sábado, 23 de novembro de 2013

Acordo Nuclear com o Irã ?

                       

        Neste sábado, 23 de novembro, foram retomadas as negociações em Genebra entre os membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a União Europeia, de um lado, e o Irã, de outro.
       Com a nova postura do presidente Hassan Rouhani – que sucedeu ao radical Mahmoud Ahmadinejad – terão sido criadas condições naquela república islâmica de entendimento acerca do projeto nuclear iraniano.

       Há um certo otimismo, tanto de Catherine Ashton, que é a ‘ministra’ da U.E. para as relações exteriores, e de seu correspondente iraniano, Javad Zarif. A própria vinda do Secretário John Kerry para participar das conversações é interpretada nesse contexto.
       Estarão igualmente presentes  o Secretário do Exterior de Sua Majestade Britânica, William Hague, e os ministros do exterior de França, Laurent Fabius, da Federação Russa, Sergei Lavrov, e da República Popular da China, Wang Yi.

       Malgrado a aparente boa disposição do delegado iraniano, deve-se ter presente que o Líder Supremo Ali Khamenei, em recente alocução para as milícias Basij[1], que estão entre as áreas mais radicais da teocracia iraniana, assegurou que não vai ceder  no direito iraniano de enriquecer o urânio. A intervenção do ayatollah se insere em manobra interpretada por analistas como tentativa de acalmar as alas mais extremadas quanto às implicações das negociações de Genebra.
       As divergências sobre o enriquecimento do urânio e o fabrico do reator de águas pesadas de Arak, de parte iraniana, constituem os principais obstáculos para o Acordo com o Irã. Se a intervenção de Khamenei se destina apenas a conter os extremistas no campo iraniano, sob o argumento de que o Líder Supremo não permitirá que os ‘sagrados direitos da República Islâmica’ sejam mercadejados, tampouco se deve ignorar que o ódio ao Ocidente e sobretudo aos Estados Unidos (como o grande Satã dos tempos do Imã Khomeini) depois de alimentado com tal intensidade, não há de desaparecer facilmente.

       Desse modo, se no seu discurso Khamenei destacou o interesse em “laços amigáveis com todos os países, inclusive os EUA”, ouviu, dos milicianos Basij, em troca, clamores de “morte aos EUA”...  
       Há, por outro lado, expectativa acerca da posição francesa, que no primeiro ‘round’ de negociações se assinalara por  postura menos flexível, que Teerã interpretou como próxima da posição israelense.

      Resta verificar, por conseguinte, se o alardeado otimismo quanto ao êxito das reatadas negociações corresponderá à realidade.
      Não há dúvida que as sanções impostas ao regime islâmico pesam bastante sobre a economia e a população daquele país. Daí o interesse do novo presidente Hassan Rouhani em chegar a acordo, que possa agilizar o levantamento das sanções. Tampouco se deve esquecer, no entanto, que as sanções não tenderão a evaporar-se do dia para a noite, eis que – e notadamente nos Estados Unidos – a sua supressão implicaria em processo legislativo complexo e de alguma lentidão.

 
 
(Fontes: CNN, O Globo)



[1] As milícias Basij estão entre os mais truculentos partidários do regime islâmico, como se verificou na violência praticada contra o movimento verde de Mir Mousavi e do clérigo Kerroubi, quando da reeleição fraudada de Ahmadinejad.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

De tanto puxarem, a corda rebentou

                               

        Que o espírito do bipartidismo e a presunção de que Governo e oposição devem ter sempre presente a premissa de que Democratas e Republicanos servem ao mesmo país, e daí a necessidade de jamais esquecer o interesse nacional, que sobreleva àqueles de partido ou facção, que esse espírito desde muito se ausentara da colina do Capitólio, eis  verdade factual que o comportamento do GOP na oposição cuidou de observar diuturna e acintosamente.
        Todo o exagero e todo o extremismo carregam dentro de si o germe de sua própria destruição. O líder da maioria, o Senador Harry Reid (Nev/Dem.) evidenciou por muito posição moderada que  sua contraparte, o Líder da Minoria, Senador Mitch McConnell, terá confundido com fraqueza.

