quinta-feira, 29 de março de 2018

Atlanta vira refém de ciberataque


                                   
          Essa notícia tem duas caras: a importância da internet continua a crescer, mas também ipso facto infelizmente aumenta o poder dos hackers em tornar qualquer cidade ou grupo de empresas potencial refém de hackers.
           Atlanta, a nona região metropolitana mais populosa dos EUA, que tem o aeroporto mais movimentado do país, está parcialmente paralisada desde a quinta-feira dia 22 de março, em razão de um ciberataque.
            Assim, os computadores e servidores municipais foram vítimas de um ransomware que deixou os oito mil funcionários da prefeitura sem e-mail, os tribunais inoperantes e a população sem poder pagar contas.
            O ransomware é um sequestro. O crime ocorre quando hackers invadem os sistemas e criptografam os dados.  Em seguida, eles exigem o pagamento de resgate para restabelecer o acesso aos usuários. Para evitar que sejam identificados, os bandidos pedem que o pagamento seja feito em criptomoeda, que é muito difícil de rastrear.
             Em Atlanta, os criminosos pedem US$ 51 mil em bitcoins para desbloquear os computadores do município. A prefeita Keisha Lance Bottoms reclamou que a cidade está "refém" de criminosos, após uma semana de serviços indisponíveis: assim, os cidadãos não podem pagar as contas de luz,  multas de trânsito, o Wi-Fi do aeroporto foi suspenso, a polícia está registrando boletins de ocorrência à caneta e os tribunais não emitem mais nenhum tipo de decisão.
            Hackers. Com a ajuda federal, investigadores responsabilizaram um grupo de hackers conhecido como SamSam, que já faturou US$ 1 milhão em 30 ações do tipo apenas este ano. Os alvos são hospitais, prefeituras, departamentos de polícia e universidades, vítimas cujo custo de US$ 50 mil de resgate é ínfimo perto do prejuízo de ficar sem sistema por uma semana. Ninguém sabe, no entanto, de onde são os hackers ou quantos são.
      

( Fonte:  O Estado de S. Paulo )

Equador corta internet de Assange


                                   e

            O título também poderia ser "Equador corta a razão existencial de Assange". Porque, para quem tem algum conhecimento de como Julian Assange vive no estreito espaço que lhe é cedido pela chancelaria equatoriana da missão em Londres, há de intuir  o que esse corte da internet possa significar realmente para o   peculiar asilado.
            A situação de Assange é muito estranha. Como asilado diplomático, ele dispunha de situação sui generis, porque utilizava o próprio refúgio do asilo diplomático para um fim específico, vale dizer um blog político, o WikiLeaks que, como o próprio nome indica, trata de vazamentos políticos.
            Assange tem pago preço alto por esse refúgio que, em geral, não se estende por demasiado tempo, de que é conhecida exceção o caso de Haya de la Torre.
             De certa forma, Assange tinha uma espécie de acordo verbal - é uma suposição minha - com o antigo presidente do Equador, Rafael Correa que lhe abriu a acanhada chancelaria (o que designa não a residência da missão, mas a parte essencialmente política da embaixada equatoriana junto ao Governo inglês), de forma a que residisse por tempo indeterminado em dependência dessa chancelaria, o que equivale a um abrigo diplomático, ou mesmo asilo diplomático, sui generis.
               Para que se entenda melhor esse affaire célèbre (caso célebre), tentarei dele fazer um breve histórico. Afim de escapar da  extradição  para a Suécia (onde fora indiciado por estupro),  Assange obteve em 2012 do presidente Rafael Correa, que é de esquerda e, portanto, com posição crítica junto aos Estados Unidos, esse especial asilo em Londres.  Enquanto Correa foi presidente, Assange dispunha de uma espécie de carta branca, embora certas características colocadas pelas limitações do refúgio exigiam sacrifício pessoal de Assange (o fato, v.g., de não poder servir-se de um dentista, por óbvia falta do equipamento necessário, não passa tantos anos sem provocar danos dentários).
                 Com a mudança de governo no Equador, apesar de que o sucessor haja sido indicado por Correa, iria, pela natureza humana, alterar o ménage para Assange. O atual presidente Lenine Moreno, depois de breve período de entendimento com o antecessor,  tornou-se adversário  político de Rafael Correa, o que iria também complicar a vida do asilado Assange.
                   No final de 2017, Assange assinou um compromisso por escrito que assumiu com o governo equatoriano de não emitir mensagens que pudessem representar ingerência  em relação a outros estados. Não levou muito tempo para que Assange descumprisse o tal compromisso, o que teria feito ao criticar nesta segunda-feira, pelo Twitter, a expulsão coordenada de diplomatas russos por países ocidentais.
                       A situação de Julian Assange ficou complicada pela própria independência do site WikiLeaks, embora essa alegada independência esteja ultimamente muito impregnada das cores da Federação Russa de Putin. Na última eleição americana, a intervenção do WikiLeaks teve uma tournure bastante pró-Rússia e anti-Hillary, então candidata do Partido Democrata. Esse viés pró-Rússia está deveras muito presente no site de Assange.
                        Assange, de resto, se acredita perseguido pelos Estados Unidos. Dessarte, a acusação de crimes sexuais na Suécia seria apenas um pretexto, ao ver de Assange, para extraditá-lo para os Estados Unidos.
                         E, com efeito, há certos desenvolvimentos estranhos: como já assinalei, o asilo em Londres se deve à tentativa de escapar de ser extraditado para a Suécia, onde teria cometidos os crimes sexuais alegados.  Ora, não é que a Justiça sueca mandou posteriormente arquivar a acusação, mas um tribunal de Londres rejeitou em fevereiro, a anulação do mandado de prisão, considerando que Assange não teria respeitado as condições de sua liberdade sob fiança.
                         Em tais condições, a dúvida cresce.  Quem teria feito o tribunal de Londres rejeitar a anulação do mandado de prisão de Julian Assange? Quem seria este amicus curiae que se intromete na causa, ora terminada na Suécia, mas mantida no Reino Unido, que tinha sido apenas a principio o local de refúgio mais próximo para Assange evitar a extradição para Estocolmo, agora não mais subsistente?
                         Valendo-se do direito que tem os presidentes dos EUA em fim de mandato de perdoar americanos que teriam sofrido supostas injustiças, Obama perdoou a suboficial Chelsea Manning, mas preferiu não fazê-lo com relação a Edward Snowden, hoje asilado na Rússia, sob a acusação de haver revelado os programas de National Security Agency de vigilância global.                       
                       Não dá para suspeitar que as coisas se tenham complicado para Assange, por causa de um velho aliado da Inglaterra?                         

