quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Gigante Acorda

                                           

       Talvez uma das consequências mais positivas do movimento do passe livre e das manifestações de jovens e populares que se espalharam por esses brasis afora, saindo da Paulicéia e da antiga Corte (até l889) e do Distrito Federal (até 1960) foram as invasões pacíficas dos diversos palácios legislativos.
       Suas Excelências dormiram por longo, demasiado tempo no plácido sono do corporativismo e do acintoso menosprezo ao Povo Soberano. Esse ledo autismo das altas Câmaras passaria também às baixas, na insolente confiança de desrespeitar naqueles faustosos e acolchoados recintos de um poder que, apesar de delegado, agia como se só devesse atenções e falsas mesuras quando soavam as campaínhas dos comícios quatrienais.
       É bom e oportuno que o Povão continue desperto e atuante. Não faz assim tanto tempo o Brasil, por cortesia das redes televisiva, nos proporcionou a visão do espetáculo do fastígio corporativista e alienado da terra de que lhe vêm todos os proventos de que se apossam as Excelências dos três Poderes.
       No país do infame Impostômetro, em que os publicanos se esmeram na sua milenar perseguição do servo, do súdito e do dito cidadão, e onde o peso inútil do tributo iniquo é a carga maldita – e que incha por geração espontânea (hoje anda pelos 35% !) – a carregar cada despesa e cada magro estipêndio – não é que assistimos a uma afrontosa cerimônia, em que o Congresso das quartas-feiras e os figurões dos outros dois Poderes, em votações formais e a toque de caixa, se redistribuiram com acintosa pressa e facilidade – atualizada com o atrevimento do privilégio, em dois dias, e em votações simbólicas - na auto-distribuição  das pressurosas atualizaçãoes das suas régias pagas mensais.
       Nas manifestações de junho, que sacudiram da gostosa hibernação os poderosos do Executivo, Legislativa e Judiciário, com os jovens à frente do Povo, se veio expressar o desconforto e a inconformidade com a alienação das falsas elites, que dominantes se pensavam dirigentes, para dizer-lhes, de forma pacífica, e longe das espúrias bandeiras dos partidos corrompidos, que chegara a hora da apresentação das contas.
      O povo não é um acréscimo formal, a ornar os domínios dos poderosos.  A começar, tais domínios – palácios e todo o vasto etcetera que compõe as aras do mando – não pertence a estes, que são deles apenas os titulares temporários. É bom e oportuno, que o Povo soberano ingresse nesses recintos – e para tanto, pelos impostos que paga, não carece de convite nem de licença – e sacuda esses fementidos de suas olvidadas promessas e compromissos de ocasião, para afinal tenham presente as respectivas promessas e, acima de tudo, o sagrado empenho com o interesse de seu Patrão, que é o Povo.
       A princípio, embalados pelo tempo da incúria, presidente, governadores e prefeitos podem até pensar recorrer aos meganhas com o seu arsenal de maldades e violências. Mas quando o Povo acorda para vir cobrar não só pelos esquecimentos dos poderosos de plantão, mas por todas as maracutaias em que gostosamente se espojam, é oportuno que o tratem com a deferência que o Senhor da Casa faz por merecer, e ainda mais quando a ira dos justos dele se apossa.
          Vencidos os arreganhos dos sprays de pimenta, das bombas lacrimogêneas, da covardia das balas de borracha (que cegam, estropiam e podem, com toda a sua hipocrisia, matar) e de todo o arsenal de um Poder por muito hibernado no prazeroso sono da irresponsabilidade e da corrupção, é chegada a hora que os anfiteatros legislativos sejam ornados não pela claque dos interesseiros, favorecidos e pelegos, mas por jovens e menos jovens armados tão só da aspiração de que justiça se faça, e que no exercício das funções públicas – de presidente a prefeito; de senador a vereador; de ministro de alto tribunal a juiz de paz – se respeite o interesse geral que é o do Povo, e não o privilégio ou a prerrogativa dos que tem carro, motorista, e residência à custa do Erário !
          Quem não deve, não teme. Chega de subserviência aos tesouros e às exigências descabidas, que serão sempre estacas que se busca enterrar no chão e até na carne do Povo. 
           Que tudo que se assemelhe, de perto ou de longe, ao nefando e nojento Padrão Fifa  (que é o privilégio arrancado pelos anões de Genebra aos escassos passatempos do Povo) seja estigmatizado, denunciado e desfeito, como expressão indigna que é de uns poucos aproveitadores a escorraçar o Povo e a afastá-lo de suas diversões e paixões.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Xi Jinping ou Abaixo a Democracia !

