domingo, 25 de setembro de 2016

Lembranças do Padrinho Chico (XIII)

            
         Ao desenhar, ainda que com traços filtrados pelo véu amiúde capcioso da memória, busco ter presente diante de mim a imagem do tio de passos resolutos e gesticulação por vezes súbita, mas nunca inconsequente. Como escrevi há muitas linhas atrás, nos seus verdes anos, ele se mostrava decidido, senão resoluto.
        Não que tivesse cacoetes - estes em geral tomam guarida no gesto - mas sim o vigor da juventude para trás deixada e, por isso, os ademanes, ao invés de traí-lo, mostravam-lhe a efusiva disposição, a natural, posto que comedida, alegria. Chico tinha essa joie de vivre[1], que muito depois, nos oitos anos que a carreira me concedeu nas duas residências, na cidade, tanto do Quirinal, quanto na eterna, dos Papas, eu me acostumaria a distinguir nos seus habitantes.
        Não há povo mais simpático, e mais próximo do brasileiro que o italiano. Nas minhas duas e ainda felizes estadas, vi crescerem os meus filhos. Servi como Primeiro Secretário e Conselheiro na Roma leiga, no enorme Palazzo na Piazza Navona, que a habilidade de Hugo Gouthier logrou comprar para o Brasil com sacas de café; e, já mais velho, como Ministro, cheguei, por caprichos das Parcas, a ser por longos meses, Encarregado-de-Negócios junto à Santa Sé.
        As minhas relativas mudanças na sorte as mostrei notadamente no gordo punhado de anos que passei na Corte Pontifícia. Lá estava João Paulo II, o papa polonês, que subitamente, por estranha tentativa de assassínio, perdeu o antigo vigor por força de haver visitado a contra-gosto as aras da morte. As minhas diferenças na riqueza foram menos de status do que aparência. Os meus recursos ao chegar, com os pesados compromissos de educar os meus filhos, me obrigaram a conservar um velho Volkswagen cuja aparência, ainda que correta, infundia dúvidas aos guardas vaticanos quanto ao meu real status.
           Isso mudaria - muito mais tarde, é verdade - quando comprei um BMW, que pôs os meus filhos mais à vontade, mas não o nosso mui estimado Dick, cachorro vira-lata sim senhor, que abominava, com toda a justiça,a alta velocidade. Já os guardas papalinos se tornariam mais deferentes, pois mesmo na Cidade Eterna a medida dos tratamentos pode tristemente depender das aparências.
           Oito anos em Roma, não se passam em vão. E ainda por cima quando se conhece as duas margens do Tibre. Creio já tê-lo dito, mas o repito de bom grado. Não há povo mais simpático, e com quem mais possamos sentir tanto a humanidade, quanto - e até mesmo - a fraternidade.
           Não posso queixar-me da carrière, cujos postos sempre cheguei por merecimento, e de que tive a oportunidade - apesar da mesquinharia do alto plantão - de completar cinquenta anos de serviço.
           Mas voltemos à Cidade Eterna.  Como lamento que não haja podido, por força dos desígnios das três Cegas, ali receber os meus padrinhos. Minha mãe esteve comigo e os dois netos na primeira Roma, aquela do Quirinal. Infelizmente desta partiria pouco depois.
           No entanto, ao tentar escrever sobre o meu bom Padrinho, Roma, se insinuou. Como Chico, o italiano parece duro e severo, mas, na verdade, às mais das vezes, tal sucede para disfarçar-lhe o natural simpático e emotivo. Já escrevi antes que o Padrinho tinha os gestos fortes e afetivos. A própria emotividade, que o levava às lágrimas, é comum ao povo de onde os seus ancestrais saíram.
            Já me reportei ao gesto, tantas vezes repetido, pelo qual, como per scaricare (para descarregar) o próprio sentimento, Chico esfregava as próprias mãos, de forma mais do que expressiva, na verdade veemente, como são de resto muitas das atitudes da gente itálica.
             O romano, que aprendeu a conviver com dois poderes - o eclesial e o dos príncipes - adquiriu por uma sapiência milenar aquela visão que, sem ser desrespeitosa, sabe delimitar os espaços entre o divino e o temporal. Só em 1870 terminou o Poder temporal dos Papas, eis que somente nesse ano, Pio IX teve de deixar o Palácio do Quirinal, e recolher-se no Vaticano.
              Assim, o Papa-rei teria uma vida superior a mil anos, e por isso se compreende a ironia do romano. Os carros oficiais do Vaticano têm as letras SCV[2], que o romano logo traduziu para se Cristo visse. É a ironia do romano, acostumado a conviver com o luxo eclesial.
                Mas se tomarmos visão mais larga do italiano, veremos que é também um povo supersticioso. Como iria aprender só mais tarde, ao invés de um único número - como o treze que parece universal - o italiano tampouco vê como de bom augúrio o dezessete. Segundo aprendi na Argélia, esse outro número mereceria também cuidado e atenção...
                 Ao recordar-me de meu padrinho, é difícil de esquecer a cena que se lhe deparou no quintal da casa da rua Turquia 26, que tinha, nas partes do quintal,  um gramado mal-cuidado e espaço para quaral de roupas, dependências de empregada e uma garagem, em que ficava a minha bicicleta Hércules, e nenhum carro.
                 Já caía a tarde e ali estava a turminha dos guris da vizinhança - Sérgio Taliba, o irmão de Cármen, Moacir, que se não me engano morava na residência além da casa de nossos vizinhos à direita, e mais alguns outros, de que a lembrança o tempo levou.
                Chico costumava contornar a casa, depois de abrir o portão, e nela ingressar por escadinha da cozinha. Em fazendo isso, teve, como de hábito, de caminhar pela orla do quintal, e a brincadeira a que assistiu, que brincadeira não era, se não o surpreendeu, o deixaria com a cara fechada.                        
                Passaram tantos anos, que talvez não seja a descrição mais próxima da realidade. Pois o gesto e os olhos que à distância me fitavam, mostravam mais do que isso. Ele não sabia que participação eu tivera - a idéia não fora minha, mas nada fizera para impedi-la -, mas meu padrinho não podia deixar, mesmo ao longe, de transparecer a respectiva funda reprovação, conjugada com difusa percepção dos infernais perigos que aquela má-travessura traria para a sua casa.
                Meu padrinho jamais me disse palavra sobre aquela infausta experiência. Nem eu senti que acaso precisasse.