( Fontes: O Estado de S. Paulo, The New Yorker )

Bárbaro assassínio de anciã brasileira


                        

          Mireille Knoll, de 85 anos, foi vítima de bestial crime, que se comprovaria como motivado por ódio religioso.  Há dois suspeitos nesse homicídio: um de 29 anos que vivia no mesmo prédio (destinado a locatários de baixa renda) que Mireille, e outro que é morador de rua.
              A autoria do assassinato não tardou em ser desvendada quando um dos suspeitos declarou aos investigadores, que o autor das facadas gritara Allahu  (Deus é grande!).
           Esclareceu-se depois que esse indivíduo (de 29 anos) vivia no mesmo prédio, e o outro, é morador de rua. O suspeito - e provável autor do infame crime - era próximo da idosa. Segundo a família, Mireille o conhecia muito bem, e o considerava como um filho.
          A par da violência e do estúpido ódio racial, outro fator que provocou comoção, pela bestialidade do crime, foram as circunstâncias que cercavam a existência de Mireille, que era cadeirante. A comunidade judaica francesa - cerca de 400 mil pessoas - se movimentou para denunciar o crime e a violência religiosa em relação aos judeus na Europa. 
            Mireille nascera em 28 de dezembro de 1932, em Paris, e seu pai imigrara do Brasil. Por isso, o pai lhe legara a nacionalidade brasileira.  Foi este passaporte que lhe salva a vida, quando em quinze de julho de 1942, os alemães fazem a tristemente famosa triagem dos treze mil judeus franceses que vão para Auschwitz, com a infame conivência do regime do Mal. Pétain. Por ser brasileira, Mireille fica na França, de onde logra fugir para Portugal, junto com a mãe. De lá, viajam para o Canadá, e depois da guerra se casa com um francês, sobrevivente de Auschwitz, com quem retorna a Paris.
             Dessarte, segundo resume sua neta, Noa Goldfarb, de 34 anos, hoje residente em Israel: "Minha avó conseguiu escapar dos nazistas. Mas os radicais islâmicos a mataram."

