segunda-feira, 7 de março de 2016

Panorama Democrata


                     
          O Senador Bernie Sanders  venceu no Maine, que é vizinho ao seu estado - Vermont - e tem perfil mais liberal que, nessa eleição, o tem favorecido contra Hillary.

          No entanto, o ulterior  debate travado entre Hillary Clinton e Bernie Sanders mostrou vantagem de Hillary.

           Bernie atrapalhou-se um tanto ao se referir a um aspecto em que  a  rival é especialmente forte.  A sua versão do empenho contra o segregacionismo não poderia deixar de mostrar alguma fraqueza do Senador por Vermont, eis que o respectivo empenho na luta em favor  dos afro-americanos não é uma área muito luzente na trajetória de Bernie Sanders.

           Em consequência disso, Hillary transmitiu a impressão aos espectadores de que havia prevalecido na justa verbal.

           Como candidata favorecida - ela tem amealhado até agora vantagem apreciável nas primárias - o interesse básico de Hillary será o de preservar o respectivo avanço, logrado no conjunto das últimas primárias, de modo a repetir a performance de Obama em 2008, vale dizer, chegar à Convenção com uma boa vantagem em termos de delegados pledged (comprometidos) com respeito ao seu desafiante, porque os superdelegados (que ela os tem em grande número em comparação com o rival), como espécimes volúveis que são, podem trocar de poleiro com demasiada facilidade, enquanto os pledged são trunfos seguros.

            Além disso, ela carece de estar atenta contra escorregões e eventuais gafes, que podem ter efeitos deletérios no apoio colhido até agora, como a história política americana é muita rica em lapsos e despautérios que destruíram fortes candidaturas.    

 

( Fonte subsidiária:  The New York Times )

Dias de Crise

         

         Inicia-se no Congresso e alhures, nova fase da crise que se apossou do país.

         Esse mal-estar é alimentado pela crescente insatisfação da opinião pública, e da própria oposição. Como as acusações ao PT e seu líder não são respondidas - como acentuou a candidata Marina, o PT faz a "apologia do confronto para se defender de acusações" - a tensão só tende a aumentar, porque partir para a violência verbal, com a implícita ameaça de agravar a 'resposta' do confronto, só tende a enfatizar a vacuidade da alegada resposta de Lula e Dilma às imputações específicas que lhes são feitas.

         Além de brandir tais falsos argumentos - pois a violência em todas as suas formas é o anti-argumento, aquele que costuma corroborar ao invés o que se lhe imputa.

          Entrementes, contra os anti-argumentos dos dois líderes - Lula voltando de seu depoimento na sala da P.F. do aeroporto de Congonhas - e Dilma se declarando "indignada" contra as concretas assertivas constantes do depoimento de Delcídio Amaral para a delação premiada - a oposição e a quase-oposição vão perdendo a paciência.

         Aquela inicia no Congresso a partir de hoje o bloqueio da pauta dos trabalhos. Coordena-se a oposição para forçar, da tribuna, a instalação da Comissão do Impeachment.

          Isso requer esforço redobrado das forças oposicionistas para, da tribuna, impedir através do bloqueio da pauta do Congresso, que continue a prevalecer a tática petista (e de suas forças caudatárias, como o PCdoB) de empurrar a crise com a barriga, tentando, através do ganho de tempo, esvaziar a dinâmica da oposição.

          Esta, por sua vez, tem de forçar através de pressão que atrapalhe a tramitação do dia-a-dia congressual (a manutenção da rotina é essencial para o situacionismo, não só por ganhar tempo, mas também e sobretudo, para tentar que a pressão das ruas não se concretize no plenário do Congresso).  

           Interessa ao PT o chamado confronto vazio, através da rouca indignação do velho capitão nas salas de público simpatizante, enquanto se contempla o tempo passar na esperança de que a raiva popular, como a água da fervura, vá aos poucos baixando. Para quem não tem argumento, nem chaves mágicas para baixar a pressão da cólera popular, o tempo será a divindade a cujo altar hão de acorrer os que estão despojados de argumentos de valia.

             Assim, enquanto Dilma, cujas limitações são eloquentes, só pode balbuciar ou berrar que está 'indignada' (o timbre vai depender da audiência), Lula recorre à estratégia do tribuno que é, apresentando as suas alegadas 'respostas'  diante de público já sedento pelas 'verdades' do chefe.

