quarta-feira, 28 de março de 2012

CIDADE NUA V

O Espelho Mágico  (13)


         Nunca saberia se ela o encarou por acaso, ou  movida por natural faceirice. O fato é que ao fitá-lo logo muda de atitude. Intenta, é verdade, disfarçar o interesse, mas estranha lassitude dela toma conta. Como se, de súbito, se vá transformando em livro aberto. Uma atração indefinida a empurra para ele. Sente ser algo que lhe é superior. Para sua surpresa, ela se deixa levar. E os olhos de novo se encontram. Num átimo, sensação de total abrangência. É uma impressão forte, demasiado forte para que se possa contrariar. Diria que um frenesi a investe. Súbita, inelutável experiência de plenitude a dois.
         O entorno não tem importância. Ambos se descobrem querer partilhar  segredos, porém a dois. Será guiado por tal certeza que Alberto a aborda, e a toma pelo braço. Quiçá o incomode o resquício de um escrúpulo. Que como tímida e matinal bruma logo se desfará sob o calor do instinto que se alevanta.
        Sem qualquer reação, ela se torna um prolongamento dele próprio. Ainda não trocaram palavra, mas já formam um casal.

                                                 *      *

       Alberto, querido,


       ontem foi maravilhoso. Difícil o depois. Quero dizer, acreditar no que aconteceu. Não gostaria que pensasse que normalmente sou assim. Gostei muito do barzinho a que você me levou. Tão discreto e charmoso... Mas hoje tenho uma sensação esquisita. Como se não fosse eu... Tudo saíu depressa demais. E fico com medo que me confunda com outro tipo de programa... Será que dá pra entender essa minha reação ?

      Com o amor da                                             

                                                   Lúcia Maria      

                                                 *      *

        Que chato, murmurou. Talvez tenha ido com muita sede ao pote. Quem sabe se  maneirasse um pouco mais, ela não sentisse esse desconforto, essa impressão de haver sido arrastada a fazer coisas que normalmente não faria com tal presteza ?
        Por isso, achou mais prudente não forçar a barra. Chamaria mais tarde, e pelo celular. Seria melhor para sondar o terreno.

                                                 *      *   
                                                                                      ( A continuar )