(  Fontes: Papa Giovanni, João Paulo II, Margaret Mitchel)



[1] alegria de viver
[2] Stato Cittá Vaticano (Estado da Cidade do Vaticano)L

Colcha de Retalhos D 41

                                                                                     
O ocaso do PT

             Nesta eleição, que é de nível municipal, muito dos candidatos fogem da sigla PT como o diabo da cruz. Assim, mesmo no desfile dos chamados candidatos anônimos - aqueles que dispõem de segundos na tevê - e que se lançam desesperados na busca de um sinal que lhes marque a presença na rápida passagem das figurinhas políticas - existe nessa amorfa coorte um distintivo característico.
             Em verdade, eles fogem das duas letras antes mágicas, e hoje incômodas, inconvenientes e, por conseguinte, quase uma marca similar àquelas que lançavam nos infelizes por ela deformados ao abismo reservado aos réprobos e delinquentes nas sociedades de antigamente.
             Por isso, os que se refugiam sob as duas letras que antes tanto reluziam - quase então chave e sinônimo de poder - hoje as tratam como espécie de maldição a ser evitada a todo custo.
             O mais engraçado - ou talvez o mais cruel - que são os antigos caudatários - das siglas dos partidos subalternos do PT (como em outras eras, o Partido Revolucionário Institucional, o PRI, que era o principal fundamento do regime autoritário mexicano, em que havia partidos menores caudatários, como o PAN, para  dar falsa legitimidade ao partido do governo) que mostram grande afã em exibir a própria fidelidade ao PT, como é caso do partido caudatário PCdoB. A sua candidata -  à prefeita no Rio - Jandira Feghali apraz luzir com as cores do PT, como se tivesse gosto em exibir hiper-fidelidade ao partido de Lula & Cia. hoje escanteado pelos antigos militantes.               
                Assim, em São Paulo, Haddad não consegue sair da planície daqueles que, lá atrás, estão também concorrendo. Nem desta feita vai aparecer o duende que tudo resolverá para o 'poste' da vez, com a aliança com um dos mais marcados políticos de Pindorama. No Rio, não há candidatos do PT, excluída a Feghali, que exibe, como prêmio, a imagem da derrotada Dilma, que só pode estar atuando politicamente por ter sido fatiado, graças a Lewandowski, o respectivo impeachment.  Mas nem esta inconstitucionalidade está fadada a durar muito.