       Pelo regimento do Senado, até ontem, o debate – e, por conseguinte, a prática do filibuster – só poderia ser encerrado por sessenta votos (o Senado, presidido pelo Vice-Presidente, tem cem senadores). Essa regra estava em vigor desde 1975. Anteriormente, entre 1917 e 1975, a maioria exigida para tanto era de dois terços.
       O sistemático abuso pelos opositores republicanos do filibuster – que era utilizado precipuamente para bloquear as designações para cargos no executivo e no judiciário – forçou, por fim, o líder da maioria a ter de pôr em votação proposta de mudança da regra no regimento do Senado: se aprovada, passaria a valer a maioria simples, i.e., 51 votos.

       A estratégia do GOP havia sido até então a do bloqueio cego das designações da Administração Obama, tanto para o poder Executivo (e há 1183 cargos que requerem confirmação pelo Senado), quanto para o Judiciário.  Em política de terra arrasada, os candidatos não eram avaliados pelo GOP por suas qualificações e eventuais antecedentes. O partido Republicano se limitava a bloquear, por intermédio do filibuster,  as nomeações, sem preocupar-se em fundamentar a motivação dessa postura, que só é cabível quando a fé de ofício ou os antecedentes do indicado militam contra a respectiva confirmação.
       A obstrução das nomeações tornou-se  a regra do GOP na oposição. Dado o cinismo desta posição – que racionalmente não se sustenta – e a enorme diferença com o comportamento dispensado a presidentes anteriores, a única surpresa na mudança da regra quanto ao filibuster se encerra na pergunta – por que a modificação demorou tanto para ser implementada ?

       Quando o líder Harry Reid se decidiu a agir, havia em pauta, pendurados pela recusa do GOP,  59 designações para cargos no Executivo e 17  para o Judiciário Federal.
       Como o seu afrontoso desrespeito ao espírito parlamentar se estendera durante a primeira Administração Obama (com 27 filibusters para cargos no Executivo), o GOP terá pensado que pela ameaça de retaliações futuras lograria manter o bloqueio a que o governo Obama pudesse atuar normalmente, em consequência da vitória nas urnas em 2012.

       Para que se tenha idéia de o quanto pesou na balança o abuso do ‘veto’ da bancada do GOP para que Obama governe, semelha relevante assinalar que o Presidente Barack Obama, no segundo mandato, já teve 45 nomeações para o Executivo contestadas por filibuster !  Em contraposição, Eisenhower (Rep.), Kennedy (Dem.), Johnson (Dem.), Nixon (Rep.) e Ford (Rep) não tiveram nenhuma contestada. Em tempos mais próximos, Carter (Dem.) teve duas, Reagan (Rep.) também duas, Bush sênior (Rep.) nenhuma, Bill Clinton (9), Bush júnior (7) e Obama, com os já citados 27 e 45 (na primeira e segunda Administrações).
       A maior ironia é que foi no judiciário a última palha que levou o líder democrata a pôr em votação a mudança regimental (e apenas três democratas dissentiram do chefe), com a votação por 52 a 48 determinando a mudança da regra para encerrar o filibuster por maioria simples.  Havia três vagas na Corte distrital de Washington, em nível de tribunal de recurso. Para não preencher as vacâncias, os republicanos chegaram a propor que o efetivo dessa corte fosse reduzido em três! O interesse estava apenas em manter o viés conservador – dado por Bush júnior – a esse importante tribunal distrital.      

