segunda-feira, 7 de maio de 2012

Eleições na França e Grécia


                                 
        Os resultados deste domingo corresponderam às previsões, posto que com algumas precisões importantes.
        Na França, a diferença entre François Hollande e Nicolas Sarkozy foi bastante menor do que o previsto. Se bem que os resultados definitivos ainda tardarão, as últimas  projeções de boca de urna apontam para Hollande com 50,8% e Nicolas Sarkozy 49,2%, o que retrata a divisão da França (1% de diferença), e a recuperação do candidato da U.M.P.
       O mandato eleitoral carece, portanto, do caráter incisivo, e dependerá essencialmente de dois fatores. Da interpretação que lhe dará o novo presidente socialista e como será formado o novo Parlamento, nas eleições legislativas que se seguirão.
       É de esperar-se pelo futuro da Europa que François Hollande revele a determinação que desde os tempos de François Mitterrand – que o preteriu por duas vezes em nomeações ministeriais, optando por sua então companheira Ségolène Royale – não tem mostrado.
       Já no Palácio do Elysée, o novo Chefe da Nação enfrentará as eleições parlamentares. Com a sua vitória, excluído o imprevisível, é provável que consiga eleger Parlamento com maioria da esquerda. Conquanto não se possa eliminar a possibilidade da coabitação – como aconteceu com o Presidente Jacques Chirac (UMP) e o Primeiro Ministro Lionel Jospin (socialista) – este fenômeno francês, em que situação e oposição convivem no governo, é mais provável em meio ao mandato presidencial, e não logo após a eleição do Chefe de Estado. De qualquer forma, dados os imponderáveis das votações aos partidos extremistas, e em especial o Front National, tal perspectiva não pode ser descartada de todo.
      Por sua vez na República Helênica – onde começou a tempestade que ainda assola a União Europeia e, em particular, a Zona do Euro – o pleito de domingo na verdade não surpreendeu. Ninguém duvidava que o voto de protesto, dados os sacrifícios enfrentados pelo povo grego, alçaria a cabeça, manifestando a preferência pelos partidos contestadores, como a extrema direita, a extrema esquerda, através de coalizão Syriza da esquerda radical.
     Conforme projeções de boca de urna, a Nova Democracia, de Antonin Samaras, alcançou entre 20.5 a 19%, o Pasok (socialista) com 13 a 14% sofreu as consequências de sua associação com o acordo-diktat com a U.E. e a Syriza, que se opõe a entendimento com os financiadores externos, colheu 15.5 a 17 % dos sufrágios. Assinale-se que a extrema esquerda só não colheu a palma da formação majoritária, porque o Partido Comunista Helênico (9%) não se associou à Syriza.
     Como a Constituição grega outorga vantagens ao partido que obtenha maioria relativa, não se pode excluir que, após a refrega, e não obstante a diminuição relativa nas bancadas dos dois partidos diretamente partícipes das negociações do ‘pacote’ da recuperação da economia grega, i.e., o Pasok e a Nova Democracia, ambos venham a sobreviver politicamente, e formem um governo de coalizão.
    Nesses termos, o rescaldo eleitoral na Grécia poderá ser  que o Presidente Karolos Papoulias, socialista já no seu segundo mandato quinquenal, convide os líderes dos tradicionais partidos helênicos par formarem gabinete encabeçado por Antonin Samaras (ND) e Evangelos Venizelos (Pasok), este último o Ministro das Finanças que desde o gabinete de George Papandreou tem negociado e costurado os diversos entendimentos que marcaram a penosa travessia helênica, depois da farra anterior, marcada por altos déficits e discutíveis estatísticas.
     Se tal vier a ocorrer – e as probabilidades se afiguram bastante fortes – o pós-eleitoral revestirá inegável ironia no que tange ao resultado concreto da consulta popular na Grécia. Dessarte, na mãe da democracia, se verá confirmado o ditado francês ‘mais que isto mude, tudo fica na mesma’ (plus ça change, plus c’est la même chose), enquanto na França, haverá alguma mudança, condicionada pela personalidade de François Hollande e pendente da composição do próximo Parlamento.




