domingo, 17 de agosto de 2014

Colcha de Retalhos B 32


                                         

Crise da Ucrânia

 

           O  enorme comboio enviado pela Federação Russa para as províncias orientais da Ucrânia, em alegada operação de manutenção da paz, foi detido na fronteira pelas autoridades ucranianas.

            A revista do interior dos caminhões apresentou  pontos tendentes a fomentar dúvidas e interrogações, eis que as carretas estavam vazias. As incertezas colocadas pela expedição de um cortejo de tal porte só tenderão a aumentar diante do estranho objetivo de ter veículos que não possuam qualquer carga.

             A suspicácia tende a surgir quanto ao real escopo desse exercício. Não é decerto para transportar brisa que esse exercício está sendo realizado.

              Por outro lado, agrava-se a situação em Donetsk, que vem sendo objeto de bombardeios de parte do poder central de Kiev.

              Pergunta-se qual o objetivo de que se sustente a chamada República de Donetsk, se o maior controle internacional e as danosas consequências para a Rússia das novas sanções do Ocidente contribuem para a queda do movimento separatista?

             Ainda no extremo oriente ucraniano, 23 blindados de transporte do Exército russo atravessaram a fronteira em estrada de terra perto da cidade ucraniana de Izvaryne (ao sul de Lugansk). O presidente Poroshenko declara que ‘parte significativa’ da coluna foi destruída ao atravessar a fronteira. O Kremlin nega a procedência do anúncio, e replica que é um pretexto para impedir a chegada do comboio humanitário.

             Por sua vez, na antiga província ucraniana da Crimeia, anexada em março deste ano pela Federação Russa, se reforça a base militar.  Putin visitou  a Crimeia nesta semana. Em discurso para uma assembleia de notáveis – ministros russos e membros do novel parlamento da Crimeia – o presidente adotou tom conciliatório : “ precisamos nos mobilizar para um duro trabalho em nome da Rússia, mas não para a guerra ou para qualquer tipo de confronto”.   A conferir.

 

Iraque. Al-Maliki anuncia saída.

 

                  Após decerto verificar o próprio extremo isolamento político, consequência de sua coerente tentativa de um governo xiita exclusivo,  o Primeiro-Ministro Nuri al-Maliki veio afinal a público declarar que não tentará o terceiro mandato. Depois de sua forte resistência à ser sucedido pelo igualmente xiita Haider al-Abadi, cuja nomeação pelo curdo Fuad Masum tentou contra-arrestar, seja por procurar instrumentalizar um golpe militar, seja pelo intento de questionar em juízo a constitucionalidade da iniciativa de Masum, al-Maliki parece ter desistido.

                      Dada a personalidade de Maliki, e o seu óbvio gosto pelo poder, gosto esse que não cuidou de fortalecer com uma política inteligente e inclusiva, preferindo justamente o contrário, com o fomento do ódio e da exclusão da comunidade sunita, não tem razão esse homem com comovente inclinação para a ditadura, quando se julga vítima de um conjunto desfavorável de circunstâncias.

                       Se tivesse o dom – importante para um político – da introspecção e da auto-crítica, o Premier al-Maliki teria que convir que errou ao perseguir a comunidade sunita, e agir sempre como se ela estivesse fora do arco constitucional.

                       Convém, no entanto, em se tratando de quem é objeto de análise, que Haider al-Abadi dispõe de trinta dias para as consultas e a consecução do apoio necessário para a ratificação da indicação do Presidente Masum.

                        E é aí que mora o perigo. Conhecendo al-Maliki e seus precedentes, só um ingênuo ou um néscio abaixaria a guarda e consideraria ter assegurada a confirmação como Primeiro Ministro. 

                        É a prova que Haider al-Abadi tem ainda de realizar, para que a sua nomeação, de potencial se transforme em efetiva.