             Marina está certa e põe o dedo na ferida, quando exproba a estratégia petista de fazer a "apologia do confronto para se defender de acusações". Esse tipo de anti-resposta, na verdade, não leva a nada, pois nada pretende esclarecer. Quem não tem outro argumento do que a tática dilatória, está passando a própria confissão de tácita confirmação dos fatos que lhe são imputados, através desse recurso ao anti-debate. Quem disso não pode prescindir, está admitindo ipso facto as acusações que lhe são imputadas.    

              O escopo do bloqueio da pauta é o de forçar o Congresso a instalar a Comissão do Impeachment. Tenha-se presente, porém, que pela última decisão do Supremo, foi acolhido o estranho parecer do Ministro Luiz Roberto Barroso, que favorece as forças de Dilma. Como altas figuras jurídicas já asseveraram, as principais modificações introduzidas pelo parecer Barroso desrespeitam o artigo 2 da Constituição - independência e harmonia entre os três Poderes - assim como se chocam com a imposição do voto aberto (quando o secreto seria o recomendável), a par da precedência dada ao Senado sobre a Câmara, em detrimento desta última, que é a mais direta representante do Povo. Pelos embargos de declaração é possível a modificação do parecer - sendo apoiada por grandes vozes constitucionalistas, inclusive antigos membros do Supremo - mas, dadas as incógnitas, nos tempos de tais decisões, não se pode garantir que a tese mais acertada, recomendada pelas maiores autoridades, venha a prevalecer.

                Está também por ocorrer a homologação da delação premiada do ex-líder no Senado, Delcídio Amaral (V. no blog de ontem o resumo dessa delação, que infunde grande tristeza pelo nível ético e moral que ora prevalece em Brasília, com os "argumentos" utilizados pelo governo petista de Dilma Rousseff  ).

                 Por último, o Vice-Presidente Michel Temer torna a ocupar a tribuna e fala em reunificar o país contra a crise. Desta feita, a Presidente Dilma não é sequer citada no discurso do Vice-Presidente. Segundo o Vice-Presidente, o Brasil precisa de "unidade" e "reunificação" para sair da crise.

 

( Fontes: O Globo, Folha de S. Paulo, IstoÉ )

domingo, 6 de março de 2016

Lula, Dilma e ... Delcídio


                                   

        A revista Isto É, em número exclusivo, proporcionou aos leitores do Brasil, a rara oportunidade de informar-se sobre um verdadeiro escândalo que é a série de notícias proporcionadas pela reportagem 'A Delação de Delcídio'.

         A aparente desimportância que a cúpula petista dera à detenção de um Senador da República e ainda por cima líder do Governo no Senado - e a maneira peculiarmente agressiva com que fora tratado, depois de lançado à prisão, por medalhões do único universo que para eles  conta, i.e. o poder petista em Pindorama -  poderia dizer alguma coisa - em termos freudianos - do nervosismo da Nomenclatura, no que tange às respectivas possibilidades do escândalo em termos nocivos para o que só lhes interessa, i.e., o governo de Dilma Rousseff e a sua subordinação ao maximato de Lula da Silva.

         O que tem ultimamente tirado o sono desses magnos personagens é recente invenção das autoridades da Justiça, notadamente a P.F. (polícia federal) e o M.P.F. (ministério público federal). São os chamados acordos de delação premiada, que tem aberto para as autoridades policial e judicial a ambicionada porta secreta para revelações antes impensáveis dos elementos às voltas com as malhas da lei.

          Primo, expliquemos o que não é a chamada delação premiada. Quando em viagem aos Estados Unidos, Dilma Rousseff fez questão de exprobar aos que se serviam desse recurso, que os igualaria, no seu entender, a verdadeiros traidores da pátria, como Joaquim Silvério dos Reis, que foi o delator da conjura da Inconfidência Mineira.

          Secondo, de um certo modo o argumento de Dilma ou é de notável indigência intelectual (ao confundir a delação premiada com a traição à pátria, como no caso acima),  ou - o que é ainda pior - presume a falta de raciocínio de parte popular, o que implicaria na confusão dos dois tipos de delação - trocando em miúdos, a própria utilização desse meio para tentar desmerecer da delação premiada já implica ou em má-fé, ou limitação intelectual.

