sábado, 3 de dezembro de 2016

O Enterro

                                       

         Ao contrário de que anunciaram vários jornais, o Presidente Michel Temer compareceu ao velório em Chapecó.
         Em clima de tristeza e também de revolta - e o acidente da LaMia, ainda mais com a ordem da torre de pacientar (para um avião em pane de combustível!) - Chapecó recebe os caixões do desastre com a equipe de Santa Catarina.
         Se a revolta da torcida da Chapecoense - e quem se excluiria nesse instante? - terá hora e vez para expressar-se, agora é momento de silêncio e sofrimento.
         Não há nada mais avassalador do que a morte. E, se um adendo é permitido, quando a ceifadora passa, e leva a gente jovem, que pensava ter a vida pela frente, com os céus risonhos da esperança, e não esse fosso sombrio, que ora se abre, na cova soturna, em que se transmutou a verde esperança do título continental, como será possível a revolta conter-se contra a sorte madrasta de um título para sempre pendente, que cortou impiedoso o jovem sorriso, ora transformado no desgrenhado esgar da morte, cuja maldade descobrimos avassaladora quando rolam corpos jovens e saudáveis, que acreditam ter anos muitos à sua frente, e, de repente, ei-los no chão de mármore, frio e insensível ?


( Fonte:  Site de O Globo)          

Trump telefona para Ma Ying-jeou!

                           

         Provocou frisson nervoso na mídia americana a suposta audácia de Donald Trump em telefonar para a atual presidente de Formosa, Ma Ying-jeou. O jornalão The New York Times chegou a especular sobre eventual crise com a República Popular da China.
        Como se sabe, desde 1979 nenhum presidente americano - e foram vários, desde Richard Nixon - terá ousado comunicar-se ostensivamente por telefone com a maior autoridade da China insular, por deferência a Beijing, cujas relações diplomáticas a Superpotência reatara por iniciativa da dupla Nixon-Kissinger.
         Para surpresa de muitos, o novo líder chinês Xi Jin-ping evidenciou muito mais bom senso do que a grande mídia estadunidense.
         É difícil por certo encontrarmos tópicos e situações em que estejamos de acordo com o presidente-eleito Trump (se as recontagens de Pennsylvania, Michigan e Wisconsin derem chabu), mas depois de tantos anos, tudo esse cuidado e luvas de pelica me parecem algo fora de propósito.
         Passados cerca de 37 anos do reconhecimento por Washington da China comunista - e das medidas de proteção ao governo chinês insular - há óbvio exagero em que o líder da superpotência, seja ele quem for, continue a apegar-se a postura que tem algo de excessivamente deferente para com os senhores de Beijing.
          O telefonema de Donald Trump quebra ritual que era marcado pelas luvas de pelica na deferência para com a República Popular da China. Se contribuir para normalizar  situação que desde muito não corresponde à realidade factual, o presidente-eleito americano terá atuado, consciente ou não, para normalizar estado de coisas que há muitos anos grita por ser reconhecido.




( Fonte: The New York Times )                                                                                   

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A Chapecoense vive!

                                                  

