quinta-feira, 6 de abril de 2017

O atribulado deputado Devin Nunes

                                

        Republicano da Califórnia,  o deputado Devin Nunes,  anunciou na última 5ª Feira que se afastaria temporariamente da Comissão  de Inteligência da Câmara, enquanto durarem as investigações desse órgão sobre os esforços da Rússia em 2016 para desorganizar (disrupt) os procedimentos relativos às eleições presidenciais americanas.
        Ao ser inteirado de sua decisão, o deputado Adam B. Schiff, da Califórnia, que é o democrata na dita Comissão de mais alta hierarquia, elogiou a decisão de Nunes, por ter sido feita no melhor interesse da investigação. E, nesse contexto, ainda segundo Schiff, a iniciativa de Nunes permitirá um novo começo das investigações.
        Com efeito, Mr Nunes caíu sob o fogo da mídia no mês passado, quando ele anunciara acreditar em que  Trump, ou membros de seu Comitê de transição possam ter sido "acidentalmente" apanhados na vigilãncia de estrangeiros por agências americanas de contra-espionagem.
         Nesse contexto, o boquirroto Mr Nunes citou 'dúzias de relatórios de inteligência por ele próprio qualificados como "confidenciais", que mais tarde o New York Times revelaria que haviam sido passados para o deputado Devin Nunes por funcionários da Casa Branca.
     Dentro do mesmo sentido, interveio igualmente o Speaker da Câmara de Representantes, Paul Ryan.
        Como se verifica, por conseguinte, há fundadas razões dos órgãos da imprensa americana em considerar como embattled, isto é, assediado, em maus lençóis, o deputado Devin Nunes. Sob investigação do Comitê de Ética da Câmara, por alegadamente  haver revelado matéria confidencial, envolvendo questões de segurança, à imprensa estadunidense. 
           A segurança nas informações é considerada questão séria na Terra de Tio Sam, e por isso o Representante californiano corre o risco de receber alguma punição.



( Fonte: The New York Times )

quarta-feira, 5 de abril de 2017

O Brexit e sua herança maldita (5)

                              

             A carta de seis paginas, assinada pela Primeira-Ministro Theresa May, dirigida ao Presidente do Conselho da Europa, Donald Tusk, pode ser  descrita como a primeira manifestação do Reino Unido, enquanto primeiro membro da União Européia a comunicar oficialmente à direção da organização de Bruxelas o seu desígnio de sair do organismo no qual ingressara há pouco mais de quarenta anos. 
          Começa assim o processo de separação e a duração dessa fase transitória é de pelo menos dois anos. Entrementes, o Reino Unido continuará sendo parte da União Européia. A primeira consequência tangível é que  o governo de Londres não terá direito, entre outros, a firmar acordos particulares de comércio com outros países.
      Dada a complexidade das relações estabelecidas nesses últimos 44 anos, compreende-se que o biênio pode ser considerado como exigência modesta, suscetível de forçar uma maior extensão nesse primeiro prazo, atendidos os inúmeros laços que os primeiros tempos da união e sua consequente dinâmica terão forjado.
        A Álbion, depois de um longo inverno em que vãmente batera à porta  da  organização, encontrara nos primeiros tempos a dinâmica das jovens uniões, em que as economias britânica e europeia se viam envolvidas pelo típico otimismo empreendedor dessas relações.
         Não cabe aqui um post-mortem dessa relação, que no governo do trabalhista Tony Blair enfrentara e vencera o desafio da tentação de cortar as amarras com a burocracia de Bruxelas.
            É natural que o país que tome a iniciativa da ruptura dessa relação deva assumir os custos que a sua partida acarretará para a União Européia. Grosso modo, um cálculo inicial desses  compromissos financeiros assumidos pelo Reino Unido no contexto do orçamento europeu devem andar pelos sessenta bilhões de euros.
         
         Quanto ao aspecto humano, o problema tampouco será dos menores. Dada a livre circulação das pessoas no espaço do Mercado Comum Europeu, não é fácil quantificar os respectivos números que resolveram residir de forma permanente. Estima-se, contudo, que cerca de três milhões deixaram o Continente para viver e trabalhar no Reino Unido.  Houve também, como é lógico, o movimento contrário, em número menor, mas que também não deixa de ser grande, eis que o ponto de partida se refere a um só país, a velha Inglaterra, abrangendo um milhão de ingleses que resolveu transferir-se para o Continente.   
       Os direitos dessas pessoas carecem de ser levados em conta e, sobretudo, respeitados. Como será feito, por enquanto é uma angustiada interrogação.
         
