sexta-feira, 22 de abril de 2016

A Imagem do Brasil

                                  
        Houve tempo em que o Brasil ultrapassara o Reino Unido, mas então o nosso PIB estava inflado pelo boom das commodities - e é bom lembrar que até hoje - e desde o surgimento do Brasil - estamos atrelados aos produtos de base. São aqueles que logo despencam nas recorrentes crises, assim como os produtos que têm menor coeficiente de aporte científico no seu preço total.
         Não sei se será por esse motivo que a vivaz imprensa britânica não é muito caridosa com Pindorama, reservando para nós as observações mais mordazes, e o pior disso será que muita vez eles têm razão.
         Como ganhamos por primeira vez a oportunidade de sediar as Olimpíadas - conquistadas com a habitual simpatia e os hábeis filmetes - o que nós está acontecendo até que relembra aquela famosa maldição: não desejes muito que isso venha a acontecer (porque como então vais sair da enrascada?).
          A verdade é que somos muito bons, demasiado bons em promessas, mas a tal não costuma corresponder a própria capacidade em mantê-las, quando chega a hora.
           Já houve o vexame do compromisso quanto ao saneamento da Baía de Guanabara. Chegada a hora, as autoridades responsáveis sequer foram contritas nas suas explicações. Aliás, como sequer se tentou, preferiu-se a cara de pau, dizendo que nada foi feito e é isso aí!
            Se há palavras para definir essa atitude, melhor não dizê-las. Tampouco acham que a Lagoa Rodrigo de Freitas, que será cenário de outras disputas náuticas, deva merecer maiores explicações a falta de qualquer providência. A falta de cumprimento com a palavra empenhada é outra postura que deixa marcas, e as que pode produzir ainda maiores, se houver algum problema relacionado com essa desídia. O mais grave aqui é que a Lagoa poderia ser saneada, pois é relativamente pequena, embora, digam, esteja coalhada de esgotos abusivos.
             O que ocorreu ontem em São Conrado tem muito a ver com o ritmo das obras para as Olimpíadas. Dois ciclistas - e possivelmente mais um - caíram vítimas de uma construção feita às carreiras, e que recém inaugurada despenca diante da primeira ressaca de um mar-oceano que não costuma ser muito calminho junto às encostas de São Conrado.
            Não pára aí o tétrico simbolismo do acontecimento.  O Prefeito Eduardo Paes estava a caminho da Grécia e de Olímpia - aonde se realiza a cerimônia da tocha olímpica - e que depois de algumas escalas virá para o Brasil, em que está previsto um programa condizente com a extensão continental de nossa terra.
             Muitos já viram - graças à televisão - a inquietante facilidade com que uma grande onda atacou por baixo a ciclovia e levou a frágil construção, com os pobres ciclistas, para as fauces dos negros rochedos.
             As autoridades apareceram logo, mas o que poderiam dizer perante a facilidade com que a vaga levou consigo um trecho da ciclovia? Uma reporter repetia a pergunta: isso não era previsível? Era por certo indagação irrespondível, e se terá de compreender que a autoridade não poderia responder.  
              A pergunta que teria de ser feita, não o foi. O mar estava enraivecido. Sem querer, ele nos dava uma oportunidade. Ao invés de abrir as cancelas para os ciclistas, que tal agüentar um pouquinho e verificar como a pista se comporta nessa primeira e inesperada prova? Um  pouco de bom senso e de prudência, que nunca fizeram mal a ninguém, os deixaria vivos.
                Além de mostrar, para bom entendedor, que a obra carecia de ser refeita.


( Fontes:  O Globo, Rede Globo )            

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Pegando Carona

                                      