Uma Celeuma Americana

                                
       A Lei da Assistência Sanitária Custeável (Affordable Healthcare Act) aprovada pelo Congresso estadunidense e sancionada pelo Presidente Barack H. Obama a 23 de março de 2010, não contou com sequer um voto favorável dos senadores e deputados republicanos.
      Dada a cisão política nos Estados Unidos e a cristalização do sectarismo partidário, a prática do bipartidismo, usual no passado – como se assinalara nas grandes iniciativas legislativas de Franklin Delano Roosevelt e Lyndon Baines Johnson – tornou-se nos dias correntes apenas fugaz lembrança, impensável pelo atual antagonismo e enrijecimento à direita de um G.O.P.dominado pelo milenarismo evangélico.
     Desde o início do século passado, muitos presidentes americanos – a começar pelo republicano Theodore Roosevelt, o 26º presidente – tentaram introduzir a assistência médica pública. Somente Obama, o 44º, alcançaria tal objetivo, embora a lei aprovada ainda deixe  número substancial de cidadãos não cobertos por esse instrumento.
    Na elaboração do projeto, a chamada opção pública – a criação de  agência federal que estenderia a assistência a todos os americanos e demais residentes nos Estados Unidos – foi infelizmente descartada. Tal se deveu sobretudo à intenção de atrair apoio de republicanos moderados – uma espécie em processo acelerado de extinção – para o Plano Geral. Diante da oposição de um punhado de senadores democratas da linha conservadora, se privilegiou, outrossim, a formação nos estados de associações  que se encarregariam dos respectivos planos gerais de saúde.
     Há duas consequências de monta na alternativa escolhida: desapareceu a entidade que, negociando com os planos particulares de assistância, assim como as redes de hospitais, teria mais condições de forçar um barateamento relativo dos altos custos médicos (os mais elevados no mundo) prevalentes nos Estados Unidos. A sua substituição por diversos entes estaduais fragmentaria o poder de negociar e, por conseguinte, de lograr reduzir os custos relativos.
    O outro efeito reside na necessidade de cobrar-se uma contribuição de cada cidadão. Há o requisito, estabelecido pela nova lei, que obriga quase todos os americanos a adquirir cobertura de seguro de saúde, ou então ser passível de cobrança de penalidade financeira. Essa condição suplementa o requisito de que as companhias de seguro devem aceitar  todos os requerentes, mesmo aqueles pacientes com problemas médicos preexistentes.
     Desde a sua sanção que a Lei da Assistência Médica Custeável vem sofrendo insidiosa campanha, que a apresenta nos trajes do suposto ‘Obamacare’. A deformação de sua autêntica  natureza e propósitos só é inteligível em ambiente radicalizado, com a consequente toldada visão dos que não se atêm aos fatos, mas às projeções difundidas por  seus detratores. Dessarte, o desígnio de estender a todos os americanos o guarda-chuva da assistência sanitária passou a ser caricaturado como se fora projeto socializante de impor ao indefeso cidadão comum a obrigação de submeter-se a um plano coletivista de cuidados sanitários.
     É de estarrecer que argumentação tão primária e capciosa haja logrado ser aceita por grandes parcelas da cidadania (pesquisa Gallup chega a estabelecer que 72% a consideram inconstitucional). Surpreende, assim, ainda mais que o destino da lei que se propõe ampliar a assistência médica possa ser contestado. Com efeito, os EUA são o único país no mundo industrializado a não dispor de  sistema nacional de saúde. Dezenas de milhões de habitantes ainda não dispõem de nenhuma cobertura, e o  que mais espanta é que exista deles um grande número  que julga estar preservando os próprios direitos individuais na sua raivosa negação do novo instituto legal.
