sexta-feira, 7 de março de 2014

Diário da Mídia (IX)

                                
Governo Dilma: balanço no vermelho

   
        Segundo noticia O Globo, as importações de petróleo e o aumento das encomendas de eletroeletrônicos e peças contribuíram  para que de novo a nossa balança comercial fique no vermelho. Assim, vai o Governo Dilma colecionando os maiores déficits históricos, desde o início da série.

              O saldo ficou negativo em US$ 2,125 bilhões, eis que as exportações de U$15,934 bilhões não cobriram as importações de US$ 18,059 bilhões. Não surpreende, tampouco, que o déficit do primeiro bimestre seja de US$ 6,183 bilhões. 

              No país da autossuficiência petrolífera, o déficit nas importações de combustivel é US$ 3,5 bilhões, a única redução consignada, eis que em 2013 o saldo negativo fora de US$ 4,6 bilhões.

              Como os tempos se anunciam bicudos, o real está enfraquecido, e o Brasil não mais se afigura destino privilegiado não só para ieds  (investimento econômico direto) além de outras operações de mercado de curto e médio prazo, vem aumentando a conversa de incentivar ‘captações’ no exterior, o que não passa de empréstimos induzidos, para compensar a falta de divisas. Essas captações, usuais nas épocas pregressas de vacas magras, voltam agora para tentar reequilibrar o balanço de pagamentos, a custo de juros mais onerosos.

 

Crise na Venezuela

 
            A atitude de Nicolás Maduro no que tange a manifestações da oposição não tem nada de democrática. Os famigerados colectivos voltaram a ser instados a reprimir os atos de protesto das forças oposicionistas. Apesar do caráter pacífico desses protestos, tal não é suficiente para que sejam tolerados pelas milícias armadas.  Ontem mesmo mais duas pessoas foram abatidas a tiros – um motociclista e um integrante da Guarda Nacional. Desde o início das manifestações, ascende a vinte pessoas o total de mortes ao ensejo de protestos pacíficos contra o governo de Maduro.

            Por outro lado, grupo de países latino-americanos representados na OEA logrou impedir a aprovação de declaração sobre a situação no país, assim como a convocação dos chanceleres para discutir a crise venezuelana. Que nada tenha sido produzido, foi considerado vitória pelo Ministro do Exterior venezuelana, Elias Jaua. Se vitória foi, é daquelas de Pirro, em que apenas essa turma consegue deter o inexorável por mais algum tempo.

            Marco Aurélio Garcia – o alto funcionário petista ligado a Lula da Silva, que agora está sob a asa de dona Dilma - esteve em Caracas, quando foi recebido por Maduro. Com o petismo, em divisão que não tem precedente histórico, as questões latino-americanas passaram a serem da alçada de representantes petistas, o que muito contribuíu para dar às relações com muitos dos países latino-americanos um ranço partidístico, e não mais de Estado. Não surpreende, portanto, que o povo venezuelano venha reclamando com crescente insistência declarações da chancelaria brasileira, em apoio à democracia. Também desta feita a visita de Marco Aurélio não produziu qualquer posição em favor dos direitos humanos e do respeito à democracia na Venezuela.

           Por isso, os manifestantes que se reuniram pacificamente diante de nossa embaixada em Caracas, o faziam tangidos por ideias pregressas, em que o Itamaraty podia ser contado quanto a atitudes pró-direitos humanos e respeito à convivência pacífica, dentro dos moldes da anterior diplomacia de estado praticada pelos antecessores de Nosso Guia no Ministério das Relações Exteriores.  Agora, com boa parcela das questões latino-americanas ficando a conta de altos funcionários petistas, o silêncio da chancelaria brasileira se torna por vezes atroador.

 
Os Estados Unidos podem exportar gás para a Ucrânia

 
         Crescem as pressões internas para que os Estados Unidos – que desde 2013 é o principal produtor de gás no mundo, ao superar a Rússia – autorize a exportação de gás para a Ucrânia, com que Washington limitaria a influência de Moscou sobre Kiev.

         Por lei, os EUA só podem exportar gás para países com que mantêm acordos de livre comércio. No entanto, essa regra vem admitindo exceções, eis que em passado recente empresas de seis países (China, Japão, Taiwan, Espanha, França e Chile) assinaram acordo com Washington, autorizando a operação.

         Se Washington passasse a exportar gás para a Ucrânia, tal seria importante para libertar Kiev de excessiva dependência energética do Kremlin.  A Rússia exporta 30% do gás fornecido à Europa, e no passado, já cortara o abastecimento para Kiev por duas vezes, o que decerto torna apreensivos não só os ucranianos, senão os próprios europeus.

          No entanto, tal seria um projeto de médio prazo, eis que pelas exigências técnicas do mercado seriam necessários pelo menos mais dois anos para que tal fornecimento alternativo se torne viável. Para alguns, é projeto para daqui a cinco ou dez anos.

          Não é exatamente a solução ideal para quem está com a corda energética no pescoço.  Mas se nada se fizer no capítulo, o estado de coisas não irá mudar, o que favoreceria o império russo.