       O erro do Senador Mitch McConnell foi o de pensar que a sua estratégia de bloqueio virtual da Administração Obama – em postura que relembra o seu lema anterior de impedir a reeleição do 44º presidente, e de tornar Obama presidente de um só mandato, falhou pela debacle do candidato republicano Mitt Romney – poderia em sã mente prevalecer indefinidamente.
        Foi com ameaças que o líder da minoria recebeu a derrota: “Pensam que isto (a mudança na regra do filibuster) é o melhor para o Senado e o Povo Americano ? Vocês (os senadores democratas) vão lamentar isto. E vocês podem lamentá-lo mais cedo do que pensam.”

        Ao enrijecer as regras e passar para a tática de não permitir que a Administração Obama possa governar, o Partido Republicano, estimulado talvez pela húbris, pensou que poderia converter a excepcionalidade em norma básica e corriqueira. Quem desconhece os limites do bom senso, bem cedo será levado a deles tomar conhecimento em condições bastante mais desfavoráveis.

 

 
(Fonte: New York Times)              

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

PIF PAF (VIII)

                                              

Verão no Rio

 
        Com o calorão no Rio, as praias da orla ficaram cheias. Infelizmente, além dos banhistas e turistas, vieram também os amigos do alheio.
        Quem não estava muito ligada era a Polícia Militar, que a despeito do dia sem nuvens, de muito sol e  canícula, esqueceu  de preparar plano de contingência para lidar sobretudo com os arrastões.

         Lugar outrora do beautiful people, sem nunca muitos atropelos, desta feita o Arpoador (que está entre Copacabana e Ipanema) foi palco de enorme afluxo de gente. Veio muito turista desavisado, do tipo que traz cordão de ouro no pescoço, e que se torna presa fácil.
         Uma turista argentina que, por reagir a investida de  dimenor, o qual tentava arrancar-lhe a bolsa, acabou levando soco no olho. Os meliantes não portavam armas, mas sobressaíam pela agressividade.

         Muitos turistas preferiram voltar para o hotel, por força da dramática experiência. Caíram na real, depois de virem para cá atraídos pelos belos cartazes das agências de turismo. Como não estão habituados nas suas praias – cujas areias podem ser menos charmosas do que as de Copacabama e Ipanema – com tão adoráveis vivências, seria no futuro mais adequado que, sem dissuadi-los da viagem,sejam ser inteirados das fortes emoções que terão pela frente e as mínimas providências de segurança que deveriam tomar com o pessoal de Pindorama.

 
Inverno em Washington

 
          O Comitê do Senado Federal para os Bancos acaba de aprovar a indicação presidencial de  Janet L.Yellen para presidir a Junta da Reserva Federal. Não é designação de rotina, eis que será a primeira mulher a tornar-se presidente (Chairwoman) do Federal Reserve Bank.
          A votação do Comitê foi de 14 favoráveis (onze democratas e três republicanos) com oito contra (sete republicanos e o Senador democrata pela Virgínia Ocidental, Joe Marchin III)

           Salvo alguma surpresa, é de supor-se que o nome de Janet Yellen para o Federal Reserve será ratificado pelo plenário do Senado.

 

(Fontes:  O Globo; New York Times)

Junho já está esquecido ?

                             

          Outro dia, os jornais anunciaram que a pauta das reivindicações das passeatas de junho dorme nas gavetas de Câmara e Senado.
         De repente, desapareceu a urgência e tudo semelha voltar à pasmaceira de antes. As PECs relativas às votações das cassações, a serem doravante decididas por voto a descoberto, voltaram à situação anterior. Nada mais anda... Como se, passada a tempestade, o Congresso das quartas-feiras pensasse em voltar às antigas usanças, sob a doce música (para os ouvidos deles) da alienação parlamentar.