( Fonte: O Estado de S. Paulo )

Suiça congela contas de chavistas


                               

         Embora não revele o exato montante, o governo da Confederação Helvética congelou milhões de dólares da cúpula de aliados de Nicolás Maduro. Foram detectados nos últimos meses mais de US$ 100 milhões em contas secretas, mantidas por venezuelanos suspeitos de corrupção.
         Por outro lado, segundo a mesma diretiva, foi proibida pelas autoridades helvéticas a exportação de tecnologias e produtos de ponta para a Venezuela.
         Foram singularizadas autoridades encarregadas  do ministério do Interior - Nestor Luis Reverol Torres -"responsável por sérias violações de direitos humanos e repressão";  Enrique González López, Chefe  da  " Inteligência venezuelana" e responsável por detenções arbitrárias, torturas e repressão de opositores"; e Tibisay Lucena Ramírez, presidente do Conselho Nacional Eleitoral,  alvo de sanções igualmente por haver tomado medidas para "minar a democracia".
         Outro burocrata de alto bordo  da quadrilha de Maduro é  Maikel José Moreno Pérez, presidente do notório  Tribunal Supremo de Justiça,  que na verdade tem tomado diversas medidas à mando do chefe supremo da ditadura chavista, tendentes a "apoiar e facilitar" atos governamentais tendentes a minar a democracia e "usurpar  a autoridade da Assembleia Nacional". Nesse triste quadro do capanguismo jurídico, o tal Tribunal Supremo se tem notabilizado por procedimentos ilegais quanto inconstitucionais, cumprindo todos os ditames do ditador, com vistas a que a maioria da Assembleia Legislativa não crie empecilhos a Maduro, e para tanto suspendeu arbitrariamente deputados da Oposição no número necessário para inviabilizar qualquer medida constitucional contra o governo de Maduro. Prestou-se, outrossim, à tragicomédia da inconstitucional Constituinte dos Bairros, que sem qualquer respaldo popular (a própria companhia que participara das instâncias burocráticas da alegada criação dessa falsa Constituinte fez saber que o numéro de eleitores que supostamente a elegeram foi trucado pela ditadura...)  E é essa falsa Constituyente que se encarrega da faina suja de criar as condições para montar o pavilhão da inexistente democracia venezuelana. Aliás o único partido que na América latina apóia esse engonço jurídico é o notório PT, presidido
            Por fim, completando a choldra chavista, até o procurador-geral, Tarek William Saab foi sancionado pelas autoridades da Confederação Helvética, acusado de trabalhar contra a democracia, enquanto age não em prol da Justiça, mas para reprimir opositores do governo de Maduro.  Note-se que tal senhor viera suceder à Procuradora-Geral Luiza Ortega Díaz, que nesses últimos tempos tomara várias medidas em favor da democracia. No entanto, ao quanto se soube posteriormente, sob a presumível ameaça chavista, não terá ousado dissociar-se das falsas acusações do processo  montado contra o lider oposicionista Leopoldo López.  Ao fugir para o Ocidente, célere tratou de vestir os alvos trajes de acusadora dos abusos chavistas,  mas se esqueceu de mencionar que se prestara a presidir à falsa acusação contra o lider opositor preso Leopoldo López, asseverando mais tarde que fora constrangida a seguir a linha do governo Maduro, mostrando face antes ignota no Ocidente.
             A par disso, por último mas não por menores razões, é também singularizado Diosdado Cabello, um dos chefões da cúpula chavista, com suspeitas de associação ao narco-tráfico, é também acusado de violações aos direitos humanos, por sua truculência e ameaças aos opositores do governo Maduro.
             Diante do virtual silêncio da OEA, que pávida assiste aos atropelos da choldra  que se apossou da pátria de Bolívar, sofrem os inocentes que constituem a grande maioria da população venezuelana, martirizada pela hiper-inflação, e as consequentes faltas de mantimentos e remédios, que se traduzem em mortes das habituais vítimas da vez, i.e., pobres e  crianças, enquanto a bandidagem chavista assiste dos palácios o descalabro da economia da antes própera Venezuela.
               A única saída aparente é a migração desesperada, seja para a Colômbia, seja para o estado de Roraima, no Brasil, onde novas agruras esperam os infelizes, pela sua falta de meios e os desconfortos mil que sóem acompanhar a sorte ingrata dos pobres refugiados.

( Fontes:  O Estado de S. Paulo; The New York Times, perfil de Leopoldo López )

quarta-feira, 28 de março de 2018

O que fazer do Supremo ?