Crivella e a eleição municipal
   

            A aliança com Garotinho feita pelo  candidato Marcelo Crivella (PRB) - que ainda está à frente das pesquisas - gera questionamentos como a associação  com a Universal, que na verdade mais tiram do que acrescentam votos ao atual líder...
                 É tendência do Senador Crivella de sair na frente dos prognósticos eleitorais, para depois, nas disputas por cargos executivos, recuar e ceder a dianteira para outrem.
                 Há candidatos que estão crescendo - como Marcelo Freixo (PSOL), a despeito do exíguo tempo de que dispõe na tevê. 
                  Outra que se movimenta bastante - e que na verdade é uma espécie de fantasma do PT, é a Feghali (PCdoB), cujo índice de rejeição rivaliza com o de Pedro Paulo (PMDB), o candidato oficial do Prefeito.
                  Os outros na disputa  - e não são poucos -  incluem Indio da Costa (PSD), Osório (do PSDB), Alexandre Molon (da Rede), e Flávio Bolsonaro  (PSC)


Referendo na Venezuela  


               É um acinte contra o povo venezuelano, e às suas seguidas, maciças, manifestações pela convocação do referendo, que é transformado em  antidecisão, eis que o seu resultado negativo redundará na transferência do poder, não para a Oposição, mas sim para outro boneco do chavismo, no caso o vice-presidente de Nicolás Maduro.

               Não se muda, portanto, na prática nada, eis que ao trapalhão Maduro, que conseguiu aprontar a bagunça que todos vêem - situação realmente calamitosa - e, num passe de mágica, olhem senhores quem o Povo Soberano determina que é o seu sucessor.  Na verdade, quem vem substituí-lo é outro apparatchik do desmoralizado partido chavista...

                Assim, essa pretensa solução não passa de colossal provocação ao Povo Venezuelano. Depois de fazer passar o tempo por série de embustes, apimentados pela má-fé de regime corrupto e incompetente, de modo a que legalmente surja o Vice de Maduro como substituto legal, estamos aqui diante da afronta ao sofrido Povo da Venezuela - a quem mais uma vez se denega, pela consueta covardia do regime - uma eleição para valer. Batem-lhe à porta 1111 reformas e correções indispensáveis para que se ponha fim ao regime que, malgrado  em estado terminal, não obstante, se recusa a reconhecê-lo !

                   E falem da paciência do Povo...      

                  Nunca se viu similar despautério.  A História, no entanto, é rica de lições - e de tenebrosas advertências - para esse ignavo e ignaro  bando que a si próprio se condena por não dar importância ao mene tekel de que já se distinguem os fatídicos riscos nos muros do Palácio..

                  Pois quem desconhece tais avisos, está condenado, mais cedo ou mais tarde, a sofrer  sorte pior daquela que imaginar-se possa.       