    A impopularidade da lei é um espelho também da inépcia da Administração democrata de evidenciar o que realmente significa, e que conquista representa para o homem comum. Não há interesse quantificável nem liberdade alguma em ser passível da exploração exacerbada de parte dos agentes privados da assistência médico-farmacêutica (como continuará a ocorrer se a lei for repudiada). É lamentável que a paixão política consiga obnubilar a tal ponto o raciocínio de cidadãos nas faixas mais baixas de renda. Esse tipo desonesto de propaganda alcança mesmo o feito de afastá-los de concreto e tangível benefício, ao fazê-los, na prática, passar  a execrar a oportunidade de serem tratados de forma digna e gratuita.
     Ao negarem peremptoriamente a assistência que lhes é proporcionada, os republicanos e demais simpatizantes  verberam a oferta vinda da outra parte. Com a encarniçada ajuda dos pregadores da extrema-direita – com acesso ilimitado ao rádio e à tevê - o financiamento abundante dos gerarcas do estamento do GOP (com à frente os sólitos bilionários irmãos Koch) o que é bom vira mau, a partir da singela razão de que nada que valha a pena pode vir do lado democrata e liberal (leia-se esquerdizante) da sociedade.
     Assim,  absurdo histórico, uma anomalia no mundo, pode tornar-se realidade dentro em breve. Nesta semana, foi aberto o debate junto a Suprema Corte da nova lei.  Como abnegados fautores da causa republicana, diversos procuradores estaduais foram bater nos tribunais, arguindo a inconstitucionalidade da lei da assistência médica para todos. Chegados ao penúltimo nível, há tribunais  federais de recurso que a consideram constitucional, e outros, inconstitucional.   
     Como seria de esperar-se, a Corte decidiu conhecer e julgar a causa. Dada a sua composição presente, e a sua tendência expressa em sentenças que têm revertido posições relevantes do passado – como a Citizens United, que abriu as cancelas para o dinheiro influenciar os pleitos, com grave prejuízo de parte do eleitor, cada vez mais vulnerável a influências indevidas pelo poder econômico irrestrito - só um ingênuo, um anacrônico Candide formaria a convicção de que os politizados juízes defenderão o interesse da sociedade civil. Subsiste, na realidade, a probabilidade de que, a exemplo de leis promulgadas no New Deal de FDR, também nos dias que correm seja possível tornar írrita a Lei da Assistência Sanitária.
     Em ano eleitoral, sobrepaira esta tentação republicana de derrubar a principal realização do governo Obama. Para realizá-lo, teriam um duplo interesse: enfraqueceriam o candidato democrata à reeleição em novembro p.f., a par de anular inequívoca  conquista, a qual nem republicanos, como o primeiro Roosevelt, nem democratas, como Johnson, haviam antes conseguido.
     A atual Corte, presidida pelo Juiz John G.Roberts Jr. tem inegável viés de direita. Com efeito, há outros três juízes (Antonin Scalia, Clarence Thomas e Samuel Alito) que pelas suas posições de direita apóiam em geral as causas do campo conservador. As indicações do Presidente Obama vieram substituir juízes também liberais. Assim, a par de Stephen Breyer e Ruth Ginsburg, a ala renovadora tem Sonia Sotomayor e Elena Kagan. Resta o juiz Anthony Kennedy que retém, na prática, o voto de minerva, e que, em casos relevantes, decide da vitória de uma ou outra ala. É séria ameaça, por conseguinte, a sua tendência em grandes casos a favorecer a linha conservadora. Não se deve esquecer que foi o fiel da balança na decisão que ‘elegeu’  George W. Bush em detrimento de Al Gore. Constituiu precedente a não ser olvidado, na única sentença da Corte a intervir diretamente no processo eleitoral, determinando a suspensão da recontagem de votos na Flórida (o que deu a Casa Branca a Bush júnior).
         A perspectiva de que a Reforma da Assistência Sanitária venha a ser derrogada pela Suprema Corte não pode, portanto, ser desconsiderada. Não é das menores tal possibilidade, que, se não houver complicações jurídicas, seria enfim conhecida, segundo a prognose dos especialistas,   por volta de junho p.f.
 