 

                                       

(Fontes: Folha de S. Paulo, O Globo on-line)

quinta-feira, 6 de março de 2014

O Erro de Putin

                                        
 

         Por uma série de razões – notadamente a húbris, a dissociação da realidade, e a passada e exitosa experiência com a crise da Geórgia, em que o monstro russo abocanhou as pequenas Abkazia e Ossétia do Sul – gospodin Vladimir Vladimirovitch Putin cometeu grande erro ao tratar a Ucrânia como se fosse questão similar àquelas da Tchetchênia e tantas outras nos seus largos domínios em que um ukase (decreto) seu tem força de lei.
         Agir como se o Império russo continuasse a estender-se aos limites da antiga União Soviética, é fazer prova de duas coisas: falta de conexão com a realidade e, por outro lado, encarar toda a construção jurídica internacional levantada por força de dois conflitos mundiais como se fora um castelo de cartas, do tipo daqueles que o favorito Principe Potienkin mostrara à sua Soberana, a Tzarina Catarina, denominada a Grande, naquela famosa tournée pelas risonhas demoras dos camponeses na Rússia.

         Theodor Adorno (1903-1969), expoente da Escola de Frankfurt, e um dos grandes intelectuais, filósofo e sociólogo do século XX nos legou obra prima, em que se ocupa da personalidade autoritária. Dentre os modelos para traçar as grandes linhas do comportamento sócio-político, ele cita amiúde o personagem Mack, que é ou não um compósito, e que se caracteriza por atos direitistas, muita vez antissociais. Sendo trabalho de equipe e surgido em decorrência da segunda guerra mundial, Adorno ao delinear os traços principais de indivíduos com potencial perigo para a sociedade, se propunha alertar os leitores no que concerne à potencial ameaça por eles encarnada para as relações inter-sociais e o convívio humano. Do relevante trabalho de Adorno, em que ressalta a inadaptalidade da personalidade autoritária de direita para o bem-ordenado convívio social, ficou a advertência do desafio que pessoas como Mack pudessem trazer para a evolução da sociedade.

          Não se pode esquecer o quanto terá contribuído para a formação desse tipo comportamental a personalidade do pintor austríaco, filho de Alois iH Hitler. Veja a definição de mestre Adorno: A personalidade autoritária é um estado de espírito ou atitude caracterizada pela crença na obediência absoluta ou submissão à própria autoridade, assim como a aplicação dessa crença através da opressão dos respectivos subordinados. Aplica-se assim a indivíduos que são vistos como tendo personalidade  de índole opressiva ou autoritária em relação aos próprios subordinados.

          Não faltam indicações e suportes para as tendências evidenciadas por Vladimir Vladimirovich Putin. Filho de pais de classe média baixa, com a infância em condições difíceis transcorrida em Leningrado, o jovem Putin se integraria na KGB, o serviço secreto soviético – cujos membros não se caracterizam pelo liberalismo – e fazia carreira nesse meio quando os demônios Glasnost e Perestroika que Mikhail Gorbachev libertara da garrafa se encarregariam de pôr em ponta-cabeça o regrado mundinho autoritário em que vivia o funcionário V.V. Putin. Depois da manifestação da multidão em 15 de janeiro de 1990 diante da sede da Stasi (polícia secreta da RDA), dentro de revolução provocada pela queda do muro de Berlin em 9 de novembro de 1989, o prédio da Stasi (em que se alojava também a KGB) foi investido pelo povo alemão, sob os olhos atônitos do funcionário V. Putin (para quem a experiência foi penosa, eis que fê-lo voltar para a URSS).

                 Ao regressar a Leningrado em 1990, Vladimir experimentou, no dizer de Masha Gessen, uma senhora surpresa: aquela gente que Putin e seus colegas controlaram pelo medo – os dissidentes, os quase dissidentes e os amigos de amigos de dissidentes – agora agiam como se eles fossem donos da cidade. Mas não é meu propósito descrever a evolução do jovem Putin através da selva de um reino que se desfazia, e no qual, na antiga São Petersburgo muitos proveitos, alguns duvidosos, poderiam ser colhidos.

                 O período democrático seguinte – a desconstrução de Gorbachev, o surgimento de Boris Ieltsin e a sua defesa da democracia – criaram ambiente em que as ligações de Vladimir Putin com a detestada KGB representavam mais um estigma do que válida apresentação, e daí a sua suposta carta de demissão da polícia secreta (que depois seria convenientemente perdida).

                  O governo de Ieltsin, com o seu estímulo à democracia e ao pluralismo,a par de surgimento de grandes fortunas e de ambiciosos mini-czares, se estendeu por dois mandatos. No segundo, com a impopularidade crescente do antes arrojado Boris, que subira em tanques para afrontar contestações, e a desmoralização dos excessos na bebida, criariam a conhecida situação em que um quase desconhecido Vladimir Putin foi designado como Primeiro Ministro, o que, se representou presente de grego para a democracia russa, garantiu – ou pelo menos pareceu aos seus ‘mentores’ garantir a preservação da respectiva situação  através do novato Putin, que eles pensavam – como sói acontecer em tais circunstâncias – manter sob o respectivo controle.                   