                                    

         As fátuas esperanças de que o novo Grande Líder chinês seria um reformista liberal, não se sabe de onde saíram.
         É processo estranho o que induz grupos intelectuais a acreditarem no contrassenso. A história, com uma ou outra exceção, costuma esmagar, na placidez da indiferença, essas fugazes ilusões. Assim, como acreditar que alguém, concebido, nutrido e formado por sistema de privilégio, vá contestar o próprio criador, aquele que lhe dá sentido à existência, e, inda melhor, terá ensejado a estrada segura da afirmação pessoal?
        Pois, isto presumiram de Xi Jinping ! Ao cabo da longa espera, ele se transformaria de Clark Kent no Super-Homem, não sem antes livrar-se, na cabine telefônica das antecâmaras do destino, dos molestos trajes da pequena burguesia da acomodação.
        Quando a realidade deprime, é compreensível que o espírito humano busque alçar voo, para livrar-se do morno abraço da mediocridade e da subserviência.
        Depois que Deng Xiaoping caíu gostosamente na rede de Li Peng e da camarilha conservadora, e provocou através de repreensões defasadas o recrudescimento do movimento dos jovens de Tiananmen, tudo o mais seria consequência, inclusive o massacre.
        A súbita morte do injustiçado Hu Yaobang, que foi afastado da Secretaria do PCC, por demasiado liberal – com o que ganhara o respeito de ala partidária e da intelectualidade chinesa – provocou o início dos protestos na praça Tiananmen.
         O seu sucessor Zhao Ziyang também compartilhava da posição de Hu Yaobang. Na sua visão, a reforma econômica que, como Primeiro Ministro, implementara, carecia da liberalização da vertente política para escoimar a corrupção. Tal seria, no entanto, impossível sem abrir-se a sociedade e quebrar o monopólio do poder do PCC.
         Como não se curvou, Zhao seria a vítima da vez. Demasiado popular para ser contestado em processo público, destituído de todos os cargos, morre em prisão domiciliar, em Beijing, a 17 de janeiro de 2005.
         Com o desaparecimento de Deng, falecido em 1997, haveria a institucionalização da ditadura do partido, estabelecida por congressos quinquenais, em que o chefe do estado acumularia o mando do partido e da poderosa Comissão Militar (em que o PCC controla o fuzil). Os ‘mandatos’ são de cinco anos, com direito a uma reeleição, também pelo Congresso pleno do PCC. Há um Primeiro Ministro, subordinado ao Presidente, que também dispõe de dois mandatos de cinco anos.
        Na primeira fase, com a lenta saída de cena de Deng, Jiang Zemin é o Secretário-Geral do PCC (24.06.1989 – 15.11.2002) e Presidente da RPC (27.03.1993-15.03.2003). De 9.11.1989 a 19.09.2004 encarregou-se de igualmente presidir a Comissão Militar.
        A institucionalização se completa com Hu  Jintao.  É Secretário-Geral do PCC de 15.11.2002 a 15.11.2012; Presidente da RPC (15.03.2003-14.03.2013) e presidente da Comissão Militar (19.09.2004 a 14.05.2013).  O seu Primeiro Ministro foi Wen Jiabao.
        Com o mandato de Xi Jinping,  é nomeado o seu Primeiro Ministro,  Li Keqiang. Se as Parcas estiverem de acordo, o mandato de Xi se estenderá a catorze de março de 2023, com o Congresso Plenário do PCC previsto para março de 2018. O Presidente também preside a Comissão Militar, a partir de catorze de maio de 2013.
         O 18º Congresso Pleno do Partido Comunista Chinês contou com 2.270 delegados, e ratificou a eleição de Xi Jinping para a presidência do PCC, e a nova composição do Comitê Central. Os detalhes ficam por conta dos líderes veteranos do Partido, entre os quais Jiang Zemin continua a ter ainda muita influência.
        Como se verifica, dentro do costume chinês de respeitar e obedecer aos líderes mais velhos e experientes – como ocorreu com Deng e, em menor escala, com Jiang – caberá boa parcela de participação na conformação das diretivas partidárias.
        Não há de escapar aos observadores políticos, em que existem inequívocas semelhanças entre os sistemas soviético e chinês. Se o Comitê Central do PCC não terá a mesma força do antigo Politburo do PCUS, a conformação tem muitos traços comuns, a exemplo dos multitudinários congressos, mas difere nos mandatos fixos de Presidente (que acumula com as chefias do PCC e da Comissão Militar), e do Primeiro Ministro. Decerto, em nenhum dos dois casos o espírito democrático está presente, mas no caso chinês o sistema é burocrático-institucional. 
        Do modelo chinês, a democracia está bem longe. O itinerário ascendente dos futuros líderes se baseia em uma rede de influências e parentescos, sob as vistas de velhos revolucionários (estes uma espécie em rápida extinção) e dos notáveis, que se julgam guardiões do ethos e do lema de elevar sempre mais alto o pavilhão do  Império do Meio. Desde Roma, que a escalada dos encargos da República – o cursus honorum - deveria ser feita para aqueles que ambicionassem a honra de tornar-se Cônsul (a suprema autoridade na hierarquia cívica). Como temos presente no exemplo de Bo Xilai – que aspirava ao topo e acaba como réu em processo capital, a iniciar-se nesta semana – essa caminhada não esta isenta de perigos, sobretudo se a hubris estiver presente e se por inabilidade ou má-fortuna o número dos clãs inimigos for demasiado.          
         Por isso, há de entender-se que as criaturas do sistema para o próprio avanço carecem tanto de algum conhecimento e mérito, quanto e sobretudo de laços  grupais e familiares, assentados em acordos e realizações. A popularidade pode ajudar incidentalmente, embora se excessiva tende a transformar-se em imã de invejas e prevenções. Haverá sempre a preocupação dos maiores na preservação da oligarquia – que o PCC, com outros princípios, cuida de manter.
        Sem o romantismo e a abrangência das célebres instruções de Quintus Cícero a seu irmão Marco Túlio Cícero, como um pequeno manual de campanha eleitoral, escrito nos primeiros meses de 64 a.C. – Cícero seria eleito Cônsul e exerceria o cargo no ano seguinte -, a escalada na política chinesa, se não envolve o selo democrático das maiorias cidadãs, tem de atender a um número similar de recomendações intra-muros, no jogo de alianças e clientelas da tarda República Romana.
         Que algum personagem moldado nesse ambiente de parentescos, privilégios e  influências possa guardar o espírito e a essência dos princípios democráticos será um fenômeno bastante raro e quase único. Infelizmente, até o presente os convertidos – e foram muito poucos, como se verifica acima – não tiveram da deusa Fortuna o mínimo de condições que lhes assegurassem efetiva possibilidade de êxito.
        Não é o caso de Xi Jinping.
        No seu entendimento, em memorandum repassado aos principais escalões do PCC, há sete perigos que rondam a China. O primeiro deles é a Democracia Ocidental Constitucional. Entre os outros, a promoção dos valores universais dos direitos humanos, noções inspiradas pelo Ocidente de independência da mídia e da sociedade civil, o ardoroso neo-liberalismo pró-mercado, e críticas niilistas do traumático passado do Partido Comunista Chinês.
         Nesta mensagem, repassada aos quadros do Partido, se alerta para o perigo de forças ocidentais hostis à China, assim como os dissidentes dentro do país que continuam a infiltrar-se na esfera ideológica.
         Pobre Liu Xiaobo, Prêmio Nobel da Paz de 2010, condenado a onze anos de prisão, culpado de “incitação à subversão do poder estatal”, por atrever-se a propor a introdução de ultra-moderada democracia na sua Carta 2008.  Liu acaba de ter o cunhado Liu Hui condenado por ‘fraude imobiliária’ e também a onze anos, no que se crê seja odiosa perseguição política. Quanta às advertências de Xi Jinping, Liu Xiaobo  as dispensa, pois desde muito já sente na carne os padecimentos e as misérias das masmorras chinesas. Elas, em verdade, nada ficam a dever aos calabouços dos tiranos do século XVIII, que inspiraram o Marquês de Beccaria, com a sua obra prima “Dos Delitos e das Penas”, publicada em 1764.
 