        Outro comportamento similar está na renovação das posturas de independência dos poderes, sobretudo no que concerne à cassação de mandatos de Suas Excelências. Em termos de cassação de mandato parlamentar, por decisão colegial do Supremo, a determinação da cassação ficaria a cargo do Congresso (Senado ou Câmara).
        Essa alteração, se mantido o voto secreto, pode criar problema similar ao do congressista presidiário Natan Donadon. Bem fez, portanto, o Presidente Henrique Alves, no caso em tela dos deputados presos (ou por serem presos), em função de sentença do STF, de evitar que reponte e ressurja a dança sem sentido do corporativismo exacerbado. Por isso, o presidente da Câmara, o Deputado Alves, deixou bem claro que só porá a matéria em votação quando alterado o instituto respectivo para o voto aberto.  Invibializará, dessarte, a repetição do vexame da negação da cassação ao deputado Natan Donadon. É sensata a decisão do Presidente Henrique Alves, ao evitar ulterior motivo para a desmoralização da Câmara.

        Neste jogo de vaidades, é de lamentar-se que se deixe ao bom senso as ações respectivas. O caso precedente, pelo seu absurdo – negar a cassação ao deputado Natan Donadon – afundou ainda mais o processo vigente, em que os deputados se escondiam no anonimato para manter situações que são afronta antes de tudo à própria cidadania.
        Quanto ao caso do Deputado José Genoino, não confundamos alhos com bugalhos. Pela sua condição médica, Genoino deve ter decretada a prisão domiciliar, porque mais do que um erro, seria desumanidade mantê-lo no regime atual, com a precariedade dos atendimentos médicos do cárcere.

      Entretanto, o deputado Genoino foi legalmente condenado pelo Supremo em sessões públicas, na Ação Penal 470. Não querendo ser mais realista do que o rei, forçoso será concluir que a omissão do Supremo deveria ser corrigida. Não é o caso de conceder ao Congresso a opção de divergir sobre determinação judicial. Atuando dentro de sua competência, o Supremo tomou decisão, de que não cabe recurso. À Camara (ou ao Senado) cabe apenas tomar ciência, em decisão de índole administrativa.  Ipso facto e ipso jure[1], por conseguinte, o seu mandato de deputado foi automaticamente cassado. Caberia à presidência da Câmara tomar conhecimento do fato, e registrá-lo para os devidos fins. E nada mais.
      Na democracia americana, um juiz singular, após o devido processo – que prescinde de qualquer autorização, seja do Senado Federal, seja da Câmara de Representantes – após conhecer, julgar e eventualmente condenar o parlamentar, cria um fato jurídico perfeito e inatacável. O congressista não tem nenhum privilégio no particular sobre o cidadão comum. Agora, tal procedimento acaso nos induziria a considerar o regime estadunidense como menos democrático?

     Infelizmente, as condições da democracia em Pindorama exigem que precauções ulteriores sejam tomadas, como atribuir a competência do julgado ao Supremo. Mas depois de todo o processo, realizado em sessões públicas, e asseguradas todas as defesas, esgotado o contraditório, a justiça no Brasil não merece passar pelas forcas caudinas do privilégio de que outro Poder se sobreponha à lei (válida para os demais mortais) e assegure aos congressistas um juízo de exceção. Como, no entanto, essa decisão corporativa só tem o valor de manter a ficção do mandato – como se viu no caso do deputado Donadon – creio que é mais do que tempo que o Legislativo  – no caso a Câmara – cesse com tais encenações corporativistas e mostrem respeito à Lei e a competência dos Poderes. O que, mutatis mutandis, semelha ser a posição do Presidente Henrique Alves.
 

 
(Fonte: O  Globo )   



[1] Pelo mesmo fato e pelo mesmo direito.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Pílulas Amargas

                                       

Assinatura de ‘Pacto Fiscal’
       
          A Presidenta Dilma Rousseff, após três horas de reunião, conseguiu fechar a dezenove do corrente acordo com os partidos aliados para que nenhuma proposta de aumento para os gastos públicos seja votada no Congresso em 2013 e 2014.