 
Nobel da Matemática para Artur Ávila



             A criação desta medalha partiu do matemático canadense John Charles Fields. Datado de 1936, o prêmio visa a reparar omissão de Alfred Nobel, que excluíra de seu legado prêmios para a matemática e a biologia, por ele vistas como instrumentos da física e da medicina. A medalha Fields é concedida em quadriênios, a quatro ganhadores, com idade inferior a quarenta anos. Tem a efígie de Arquimedes, grego de Siracusa do século III a.C. (287-211 a.C), considerado o maior matemático de todos os tempos. No saque de Siracusa, absorto em algum problema matemático, Arquimedes seria abatido por soldado de Claudius Marcellus, o comandante romano que saqueava a cidade. Sem ser ocupação perigosa, vê-se que em certas situações extremas a matemática, pelas distrações que provoca, pode até causar a morte...

           O prêmio, fixado em US$13,700  (dada a vultosa soma atribuída ao Nobel, aqui não há comparação) se destina a autores de descobertas que repercutiram fortemente na comunidade científica pela originalidade  e o poder de abrir novos caminhos para o saber.

          O carioca Artur Ávila – reside no Leblon – tem 35 anos de idade , e “foi escolhido pelo conjunto de obra, um sinal de maturidade e vigor criativo”, na explicação dada pelo matemático francês Étienne Ghys, de 59 anos, integrante da comissão que elegeu os atuais medalhistas.

          Ávila escolheu como especialidade uma das áreas mais complexas – os sistemas dinâmicos. Nesse campo, o matemático tenta encontrar ordem no caos, ou descobrir padrões em certos fenômenos  que, à primeira vista, semelham completamente aleatórios.

 
             
Julho de  1914

           

          Não poderia deixar de recomendar a leitura do livro de Sean McMeekin  July 1914 – Countdown to War, publicado por Basic Books, New York, 2013.

           O relativamente jovem historiador – nasceu em 1974,  tem, portanto, ou fará em breve, quarenta anos – estende a sua bibliografia a muito além de Luigi Albertini, o cronista italiano fundamental para as causas da Grande Guerra.

           Preciso no detalhe e nas avaliações de responsabilidade, McMeekin, pela sua isenção e abrangência, não só nos ilumina a senda na selva das causas e das potências responsáveis por esse flagelo do século XX – e que é o genitor ou o padrasto de todos os demais do século passado - mas também não é condicionado por parcialidades nacionais.

            Apenas dois exemplos para quem deseja informar-se com precisão sobre  as causas pequenas e grandes  da Guerra Mundial de 14 – 18: o chauffeur se atrapalhou com a mudança do conversível (modelo 1911) Graf und Stift, e por isso – a dificuldade em engatar uma primeira e não a marcha-à-ré -  deu ao assassino Gravilo Princip o tempo de que carecia para matar a dupla real. No que tange às grandes, a burocrática incompetência austríaca, a insensatez germânica em passar ao Ministro do Exterior austro-húngaro Leopold von Berchtold o cheque em branco, as limitações intelectuais do tsar Nicolau II e a leviandade do Ministro do Exterior Sergei Sazonov, os erros do peso leve intelectual Guilherme II e do Chanceler Bethmann-Hollweg (com a terminal burrice do desrespeito  à integridade da Bélgica), a desonestidade intelectual do Presidente da França, Raymond Poincaré e de seu agente e embaixador (em São Petersburgo), Maurice Paléologue, e por ultimo, mas não por menos, a ambiguidade,  indefinições e má-fé intelectual de Edward Grey, o Secretário do Exterior de Sua Majestade Britânica.

 

(Fontes: O Globo, Folha de S. Paulo, The New York Times; VEJA;  July 1914, de Sean McMeekin)        

A Reviravolta


                                                    
          Na antiga Grécia, terra de heróis, o que ocorreu no dia treze de agosto foi o que chamavam de peripéteia. Súbita mudança na fortuna, muita vez determinada pelos deuses.

          A peripécia de hoje teve através dos séculos e dos caprichos da linguagem o sentido um tanto atenuado, mas, de certo modo, o antigo significado ainda está presente, como que adormecido por milênios que não passam em vão.