             O vazamento da delação premiada de Delcídio traz no seu conteúdo inúmeros motivos para acionar o impeachment. As tentativas são tantas que vou permitir-me elencar alguns dos crimes de responsabilidade cometidos pela Presidenta: "Dilma tentou por três ocasiões interferir na Lava Jato, com a ajuda do ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Dentre essas tentativas, a começar pela reunião em Portugal com o presidente do STF, Ricardo Lewandowski. "A primeira investida do Planalto para tentar alterar os rumos da Lava Jato salta aos olhos pela ousadia: o encontro realizado em 07/07/2015 (18 dias após a prisão de Marcelo Odebrecht e Otávio Azevedo) entre Dilma, José Eduardo e o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, numa escala no Porto (Portugal), para supostamente falar sobre o reajuste  de verbas do Poder Judiciário.(...) A razão principal do encontro (...) foi a mudança nos rumos da Lava Jato. Contudo, a reunião foi um fracasso, em função do posicionamento retilíneo do ministro Lewandowski, ao afirmar que não se envolveria. A segunda também fracassou: o Dr. Trisotto,o ministro convocado para o Superior Tribunal de Justiça (STJ) se negou a votar pela libertação dos acusados: Trisotto se negou a assumir tal responsabilidade espúria. Após os dois fracassos anteriores se recorreu à nomeação de Marcelo Navarro, desembargador do TRF da 5ª Região, muito ligado ao ministro e presidente do STJ, Dr. Francisco Falcão. Tal nomeação seria relevante para o Governo, pois o nomeado entraria na vaga detentora de prevenção para o julgamento de todos os habeas-corpus e recursos da Lava Jato no STJ. Na semana de definição, Delcídio esteve com Dilma no Alvorada para conversa privada. Enquanto caminhavam pelos jardins do Palácio, Dilma solicitou que Delcídio conversasse com o desembargador Marcelo Navarro a fim de que ele confirmasse o compromisso de soltura de Marcelo e de Otavio... Em reunião em saleta de espera no Palácio do Planalto, no andar térreo, muito rápida pelas implicações de o que se tratava, o Dr. Marcelo ratificou seu compromisso, alegando inclusive que o Dr. Falcão  já o havia alertado sobre o assunto.(...) Em recente julgamento dos habeas corpus impetrados no STJ, confirmando o compromisso assumido, o Dr. Marcelo Navarro, na condição de relator votou favoravelmente pela soltura dos dois executivos (Marcelo e Otavio). Entretanto, Dilma sofreu outro revés, e por 4x1 contra a posição do relator, eis que as prisões foram mantidas pelos outros ministros da 5ª turma do STJ...

            Tratemos agora de outra parte da delação premiada do  Sen. Delcídio do Amaral (PT-MS). Reporto-me à Enferrujadinha, a Refinaria de Pasadena que só a protérvia de quem se sente acima de qualquer risco poderia induzir a recomendar e/ou aprovar uma operação de compra. Segundo o Senador, Dilma - então presidente do Conselho de Administração da Petrobrás - sabia que por trás da compra da Refinaria de Pasadena havia um esquema de superfaturamento para desviar recursos da estatal.  Ela poderia ter barrado as negociações, mas os contratos foram aprovados pelo Conselho de Administração em tempo recorde e a Petrobrás teve um prejuízo de US$ 792 milhões, como foi comprovado pela Lava Jato e pelo TCU.  

                  Por fim, um tema que concerne ao ex-presidente Lula.  A CPI do CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais). Delcídio afirmou aos procuradores da Lava Jato que, como líder do Governo, foi pressionado por Lula para que Mauro Marcondes e Cristina Mautoni não fossem depor na CPI que apura a venda de Medidas Provisórias.  Delcídio revelou que o ex-presidente temia que o casal pudesse implicar seus filhos no escândalo. Assim, "por várias vezes o próprio Lula solicitou a Delcídio que agisse para evitar a convocação do casal para depor perante a CPI. Lula alegava que estava muito preocupado com eles. Mas, em verdade, Lula estava preocupado com implicações à sua própria família, especialmente os filhos Fábio Luiz Lula da Silva e Luiz Cláudio Lula da Silva. Esse fato foi confirmado a Delcídio  por Maurício Bumlai, que conhece muito bem a relação dos familiares de Lula com o casal. Em resposta à insistência de Lula, Delcídio, como líder do governo no Senado, mobilizou a base do governo para derrubar os requerimentos de convocação do casal na reunião ocorrida em 05/11/2015, onde logrou êxito."

 

( Fonte: IstoÉ, Grande Enciclopédia Delta-Larousse )

Colcha de Retalhos D 9

                             

Primárias republicanas

 

      O assim chamado Super-sábado - que é rival apagado da badalada Super-Terça - teve como protagonista o Senador Ted Cruz, com vitórias no Kansas e em Maine.

       No seu discurso de vitória, Cruz sublinhou o progresso feito na luta contra o populista Donald Trump, que venceu na Lousiana e no Kentucky. Ted Cruz amealhou pelo menos mais quinze delegados nessas primárias do que o front-runner Trump.