                                   

          Não é decerto somente no Rio de Janeiro - por tantos anos a estrela-guia do animus nacional - em que as dúvidas permanecem quanto à força e, por conseguinte, o norte de suas instituições.
          De repente, a campanha eleitoral - e, em especial, a presidencial - atravessa momento em que as dúvidas prevalecem sobre as certezas de quem será candidato.
         O que está ocorrendo na campanha presidencial poderia ser definido pela incerteza.  A dúvida que em eleições democráticas passadas se centrara sobretudo na consulta aos institutos Datafolha e Ibope, hoje ela se refugia nos tribunais e, em especial, no Supremo Tribunal Federal. Com efeito, pesa-me reconhecer que, para espanto de muitos, a incerteza que a sua última sessão nos deu através de espetáculo onde dominou a confusão como princípio e a  insegurança jurídica como fim e normativa de ação, e por conseguinte se colocará para os bem-intencionados estudiosos a tarefa  de entender  no futuro  essa hora difícil.  Que não tenham dúvidas, por isso, os leguleios de plantão, que o Povo brasileiro não busca apenas a eleição da próxima mais alta autoridade da República, mas de uma perspectiva do Brasil que nos apresente Nação em que Ordem e Progresso não sejam apenas um esquecido dístico no Pavilhão Nacional, mas sim o desígnio de país que, para júbilo da cidadania, volte a ser motivo de orgulho e confiança, como já o foi no passado.
         Não foi decerto o que se viu na última sessão do Supremo. A liderança que esperávamos e o propósito de não apequenar o nosso Tribunal a Nação viu sob risco de ser transformado em virtual agência de viagens, em que excelentíssimos membros brandiam passagens e cartões com que desenhavam a ausência do quorum necessário para cuidar das questões públicas, ao parecer mais que os compromissos de outra ordem sobrelevavam ao seu precípuo munus.
         Terá sido acaso esquecida a injunção de não apequenar o Supremo?
         Será que as jurisprudências devem durar tão pouco, como se fossem frutos efêmeros, de mal finda sazão, que logo definham?
         Que ora se pretenda mudá-las faz parecer que a memória seja tão breve, a ponto de não ter presente a conquista - que vale a lembrança - não foi benesse extemporânea, mas resultou da vontade da Nação brasileira, que contemplara com estranheza e até mesmo indignação, que pecúnia e bons advogados podem afastar réus condenados do cumprimento da pena, que se via postergada quase que indefinidamente, não porque se tinha razão no processo, mas pelo mero fato de dispor de advogados experientes que defronte do Povo brasileiro protegiam réus confessos da pena que lhes era devida, postergando quase até as calendas a hora de seu ingresso no cárcere. E tal, não porque tivessem razão no capítulo, mas pelo simples, concreto, acachapante  fato de disporem de suficientes posses para postergar quase ad infinitum o cumprimento da respectiva sentença?
                Não faz muito a Exma. Sra. Presidente do Supremo Tribunal Federal lançou um repto à Suprema Corte.  Decerto, não é hora de apequenar o Supremo. Não é tampouco hora de voltar a práticas que separam os brasileiros: os endinheirados podem de novo valer-se da Justiça que para eles tem pressa, ainda que não tenham razão. Deve, ao invés, aos pobres  reservar-se a tarda justiça, aquela que se faz esperar ao longo dos anos, embora aos ventos proclame que a Lei é igual para todos?



Fachin: ameaças à família


                                   

      Pelo visto a proximidade de várias decisões relevantes sobre a próxima eleição, e em particular a determinação da situação legal do ex-presidente Lula da Silva tem criado atmosfera infelizmente propícia para que certos segmentos  que tendem a buscar atuar de modo que privilegie de forma perigosa e mesmo ilegal intentos que tentem valer-se de meios fora do circuito da normal disputa política, com o escopo de pescar em águas turvas, e vir a subverter posições que muitos de tais círculos interpretem como potencialmente negativas e, por conseguinte, dentro dessa paralógica da ilegalidade e da consequente visão da violência (ou ameaça de) como um recurso para tentar mudar a configuração de determinado estado de coisas, que dentre esses círculos da páralegalidade - aqueles setores que um chefe militar no passado se referira a companheiros sinceros porém violentos  - tende a ser encarados como meios a serem empregados como espécie de ultima ratio.
       O Ministro Edson Fachin afirmou ontem, 27 de março, que sua família está recebendo ameaças. Nesse sentido, pediu providências sobre o caso à presidente da Corte, Ministra Cármen Lúcia.