( Fontes:  O  Globo, Folha de S. Paulo, The New York Times )

Debate Hillary x Trump

                              

        Espera-se público récord nesta 2ª Feira, no primeiro debate entre Hillary Clinton e Donald Trump. Em verdade, um público de cem milhões de assistentes, o que o colocaria no nível de assistência do chamado SuperBowl - que é a final do torneio de futebol americano.
        Até hoje, a maior assistência terá sido a do debate entre o Presidente Jimmy Carter e Ronald Reagan, que andou pelos oitenta milhões. Já o primeiro debate entre Obama e Mitt Romney, em 2012, chegou a 67 milhões.
        No entanto, nem sempre o primeiro debate é decisivo. Veja-se, por exemplo, o embate entre Obama e Romney, em que um presidente pouco focado deu alguma vantagem ao contendor republicano.
        Há outro primeiro debate, considerado por alguns como muito importante: aquele entre o vice Albert Gore e o desafiante George W. Bush.  Na avaliação, dizem que Bush jr. levou vantagem, o que terá contribuído para a sua vitória.
         Francamente, não entendo esse raciocínio. Se tivermos presente que Albert Gore ganhou na contagem popular da eleição, e perdeu somente porque a Suprema Corte, por primeira vez na história americana, interveio pesado na eleição, mandando sustar a contagem dos votos na Florida (em que Gore levava vantagem), é sumamente dificil misturar esses dois fatores: vitória no tapetão, como foi a de Bush, com desempenho em debate televisivo...
           De qualquer forma, esse primeiro encontro entre os dois candidatos - Hillary e Trump - poderá dar a medida dos contendores. "Vitórias" nesses debates podem até ocorrer,  embora as conclusões respectivas, pela subjetividade envolvida, tendem - na maioria dos casos - a  serem bastante dúbias.
           

( Fonte:  The New York Times )     

sábado, 24 de setembro de 2016

Mouros na Costa

                                  

       Faz tempo, citação feita em depoimento do delator, o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, se reportara, entre muitos outros, ao atual Presidente da República, Michel Temer. Ainda segundo o referido delator, Temer, então Vice-Presidente da República, pedira a Machado dinheiro para a campanha de um aliado, em 2012.
      Segundo informa O Globo de hoje, o Ministro Teori Zavascki, relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal, determinou que seja aberta uma petição na corte  com trechos de depoimento do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, que trazem acusações  contra o presidente Michel Temer.
       Esta petição é procedimento preliminar à investigação. Nesse sentido, o Ministro Teori Zavascki encaminhou o caso ao Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, que deve opinar se abre ou não um inquérito para  investigar formalmente o Presidente.
        Segundo o articulista, no entanto,  Temer poderá se livrar da investigação, eis que o PGR Janot já solicitara arquivamento de acusação contra a então Presidente Dilma Rousseff, sob alegação de que, conforme a Constituição, o Presidente da República não pode ser alvo de investigação por fatos anteriores  a seu mandato. No caso em tela, apresentado pela delação de Sérgio Machado, os fatos são de 2012.
         Como se sabe, a delação do ex-presidente da Transpetro terá sido uma verdadeira metralhadora giratória, tal o número de políticos nela incluídos. Note-se que na mesma petição de Temer, também há citações aos senadores Renan Calheiros (PMDB-Alagoas), atual presidente do Senado Federal, e Romero Jucá (PMDB-RR), ao ex-senador José Sarney (PMDB-AP) e ao senador cassado Delcídio  Amaral  (sem partido-MS).
          Além disso , o ministro Teori determinou ainda o fatiamento  da delação de Machado em outras três petições: elas conterão  citações ao ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, ao senador Aécio Neves (PSDB-MG) , e a outros políticos, como o ex-deputado Candido Vaccarezza (PT-SP), o ex-ministro Henrique Alves (PMDB), a ex-ministra Ideli Salvatti (PT), além dos senadores Valdir Raupp (IPMDB-RO) e José Agripino (DEM-RN).
                 O Procurador-Geral também terá de manifestar-se sobre a necessidade ou não de abertura de inquérito para investigar tais pessoas, com base nas declarações de Machado.  Outrossim, o Ministro  Teori  ainda determinou  que as citações de Machado a várias pessoas que não têm direito ao foro especial sejam encaminhadas ao Juiz Sérgio Moro, a quem incumbe a Lava-Jato na primeira instância.  Nesses termos, há referência a propinas que totalizam R$ 109,49 milhões. Tal montante foi pago a políticos de diversos partidos, e em especial do PMDB. Os recursos em tela vinham de dezesseis empresas  que tinham contratos com a Transpetro.
                Segundo Sérgio Machado, o esquema de desvios  em estatais ocorre desde 1946 e se dá em três fases. Políticos indicam seus aliados para cargos estratégicos em estatais, de olho no maior volume possível de recursos ilícitos. Por seu lado, as empresas privadas querem tirar as maiores vantagens que conseguirem de seus contratos.  Os indicados, já no exercício dos cargos de direção, têm uma necessidade em mente: arrecadar propina para os políticos que os apadrinharam.  Assim, na convergência de interesses dos três - políticos, empresas e gestores - havia o pagamento de propina.  Machado disse ter aplicado o esquema na Transpetro.
                  Assim, no caso dos políticos com privilégio de foro, os casos permanecerão no STF.


