terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Notícias direto do Front

                               

Senado confirma Janet Yellen

 
      O Senado americano confirmou a indicação de Janet Yellen para presidente do Federal Reserve Bank, por 56 votos contra 26. É a primeira mulher a presidir a instituição, que tem cem anos de história. A senhora Yellen ocupava, no mandato de Ben Bernanke, a vice-presidência do Federal Reserve.
      Por outro lado, interrompe uma série de republicanos indicados por presidentes anteriores, desde que  Jimmy Carter submetera ao Senado, em 1979, a candidatura do democrata Paul Volcker para presidente do Fed.

 

Velha história se repete

 

     O rei Juan Carlos malbaratou a alta popularidade dos primeiros anos de reinado – quando foi defensor da democracia em várias tentativas de golpe, valendo-se do próprio conhecimento de companheiros de farda nos tempos de seu aprendizado sob o general Franco – com um comportamento pouco condizente a um monarca em termos de respeito à sua esposa e rainha Sofia. Por outro lado, a famosa caçada no Botswana para matar elefantes em nada condizia  com a sua condição de presidente honorário da fundação ambientalista WW de Espanha, e por isso foi dela destituído.
     Além das aventuras extraconjugais com grande amiga da nobreza alemã, o escândalo de corrupção envolvendo a filha Cristina, já indiciada, e o marido Iñaki Urdangarin,  chocaram sobretudo aos súditos as altas despesas reais por conta do Erário, malgrado a crise enfrentada pela Espanha, com brutal recessão e larga faixa de desempregados, máxime entre os mais jovens.

      A antiga popularidade se evaporou, e na última pesquisa de opinião, publicada por El Mundo, 62% são favoráveis à sua abdicação.  Se no ano anterior, se ainda não havia maioria pela renúncia (44,7%), a população já estava praticamente cindida ao meio. Agora, acercando-se dos dois terços, a impopularidade real, como uma bola de neve, pode atingir a coeficiente que afete não só o respectivo reinado, mas também a duração da monarquia como instituição. A esse respeito, por primeira vez, menos de 50% dos entrevistados apóia a monarquia como instituição.
      Por ora, o herdeiro da coroa, Felipe de Bourbon, tem avaliação bastante positiva, com 66% dos entrevistados que, na sua maioria, acreditam que o primogênito real dispõe de condições para recuperar o antigo prestígio da monarquia.

      No século passado, o avô de Juan Carlos, Alfonso XIII, foi forçado a abdicar no princípio dos anos trinta pelo resultado de um pleito que deixara patente a falta de sustentação da monarquia. Depois da efêmera República, interveio a guerra civil espanhola, com o triunfo das forças do General Franco, e a longa ditadura do condestável, que devera, em boa parte, a respectiva assunção do poder absoluto à ajuda  de Hitler e Mussolini.
          Por enquanto, Juan Carlos está em queda livre.  Não obstante, sequer acena com a possibilidade da renúncia (no discurso anual, às vésperas do Natal, reiterou que não cogita disso).

          El-Rei acaba de completar 76 anos, e de reinado, 38 anos. A sua atuação nos primeiros anos muito contribuíra para a consolidação da democracia espanhola, e, desse modo, dissipara as previsões iniciais – que o alcunhavam de Juanito el breve.  Com o passar do tempo, todavia, ele parece haver rompido, por repetidos erros, a confiança antes votada pelo povo. A própria foto, com a família real postada, enquanto batem continência o Rei e o príncipe de Astúrias – mostra também a meio afastada e taciturna rainha Sofia. Ao invés das sorridentes companhias de antes, eles não semelham olhar para o futuro. O presente, com suas agourentas imagens, os envolve em incômodo abraço.

 

(Fontes: New York Times; O Globo)  

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Picadinho de Ano Novo

                                    

Situação no Maranhão

 
       Obsequioso, o Governo Federal pergunta ao do Maranhão, encabeçado pela governadora Roseana Sarney, se não deseja por acaso aceitar a transferência dos cabecilhas das facções abrigados no Presídio estadual para prisões de segurança máxima na órbita federal.