( Fonte: International Herald Tribune )                                  

terça-feira, 27 de março de 2012

CIDADE NUA V

O Espelho Mágico  (12)


        Agora as reuniões no boteco com a turma o aborrecem. Surpreende-se a observar com vistas críticas o visual dos companheiros. É um olhar duro, impiedoso, de quem passou a julgar-se diferente daqueles rostos vincados pela idade. De uma certa forma, via no grupo o que ele fora. Por vezes, se assusta com a própria atitude. Sabe que se dissocia da realidade, que a sua aparência não mudou em nada, e tudo aquilo poderia ser comparado a uma alucinação controlada.
         No entanto, quase sem querê-lo ele se compraz com o jogo, a ponto de não se importar com as reações intrigadas e os abespinhados entreolhares. Nessa hora, ele não tem dúvidas sobre a pergunta que compartilham : quem esse sujeito pensa que é ?
        Depois se arrepende e procura ser o Alberto de antes. Sente, contudo, que há uma barreira. Nas conversas, piadas, até nas fofocas. Debalde trata de disfarçá-la.
        Mas não consegue. E o pior é que o alívio só vem quando sai para a rua, deixando para trás os velhos cupinchas.

                                                 *      *

        Depois se lembrou como foi. E achou engraçado. Por segunda vez, tudo acontecera de forma fortuita. Saíra apressado para a rua, choviscava, só queria passar no caixa do banco para tirar uns trocados pro fim de semana.
        Fazia um frio esquisito, fora de estação. O carioca não está preparado para temperaturas baixas. Aliás, baixas – é bom que se explique – se tivermos presente o eterno verão do Rio de Janeiro. Em outros tempos, havia estações mais marcadas. Hoje, o aquecimento global tornara isso apenas lembrança das velhas gerações. Não espanta que a turma jovem sequer tivesse jaqueta ou casaco mais grosso.
        Assim, nessas improvisas friagens ele se divertia em contemplar o festival de horrores que encontrava nas calçadas. Não era incomum cruzar com gente de braços cruzados, sem suéter ou qualquer abrigo, no andar o passo estugado de quem se sente forasteiro na própria casa.
         Ela vinha desgarrada, na beira da calçada. Pareceu-lhe um pouco encolhida, o jeito transido de alguém que foge da intempérie.
         Para sua surpresa, com olhos compridos ele se pilhou a buscar-lhe o semblante.
Talvez se terá dado conta, e a sua primeira, instintiva reação foram as vistas baixas, na modéstia dos encontros de rua.
         Havia no seu modo de ser a graça natural de um encanto tão sorrateiro, quanto envolvente.  De pronto, se vê cativado por suave, bem dosada mescla de finura e feminilidade.  Não resiste, portanto, a lançar olhares insistentes, a que move instinto vizinho do predador. Não ignora o que implica a esperançosa ânsia de fitar a jovem e formosa estranha. Não obstante, parece comprazer-se no jogo de cartas marcadas.
                                                 *      *
                                                                                         (a continuar)

A Gafe Política de Obama

                                 
        Os microfones indiscretos constituem um dos maiores perigos que rondam os políticos na atualidade.
       A experiência tem demonstrado que toda cautela é pouca ao lidar com esse tipo de equipamento. Os frequentes descuidos dos seus operadores – não desligando o aparelho após sua utilização para alocuções públicas – deveriam tornar mais prudentes os estadistas, em suas amiudadas reuniões internacionais. Afinal, tanto esquecimento assim pode parecer missa encomendada.
       Obama já tinha sido apanhado pela indiscrição dos microfones no ano passado, em conversa com o presidente Nicolas Sarkozy, em que ambos se queixaram de Benjamin Netanyahu: ‘Você está cansado dele ? E eu que tenho de lidar com ele todos os dias ?’ desabafou o presidente americano para Sarkozy.
       Aquela, no entanto, foi uma observação light, porque são sabidos os desacertos  dos presidentes estadunidenses com Netanyahu (e quem for o primeiro-ministro de Israel). Dada a especial relação do cliente Israel com o estado-protetor Estados Unidos, Bibi Netanyahu não hesita em contrariar a Casa Branca, fiado na sua força política em Washington, e na dificuldade, em termos de política interna, de o presidente entrar em rota de colizão com aliado clientelar que a partir dos anos setenta assumiu certa  preponderância nesse relacionamento.
       Dessa feita, após reunião em Seul com o presidente Dmitri Medvedev – cujo mandato vence em abril próximo – com relação ao chamado escudo anti-mísseis, Barack Obama, em voz baixa que o sensível microfone captou, pediu compreensão a Medvedev no que tange à questão (que é um irritante para os pruridos da ressurgente Rússia): ‘É a minha última eleição. Depois dela, terei mais flexibilidade’.
       As estações televisivas americanas, a que aproveitam sobremaneira os tropeços de Obama – dado o viés republicano de sua maioria – montaram  apresentação  com mal-disfarçada hipocrisia sobre a pretensa gravidade da ‘promessa’ do presidente (a compreensão solicitada foi entendida por Medvedev que se comprometeu a repassá-la a Vladimir (Putin) ).
       Dessarte, o âncora Wolf Blitzer, da CNN,  após transmitir a um exultante Mitt Romney o clip da gafe, perguntou de sua impressão. Romney, deleitado em ser posto no mesmo nível que o presidente americano, se disse horrorizado com a leviandade de Obama, e a sua intenção de desrespeitar os interesses do povo americano. Levado pela impetuosidade, Romney carregou nas tintas, a ponto de considerar a Federação Russa o inimigo geopolítico dos Estados Unidos, inimigo este a quem Obama pedia compreensão. Mesmo para Wolf Blitzer foi um pouco demais. ‘O Senhor considera a Rússia o inimigo dos  Estados Unidos ? E como ficam o Irã, a Coréia do Norte ?’
     Sem dar-se por achado, Romney aludiu a outras imprudências de Obama nas relações externas, como nas negociações de desarmamento.
      O vice-assessor de Segurança Nacional, Benjamin J. Rhodes, procurou contextualizar a observação de Obama. Segundo Rhodes, o presidente está empenhado, não obstante as objeções  russas, em criar um sistema de defesa missilística na Europa central. Por isso, as suas palavras  simplesmente frisavam que um ano de eleição não é o melhor momento para negociar esse delicado acordo (compromise) com Moscou.
           Resta determinar qual a será a vida remanescente dessa indiscrição colhida, adrede ou não, por microfone deixado em funcionamento. Será aquela colimada por Mitt Romney e os demais republicanos em liça, uma daquelas gafes que ganham virulência com o passar do tempo, ou uma calinada de somenos, que não mais será julgada daqui a uns dias bastante para atender à fome midiática de Washington e arredores ?
          Sem embargo, semelha recomendável que no futuro Obama deva ter mais cuidado com as insídias da tecnologia. Que tal o mineiro conselho do verso de Drummond, que para grupo de tagarelas encarecia ‘boca presa’ ?