Depoimento que compromete Temer.
                

               Sérgio Machado declarou, no que tange ao presidente Michel Temer,  que dele recebera pedido para financiar a campanha de Gabriel Chalita à prefeitura de São Paulo em 2012. O valor acertado entre ambos teria sido de R$ 1,5 milhão. O pagamento teria saído dos cofres da Queiroz Galvão, uma das empreiteiras investigadas na Operação Lava-Jato.

                  Segundo o relato de Machado na delação "que Chalita não estava bem na campanha; que o depoente (Sérgio Machado)  foi acionado pelo senador  Valdir Raupp para obter propina na forma de doação oficial para Gabriel  Chalita; que posteriormente conversou com Michel Temer na Base Aérea de Brasília, provavelmente no mês de setembro de 2012, sobre o assunto, havendo Michel Temer pedido recursos para a campanha de Gabriel Chalita".

                     Sempre segundo o delator, "o contexto da conversa deixava claro que o que Michel Temer estava ajustando com o depoente era que este solicitasse recursos ilícitos das empresas que tinham  contratos com a Transpetro na forma de doação oficial para a campanha de  Chalita; que ambos acertaram o valor, que ficou em R$ 1,5 milhão."

                      No pedido de homologação da delação encaminhado ao Supremo em doze de maio, Janot cita Temer, que então estava interino na presidência da República. Primo, o Procurador Janot diz que o presidente é uma das autoridades com foro privilegiado sobre as quais a delação traz detalhes. Secondo, o Procurador-Geral relaciona os possíveis crimes existentes a partir da narrativa de Machado: organização criminosa, corrupção ativa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro, "com envolvimento do vice-presidente da República, de senadores e deputados federais."


Possível solução legal da questão em apreço.


                            Segundo refere a reportagem de Carolina Brígido e André de Souza, o Presidente Michel Temer "poderá se livrar da investigação, uma vez que Janot já solicitou arquivamento de acusação contra a então Presidente Dilma Rousseff sob alegação de que, segundo a Constituição, o Presidente da República não pode ser alvo de investigação por fatos anteriores ao seu mandato. No caso da delação de Machado, os fatos são de 2012. "


( Fonte:  O Globo, de 24.09.2016 (Supremo autoriza apurar citação a Temer)

Ares novos com Cármen Lúcia

                              