           Por outro lado, dois países membros do Reino Unido votaram contra o Bréxit: a Irlanda do Norte que enfrenta grave crise política, eis que poderia integrar-se na Irlanda (que já faz parte da U.E.), mas há o problema de que a Irlanda do Norte enfrenta o desafio de condados protestantes que preferem optar pelo Reino Unido... Por outro lado, desde muito a Escócia manifesta a aspiração de independizar-se da Inglaterra e unir-se à União Européia.  A dificuldade do problema está na resistência de Londres em liberar a Escócia.  Os escoceses, seguindo esse manifesto desejo, votaram em favor de Bruxelas. Por outro lado, a doce Theresa May já fez saber que, mesmo no caso em que o referendo escocês seja endossado pela maioria da Escócia, a decisão ainda dependeria de autorização do Parlamento britânico.  A regra tem óbvio cunho imperialista, e dificilmente poderá ser mantida por Westminster. Assim, pela cartilha européia a Escócia reencontrará a sua antiga aspiração libertária, ao reiterar o seu voto por Bruxelas.
     
      Outro ponto controverso, e no qual a posição de Londres, pelo seu ressaibo imperialista, tenderá a ser ainda menos defensável: Londres, como assinala Gilles Lapouge, o veterano correspondente francês do Estadão, tem a idéia fixa de manter o acesso ao mercado único, sem contudo desejar sujeitar-se à livre circulação de pessoas.
           A enunciação desse ponto nos permite versar dois traços de grande importância. É óbvia a grande influência na votação favorável ao bréxit da xenofobia. Assim sendo, surge pela frente um magno problema a respeito de que o negociador do Parlamento Europeu para o Brexit, Guy  Verhofstadt,  foi meridianamente claro: " As quatro liberdades (livre circulação das pessoas, de mercadorias, serviços e capitais) são indissociáveis. Se o Reino Unido rejeita a livre circulação e a competência do Tribunal de Justiça Europeu, não terá mais, em consequência, acesso ao mercado interno europeu. Da mesma forma, se Londres quiser pode negociar seus acordos de livre-comércio, mas não poderá permanecer, como deseja fortemente, na união alfandegária europeia (...) O Reino Unido quer os direitos em aceitar os deveres da contrapartida. Sobre esses pontos, a UE se mostrará inflexível."
         
          Quanto a outros estragos, nesse contexto  ainda é prematuro tentar deles avaliar a eventual gravidade. Mas não se deve alimentar dúvidas quanto aos danos que a decisão do bréxit, alimentada pelo velho isolacionismo britânico, e pela desconfiança em relação ao alienígena (versão de uma xenofobia light como esboçada supra) há de depositar na soleira da altiva Ilha, por conta de um voto irrefletido do povão. Nessa quadra, a tão prezada e mesmo amada (por eles) libra esterlina (não a trocaram pelo euro, e nesse particular se deve afirmar serenamente que a decisão foi decerto correta, posto que tomada por outras razões, que não muito tinham a ver com finanças). En passant,  ninguém duvida que a economia britânica - que já não tem a força de outrora - sofrerá com a ruptura. A própria amada libra esterlina deve perder de 20% a 30% do respectivo valor cambial.