                 A tragédia anunciada para a democracia na Federação Russa se insere nessa salvação in extremis de  governo desmoralizado, pelas características dipsomaníacas de sua figura tutelar. A pesada ironia e a má-sorte do sofrido povo russo está em que a democracia se afirmaria em período farrista e inconsequente, tão só para ser hábil e gradualmente distorcida e debilitada, para hoje termos nas muralhas do Kremlin um membro da chamada elite da KGB, além da entronizada cleptocracia.

                 Não pretendo estender demasiado este artigo numa descrição do atual regime autoritário de Vladimir Putin, em que, como no tempo dos czares, todos os órgãos do estado russo estão a serviço do Presidente Putin. Como ele demonstrou, de resto, recentemente, para adequar-se a uma ficção de alternância no poder, gospodin Putin não carece de permanecer na presidência para que se tenha dúvida da preponderância da respectiva autoridade, mesmo durante o interregno em que seu próximo auxiliar Dmitri Medvedev exerceu o mais alto cargo. Ainda que Primeiro Ministro, não subsistia dúvida acerca de quem realmente mandava no Império.

               No plano da personalidade autoritária, o senhor do Kremlin tem particular apreço pelo físico e pelos desforços atléticos. Gosta muito de andar a cavalo, que é um esporte que se associa à autoridade e à aristocracia – a equitação tem especial atrativo para os indivíduos de baixa estatura, porque em montando a personalidade ganha a altura do cavalo. Por outro lado, Putin gosta de aparecer de torso nu, no que tem o exemplo do Duce Benito Mussolini, que na chamada Battaglia del Grano (a batalha do Trigo) se fez filmar, com o peito a descoberto, empenhado na colheita do cereal.      
              O comportamento de Vladimir Putin pode demonstrar grande habilidade quando, por conta das indecisões de Barack Obama, chegou a dispor das colunas do New York Times, para dar lições acerca da guerra da Síria. De seu ponto de vista, terá sido a sua posição mais vantajosa, ao conseguir manter o seu preposto em Damasco, e reverter a tendência da guerra civil síria, com o enfraquecimento da união dos sírios livres, a divisão entre os opositores de Bashar al-Assad em dois ou até três campos, e o ressurgimento da ditadura alauíta, que no primeiro ano e meio esteve próxima da debacle. As hesitações de Obama desencorajaram os demais aliados, e levaram à estagnação do conflito, com o agravamento dos problemas de refugiados e o ressurgimento de doenças que se pensava à beira da extinção, como o escândalo da poliomielite, de que é principal fautor o tirano de Damasco (condições higiênicas e medicações, negadas na prática na área de domínio rebelde). Infelizmente, pela conivência russa expressa no Conselho de Segurança não se dá plena autoridade aos órgãos especializados das Nações Unidas, como a Organização Mundial da Saúde (Bashar pensa que a poliomielite possa ser sua aliada)[1].

               No entanto, esse suposto triunfo na Síria – depois da perda de grande parte do território, e a quase certeza da iminente queda de Bashar al-Assad – representa reviravolta impressionante, que é saudada com muito alívio não só por Putin – que havia posto demasiadas fichas no então cambaleante regime alauíta – mas também para o Irã de Ali Khamenev e os ayatollahs, sem falar do Iraque xiita (hoje uma peça no universo xiita por especial cortesia do inepto George Bush) e do Hezbollah, do clérigo Nasrallah, que ora já participa desenvolto de operações militares, como a de Quneitra. Se, como os fados da guerra hoje indicam, Bashar deverá arrastar-se para uma semivitória, com mais da metade da Síria arrasada, Putin verá preservada a sua base naval no Mediterrâneo oriental, com as suas tão prezadas águas quentes de todo o ano.

              No que tange à Ucrânia, o erro de avaliação de Putin terá sido o de extrapolar para aquele país vizinho a peculiar visão havida na intervenção de 2008, em que a atitude de ‘excessiva autonomia’ da Geórgia foi, no seu entender, cortada pela raiz através do ‘apoio’ prestado a Ossétia do Sul e Abkázia, duas regiões com maioria de etnia russa. Houve reação do Ocidente e do próprio Bush, mas o tamanho dos mini-países terá contribuído para restringir e amortecer a crise internacional.

              No caso presente da Ucrânia, o cenário é diverso. Trata-se de um país de cerca de 45 milhões de habitantes, que através de luta titânica logrou livrar-se de um ex-criminoso Viktor Yanukovich (condenado na juventude por assalto e estupro) cuja principal qualidade é ser pró-russo, e ter optado (após súbita rejeição do acordo com a U.E.) pela entrada na União Aduaneira Russa. A luta do povo ucraniano foi suficientemente descrita pelo blog, mas a sua vitória, com a expulsão de Yanukovich irritou a Putin, que não tem o hábito de perder.