       Fachin em entrevista televisiva ao jornalista Roberto D'Ávila demonstrou certa tensão. Para ele, o principal receio é de que algum familiar seja atacado por causa de sua atuação no STF. "Essas circunstâncias não são singelas, mas em relação a mim, que aqui estou por ter respondido afirmativamente ao chamamento que a vida me fez (...) sou grato à vida por poder prestar esse serviço. Fico preocupado com aqueles que, membros da minha família, não fizeram essa opção e poderão eventualmente sofrer algum tipo de consequência. Mas espero que nada disso se passe", afirmou. Indicado para o Supremo pela então presidente Dilma Rousseff em 2015, ele não relacionou as ameaças a nenhum caso específico em que esteja atuando ou que tenha julgado.
        Nesse sentido, e ainda de forma genérica, Fachin afirmou que as autoridades públicas precisam ter comportamentos exemplares em meio à tumultuada situação atual do país. "Esse fenômeno tem implicado uma certa diluição da autoridade das instituições, dos que ocupam função pública e, ainda mais grave, da autoridade do próprio sistema normativo. O problema é que o outro lado dessa diluição é mais ou menos o Estado de todos contra todos, uma certa barbárie", avaliou.  Para Fachin, a tarefa de ser relator da Lava Jato é "um grande desafio".

          Ontem, o Supremo informou em nota que autorizou o aumento do número de agentes para escolta permanente de Fachin. A presidência do STF reforçou  pedido para que a Diretoria-geral da Corte examine e tome providências para aumentar o número de seguranças para a família do ministro em Curitiba.

( Fonte:  O Estado de S. Paulo )


terça-feira, 27 de março de 2018

Jogada Cara


                                              