       A nova presidente do Supremo Tribunal Federal concedeu entrevista a jornalistas convidados para um café da manhã.
         Como seria de esperar, a Ministra Cármen Lúcia preferiu não tratar  de temas polêmicos ou daqueles que chegarão ao tribunal para julgamento.
         Pediu que a representação feminina na Corte venha a ser mais ampla, o que estaria de conformidade com a evolução do papel da mulher na sociedade hodierna. Por isso, estima que a atual representação feminina - há apenas duas mulheres na Corte, ela própria e Rosa Weber - deve ser incrementada, o que daria ao STF  face mais conforme com a evolução de nossa sociedade.
          Quanto a diálogo com o Congresso, Carmen Lúcia declarou: "Só vou conversar (com o Congresso) se for questionada sobre alguma coisa, e também só sendo (um encontro) público, para ficar tudo claro: o que está sendo conversado e por quê.  Tenha a certeza de que será tudo público", enfatizou ao referir-se à relação entre os poderes.
           No que tange à diferença do tempo de tramitação dos processos no Supremo e na primeira instância, onde costumam ser concluídos com mais rapidez, a Presidente Cármen Lúcia lembrou que, ao contrário dos juízes que atuam no primeiro grau, os Ministros do Supremo trabalham em diversas ações ao mesmo tempo. "Ministro não pode ficar por conta de uma causa (...) e são muitas demandas."
            Consoante o seu pensamento já conhecido,  Cármen Lúcia criticou o machismo enfrentado pelas mulheres brasileiras. Ao defender presença feminina mais numerosa no Supremo, a Presidente aduziu: "São requisitos constitucionais (para a nomeação de ministro da Corte) notório saber e reputação ilibada.  Há mulheres que têm  notório saber?  Há. As coisas (notório saber e aumento da participação feminina) não se excluem. Nós queremos mais mulheres em postos (de destaque) porque elas chegaram."
               É de esperar-se, portanto, da Ministra Carmen Lúcia atitude mais pró-ativa quanto à Justiça. No seu discurso de posse, declarou que o cidadão comum não tem motivos para estar satisfeito com o Judiciário e, nesse sentido, cobrou uma "transformação" na Justiça.
               Havida como servidora de hábitos austeros, Carmen Lúcia esquivou-se de adiantar o que pretende fazer em relação ao projeto de lei que reajusta os salários dos Ministros de R$ 33.7 mil para R$ 39,3 mil, ora em tramitação no Senado. Ao contrário de seu imediato predecessor, Ricardo Lewandowski, segundo informações de bastidores, ela é contra o aumento.
                Atualmente há um grande número de demandas que chegam ao Supremo (o que, na opinião de muitos, inclusive do articulista, decerto contribui com tal carga excessiva para que haja atrasos consideráveis nos prazos de julgamento). Por isso, de modo facecioso, um dos jornalistas presentes perguntou-lhe se o Supremo voltou a ser a Casa da Suplicação, como no Império. Em resposta, e na mesma linha, a Presidente disse preferir outro título: "Da Suplicação? A gente podia arrumar um nome melhor, como Casa da Pacificação."
                  Cármen Lúcia relatou, inclusive, casos em que ela não foi reconhecida, como no dia em  que ajudara uma mulher simples que se ferira num assalto a chegar em casa. Segundo a Ministra Cármen Lúcia, a mulher queria presenteá-la com R$ 2.00 : "Ela disse: 'é pouco, mas de coração' ". Ao recusar a oferenda, "Respondi: você já me paga, sou servidora pública".
                 Decerto, com a sua resposta, a Ministra Cármen Lúcia prenuncia muito bem o próprio trabalho como Presidente do Supremo. Não poderia expressar-se de forma mais republicana.


( Fonte:  Folha de S. Paulo )  

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Quem furtou 500 milhões de usuários?

                    

