sexta-feira, 29 de março de 2019

A May não consegue fazer aprovar o Brexit


                 

      Segundo o hoje meio esquecido Ingenieros os medíocres podem ter valor. Com o respeito que se deve a esse mestre, a despeito de debater-se nos sinuosos abraços do olvido, nem sempre esse dito do mestre platino logra passar pelas forcas caudinas do tempo.
         Não sei a que forças o empenho de Theresa May, essa estranha figura dentre os próceres que se aninham na galeria reservada aos primeiros ministros,  terá servido,  eis que pelo visto, malgrado os ingentes esforços dispendidos e as proteções superiores, o seu caminho parece cerceado pelas anônimas entidades que se desencadeiam impiedosas contra os medíocres.
           Ela tudo promete, até mesmo renunciar ao posto a que muitos se empenham com todas as próprias forças, mas debalde.

         Malgrado as proteções que a cercam, pressurosas, o malogro acompanhará insistente a sua obstinada empresa. Ela talvez venha carregada do dúbio selo dos acordos das camarilhas, e por isso, inda que prometa o que não devera, o descrédito que a cerca lhe deixa um estranho espaço vazio à frente, que escarnece de suas promessas, eis que elas não carregam aquele mágico timbre que os verdadeiros líderes costumam levar consigo.
              Pois os membros do Parlamento não apóiam as suas propostas, não importa o traje e a procedência que tenham. Há talvez uma marca que as distinga, e a elas estará reservada a sombra de algum estigma.
              Não basta ser protegida dos maiores, pois a protagonista também sói trazer estampados, seja na biografia, seja no imediato caminho pregresso as estranhas marcas da liderança. Todos as reconhecem, inda que não se mostrem aos tolos e oportunistas.
               E esta parece ser a sina da Theresa May.  

( Fonte: The Independent )

quinta-feira, 28 de março de 2019

O pós-Theresa May


                                             

        Theresa May será em breve uma lembrança, em termos oficiais. Sob o reino da confusão, ela parece realmente de saída, embora a sua queda não terá muito provavelmente qualquer efeito em uma eventual mudança dos termos em que acontecerá o Brexit.
          Até o presente, a despeito de invocado por muitos deputados, não deverá haver um ulterior referendo, no que tange a que o Povo possa escolher entre os laços com a Comunidade Europeia ou o despojado destino ditado por eventual Brexit. Parece condizente com a mediocridade doravante votada à pérfida Álbion, que perdurem as dúvidas quanto ao peso nessa decisão seja do trapalhão Cameron, ou da perplexa May.
          Além dos patéticos avisos do DUP, o pequeno partido norte-irlandês que tornara possível  a permanência da May à testa do gabinete, depois de sua jogada mal-réussie  de tentar obter maioria própria, agora só se fala da lista de candidatos no Partido Conservador para sentar-se na cadeira de Mrs. May.

           Se cotejada com o seu antecessor David Cameron, será sempre difícil que se chegue a um acordo nos anais históricos, sobre qual dos dois repontará como quem foi o causador da eventual decadência do Reino Unido, após a sua ruptura com a Comunidade Europeia.
            Diante das confusões criadas por Theresa May e todo o longo período em que a incerteza constituíu a regra para os negócios com o Continente - ou talvez de forma mais precisa para a sua redução - pode ser até que o irrequieto Cameron consiga livrar-se do catastrófico erro político em termos de autoria em  haver provocado o início do processo da decadência inglesa, e que o rosto da May irrompa nos livros futuros como a principal responsável. De qualquer forma, será luta renhida, que a tornada fraca Inglaterra entre essas duas patéticas figuras há de balançar.

          No topo das apostas surge um dos gêmeos Johnson, Boris. Se isto não garante quanto à qualidade do novo gabinete, o mais provável é que com a tendência dos tories a favor de cortar os laços com Bruxelas, continuem as confusões da saída dura que a May não pôde ajeitar.
               Mas afinal, excluído o seu entendimento com Donald Trump, com as mãozinhas dadas no seu primeiro encontro internacional, o que mais realmente terá aprontado a ex-Secretária do Interior, durante a sua longa permanência como Primeira Ministra sombra, excluídas as brumas que cercam os penhascos de Devon ?