          O acidente que vitimou  Eduardo Campos e um futuro que parecia pertencer-lhe nos surpreendeu a todos, máxime pelo que apontava a trajetória do ainda jovem político. Se as suas chances de vitória desta feita não eram das maiores, as forças políticas tinham presente que a sua caminhada o predispunha a grande destino.

          Se não se ignoram a crueldade do Olimpo e os caprichos das Parcas, mesmo assim forte tem sido a impressão diante do corte abrupto e imprevisível.

          No entanto, como sói acontecer em tais desgraças, as suas consequências podem ser múltiplas, e ir bastante além de o que se entrevê a princípio.

          Se virmos o quadro político anterior àquele dia aziago, quem se animaria a contrariar o prognóstico de que a criatura do criador tinha o futuro quase assegurado?

          O demiurgo – que chama de ‘postes’ àqueles que faz eleger -  pensara ter tudo preparado para a reeleição da presidente, cujas qualidades como grande gestora havia apresentado tão melíflua e favoravelmente em 2010.

          Mas consciente da relevância da própria tarefa, nela pensava sobretudo mais como prêmio para assegurar a permanência no poder do respectivo partido, que ao chegar aos doze anos, mira prolongar o sufocante domínio até os dezesseis.

           E tudo fora feito em tal sentido, afastando da refrega o embate direto, por ele temido, com carismática adversária, o que no seu entender deveria ser controlado e predisposto, eis que a administração da discípula vem semeando erros, como a inflação, os gastos desregrados, e os consequentes tropeços na economia, que ao invés de crescer, desencoraja os operadores, e vai corroendo as reservas acumuladas nos tempos de bonança.

          Sem embargo, os deuses são por vezes mofinos. Irrita-lhes sobremaneira que  humanos se julguem em condições de preparar o futuro, barrando o caminho de outros mortais, e desse modo alçando-se à posição que não é deles por direito.

          Na verdade, não carecem de fogo para as suas receitas. Mas de uma ou de outra forma, zombam de os que se crêem senhores do destino, enquanto lhes fazem engolir goela adentro o prato amargo da sorte madrasta.

          E a peripécia se apresenta ao pobre demiurgo, a ele que se acredita acima do comum dos mortais, com riso desdentado e malévolo, que, na verdade, é apenas o retrato das próprias artimanhas e projetos megalômanos, a que embalam ilusões de poderes por demasiado tempo tolerados.

         E  agora  José ?

sábado, 16 de agosto de 2014

Diário da Mídia (XXII)

                                      

Candidatura de Marina

 

        A cúpula do PSB visitou Marina em sua residência em São Paulo.  Em resultado, Marina aceitou que seu nome seja submetido à consulta no partido para assumir a candidatura à Presidência no lugar de Eduardo Campos.

       Sendo a vice de Eduardo, e com ele tendo mantido um ótimo entendimento – contrariando os prognósticos de seus adversários – salta aos olhos que Marina é a candidata natural.

       Segundo a nota de primeira página de O Globo, a aprovação consensual pelo PSB é condição para que entre na disputa sem resistências internas.

       A viúva de Campos, Renata, passará a ter participação maior na campanha. Ela vem sendo mencionada com crescente frequência como companheira de chapa de Marina.

       As outras duas indicações fortes para vice são o presidente em exercício do PSB, Roberto Amaral, e o ex-petista Maurício Rands.

       A delegação do PSB – com fotografia de primeira página de O Globo – compunha-se de Roberto Amaral, e da esquerda para a direita, Carlos Siqueira, Milton Coelho, Luiza Erundina e Walter Feldman.

       Prevê-se o anúncio oficial da nova chapa nesta quarta-feira, 20 de agosto, após entendimentos com os demais partidos que integravam a base da candidatura de Eduardo Campos.

 

Eleições para Governador no Rio

 
         Quem continua na dianteira nas intenções de voto para a governança do Rio de Janeiro é Anthony Garotinho (PR), que subiu um ponto (de 24 para 25%).