              Pisoteando o direito internacional, e os compromissos assumidos com a Crimeia – onde a Russia tem importante base naval, que goza de exterritorialidade – gospodin Vladimir Putin viu no percalço sofrido – decorrente de assunto interno ucraniano –  ofensa ao próprio senhor do Kremlin. Toda a operação que circundou a invasão da península da Crimeia – a par de o que representou de incitação para uma população de origem majoritária russa (a Crimeia foi alocada à Ucrânia, então simples república dentro da URSS em 1954) – foi uma bisonha mascarada de ocupação não tão larvar da Crimeia. De triunfo em triunfo – e a operação das Olimpíadas em Sochi, com os gastos enormes, a participação dos amigos corruptos, foi vista como grande vitória do Presidente Putin.

                    Terá sido nesse cenário ultrafavorável e nos grandes salões do Kremlin, que Putin terá cogitado fazer uma operação militar tipo século XIX, em que se leva em conta a fraqueza relativa do objetivo, mas não as formalidades dos tratados e das fronteiras internacionais. Que haja colocado nesse nível um país de quarenta e cinco milhões de pessoas – de que grande parte, em manifestações democráticas, muita vez em condições difíceis, seja em termos de intempéries climáticas, seja em repetidos ataques por polícias e no final por atiradores à distância, o seu aliado Yanukovich pensou poder dobrar a revolta ucraniana.  

                    Putin nos relembraria ao por em funcionamento a sua grotesca invasão não-identificada a frase famosa dita contra Napoleão, ao mandar matar o Duque d’Enghien: Sire, não foi um crime, mas um erro!  Falando pouco, e circundado por gente hábil como o chanceler Sergei Lavrov, o Senhor do Kremlin intuirá muito em breve a extensão do equívoco cometido. A consciência da ochibka (erro em russo) lhe virá por acréscimo, eis que os áulicos à volta não se atreverão a desmerecer da ação do Senhor de Todas as Rússias.

                  Pensa, então, que terá alguma legalidade a decisão do parlamento da Crimeia, cercado que está por militares russos (é infantil o recurso de retirar-lhes as insígnias nacionais) de proclamar a própria acessão à Mãe-Rússia?  Que valor tem no Direito das Gentes manifestações desse gênero, sub mano militari?  

                 Como se pode presumir que um país ocupado – como ora a Crimeia e, quem sabe, no futuro, a Ucrânia oriental -  tenha a presumida capacidade de expressar a respectiva vontade, se sob o tacão do exército russo?

                Toda a empáfia, todo o aparente desdém de gospodin Putin pela opinião alheia tem, na verdade, tanta substância quanto os tigres de papel...      

                Internacionalmente, se o presidente russo prosseguir na sua mascarada, o próprio tamanho do erro e a incapacidade de reinar por decreto, se contra a vontade expressa da população, não tem qualquer perspectiva  de manter-se. Falta-lhe o oxigênio do reconhecimento internacional, a par da resistência obstinada de um povo que sonha com o progresso da vizinha Polônia, e não com o atraso e a ditadura da também próxima Bielorrússia.

 

(Fontes: Masha Gessen, ‘O Homem sem Face’,The New York Review of Books, New York Times, Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo)



[1] V., a respeito, o artigo da Dra. Annie Sparrow, ‘A Oculta Epidemia de Poliomielite na Síria’,  The New York Review, 20.02.2014.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Quarta-Feira Suja

                                           

        Hoje, dia cinco de março é quarta-feira de cinzas, dia que se supõe seja de penitência e arrependimento, o que a marca na testa deveria simbolizar. Na verdade, esse fim de carnaval carioca se assinala por uma quarta-feira suja, com o lixo por toda parte, jogado que foi por blocos e grupos de foliões.
        Uma festa – ou melhor, um conjunto de festas, festejos e festividades de todo tipo, de que a elegância, as brincadeiras para menores de dezoito anos e a alegria sem adjetivos são fenômenos raros vistos a grandes penas e à distância, enquanto a vulgaridade como a poeira se espalha por toda parte, sem precisar de convite ou crachá – uma festa, repito, que não vai ser lembrada pela animação dos foliões, a beleza das foliãs, mas sim pelo lixo que está em toda parte, nas avenidas, nas ruas, nas calçadas, sarjetas, ruelas, praças e logradouros, e os enxames das moscas, que retornam em estilo, trazendo de volta a imundície dos bons e velhos tempos.

       A que devemos essa dúbia e imprevista viagem a um passado de pouca higiene e muita sujeira? O lixo por toda parte não nos deixa esquecer quem o trouxe. Se créditos devem ser atribuídos, eles cabem, primeiro, a uma greve oportunista de uma parte do sindicato dos garis da prefeitura. Sem qualquer escrúpulo, ela não se peja de conspurcar a festa, de desfigurar a cidade e de trazer de volta as moscas – muitas moscas! – para reforçar o movimento.
       A violência tem muitas formas. Além de invadir a alegria alheia, não é que a facção da greve selvagem chega a desmoralizar ainda mais a prefeitura? Atreve-se  a impedir que outros garis, que tem respeito pela própria profissão, façam o seu serviço. O        que surpreende mais não é a audácia e o menosprezo dessa gente pela festa do Rio, mas a apatia de prefeito (e do próprio Estado) que dispõe de forças para coibir a baderna e os atos antissociais.