          O referido Pacto de Responsabilidade Fiscal foi assinado pelos presidentes e líderes dos partidos governistas. Como integrantes do Conselho Político prometeram inclusive a suspensão ‘temporária’ da proposta que cria o piso salarial dos agentes comunitários de saúde.
           O único líder que se recusou a assinar o documento foi o populista Anthony Garotinho (PR-RJ), contrariando orientação do senador Alfredo Nascimento (AM).

           A situação fiscal se deve não só ao Congresso, mas à desordem no próprio governo, em que se multiplicam as despesas como as desonerações fiscais, a contribuição para reduzir a conta de energia, etc. A falta de ordem na Casa se reflete em muitos setores, como na impossibilidade de cumprir com a meta do superávit primário fiscal.
           Como o exemplo vem de cima, e manifestamente a exação fiscal não é cumprida, cabe perguntar como logrará Dilma Rousseff obter o bom comportamento no Congresso se de sua parte não é feito o dever de casa ?

 
O Flagelo da Dengue

 
          O Brasil, no governo de Juscelino Kubitschek, ficara livre do flagelo da dengue. Infelizmente, ela retornou pelo norte, vinda da Venezuela. Desde então, o mosquito da dengue, o nosso conhecido Aedes Aegypti, voltou a colonizar a acolhedora terra da Santa Cruz.    

          A dengue é moléstia de terras tropicais, filha dileta da pobreza, da ignorância, do descaso e sobretudo da incúria municipal, estadual e federal.
          Como pode haver um combate para valer contra a infestação se o saneamento básico é uma ficção em um sem-número de municípios ? Além disso, as campanhas contra os focos do mosquito são anêmicas, para não dizer quase inexistentes. Para que tenham êxito, a população tem de ser motivada e até mesmo constrangida a fazer o seu dever de casa.

         E dada a situação em tantos subúrbios e favelas, as campanhas teriam que ter a presença das autoridades municipais – as mesmas que se dedicam a projetos grandiosos, enquanto deixam para o lado as tarefas comezinhas, mas indispensáveis,  de eliminar as poças e todas as áreas de infestação.
        Já houve prefeito no Rio de Janeiro que veio à televisão para pedir orações com vistas a direcionar os mosquitos para o mar, de modo a poupar a população. É a presença nefasta desse tipo de político que tem grande responsabilidade pelo caos da saúde pública no Rio de Janeiro.

        A terra carioca, infelizmente, é ambiente ideal para a proliferação da dengue. Com o verão aumenta a incidência, mas no Rio o calor está quase sempre presente, e por isso o mosquito pode multiplicar-se antes mesmo do início formal do verão.
        Estou para ver um trabalho de conscientização – e arregimentação – das populações mais ameaçadas, nas áreas em que o esgoto corre a céu aberto e o saneamento básico é uma ficção.

        Em 2013, há 217.885 casos notificados (contra 26.800 em 2010!). Os casos graves foram 2.437 (2010) e 1.207 (2013), e os óbitos  41, em 2010, e 57, em 2013.

 

(Fonte: O Globo)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Bloqueio do GOP no Senado

                          
   
        A  administração de Barack Obama está enfrentando  bloqueio sistemático pela bancada senatorial do GOP contra as suas designações de juízes para a Corte de Apelação de Washington.

        A manobra republicana sequer se preocupa em contestar os títulos e a capacidade dos juízes indicados. O escopo da bancada minoritária visa apenas a tentar manter o viés conservador dessa Corte de Apelação, em função das indicações precedentes do Presidente George W. Bush.

        A esse propósito, o Presidente Obama protestou quanto ao facciosismo da posição dos republicanos: “Foram confirmadas quatro das seis designações feitas  por meu predecessor, para a Corte distrital de Columbia, enquanto quatro dos meus (cinco) designados tiveram a respectiva indicação obstruída”.
        É grande a revolta entre os democratas – três mulheres e um afro-americano tiveram as indicações bloqueadas, para a importante corte de apelação no Distrito de Columbia.