( Fonte: The Independent )

Ameaça de Trump a Moscou


                   
       O presidente dos Estados Unidos alertou a Rússia  quanto à conveniência de retirar equipamentos e militares, que chegaram à Venezuela neste fim de semana.
            Como é seu hábito, Trump afirmou que "todas as opções estão abertas" para que isto aconteça. Nesse sentido, recorreu à ameaça não tão velada de que os EUA podem partir para uma intervenção militar contra o regime de Maduro.
            Esta fala do presidente estadunidense ocorreu no Salão Oval da Casa Branca, ao receber Fabiana Rosales, esposa de Juan Guaidó. O presidente interino da Venezuela já foi reconhecido como tal por mais de cinquenta países, entre eles o Brasil e os Estados Unidos.
           Na Casa Branca, Fabiana denunciou perseguições do regime chavista a parentes de Guaidó. Ela disse, a propósito,  que o serviço secreto venezuelano tem ameaçado o opositor. "Eu temo pela vida de meu marido", afirmou a esposa de Guaidó na Casa Branca. Mais tarde, Fabiana foi igualmente recebida pelo vice-presidente Mike Pence.
           Como se sabe, a Rússia enviara no sábado à Venezuela dois aviões com militares russos e equipamentos, que acompanharam o general diretor de mobilização das Forças Armadas russas. Diante da possibilidade de um reforço das forças de Maduro, o governo russo desmentiu afirmando que a movimentação é parte da cooperação rotineira entre os dois países.
            Para Benjamin Gedan, atual integrante do programa da América Latina do Wilson Center, as ameaças militares de Trump abririam a porta para "provocações" dos aliados de Maduro. Nesse contexto, aduziu Gedan : "É possível que essas ameaças sejam para aterrorizar os militares venezuelanos e provocar uma revolta. Enquanto isso, sua retórica afasta os aliados latino-americanos e ajuda a justificar ações provocadoras dos aliados de Maduro em Moscou".

( Fonte: O Estado de S. Paulo )

Brasil na OTAN eleva tensão...


                    
         A Federação Russa, de Vladimir Putin, criticou  o eventual ingresso  do Brasil na Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN .  Essa insólita entrada nossa  na referida OTAN fora defendida por Donald Trump, na recente visita que lhe fez o presidente Jair Bolsonaro.
             Para o Kremlin, a  Aliança Militar em tela não prevê o ingresso de latino-americanos e que, por outro lado, essa posição de Trump não favoreceria a distensão.

             Em evento recente, o vice-chanceler russo, Alexander Grushko, insinuou que Trump estava agindo para conquistar vantagens "unilaterais", no intento de remodular um mundo "multilateral". "Esse tipo de declaração  não é propícia para desarmar um ambiente de confronto", afirmou Grushko. Consoante Moscou, a sugestão de Trump evidencia  que segue viva a política encaminhada para a formação de uma ordem mundial similar à do século passado.
                A possibilidade de que o Brasil se torne membro pleno da aliança militar foi discutida por Trump  no almoço oferecido na Casa Branca ao presidente Jair Bolsonaro.
                  O ingresso na OTAN  como membro pleno acarretaria altos custos para o Brasil, que precisaria dispender pelo menos 2% do PIB em defesa.

                  Em Washington nesta semana, o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, falou sobre a designação como aliado extra-OTAN com o assessor de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton. Ele afirmou que a novidade pode representar  uma "facilidade burocrática".
                   Vendo dessa forma parece que o Brasil vai ser privilegiado em relação a isso, não é.  Membros não-OTAN existem vários países.  O Brasil será mais um parceiro, para parceiro preferencial não-OTAN. Isso é um alinhamento que está sendo feito, mas é uma regulamentação de praxe, mas que nos envaidece muito", afirmou o General.