 

(Fonte:  O Globo on-line)  

terça-feira, 4 de março de 2014

Notícias direto do Front

                                            

Crise Ucraniana

 
      O Secretário de Estado John Kerry não chega de mãos abanando a Kiev. Segundo se noticia, traz um bilhão de dólares, em garantias de empréstimo a serem dadas à República da Ucrânia. O apoio será dado em termos de assistência técnica, com vistas a incrementar a integração com o Ocidente, assim como compensar a redução nos subsídios concedidos pela Federação Russa na importação de energia daquele país.
     Por outro lado, será dado apoio técnico por intermédio de especialistas nas operações das finanças do banco nacional, assim como para dar maior sustentação e transparência na apuração das próximas eleições, com vistas a reforçar-lhe a legitimidade.

     O Presidente Barack Obama se orienta no sentido de isolar o presidente Vladimir Putin. Tanto na sessão do Conselho de Segurança das Nações Unidas, em que o delegado russo chegou a ler uma suposta carta do presidente deposto – em que alegadamente Viktor Yanukovich pede ao presidente russo a intervenção na Ucrânia – e por declarações posteriores de gospodin Putin (pela qualidade de seu conteúdo o leitor se veria forçado a reconhecer que, no caso, o silencio era de ouro), no qual se atribui motu próprio a tarefa de intervir na Ucrânia por força de golpe inconstitucional contra o presidente Yanukovich, que não por acaso é pró-Russia. Alguém acaso imagina que – mesmo se tal correspondência for apócrifa – o ex-presidente tentaria negar-lhe a autoria, ele que está asilado na Federação Russa de Putin e, portanto, se acha entregue ao poder do atual autocrata de todas as Rússias?
      Por outro lado, um colunista brasileiro, diante da atual crise, carimba a eleição de  Barack Obama como ‘sintoma trágico do declínio ocidental’.  Esse declínio americano já é objeto de ampla literatura na mídia, mas, salvo erro ou omissão, é a primeira vez que as eleições de Obama (pois foram duas, em 2008 e 2012) são consideradas sintoma desse declínio (ou decadência, se adotarmos a terminologia spengleriana). Não creio estar sozinho em apontar como causas eventuais do processo o 43º Presidente americano George W. Bush, com a ajuda do Vice Dick Cheney e do Secretário da Defesa Donald Rumsfeld, e o desastre da guerra contra Saddam Hussein, e as nunca encontradas armas de destruição em massa (WMD).

      A lógica de Putin é decerto bem diversa e nada tem a ver com pruridos constitucionalistas.  Para a Federação Russa do presidente Putin, a grande Rússia da União Soviética e mesmo do Império czarista é ainda uma realidade, e em função dela que ele se acredita autorizado a intervir militarmente em território de um país soberano.

     A intervenção do presidente Vladimir Putin implica em brutal retrocesso nas relações internacionais, eis que substitui a força militar como instrumento de ação, sem atentar para as garantias internacionais e todos os compromissos subscritos a respeito da Crimeia. 

     Para a comunidade especializada, diante de um país nuclear como a Federação Russa, a estratégia do Presidente Obama é a única responsável e possível.  Cumpre tornar dispendiosa e incômoda a tática imperialista de Putin. Em outras palavras, forçá-lo pela conta dos prejuízos advenientes a dar meia volta volver, mesmo que tal reação seja mediata e não imediata, pelas considerações de prestígio e credibilidade envolvidas.

 

Greve do Lixo        

      
      É lamentável que o carnaval de 2014 tenha sido saudado por uma greve irresponsável de parte do sindicato dos garis no Rio de Janeiro. Esse tipo de greve, feito à revelia do interesse público e da população em geral, não pode ser admitido, sobretudo no exemplo em tela, com a clara ameaça sanitária e não só aos foliões, como a todo o povo do Rio de Janeiro.

      Esse oportunismo mostra o quão pode estar desprotegida a nossa população. Uma das falhas gritantes da Constituição Cidadã foi ter silenciado sobre o caráter inaceitável das greves nos setores da segurança, saúde e de limpeza em geral.

      Deixar-se à responsabilidade dos setores sindicais diretamente envolvidos tende a tornar a questão ainda mais complexa, eis que muita vez tais iniciativas são tomadas por dissidências da direção sindical, como parece ter sido no caso diretamente em tela.

 

(Fontes:  The New York Times, Folha de S. Paulo, O Globo)

segunda-feira, 3 de março de 2014

A Ucrânia e os tambores da Guerra

                                

      A tática do ‘fato consumado’ do Presidente Vladimir Putin contribuíu desde já para mudança substancial na reação dos Estados Unidos e do Presidente Barack Obama – para quem vão todos os olhares do Ocidente quando um cenário de confrontação se delineia.

      São conhecidas as dúvidas tanto internas, quanto externas no que tange à firmeza de Obama em tal situação. No Congresso Americano, há clara predisposição tanto de democratas, quanto de republicanos, no sentido de fazer pagar a Putin pela sua invasão da Crimeia – não há mais ilusões quanto ao estabelecimento de total controle  da península pela Rússia.