       Por outro lado, o Senador pelo Texas sugeriu aos seus companheiros de partido - o Senador Marco Rubio e o governador John Kasich - que saíssem da disputa, visto que estariam fazendo a parte de Trump, negando-lhe mais delegados na sua luta pela nomination do GOP.

        O Senador pela Flórida, Marco Rubio, está tendo desempenho bem abaixo das suas ambiciosas expectativas. Continua a ter baixas contagens de apoio e enfrenta na próxima semana a perspectiva de humilhante derrota no seu estado da Flórida, o que em termos práticos acabaria com as próprias remanescentes ilusões de ser o nominee (designado pela Convenção do GOP).

        Por outro lado, o governador John Kasich, do Ohio, parece ser o de uma nota só. Aferra-se à batalha pelas primárias, apesar de desempenho bastante medíocre,  na esperança de abafar no seu estado natal. É o que será decidido muito em breve. 

 
Primárias democratas

 
         A preponderância de Hillary Clinton entre os eleitores negros e no Sul profundo continuou a pesar favoravelmente na respectiva campanha. Assim, a despeito do rival Senador Bernie Sanders ter vitórias nos caucus de Nebraska e Kentucky, bastou a Hillary ganhar na Lousiana - o estado com maior número de delegados - para que continue a levar vantagem nesse campo determinante para o sucesso na Convenção de Charlotte.          A fraqueza do Senador Sanders enquanto a apoio de minorias lhe vem custando caro, eis que vai ficando para trás na coleta dos delegados para a Convenção Nacional Democrata, prevista para referida cidade de Charlotte, na Carolina do Norte.

           Por enquanto, o comportamento de Hillary Clinton nas primárias espelham o desempenho de sua nêmesis em 2008, Barack H. Obama.

            A força da democrata junto às chamadas minorias - latinos, negros - que também apoiam ao Presidente Obama tem marcado o seu desempenho nas primárias democratas. Bernie é o queridinho dos jovens e até de parte do eleitorado feminino, mas esses trunfos por enquanto não tem pesado na bolsa da campanha, de forma a deter o avanço da front-runner Clinton.

 
Artigo do Times sobre a revolução na Líbia

           

               Publicado em dois segmentos, em fevereiro último, tal artigo - a que me havia referido anteriormente com sinalização de cautela - me surpreendeu de forma favorável.

                A transição líbia - do enfraquecimento do ditador Kaddafi à sua queda e posterior assassínio - representou decerto um enigma para a liderança em Washington, no que toca sobretudo ao Presidente Obama e à Secretária de Estado  Hillary Clinton.

                As dificuldades do momento não devem ser minimizadas. A par disso,  erros decerto foram cometidos pela liderança em Washington quanto à preparação do pós-ditador cel. Muammar el-Kaddafi.

                Confiou-se, decerto, demasiado nos líderes políticos líbicos. Os muitos anos da ditadura de Kaddafi não passaram em vão, no esvaziamento de eventuais sucessores com cacife para assegurar a transição.

                O artigo é descrição equilibrada do significado desse desafio para o Ocidente e, em particular, para Washington e a Administração Obama.

                 No que tange à Secretária de Estado, a avaliação de seu papel me aparece apropriada.

                  Não há dúvida que até hoje o mundo - sobretudo o entorno mais próximo - esteja sofrendo os efeitos da disponibilização excessiva do armamento que fora armazenado durante tantas décadas pelo ditador.  Uma das falhas na crise líbica foi não atentar adequadamente para esse risco, que se comprovou infelizmente, como se tem notado no largo entorno da Líbia.

                     O tratamento que se deu ao pós-Kaddafi pode ser visto como manual prático a não ser seguido em outras crises que porventura apresentem alguma semelhança com o posterior caos líbio.

                     Por outro lado, os republicanos, sobretudo a sua Câmara Baixa, têm intentado por todos os meios possíveis inculpar a Secretária de Estado Hillary pelo covarde assassínio do pobre embaixador Christopher Stevens, covardemente abatido pelos facínoras líbicos, ao deixar o consulado americano em Benghazi, na noite de terça-feira, onze de setembro de 2012. Outros três funcionários americanos morreram nessa ocasião.