( Fonte: O Estado de S. Paulo )

Questão de Responsabilidade


                                   

        É difícil de entender os ires e vires da polêmica sobre a Previdência entre os Poderes da República.
          Por onde se examinem as atitudes dos Poderes da República, se tem a impressão de que o desafio da Previdência não está sendo encarado com a seriedade que a questão faz por merecer.
           De longe, um observador teria uma visão de confronto de egos, que parecem ignorar a questão maior de que deveriam tratar, e lançar-se, ao invés, em inúteis e contraproducentes polêmicas, que a nada levam, a par de tornar mais difícil seja o exame do problema, seja a necessidade de resolvê-lo de modo a que venha a mostrar para as gerações futuras que os atuais poderes têm plena noção do desafio que lhes confronta, e da necessidade de encontrarem uma solução de consenso.
            Por onde se encare tal questão, tem-se a impressão de o que mais importante estaria em jogar pedras e outros obstáculos, de o que superar o nervosismo reinante, e a consequente insegurança, e criar condições para o exame e o devido encaminhamento do problema, que carece de ser resolvido, de forma abrangente e equilibrada, e, por conseguinte, em termos satisfatórios para a Sociedade.
             A república romana criara para encaminhar a solução de grandes problemas a figura do ditador - que nada tem a ver com a versão do termo na atualidade - eis que se tratava da escolha, por um período determinado, de uma grande personalidade que, pelas suas próprias qualidades, estivesse em condições de encaminhar e criar soluções para uma crise ou uma determinada situação que devesse ser atendida com a necessária urgência.
              Dentro do vezo atual de embaralhar e confundir, ao invés de encaminhar a questão - ou o desafio, em termos toynbeeanos - o que se impõe no presente momento é que as partes se compenetrem e, por conseguinte, se convençam do imperativo de um metafórico geral desarmamento.
               Dessarte, se pediria ao Presidente da república e ao Presidente da Câmara de Deputados, que desarmem os espíritos respectivos, e que, ao conscientizar-se da relevância da questão, procurem contribuir para a atmosfera conducente a criar condições para o exame da matéria, o seu devido encaminhamento e a consequente solução.
                Em outras palavras, ao invés de farpas, se criem condições para uma atmosfera compatível com o exame das questões e sua respectiva solução.
               Se me permitem uma linguagem toynbeeana,  os grandes desafios só são enfrentados, equacionados e, por fim, resolvidos, se a sociedade confrontada mostrar ter condições de resolver o problema de  forma duradoura e equânime. Aqui não se trata de imposição, mas sim de um debate amplo e respeitoso, em que as Partes confrontadas mostram estar à altura do desafio e, por conseguinte, de encontrar meios e modos de resolver o problema.
                  Como se trata de problema que confronta a sociedade em geral, a seriedade e o empenho de resolvê-lo deve ser acompanhado do respeito pela contraparte, o que é uma pré-condição que se aplica a todas as Partes que participam de sua discussão e encaminhamento desse desafio (para utilizar um termo empregado por A.J. Toynbee, que mesmo nos dias que correm conserva toda a relevância e pertinência).
                   Recomenda-se,  portanto,  às  partes envolvidas o desarmamento dos espíritos. Provocações e farpas não são os melhores instrumentos para colocar uma questão em julgamento. Assim, esse desarmamento se aplica a todas as Partes e constitui na verdade o ambiente ideal para a discussão ampla e bem-intencionada do problema e de suas soluções.
                    Ao Brasil interessa que se crie a ambiência apropriada e o consequente desarmamento dos ânimos para que a nossa sociedade encontre os meios necessários - sempre através do diálogo bem-intencionado - para equacionar os diversos problemas e eventuais desafios, como v.g. a questão da Previdência. Temos de ter presente o que interessa à sociedade como um todo, encarando os diversos problemas como desafios a serem resolvidos, com ânimos desarmados  e o consequente propósito abrangente de contribuir para as soluções respectivas.
                       Nesses termos, o respeito às instituições deve sempre prevalecer. Não aproveita a ninguém que, v.g., o Poder Legislativo recorra às chamadas "maldades" , ou às pautas-bomba, e sim legisle guiado pelos melhores princípios para que o bem-comum seja implementado. O respeito é uma condição sine qua non que se aplica a todas as Partes, e sob a óbvia premissa que o bem geral da comunidade deva ser atingido e implementado.
                        Nenhuma autoridade está excluída de tal imperativo, a começar pelo Excelentíssimo Senhor Presidente da República, a quem incumbe a criação das melhores condições para a nossa República e o Povo brasileiro em geral. A Sua Excelência e às demais autoridades. tanto do Poder Executivo, quanto do Legislativo e do Judiciário, é de esperar-se que a sua atuação se paute pelo respeito aos demais Poderes, e, por conseguinte, ao Povo Brasileiro que - e não por acaso - está no Preambulo da Constituição da República Federativa do Brasil, de cinco de outubro de 1988, assinada que foi por Ulysses Guimarães, enquanto presidente da Assembléia Nacional Constituinte.             
              