         No que concerne ao comércio, tudo dependerá da evolução das negociações. Se Bruxelas se opuser a mudanças muito radicais, aí poderá estar uma saída para os dois cônjuges. Alcançados aqueles pontos em que a respectiva vaidade pode servir como maneira de compor e minimizar as diferenças - não subestimem as insídias do comércio e as possibilidades de que o principismo das duas partes possa ser superado com óbvio proveito para ambas.
             Quanto à xenofobia, ambas as Partes têm interesse em não exagerar. Existem países ou governos xenófobos na Europa Continental, como é o caso da Hungria de Viktor Orban. Já a velha Inglaterra terá motivado boa parte do triste êxito do brexit como insumo para essa decisão estouvada e que está na manifesta contra-corrente da História.
             Mas se o inglês não é tão expansivo nesse campo quanto o francês, tampouco se poderia incluí-lo como de rábida inclinação à xenofobia.
      Quanto à suposta explosão da xenofobia na terra gaulesa, por conta de surpreendente desempenho eleitoral de Marine Le Pen, assumo o perigo de discordar redondamente da suposta ameaça. Assim como se embaíu o antigo Primeiro Ministro francês, o socialista Lionel Jospin, com la gauche pluriel (a esquerda plural) e ele próprio acreditou nessa possibilidade, incentivando os respectivos aliados a votarem no primeiro turno da eleição presidencial nas respectivas associações, não é que a ingenuidade do Primeiro Ministro francês incentivando a esquerda plural deu num resultado previsível, decorrente das pequenas-grandes ambições dos respectivos aliados. Todos eles jogaram os respectivos votos nos representantes do próprio partido. O socialista Jospin,   por causa disso sequer foi para o turno final, enquanto Le Pen, o representante da extrema direita, se tornava o candidato ao Elysée.  
            Mas a suposta ameaça do Front National não funcionou e se Le Pen foi para o segundo turno, tal não impediu que fosse derrotado pela coalizão de todas as forças do arco democrático, sendo reeleito Jacques Chirac, da direita gaullista moderada.
            Por isso me abstenho de fazer grandes prognósticos que  muito dependerão de pequenas escolhas e de eventuais tropeços de parte a parte no futuro.
      
       Estamos apenas no começo de um processo, administrado é bem verdade, sobretudo do lado britânico, por personalidades que me parecem estar muito aquém do papel que lhes é imposto pelo Senhor da História.
             Quando estamos no terreno das previsões - e do espaço que se tem pela frente - será bom ter presente quanto nos vale a prudência, e não só para nós, quanto tal previsão pode ser lábil e dependente de tantas condições, que o melhor seria, no propósito, lembrar a velha censura de J.-J. Rousseau a livro do Abbé de St. Pierre:  "des grandes idées et des petites vues" (grandes idéias e estreitas visões (da realidade).
                                          

( Fontes:  Gilles Lapouge (Estado de S. Paulo), Jean-Jacques Rousseau ) 

A ditadura de Maduro tem que cair

                              
          Que não tenha dúvidas a coalizão de forças que está por trás da ditadura de Nicolás Maduro. De que valerá ao tirano esconder-se atrás dos ridículos títulos das forças de que se serve para tentar intimidar a Nação Venezuelana? 
            Não é só melancólico e revoltante que manifestação democrática feita pela marcha dos opositores ao governo de Nicolás Maduro haja sido violentamente reprimida pelas chamadas Guarda Nacional Bolivariana e Polícia Nacional Bolivariana. A violência e a boçalidade são as marcas desses grupos de pretensos policiais. Em verdade, colocar tais formações sob o nome do Libertador das Américas constitui já uma afronta ao nome do grande Bolívar.

            A marcha foi um exercício de coragem e não só das principais figuras da Mesa de Unidade Democrática, nas pessoas de Júlio Borges, presidente da Assembléia Nacional (AN) e de Henrique Capriles, governador do Estado de Miranda, que tiveram de ser internados em hospitais de Caracas, pelos gases lacrimogêneos e outros contra eles lançados pelos uniformizados facínoras das muitas guardas do Ditador Maduro.
             Tudo tentou o governo que cinicamente instrumentaliza o nome de Bolivar para obstaculizar e buscar inviabilizar a manifestação organizada pelas forças democráticas.
           Não surpreende que Maduro & Associados, autores da hiperinflação e do mais amplo desabastecimento que imaginar-se possa, só conheçam a força bruta. Esta, ilegalmente subvencionada,  pois dirigida contra o próprio Povo venezuelano, possui uma coordenação que espanta em gente que nada é capaz de criar além da vergonhosa hiperinflação em que se debate o país. Agora, ei-los retornando às ruas e praças, assustados pelo apoio popular à democracia, recorrer à violência dos meganhas das diversas guardas para tentar contrapor-se a uma marcha pela democracia do povo venezuelano!