( Fontes:  O Globo, CNN, International Herald Tribune )

segunda-feira, 26 de março de 2012

CIDADE NUA V

O Espelho  Mágico (11)


        O percalço da livraria se agarrou na memória, a ponto de tirar-lhe a segurança. Por mais de uma vez arrefeceu caminho em procurar nova experiência. Algum imponderável o atrapalhara. Bastaria um olhar que não lhe fora dado... Ou será que a atenção malevolente dos assistentes tivesse trazido maus fluidos para a moça, como se a predispusesse negativamente à tentativa ?
       Mais pensasse sobre a questão, e mais absurda lhe parecia a conclusão. De que jeito poderia ela ter-lhe pressentido o interesse ? Ignorava, mas quem descartaria a intuição feminina a captar-lhe a observação que de forma imprecisa mas sensível suspeitasse estar rondando de perto ?

                                                 *      *

        Meu Amor,

        não sei onde andava com a cabeça, mas nem me lembrei de  pedir o teu e-mail. Escrever pelo correio hoje é uma coisa quase ridícula. Fiquei rindo sozinha, como uma louca, na fila do correio. Só para postar a cartinha com essa estranha súplica... E juntos vão um beijo e o papel com o meu e-mail. Responde rápido,

                                                                                              Graça.
                                               
                                                                 *      *                                   
    
        Mandou logo a resposta. Não que alimentasse ilusões sobre reencontro em breve. Uma coisa tinha sido a experiência do casal no Rio, que galopara como se fosse  sonho. A intensidade do caso, sentida tanto na própria rapidez, quanto na exclusividade dos contatos. Um affaire a dois, sem intrusos.
         A única exceção havia sido um garçom que o fitara de modo esquisito, com jeito de quem não está acreditando no que vê. Por cima disso, o malévolo sorrisinho de quando entreouviu que ela partiria naquela noite...
        Como lidar com terceiros, eis pergunta que lhe importunava deveras.
        Meditou um pouco, mas logo se convenceu de que a única resposta possível era a de Scarlet O’Hara: pensarei nisso amanhã.

                                                 *      *


 