                      Esse tenebroso exercício das audiências supostamente investigativas foi repetido várias, na verdade demasiadas vezes, e para desgosto dos deputados do GOP, nada lograram no que tange a retirarem lôbregos ganhos políticos à custa de eventuais responsabilidades da então Secretária de Estado, Hillary Clinton. Como é notório, as atenções republicanas contra ela não se dirigem à ex-Secretária de Estado, mas sim à pré-candidata democrata à Presidência. Como os sôfregos picadores das touradas, o que os deputados republicanos perseguiram - e saíram de mãos abanando - foi alcançar algum proveito político (erros da pré-candidata presidencial, a serem eventualmente utilizados na campanha presidencial). Nunca se gastou tanto dinheiro público com finalidade inconfessável, do que nessas pretensas investigações da Câmara.

                       No que tange à experiência americana com a mudança de regime na Líbia - dada a situação presente, em que os  fracos governos civis  da Líbia - que não dispõem na realidade de força armada - são títeres nas mãos das super-armadas milícias - é de esperar-se que possa haver internamente quem possa dominar os mecanismos estatais e introduzir um modicum de ordem naquele país.
                      
                       A falta de um Estado digno desse nome e que tenha condições de dispor de suporte armado a ele diretamente subordinado - e não a ter proteção precariamente montada graças a pagamentos às ditas milícias - é  requisito sine qua non para que possa haver um Estado soberano, e por conseguinte forte, que controle efetivamente o cenário interno, ao invés de ser dele  dependente.

                       Por enquanto, a Líbia tem sido um verdadeiro núcleo de desestabilização regional, máxime pela ação de milícias corruptas que agenciam o rendoso tráfico humano de refugiados, que buscam um suposto eden do outro lado do Mediterrâneo. Muitos têm aprendido de forma amarga e mesmo fatal, o que representa essa corrente humana em frágeis embarcações, conduzidas por gente que tem ainda menos apreço a carga dessa migração do desespero, de que os chacais que cuidam do tráfico entre o México e o eldorado americano.

 

( Fonte :  The New York Times )  iHH

sábado, 5 de março de 2016

A vez de Dilma


                                 

        Há interpretações distintas na grande imprensa quanto à posição de Dilma Rousseff, diante da condução coercitiva de Lula da Silva - seu guia e criador - determinada pelo juiz Sérgio Moro. Não há negar o sucesso da operação, referendada pela Ministra Rosa Weber, embora tenha havido voz dissidente, a do Ministro Marco Aurélio. Dada a posição deste último, e as respectivas opiniões, permanece o apoio institucional do Supremo à postura do juiz Sergio Moro.

         Será o fim do projeto do PT, como refere Eliane Cantanhêde, analista política do Estadão?  Segundo ela, "a condução coercitiva de Lula e de seu primogênito, Fábio Luiz, não foi nenhuma surpresa no mundo político, mas é daqueles fatos que todo mundo espera, mas quando acontecem, são como uma explosão atômica."

         A sua dedução pode parecer evidente: "Com Lula depondo na Polícia Federal e acossado, junto com a Presidente Dilma Rousseff, pelas acusações de Delcídio Amaral, não há outra conclusão possível senão a óbvia: é o fim do projeto do PT."

         A reação de Dilma ao impensável (sobretudo para a nomenclatura petista) da operação Lava-Jato afinal não só batendo à porta, mas levando o ex-presidente para responder a perguntas, por condução coercitiva, deu vaza a interpretações contrastantes, Enquanto certos órgãos assinalam que a Presidente saíu em defesa de Lula (Estadão), o Globo sublinha que ela "defende Lula, mas dedica mais tempo a rebater Delcídio".

          Nesse contexto, a Presidenta declarou-se "indignada" e inconformada com o  alegado vazamento seletivo da peça acusatória do Senador Delcídio Amaral. São conhecidas as limitações de Dilma Rousseff, limitações essas que por consequência natural se estendem ao respectivo ministério, que é por certo um campeão da mediocridade republicana.

          Nos escalões políticos, a importância do ministério não se marca obviamente pelo número, pois em política como em tudo o mais, a inchação não pode confundir-se com a qualidade.  Por outro lado, as características dos titulares - e as exceções são microscópicas - refletem a falta de valor objetivo de quem, em hora crepuscular, foi chamada a pensar o Brasil. Pois é esta a atribuição principal de chefe de governo. Infelizmente, pensar uma nação, constitui atividade que não aparece todo o dia. Por isso, José Ingenieros se esforça em frisar que os medíocres podem ter valor. No entanto, esse elogio da mediocridade é também o reconhecimento de suas extremas limitações.

            Aqui, não é o lugar para reconhecer qualidades a quem não as tem, em especial aquelas que marcam o Primeiro Servidor do Estado, e a sua capacidade de deixar a respectiva, indelével marca.