          Como não associar-se ao sofrimento da torcida da Chapecoense? Produto da vontade e do entusiasmo de uma cidade em Santa Catarina, chama a atenção não só o entrosamento do povo de Chapecó com o voo no futebol de um time galvanizado por essa identificação da sua gente com o vetor de seus sonhos de afirmação, mas também da extensão e amplitude desta paixão clubistica.
           A jovem equipe era uma projeção da cidade e nela crianças, meninos, juventude e adultos a transformavam em ponte de afirmação e de conquista, arrancadas por uma disposição e largueza que poucos limites conhecia.
           Ao contrário de tantas outras, a Chapecoense cuidava de renovar-se e, sobretudo,  reforçar-se, enquanto lhe imantavam a força e a energia de uma torcida que pela sua amplitude citadina e penetração em todas as idades, tinha a surpreendente, anacrônica ingenuidade de ignorar as ingentes barreiras das equipes com mais técnica e experiência, para envolver-se da crença a um tempo pueril, mas também com a firmeza de pura devoção, que se alimenta dos sorrisos das crianças, tão puros quanto intemeratos, assim como dos olhares enevoados dos mais velhos, que diante da ingenuidade que o cinismo das grandes cidades ignora, se deixam gostosamente levar e carregar pelas aragens e os sopros de um prometido futuro, ignaro de temores mofinos, e crente nas dádivas do porvir, na verdade, a recompensa do trabalho aturado, imbuído da realização que vá dos pequenos passos - sob o sorriso de sociedade de crianças e jovens, que ignoram a mediocridade do passado, enquanto se banham nas feéricas luzes da esperança.
             Nesse mundo de gente de pouca fé, como aproveita a todos o mergulho nos ares radiosos de margem gloriosa, construída nas sapatas das crianças, nos campos de pouca grama e muita determinação, nesses ares límpidos que desconhecem as dúvidas, o medo e as enganosas diversões que pensam contornar  trabalho e  esforço aturado.
             Uma equipe a atravessar os campos de outras terras, cuidando de preservar a fé da criança, que não conhece outras balizas que a própria determinação.
             No uniforme a Chapecoense traz o verde que não é só esperança, mas a concretude da realização, ali, ao alcance da mão, como o mostra a travessia de um time havido por modesto, e, no entanto, disposto a ir tão longe quanto lhe acena a vontade, a determinação, e a fé de todas as crianças, que no límpido olhar e na firmeza ingênua de que o querer a levará sempre mais à frente, sem dúvidas nem temores, o móbil farol de um desejo grande que ignora no sorriso sem fronteiras da criança limites, barreiras, dificuldades.
                A Chapecoense não tem medo das pedras no caminho. Em uma terra cética e desunida, ela pede licença para fazer-se acompanhar da esperança.
                Como um raio de luz, em céu azul, sem nuvens, sob o verde tapete dos campos e das matas ciliares, a sua hora e vez há de persistir, arrimada no sorriso aberto e acolhedor dos jovens e dos pequenotes. Porque o futuro é deles, e ninguém, mas ninguém mesmo, sequer pensará em desfazer desse imenso campo, cercado por gente alegre, a festejar pelos novos tempos de uma Chapecoense que será eterna enquanto viverem as crianças e nelas acreditar o mundo da gente grande.



( Fonte: Carlos Drummond de Andrade ) 

Mudam os ventos ?

                                        
         Como interpretar a aceitação da denúncia feita pela Procuradoria Geral da República de Renan Calheiros, Senador pelas Alagoas, do PMDB, que surgira faz tempo na política com o grupo do então presidente Fernando Collor, o primeiro a sofrer impeachment pela questão do Fiat Elba?
        É de causar espécie o tempo transcorrido para que Sua Excelência se tornasse réu. Ainda por cima, há questionamentos generalizados sobre a demora da PGR em apresentar a denúncia (levou cinco anos).
        De qualquer forma, se muitos juízes avaliaram que a denúncia não era um primor (Teori Zavascki, Carmen Lúcia e Luiz Fux), outros, como Luís Roberto Barroso e Rosa Weber a acharam aceitável, como também o próprio relator, ministro Edson Fachin.
       Houve uma trinca de ministros, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, que discordou. Aliás, Toffoli se valera anteriormente do notório recurso do 'pedido de vista' do processo, para sustar a  votação pelo Supremo de que réus não possam entrar na linha sucessória constitucional (a Corte, em sua maioria, já aprovou a proibição de que réus do Supremo não possam entrar, mas o estranho pedido de vista de Dias Toffoli impede que vire norma uma disposição tão lógica quanto éticamente válida).
        O recurso do pedido de vista carece de ser regulamentado pelo Supremo. Tem havido abusos - existiria um pedido que chegou a durar mais de ano - e de toda forma, se a vista do processo é admissível, por motivos tautológicos, o que não o é, constitui  o seu abuso, em que a vista do processo não passa de  expediente de subtraí-lo a que a maioria da Corte chegue a uma decisão. Carmen Lúcia me parece presidente com autoridade e firmes princípios éticos para enfrentar esse vespeiro.
         O STF é uma corte de respeito, e o pedido de vista deve servir ao real propósito de informar-se melhor. De qualquer forma, não é sério que ministros dele se sirvam, sem o limite de qualquer prazo. Um mês seria o tempo máximo de subtrair a questão ao exame da Corte.
         Os abusos no pedido de vista têm de ser coibidos. Salvo pelo gongo de Toffoli,  Renan Calheiros pode continuar a agarrar-se à prestigiosa curul da  presidência do Senado.
         Seria melhor que, como já o deseja a maioria de nossa Suprema Corte, Renan, ao virar réu, fosse afastado da presidência. São claros os motivos que tornam essa saída da presidência como a consequência natural.
         Mas será que Renan  ouvirá esse surdo clamor?