( Fonte: International Herald Tribune, O Globo )               

domingo, 6 de maio de 2012

Colcha de Retalhos CXII

                                   
Chen, um dissidente diferente

    O caso de Chen Guangcheng representou um desafio bastante mais complexo para o governo chinês. A princípio, a fuga heróica e rocambolesca de um ativista cego para desvencilhar-se de  situação iníqua. Depois de cumprir a respectiva pena, ficar submetido à prisão domiciliar, agravada por sevícias sistemáticas. Como justificar o confinamento ilegal, ainda mais acrescido pelos maus tratos à família de Chen ?
    Na travessia que parecera em busca do único templo moderno suscetível de conceder na China hodierna o equivalente da proteção dos antigos deuses, Chen já evidenciara grande habilidade. O seu apelo a Wen Jiabao pela punição dos quadros locais adotou, como assinala David Pilling, o mesmo tom de crítica empregado no discurso do Primeiro Ministro contra Bo Xilai, o secretário do Partido Comunista na cidade de Chongqing caído em desgraça. Ao acusar tais esbirros de macular a imagem do PCC, Chen desafiou Wen a responder se os funcionários agiam por conta própria ou conforme as instruções de Beijing.
     Por outro lado, quando Chen formula não um pedido de asilo, com sua carga de desprestígio para o regime chinês, mas solicita lhe seja concedida a oportunidade de estudar nos Estados Unidos, ele se vale de uma situação que beneficiou  cerca de 340 mil chineses que, no ano passado, foram autorizados a estudar no exterior.
    A possibilidade aberta para o advogado Chen de continuar seus estudos em departamento de universidade americana proporciona às três partes da crise uma solução que atende  suas mínimas exigências. Chen poderá levar a esposa e os filhos, enfim livres da opressão do cárcere. A Secretária de Estado Hillary Clinton e sobretudo Barack Obama podem deixar para trás as acusações republicanas de incompetência ou pior, através do satisfatório encaminhamento de uma questão ora burocrática, e não mais contenciosa. Por fim, o governo chinês se livra do desgaste de mais um problema de direitos humanos.
     Pensando instrumentalizar uma crise diplomática como providencial arma na campanha pré-eleitoral, eis que o tiro lhes sai pela culatra. Tornam-se, assim, o G.O.P. e, em especial, Mitt Romney e seus muitos agregados na mídia os reais perdedores no episódio. De súbito, veem  desaparecer o que se lhes afigurava como promissora oportunidade de atazanar Obama e embaraçá-lo como se fora inábil defensor dos direitos humanos.  São paladinos sem causa, na algo patética e vexatória posição dos que acometem um bastião que pensavam conquistar com muita precipitação  e pouco discernimento.


Economia Americana: cenário ambíguo   

     Continua frouxa a retomada das contratações na economia americana. Se em março, houve incremento de 154 mil novos empregos, a curva prosseguiu em viés ascendente, mas com avanço decepcionante, em abril. 115 mil novos empregos foram somados pela economia, em desenvolvimento saudado como positivo pela Casa Branca, posto que ainda insatisfatório eis que não corresponde a uma corrente que sinalize rápida retomada nas atividades econômicas.
     Como sublinhou Ian Shepherdson, conceituado analista econômico ‘depois de uma série de estatísticas alentadoras em princípios do ano, tivemos clara redução na tendência nos últimos dois meses. A diminuição no ritmo pode ser explicada por temperaturas mais altas pouco comuns no inverno, o que terá induzido as companhias a contratar mais cedo do que de costume. Se se deve ao aumento dos preços na gasolina, o fenômeno pode reverter, eis que as cotações da gasolina no atacado baixaram de forma acentuada nas últimas semanas.’
     Há também esperança de que as estatísticas possam ser revistas pelo Departamento do Trabalho. É o que aconteceu nos últimos dois meses, indicando que o crescimento no emprego foi maior do que inicialmente estimado.
    Sob o aspecto positivo, a Administração Obama pode indicar um relativo aumento nas contratações. Sob o viés negativo, tal movimentação ainda não prenuncia maior confiança na recuperação da economia, perdurando uma impressão de uma estagnação econômica.