       Foi necessária a intervenção do órgão competente da OEA para expor o caráter insustentável da situação no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, que está sob o domínio virtual de quadrilhas de bandidos. A inspeção do CNJ só contribuíu para expor mais a ferida.
       O patético sumiço da governadora Roseana não é decerto a resposta devida à crise na segurança pública no Maranhão e o sinistro império dos assassínios em Pedrinhas, justamente em local que se presumiria dispor do mínimo de segurança para os detentos.

       Depois, os ataques desfechados por ordem da bandidagem no presídio na noite de sexta-feira é apenas nota suplementar acerca da perde de controle de parte da autoridade estadual sobre o crime, com vinte ônibus incendiados, e os abomináveis requintes de crueldade, como no caso de criança de seis anos com 98% do corpo queimado.
 

Situação no Rio Grande do Sul

 
      O escândalo do Presídio de Porto Alegre não é de hoje. As suas condições e a própria aparência tendem a mostrar que se aproxima da situação caótica e insustentável de sua contraparte maranhense. Se a autoridade competente para cuidar das condições mínimas dos estabelecimentos prisionais já dera declarações que antes de assombro e espanto provocam perplexidade, a condição do Presídio – que permanece inaceitável – torna-se, de certo modo, menos difícil de compreender, se a situarmos dentro de um pequeno universo de reclamos públicos e de inveterada falta de providências sérias para enfrentar o desafio.

      O jogo de empurra é de regra, e esses cárceres se transformam em verdadeiras masmorras medievais, dignas da aparição de Cesare Bonesana,  marquês de Beccaria, a quem como homem do século das luzes horrorizaria a continuada existência de uma ferida tão óbvia em nosso sistema prisional. Se o silêncio – e a ausência de eventual visita - da Secretária de Direitos Humanos, Maria do Rosario, que ainda por cima é gaúcha, semelha difícil de engolir, se o cotejarmos com o descalabro circundante, como é que fica?

 
 
A Lentidão Brasileira

 

       Não creio que se deva atribuir ao brasileiro a lentidão na Copa, conforme se lamenta, com o adendo de dados pessoais, o senhor Joseph Blatter, atual presidente da FIFA.
      Pelo menos, não é característica de sempre, se se tiver presente, que JK e o seu exército de candangos levantou Brasília, no Planalto Central, em menos de cinco anos. Se construímos a maravilha que impressionou a André Malraux e a tantos visitantes ilustres, por que diabos nos atrasamos tanto nas sedes para os jogos da ansiada Copa do Mundo?

      Será acaso o padrão Fifa que atrasaria seis das sedes por terminar, em total de doze. Será a excentricidade de alguns desses locais, desejada pelo antecessor de Dilma Rousseff, nosso Guia Lula da Silva?  Ou serão as mortes de operários, vítimas de precárias condições de segurança?

       Mesmo em São Paulo, o Itaquerão teve a sua sinistra colheita, assim como no Amazonas, o estádio de Manaus.
       Lembram-se daquele prometido (por um subalterno de Herr Blatter) pontapé no traseiro ? Terá realmente apressado as coisas?  E será que a reclamação presidencial terá o condão de desatar os nós de ‘o país mais atrasado’?

 

(Fontes: O  Globo,  Folha de S. Paulo)

domingo, 5 de janeiro de 2014

Colcha de Retalhos B 1

                          

Chapa Campos – Marina

 
            Carece de muita frieza e algum desprendimento, a decisão de Marina Silva – que as prévias deverão confirmar ou não – de aceitar ser vice na chapa do PSB, encabeçada por Eduardo Campos.

          É poção amarga, mas que a sessão do Tribunal Superior Eleitoral – negando licença à Rede Sustentabilidade – por força de uma série de manobras, mas sobretudo a estranha recusa pelos cartórios do ABC paulista (reduto do PT, como se sabe) de reconhecer muitas das firmas de subscritores da dita Rede –  tornou inevitável.