       Posto que a Chanceler Angela Merkel tenha arrancado de gospodin Putin a ‘concessão’ da formação de um grupo de diálogo político sobre a crise,  Obama ao montar a reação do Ocidente terá de contar com a unidade da aliança no que tange às medidas de retaliação.

      Se a volta da guerra fria não é perspectiva encorajante, há indicações de que Berlin não veja com favor o afastamento da Federação Russa do Grupo dos Oito. Nesse sentido, indicou ceticismo o Ministro do Exterior, Frank-Walter Steinmeier, que é social democrata (a chamada grande coalizão CDU-SPD está de volta). Dentre as represálias ocidentais, a ‘expulsão’ da  Rússia do G-8 significaria medida que afetaria o prestígio do Kremlin. Como a próxima reunião do G-8 está marcada para Sochi, depreende-se que se faria Putin pagar um certo preço formal pela sua invasão da Ucrânia tipo século XIX.

      A par dessa possível dissonância – tanto David Cameron, do Reino Unido, quanto François Hollande, da França,  apoiam o afastamento da Rússia do G-8 -  Obama terá de calibrar a própria resposta, de forma a convencer os republicanos ( e os democratas ), que será firme na sua posição. Dadas as limitações dessa reação – ninguém por certo deseja provocar uma confrontação nuclear – a coisa não parece simples. Afinal, quem tinha fama de durão – George W. Bush – tampouco logrou curvar  Putin, quando da crise da Abkazia  e da Ossétia do Sul, em 2008.

       Amanhã, o Secretário de Estado John Kerry visitará Kiev, para marcar a presença do Ocidente, enquanto a Ucrânia enfrenta o ‘desastre’ da intervenção russa na Crimeia, nas palavras do Primeiro Ministro Arseny Yatseniuk. A Ucrânia é um país dividido em dois – o Oeste com o Ocidente, e o Leste, incluída a Criméia, com a Rússia – e a questão assume desenvolvimentos farcescos, quando o comandante da marinha ucraniana, Denis Berezovsky, anuncia que aderiu às autoridades pró-Rússia da Crimeia.

        Para completar o quadro, o diretor do Conselho de Segurança Nacional, Andrei Parubi, asseverou que o Ministério da Defesa ‘chamará todos os reservistas necessários às Forças Armadas neste momento.’

       Não é decerto um quadro muito animador. Por sua atitude – que relembra a de outras figuras em um passado não tão distante – Putin põe em perigo a segurança da Ucrânia. Tal se observa notadamente, como assinala Parubi, pela ‘violação dos acordos bilaterais por parte da Rússia, em especial sobre a frota do Mar Negro.’

       Há muitos fatores a serem computados nessa crise. Putin, como agressor e infringindo acordos internacionais, se põe a descoberto, porque o caminho da força bruta representa uma brutal involução nas relações internacionais, desestabilizando tratados, e fazendo retornar um cenário que muitos julgavam pretérito, pela progressão do direito internacional público e de seus instrumentos como a Corte de Haia.

       Sem embargo, Vladimir Putin, além da iniciativa e da desfaçatez, tem outras cartas, como a de fornecedor energético da Europa Ocidental.  Ao apelar para a violência, a sua posição não é inexpugnável, se houver unidade no campo ocidental.

      É o que caberia a Barack Obama verificar e tentar dissuadir o Kremlin de buscar resolver os respectivos problemas por meio de cínicas soluções tipo século dezenove.

 

(Fontes:  The New York Times, Folha de S. Paulo)  

domingo, 2 de março de 2014

Colcha de Retalhos B 8

                

Invasão russa da Crimeia

 

         Embora a magnitude da questão seja muito superior à da crise na Geórgia em agosto de 2008, a invasão russa daquele ano na pequena Geórgia pode apontar as grandes linhas da reação dos Estados Unidos (e da União Europeia), a atitude da população local direta ou indiretamente envolvida (reporto-me, em ordem crescente de gravidade, a reações pontuais da população de fala russa na zona oriental da Ucrânia, incluída a Crimeia), e do próprio Kremlin.

         Se Obama falou dos custos dessa operação para Moscou, e a sua conversação telefônica de noventa minutos – que, na verdade, correspondem a 45 minutos para a tradução respectiva (por questões protocolares, não é provável que Vladimir Putin tenha falado em inglês), o exemplo anterior de George Bush mostra que, na maioria dos casos, Moscou não se inquieta com restrições pontuais (depósitos bancários, limitações ao intercâmbio), se a questão é de prestígio nacional ou de alto interesse (como o é agora o caso da Crimeia).

        Autorizada por resolução unânime do Senado, a invasão branca da Crimeia pode doravante realizar-se de forma aberta. No entanto, não será fácil ocultar o viés imperialista da operação. Como afirma o cientista político Alexander Konovalov: “não está clara a missão dessa força expedicionária. Apesar da linguagem da resolução apresentada pelo Kremlin, não havia nenhuma evidência de perigo aos cidadãos da Crimeia ou de ameaça à base russa de Sebastopol.”