             Depois de avançar de forma animadora, o processo do impeachment dorme sono agitado, eis que grande parte da população continua desejosa de que vá a termo. O quero já, do jovem D. Pedro II, cabe aqui e como!

              No seu caminho, no entanto, talvez a maior pedra tenha sido jogada pelo jeitoso Ministro Luís Roberto Barroso. O mais recente Ministro, Edson Fachin, impressionara a muitos pela qualidade de seu voto-parecer, ao ensejo da ação movida pelo PCdoB - que é uma sucursal do PT. Assim como no México,o PRI dispunha de partidos menores, que se ocupavam de questões  que, por vezes, o então regime mexicano do PRI preferia agir por provocação menos do que por iniciativa própria.

               Com o seu voto-parecer, o Ministro Barroso  (o do ponto fora da curva) pensara deter a tramitação do impeachment. Sem embargo, atualmente essa questão está atravessada no nosso Supremo, eis que fez prevalecer tese que vai contra o artigo 2 da Constituição (os três Poderes da União são independentes e harmônicos entre si), além de ter barrado o voto secreto na constituição da Comissão Especial, quando o sigilo do voto é no Legislativo o procedimento a ser adotado, para proteger a liberdade de opinião !  Além disso, Sua Excelência detonou as candidaturas avulsas, em outra suposta 'correção' de o que o Legislativo predispusera. Com o mal-estar criado por tal intromissão de um Poder no outro, mormente em questão da relevância do impeachment, a habilidade do ministro Barroso acabou por entornar o caldo e nesse momento não se sabe como se há de resolver tal questão.

                  Como no caso de Dilma, para quem a mediocridade política terá sido a chave principal para que Lula da Silva a tirasse da algibeira, a questão mais importante será saber como se há de resolver a petição assinada por varões do valor e da qualidade de Hélio Bicudo, e do professor Miguel Reale Júnior.

                   A Câmara de Deputados, na qual se encontra a petição, atravessa momento peculiaríssimo, no que tange à sua direção, eis que o deputado Eduardo Cunha foi declarado réu pela unanimidade dos membros do Supremo. Sem embargo, a fraqueza de seu Presidente, eis que não constitui apenas um risco a circunstância de que os seus dias à frente do plenário estão contados, não deve de nenhuma maneira  afetar o processo do Impeachment. Salta aos olhos a sua necessidade urgente, mas o governo do PT só pensa em salvar-se, quando há uma pluralidade de fatores que mais do que grita, berra pela necessidade nacional de que a matéria seja atendida e prontamente, sem maiores delongas.

                     Tudo clama pelo impeachment de Dilma Rousseff. O seu despreparo, a decorrente situação do Brasil - a nossa economia é a terceira do mundo em estado falimentar: antes de nós, apenas, a pobre Ucrânia, dilacerada pela guerra civil, pela perda ilegal de uma província (Criméia) e por uma condição de quase-guerra com a Federação Russa de Vladimir Putin, que fomenta a oeste movimentos separatistas. E qual o outro país que se acha abaixo do Brasil?  A pobre Venezuela de Nicolas Maduro, abatida pela colossal incompetência do chavismo, pela enorme corrupção dos costumes republicanos, tudo isso conjugado com o inelutável desmoronamento da economia.

                       Correm contra Dilma Rousseff também ações no Tribunal Superior Eleitoral, e que, se aceitas pelo TSE, determinariam o pronto afastamento do governo de Dilma, com a cassação de sua licença.

                        De uma forma ou de outra - e a delação de Delcídio Amaral pode transformar-se pela sua gravidade no que tange a Dilma Rousseff na pedra final para que esse desastrado governo conheça o seu término,sendo a ação do Povo e Congresso é indispensáveis. Os estragos produzidos pela dupla Lula-Dilma deveriam pôr fim a um governo que exagera em muitos aspectos, nenhum deles bom, para que continuemos a suportá-lo e deparar esse revertere na fortuna do Brasil.

                          Em tempos de Getúlio Vargas se dizia que ou o Brasil acabava com a saúva, ou a formiguinha acabaria com o Brasil.

                           Hoje a questão é muito mais séria, que vemos refletidas nos milhões de desempregados, na queda contínua da atividade econômica, enfim, na situação atolada no ridículo de que o Pais que se dizia trouxera o futuro para o presente, com a afirmação de sua economia, de sua moeda, de sua gente, eis que, de súbito, despenca no vazio de recessão que ameaça virar depressão, em meio à incompetência e sobretudo a corrupção. De uns tempos para cá a vida política é contínua projeção de escândalos, e de personagens patibulares. Ao invés de grandes temas e conclamações para realizações e situações que dêem prazer e segurança ao brasileiro, o dia-a-dia é uma sucessão de escândalos, com dona Corrupção distribuindo favores.