        Dado o cinismo republicano, ao denegar a representantes de minorias o direito de ocupar cargos de juízes – sem nada terem contra as qualificações éticas e profissionais desses candidatos – provoca-se uma situação de crise.

        Como o direito das minorias ao filibuster está sendo manifestamente abusado, grassa nas fileiras democratas a indignação diante do sistemático e abertamente faccioso bloqueio das nomeações, com base única e exclusivamente na tendência liberal das indicações democratas.

        O Líder da Maioria, Harry Reid,  Senador por Nevada, até o presente não se decidiu a introduzir  emenda corretora no Regimento do Senado, dado o comprovado abuso do emprego do filibuster, e da atual dificuldade  de determinar o fechamento do debate (são exigidos sessenta votos).  As hesitações de Reid se prendem ao temor de que a eventual mudança do regimento (com a disposição de que o debate, e por conseguinte, o filibuster seja encerrado por maioria simples) venha a ser no futuro instrumentalizada pelo GOP, no caso de que os republicanos logrem em 2014 recuperar a maioria no Senado. É patente a debilidade do argumento do presente líder da maioria. Com efeito, apesar de ter condições de fazer com que a Administração Democrata possa designar para o judiciário e o restante do governo as pessoas legalmente habilitadas para tanto, ele não age, manietado por ameaças de represálias futuras, cuja confirmação é manifestamente imprevisível. Em outras palavras, o blefe da minoria o faz consentir numa situação que prejudica a Administração democrata, bem como o Povo americano.
       Na realidade, tampouco a moderação de Reid  tem sido de grande serventia para a atual Administração. A minoria do GOP não favorece qualquer composição e continua a prevaler-se de  regimento que dificulta sobremaneira o fechamento do debate. Desse modo, a minoria tem inviabilizado uma série de nomeações do Presidente Obama, sem razões válidas quanto à qualidade seja moral, seja profissional dos indicados. A exigência de sessenta votos coloca um patamar na prática virtualmente inacessível para a maioria democrata (com 55 senadores). Diante disso, são patéticas as queixas de Obama, mesmo que expressas no jardim da Casa Branca, pelo simples fato de reconhecerem na prática um dado fatual – o impedimento pelo GOP de que ele exerça o seu direito constitucional de governar.

        Harry Reid, por outro lado,  não tem agido sob a coação de ameaças republicanas de  retaliações futuras. Entrementes, muitos dos indicados são levados a desistir. O GOP, no caso em tela, impede que o Presidente se valha do direito constitucional de prover as vagas no judiciário. Quem perde é a maioria da população, eis que o Partido Republicano impede aqui os democratas de preencherem as três vagas na Corte de Apelações de Washington. Ao invés de se fazer valer da própria maioria e impedir a continuação das chantagens do GOP, o líder Harry Reid se abstém de exercer tal faculdade. Por causa disso, a direita logra impedir não só que prevaleça em tribunais maior equidade em prol dos menos favorecidos,  assim como impossibilita que agências como a da defesa do consumidor possam atuar e impedir eventuais exações das grandes corporações contra a cidadania.

 

(Fonte: New York Times)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Descalabro nas Contas de Dilma

                                    

         Poupança é fonte de investimento e, por conseguinte, do progresso do Estado. Em nossa bandeira, está parte da divisa da filosofia positivista de Auguste Comte. Deixou-se de lado o amor, e preservou-se – pelo menos no pavilhão - a ordem e o progresso. Se o positivismo há muito não está mais em voga, as décadas são testemunha de nossa trajetória. Malgrado o oba-oba, por ora continuamos como o país do futuro. Mais perto ou mais longe que esteja a prosperidade, consoante quem esteja na gávea da embarcação, não há negar que ela está a brilhar, e a motivar nossa, por vezes errática, caminhada.
        Em sua coluna em O Globo, Míriam Leitão nos expõe a falta da poupança.   Há muitos fatores que trabalham em sentido contrário ao investimento, que é filho dileto da capacidade de amealhar recursos. São conhecidas – e elogiadas – as nações em que a população tem o hábito de poupar – Alemanha e Coréia do Sul são exemplos marcantes. Se a brava gente brasileira não evidencia tal peculiaridade, seria de esperar que o governo fosse instrumental para este propósito, dados os óbvios benefícios que as nações retiram de tal tendência.