              Que grande medo é esse das manifestações pacíficas de uma população sofrida, a ponto de fechar o metrô, barrar-lhes o caminho em praças e avenidas, além de cinicamente lançar contra os pacíficos manifestantes tropas violentas, a que o regime de Maduro chama de bolivarianas ?
                 A manifestação democrática foi reprimida com a violência e a ferocidade reservadas a um ataque inimigo, e não ao que pretende ser expressão da democracia e da liberdade.    
                 Além das agressões sofridas pelo deputado Júlio Borges, presidente da Assembléia Nacional - que foi fisicamente agredido, e também com gás pimenta, e que por isso teve de ser internado em hospital.
                  Assinale-se que vários deputados da oposição  passaram mal por causa dos gases lançados pelas forças ditas de segurança. Dentre esses, Milagros Valero, Richard Blanco e Henry Ramos Allup (ex-presidente da AN), além de Lilian Tintori, mulher de Leopoldo López, líder da Vontade Popular e preso desde fevereiro de 2014.
                 Consoante Carlos Romero, professor da Universidade Central da Venezuela (UCV) a mensagem dada pelo chavismo se resume a "Não passarão". Como sempre, os chavistas se apropriam da mensagem tipo escatológico, como as da resistência de Dolores Ibarruri do "No Pasarán", que dizia respeito à luta contra os fascistas.
                Não há decerto qualquer semelhança entre Dolores Ibarruri[1], La Pasionaria do regime da República Espanhola e os gangsters do regime de Nicolas Maduro.
               Pois na verdade em que se transformou o regime de Hugo Chávez ? Nada a ver com o de Nicolás Maduro? Este impede por todos os meios o instituto do recall, a que Hugo Chávez não teve medo de concorrer e vencer.
               Nicolas Maduro não é apenas uma grotesca caricatura de Hugo Chávez. Ele usou de toda a desfaçatez para evitar ser submetido ao recall, como constitucionalmente a Oposição requereu. Valeu-se de todas as trapaças e subterfúgios para não cumprir a obrigação constitucional do Recall. Diante de tão sólida incompetência, é compreensível mas inaceitável a sua covardia em não enfrentar o instituto democrático que faz parte do legado de Hugo Chávez Frias.
            Em associação corrupta, de índole ditatorial, que para a repressão do povo democrata da Venezuela apela para as figuras de Bolivar e da mulher corajosa que foi a comunista Dolores Ibarruri.
               Os chavistas hodiernos e seu líder, Nicolas Maduro  hoje entendem apenas de ditadura, desabastecimento, hiperinflação e narcotráfico.
               Para esses inimigos da democracia, a lata de lixo da História os espera. Não pensem homiziar-se na repressão e na violência contra a democracia e as forças que a defendem.    
               Basta de ditadura!

 ( Fonte:  O Globo )



[1] Dolores Ibarruri, La Pasionaria (1895-1989)

Novo Adiamento

                

       O Tribunal Superior Eleitoral, em movimento não de todo imprevisto,  adiou na terça-feira, dia quatro abril, o julgamento que seria aberto nesta semana e que pode cassar a chapa de Dilma Rousseff e Michel Temer, que vencera, como todos sabem, a eleição presidencial de  2014.
       Com efeito, os ministros decidiram reabrir a fase de instrução para ouvir mais testemunhas, entre as quais o casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura - cuja delação foi homologada ontem pelo Supremo - e o ex-Ministro da Fazenda, Guido Mantega.
       Segundo assinala com oportunidade Miriam Leitão, são muitos "os interessados no adiamento do julgamento no TSE". Consoante a colunista,  "o grupo reúne o presidente Michel Temer, a ex-presidente Dilma e, até, por ironia, o PSDB, autor da ação". Miriam também inclui nesse grupo "os partidos da coalizão que ficaram com Dilma, e os que migraram para o governo Temer, os empresários e o mercado financeiro". E acrescenta, por fim : "Difícil é encontrar quem esteja interessado  em que o processo ganhe celeridade."
         Consoante foi apurado pela Folha, "o relator da ação, Herman Benjamin, percebeu que poderia ser voto vencido na questão do tempo para alegações ou que alguém poderia pedir vista dos autos do processo, o que levaria a suspender a sessão por tempo indeterminado.
          Além disso, minutos antes de a sessão começar, os ministros souberam que João Santana e Mônica Moura haviam fechado acordo de delação premiada com o Ministério Público, e que tal acordo tinha sido homologado ontem pelo Supremo.
           Na linha das mutações de última hora, espera-se que as delações do casal de marqueteiros sejam esclarecedoras, e por isso talvez se especule que a ex-presidenta não espere boas novas de o que venha a transcender das declarações do casal.
           Contribuíu igualmente para o adiamento, ainda sob o prisma do relator Herman Benjamin, seria a posição de que as decisões devem estar a salvo de contestação futura. Segundo tal interpretação de Marcelo Coelho da Folha: "Herman Benjamin concordou em conceder cinco dias de prazo para a defesa e determinou que novas testemunhas sejam ouvidas. A ideia dele é que, se isso não acontecesse, a defesa provavelmente argumentaria que foi cerceada. Nesse sentido, melhor incluir os depoimentos agora do que correr esse risco depois."
              A expectativa é que João Santana confirme haver recebido pelo menos R$ 20 milhões em caixa dois da Odebrecht, aumentando, por conseguinte os elementos disponíveis contra a chapa vencedora.
               Estima-se que o julgamento deva ser retomado em maio próximo, mas o Governo Michel Temer, que ganhou fôlego para levar avante votações importantes no Congresso, já dá como certo um novo adiamento.
              Tenha-se presente, outrossim, que possíveis votos de ministros  contrários às posições da defesa venham a ser afastados do julgamento pelo vencimento dos prazos regimentais  respectivos de permanência nesta sessão do Tribunal, como já foi referido em comentário  anterior por esta coluna.
               Diante de todas essas mutações, a expectativa, segundo refere O Globo, é que o julgamento não seja concluído antes do próximo semestre, e possa até prosseguir até 2018, que, como não se deveria esquecer, é ano eleitoral.
               Além disso tudo, vai contra o bom senso da magistratura tomar medidas que venham a contribuir para a cassação do mandato do vice-presidente Michel Temer, que assumiu o poder presidencial após a cassação pelo Senado Federal do mandato de Dilma Rousseff, por meio do instituto constitucional do impeachment. Que o mandato de Michel Temer seja cassado em tais circunstâncias, ainda por cima em ano eleitoral, vai contra qualquer ideia que fazer-se possa da necessidade de preservar a estabilidade institucional.