         Não sei se Vladimir Putin imita Benito Mussolini de forma consciente ou não. De qualquer forma, assim como il Duce, Putin deseja exibir a própria força física, o que, de resto, foi possível observar recentemente no seu lance de tomar um banho de torso nu nas águas gélidas do mar ártico. 
          Como toda pessoa de baixa estatura, ele igualmente valoriza a equitação. Andar a cavalo hoje em dia já não é desporto comum, como era, v.g., para meu pai e minha mãe. Ter um corcel implica em gastos consideráveis,  se se deseja tratá-lo bem, e que seja, a contento, treinado e luzindo na aparência os bons cuidados recebidos. Pessoas mais baixas - que é o caso de nosso herói - vêem com especial favor tê-lo não só para o esporte da montaria,  mas também por quanto uma montaria bem treinada e tratada traga em termos de porte e aparência para alguém a quem a natureza não dotou do físico que corresponda à grande personalidade por que se tem determinada pessoa.
           Benito Mussolini, a quem a princípio os fascistas e depois todos os súditos da terra itálica eram supostos admirar e reverenciar, via com especial favor essa antiga maneira de parecer mais alto aos olhos do público do que lhe facultaria o seu porte normal.
            Assim, parecer para il Duce (aquele que conduz) se afiguraria mais importante do que ser.  Pode semelhar absurdo, mas tudo para o líder italiano constituía uma espécie de teatro, em que o parecer se afigurava mais de que o ser.  E a razão para tal aparente absurdo estava na circunstância de que uma pessoa, e até um grande personagem, pode crescer na aparência. Daí os uniformes, a postura, a equitação  e também os próprios locais de trabalho. No Palazzo Venezia, por exemplo, seus visitantes, decerto ilustres, deveriam percorrer através de enorme salão, que apesar de grandioso conduzia ao local onde ele, il Duce, recebia os visitantes. Para cumprimen-tá-lo tinham que atravessar a grande sala de quarenta, cinquenta metros, aonde, ao seu cabo, após subir alguns degraus atapetados, lá o aguarda, com adequada expressão, o dignitário a quem ele fizera esperar por um tempo inverso à respectiva importância.
             Mussolini contribuíu para a sua perda ao acreditar nas próprias mentiras e naquelas de seus cortesãos. Tudo era feito no sentido de tornar mais temível a Itália. Para tanto, construíu cerimonial e palco que reforçasse o seu pleito íntimo de trans-formar a antiga bota imperial - que no tempo dos Romanos era a capital do maior império que o homem antigo levantara e conquistara - como se lograsse enfeitar a força, torná-la mais bela e mais temível. Por isso, ele conquistou a Abissínia e encenava, como propagandista do Forza Italia, um exército que amava mais as paradas e os desfiles do que a guerra (com que os romanos se aventuraram até os extremos do mundo então conhecido).
                 Na Italia dei telefoni bianchi  (os telefones se eram pretos alhures, para a elite fascista eram branco-marfim) a aparência podia ser mais importante do que a realidade. Assim, il Teatro podia ser para il Duce a metáfora de realidade que alçaria a Itália ao mesmo nível das demais potências de então. Dessarte, dir-se-ía que para il Duce o mais importante não seria essere (ser), mas  parere (parecer).
                  Por outro lado, como experto que era em produzir a aparência,  Mussolini sabia encenar muito bem a propaganda do fascismo. Recordo-me de velho filme que intitulou la Battaglia del grano. Ele aparecia com o peito nu empenhado na porfia pelo trigo.  Como símbolo sexual, mostrando o tórax ao público feminino,  ele dava uma tournure de luta para o plantio do trigo, e a subsequente vitória da Itália, que conseguiria a auto-suficiência neste grande e nobre cereal.
                    Não terá escapado ao leitor as grandes parecenças entre o líder fascista italiano e o atual presidente da Rússia. Ambos apreciadores da equitação, como esporte másculo. Para tanto, o tórax nu e bem cinzelado.  Daí, os desportos que exigem  a cora-gem como companheira. Já se disse que Putin terá ido parar em hospital para tratar-se das consequências de algum esporte mais violento, com que ele se apresenta em filmes aos compatriotas.
                      Vladimir V. Putin, com a sua expressão impassível quer apresentar ao russo comum a face do homem sério e másculo, que não recua diante de desforços físicos que outros não imaginariam afrontar.
                      Ele persegue com um rosto que se compraz em ser o macho indecifrável a velha ilusão que um descamisado Mussolini buscava mostrar ao seu público de então, com a força e a macheza do contadino (camponês) que não tem medo da terra e de seus desforços.
                       É a velha equação do parecer e do ser.  Putin gostaria de estar chefiando a União Soviética.  Infelizmente para ele, o seu processo de decomposição foi acelerado por N. Gorbachev, e hoje a Rússia é a projeção enfraquecida do antigo potencial da URSS.  Não se está aqui para estudar o desfazimento da segunda superpotência, mas para em breves linhas mostrar os traços de Putin que o aproximam de Mussolini.
                        Putin guarda consigo, mesmo contra a própria vontade, encabeçar potência nuclear que é consequência de realidade hoje desaparecida. Pelo seu tamanho e potencial a Rússia, se não é a URSS, ainda pode meter medo em muitos países daqueles que o Kremlin e seus burocratas chamam de estrangeiro próximo. Esses vivem a sina de ter por vizinho um urso que a História ensinou a somente respeitar as grandes nações. Daí, as aventuras da Crimeia e, com dificuldades adicionais, a simpática grande nação da Ucrânia. Com toda a desmedida extensão, o lençol petrolífero é a sua maior riqueza, depois do próprio povo.
                          Será este ser ou não ser - a Rússia grande, mas não tão grande assim - que, por vezes, dilacera o coração e a mente  de gospodin Putin. A última crise que atravessou é uma consequência da nostalgia de um tzar que, por vezes, pensa castigar o espião mendaz ou traiçoeiro, mesmo que se haja abrigado em algum recanto esquecido na pérfida Álbion.  Para alguém tão cerebrino, espanta que ponha tantos anos e realizações em risco, como se fora um jogador de algum esquecido cassino.
                  Putin não tem dúvida em dispor de um destino ainda a cumprir. E ele, como o seu modelo Mussolini, pensa alto e forte.  Já enfrentou o terrível cerco nazista de Leningrado, onde a fome era o espectro companheiro de muitas horas transidas pelo frio gélido e pela artilharia nazista. Depois, aos trancos e barrancos, com o seu físico atarracado, mas o olhar firme e inescrutável, como tantos poderosos que o precederam,  Vladimir continua a acreditar mais do que tudo em si mesmo.
                    Para prosseguir compondo o próprio sonho, que é claro como sorriso de criança, ele irá continuar aprontando. Como o seu oculto modelo, não é coisa em que muito pense, até que sucumba a uma dessas tentações que lhe custam caro, mas, quem sabe, por trás da expressão para muitos indecifrável aí está um jogador, que é, sem talvez o saber, compulsivo.

( Fonte: vida diplomática )