O Atoleiro Sírio  


     A despeito do envio de novos inspetores pelas Nações Unidas, continuam as notícias de desrespeito pelo Governo de Bashar al-Assad do cessar-fogo. Em certas regiões, o plano Annan de paz não tem qualquer presença deterrene efetiva nas áreas conflagradas, mais parecendo ficção do que realidade.
     Para tanto contribui a circunstância de que o contingente da ONU não dispõe de qualquer elemento de coerção. Dada a má-fé da ditadura, o envio de fiscais não tem impedido as operações do exército sírio. Sob o pretexto de que os rebeldes não respeitam a ‘trégua’, as forças de Assad tem realizado  bombardeios de áreas urbanas que, na prática, ignoram os contingentes de observadores das Nações Unidas.


A CPI do Cachoeira 


     É cedo ainda para afirmar se esta CPI será apenas um instrumento para castigar  a oposição – segundo seria a intenção do ex-Presidente Lula da Silva, que visa ao desafeto Marconi Perillo -, investigar a Construtora Delta, como semelha o propósito da maioria, ou um pouco de tudo, com o escopo de desviar as atenções do anunciado  julgamento do mensalão, pelo STF.
    Há indícios preocupantes de blindagens de governadores, como semelha ser o caso de Sérgio Cabral, malgrado as revelações do blog do Garotinho, com a farra do lenço em restaurante de três estrelas. Gorou a tentativa de convocar o Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, que, segundo a revista VEJA, seria ‘apenas para tentar constrangê-lo’. A conexão com o mensalão afigura-se aqui muito óbvia.
    Tampouco se pode dizer que a CPI Mista se oriente para uma meia pizza. A embaraçosa situação do Senador Demóstenes Torres (GO/ Sem partido) pode ser resolvida antes pelo Conselho de Ética do Senado e a votação no plenário. O que será feito do governador Agnelo Queiroz ?
        Há muitas perguntas no ar além das referidas acima, como leitura perfunctória da VEJA e da Folha tende a acenar. O que, no momento, semelha um verbo adequado para o que se prevê da CPI. Muitos acenos, mas as confirmações virão – ou não – mais tarde.
        A ver.




( Fontes: International Herald Tribune, VEJA, Folha de S. Paulo )

sábado, 5 de maio de 2012

A Eleição Francesa (II)

                                  
       François Hollande mantém a dianteira das preferências até as vésperas da eleição presidencial mas sua vantagem tem diminuído de forma constante.De uma diferença de até quinze pontos, nas últimas pesquisas, três delas apontam  cinco pontos  percentuais, em favor de Hollande (52,5% contra 47,5% para Sarkozy), e uma delas a restringe sua vantagem para 4 pontos (52% a 48%).
     Dois fatos são inegáveis: o candidato socialista continua na frente, mas a sua margem se vem estreitando bastante na véspera do domingo seis de maio. O Presidente Nicolas Sarkozy conseguiu reduzir a sua posição de inferioridade, mas até agora não logrou reverter o quadro.
     A despeito de dúvidas acerca de sua firmeza e capacidade – dúvidas essas que vem de longe, eis que o Presidente François Mitterrand nunca o nomeou para um ministério, preferindo escolher a sua então esposa Ségolène Royale[1] – Hollande fez  boa campanha, chegando inclusive a vencer no debate final com o presidente Sarkozy.
     Nessas condições, malgrado a estreiteza da margem, François Hollande pode ser considerado como o mais provável ganhador do pleito de amanhã.
    Não obstante o seu desempenho algo apagado no debate, chegando até a ficar na defensiva, Sarkozy ainda pode surpreender. Dois fatores apontam nesse sentido: a sua progressão nas últimas prévias, mas sobretudo a dúvida colocada por 15% de indecisos.
    Boa parte dos eleitores da extrema-direita tendem a ‘camuflar’ o seu favorecimento do Front National. Perguntados pelos pesquisadores, muitos deles têm vergonha de assumir a sua preferência fascistóide. A líder Marine Le Pen declarou que votará em branco no segundo turno. O seu objetivo é, sobretudo, preparar o terreno para uma boa votação do F.N. na fase ulterior  para o Legislativo.
    Semelha discutível que tal sinalização da Le Pen seja seguida maciçamente por seu eleitorado. A maior parte dele deverá votar por Sarkozy, conquanto a parcela de que necessita do sufrágio do Front  para superar Hollande (80%)  se afigura assaz difícil de ser atingida.
    Também François Bayrou, o líder do centro, se afastou do presidente, declarando que votará por Hollande. Nesse campo, o mais provável é que os eleitores centristas se distribuam entre os dois candidatos, com pequena vantagem para Sarkozy.
    Resumindo, em termos de linguagem turfista, François Hollande não é pule de dez, i.e., franco favorito, mas, a julgar pelas pesquisas, parece ser o provável ganhador. Por sua vez, Nicolas Sarkozy não seria contudo um azarão, com  pule muito alta, retendo algumas possibilidades de surpreender.