          Agora é conferir a evolução nas prévias. Se a candidatura do governador Campos decolar, tudo bem. Mas se o céu enfarruscar-se para esses lados, e Marina persistir a ser a única candidata (excluído José Serra) a forçar um eventual segundo turno para a Presidenta, serão de prever-se, no campo socialista, perturbações nada atmosféricas.   

 

Ecos da Primeira Guerra Mundial

 

            A Humanidade – e em especial a Europa – atravessava época de grande prosperidade. Nada como um conflito, portanto, e com as dimensões que o definiriam os contemporâneos como a Grande Guerra, para pôr tudo a perder, substituindo o congraçamento pelos ódios nacionais, as perspectivas de indefinido progresso pelas crises econômicas e a miséria do pós-guerra.
            A chamada Belle Époque  não era a mítica Cuccagna (terra da fartura), mas se caracterizava por abertura e tolerância recíproca. O que aconteceu com o Titanic em 1912, ao afundar na madrugada de 15 de abril, na maior catástrofe marítima da História (1517 pessoas afogadas) para alguns já pressagiava maus augúrios. Pensar no luxo e esplendor do transatlântico diante do gritante despreparo para um naufrágio (acidente que não pode ser esquecido no mar), é talvez uma metáfora para a fragilidade da sociedade de então, em um mundo de riquezas e até opulência, cercada por ameaças para as quais não estava preoparada.

            Semelha oportuno recordar que naquele período – assinalado por níveis de comércio e desenvolvimento que ficariam inatingíveis por muito tempo – sem falar de toda a burocracia do medo dos tempos atuais, que é imposta aos viajores, não existiam limitações para as viagens, além da precariedade das estradas. Pois os viajantes de então – que se serviam do trem e dos navios – não precisavam de passaporte!

            Estavam livres, portanto, da burocracia dos vistos e de todas as demais maçadas que o progresso subsequente lhes providenciaria.
          Quanto às causas da calamidade de l914-1918, não é aqui decerto o local para aprofundá-las. Para mim, a deposição branca do Príncipe Otto von Bismarck em 1890 pelo novel imperador Guilherme II foi o signo  precursor da desgraça vindoura. Premonitório o desenho da revista Punch, com o Chanceler descendo a escada da nave Alemanha, sob as vistas displicentes do jovem Imperador. O último Hohenzollern misturava a vaidade pessoal com a inepta soberba dos neófitos. Custou-lhe tempo para desfazer a tapeçaria de alianças que o unificador da Alemanha sob a Prússia tecera com arte e diplomacia.             

           Mas ao cabo, o Kaiser lá chegaria, enquanto prometia às suas tropas que estariam de volta ao lar germânico quando caísse a folhagem (daheim wenn das Laub fällt). Dessarte, a ambiguidade de Edward Grey, Secretário do Exterior de Sua Majestade Britânica, foi apenas umas das peças na engrenagem maldita. Engrenagem esta que Guilherme II, como aprendiz de feiticeiro, saberia desencadear para infortúnio de tantos e, sobretudo, do Século XX, que entraria nos decênios subsequentes na marcha batida da loucura, de que seria o principal causador um cabo austríaco...

 
As Olimpíadas de Inverno em Sochi

 
         As explosões provocadas por homens e mulheres-bomba já mataram 34 pessoas em Volgogrado (a antiga Stalingrado). Daí, no contexto da vizinha insurreição da Tchetchênia, a ameaça do terrorista Dokka Umarov de desorganizar os jogos tem sido levada a sério por Vladimir Putin e seu governo. Umarov, apelidado o Bin Laden do Caucaso,  especializa o próprio grupo terrorista islâmico em ataques a civis indefesos.

          Com vistas, no entanto, a dar melhor impressão para a comunidade internacional, gospodin Putin levantou a proibição antes estabelecida contra quaisquer manifestações de protesto. Posto que exista enorme diferença entre as manifestações pacíficas e as explosões de homens-bomba, os regimes autoritários têm o vezo de desconhecê-los, e até de aplicar a reuniões pacíficas de protesto o pesado tratamento com que as ditaduras distinguem os seus opositores.