Primárias Lá e Cá

                              
A Magra vitória de Serra


         Todo o exercício da primária no Brasil – planta aqui exótica e de escasso uso – será questionável, por não corresponder às usanças da terra. Foi assim no PT, em que a insistência de Suplicy no recurso à primária para determinar-se o candidato do partido em 2002 provocou compreensível estranheza em Lula, que nunca iria digerir o episódio.
       A primária em São Paulo para decidir acerca do candidato do PSDB à prefeitura poderia até fazer sentido, se fosse disputa entre os cinco pretendentes anteriores, nenhum deles com feitos assinalados para cargos executivos.
      Mantê-la a ferro e fogo quando se concretiza a participação de José Serra representou desatino político e um desperdício de tempo e dinheiro.
      O resultado da consulta foi desatino político porque submeteu o postulante à presidência da república, com 44 milhões de votos em segundo turno, a  inútil refrega com dois concorrentes sem nenhum título equivalente – ou mesmo vitória em cargo político executivo – a mostrar em sua fé de ofício.
      Nesse sentido, os 52% dos sufrágios não surpreendem em  pleito no qual Serra entrou de má-vontade e na undécima hora. Sem cultivar esse eleitorado, semelha despropositado que se esperassem percentuais mais inflados na sua aprovação.
     Esta é uma vitória de Pirro, menos para os dois rivais, que gozaram dos seus quinze minutos de notoriedade, do que para o próprio PSDB, que, gratuitamente, por decisão do Governador Geraldo Alckmin decidira ir em frente com a inútil prévia. O desacerto fê-la beirar a possibilidade de afastar o único candidato com reais possibilidades de vencer (hipótese nada abstrata, pela exiguidade da maioria absoluta de Serra), a par de fornecer munição para os ora pequenos rivais dos demais partidos, que anseiam por oportunidade de subir nas pesquisas, servindo-se do inepto espetáculo tucano como conveniente degrau.
 

A trabalhosa travessia de Mitt Romney


      As declarações do ex-governador Jeb Bush (irmão de George W. Bush) eram esperadas, e por isso não surpreendem. Desde muito, o quartel-general de Mitt Romney por elas aguardava com ansiedade. O respeitado ex-governador da Flórida tardou em mostrar a própria preferência. Ao ensejo de um previsto triunfo de Romney,  Jeb veio conclamar os concorrentes – o que, na prática, singulariza Rick Santorum, por ser o único com alguma chance de estragar a festa do ex-governador de Massachusetts – a que abandonem as contendas intestinas e que se unam na Convenção, sufragando o nome de Mitt Romney.
      Não é segredo que o estamento do GOP favorece o moderado Romney. Malgrado a última vitória de Rick Santorum na Lousiania, o seu número de delegados (261) não ameaça a liderança de Mitt, que tem 568 e pode tecnicamente atingir os 1148 delegados necessários para arrebatar a nomination, sem mesmo a consulta à Convenção de Tampa. Assinale-se que os dois outros concorrentes não têm perspectivas de arrebatar a indicação partidária. Se o libertário Ron Paul prossegue na sua corrida apenas para marcar posição e ter uma que outra dádiva da plataforma republicana, parece difícil atinar com válidas razões para que Newt  Gingrich continue na campanha, com os seus 137 delegados e um desempenho cada vez mais medíocre.
        A direção do Partido Republicano desde muito se conscientizou de que deverá conformar-se com o moderado candidato Mitt Romney, que tem os fundos de campanha mais bem fornidos, posto que seja rebarbativo para a militância conservadora do GOP. Por isso, a voz de Jeb Bush, que se agrega a Chris Christie e muitos outros dirigentes, era esperada e produz o matizado efeito dos antecipadados movimentos.
       Rick Santorum, o ex-Senador pela Pennsilvania, traz na sua bagagem aquilo que falta na do mórmon Romney: ele tem o apoio do Sul conservador – aquele que antes sufragava os democratas por lembranças da Guerra Civil – o que a hierarquia do GOP reputa, por provadas razões, indispensável para um candidato republicano que deseje derrotar o presidente Barack Obama.
      Agora, Santorum resolver tirar do baú outra suposta fraqueza de Romney. Como é sabido, enquanto governador de Massachusetts, Mitt fez o estado adotar uma legislação de plano de saúde que tem grande parecença com o abominado (para os republicanos) Obamacare, i.e., o Plano Geral de Assistência Sanitária votado pelo Congresso Democrata na última legislatura, antes de que a Casa de Representantes passasse a ter maioria republicana.
      De acordo com a sua natureza – e aí está outra razão para as desconfianças da militância do GOP – Mitt Romney não trepidou em renegar a sua criatura, que agora – a despeito de bem-sucedida no seu estado – considera um erro. A moderação de Romney, a sua atividade em Wall Street e na notória Bain Capital, o enfraquecem não só no Sul profundo, mas também  sua suposta fidelidade ao conservadorismo o tornam um candidato bastante dúbio para o eleitor republicano, nele incluídos os reacionários e os ultra-conservadores do Tea Party.
      Mas a famosa brokered Convention – convenção negociada – é havida como coisa impensável, o que afasta a possibilidade de alguma ave de voo curto mas pouso certo se apodere da designação partidária, e tente compensar os inúmeros defeitos do atual plantel de postulantes do Grand Old Party por uma seleção de alguém até hoje fora do tiroteio da campanha.