         Segundo informa o Yahoo - com dois anos de atraso - hackers furtaram dados de 500 milhões de usuários.   
         Dos dados surripiados desse veterano operador na informática só agora os interessados são inteirados. Especialmente na área da informática, é muito, demasiado tempo mesmo, para inteirar os clientes afetados por uma quebra de segurança dessa amplitude.
         Se justamente agora, quando a Verizon Communications, uma das maiores companhias atuantes na internet, está adquirindo o Yahoo, por  $4.8 bilhões,  parece difícil descartar a possibilidade de que seja justamente por causa do processo de aquisição que tal maciço roubo de informações tenha vindo a lume.
          O que foi roubado se deve à ação realizada por agente patrocinado por um Estado. Esta é a  única indicação disponibilizada  tendente a fornecer alguma luz sobre esse mega-ladrão cibernético. 
           A sua fome informativa, segundo refere a notícia do "New York Times",  abrangeu nomes, endereços de e-mail, números de telefone, datas de nascimento, senhas encriptadas, e, em alguns casos, questões de segurança.
             Há varios elementos neste negócio que podem prejudicar a transação acima mencionada. Primo, dois anos é tempo demais para descobrir invasão de tal gênero. Secondo, vazamentos relativos a quebras na segurança começam a aparecer. Assim, nesta quinta-feira uma quebra potencial nos sistemas da Yahoo  foi sinalizada em primeira mão pelo site de notícias tecnológicas Recode na manhãzinha de quinta feira.   
              No submundo da informática, quando se alude a agente patrocinado por um Estado,  os principais suspeitos são a RPC, que recentemente invadiu o setor de informática do Estado Americano, roubando as identidades, endereços e dados bancários dos funcionários americanos; a Rússia, com o seu grande números de hackers e as características éticas do regime imperante na Federação Russa (para quem tem dúvidas, recomenda-se a leitura do livro 'Putin's Kleptocracy', da profª Karen Dawisha, embora essa professora universitária não se ocupe diretamente do mundo da informática. Contudo, pelas informações que dá acerca da interação com o racket, já é mais do que suficiente para tornar a Rússia um dos principais candidatos a calçar os sapatos de "agente patrocinado por um Estado").
                 De qualquer forma, os recentes vazamentos sobre a enorme  quebra de segurança cibernética da veterana Yahoo, deverão afetar e muito, não só o preço da transação, mas também e sobretudo eventual  possibilidade de  quebra de confiança que inviabilize o negócio.
                Depois entra em cena  o russo Tessa88 - agindo em site clandestino e exibindo amostra de coleção furtada para que fosse autenticada - mas não pôde ajudar na 'autenticação', ao não ter condições de  determinar se a coleção procedia da própria Yahoo ou de uma terceira parte.
                Já em agosto, um segundo hacker que se chama 'a paz da mente' (peace of mind) passou a oferecer grande coleção de credenciais roubadas da Yahoo - inclusive nomes de usuários, senhas facilmente quebradas, datas de nascimento, códigos ZIP e endereços de e-mail - em um site denominado TheRealDeal (o verdadeiro negócio), onde os hackers podem comprar e vender  dados roubados, segundo informa  Alex Holden, o fundador de Hold Security, que consider o furto na Yahoo "uma das maiores quebras da privacidade do povo e de extremo alcance".
                De qualquer forma, dois anos é um tempo pouco comum para identificar um incidente de hacking (invasão cibernética).  De acordo com o Instituto Ponemon, que se ocupa de quebras de dados, o tempo médio para que uma organização identifique um ataque de hacking é de 191 dias, e o tempo médio para conter a invasão é de 58 dias depois da descoberta.
                 Os expertos em segurança afirmam que esta quebra maciça pode acarretar processos coletivos de categorias eventualmente prejudicadas, em adendo a outros custos. Nesse contexto, relatório anual do Ponemon  Institute em julho último determinou que os custos envolvidos por um furto de dados é de US$ 221, por arquivo surrupiado.  Se computarmos tal informação,  o valor seria superior ao preço de venda de US$ 4.8 bilhões da Yahoo.
                 Diante de tanta confusão, a pergunta que  está na mente dos interessados é se a transação entre a  Verizon Communications e a Yahoo continua em pauta.
                 Por último, o Senador democrata da Virginia, Mark R. Warner,  antigo diretor tecnológico, emitiu declaração em que reconhece: "é enorme a seriedade desta quebra (breach) na Yahoo."
                  A sua proposta é que a questão, ao invés de ser tratada por leis estaduais,  passe a ser regulada  por lei federal, especialmente no que tange  "ao padrão de notificação de quebra (breach)". Atualmente, pela sistemática utilizada, o prazo das notificações por  quebra de segurança de dados varia de estado para estado. Por outro lado, Mr Warner se reconhece muito perturbado pelo fato de que o público só venha a saber de tal incidente  dois anos depois da ocorrência do fato.