         Para os correspondentes aqui postados, ainda mais depois do espetáculo deprimente dado por tantos representantes do povo no passado domingo, não é necessário ser um Nostradamus para transmitir aos respectivos periódicos o espetáculo mais para o carnavalesco em que pode ser referida a estranha viagem de Dilma Rousseff para consignar queixa da maneira com que ela foi tratada pelo Congresso.
         Não é necessário má-fé para assim proceder. Basta a tendência ao vitimismo - ainda mais depois da vociferante atuação de sua bancada na Câmara - para que esta senhora se convença de que foi objeto de uma conspiração.
         Lá se foi ela para Manhattan no que poderia ser a sua última viagem oficial. Certamente, não tem pé nem cabeça o escopo da missão. Em conferência do clima, ela vai tomar a pálavra, e a folhas tantas inserir uma observação vexatória e como dizia nos seus tempos de mando o regime militar difundir comentários difamatórios relativos à nossa imagem judiciária.
          Decerto, tenha ou não repercussão maior essa desastrada missão, e mesmo diante das óbvias contradições - que golpe é esse que permite à acusada ir à sede das Nações Unidas, com a missão de divulgá-lo e expor-lhe a suposta ilegalidade? - sempre há de ficar alguma coisa.  O personagem de Beaumarchais não já aconselhava aos eventuais interessados? Caluniai, caluniai, Ficará sempre alguma coisa...
           A esse respeito, é pelo menos oportuno que essa tese sem pé nem cabeça seja desmentida por quem de direito: Assim, o decano do STF, o Ministro Celso de Mello, afirmou que a acusação de Dilma é um "gravíssimo equívoco". Já para o Ministro Dias Toffoli - que foi secretário de José Dirceu e indicado por Lula ao Supremo: "o processo assegurou amplo direito de defesa e alegar golpe agora é uma "ofensa às instituições brasileiras".


( Fonte:  O Globo )

Sanders: o quê fazer?

                       
         Caída a poeira da primária em New York,  os repensamentos sobre a corrida no Partido Democrata não são favoráveis a Bernie Sanders.
         Há geral consenso de que Sanders foi  candidato brilhante, que marcou posição,  abrindo espaço para o eleitorado jovem e contestador.
         Sem embargo, esta não é a única conclusão trazida pela campanha do Senador por Vermont.  Pouco conhecido até então, Bernie se transformaria no concorrente que mais simpatias despertou, nas primárias.
         Contudo, há um outro fator relacionado com o desafiante democrata que, a essa altura do campeonato, carece igualmente de ser computado.
          Apesar da campanha original e inovadora, trazendo a lume o elemento participativo e a inclusão de segmentos que antes não se sentiam motivados, os especialistas também referem mais uma conclusão a ser contemplada.
           A vantagem de Hillary Clinton, como há oitos anos atrás tinha sido a de Barack Obama, sinaliza de modo inequívoco que Sanders cumpriu a sua missão, e que a diferença entre os delegados da front-runner e os próprios, por maior que seja a vibração de seus partidários, não aponta para  possível reviravolta a favor do senador.
           Como um comentarista coloca a Sanders: o senhor fez a sua parte, e agora tem de responder a uma interrogação. Como pré-candidato, o Senador por Vermont já mostrou ao que veio. O que restaria determinar - dadas as ínfimas possibilidades de reverter essa partida - é se o senhor quer dedicar-se ao seu papel de candidato, como se fora um fim em si mesmo, ou retirar-se da competição, para não acirrar a luta intestina dentro do Partido Democrata, e assim fortalecer as perspectivas de vitória da candidata que ganhará a nomination.
            Foi o que fez Hillary em 2008, malgrado a oposição do marido e ex-presidente Bill Clinton. Ao invés de continuar a investir na própria candidatura, ela se transformaria em uma virtual dissidente dentro do movimento democrata, o que a levaria a enfraquecer a candidatura oficial,. acarretando as consequências que têm tais dissidências em termos de subtração do apoio total que pode congregar quem seja o  representante partidário.
            É este o desafio que se coloca a Sanders. Resta saber se posto defronte da continuação na competição sem chance de vitória, o senador por Vermont não mostraria a mesma visão intra-partidária que norteara a decisão de Hillary em 2008.  
           

( Fonte: The New York Times )

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O Impeachment no Senado

                         