( Fontes:  Folha de S. Paulo,  O  Globo, Miriam Leitão )   

terça-feira, 4 de abril de 2017

O exame pelo Senado do Juiz Gorsuch

                              

       Ao contrário das antigas regras que presidiam às discussões no Senado americano, marcadas pelo mútuo respeito e pela consequente serenidade na avaliação dos temas, a atual Câmara Alta oferece um quadro bastante diverso.
       Apesar da maioria republicana, reforçada na última eleição, parece estarem criadas as condições para que a designação do Juiz Neil M. Gorsuch se descubra confrontada por um Filibuster.  Essa palavra do vocabulário americano não tem equivalente em português.
       Ela significa tentar 'matar' uma candidatura através da extensão dos discursos contrários, que se destinam a consumir-lhe o tempo necessário para que o eventual candidato possa ser aprovado pela maioria. Como se a votação pela maioria dos Senadores pode oxigenar a candidatura a um posto na administração, ou na magistratura, a tarefa do filibuster será a de retirar pelo domínio da palavra a possibilidade de a maioria proceder como maioria, isto é determinar que a matéria em tela vá a votação.
       Em essência, semelha um processo simples, que é apanágio das minorias, fazer pela manutenção da palavra que a discussão continue indefinidamente. Em tese, o filibuster pode ser realizado por apenas um parlamentar, como é o caso de Jimmy Stewart no filme de Frank Capra 'Mr Smith goes to Washington'[1]. Da tribuna ele denuncia um boss (patrão) partidário, culpado de muitas irregularidades. De início, ignaro das possibilidades que tem, ele pela simplicidade vai conquistando diversos senadores, que o ajudam a evitar as armadilhas que ameaçam quem faz o filibuster (ele não deve jamais ceder a palavra a outrem, a não ser que seja seu partidário).  Pois aí está o segredo da prática do filibuster: 'matar' a discussão de uma proposta, seja de nome, seja de providência, através da posse da palavra, i.e., do direito de discursar. Enquanto tiver resistência, o filibuster continua. Mas bastaria que ele perdesse a palavra para que o procedimento perca o sentido.  
        Na atual tentativa de inviabilizar a designação do juiz  Neil M. Gorsuch para a Suprema Corte, os democratas têm feito progresso. O GOP os tem 'ajudado' de certa forma, pela brutal negativa da maioria republicana no Senado de sequer considerar no ano passado o candidato  Juiz Merrick B. Garland, apresentado pelo Presidente Barack H. Obama.
          O nível da liderança republicana então e agora não mudou. O mais antigo membro do Senado, o democrata de Vermont, Patrick J. Leahy lamentou o fato de que o líder da maioria republicana, Mitch McConnell, do Kentucky se comprometera  a fazer o Juiz Gorsuch sentar-se na curul da Suprema Corte, por qualquer modo, "mesmo se tal prejudique para sempre o Senado dos Estados Unidos".
           A acrimonia presidiu aos diálogos no Senado.  Também no Comitê, a principal Senadora democrata, Dianne Feinstein, da California, criticou os antecedentes do Juiz Gorsuch em termos de direitos dos trabalhadores e na relutância em responder a perguntas.  Ela também não deixou de lembrar o deplorável tratamento dado pela maioria republicana ao Juiz Merrick Garland,  a que o GOP sequer consentira em receber e analisar-lhe a proposta pelo 44º Presidente (Barack Obama).
            Diante dessa atmosfera, a discussão e consequente filibuster pelos democratas, da candidatura Neil Gorsuch, consoante apresentada pelo Presidente Donald Trump, promete ser deveras interessante, especialmente na acepção que a esta palavra dá o Povo Chinês.