         O concorrente que lhe seguia de perto, Marcelo Crivella  (PRB), despencou seis pontos, passando de 24 para 18%. A forte inflexão nas preferências se deveria à observação feita para a TV Bandeirantes. Começou com uma boa intenção, i.e. a sua defesa de mais postos de emprego na Baixada Fluminense, mas a resultante dedução teve efeito desastroso: ‘se deixar a população da Baixada, das regiões periféricas, vivendo na miséria, essas pessoas migram para vir roubar na capital onde tem a maior riqueza’.

         Por sua vez, em terceiro lugar, como antes (mas em empate técnico com Crivella) está o governador em exercício, Luiz Fernando Pezão (PMDB), que ascendeu dois pontos, passando a dezesseis.

         Por fim, Lindbergh (PT) estacionou em 12%, e continua em último.

         É objeto de óbvia preocupação que o candidato líder nas pesquisas do Datafolha seja Garotinho, que por suas declarações transmite a impressão de que não apoiará a política do Secretário José Mariano Beltrame no que concerne às UPPs. Posto que seja difícil imaginar alguém do estamento político que favoreça o regresso à situação anterior, com a cidade partida de Zuenir Ventura, é este viés que vem motivando a renovada dificuldade de acesso de candidatos políticos às favelas.

        Então aquela do Alemão, com bandeiras estadual e nacional, não era para valer ? Esta postura, se confirmada, é claramente regressiva, e não favorece decerto a reintegração dessas comunidades na cidade legal. Sem falar nas outras consequências.

 

( Fontes:   O  Globo, Folha de S. Paulo )

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Que mudanças na Campanha do PSB ?

 
                                    

       O  Globo noticia sobre as pressões exercidas sobre o PSB, ao iniciar-se o prazo para a mudança na chapa para Presidente.

        Próximo de petistas, o Presidente em exercício do partido Roberto Amaral recebeu ligações do ex-presidente Lula da Silva e da própria Dilma Rousseff.

        O nervosismo dos gerarcas petistas parece grande, máxime com  a perspectiva de que a popular Marina Silva – que nas amostragens anteriores do Datafolha sempre forçava o segundo turno com Dilma – se torne cabeça de chapa do PSB.

         A inferência seria que a disputa mudaria radicalmente, e a liderança da presidente  em exercício venha a ser contestada de modo efetivo.

         Era isso que temia o ex-presidente, e nesse sentido Lula da Silva e o esquema petista tinha atuado com vistas a inviabilizar a candidatura de Marina como cabeça de chapa.

        Com o desastre aéreo de treze de agosto, a situação mudou radicalmente. Marina é considerada a escolha natural para tomar o lugar que era de Eduardo Campos. Milita a seu favor, outrossim, a correção da respectiva relação com o ex-governador de Pernambuco, e o bom relacionamento que se estabelecera entre os dois integrantes da chapa do PSB à presidência da república. Decorrência disso é o apoio dado pela família de Campos, com o seu irmão à frente, manifestando-se a favor sem restrições à candidatura de Marina.

        Há preocupação compreensível do PSB em que o segundo da chapa seja do partido. O irmão de Eduardo, o advogado Antônio Campos, defendeu Marina para candidata, com um vice do PSB. Nesse contexto, e no entendimento de Antônio Campos, “ela precisa fazer um acordo político com o partido”.

        Nesse contexto, os demais partidos que integram a coalizão encimada pelo PSB também defendem Marina, que até o presente vem mantendo silêncio,          que dadas as circunstâncias é de todo compreensível.