( Fontes:  Folha de S. Paulo,  CNN )    

domingo, 25 de março de 2012

Colcha de Retalhos CVIII

                   
Terrorismo na França (Contd.)


      Segundo consta, Mohammed Merah foi abatido com vinte tiros, sendo dois letais (na têmpora esquerda e no abdomen). A despeito do longo cerco imposto pelos policiais franceses a Merah e à recusa deste em entregar-se, há quem pergunte se não teria sido melhor prendê-lo vivo. Desfiam-se então os argumentos sobre determinar eventuais redes de apoio e possíveis cúmplices. Além de um julgamento em boa e devida forma, o que traria talvez maiores esclarecimentos.
      Dadas as condições em que se realizaram os assassínios perpetrados pelo franco-argelino Merah, e a posterior localização de sua moradia, semelha difícil prever que mais informações seriam obtidas.
     Por outro lado, o efeito imediato dos atentados e a macabra série de novas vítimas inocentes afetou o quadro das prévias. Nicolas Sarkozy pode ter muitos defeitos mas o povo francês já conhece a sua posição firme no que tange ao terrorismo e maneira de combatê-lo.
    Dessarte, sob o choque da crise o presidente foi catapultado para a liderança no primeiro turno, com 30% das preferências. François Hollande, que desde muito era o primeiro nas pesquisas, caíu para o segundo lugar, com 28%. A votação da candidata do Front National, Marine Le Pen, pelas posições do respectivo partido tenderá igualmente a crescer.
    Quanto à permanência de tais resultados até o primeiro turno afigura-se uma outra estória. O candidato centrista, François Bayrou, adotou um discurso interpretado como crítico a Sarkozy, mas a reação oficial foi forte. A impressão deixada de instrumentalização acabou voltando-se contra o autor da tese.
    A única reserva que atinge talvez mais a justiça foi o fato de que um juiz condenara Mohammed Merah, porém deixara para emitir a sentença em abril. Além de ser prática corrente, o juízo que condenara o franco-argelino se reportava a delitos menores, até então a característica da sua trajetória. Esse tipo de censura perde muito de sua validade, se examinado no contexto da comunidade de extração árabe, de seu tamanho e incidência desse gênero penal.
    A curva ostensiva da periculosidade de Merah sofreu dramática inflexão, após os bárbaros atentados contra soldados, além de crianças e do rabino na Escola Judaica. E não se pode, portanto, argumentar com elementos que naquele momento só eram do conhecimento do terrorista.     
   