( Fonte: The New York Times )




[1] Mr Smith vai para Washington.

O Brexit e sua herança maldita (4)

                              
                 Não será fácil desfazer uma união de 44 anos. Primo, porque a causa desse divórcio não foi precedida por nenhum litígio. A própria maneira com que foi desencadeado o processo, como referido acima, não reflete um movimento popular ou mesmo a postura de partido político. Não se deve esquecer que o UKip, um partido anão, não tem qualquer peso em Westminster, e a sua campanha pela saída de Bruxelas jamais teve impacto substancial no grande cenário político.

           O brexit surgiria por causa de irresponsável gesto de medíocre primeiro ministro, que pensara livrar-se de problema menor ao concordar com mais um referendo sobre a permanência na U.E. A própria mediocridade o induziria a "ganhar tempo", fazendo que o próximo verão resolvesse para ele um problema sem maior envergadura. Tolo que foi, ao transformar o louco propósito de partido insignificante em outro muito mais sério, em que tudo se resolveria em passe de mágica. A velha Inglaterra enfim se livraria dos liames burocráticos da Europa Continental, e voltaria a alcançar o antigo fastígio, a exemplo da enganosa facilidade de muitas décadas antes para os jovens soldados alemães que marcharam com o júbilo de que estariam de volta aos lares respectivos "wenn der Laub fällt" (quando as folhas começam a cair).                           

              A Inglaterra na sua longa caminhada para participar da construção européia sempre havia deixado aos políticos o encaminhamento de seus eventuais interesses. Por primeira vez, se entregou ao Povo, em um momento de confusão política a possibilidade de voltar atrás. Dar a ele a senda na floresta que o levaria para a clareira translucente da antiga grandeza, em decisão democraticamente tomada por voto maravilhoso, que livraria a velha Inglaterra do abraço incômodo dos burocratas do Continente, enquanto a poderosa Álbion retoma o antigo terreno e poder. Nada de aborrecidos acordos e convênios de gabinete, enquanto nossos políticos se envolvem e se debatem nos corredores e nas quizílias do Continente.  Que a velha Inglaterra volte a ser grande, não mais sufocada por questões e pequenas rixas de regiões e países dos quais nada ou tão pouco conhecemos!

            Seria como se as velhas atoardas do suposto pacifismo de novo ecoassem, como acontecera às vésperas da IIª Guerra Mundial.

              As decisões simples, tomadas às carreiras, podem ter resultados desastrosos. Para domar os demônios do nacionalismo e a ilusão de que prevaleciam as condições que tinham feito da Grã-Bretanha a superpotência do século XIX, nada mais fácil do que  um pedaço de papel a ser transformado em mágico referendo, decidindo com ilusória simplicidade questões e problemas cuja complexidade irrita e exaspera os ardorosos patriotas, que fremem por exercer o encantamento de dispor, às carreiras, no seu caminho do veraneio, de todos os dissabores e longas esperas, que o dédalo de Bruxelas abriga e procrastina. Contudo, ao esquecerem que um gesto, uma assinatura, uma solução de exasperante questão nos corredores da burocracia comunitária, por vezes tende a ser enfurnada nas letras pequenas dos acordos, que não possuem os sangrentos choques das antigas batalhas. Esquecem os tolos que a burocracia pode ser enfadonha, mas não será jamais sangrenta, nem descuidará do auxílio a ser prestado aos grupos carentes, que pode ser tedioso e por vezes mofino, jamais te fará lembrar as másculas delícias do mundo hobbesiano.