                             O Brasil é demasiado grande, para continuar deitado nesse miasma de escândalos, com o dúbio perfume da Corrupção.

                              Não podemos mais embalar-nos na crença de que as alianças do PT e de seus governos de ministros anônimos possam estender-se sem que ninguém ouse vir às praças, às avenidas e às janelas para gritar que não só governar é preciso!

                               Vamos reinventar o Brasil e dar um pontapé na corrupção. Temos de abrir as janelas e as portas dos palácios para, com uma vela na mão, sairmos à busca de gente honesta para governar a Terra de Santa Cruz, que disso está muito precisada!    

 

( Fontes:  O Globo, Folha de S.Paulo, Estado de S. Paulo, Isto É, VEJA )

O Efeito Lula


                                                           
        Referida no blog de ontem, e colhida no site de  O Globo,  o espetacular novo desenvolvimento no contexto da Lava-Jato foi a convocação coercitiva do ex-Presidente Lula da Silva.

       Mais uma vez, avultam a energia e tino do juiz Sérgio Moro, que exarou a ordem judicial de colher o depoimento ex-vi do ex-Presidente Lula. A Ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, não acolheu a tentativa dos advogados do ex-presidente de anular o procedimento.

       Faz tempo que Lula aguardava a visita do Juiz Sérgio Moro. Como teve a demora da cautela, o ex-Presidente terá imaginado que o 'perigo' se afastara.

       Mas as questões da Lava Jato se acumulam. Estão aí o imóvel do Guarujá  e o sítio em Atibaia, com vários acréscimos, inclusive a antena para celulares, cordialmente colocada pela  OI , para que o 'dossier' de Lula, com os agrados das  empreiteiras e a entrada em cena dos laranjas, não continue a engrossar.

       Acordado por volta das seis da manhã, em seu apartamento em São Bernardo do Campo, o ex-presidente foi transportado para sala especial,   no aeroporto de Congonhas, aonde foi interrogado pelos procuradores do MP.      

       Sob investigação pelos Procuradores da República se  o ex-presidente teria sido beneficiado com desvios da Petrobrás, assim como em pagamentos por empresas investigadas de palestras e doações ao Instituto, as quais somam R$ 30 milhões (entre 2011 e 2014). Nesse sentido,  a operação cumpriu 33 mandados de busca e apreensão, inclusive em imóveis ligados a Lula da Silva, assim como na casa de Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha.

       Apertando o cerco também ao Instituto Lula - que teria repassado R$ 1 milhão à G4, empresa de um dos filhos do ex-Presidente. A esse propósito, o Procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, asseverou: "Ninguém está imune à investigação, seja aqui, em Curitiba, seja em Brasília". 

       Dentre os elementos colhidos, verificou-se que a empreiteira OAS pagou a mudança do ex-Presidente. Nesse sentido, e durante cinco anos saldou o aluguer de dez guardas-móveis usados para armazenar parte da mudança do ex-Presidente Lula quando ele deixou, por fim de mandato, o Planalto. Nesse sentido, a empreiteira desembolsou R$ 1,3milhão pelos conteineres. No contexto, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto indicou a dita empreiteira como pagante por ser "apoiadora do Instituto."

Conclusões.   

           O que O Globo noticia em página interna "aconteceu. Muita gente ainda duvidava, mas  a Lava-Jato bateu à porta de Lula.  O ex-presidente não foi preso, mas conduzido  por ordem judicial para prestar depoimento, no ponto mais extremo  dos quase dois anos de Lava-Jato, a maior operação de combate à corrupção já realizada no país."

             Ontem, foram reveladas passagens obscuras na existência  do carismático líder popular, que de torneiro-mecânico a líder sindical no interior paulistano, de fundador de partido (o primeiro criado por operários), e na trajetória já demasiado conhecida. O Instituto Lula, cuja presença tem crescido, repassou mais de R$ 1 milhão a empresas dos filhos do petista. Nesse contexto, a Lava-Jato suspeita que a tal entidade - que tem isenção de impostos - tenha sido usada para receber vantagens de empreiteiras investigadas por desvios de dinheiro da Petróleo Brasileiro S.A.

              No que concerne ao sítio de Atibaia e tríplex do Guarujá, não há mais dúvidas de parte dos Procuradores do Ministério Público Federal: ambos colheram a comovente ajuda para a família do ex-Presidente de parte de gigantes da construção civil, especialmente OAS e Odebrecht.