( Fonte:  O  Globo )



[1] A candidata socialista à presidência batida por Nicolas Sarkozy, no segundo turno de 2007.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Estado de Chávez se agrava


                          
        Por não recorrer a exames regulares de sua saúde, a doença se manifestaria para o Presidente Hugo Chávez já em estágio adiantado, quando é maior a possibilidade de que o câncer não mais esteja localizado.
       A intervenção de urgência a que teve de submeter-se em Havana revelaria a existência de um tumor médio na área pélvica.
       Essa falta de cuidados preventivos, a que todos, no seu próprio interesse, devem submeter-se através de check-ups periódicos, criou uma situação duplamente desvantajosa para o presidente da república da Venezuela.
      Por um lado, a enfermidade não foi detectada em seu estágio inicial quando, pelas   atuais condições da medicina, as possibilidades de cura são muito maiores. Quanto mais cedo o câncer é diagnosticado,mais crescem as perspectivas de que seja eliminado do organismo.
     Com a progressão desimpedida da enfermidade, ela tende não só a aumentar localmente, mas também a difundir-se no corpo através das chamadas metásteses-  migração para outras áreas do organismo de células cancerosas.
     A oncologia tem feito grandes progressos nas últimas décadas. Se revelados em fase inicial, quase todos os tipos de câncer podem ser tratados com sucesso. Há, no entanto, uma grande variedade na virulência dos seus diversos avatares. Por outro lado, a experiência demonstra que as possibilidades estatísticas de vencer o insidioso ataque são muito maiores se o enfermo recorre a tratamento na sua fase inicial.
    A descoberta da doença por Chávez em estágio mais adiantado, a par da desvantagem clínica acima indicada, também o forçou a  escolha que tampouco correspondia ao seu precípuo interesse como paciente.
    Ao invés de procurar tratar-se nos centros médico-hospitalares mais adiantados, e com maiores recursos, Hugo Chávez Frias optou por continuar a ser cuidado em Havana. Muito provavelmente,  sua eleição se deve a preocupações de sigilo clinico. Tal ficou bastante claro nos contatos tentativos estabelecidos com o Hospital Sírio-Libanês.As exigências que foram colocadas, todas elas relativas a uma obsessão de segredo, a que esse nosocômio, pelas suas normas de transparência, não pode admitir.
    Por isso, Chávez - e o seu círculo – se viram obrigados a continuar o tratamento em Cuba.  Em todos os regimes autoritários, através dos tempos, a regra da suposta manutenção da saúde do autocrata tem sido respeitada. Até o papado o evidenciava em passado relativamente recente. Já foi citado por este blog o provérbio  romano segundo o qual o Papa goza de ótima saúde até a sua morte. Mutatis mutandis, essa verdade do poder se aplica ao próprio Chávez, quando procura tranquilizar a população no que tange às perspectivas da doença.
    A leitura de sua situação clínico-patológica, no entanto, tende ao pessimismo. Ao lado de suas assertivas, ora repetidas de confiança na intervenção divina, continuam a avançar os sinais do temor do oficialismo, como o é a formalização do Conselho de Estado, que visaria a blindá-lo contra a sua falta. Por outro lado, fala-se de fratura em parte do fêmur. Embora seja possível que se origine do emprego da radio-terapia, o mais provável seria a metástese óssea.
      Dentro das condições de ocultação do estado da doença, os rumores representam as frestas pelas quais a verdade tenta vir a tona. Se esse estado de coisas pode ser conducente a diversas discrepâncias, o bom senso tende a sublinhar a probabilidade do agravamento de sua condição clínica, e do consequente recurso a todo tipo de fabulação.
     Como no caso emblemático dos antigos pontífices, a cujo poder absoluto se aferrava a sua família e todo o entorno respectivo, as tentativas  de estender tal  domínio teriam sempre o limite ineludível e inexorável da morte física do Papa, e o respectivo termo do Pontificado.
     No dizer do monge Roger Bacon conhecimento é poder. Essa máxima aparentemente singela, se  não tem os seus efeitos  desmentidos por mudanças abruptas, tende a ser, em tais casos,  utilizada com maior proveito pela outra parte.