( Fontes:  Homero, Churchill, Chamberlain )

segunda-feira, 3 de abril de 2017

O Brexit e sua herança maldita (3)

                                       

       Como sucessora de David Cameron será Theresa May a escolhida. Qualificou-a sua atuação como Home Secretary (Ministra do Interior), cargo delicado em que se houve a contento.
       A treze de julho de 2016, após a audiência com a Rainha Elizabeth II, estavam atendidas todas as exigências formais para que ela assumisse o posto da Thatcher. No parlamentarismo inglês, dada a renúncia de Cameron, derrotado no plebiscito, e que, por conseguinte, não tinha obviamente mais condições para continuar como gestor de tarefa a que se opusera, a posição de May era ainda favorecida pela circunstância de que o brexit havia sido reforçado pela questão migratória.
       Malgrado o tom triunfalista da Primeira Ministra, não terá escapado aos assistentes - não eram muitos, eis que se realizou a portas fechadas a cerimônia em que Donald Tusk, presidente do Conselho da Europa, recebeu das mãos de Tim Barrow, embaixador da Sua Majestade Britânica junto à União Européia, a carta de confirmação do óbvio, em que por seis páginas de texto Theresa May deflagrava como via o desenvolvimento dos princípios que norteariam o contencioso.
         A pérfida Albion, depois de inúmeras dúvidas de percurso, uma delas anterior sanada por um não ao dissídio, tentava agora estabelecer as regras que presidiriam à ruptura.
         Como todos aqueles que participam de uma herança ao revés - qual seja o rompimento de resolução que motivara, no passado, tantas ressoantes palavras de confiança no futuro comum da Europa Unida - terá sido com o franzimento fisionômico de personagens a quem doravante toca a obra dificultosa da separação que tais autoridades mergulhavam em realidade que por ser  nova não deixava de ser desagradável.
          A agria aspereza da apressada, abrupta ruptura, às carreiras feita, acorrendo às aliciantes promessas do verão ainda que nas franzinas areias do Canal, agora  se abria à outra parte prometendo "a cooperação sincera". Enquanto a Primeira Ministra declarava na sessão do Parlamento, também cerrada ao público, que "não pode haver volta atrás", não se pejando sequer de proclamar como "momento histórico" a ruína do monumento que os seus predecessores haviam acreditado pôr de pé. Se a luta então foi grande, será sempre fácil destruir as obras e as uniões, eis que parece mais fácil abater do que alevantar.
              Depois de declarar que não pode haver volta atrás, pediu que as negociações com a U.E. sejam construtivas e resultem em "cooperação sincera" (sic), em especial nas áreas econômica, segurança e defesa." Talvez sem dar-se conta da contradição lógica, asseverou "sem dúvida, agora mais do que nunca, o mundo precisa dos valores liberais e democráticos da Europa". Aparentemente sem sentir a contradição de o que  acabara de entoar, a premiê se apressa em comemorar o Brexit que define como "um grande momento nacional". Winston Churchill se vira na tumba. Oradores pedestres só podem dizer palavras chãs.
                Diante de tal retrocesso no comércio internacional - retornado alacremente ao velho nacionalismo, posição essa que o Reino Unido da segunda metade do século passado tentara superar diante da cancela fechada por de Gaulle através de engenhosos acordos comerciais com os países colaterais, e mais tarde, partido para sempre o General, ao lograr aceder ao então Mercado Comum. Agora se celebra  empreitada estival,  decidida à la légère, e qual pavilhão armado às pressas era colocado diante da provada U.E. como se a volta ao passado significasse a redenção nacional, atingida em tarda explosão de devaneio individualista nacional.
                  Por outro lado, a arma nacional que a recaída no slogan do brexit trazido como se solução fosse por um cansado Reino Unido, deixa como alternativa o urso russo. A Velha Europa, passado o trauma da súbita recaída no velho nacionalismo à ocidental, abrirá os braços para a velha Escócia e a provada Irlanda.
                 Se queres o nacionalismo, breve o terás às tuas portas, depois de mante-lo cativo por tanto tempo.
                   Lemas não constróem países, nem abrem parques industriais.
                  Mas nem tudo pode ser simples, nem um  lado dispor de todas as vantagens e prerrogativas. Por isso, é de toda importância espiar forças e fraquezas da outra fortaleza, se quisermos repor o equilíbrio, que uma parte pensa poder conservar e a outra, quem sabe se possível fosse, até aumentar!

( Fonte: O Estado de S. Paulo )