pelo recurso in extremis a ao presidente da Câmara, que se reservou o prazo de decidir sobre o ‘sim’ ou o ‘não’ para a próxima terça-feira.
A par disso tudo – de uma crise que paralisa a Administração Dilma e em que já repontam as comparações com a do mensalão – paira sobre o acossado Ministro outra ameaça. Com efeito, o Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, examina a resposta dada pelo Ministro-Chefe da Casa Civil ao questionário que lhe fora enviado pelo Ministério Público. Da importância de tal avaliação, máxime na situação presente, semelha escusado fazer ulteriores especulações.
( Fonte: O Globo )
quarta-feira, 1 de junho de 2011
A Ilusão da Ministra
É realmente difícil de aturar a falta de sensibilidade da Ministra Maria do Rosario Nunes (PT), encarregada da Secretaria dos Direitos Humanos. Acerca das condições de garantir a segurança dos ambientalistas e demais líderes indígenas, quilombolas e sem terra, que correm risco de vida no país, ela afirmou: “Seria errôneo e uma ilusão dizer que temos condições para atender a esta lista. Vamos fazer uma avaliação.”
Uma avaliação ? A Comissão Pastoral da Terra pediu proteção para 207 nomes que, entre 2000 e 2011, sofreram mais de uma ameaça. Deles 42 já foram assassinados. Restam, portanto, 165.
Nem os trinta nomes considerados mais vulneráveis pela Pastoral têm assegurada a proteção. A Ministra irritou-se sobretudo com as cobranças de José Batista Alonso, advogado da CPT de Marabá. Ao afirmar este que entre as causas das quatro mortes da semana passada está a discussão e aprovação do Código Florestal, a ministra reagiu de pronto, interrompendo Batista: “Não é esse o entendimento do governo.”
O advogado da Pastoral voltaria a ter a fala cortada pela Ministra. Dizia Batista que a proteção aos ameaçados não resolve o problema, e que é necessário haver políticas públicas efetivas. Ao acrescentar que dos 20 defensores de direitos humanos ameaçados apenas seis são protegidos, a Ministra o atalhou de novo, para dizer que “o Pará é o que tem o maior número de protegidos”. No final, a Ministra Maria do Rosario Nunes chegou a asseverar que a proteção com escolta policial é também uma forma de violação de direitos humanos.
De início, seria o caso de perguntar se as quatro vítimas, abatidas por sicários e capangas, não prefeririam acaso, se tivessem escolha, essa violação de seus direitos humanos, do que aquela terminal de uma morte brutal e estúpida.
Pode-se até fazer um esforço para tentar entender a exasperação da Ministra. É a reação de alguém que se sente defrontado e atropelado por um grande desafio. Sem embargo, a irritação será sempre má conselheira, porque torna presa da paixão e não da razão a atitude da Ministra.
A injustiça é inadmissível. Não se pode afastar de plano uma ação determinada, por se acreditar que está acima da capacidade das autoridades responsáveis.
A compreensão do desafio colocado pela violência no campo não pode ser alva e leve túnica que, à primeira dificuldade, será arrancada num acesso de cólera.
Por isso a Ministra Maria do Rosario deveria manter a calma – que é uma forma de respeito extensível a pessoas não ameaçadas nas suas posses materiais, mas sim no que tem de mais precioso que é a própria existência – quando colocada diante dos problemas gerados pelos assassínios no campo.
Tampouco lhe servem arroubos como o de afastar num repente a observação de que a votação no Congresso do Código Florestal não tem incentivado apenas os desmates ilegais, senão atentados criminosos contra a vida de corajosos ativistas que não estão a soldo de grileiros e latifundiários.
Ministra, a senhora e todos nós vivemos sob a carga vergonhosa do impostômetro. Já passamos dos seiscentos bilhões de reais, consumidos pelo ávido apetite do monstro. Nesse acintoso vulto de tributos é mais do que caso de perguntar se ao invés de cevar a corrupção e o desperdício, os impostos poderiam ser utilizados também em ‘políticas públicas efetivas’ que extirpassem do campo o inço do crime organizado. Seria outra política de combater uma espécie particular de miséria, voltada contra os pobres e desarmados da terra.
( Fonte: O Globo )
Uma avaliação ? A Comissão Pastoral da Terra pediu proteção para 207 nomes que, entre 2000 e 2011, sofreram mais de uma ameaça. Deles 42 já foram assassinados. Restam, portanto, 165.
Nem os trinta nomes considerados mais vulneráveis pela Pastoral têm assegurada a proteção. A Ministra irritou-se sobretudo com as cobranças de José Batista Alonso, advogado da CPT de Marabá. Ao afirmar este que entre as causas das quatro mortes da semana passada está a discussão e aprovação do Código Florestal, a ministra reagiu de pronto, interrompendo Batista: “Não é esse o entendimento do governo.”
O advogado da Pastoral voltaria a ter a fala cortada pela Ministra. Dizia Batista que a proteção aos ameaçados não resolve o problema, e que é necessário haver políticas públicas efetivas. Ao acrescentar que dos 20 defensores de direitos humanos ameaçados apenas seis são protegidos, a Ministra o atalhou de novo, para dizer que “o Pará é o que tem o maior número de protegidos”. No final, a Ministra Maria do Rosario Nunes chegou a asseverar que a proteção com escolta policial é também uma forma de violação de direitos humanos.
De início, seria o caso de perguntar se as quatro vítimas, abatidas por sicários e capangas, não prefeririam acaso, se tivessem escolha, essa violação de seus direitos humanos, do que aquela terminal de uma morte brutal e estúpida.
Pode-se até fazer um esforço para tentar entender a exasperação da Ministra. É a reação de alguém que se sente defrontado e atropelado por um grande desafio. Sem embargo, a irritação será sempre má conselheira, porque torna presa da paixão e não da razão a atitude da Ministra.
A injustiça é inadmissível. Não se pode afastar de plano uma ação determinada, por se acreditar que está acima da capacidade das autoridades responsáveis.
A compreensão do desafio colocado pela violência no campo não pode ser alva e leve túnica que, à primeira dificuldade, será arrancada num acesso de cólera.
Por isso a Ministra Maria do Rosario deveria manter a calma – que é uma forma de respeito extensível a pessoas não ameaçadas nas suas posses materiais, mas sim no que tem de mais precioso que é a própria existência – quando colocada diante dos problemas gerados pelos assassínios no campo.
Tampouco lhe servem arroubos como o de afastar num repente a observação de que a votação no Congresso do Código Florestal não tem incentivado apenas os desmates ilegais, senão atentados criminosos contra a vida de corajosos ativistas que não estão a soldo de grileiros e latifundiários.
Ministra, a senhora e todos nós vivemos sob a carga vergonhosa do impostômetro. Já passamos dos seiscentos bilhões de reais, consumidos pelo ávido apetite do monstro. Nesse acintoso vulto de tributos é mais do que caso de perguntar se ao invés de cevar a corrupção e o desperdício, os impostos poderiam ser utilizados também em ‘políticas públicas efetivas’ que extirpassem do campo o inço do crime organizado. Seria outra política de combater uma espécie particular de miséria, voltada contra os pobres e desarmados da terra.
( Fonte: O Globo )
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