( Fonte: The New York Times )    

Lembranças de Padrinho Chico (XII)

                      

         Que eu me lembre, não creio que o Padrinho tenha comprado  algum carro depois que o casal se mudou para São Paulo, por força de sua promoção na Swift, que o colocara à testa  de todos os serviços ligados à área financeira. Na verdade, Francisco Severino Lanzetta era uma espécie de lugar-tenente dentro da Swift brasileira.
          Havia sempre um americano como chefe geral, mandado se não me engano por Chicago, onde ficava a sede da multinacional. Com o passar dos tempos, a ascendência de Chico na empresa era óbvia, seja por sua experiência, seja pelo conhecimento de todos os serviços.
          Mas a exemplo de outras grandes empresas multinacionais, não se confiava a chefia a nacional da terra, por mais experiente e indispensável que fosse. Recordo-me, por isso, que nas poucas vezes que tomei carona no carro da empresa  que vinha buscar na Turquia, 26 o seu categorizado executivo, lá estava também a figura da vez que viera dos States para chefiar a Swift do Brasil  por um período determinado (dois anos, em geral).
           Via a maneira deferente com que o chefe americano tratava Chico. Discretos que éramos os dois, nem eu, nem ele aprofundávamos comentários sobre a relação funcional.
            Chico, que sempre foi um realista, não demonstrava nenhum animus contra o forasteiro da vez. O padrão não costumava mudar. Afirmativos de início, iam ficando mais calminhos com a progressão de sua chefia. Chico, ali estava, como uma espécie de rochedo,  que não dava para ignorar, ou mesmo contrariar. À medida que o tempo ía transcorrendo, essa relação parecia cada vez mais consolidar-se.
             Não passava na cabeça do americano da vez contrariar ou indispor-se com aquele categorizado brasileiro. Dependendo do temperamento do chefe temporário, o relacionamento seria fácil, ou não tão fácil assim, embora o chefe nominal sempre teria o juízo de não contrariar demasiado o respeitado lugar-tenente.
              Por outro lado, Chico nos visitava sempre quando vinha ao Rio de Janeiro.  As suas viagens costumavam ser curtas e o seu contato no Ministério da Fazenda era Valentim Bouças, uma autoridade categorizada naquele enorme prédio  construido por Artur Souza Costa, que no último governo do Presidente Getúlio Vargas (1951-24 de agosto de 1954) era o contato do Chico.  A esse propósito, en passant, o Chico nos dizia a mim e a mamãe, durante a sua visita (em geral noturna - ceiava conosco) sobre algum ponto, hoje diria macro-econômico, que o Bouças lhe confiara.
                  Recordo-me de outra vez em que não sei por que cargas d'água, o padrinho veio com atitude que eu hoje definiria como reminiscente-queixosa. Minha mãe ouviu tudo em silêncio, e a nossa presunção é que teria havido no feliz casamento de Bi e Chico um eventual desaguisado que tornara Chico no nosso apartamento do edifício Satélite propenso a trazer a lume alguns podres do próprio relacionamento com as Mendes.
                   As Mendes eram as moças rio-grandenses - Déborah, Maria, Lucy e Marina - conhecidas pela beleza, que teriam por vezes um temperamento mais difícil... Naquela noite que passou conosco, Chico me pareceu inusitadamente queixoso da postura das ditas Mendes (aí estavam, na sua mente, minha mãe, Bi, a mulher dele, e a própria Lucy, casada com o dono da Manchete), que seriam, ao ver do padrinho, demasiado orgulhosas e, mesmo, de difícil tratamento. Percebendo que alguma coisa não andara bem para o lado dele, mamãe não o contrariou, nem tampouco o apoiou... No caso, limitou-se a ouvir, sem agregar (nem discordar) muito, mas cuidando de acalmar o cunhado, o que decerto, com o seu jeito sereno, não lhe colocaria maior problema.
                        A atitude do padrinho me surpreendeu, por ser ele, em geral,  reservado, a despeito do efusivo jeitão da própria ascendência italiana.

                         Segundo a sabedoria popular, as criaturas mudam quando estão fora de seu ambiente. E foi o que ocorreu naquela noite com o Padrinho Chico, colhido por um momento de inusitada franqueza.