         Obrigada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) a reservar espaço para demonstrações de dissenso (nas olimpíadas de Beijing, de 2008), a China cumpriu à risca a regra, só que no espaço vazio não admitiu qualquer manifestação, além de acossar e até prender os grupos de protesto (pelo simples fato de requererem a necessária autorização para externar a respectiva opinião).

         A propósito do decreto de Putin, disse Tanya Lokshina, representante russa da Human Rights Watch[1]: ‘o afrouxamento da proibição faz parte do esforço do governo russo em convencer os críticos de que é uma democracia, em que se respeita, dentro de limites razoáveis, a liberdade de expressão’. Lokshina, no entanto,  acrescenta: ‘Sugiro que não se deixem convencer tão facilmente’.

         Não surpreende, outrossim, que haja discrepância entre as declarações otimistas de Yakunin, presidente das Ferrovias russas, e que conectou os sítios olímpicos com Sochi. Para ele, faltam apenas ‘alguns detalhes’ nos preparativos, embora alguns locais não estejam prontos, como o estádio principal e o trampolim para as provas de esqui (cuja construção foi marcada por uma série de escândalos financeiros).  

 

   O Inferno de Cristina Kirchner

           
             Depois de uma criminosa greve policial, no início de dezembro, em que a população argentina ficou à mercê de saques e da insegurança extrema – na qual há um domínio da mala vita não só de noite, como às vezes em outros países, mas também de dia, coube ao argentino o suplício de uma onda de cortes de energia.

             Por vezes, quem não está habituado a esse percalço do subdesenvolvimento não situa corretamente os inúmeros dissabores trazidos pelo apagão. Os incautos, que só enfrentaram o problema de forma superficial, pensam que implique apenas no desconforto de ficar preso em elevador ou de padecer de canícula, pela falta de ar condicionado.

              No vasto mundo subdesenvolvido, a falta de luz e de energia ataca mais fundo a população, que se vê privada das benesses da geladeira (depois de 24 horas sem corrente elétrica todos os alimentos têm de ser jogados fora). Assim, o desconforto da falta de ar condicionado – e de subir ou descer escadas de edifício, é  problema menor (se o infeliz não ficar preso em elevador escuro, e sem qualquer ventilação: não há melhor exame prático para saber se alguém sofre de claustrofobia).

             A reação da senõra viuda de Kirchner se ateve ao respeito exclusivo da privacidade de seus infelizes concidadãos. É bem verdade que não havia tevê ligada para ouvi-la, mas será que uma palavra de conforto e de alguma participação emotiva não caberia? A onda de calor foi, decerto, grande: mais de 30º por cinco dias consecutivos. Se para nós brasileiros não é coisa de assustar, para os argentinos, de clima temperado, terá sido uma situação difícil.

             O pior estava na previsibilidade dos blecautes. Uma longa série de secretários de energia alertou sobre o colapso do sistema. E, nesse contexto, o verdadeiro culpado pela crise é o populismo tarifário do governo. Por falar em bondades do governo, será que o comportamento da administração de Cristina Kirchner, que oferece subsídios ao consumidor, mas não deixa margem para investimento de parte das distribuidoras energéticas, será tão solitário e excepcional assim, em termos de América do Sul?...

 
 
(Fontes: O Globo; Folha de S. Paulo; The New York Times; VEJA; Der Spiegel)      



[1] Vigia de Direitos Humanos. Diretores dessa NGO foram sumariamente expulsos da Venezuela (no governo do finado Hugo Chávez) em vôo para o Brasil, pelo ‘crime’ de registrar as inúmeras infrações aos direitos humanos do governo de Caracas.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Secos e Molhados

                         

Superávit na prorrogação e com ajuda do juiz

 
              Aos trancos e barrancos, como é o retrospecto do Governo Dilma, em termos fiscais, foi cumprida a meta em termos de superávit primário.