        Nesse contexto, é importante sublinhar o que assinala Ricardo Noblat do Recife: entre pessoas que eram próximas do candidato a presidente da República Eduardo Campos e até mesmo entre parentes dele parece inconcebível que o PSB apoie  a reeleição da presidente Dilma Rousseff, ou que lance outro nome que não o de Marina Silva. Segundo Noblat, essa opção não tem nada a ver com gratidão pelo que ela fez para ajudar a projetar Campos. É, ao invés, uma escolha orientada pelo mais frio pragmatismo político. Ora – pergunta Noblat – se o maior trunfo do PSB para eleger Eduardo era a sua vice, como explicar ao eleitorado que, morto o candidato, o partido abandone Marina para cair no colo de Dilma? Ou mesmo para bancar outro nome, o que seria o mesmo que apoiar Dilma às escondidas?

        Ainda de acordo com Noblat, a direção do PSB já começou a examinar nomes para vice. Os dois mais fortemente cogitados são Roberto Amaral – que não simpatiza com Marina (e que fecharia com Dilma, se a decisão dele dependesse) – e Maurício Rands, ex-petista, um dos coordenadores do programa de governo de Eduardo e Marina.

        A decisão partidária só será divulgada depois do enterro no Recife de Eduardo Campos,  que deve suceder no próximo domingo.

 

 

(Fonte:  O  Globo)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Marina

                                                     

        Marina é a candidata natural diante da tragédia que vitimou Eduardo Campos. As razões são muitas, a começar pela aliança com Campos, e a sua coragem em oferecer-lhe guarida quando do naufrágio da jogada política da Rede  Sustentabilidade. A grandeza de Campos, ele a demonstrara uma vez mais ao formar chapa com Marina, que com ela trazia a dádiva, mas também o desafio dos seus dezenove milhões de votos.  

        E malgrado as diferenças e as aves de mau-agouro, ambos cumpriam a sua parte, construindo a terceira-via, diante do oficialismo de Dilma, e o PSDB de Aécio, com o seu baú de quizílias, disputas internas, mas também o cabedal do Plano Real.

       A crueldade das Parcas, sua milenar indiferença, nós, Povo brasileiro, a experimentamos uma  vez mais, submetidos aos imprevisíveis ditames de Agosto.

        É hora, no entanto, de virarmos a página. Se Eduardo Campos nos deixou, na manhã de um dia treze de agosto, a sua lição não pode ser esquecida.

        Diante da composta injustiça, ele não hesitara em formar chapa com Marina. Ambos mostraram grandeza. Ela, ao aceitar ser a vice da candidatura de um político mais jovem, menos experiente, mas com a solidez das próprias convicções e a serena confiança na respectiva capacidade.

        Para surpresa de muitos, a aliança entre o ainda jovem ex-governador, da linhagem de Arraes, e a ambientalista Marina, de que rosto e corpo mostram a árdua caminhada, se manteria e se reforçaria.

         O infortúnio e a desgraça, com o seu terrível legado, podem contribuir, ainda que paradoxalmente, para respostas que crescem diante do desafio e o superam, se os que ficaram lograrem entender o claro enigma colocado pela brutal, súbita saída de cena.

         Em meio à perplexidade da partida inesperada, e às mudanças trazidas pela fatalidade, pode-se ouvir o recado quanto ao caráter natural de quem deva suceder ao candidato Eduardo Campos.

         O irmão Antônio Campos, sem vacilação alguma, aponta para Marina, como quem deva suceder a Eduardo, como a candidata do  PSB.

         E tal indicação não está isolada, porque, queiram ou não, a ex-Senadora do Acre, por todos os títulos, reponta como a cabeça de chapa natural.

         Do PSB se ocupa o velho político Roberto Amaral, de comprida trajetória burocrática no partido em que Eduardo surgira como a natural liderança.

         Marina, que pertenceu ao Partido Verde, dele se afastara por dificuldades com a entrincheirada direção partidária, que muita vez prefere a aurea mediocritas da gestão burocrática às incógnitas das lideranças nacionais.

         A menos que deseje voltar à antiga aliança, na subordinação ao PT, nos moldes do PCdoB, a escolha de Marina se impõe. Além de ser a decorrência do gesto seguro e audaz de Eduardo, seria o endosso de uma via que a todos se impõe, se não cegos pelos acenos continuístas de outros mandos, que não temem decerto ao PSB no seu invólucro tradicional, mas sim a Marina.