( Fonte: O Globo )  

quinta-feira, 3 de maio de 2012

O Dissidente Chen e o Asilo Diplomático

                          
          O asilo diplomático em embaixadas é uma instituição de origem latino-americana. Esse direito de refúgio, que é longínqua decorrência do abrigo em templos determinados, sob a proteção de divindade, na Antiguidade helênica, é concedido pela chancelaria (ministério do exterior) de um país representado junto a governo na América Latina.
          O pressuposto do asilo é o de que a liberdade e até mesmo a incolumidade física da pessoa se acha ameaçada pelo regime junto ao qual a missão diplomática está acreditada. É recurso extremo, de que se valem personalidades acossadas por motivos políticos. Esse procedimento humanitário se baseia no pressuposto de seu caráter provisório, eis que, uma vez confirmado o asilo pela respectiva Chancelaria, ele é comunicado para a autoridade local – em geral o Ministério do Exterior – com a solicitação de que seja concedido ao asilado salvo-conduto para a sua saída do país em segurança, em viagem ou para o país que lhe concedeu asilo, ou para outra direção, de acordo com a conveniência do asilado.
          Na prática, o asilo diplomático pode ter como consequência  longa permanência do asilado na residência (ou chancelaria) da missão diplomática que o acolheu, na hipótese de que a autoridade territorial junto a qual a embaixada está acreditada se negue a conceder salvo-conduto à pessoa refugiada.
          Na América Latina, o exemplo clássico de tal eventualidade – que acarreta compreensíveis dificuldades e transtornos, tanto para o asilado, quanto para o chefe da missão que o abriga nessa qualidade – foi o do sindicalista e político peruano Haya de la Torre, da Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA). Havendo sido asilado na embaixada da Colômbia em 1949, só pode sair para o exterior cinco anos depois, em 1954.
         Conquanto seja instituição latino-americana, há exemplos de asilo diplomático em outros continentes. O caso mais notável foi o do Cardeal Jozsef Mindszenty, da Hungria. Preso em 1948, e condenado sob falsas acusações pelo regime comunista, Mindszenty foi libertado pela efêmera revolução de 1956. Acolhido pela embaixada americana, o prelado ficou como asilado até 1971, quando lhe foi permitida a  ida para a Sé Pontíficia.  Com efeito, estava em curso um degelo levado avante pelo Papa Paulo VI e o Cardeal Casaroli.  O velho cardeal morreria, em fama de santidade, no exílio.
        Como se verifica, o asilo diplomático é instituição emergencial, destinada a proteger perseguidos políticos por  regime ditatorial. Para que isto se verifique, portanto, se presume de um lado  ordem estatal em que os direitos humanos não sejam respeitados, e de outro missão diplomática que esteja disposta a acolher estes infelizes da sorte.
        No Império do Meio, em decorrência dos eventos de Tiananmen, o regime político é autoritário,com as peculiares características de tais estados. O seu caráter burocrático, a pujança econômica (derivada de uma relativa liberdade nesse campo de atividade) não deve induzir a juízos apressados de que as práticas autoritárias foram abandonadas.
        Os dissidentes chineses são heróis da luta pelos direitos humanos, sendo o seu principal mártir na atualidade  Liu Xiaobo, Prêmio Nobel da Paz, desterrado em nefanda masmorra pela simples circunstância de advogar direitos a que Beijing está nominalmente obrigado por signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. 
       O episódio de Chen Guangcheng constitui mais um desenvolvimento nesse drama. Compreende-se que a missão dos Estados Unidos apareça para essa coorte de infelizes como um farol de esperança e de redenção. No passado, a sua utilização  assinalou-se pela relativa raridade. Há poucos exemplos de chineses que tenham logrado alcançar esse asilo. Fang Lizhi, o renomado astrofísico recentemente falecido no Arizona, após longo exílio, ficou homiziado em porão sem janelas do complexo da missão por mais de ano, até que Deng Xiaoping, o homem-forte de então, acedesse à sua transferência para o exterior, iniciada pela Inglaterra.
       O dissidente cego Chen, cuja rocambolesca fuga do vilarejo em que se achava ilegalmente confinado, após cumprir iniqua prisão (por defender mulheres contra a política do filho único), surpreendeu o mundo, quando não o deveria. O anseio da liberdade, como nos ensina o poeta, dá asas ao homem, que assim pode desvencilhar-se e ludibriar os seus torpes guardas.
       A passagem na embaixada terá desafortunadamente coincidido com visita da Secretária de Estado Hillary Clinton.  A acrescida repercussão de mais uma evidência da real opressão prevalente na China há de ter funcionado como adjutório para que os esbirros do regime chinês recorressem ao seu argumento mais forte, que é o da ameaça física à esposa de Chen, que se acha sob o jugo das mesmas pessoas que infernizam a vida dos amantes da liberdade na R.P.C.
        De que valerá o embaixador americano – que acompanhou Chen ao hospital – quando, por natural necessidade de serviço, tiver de afastar-se chamado por outros afazeres ? Supostamente para ser atendido clinicamente, Chen mergulha nos corredores do nosocômio chinês ?  De que lhe valerá o video postado com denúncias para o Primeiro Ministro Wen Jiabao?  Essa ingenuidade de um perseguido por causa da justiça, se é um sintoma de desespero, também  terá alguma astúcia, eis que expõe a céu aberto o que as ditaduras preferem tratar nas esquálidas salas de interrogatório.
        Por outro lado, terá sido adequado  e eticamente defensável que a embaixada o  entregasse de maneira  um tanto desenvolta logo  àqueles de quem mais este dissidente fugira, com engenho e arte, por abominar a tortura em todos os seus avatares, e loucamente ambicionar a liberdade ?