             Para acalmar o mercado – que estaria nervosinho -  o Ministro Guido Mantega antecipou ontem o resultado das contas públicas da União em 2013. Segundo o Ministro da Fazenda, o superávit primário (economia para pagamento de juros da dívida pública) do governo central (Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência Social) atingiu R$ 75 bilhões (a meta assumida era de R$ 73 bilhões).
             Por sua vez, a meta de superávit primário de estados e municípios é de R$ 37,9 bilhões, ou 0,8% do PIB. Ante a dificuldade de estados e municípios em cumprirem a sua parte, a União decidiu fazer reserva de R$ 10 bilhões para compensar parcialmente o que estados e municípios não lograssem poupar em 2013. No entanto, até novembro o esforço fiscal de estados e municípios  estava em apenas R$ 20,16 bilhões, vale dizer R$ 17,44 aquém da meta. 

            Como indicado pela colunista Miriam Leitão, foi tortuoso o caminho seguido pelo Governo em termos de superávit.  Concedeu a si próprio vários abatimentos no número que teria de cumprir e, mesmo assim, só atingiu o objetivo porque houve receitas extraordinárias (de acordo com a economista Margarida Gutierrez metade dos 75 bilhões economizados se referem à concessão do campo de Libra e ao Refis, programa de parcelamento de dívidas).
            Por outro lado, segundo Gil Castello Branco, o governo assumiu o compromisso de pagar, mas não pagou, R$ 165 bilhões, o que somado ao que não fora pago anteriormente, produziu um ‘restos a pagar’, ainda de acordo com Gil, de R$ 240 bilhões: “Com o volume crescente de restos a pagar, esse expediente virou um verdadeiro orçamento paralelo. Em 2002, foram R$ 20 bilhões”.
 
         Ainda de acordo com Gil, “contabilidade postergada é irmã da contabilidade criativa.”

          Na verdade, o Governo Dilma é tristemente coerente com a sua estratégia fiscal. O desrespeito à norma está presente por toda a parte, seja nas gastança generalizada, e o excesso de despesas resultantes de uma pletora de manobras fiscais que traz a volta do subsídio, camuflado ou não, das desonerações fiscais (essa roleta russa que depriva de certeza os empresários nas respectivas inversões), o assistencialismo desenfreado, tudo embrulhado numa série de artifícios que ressuscitam práticas contábeis dos tempos da inflação sem peias, e de muitas mágicas, que podem confundir alguns, mas acabam sempre expostas, na sua pobreza conceitual, como receitas de malogro que sempre serão. A tudo isso, se acrescenta, em doses cavalares, as estultas manobras contra o Plano Real e a Lei da Responsabilidade Fiscal, como as últimas ‘bondades’ para a desastrosa gestão da prefeitura são-paulina pelo Senhor Haddad só tendem a agravar.

 
As Reservas Encolhem por Primeira Vez

         Desconfio que a notícia não estará nos boletins do Partido dos Trabalhadores. Por primeira vez em treze anos, as reservas brasileiras em divisas caíram 0,74% em 2013. No fim de 2013, o país teve saída líquida de dólares de US$ 7,064 bilhões até o dia 27, sexta-feira, feito o desconto de o que ingressou.

        Antes, as reservas haviam recuado só em 2000, quando por força de crise financeira, encolheram em 9,11%, perfazendo US$ 33,011 bilhões.

       Já em 2013, as reservas em divisas somavam US$ 375,794 bilhões. Não diferem muito do total referido no blog de ontem, relativo a agosto último. Resta saber, no entanto, a quanto monta a dívida externa (em agosto era de US$ 325 bilhões).

 

(Fontes:  O  Globo,  VEJA )

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A Ilha da Fantasia

                                        

         Apesar dos malabarismos fiscais, a balança comercial brasileira registra o pior resultado em 13 anos. Em 2000, houve um saldo negativo de 731 milhões, e agora, no papel, houve superávit de US$ 2,5 bilhões.
          A maior parte do déficit foi decorrente da conta petróleo, em que houve saldo parcial negativo recorde de US$ 20,3 bilhões. Há dois artifícios na contabilidade desta conta: cerca de US$ 5 bilhões deveriam ter entrado nas estatísticas de 2012, mas foram jogados para 2013, porque as autoridades então acreditaram no incremento das exportações e na consequente diluição desta entrada.