 

(Fonte:  International Herald Tribune)

Diário da Mídia (IV)

                                           

Prisão absurda 

            A detenção do brasileiro David Miranda no aeroporto de Heathrow, quando em trânsito para o Brasil foi clara instrumentalização da chamada lei antiterrorismo do Reino Unido.
            Além do agrado feito à Superpotência, que fora informada pelos britânicos antes da efetivação da prisão, há vários aspectos que caracterizam o emprego abusivo da legislação: (a) o descabido recurso a esta lei, eis que no capítulo nada poderia ser imputado ao nacional brasileiro; (b) o viés intimidatório,  sublinhado pelas contínuas ameaças a que foi submetido David; (c) o tempo máximo utilizado, ao contrário das detenções baseadas neste recurso, que não costumam ir além de uma hora; (d) falta de qualquer aviso à chancelaria brasileira.
            Bem houve o Ministro brasileiro Antonio Patriota, que além de convocar o embaixador britânico em Brasília, protestou junto a seu homólogo inglês, William Hague.
            Como seria de esperar, a descabida ação – mais própria de  Estado policial – foi questionada no Parlamento e na imprensa, pelo cínico emprego de  instrumento com  escopo específico que, no caso, nada tem a ver com prevenção e/ou combate ao terrorismo.

 
Estripulias do dólar



             Depois do longo letargo, a economia estadunidense começa a crescer. Em breve a Federal Reserve deverá aumentar a taxa de juros – que, no momento, para facilitar a recuperação e o emprego, está próxima de zero. O capital internacional acompanha os primeiros sinais do despertar do dólar americano. Daí, a agitação nos mercados financeiros, inclusive os denominados emergentes.
             Com o redespertar do gigante, é de entender-se que os tempos hão de ser outros, em termos de atrações comparativas.  O Globo de hoje já nos proporciona uma lista da desvalorização das outras moedas em relação ao dólar.
             Não é necessária muita bagagem financeira para antecipar que nesse embate mais sofrem as divisas cujos sinais vitais apresentem pontos mais débeis. Infelizmente, por cortesia de D. Dilma, o Real já não parece mais aquele que encantava os mercados.
             Nesse contexto, teria sido talvez melhor que o Ministro Guido Mantega nas suas declarações à imprensa, ao bater o Real na paridade R$ 2,42 por US$ dólar,  tivesse ficado com a boca presa, sem dizer que não sabe onde isso vai parar.
             Em fim de contas, quem tem a ver mais diretamente com a cotação da moeda americana é o Banco Central que, junto com o Tesouro, tem gasto fortunas para tentar  segurar-lhe a cotação.              
            Se os irresponsáveis republicanos na Câmara de Representantes, quando da vindoura fixação do teto da dívida americana – no passado, uma situação burocrática, e hoje, instrumentalizada pelo GOP, produziu recentemente o rebaixamento do Tesouro americano por uma agência de classificação – tentarem forçar nova crise de fechamento do cofre, e da capacidade do Tesouro estadunidense de honrar os respectivos compromissos, essa gente poderá estar desfazendo o meritório trabalho do Presidente do Fed, Ben Bernanke.  A única esperança na matéria é que dê nessa turma uma espécie de estalo de Vieira, ao exagerarem na provocação (sem falar que ao pensarem prejudicar Obama e os democratas, estão na verdade dando um tiro no próprio pé), correm o risco de um castigo exemplar nas próximas eleições intermediárias.
 

 
Insanidade em fim de mandato    

 
               O Governador Sérgio Cabral, cuja popularidade está nos baixios, resolveu sancionar lei estadual que transforma  concessão pública – a licença para conduzir táxis – num bem mais do que vitalício dos motoristas de praça, eis que o privilégio passaria para os herdeiros respectivos.
               No passado distante, o sistema das Capitanias Hereditárias deu no que deu, e este despautério da vez deve ter vida curta, dado o manifesto abuso de desvirtuar uma autorização para dirigir veículo de aluguel em benefício vitalício.
               Cabral, que gozou de bondades petistas e peemedebistas, para não ser incluído nos investigados pela CPI do Cachoeira (que aliás terminou em pizza), já não mostrara muito bom senso ao associar-se à turma do lenço. Agora, em que teria dificuldade de eleger vereador, resolve firmar esse documento do contra-senso assemblear, com o que perde boa ocasião de mostrar que, no fim de contas, ainda tem algum juízo.    
                    

 
(Fontes: O Globo, Folha de S. Paulo )