( Fonte subsidiária: Folha de S. Paulo )        

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O Dilema de Dilma

                                        
       Em rede nacional, e ainda por cima no horário do Jornal Nacional, a Presidente Dilma Rousseff atacou os bancos. Depois de haver deles conseguido uma primeira redução nos juros  bancários, ela, como diria o falecido general-presidente João Figueiredo, resolveu  ‘recrudescer’.
      Em função do processo de fusões, os grandes bancos privados no Brasil são apenas dois. Dentro de ordem similar de grandeza, há dois gigantes no setor público.
      Sob a batuta da Presidente da República, esses  últimos representam peças relevantes na pressão a ser exercida sobre os dois mega-bancos particulares.
      Iniciada sob sua Administração, a direção do Banco Central se mostrou disposta a colaborar, através de pontuais decisões do Copom[1], para a baixa dos juros. Como o Governo depende essencialmente dos juros para controlar a inflação, essa estratégia tem evidentes riscos.
      A temida volta do Dragão representou ameaça para a conquista do Plano Real. Por causa da crise financeira internacional, o governo Lula,  em ano eleitoral, cuidara para que a ‘marolinha’ não  fosse demasiado sentida na economia brasileira.
     Daí  a permanência de fatores pró-carestia, originados dos últimos meses do governo Lula, em que a economia aquecida – e não  por condicionantes sazonais, como alegara o Ministro Guido Mantega – mas configurando real ameaça inflacionária, não foi enfrentada prontamente como deveria ter sido.
    Já nesta Administração, a inflação desrespeitou de início os prognósticos oficiais. No final, terminaria o ano beirando exceder o nível máximo previsto. A princípio, o governo Dilma pensara lidar com a alça dos preços sobretudo com o mantra de asserções bombásticas, mas de questionável valia macroeconômica. No combate à carestia, a Chefe de Estado se limitava mais a palavras do que a ações efetivas.
    Por determinação sua,  o Copom continuou a reduzir a taxa Selic. No entanto, influenciada por condições internacionais, a curva da inflação voltou a níveis administráveis.
    Com a queda da carestia, pode prosseguir a baixa na Selic. No momento, os juros reais, uma vez descontada a inflação, estão em 3,3% ao ano, que é o nível mais baixo desde o início dos anos noventa.
     Para baixar os juros ainda mais – e colocá-los em nível de país desenvolvido – o governo se vê obrigado a alterar o rendimento mínimo da poupança, fixado por lei na variação da Taxa Referencial (TR),a mais 6,17% ao ano.
     Por que a necessidade de mexer com a poupança ? Trata-se da necessidade de evitar o seguinte cenário: se a taxa basica do BC (i.e., a taxa Selic) ficar muito próxima daquela da poupança, pode verificar-se a fuga dos recursos para a caderneta, o que criaria problemas aos bancos e governo.
     Este filme já foi visto antes, e a indicação da Administração de que mexeria nas regras para a poupança tiveram péssima repercussão no público, dada a confiança popular na caderneta. Por causa de tais reações, gorou o propósito de alterar as condições da poupança.  Apesar da conveniência financeira de mudar as regras, as consequências de tais projetos repercutiriam numa queda na avaliação do governo junto à opinião pública.
     Em outras palavras, a presidente Dilma entra em área minada se resolver mexer com as regras da poupança. A popularidade desta aplicação – que deriva igualmente da estabilidade de suas condições – implica em desafio importante para o governo que se atreva a mudá-la.