              Determinados os 'agrados' das empreiteiras, a investigação passa a cuidar de estabelecer uma relação entre pagamentos como os acima referidos, e o feirão de contratos de empreiteiras com a Petrobrás.

              Os Procuradores, na tradicional entrevista coletiva à imprensa dada depois de cada fase da Lava-Jato, fizeram questão de enfatizar que "qualquer um no Brasil está sujeito a ser investigado".  Timbraram, no entanto, em acrescentar que, no momento, "não há qualquer motivo para pedir a prisão de Lula", disse o procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima.

                Releva notar, contudo, que o simples fato de mencionar o que não é mencionado, mesmo que sob forma negativa, há a clara admissão que  é uma hipótese presente e que está sobre a mesa.

                  Após deixar a sala da Polícia Federal no aeroporto de Congonhas, Lula seguiu para a sede do PT, no centro de São Paulo. Lá o esperavam, com presumível ansiedade, cerca de duzentos militantes do PT e da CUT. Ao adentrar o salão, a fisionomia caída e abatida cede lugar ao comportamento inflamado do ex-operário e delegado sindical. Em discurso, faz uma defesa seletiva das investigações que sofre, e apela para que os movimentos sociais o defendam.

                   Brilha no olhar a verve do orador sindicalista e depois político, que, cercado pelos companheiros, sai de seu canto e parte para um ataque, decerto desde muito contido. Na reportagem de O Globo, Lula é descrito como encarnando o "animal político" a que se teria referido Aristóteles no intróito da sua obra "Política".

                    Há muita confusão a respeito do termo, mas o meu grande amigo e colega Pedro Neves da Rocha, se cá estivesse ainda entre nós, não falharia em relembrar que Aristóteles, o grande Estagirita, na verdade se teria referido a "ser político" e não a "animal político", eis que o grego antigo admite as duas traduções.

                     O que o grego clássico não admite é traduzir-se  alétheia  por um conjunto de palavras, quando o vocábulo helênico significa simplesmente verdade.

                      A par disso, o ex-Presidente Luiz Inacio Lula da Silva mostrou que, apesar dos trancos e barrancos da vida, e do choque na manhã de ontem, guarda muito vivo o talento de orador, e, em especial, de adaptar-se a uma situação dita difícil ou até mesmo desfavorável para através do verbo e da capacidade do grande tribuno que é, de assenhorear-se com  habilidade de  questão delicada e dela valer-se em própria defesa, captando os mananciais de simpatia que ele vem instrumentalizando há decadas.

                         O seu comportamento no velho cenário sindical reflete essa capacidade, que pode dormitar se porventura atravessar sáfaros caminhos. Mas redespertará breve, nos olhos matreiros, na expressão do orador  que parte em busca de simpatia e sobretudo empatia. Dessas mutações - em que pode estar a força do líder - há muito que ver, se a sua até curta intervenção no sindicato de São Paulo terá sido gravada para o olhar dos pósteros, seja ele interessado ou não.

                           Essa estória mal começa, por isso semelha cedo para que se trace os seus contornos nas brumas do futuro.

 

( Fontes: O Globo, Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo; "Crítica do Animal Político", de P.C. Neves da Rocha  - disponível na internet)

sexta-feira, 4 de março de 2016

Chegando ao fim da linha?


                               

        A notícia não está ainda nos jornais, porque a diligência acaba de realizar-se nesta manhã de sexta-feira, quatro de março de 2016.

        Por ordem do juiz Sérgio Moro, se procedeu à diligência pela Polícia Federal, na casa do ex-Presidente Lula. Segundo noticia o site de O Globo, Luís Inacio Lula de Silva foi detido e conduzido ex vi  (de forma coercitiva) para prestar depoimento, no contexto da operação Lava-Jato.

       Segundo relata fonte do Ministério Público, há indícios de desvios de fundos da Petrobrás feitos em benefício do ex-presidente. Sob a égide da Lava-jato, se inicia a operação alétheia (verdade, em grego clássico).

        Há outras ordens judiciais, que visam ao Instituto Lula, no contexto de sua utilização em questões relacionadas ao interesse do ex-Presidente e da respectiva defesa.

        Haveria também providências quanto ao funcionário Okamotto, que é o encarregado do referido Instituto, a fim de prestar esclarecimentos à autoridade judicial, no quadro do uso crescente desse Instituto em questões de interesse do ex-Presidente Lula da Silva.

 

( Fonte: site de O Globo )