( Fonte: Folha de S. Paulo )                                           

Em marcha a recontagem

                    
            Nos estados de Michigan, Wisconsin e Pennsylvania,  a pedido da candidata do Partido Verde, Jill Stein, ou está já em processo, ou deve logo começar a recontagem.
       
        A reação do candidato até agora considerado vencedor no Colégio Eleitoral - perdeu, no entanto, por milhões de sufrágios no voto popular - vem provocando reações de surpresa nos democratas. Como alguém que declara não ter dúvidas sobre a legitimidade da respectiva vantagem no cômputo eleitoral, demonstre tanta inquietude e mesmo preocupação quanto à realização da recontagem, desvela   uma  contradição  de uma evidência bastante óbvia.                                                                                                                                                                                                                                                                       .         Em verdade, os delegados republicanos, pelos seus frenéticos esforços de sustar a recontagem, só contribuem para aumentar a suspicácia de que  tanta ansiedade deva ter alguma sólida razão para explicá-la de forma mais convincente de que as genéricas razões atinentes a supostos gastos com desnecessários propósitos.
          Na verdade, a recontagem foi lançada pela candidata Ms. Jill Stein, que empreendeu notável esforço para levantar  milhões de dólares. As suspeitas da candidata presidencial se devem notadamente à circunstância de que os três estados em tela - Wisconsin, Michigan e Pennsylvania - sempre votaram em eleições recentes por candidatos do Partido Democrata. Além disso, o candidato presidencial republicano venceu nesses estados por estreitíssimas margens, o que terá contribuído para aumentar as dúvidas e mesmo suspicácias quanto a possíveis  interferências abusivas.
           Por outro lado, a ansiosa reação do campo republicano levanta ainda mais suspeitas de eventual jogo sujo, além de  não refletir uma postura de confiança no resultado dessa recontagem, o que seria a postura a esperar de um partido que nada tenha feito de que possa envergonhar-se. Com efeito, o que o GOP está querendo é pôr uma pedra em cima dos trabalhos da recontagem das cédulas de votação, o que é oposto da atitude de quem nada fez de errado e, por conseguinte, nada tem a temer...
            Ora, se os republicanos não têm dúvidas sobre o triunfo de Trump nesses três estados, é estranhável a tática empregada de procurar sustar a contagem dos votos. É este o objetivo do Procurador-Geral do estado de Michigan, o republicano Bill Schuette, ao ponto de chegar à ridícula ameaça aos eleitores de que venham a provocar um gasto de milhões de dólares na recontagem, e ainda por cima percam a sua voz no Colégio Eleitoral.
              É difícil encontrar um argumento mais torpe do que este. Se a  recontagem dos votos em Michigan restabelecer a verdade eleitoral, com a vitória de Hillary Clinton, aí sim que o estado teria voz determinante no Colégio Eleitoral, vale dizer, afastada a burla da vontade popular, se restabeleceria a verdade eleitoral. Não seria decerto pouco.


( Fonte: The New York Times )                                                       

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

E a economia, hein ?!

                             
        Provocou desconforto o recuo do Produto Interno Bruto (PIB), no terceiro trimestre. Para surpresa de muitos, a queda é intensa e disseminada. O retrocesso é de - 0,8% no trimestre. Já no segundo trimestre a queda fora menor (- 0,4%). Houve então até pequenas altas na indústria e nos investimentos, mas agora (entre julho e setembro) houve retração generalizada, afetando ainda a agricultura, serviços, exportações, importações, consumo das famílias, gastos do governo e ainda onze dos treze subsetores avaliados pelo IBGE.
         O resultando, vindo pior do que o esperado por analistas, e eles agora já não descartam a possibilidade de estagnação ou até mesmo nova retração em 2017, ainda que o cenário básico seja de crescimento.
         Dessarte, o país caminha para registrar  sua recessão mais longa e intensa da História recente. Em verdade, supera até mesmo as crises de 1981 a 1983 (que ajudaram a derrubar o regime militar). Então houve até moratória da dívida externa, e de 1989 a  1992, o erro grotesto do recurso ao confisco de Collor, que tantas desgraças e infelicidades provocou. É estranho que um período tão marcado pelo discricionarismo econômico (um exercício cruel, inútil e ao cabo desastroso) do irresponsável confisco do Governo de Fernando Collor, sob a orquestração da Ministra Zélia.
        Para que se tenha idéia do retrocesso sofrido, o PIB brasileiro retorna ao patamar de seis anos atrás! O resultado acumulado em doze meses ficou negativo  em 4,4%. Foi um pouco melhor do que o tombo anterior de 4,8% no segundo trimestre.
         O horizonte para a saída dessa recessão está bastante enfarruscado. De onde virá a força para a retomada na economia?  As dúvidas aumentam com o setor externo que se vê prejudicado pela queda do dólar.  Por sua vez, o consumo das famílias - com sete trimestres de queda - se acha restrito pelo desemprego e pela queda na renda.
          As previsões da ING Global Markets antes previa um crescimento de 1,7% para 2017. Agora, a estimativa encolhe par 0,9%.
          As projeções positivas para a economia em 2017 são algo favoráveis.  A safra de produtos relevantes deve crescer dois dígitos. A agricultura sozinha representa só 5% do PIB, mas o agronegócio como um todo espera um cenário mais favorável em 2017.
           Há esperanças quanto ao setor automobilístico, de propriedade estrangeira. Se for mantida a média de oito mil unidades/dia em 2017, as vendas de automóveis e de comerciais leves subiriam de 5%.