     O desafio se torna ainda mais complicado porque se as condições da poupança forem alteradas, a segurança do instrumento perderá em atrativo para o seu grande público (que são as classes menos favorecidas), o que redundará em menor aceitação do governo.
    Os grandes e gordos bancos particulares podem ser, na aparência, um alvo atraente para a Administração Dilma – como refletido no seu ataque ao ensejo do 1º de Maio -, mas a perseguição da baixa nos juros é  estratégia arriscada para um país cujo principal instrumento de defesa contra a inflação reside no nível dos juros básicos (fixados pelo Copom). Nessa arremetida, outro desafio está na caderneta de poupança, de longa e entranhada popularidade entre as classes de baixa renda.
    Vencido aquele primeiro obstáculo, este segundo – até o presente todas as tentativas de mexer na poupança malograram, por causa da repercussão negativa na curva de avaliação do governo pela opinião pública – avulta portentoso.
    Logrará Dilma Rousseff conciliar essas duas variáveis que, no passado, se provaram inconciliáveis ?
    A dificuldade provém da pouca flexibilidade das soluções. Ou se mantém os atrativos da poupança, em detrimento da taxa de juros, ou esta prevalece contra aquela popular aplicação.
     Este dilema configura um pouco a quadratura do círculo. Se Dilma lograr manter o seu prestígio, forçando os bancos privados a baixarem inda mais os juros para o consumidor, e preservar de alguma forma a poupança, terá superado o seu criador e mestre.
     Mas a façanha precisa confirmar-se, para que se lhe tire o chapéu.



(Fonte:  Folha de S. Paulo )

   



[1] Comitê de Política Monetária.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Notícias do Front (17)

                                   
  Reação europeia pró-Timoshenko

      O governo do Presidente Viktor Yanukovitch, por sua perseguição da líder da oposição, Yulia Timoshenko, se vê diante de um crescente boicote político de líderes europeus. Há várias ausências políticas já anunciadas para a Reunião de Cúpula de governantes do Centro e do Leste Europeu, por causa do escandaloso tratamento dado à Timoshenko.
       Com efeito, a Chanceler Angela Merkel, assim como chefes de estado e governo da Áustria, Eslovênia, República Tcheca e Itália, não pretendem ir nos próximos meses à Ucrânia, enquanto não se resolver satisfatoriamente a situação da ex-Primeira Ministra.
      A greve de fome por ela iniciada foi o recurso in extremis  adotado pela Timoshenko, diante do cinismo e da violência dos métodos empregados pelo governo de Viktor Yanukovitch.
      Depois da discutível condenação sofrida através de um dócil juiz, a campanha judicial orquestrada pelo governo Yanukovitch – este, por fraude eleitoral, fora afastado, em 2004, do poder pela revolução laranja, encabeçada por Viktor  Yushchenko – redobra de intensidade, agora através de nova ação, relativa à suposta evasão fiscal na década de noventa, em empresa privada de energia.
      Ameaçada de mais doze anos de prisão, nessa cascata de processos encomendados, a Timoshenko prossegue na sua greve de fome.
      Entrementes, manifestações de multidões em favor da líder da oposição ocorrem em Kiev. E o ucraniano Vitali Klitschko, campeão mundial de boxe, se pronuncia em favor de pressões da UE sobre o seu país “contra situações políticas negativas”. No seu entender, a Ucrânia se está tornando um regime autoritário.
     E a despejada perseguição por Yanukovitch de sua adversária política é disso prova bastante.