O assassinato de adolescente negro na Flórida


   O jovem Trayvon Martin, de dezessete anos, negro, foi abatido e morto por um segurança de vizinhança, George Zimmerman, que invocou estar agindo em legítima defesa, com base em discutida lei estadual de auto-defesa (Stand your ground law).
   Como o delegado que tratou do caso sequer indiciou o assassino, houve forte reação nos Estados Unidos, com manifestações contrárias em diversas localidades.
     O presidente Barack Obama, na cerimônia da Casa Branca relativa à designação do candidato americano à presidência do Banco Mundial, o coreano-americano Jim Yong Kim, aceitou falar sobre a questão em tela. Após observar que se ele tivesse um filho, ‘ele se pareceria com Trayson’, Obama disse: ‘Penso que cada pai nos Estados Unidos deve entender que é absolutamente necessário que se investiguem todos os aspectos desse caso.  Todos nós carecemos de nos perguntar (do some soul searching) como uma coisa dessas pode acontecer’.
     O Departamento de Justiça está investigando o assunto. Por isso, Obama fez questão de assinalar que os seus comentários seriam limitados, embora tal não se aplicasse às suas reações pessoais como pai.
     Quais são os fatos? Mais este incidente sulista ocorreu a 26 de fevereiro, quando George Zimmerman, de 28 anos, perseguiu, confrontou e alvejou mortalmente Trayson Martin, um estudante ginasial, desarmado. Estão pendentes de decisão: se Zimmerman deve ser preso; se a aludida lei da Flórida vai longe demais na proteção de pessoas que atiram em outras; e se o chefe de polícia de Sanford, Bill Lee,  que sequer indiciou Zimmerman, deve ser demitido.
     A sentida intervenção do Presidente Obama no jardim de rosas da Casa Branca teve também o condão de induzir três candidatos republicanos a quebrarem sobre a tragédia de Trayson Martin o silêncio que guardaram até então.
     O mutismo anterior de Rick Santorum, Newt Gingrich e Mitt Romney se explica igualmente pela saia-justa em que ficariam junto a certos elementos de sua base sulista. Não é preciso pensar muito para determinar que tipo de ‘base’ é esta, em termos de respeito aos afro-americanos. Acresce notar que a conhecida NRA (Associação Nacional do Rifle) defende fortemente as tais leis de auto-defesa, que  são óbvio incentivo a esse tipo de atitude confrontatória no que diz respeito aos negros.   



A Primeira Dama e a Repressão na Síria


    Asma al-Assad é a bela esposa de Bashar, o presidente da Síria. As suas fotos têm aparecido na imprensa com maior frequência nos últimos tempos. Em verdade, a comparação não se afigura das mais precisas, eis que antes jamais se vira na mídia internacional a loura primeira dama da república alauíta.
   Os retratos apontam para outras características que, com exceção da vizinha raínha da Jordânia, não são corriqueiras no mundo árabe-islâmico. Com efeito, ao contrário de suas companheiras de palácio, Asma não usa o véu islâmico que sói, de acordo com difundido costume religioso, encobrir os cabelos das mulheres.
   Há muitas variações para essa usança, que cresceu bastante com a progressão do integrismo no mundo islâmico. Na Arábia Saudita, por exemplo, existe polícia religiosa que cuida da observância mínima de parte das mulheres no que tange ao que seriam os trajes recomendados. No Irã, o xador constitui espécie de sinal indicativo do apego do gênero feminino a essa mostra de submissão corânica.
   Nos retratos da loura Asma nada disso é visível. Veste, em geral, trajes ocidentais de fino corte, aparecendo seja ao lado do marido, o presidente Bashar, ou sozinha.  De trinta e seis anos de idade, não costuma expressar-se em público, como o fizeram no passado outras rainhas e primeiras-damas.
    Malgrado a sua discrição, a politica veio atingi-la através das sanções acordadas pelos ministros do exterior da União Europeia. Foram baixadas proibições de viagem sobre a família de Assad, inclusive a esposa.
    Há dúvidas, no entanto, quanto à extensão do cumprimento das medidas. Asma, que é conhecida pelas suas compras de vestuário e de artigos correlatos nas grandes lojas, porta um passaporte britânico, o que poderia complicar eventuais intentos de proibi-la viajar para o Reino Unido. O apreço pelas compras de artigos femininos e de jóias em particular não se cinge decerto ao presente, envolvendo personalidades de há muito desaparecidas que também tinham um fraco por esse gênero de endereço e roupagem.



( Fontes:  Folha de S. Paulo, International Herald Tribune )