        Na Crimeia, o primeiro-ministro Sergei Aksionov é considerado ilegítimo pelo governo central.  Com efeito, a eleição de Aksionov, na quinta-feira, viola a Constituição Nacional. Feita a portas fechadas, e um dia após que um grupo armado se apossou do parlamento local, há toda razão para suspeitar de que se trata de operação que visa a aproveitar-se do virtual domínio de Moscou sobre a Crimeia. Nesse contexto, Aksionov anunciou ontem que ira adiantar para trinta de março, referendo aprovado na quinta pelo parlamento já tomado, com vistas a ampliar a autonomia da Crimeia.

        Por sua vez, os nacionalistas ucranianos – próximos de Yulia Timoshenko, a ex- Primeiro Ministro  que Yanukovich fez condenar por um processo suspeito – ocupam atualmente os cargos de presidente e primeiro-ministro. Nesse sentido, o presidente interino da Ucrânia colocou as Forças Armadas nacionais em ‘alerta máximo’ e o governo instruíu o seu representante permanente na ONU, o embaixador Yuri Sergeiev, para acionar o Conselho de Segurança para interromper a agressão russa.

         Se Moscou privilegia a força, seja embuçada, seja arrimada a posteriori por resolução do Conselho da Federação (Senado),  voltamos a um cenário do século XIX, em que o mundo se deparava com o concerto das Grandes Potências (a que tudo ou quase tudo se permitia)  e o restante das Nações, que se empenhavam pelo respeito ao direito internacional.
         Essa involução – de que o Presidente Vladimir Putin se tem valido, como o atesta o precedente do ataque à Geórgia e a anexação (virtual ou não) das repúblicas da Abkazia e da Ossétia do Sul, em 2008 – é processo perigoso e deletério. Se a força nua passa a ser a razão bastante para decidir do traçado das fronteiras, aonde ficam a Corte Internacional de Justiça da Haia, os Tratados de limites e, não por último, o Direito Internacional Público ?    

 

 A  República do Retoque

             
         Por que as notícias da véspera costuma ser melhores? No setor das contas públicas, fica mais fácil entender as involuções surpreendentes. Em dezembro último, as contas foram maquiadas, no sentido de que para apresentar um balanço mais luzidio o governo preferiu atrasar os pagamentos em dezembro.

         Dessarte, o que se ocultou em dezembro, reponta em janeiro – despesas federais com pessoal, programas sociais e investimentos – com um incremento de 19,5% sobre janeiro do ano passado. A gastação corre no sangue da administração de d. Dilma.

         Por isso, dadas as iteradas recaídas no campo da ficção fiscal, seria mais apropriado que se olhasse com cuidado todas as súbitas reconversões da Administração. Eis que são tantas as vezes que a imprensa, bem-comportada como sempre, registra obediente as promessas de cristão-novo  deste governo petista, quem é na verdade que estão fazendo de bobo ?  Será que pensam manter sempre a credibilidade? Ou imaginam que esse primarismo vá poupá-los do rebaixamento da nota pelas Agências de avaliação de Wall Street?

 

A  República do Retoque (2)

 
         E o Mais médicos, hein ?  Quem pensou que o Brasil fosse Venezuela e que certas coisas que no reino balouçante de D. Maduro são aceitas  possam valer por aqui ?

        A brutal discrepância entre os salários pagos a profissionais médicos de outros países, e os pífios vencimentos que recebem os cubanos, sob regime de virtual escravidão – como assinala mestre Ives Gandra Martins  - ainda mais com a retenção feita pelo governo cubano – quem acreditou que um tal mostrengo seria politica e eticamente viável na república federativa do Brasil ?

        Costurado por Alexandre Padilha, quem cuidou de minorar o erro inicial?  Pois foi mesmo Lula da Silva, quem viajou a Cuba para convencer Raul Castro que o esquema, no Brasil, era insustentável. De acordo com o noticiário, os médicos cubanos passam a ganhar US$ 1,245.00 (cerca de três mil reais e não mais apenas mil). O Ministro Arthur Chioro entrou na questão pro-forma, como se a iniciativa fosse do próprio Ministério da Saúde.      

       Como a discrepância continua, posto que reduzida, não está escrito que a questão vá ficar nesses termos.

 
O Samba da Diplomacia Doida

       A Revista VEJA dessa semana sob o título ‘O samba da diplomacia doida’ (inspirado sem dúvida no famoso samba do crioulo doido, de Sérgio Porto) nos informa de um vexame ocorrido em Bruxelas.
       Ao ler o registro sem nexo de afirmações peremptórias se experimenta talvez o que Lord Altrincham afirmara dos discursos lidos pela vozinha esganiçada da jovem rainha Elizabeth – uma dor forte no pescoço. O problema está em que o fato é real, e corresponde a um discurso pronunciado obviamente de improviso pela Presidenta. Dois exemplos: “A Zona Franca de Manaus, ela está numa região. Ela é o centro dela, porque é a capital da Amazônia” e “Nós consideramos como estratégica essa relação, até por isso fizemos essa parceria estratégica.”

 

O Mensalão vai virar  pizza ?