Ainda os efeitos de despropositada excursão   

         O rei Juan Carlos de Borboun continua devedor de garrafal erro político. A caça, esse falso esporte, que se baseia em infligir a morte a outras espécies, sofre cerco crescente da opinião pública.
        A gritante falta de sensibilidade de Sua Majestade torna-se ainda mais exasperante não só pelo escopo da jornada – em anacrônica exposição da crueldade ocidental em terras africanas, em incrível página que teima em não ser virada -, mas pela situação de seus súditos, com o desemprego de tantos infelizes, e a ameaça de desgraças econômicas ainda piores.
        A Espanha  tem uma relação histórica de ódio e amor com a realeza, como o atesta o desprestígio real nos anos trinta, e o advento de uma república que os fascistas condenaram a uma vida curta.
         Apadrinhado pelo caudilho Francisco Franco, em detrimento de um pai menos manejável, Juan Carlos demonstrou a princípio bom senso e firmeza que lhe ganharam amplo apoio popular.
        Agora septuagenário, terá pensado reaver o malbaratado prestígio com um pedido de desculpas ? Além de afastar-se do credo dos Bourbon de França – de onde é originária a Casa Real de Espanha, obtida por longa e desgastante guerra por Luis XIV, o Rei-Sol de França – teria feito melhor Sua Majestade se tivesse agido como antes, pondo-se à frente das causas gratas à seu povo.
        Derramado o leite da antiga confiança, fica complicado recolocá-lo na garrafa.


 Mais um asilado na Embaixada Americana


        Morreu no exílio faz pouco talvez o maior símbolo das manifestações de Tiananmen. Fang Lizhi ficou homiziado por um ano em porão sem janelas da embaixada estadunidense em Beijing.
        Só logrou a liberdade após reconhecer a própria responsabilidade, em confissão exigida pelo lider supremo Deng Xiaoping, que atribuía a esse renomado físico estranha importância, no juízo do próprio Fang.
       A sua ironia o tornou um líder natural dos estudantes chineses. Em certos aspectos, a perseguição burocrática chinesa traía a incrível mediocridade dos apparatchiks partidários. Acreditando desmoralizá-lo como um liberal burguês, colheram, com a meticulosidade que lhes é própria, uma série de citações de seus discursos, que distribuíram pelas universidades de toda a China, no intento de desmascará-lo. O resultado foi torná-lo famoso em todos os rincões do Império do Meio, pela qualidade de seu pensamento...
        A ditadura burocrática chinesa se vê ora às voltas com um dissidente cego Chen Guangcheng, que logrou chegar a Beijing em rocambolesca travessia, para fugir da torpe crueldade dos carcereiros de sua prisão domiciliar (uma das modalidades mais em voga da tirania chinesa, como o dirá a esposa Liu Xia do Prêmio Nobel Liu Xiaobo, preso em masmorra interiorana).
       A Secretária de Estado Hillary Clinton tem reunião marcada com os gerarcas chineses. Embora Barack Obama se tenha recusado a falar sobre o tema, não lhe escapará decerto que o único caminho aberto para Washington será o de garantir a liberdade do advogado Chen Guangcheng, seja nos porões da embaixada, seja de preferência no exterior. Entregar o dissidente ao regime do P.C.C. seria mostra  de imperdoável fraqueza.




( Fontes: O Globo, International Herald Tribune,  Folha de S. Paulo )