         Depois da curva ascendente representada pela aprovação do Impeachment pela Câmara dos Deputados, a reação dos adversários da decisão e da própria indigitada introduz novos elementos para a evolução (ou involução) da questão.
         Ao contemplar esse quadro, um observador poderá duvidar da postura atitudinal de muitas das partes em liça, e chegar mesmo a considerá-las margeando a oligofrenia.
         A negação da realidade costuma partir de um desvio do julgamento da realidade. Esse desvio pode ser determinado pela negação de componentes da realidade. O que interessa aí é a causa que determina essa reação.
          No marxismo, como em posturas ideológicas assemelhadas, a negação da realidade - reforçada pela sua repetição nos foros pertinentes - constitui um artifício bastante corriqueiro dos movimentos com forte carga autoritária.
           Esse cediço recurso - a velha lição não só de Goebbels, mas também do comunismo: repetir uma mentira mil vezes para que se torne artigo de fé e, por conseguinte, verdade - parte da premissa de que tal verdade pode depender, para sua corroboração, de uma repetição ad nauseam, o que funcionaria à falta de raciocínio desse nome, como adequado substituto para estabelecer uma afirmação que se deseja fazer passar como verdade.
           Dessa maneira, o impeachment virou golpe. Pouco importa para os seus defensores que  tal interpretação deste processo jurídico-legislativo tenha sido estabelecida segundo uma sequência lógica, através da individuação de procedimentos ilegais adotados pelo governo de Dilma Rousseff, com a comissão de crimes de responsabilidade (devidamente determinados pela Lei de Responsabilidade Fiscal).
            Também para os defensores da postura ilegal em causa, pouco importa a condenação unânime das contas de Dilma Rousseff pelo Tribunal de Contas da União, e a elaboração da petição pelo  Impeachment, documento assinado pelo Dr Hélio Bicudo, Prof. Miguel Reale Júnior e Dra Janaína Paschoal.
            Gera, por isso, constrangimento que o PT e seus líderes continuem a vociferar, como se fora mais um slogan, que o impeachment é golpe. Dada a pobreza dos argumentos utilizados pelos representantes do Partido dos Trabalhadores - que muitas das vezes se cingem a repetir a palavra de ordem - esse tipo de anti-argumentação não deveria merecer mais atenção, se, de forma irresponsável,  a  Presidenta  venha a público denunciar o Impeachment como golpe, simples fabricação legislativa para afastar um governo legítimo.
               É lamentável que esta ficção seja abraçada pela presidente, a despeito de que a resolução respectiva tenha alcançado 367 votos contra 137, o que configura enorme maioria, bastante acima, de resto, do total mínimo exigido pela legislação em vigor.
               É difícil definir a irresponsabilidade petista, assumida pela própria Presidenta, que mesmo na condição jurídica em que se acha, resolveu viajar para New York, possívelmente com o propósito de apresentar a sua verdade neste foro internacional.
               A cara de pau de uma presidente impeached, com o seu processo já no Senado, vai gerar seguramente para nossos representantes junto às Nações Unidas - refiro-me decerto a diplomatas sênior, com postura séria, condicionada pelo juízo de nosso Supremo, que pela palavra de seu decano, o Ministro Celso de Mello, reitera  ex-cathedra que o processo do Impeachment é legal -  muita perplexidade e desconforto.                  
                O despreparo da Presidenta - ao se aferrar a assertivas tão infundadas - trazem decerto a juízo um ulterior elemento para determinar o afastamento dessa senhora.
                Dado o momento peculiar que atravessamos - afinal de contas, sob a Constituição de 1988 apenas dois presidentes foram impedidos - e atendida, outrossim, que, por motivos que oficialmente se ignoram, o Senhor Renan Calheiros resolveu contrariar o bom senso, e adiar por mais uma semana o processo de julgamento pelo Senado de Dilma Rousseff. Presume-se que o Presidente do Senado deseje dar-lhe mais tempo, como se isto pudesse favorecer-lhe a causa. Sem embargo, segundo Merval Pereira isto seria adiar o inevitável. Com efeito, como "já existe um grupo de 47 senadores declarados a favor de seu afastamento, seis a mais do que o mínimo necessário", tudo indica que tais manobras tenham a finalidade de ganhar tempo para encontrar uma saída que prolongue a permanência da presidente Dilma à testa do governo.
                  E não se esqueça, por fim, que há outra medida que o governo petista intenta reviver: trata-se de reexumar o decreto presidencial que atribui ao ex-presidente Lula da Silva a chefia da Casa Civil.
                  Dadas as consequências dessa investidura, seja no plano político, seja naquele administrativo, e last, but not least, na blindagem júridica que se outorgaria ao ex-presidente, pergunta-se se tal seria possível, atendida a posição do Ministério Público Federal, como já referida pelo seu Chefe, Rodrigo Janot ?
        

( Fontes:  O Globo, Folha de S. Paulo )

A Vitória de Trump em N.Y.