(Fontes:  Constituição da República Federativa do Brasil (1988)
Arnold J. Toynbee,  A Study of History )

quarta-feira, 27 de março de 2019

Outro Apagão na Venezuela: um desastre social


                    

        Para mascarar o novo apagão, ocorrido desde o dia 25 de março, que afeta a 21 dos 23 estados, Nicolás Maduro desfia a sua ladaínha de mentiras, e decreta feriado nacional. Sem pejar-se das lorotas, o ditador denunciou "incêndio de grande magnitude", provocado pelos sólitos "terroristas", o que na sua tortuosa fabulação "está prolongando  o blecaute",   e, por conseguinte,  paralisando o país desde a segunda-feira.
            Tenha-se presente que a Venezuela se recuperava do pior apagão de sua história, que começara no dia 7 e durara uma semana, mas voltou a ficar às escuras, com as ruas desertas e o comércio cerrado. 

            Além da capital Caracas, o apagão afeta 21 dos 23 estados, segundo as redes sociais. O blecaute começou desde a segunda, dia 25 (e afetou, como já foi referido, a Roraima, que ainda depende da energia venezuelana). Iniciado às 13:22hs desta segunda, afetou o fornecimento de água, as redes telefônicas, a internet e o sistema bancário eletrônico, que por causa da hiperinflação se afigura vital para as conexões bancárias e os pagamentos.
                Em discurso na Assembleia Nacional, em que a Oposição é maioria, o presidente-interino da Venezuela, Juan Guaidó, desmentiu a versão oficial e referiu que houve sobrecarga no sistema das subestações. ""Como poderia ser uma sabotagem, se eles enviaram militares para proteger as instalações elétricas?", assinalou Guaidó.

                Guaidó prepara uma mobilização nacional e, inclusive, marcha até o Palácio de Miraflores (residência presidencial), em data ainda a ser definida. Fala-se inclusive - mas não há confirmação da fonte - que não se descartaria a possibilidade de "pedir-se ao Legislativo  que venha a autorizar uma intervenção militar estrangeira."
                 Dadas as implicações envolvidas e a gravidade da situação, não há confirmação de que tal esteja  sendo considerado. Diante da situação do governo e das caóticas condições prevalentes na Venezuela, a paciência e a resistência do Povo estão sendo duramente testadas. Nessas condições, a ordem pública tende a tornar-se para a assediada população uma farsa, e não se poderia, por conseguinte, excluir desde a cínica instrumentalização pelo desmoralizado governo chavista dessa convivência com o caos até outros desenvolvimentos imprevisíveis.

( Fonte: O Estado de S. Paulo )

A Lava-Jato enfraquecida ?


                               
       O que significou a derrubada pelo desembargador Ivan Athié do TRF-2 das prisões do ex-presidente Michel Temer e dos demais detidos na questão da lei dos Portos? Para o Estadão, e o meio jurídico, a Lava-Jato  teria saído enfraquecida.
        Dentro desse raciocínio, para o meio jurídico, o despacho de Athié teria representado um revés nas pretensões de Bretas para assumir protagonismo na Lava-Jato. 

         Salvo erro ou omissão, a comparação com o juiz Moro semelha incontornável:  enquanto esteve no comando da operação, em Curitiba, Sérgio Moro jamais teve que lidar com situação parecida.

           O que, de certa forma, representaria uma lição para o futuro.

( Fonte: O Estado de S. Paulo )