 
      Eliane Cantanhêde na coluna ‘Batuque com Pizza’ aventa a perspectiva de uma ‘revisão criminal’ para inocentar de vez os mensaleiros ilustres, sobretudo José Dirceu. O risco, no entender dessa jornalista em geral bem-informada é de uma grande pizza. 

      De acordo com o informe, quem abre alas nesse Carnaval é o Ministro Ricardo Lewandowski. Como está na fila para assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal, toda especulação – sobretudo com a formação de uma nova maioria já na última votação – é possível. Ainda mais pela circunstância de que falta muita coisa a decidir na pauta do tribunal quanto à Ação Penal 470...

 

(Fontes: Folha de S. Paulo, O Globo, The New York Times, VEJA)

sábado, 1 de março de 2014

Intervenção de Putin na Ucrânia

                           

       É estarrecedor o desrespeito do Presidente Vladimir V. Putin pela soberania ucraniana. Como se estivesse em pleno século XIX, Putin manifesta  seu desagrado com os eventos na Ucrânia pelo envio de tropas à Crimeia. Diante da desfaçatez evidenciada no que concerne às questões internas da Ucrânia, o Presidente da Federação Russa dá a impressão de estar ingressando no próprio quintal.
        Dois aeroportos na península da Crimeia – na capital, Simferopol e em Sebastopol – foram tomados por homens fortemente armados, mas sem qualquer distintivo ou marca nos respectivos uniformes. Fontes ucranianas denunciaram a chegada de dois mil soldados russos em treze aeronaves. Em total desprezo pelas autoridades competentes, o espaço aéreo sobre a Crimeia fora fechado sem qualquer aviso prévio. Além disso, foram instaladas barreiras nas rodovias, e chegaram a anunciar manobras anti-terror para proteger a base do Mar Negro, onde está abrigada a Frota Russa.

       O presidente interino da Ucrânia, Oleksander Turchinov não teve meias palavras: ‘A Rússia mandou tropas para a Crimeia. Estão trabalhando com cenários análogos aos da Abcasia,onde começaram um conflito e, em seguida, principiaram a anexar o território’.  Em sua denúncia, Turchinov se reportava ao inquietante cenário similar aplicado na invasão da Geórgia, em 2008.     
       De um anúncio de manobras a serem realizadas por 150 mil homens se passa a um quadro muito mais grave, pois tais ‘exercícios’ não se desenvolvem nas sagradas terras russas, mas adentro de território ucraniano, como é a península da Criméia.

      Desde a independência da Ucrânia, ali se manifesta o irredentismo de parte da população, que desejaria voltar a integrar o solo russo, como antes de 1954.  No entanto, na península existe também minoria tártara, que não quer saber de domínio russo, pelo morticínio e os sacrifícios impostos ao tártaros pelo ditador Josef Stalin, em 1944.

     Até mesmo o presidente deposto, em sua entrevista à imprensa em Rostov, no sul da Rússia, não pôde deixar de censurar o Kremlin pela invasão da Crimeia: ‘Acredito que qualquer ação militar é inaceitável. Acredito que a Ucrânia deve permanecer unida e indivisível’.  Se Viktor F. Yanukovich teve de repreender o padrinho pela interferência armada, não viu, no entanto, nenhuma contradição em apelar para o poder maior, dentro do cenário habitual das autoridades destronadas: ‘Acho que a Rússia deve agir e está forçada a agir. Conhecendo pessoalmente Vladimir Putin, estou surpreso que ele não tenha dito nada. A Rússia não pode ficar indiferente (...). A Rússia deve usar todos os meios para acabar com o caos e o terror que varrem a Ucrânia.”
      Como seria de esperar, Yanukovich falou em russo...

      O Presidente Barack Obama resolveu quebrar o silêncio, dizendo-se profundamente preocupado (concerned) com os relatos de movimentos militares tomados pela Federação Russa  na Ucrânia. ‘Qualquer violação da soberania ucraniana seria profundamente desestabilizante. Essa ação não será sem custos’.

      Por outro lado, o Presidente Vladimir Putin resolve agora pedir ao Conselho da Federação, que é o Senado na Rússia,  para empregar força militar na Ucrânia. Dadas as circunstâncias de que a Rússia já tens destacamentos sediados na Crimeia, a providência do Kremlin, além de ser medida formal, serve também como resposta à recentíssima declaração do Presidente Obama de que haveria ‘custos’ para a Rússia se a operação Crimeia prosseguisse.

        Vladimir Putin se acredita, por conseguinte, em condições de impor outro fato consumado, nos moldes da operação Geórgia de 2008, com a anexação na bruta da Abcásia do Sul e da Ossetia do Sul, as duas repúblicas separatistas da Geórgia, ocupadas pela Rússia.

         Será que Putin confunde Ucrânia e ocupação da Crimeia com uma crise no mesmo peso da fragmentação imposta à pequena Georgia? E não se vá nem falar de que o Ocidente, por intermédio, entre outros, de grandes potências de então,  França e  Inglaterra, já se empenhara em  guerra na Crimeia em meados do século XIX e que acabara mal para o Tzar de então, Alexandre II ?

 

(Fontes:  Folha de S.Paulo, O  Globo, The New York Times )