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Dilma e a desordem na Economia

                                  
         Já ao cabo de seu terceiro ano de gestão, vemos com desconcerto as más notícias da economia brasileira. O desastrado intervencionismo da Presidenta se vai refletindo em toda parte, com as previsíveis consequências.
         Tome-se, por exemplo, o referido pelo artigo de Miriam Leitão sobre energia. Ao assumir, Dilma prometera mudar os erros do passado na falta de planejamento  que haviam levado ao apagão de 2001. Hoje, a energia eólica é a que mais cresce no Brasil, porque ocorreu o previsível. Com efeito, os investimentos no setor levaram ao barateamento dos custos, o que permitiu novos projetos. Entretanto, provoca estranheza a falta de linhas de transmissão, o que faz com que os parques eólicos produzam em vão...
         Há dois leilões previstos, mas foi feita uma discriminação. O primeiro, no dia 23, é apenas para a eólica, com preço máximo de R$ 117 o MWH , e só serão aceitos projetos perto das linhas de transmissão existentes, como se fosse das eólicas a culpa pelos projetos hoje parados da CHESF. Já no dia 28 haverá segundo leilão, aberto apenas para as pequenas centrais hidrelétricas, as térmicas e a biomassa. Aqui não há exigência de localização e o preço é bem mais salgado, de R$ 140 o MWH. Traduzindo em miúdos: o governo aceita comprar energia suja, como a do carvão, por preço maior do que quer dar pela energia limpa !
          O populismo, no entanto, com as suas ‘bondades’ ao consumidor, só faz subir o custo da energia ao consumidor residencial e industrial.  As distribuidoras  tiveram que reduzir a conta quando o preço estava maior. Solução: fazer pagar a conta pelo Tesouro, o que significa o aumento na dívida pública em dezessete bilhões.
           Não param aí as confusões. Resolução do Conselho Nacional de Política Energética determinou o rateio entre todas as geradoras do custo extra do uso das térmicas. Pagam assim as limpas pelas sujas! E há mais confusões do Ministério de Minas e Energia, com falha no planejamento da compatibilização dos sistemas de segurança entre geração e transmissão nas hidrelétricas do rio Madeira (Jirau e Santo Antônio). Se o impasse não for resolvido, o custo adicional mensal será de R$ 200 milhões.
           Por outro lado, como as coisas no varejo andam mal, no atacado os problemas se situam na crescente falta de transparência no Orçamento Geral da União. E pelas mesmas razões do descalabro fiscal na Argentina de Cristina Kirchner. Quem não tem muito de bom a mostrar,  procura disfarçar ou maquiar a realidade. É de recordar-se sempre neste aspecto os comunicados do Alto Comando da Wehrmacht, quando começou a longa derrocada do exército nazista na Rússia. A principal dificuldade com esse tratamento é o mesmo de tapar o sol com peneira.
           Resumindo, nas palavras de Miriam Leitão: O governo arrecada muito, investe pouco, eleva o gasto e escolhe mal onde investir.
           Por outro lado, há grande probabilidade de um déficit na balança comercial, o que se deve às intervenções governamentais na Petrobrás. De acordo com o Presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil, José Augusto de Castro, o ‘déficit no ano será culpa do Brasil’.  E explica: ‘É provocado pela queda na quantidade exportada de petróleo. A Petrobrás retardou a manutenção das plataformas, provocando queda na produção, o que afetou as exportações. (...)  Se a quantidade exportada fosse a mesma de 2012, teríamos superávit entre US$ 7 bilhões e US$ 10 bilhões’.
             Por causa das confusões de D. Dilma, a nossa única balança tradicionalmente superavitária – a comercial – terminará o ano com déficit. Isto é mau para a economia e as nossas contas externas, eis que, ao invés de dispormos de saldo neste balanço, teremos mais contas negativas, que se aditarão aos déficits em bens e serviços e, por conseguinte, no balanço de pagamentos.
            Como este último não pode terminar no vermelho,  ele só será reequilibrado, ou com empréstimos, ou com as nossas reservas. Nesse contexto, tenha-se presente, a despeito do triunfalismo de Lula e Dilma, as nossas reservas internacionais são de US$ 370 bilhões . Que maravilha, não lhes parece ?  Há, no entanto, um pequeno detalhe, em geral omitido: a dívida externa brasileira é de US$ 325 bilhões. O saldo real, portanto, no momento, é US$ 45 bilhões. Dessarte, todos os bilhões de déficit sairão desse saldo, que irá por conseguinte encolher...
 