                              

           Donald J. Trump vencer no estado de New York  não é, decerto, surpresa.  O que impressiona é a amplitude da vitória. Por sua vez,  surpreendeu que o Senador Ted Cruz, que vinha se afirmando, saíu desta primária de mãos abanando (Trump levará a maior parte dos 95 delegados, indo o restante para o Governador John Kasich, de Ohio).
           As perspectivas para a nomination de Trump crescem de novo, depois de uma série decepcionante de primárias, com vitórias de Cruz em Wisconsin, e também outras vantagens alcançadas em Colorado e Wyoming, pelo líder ultra-conservador do Tea Party.
           Além da injeção de confiança ora dada pelo estado natal, houve tambem uma reestruturação na campanha de Donald Trump, para a qual Mr Manafort traz mais profissionalismo - como já se verifica por certas afirmações políticas do candidato.
           Agora, parecendo mais sereno, Mr Trump se permitiu a previsão otimista de que obterá afinal o mágico número de 1.237 delegados, para lograr a nomeação de parte do GOP.


( Fonte:  The New York Times, O Globo )    

Hillary vence em New York

                             

          A Sra. Hillary Clinton, mais do que se alegrou, na verdade, exultou com a vitória na primária de New York. Depois de seis derrotas para o challenger Bernie Sanders, ela  exibia o conhecido, exuberante sorriso que traduzia a própria satisfação em obter afirmativo triunfo contra o rival, em um estado pelo qual já fora eleita por duas vezes Senadora.
          Dos 247 delegados de New York, Hillary ganhou trinta mais do que Sanders, o que se agrega a uma vantagem superior a duzentos delegados em relação ao desafiante. Percentualmente, ela ficou com cerca de 57% dos votos e Bernie Sanders, com 42%.
          A Sra. Clinton mais uma vez construíu a respectiva vantagem nos grupos de mulheres e de afro-americanos. Também em relação aos chamados latinos - que, na verdade, são oriundos da América Latina - o percentual de sufrágios de Hillary é bastante substancial.
          Por sua vez, Bernie Sanders - que esperava tanto de New York - ficou decepcionado com os resultados. A sua campanha investira bastante nessa competição - cerca de dois milhões de dólares a mais do que  Hillary- e agora já está com anúncios nos cinco estados vizinhos a New York - Pennsylvania, Rhode Island e Connecticut, assim como em Delaware e Maryland - com votação prevista para a próxima terça-feira.
          Apóiam em geral a Sanders maioria de homens brancos e de jovens.  O senador por Vermont ficou muito irritado em que o estado de New York não permite, na sua primária democrata, que votem independentes. Esse é um grupo que, em geral,  lhe apóia.
           Por outro lado, entre os cognoscenti, se julga que ao invés de favorecê-lo, a propaganda negativa - que é uma das teclas em que mais toca o candidato de Vermont - afasta mais eleitores do que atrai.


( Fontes:  The New York Times, O Globo )

terça-feira, 19 de abril de 2016

O 19 de Abril


                                      

      O culto das datas importantes em uma nacionalidade - e já me referi neste mês ao sete de abril - semelha exercício importante, quando não para evitar que certos dias caiam no olvido.

      O dezenove de abril - que já foi até dia feriado no Brasil  - é a efeméride do nascimento de quem seria o presidente Getúlio Dornelles Vargas.

      Destinado a ser o terceiro filho do casal Manuel Vargas e Cândida Dornelles - depois dos irmãos Viriato e Protásio - Getúlio nasceu raquítico, em 1882,  na sede da Fazenda Triunfo.

      De saúde precária durante a infância, sobreviveu a um quase envenenamento, aos dois anos (engolira, por descuido, gotas de querosene), e acessos incontroláveis de febre, aos sete.

      Mais uma vez, Getúlio resistiu. Cresceu, no entanto, criança calada, dada a longos silêncios. Preferia ouvir a falar. Os amigos de infância empregariam, para descrevê-lo, a expressão gauchesca 'bagual caborteiro', o que significa 'potro difícil de domar'...

       Lira Neto, de quem as linhas acima são colhidas, escreveu biografia em três volumes, em que traça a evolução política de Getúlio, quando foi deputado federal, Ministro da Fazenda de Washington Luís, presidente (governador) da Província do Rio Grande do Sul, chefe revolucionário (3 de outubro de 1930), presidente constitucional - 1934, ditador (novembro de 1937 a 29 de outubro de 1945, senador e deputado federal, exílio em São Borja, retorna ao poder, reeleito presidente em 1950, saindo morto do palácio do Catete em 24 de agosto de 1954, da vida para entrar na História, como escreve na Carta-testamento. Levado por enorme massa popular, em grande caudal, alimentada por muitos afluentes, vindos de toda parte, até o avião que o transporta a São Borja, para o túmulo familiar.  

 

( Fonte: Getúlio, de Lira Neto (em 3 vols.), Companhia das Letras )