          Não foi, contudo, o que aconteceu: as exportações de petróleo despencaram, como se viu acima.
          E os malabarismos fiscais não ficaram nisso. O saldo positivo na balança comercial se deve a uma exportação fictícia: foram incluídas na conta das exportações, que somaram US$ 242,178 bilhões, as vendas de sete plataformas de petróleo (US$ 7,736 bilhões). Construídas no Brasil, foram vendidas a empresas estrangeiras (algumas subsidiárias da Petrobrás) e depois alugadas pela própria estatal. E mesmo não envolvendo saída efetiva das mercadorias do Brasil, as operações foram contabilizadas como exportação...

          Tradicionalmente, a balança comercial constitui o forte de nossas transações com o exterior. Quando elas vão mal, ou quando o saldo é pouco significativo (além de ser produto da conhecida contabilidade criativa), as perspectivas para o balanço de pagamentos não se afiguram como favoráveis.

         No final do exercício de 2013, as contas carecem de ser zeradas. Se o balanço de contas correntes – que inclui, além da balança de mercadorias, invisíveis, turismo, transações financeiras, etc. – em que a nossa posição costuma ser deficitária,  o resultante saldo negativo precisa ser compensado ou pelo excedente na balança comercial, ou pelo saldo positivo geral com o exterior.
        Malgrado todas as lorotas dos gerarcas do PT – com Lula à frente – de nossa condição de credor  do  Fundo Monetário Internacional, na realidade as nossas reservas internacionais (em torno a trezentos e setenta  bilhões de dólares em agosto de 2013) eram superiores nessa data à divida externa, no montante respeitável de 325 bilhões de dólares. Nessas condições, haveria um saldo ativo de 45 bilhões de dólares.

        Se o déficit no balanço de contas correntes fôr muito grande – como o indicaria, entre outras, a gastança dos turistas brasileiros no exterior -  o colchão de divisas para absorver o eventual déficit pode acabar com um crédito assaz frágil, ou até mesmo um déficit. De qualquer forma, com o endividamento de estados – a que o Senado Federal em geral não aplica o necessário controle – esses 45 bilhões, legados por Lula, podem esfarelar-se mais prontamente do que contam as autoridades. Se as coisas forem por água abaixo, dentro do retrospecto da presente administração, a tal condição que a permite jactar-se de ser credora do velho algoz de nossos Ministros da Fazenda – quantos compromissos firmou Delfim Neto com o FMI ? – pode durar tanto quanto as miragens no deserto...

 
 
(Fontes: O Globo, Folha de S. Paulo, VEJA)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Diário da Mídia (I)

                                        

Guerra psicológica

        Há talvez duas explicações básicas para o súbito maniqueísmo da acusação de guerra psicológica, brandida pela Presidenta na sua alocução, supostamente ao ensejo do Novo Ano, e na realidade como salva inicial na campanha eleitoral.
         As críticas dos economistas se centraram sobre as razões da falta de confiança do empresariado. Nesse contexto, Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, afirmar que o governo mostra resistência em perceber que é o causador da falta de confiança por parte dos empresários, fruto, segundo ele, da piora do desempenho fiscal, da manutenção da inflação em patamar alto e das frequentes mudanças de regras. E, a tal respeito, sintetiza: “se há guerra psicológica, foi o governo quem a começou”.

         A explicação me parece convincente, mas  carece não de retoques, mas de adições que insiram no quadro o crescente parentesco do lulo-petismo com o chavismo, esse suposto avatar do neo-populismo em que o espírito de confrontação com a realidade econômico-financeira se reflete em várias gradações de deturpação intelectual.
         Talvez Dilma Rousseff não veja qualquer parentesco com a boçalidade do neo-chavismo de Nicolàs Maduro, mas na verdade a genérica acusação de guerra psicológica coloca as visões respectivas dos dois governos no mesmo campo, se afastarmos a cortina de fumaça da pobreza conceitual do limitado caminhoneiro, que transforma a alta inflação e o desabastecimento em caso de polícia.