 
(Fontes: O Globo, VEJA (Maílson da Nobrega) )

domingo, 18 de agosto de 2013

Colcha de Retalhos A 30

                                          

 O Problema Demográfico na Alemanha

 
          Não é a primeira vez que o Herald Tribune se ocupa da questão demográfica na Alemanha. Nem o envelhecimento da população constitui problema que afete unicamente àquele país. Mesmo  estados, antes com altas taxas de natalidade, sofrem na Europa a ameaça de um decréscimo, pela marcada tendência de os casais  restringir os filhos. Na Itália, por exemplo, país em que pela religião e  falta de controle natal não existia no passado outra saída que a emigração. Desde o final do século passado se assinala a escolha de atrasar a vinda da prole, que muita vez se cinge a  apenas um filho, programado para o fim da idade dos trinta.
          A redução demográfica não paira somente na Europa Ocidental. A própria Rússia enfrenta esse desafio. Mais se analise a questão, e mais se verificará que o controle da natalidade, menos do que problema, é consequência de maiores informações de parte do casal e, em particular, da mulher. Esse fenômeno parece ir de mãos dadas com a modernidade e o chamado progresso. No Brasil, nas regiões mais adiantadas, os censos do IBGE vem demonstrando essa tendência, que tem muito a ver com a maior informação e os encargos havidos com a descendência.
           Sem embargo, o panorama demográfico alemão se afigura muito mais sério. Entre os recenseamentos de 2004 (82,5 milhões) e 2011 (81 milhões), a RFA perdeu um milhão e meio de habitantes. Por outro lado, a densidade demográfica varia bastante entre a parte ocidental e aquela oriental, menos desenvolvida, e que diz respeito aos novos territórios adquiridos com o desaparecimento da República Democrática Alemã (DDR),  após a reunificação. Muitos dos mais jovens migraram para as oportunidades do oeste (com 30% de densidade demográfica), o que explica a menor densidade (20%), da antiga zona do leste.
          Com o encolhimento da mão de obra, os ‘remédios’ são a elevação da idade de aposentadoria para 67 anos, a par da maior longevidade da parte economicamente ativa da população. Por outro lado, as mães que trabalham são ‘empurradas’ para o subemprego,  de 17 horas por semana, com baixo pagamento. Se ganham cerca de 600 dólares por mês, estão isentas de imposto. Muitas empresas julgam mais rentável ter um número maior de mulheres com os mini-empregos, pela economia social da isenção de tributos.
         A queda demográfica pode ser compensada através do fator migratório. No entanto, esse recurso é uma faca de dois gumes, pois ao ‘resolver’ a questão da mão de obra, poderá estar criando outros problemas, se houver na prática distinção de categorias sociais. Tais problemas de assimilação ou de convivência social, são fenômenos comuns na Europa, com os turcos na Alemanha, os italianos na Suiça, e, notadamente, a comunidade muçulmana, de origem magrebina, na França, com as consequências de adaptação e absorção conhecidas. Essas questões tendem a variar nesses países, dependendo de vários fatores, entre os quais  a maior ou menor abertura nacional, as diferenças culturais e as perspectivas de ascensão social.
         São os velhos problemas dos limes romanos,  máxime na época da decadência do império, com o ingresso dos antigos bárbaros, nas faixas de fronteira, seja de forma clandestina ou não, mas com a tendência à ocupação progressiva. Como nos ensina Arnold J. Toynbee,  na sua obra magistral,  “Um Estudo de História”, as consequências de tal ‘invasão’ costumam ser inexoráveis, com a formação do chamado ‘proletariado interno’ (que não deve ser confundido com o conceito marxista).
 