             Se Eduardo Campos não está mais entre nós, a sua lição política permanece. E ela aponta para um PSB atuante e consciente do respectivo poder, e não uma sombra.

 

( Fontes secundárias: O Globo, Folha de S. Paulo )      

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Agosto ataca de novo

                                             

        Tenho diante de mim a imagem de Eduardo Campos no seu último importante compromisso. Seguro, simpático, sereno, dir-se-ía mesmo sólido,  não se perturbou em nenhum momento durante a arguição promovida pela Rede Globo, a cargo dos âncoras William Bonner e Patrícia Poeta.

        Defendeu com firmeza haver cuidado da candidatura de sua mãe deputada, ao Tribunal de Contas. Quem não o teria feito?

        Neto de Arraes, morre em desastre de aviação, na mesma data que o avô.

        Tinha um compromisso de campanha e por capricho da Fortuna, a sua vice, Marina Silva, não o acompanhava nesta hora.

        Em Pernambuco, foi governador ungido por ótima administração, a ponto de licenciar-se do encargo, por força da lei eleitoral, com nível de aprovação do eleitorado dificilmente repetível pelo altíssimo percentual alcançado (cerca de noventa por cento).

        Diante de todos esses brasis que percorreu, eis a perene memória da imagem do candidato, com a sua postura firme, serena e franca.  

         As contingências da campanha,  a presença em tantos compromissos, a que a distância e as vicissitudes do tempo acompanham, constituem obstáculo permanente, a ser vencido muita vez em pequenos aviões, a que as intempéries, com os seus cruéis caprichos, colocam perigos de que os eleitores muita vez são ignaros.

         Muitas personalidades políticas arrostam o tempo, no intuito de não falhar nos compromissos de campanha.

          A sorte madrasta nos arrebata alguém a que estava reservado – e quem hoje o negará? - um grande destino. Não se sabe como essa disputa, que apenas começava, iria terminar.

           Talvez o destino que nos parece maltratar por afastar, de forma tão brutal, esse grande nome, ainda não tenha dito a sua última palavra. E, quem sabe, no seu cofre de segredos, tenha mais um ciosamente guardado.

Duas Crises

                                           

 Operação  Humanitária?

 
          A cidade de Donetsk, que seria a capital  da República separatista pró-Rússia, cercada pelas tropas ucranianas, estaria na iminência do ataque final. Oferta rebelde de cessar-fogo foi rejeitada por Kiev, que só aceita trégua se os separatistas depuserem as armas.

         A população de Donetsk – cerca de um milhão antes da guerra – estaria em setecentos mil e muitos procuram escapar dos combates.

          A pretexto de dar ajuda humanitária à população civil,  Moscou montou grande operação com comboio de caminhões. Recobertos por toldos, o que inviabiliza a identificação da eventual carga, Kiev hesita quanto ao respectivo procedimento.

          Na invasão da Crimeia, Moscou se serviu do biombo da ‘operação humanitária’ para transportar efetivos militares.

          Apesar de suas declarações, dadas as amplas razões para a desconfiança, o governo ucraniano, não obstante os riscos, semelha inclinado a autorizar a sua realização.  É um cortejo de 280 caminhões, com supostas duas mil toneladas de suprimentos.

          As apreensões cresceram quando da divulgação de vídeo em que caminhões em tudo semelhantes aos apresentados se acham estacionados diante de base militar, com fileira de soldados a embarcar.

           No entanto, com a declaração do Ministro do Exterior da Rússia, Serguei Lavrov,  de que, ao atravessarem a fronteira, o comboio vai ficar sob o controle da Cruz Vermelha, as expectativas se tornarem um tanto mais otimistas.

           As possibilidades de instrumentalização pelo Kremlin da atual situação são demasiado evidentes, a fortiori pela circunstância de que não é a primeira vez em que a Rússia se serve do biombo humanitário para encobrir  objetivos militares. Por outro lado, qualquer assistência que enseje a permanência de uma situação rebelde, contrária ao governo central de Kiev terá escopos que vão muito além de atender a emergências de ordem civil.