         Culpabilizar o adversário é tática mais velha do que a Sé de Braga. Lembra a resposta do afogado, que no desespero tenta arrastar para as funduras  seu prospectivo salvador.
        De resto, basta olhar à volta – Argentina e Venezuela são bons exemplos – para indicar que o caminho das pedras não é por aí...

 
Ainda o discurso de Dilma

 
         Não se vá esperar de candidato de oposição que elogie o governo. Embora não tenha procuração da Presidenta para defende-la, parece-me, no entanto,  que o senador Aécio Neves escolheu mal no caminho das censuras, ao acusar Dilma Rousseff de silêncio sobre a tragédia do Espírito Santo.
         O que parece óbvio é que Dilma gravou a alocução de Ano Novo antes de partir de férias para a Bahia. Não poderia, assim, referir-se a uma situação que só se agravaria nos dias sucessivos.

 
Estranha Sentença

 
         O juiz Alexandre Teixeira de Souza, da 4ª Vara Cível de Petrópolis declarou nulo, por sentença, o processo de tombamento do Instituto  Estadual do Patrimônio Cultural (Inecpac)  de 1991. A decisão judicial põe em risco centenas de imóveis históricos na cidade imperial.
         Dentre os imóveis tombados pelo Inepac estão prédios importantes como a Agência Central  dos Correios e Telégrafos, o Colégio Dom Pedro II, o antigo Cine Petrópolis (na rua do Imperador) e o Teatro Municipal Dom Pedro, na Praça dos Expedicionários.

         A sentença foi baixada no dia dezesseis de dezembro, em favor da proprietária de imóvel na rua Coronel Veiga 424, que está incluído no conjunto protegido pelo Inepac.
        A propósito, merece transcrição a  declaração da representante da Associação de Moradores e Amigos do Centro Histórico (AMA), Myriam Born:

        “É uma irresponsabilidade do Judiciário. Um juiz não pode abrir um precedente como este em uma cidade como Petrópolis, onde há um enorme assédio da especulação imobiliária. Não conheço o imóvel alvo da ação, mas esta decisão pode trazer consequências muito graves para a cidade. A sociedade que sempre lutou contra a ferocidade da especulação está apavorada, porque essa decisão deixa Petrópolis indefesa. Ela é uma afronta a todos nós que lutamos há anos pela preservação do patrimônio. Ela é o decreto do fim da cidade, que já sofre com a falta de fiscalização nos imóveis tombados.”

 
Uma Crise Previsível

 
         Os atentados de Volgogrado ( a antiga Stalingrado – o de domingo, 29, com a explosão em estação ferroviária e dezessete mortos; e o de segunda, trinta, e a explosão de ônibus, e catorze mortos) não provocaram uma pronta reação do Presidente Vladimir Putin, o que só fez mais tarde.
         As nuvens sobre os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi persistem. Há muitas razões que militam contra a oportunidade de realizá-los nessa localidade ao sul da Rússia, próxima do Mar Negro e da Georgia. Entre essas, fatores meteorológicos que não a tornam o sítio ideal para esportes invernais.

         Tais motivos ora se afiguram menos importantes, do que a insurreição na Tchetchênia, com a ameaça que o desespero dos atentados suicidas venha a representar.
         Ora Putin vem afinal assinalar todo o empenho do Estado russo em estabelecer o rigor securitário. Sem embargo, a segurança dos atletas e do público continua em jogo, dada a proximidade do enclave terrorista que continua a existir no Norte do Cáucaso, a despeito dos bilhões de dólares gastos para erradica-lo (como assinala Leonid Bershidsky, do Moscow Times).

 
(Fontes: O  Globo, Folha de S. Paulo)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Feliz Ano Velho !

                                         

       Por vezes me pergunto se algum dia iremos superar o trauma (e o vezo) da cultura inflacionária.
       Não tenciono referir-me ao Plano Real e ao mega-esforço de varrer de Pindorama as deformações da carestia. Se pensávamos que se Lula teve o discernimento de considerar o Plano uma conquista de governo e não de partido, não nos entraria na cabeça que criatura sua, movida por confusas ambições desenvolvimentistas,  viesse pôr  a perigo uma política de Estado.