 
Negociações de paz entre Israel e Autoridade Palestina

 
       Dada a sua força política nos Estados Unidos, o governo israelense não tem demonstrado, através das diversas Administrações americanas, uma real abertura para a negociação de um modus vivendi com a Autoridade Palestina.
       Depois do falso avanço dos Acordos de Oslo, com direito a cerimônia no jardim da Casa Branca e prêmios Nobel, a questão palestina passou por várias crises (gabinete Ariel Sharon e a construção do muro, entre outras), mas o avanço nos assentamentos ilegais dos chamados colonos continuou.
       Talvez uma das razões pelas quais o premier Benjamin Netanyahu não haja cooperado muito com os débeis movimentos de Barack Obama em seu primeiro mandato tenha sido a sua aposta na vitória do bom amigo republicano Mitt Romney.
       As coisas não saíram como Bibi Netanyahu esperava, mas dadas as peculiaridades presentes do relacionamento clientelar de Israel com o estado tutelar, não será problema que faça o primeiro ministro e o seu gabinete perderem o sono.
       Com a assunção do Departamento de Estado por John Kerry, uma de suas missões está na tentativa de encontrar uma saída para a questão. Talvez ajude às negociações o pouco de otimismo que elas possam gerar, atendido o longo caminho do diferendo, e a aparente incapacidade das Partes, com Tel-Aviv à frente, de negociar acordos jurídicos que embasem melhores condições de relação entre os povos palestino (representado por Mahmoud Abbas) e israelense.
       Bibi Netanyahu nunca se assinalou por qualquer progresso substancial nessa interação  - o próprio Ehud Olmert fizera proposta a Abbas de um acordo com fumaças de definitivo entre Israel e Palestina, mas este último, por motivos de ambiguidade na proposta, teve de refutá-la.
       Por isso, como se poderá encarar a rodada Kerry dessas intermináveis negociações? Israel demonstrou sinais de boa vontade ao anunciar a liberação de 26 prisioneiros palestinos (inculpados de assassínio e outros crimes violentos), ao ensejo da próxima abertura de enésima rodada de tratativas entre israelenses e palestinos.
       Há duas grandes questões no relacionamento entre essas duas comunidades: a dinâmica dos assentamentos ilegais dos colonos, que não dá sinal de arrefecimento; e o crescimento demográfico do segmento árabe nos cidadãos do Estado de Israel, nos seus limites reconhecidos internacionalmente.
       Quanto à primeira, a sua constância adquire aspectos que já vão além da simples provocação. Pois não é que, ao se anunciarem as ditas negociações “de paz”, conduzidas pelo novel Secretário de Estado, foram divulgadas pelo Estado israelense ofertas de concorrência para a construção de mais do que mil unidades habitacionais tanto na Jerusalem oriental, quanto em ulteriores assentamentos na margem ocidental.
        A pergunta a fazer-se acerca deste “embaraçante” começo de novas negociações – na linguagem de editorial do New York Times- seria a seguinte: que significado tem a continuação do processo de paz, se a invasão incessante e, na aparência, incontrolável do território palestino continua a pleno vapor, como se a única verdade nisso tudo seria a continuada bantustanização no minguante espaço disponibilizado pelo Knesset para a comunidade palestina ? Que paz é esta que se caracteriza pelo esbulho territorial e a tentativa de negação de duas comunidades em que a igualdade de direitos não seja apenas uma miragem ?
 