(Fonte:  Seção econômica de O Globo)  

O Brasil é mesmo um país sério?

                              
         Não é de hoje que pesa sobre o Brasil o juízo do general de Gaulle: c'est pas un pays sérieux.[1] Estávamos no começo da década dos sessenta do século passado, e o presidente da França invectivava contra o Brasil por motivo da chamada guerra da lagosta. O episódio, felizmente, incendiou mais as páginas dos jornais de então, do que algum incidente militar. Ficou das brumas desse passado a invectiva do herói francês da IIª Guerra Mundial, e um período em que as relações franco-brasileiras ficaram com missões diplomáticas chefiadas por encarregados-de-negócio.
          O que ficou mesmo na memória nacional é o doesto: o Brasil não é um país sério.  O orientalista Edward W. Said, libanês, mas que terminou a vida radicado nos Estados Unidos, pensou definir a nossa terra como, ou  igual à Nigéria, sem grandes marcas (non-descript country). Outros nos taxaram como o país do carnaval e do futebol. Até mesmo nisso, o campo está aberto para dúvidas, como assistimos, tão estatelados quanto o técnico Filipão, aos sete a um de Belo Horizonte.
           Na nossa história, há noites de garrafadas, da derrubada do primeiro Imperador, e do despertar grosseiro do velho Imperador, por militar de baixo escalão, pois os cabeças do golpe tinham pressa de embarcá-lo rumo ao exílio. Envergonha-nos até hoje a cavalgada   latino-americana de um barbudo marechal a desembainhar uma ridícula espada, em mais um triste pronunciamiento. Um hispano-americano disse então, com irônica e nostálgica propriedade, que caía a única república latino-americana.
             Pois não é que a Câmara de Deputados se aproveita de uma longa noite suja e vara a madrugada, não para tratar de grandes temas, mas para aproveitar-se da oportunidade de contrariar a esmagadora maioria do Povo brasileiro, para votar pacote amarfanhado, sob a liderança de um senhor de nome Weverton, do Maranhão que já foi berço  do maior poeta brasileiro Antônio Gonçalves Dias (1823-1864), embora hoje ainda persista sob  o feudo de José Sarney.
             Dentre os colunistas, talvez a palma caiba a Miriam Leitão, a encarregada da análise econômica, que é a mais política e contundente de todos  ao dizer-nos a verdade: Congresso afronta o país ao desfigurar um projeto popular.
                As tragédias podem acabar em pastelão, pois o que pareceu a ignóbil tentativa de quem, da sua curul  no Senado, pensou entrever a ansiada salvação, justamente dele, Renan Calheiros, sobre quem pende uma penca de processos a que o Supremo deveria cuidar de não mais procrastinar, para não dar ulterior razão ao velho general de brigada, que por cúmulo se chamava de Gaulle.
                 Esses atos como o da madrugada de ontem carecem dos lençóis da noite para que os seus fautores os embalem.
                 Mas não é o caso de correr para confirmar essa noitada, como se fora  escrita para nossa vergonha e opróbrio. Dissipados os véus da noite, é hora de reagir, de trazer para as luzes da verdade e de um Brasil melhor, essa criatura, embalada por Weverton, e uns tantos outros destinados ao quintal da história, para que essas insanas pretensões, que estão na contramão da História, venham a ser varridas por panelaços e por ventos da opinião pública, que está cansada das loucas tentativas de trazer de volta a terra das vigarices e das  falcatruas.
                 Panelaços neles que a hora das brincadeiras e das artimanhas petistas já passou!

( Fontes:  O  Globo, Folha de S. Paulo, Enciclopédia Delta-Larousse.)               



[1] Não é um país sério.