      A despeito de o que poderíamos chamar as vivandeiras da inflação – um punhado de economistas, saudosistas não se sabe de quê, e que ora gravitam nas aras do Palácio, encantados por descobrirem alguém que lhes dê atenção – existe no Brasil um perigo ainda maior do que a bem-fundada incompetência econômica de Dilma Rousseff.
     Será resquício da indexação financeira – essa praga pluridecenal – que nem os pais do Plano Real lograram erradicar.

      A cada ano novo – e os seus sôfregos idólatras já os empunham antes mesmo do pirotécnico ritual de Copacabana – ressurgem os filhos diletos do Dragão, com a sua ominosa sopa de letras dos índices.
      Nessa repetitiva luta entre Hércules e Anteu, quem perde sempre é o Povo Soberano, batido por sociedades de interesses, que, por trás da hipocrisia da hipercorreção de preços,  logram assegurar a velha meta da ganância ancestral. Que se evaporem as vitórias do herói que libertou Prometeu! Assim, como nos ensina Lampedusa, tudo fica na mesma, enquanto se mantém a epimetéica e infernal ordem das vantagens corporativas, em detrimento do interesse geral.

       No capítulo das irresponsabilidades do Poder público, a prefeitura do Rio de Janeiro, como se fora reflexo maquinal, faz aos taxistas uma barretada com o chapéu do povo. Não bastasse a ridícula e demagógica concessão de dona Dilma aos atuais detentores de franquias de taxista, que transformou em direito hereditário, agora a cada ano o Senhor Paes se apressa em salgar ainda mais a conta do usuário.
      Parece que os poderes não se resignam a dispensar o povo das tabelas de ‘correção’ de bandeirada. Como nada mudou, salvo o calendário, o carioca, depois de pagar por todo o dezembro em uma tabela dois que eterniza concessão demagógica de longínquo antecessor, se vê confrontado com outra munificência do Prefeito, que, para variar, financia a própria demagogia com o dinheiro do contribuinte.

      Mas os artificiais males do Ano Novo não param aí. Este blog noticiou nesta semana que os proprietários dos ônibus entraram com ação junto ao judiciário carioca para supostamente ressarcir-se dos alegados prejuízos que sofreram, quando o povo nas ruas forçou governador e prefeito a engolirem os anunciados aumentos nas passagens. Não sei como reagirão os juízes, que conhecerão da ação, e os desembargadores que dela se ocuparão em segunda instância. O município nada deve a esses senhores que controlam os consórcios de ônibus. Os aumentos do ano passado foram desfeitos pelas passeatas do passe-livre da Paulicéia. As recusas iniciais do prefeitos Haddad e Paes, caíram por terra, como despencou a popularidade de dona Dilma. Seria bom que os dois prefeitos, cujas ambições semelham desproporcionais às respectivas realizações, não se esqueçam do tropeço do ano passado, quando tiveram de aceitar carrancudos o que pretendiam rejeitar com soberba.

     O carioca bem sabe da qualidade desse transporte coletivo.  Na verdade, essa palavra em grifo já parece deboche. Além da deficiente manutenção, de sua falta para atender a demanda, o desconforto que se impõe ao usuário – ar condicionado não é conforto, mas necessidade nas temperaturas desse estado – tornou a sua utilização como um sacrifício permanente, agravado pelas enormes filas no transporte entre zonas norte e sul (condições de resto pioradas pelas obras no metrô).
     O povo, tanto carioca, quanto paulista, merece respeito efetivo, e não aquele pro-forma. Transporte público de qualidade, com condições de conforto, seria uma demonstração de espírito cívico e de atenção à cidadania.

     Não é favor. De nada adianta a publicidade enganosa, de que são useiros e vezeiros os poderes federal (V., por exemplo, os anúncios do SUS), estadual e municipal.

     Tampouco semelha aconselhável brincar com a paciência do Povo. Os alegres compadres de Brasília (e adjacências), como dizia Júlio Tavares (aliás Carlos Lacerda) que ponham as barbas de molho.

    

 

(Fonte subsidiária: O Globo)