 
Entrevista  de  Marina

 
        A candidata Marina Silva, com 26% das preferências na última pesquisa Datafolha – a quem colunista chegou a escrever que crescia “por inércia” – disse em entrevista à Folha que os protestos violentos “extrapolam” os limites da desobediência civil aceitável. Nesse contexto, quanto ao ato violento no Itamaraty de integrante da Executiva da Rede, ela afirmou:  “Ele próprio reconhece que errou. Sei que ele errou em todos os aspectos (...) não é com uma atitude violenta que se vai resolver os problemas.”
       Quanto ao seu alegado despreparo para administrar a economia, disse: “ a população tem direito de saber mais das pessoas que ela não conhece. Imagino que o sociólogo FHC e o operário Lula também tenham suscitado algumas dúvidas.”
       Perguntada das implicações de aproximação com André Lara Resende, se não temeria ser associada ao governo FHC: “ Se Lula fosse se preocupar em ter ouvido uma série de pessoas que já deram contribuição em vários governos, ele não seria hoje o grande admirador do Delfim (Netto) que ele é.”
       Quanto a uma cláusula pétrea para a autonomia do BC, Marina disse: “Autonomia do BC é necessária, fundamental. Eu não acho que devemos é entrar no caminho da institucionalização dessa economia”.
       E quanto às reformas (constitucionais) ela disse: “O Brasil precisa encarar as grandes reformas: política, da Previdência, tributária.”
       A verde Marina tem assessores econômicos de peso: Eduardo Giannetti (O crescimento do PIB virou um fetiche(...) Ele é um indicador limitado para medir a qualidade de vida); Ricardo Abramovay (O que precisamos fazer para melhorar a infraestrutura, a educação e a saúde); Eliana Cardoso (É pessoa muito consistente e inteligente. Carrega a bandeira da política limpa de corrupção); e Paulo Sandroni (Os prefeitos precisam conseguir recursos para cumprir suas promessas).

 

(Fontes:  International Herald Tribune; The New York Review; Folha de S. Paulo )

sábado, 17 de agosto de 2013

Amor de Perdição

                                               
        O filme de Bruno Barreto trata com delicadeza da paixão entre a arquiteta/paisagista Lota de Macedo Soares (Gloria Pires) e a poeta Elizabeth Bishop (Miranda Otto).  A delicadeza e o cuidado são características não só do tema  de Flores Raras, mas de sua inteira composição.
       Todos os demais personagens estão ali para compor o mural. Até a própria Mary (Tracy Middeldorf), a companheira de Lota, diante da qual subitamente um valor mais alto, na escala do amor, se alevanta, é um acessório do destino. A sua presença alia a aparente resignação das boas maneiras com os véus da ambiguidade, na perene ronda das relações truncadas.
       O mesmo esmero comparece na reconstituição de época. Na viagem que pretendia ser breve aos mares do sul, e aos sortilégios da ambiência quase pós-colonial para a poeta, ainda vulnerável às críticas do colega Robert Lowell (Treat Williams), o espectador mergulha no tempo dos navios da McComarck. Assim, a linha do Equador não é para Elizabeth uma ficção cartográfica. Discreta sineta lhe anuncia a passagem, quiçá com todos os mistérios de que Hollywood dava visão rápida e superficial.
       Como outras grandes relações, o conhecimento e a imersão em realidade tropical, luxuriante mas não caricata, condiciona os tropeços iniciais, que decorrem da abismal diferença entre as visões da emproada  e, sem embargo, defensiva americana, e a transbordante naturalidade de arquiteta e paisagista da elite de então.
       O sítio de Samambaia – que a câmera nos apresenta com o verde insinuante e mutante do trópico, matizado pelo traço caprichoso dos jardins, e a casa saída das pranchetas de Lota – é um quadro onde a interação da quase sinfonia do verde nos recorda o mundo protegido, em que natureza e privilégio ainda se dão as mãos.
      Caída quase de paraquedas em cenário onde o pitoresco parece enlaçar-se no  quase-colonial, Elizabeth dissimula sem o saber a sua insegurança diante de um entorno invasivo, com a rudeza da americana, que pensa estar cercada de gente sem cultura, com as usuais limitações dos calorentos trópicos.
      Não tardará, porém, o aprendizado aculturante da poeta. Amigo de Lota, e despojado pelo roteiro dos espinhos do polemista agressivo surge Carlos Lacerda (Marcello Airoldi), que chega a completar os versos finais de poema que Elizabeth, quiçá por menosprezar-lhe o conhecimento, se recusara a dizer.
       Em outro jantar, Elizabeth constrange o embaixador americano e os convivas brasileiros com a censura pela passiva aceitação do golpe militar contra presidente eleito por um povo que vai jogar futebol no dia seguinte à perda da liberdade.
       Através da interação com Lota a americana vê uma inócua passagem de uns poucos dias ou semanas por terras tão ao sul do colosso norte-americano converter-se em projeto existencial de dezessete anos. E apesar dos problemas com a bebida – de que Lota partilha – a sua experiência a leva para as alturas do Prêmio Pulitzer.
        Lota convencerá o recém-eleito governador da Guanabara a transformar o areal do aterro do Flamengo em grande parque arborizado e iluminado pela lua dos postes de cinquenta metros.
        Mas a mão cruel da deusa Fortuna prepara a peripeteia da tragédia. Assim, irá transformar a fraca Elizabeth em forte, com o movimento inverso na antes afirmativa Lota. Nesse caso, a ironia na reversão dos papéis não será mero jogo de salão, pois carrega no bojo a vingança dos deuses, soprada por quem trará as duas para baixo, sem outra paga que a de desfazer o que nunca terá de volta.
       No filme, cabe especial menção da soberba interpretação dada pela australiana Miranda Otto ao complexo personagem da poeta Elizabeth Bishop.
       Bruno Barreto com “Flores Raras” insere na sua filmografia mais um título de relevo.