             De qualquer forma, pelo acompanhamento de satélites será bastante difícil para Moscou ocultar o envio, através desse comboio, de soldados e armamentos, que visem a reforçar a capacidade de resistência da chamada República de Donetsk.

             Se se torna, por conseguinte – à conta de razões humanitárias – difícil para o governo Poroshenko barrar a entrada do cortejo, de uma certa forma a própria situação já sublinha a fraqueza estratégica do governo ucraniano, eis que, malgrado as fortes razões para a suspicácia, se vê constrangido a aceitar esse presente grego.

 

Esperanças no Iraque

 
                Dada a sua felina capacidade de resistência, enquanto Nuri al-Maliki agarrar-se, posto que precariamente ao governo iraquiano,  as análises fundadas sob a hipótese de sua partida serão necessariamente precárias.

                De qualquer forma, os harúspices de plantão se deparam com dificuldades crescentes para visualizarem o futuro de Maliki no poder, eis que os seus apoios parecem evaporar-se.

                Assim, o seu canhestro intento de valer-se do exército para lograr vencer  a generalizada contestação da sociedade iraquiana à sua permanência no mando, se viu exposto por uma declaração “Nós somos o Exército do Iraque, não de Maliki”, muito apropriadamente no espaço digital da conta no Twitter.

                Maliki cavou sua própria sepultura política, ao tentar fundar a sua permanência no poder através dos xiitas, não só marginalizando, mas perseguindo os sunitas iraquianos.

                Assim, o seu intento de, na contramão das expectativas iraquianas, continuar no mando, a despeito da designação de um novo premier xiita – Haider Abadi – só poderia malograr, pelo seu crescente isolamento tanto nacional, quanto internacional.

                Dessarte, até mesmo Teerã – que sempre Maliki cultivara como o centro da influência xiita – se manifestou favoravelmente a Abadi.  Os apoios ao premier designado também se estendem não só à fé sunita (Arábia Saudita), que é majoritária no mundo árabe, mas minoritária no Iraque, senão à Liga Árabe.

                Designado pelo Chefe de Estado, Fuad Masum, que é curdo, completa-se o círculo virtuoso dos apoios, com o enfático aporte trazido pelos Estados Unidos.

                De novo reaparecem os assessores militares de Washington (já foram enviados setecentos, e está anunciada a vinda de mais 130). Forçada por uma conjunção adversa, a Administração Obama se vê constrangida a mandar assessores militares  - malgrado o precedente a não ser esquecido do Vietnam – assim como reiniciar um envolvimento guerreiro que decerto não estava  dentre os projetos do 44° Presidente estadunidense.

                 Mas no vácuo de poder criado pelo anti-governo de Maliki, com o descosimento do exército, não restou, com pesada ironia, a Barack Obama outro recurso que o de enviar caças (além dos drones) para combater mais uma criatura engendrada pelo inferno na Síria, que é o Isis, com a sua sectária intolerância, a buscar criar um Califado na região.

                  As armadilhas de envolvimento na região se abrem em profusão, com a perseguição das minorias e a séria ameaça de um poder que, no versante sunita, reedite o flagelo do talibã, nessa vanguarda de um atraso medievalista, que em pleno século XXI condena à morte os caminhantes do Senhor que não trilham a senda da fé sunita radical.

                  Depois da insana aventura de George W. Bush, compreende-se a precaução de Obama. Voltar atrás nessa marcha demencial, não é mais ironia, pois tem as cores do sarcasmo.

                  Nunca uma expressão como a pavimentação do caminho do Inferno se afigura tão disponível, só que, infelizmente, não se poderia recorrer às supostas boas intenções, eis que quem hoje, com o benefício das desastrosas consequências da aventura dos neoconservadores, se animará a invocá-las de boa fé ?

 

(Fontes:  O  Globo, Folha de S. Paulo)