Pif Paf (VII)

                                               
Jacques Vergès

        O advogado Jacques Vergès, que morreu aos 88 anos de ataque cardíaco, morava em um hotel[1] parisiense, em que residira Voltaire. Dado o caráter polêmico das causas defendidas pelo autor de ‘Candide’, o obituarista sucumbiu à tentação de comparar o advogado com o escritor do século XVIII.
        Vergès – que fumava, nos tempos que correm, enormes charutos – como advogado,  pelos clientes que assumia, terá alguma dificuldade – se o dito aplicado aos causídicos procede – de bater à porta de São Pedro.
         Para que se tenha idéia de quem defendeu, eis lista sumária: Klaus Barbie, o criminoso de guerra nazista, também conhecido pela alcunha de ‘Açougueiro de Lyon”; o terrorista Carlos o Chacal; e o chefe de estado do Cambódia no tempo do Khmer Vermelho, Khieu Samphan. Vergès teria, igualmente, tentado defender Saddam Hussein e Slobodan Milosevich.
        Vergès despontou para a notoriedade com as suas defesas de argelinos acusados de atentados à bomba, nos anos cinquenta, durante a guerra de liberação. Não contestava a veracidade das provas apresentadas pelos promotores, mas lhes contrapunha a circunstância de os acusados serem combatentes em guerra justa de liberação.
        No julgamento de Klaus Barbie, em 1987, Vergès ignorou as acusações e, ao invés, atacou Israel, França e outros países por ‘crimes contra a Humanidade’, que a seu ver eram mais sérios dos que atribuídos a seu cliente da vez. Na época, foi estigmatizado por trivializar o genocídio na sua defesa desse monstro. Jacques Vergès e seu irmão gêmeo Paul nasceram a 5 de março de 1925, no Sião (hoje Tailândia) de mãe indochinesa (morta em 1928) e de pai francês, o diplomata Raymond Vergès, que os criou na Ilha da Reunião, no oceano Índico, em departamento que até hoje pertence à França.

 
Violência no Egito  

 
         A resistência da Fraternidade Muçulmana contra o golpe militar do general el-Sisi terá surpreendido  aqueles que a princípio festejaram ruidosamente a queda do presidente Mohamed Morsi. Depois de sua longa estada na clandestinidade, a associação dos Irmãos Islâmicos está mostrando uma articulação e determinação que decerto não era esperada pelo Exército.
         A derrubada de Morsi fora causada pela sua incompetência administrativa e o fato de que os egípcios não-inscritos na Fraternidade não se sentiam representados pelo governo. Havia a percepção de que o presidente tinha presentes os interesses da Fraternidade Muçulmana e não os da população em geral.
          Diante da inesperada firmeza dos irmãos muçulmanos – que continuam a protestar nas ruas, a despeito dos massacres diários (o número de mortos dentre eles ascende a mais de seiscentos) – esse dado, que não terá sido computado por el-Sisi, pode constituir fator que venha a representar uma enorme pedra no caminho das ambições castrenses.
          Os aliados liberais do golpe poderão seguir o exemplo do ex-chefe da AIEA, El-Baradej, que renunciou prontamente ao posto secundário que lhe fora destinado (diante do veto salafista a que encabeçasse o gabinete interino).
          O potencial isolamento do Exército – se de algo servem as censuras dos Estados Unidos (que ainda evitam, por considerações táticas, de dar  nome apropriado ao movimento do general el-Sisi) e da União Europeia – não excluirá um possível repensamento do comandante das forças armadas.
           Por enquanto, a Irmandade parte para as manifestações – por letais que sejam as suas consequências – mas institui um virtual toque de recolher, ao recomendar a seus membros que as evitem durante a noite.
           Ainda não há qualquer indício de parte do alto comando militar de uma negociação para valer. Por sua vez, a Fraternidade ainda não empolgou a chamada ‘saída argelina’, que precipitou naquele país magrebino um longo período revolucionário (com muito terrorismo, inúmeros estrangeiros e argelinos sacrificados, para findar como começara, com o exército mantendo o controle do país).
            Dada a sua longa permanência na clandestinidade, os Irmãos Muçulmanos têm sobejo conhecimento das implicações envolvidas, dos sacrifícios e das perspectivas de resistência armada contra a instituição que mantém a suserania do país desde a queda e abdicação do Rei Faruk, a 26 de julho de l952.

 

( Fontes:  International Herald Tribune;  Folha de S. Paulo )   



[1] O hotel particulier não deve ser confundido com hotel, na acepção da língua portuguesa. A palavra em francês designa uma morada que não costuma ser modesta.