       Ao ser eleito, Lula da Silva cuidou de tranquilizar a população e o mercado:  o PT não vinha para desestabilizar o Plano Real. Após alguma turbulência inicial, foi o que, por seu mérito, mostrou a gerência econômico-financeira a cargo da dupla Palocci & Meireles.
       Sem embargo, como representante no poder do Partido dos Trabalhadores, Lula tinha outros mandados, que  carecia de implementar.  Dentro do neopopulismo chavista a que se vinculou, o presidente tratou de ampliar (e muito!), dentro dos chamados gastos correntes, a contratação de companheiros para os cargos de funcionários estatais. Inchou-se assim o empreguismo estatal, com a consequente redução da capacidade governamental de dispor, para fins produtivos, de parcela substancial  dos recursos recolhidos pela tributação.

       Outros programas, para atender os desvalidos e as classes ditas menos favorecidas, depois de tropeços iniciais (Fome Zero), foram implementados com o Bolsa Família, e sob a candidata de algibeira, outros mais, na linha neopopulista do assistencialismo desvairado.
      Com a Presidenta Dilma, inchou ainda mais a parte do orçamento destinada a esse gênero de assistencialismo, com o que o PT pensa assegurar a fidelidade futura das classes menos favorecidas, as quais busca colocar sob o regaço cada vez mais amplo (e esgarçado) do Estado.

      No entanto, as múltiplas desonerações fiscais – relativas a impostos sobre eletrodomésticos e veículos – assim como outros programas assistencialistas (Minha Casa, minha vida), subsídio à conta de energia, etc. – afetam o viés produtivo das contas públicas.
      Desde cedo, o governo Dilma pensa alavancar a economia através do estímulo ao consumo. As desonerações fiscais que, por seu caráter errático, criam confusão e certo imobilismo nos empresários (como adivinhar quais segmentos serão favorecidos pela Viúva), têm outros efeitos danosos, eis que retiram da bolsa do Estado dinheiro para inversões produtivas.

       Por outro lado, sob o governo Dilma Rousseff, além de sair pelo lado demagógico do estímulo do consumo, se continua a gastar demais para fins não-produtivos.

       Quando se carece de dotações para investimento, onde inventá-las? Além da taxa de poupança privada ser muito baixa (16,6% do PIB), o déficit em conta corrente, 3,6%, mais do que preocupa, inquieta.
       Há enorme gastança do consumidor brasileiro que vai ao circuito Elizabeth Arden para comprar mais barato tudo o que aqui o apetite da Receita Federal (e estadual e municipal) torna mais caro.  Assim, não se tem mais com o superávit nas contas, a poupança externa trazida por tais balanços antes favoráveis.

       Além disso, com a contabilidade fiscal criativa da Fazenda, e o Real fraco, diminui o fluxo de investimentos estrangeiros, tanto o produtivo, quanto o especulativo (em tempo de bruxas, mesmo aquelas menos favoráveis, a sua presença por cá pode servir para algo...)   
        Tampouco se pode utilizar de forma significativa o superávit primário (o pagamento dos juros da dívida), como se verifica diante da incapacidade do Governo (depois de inventar atalhos como as despesas com o PAC, etc.etc) de cumprir as metas fiscais (inclusive as mais modestas e já revistas).

       Daí, não pode causar surpresa a situação das contas públicas  e de seu consequente sufoco.  Assim, como em casa particular, se os donos gastarem acima dos próprios meios, e empinarem demasiados papagaios, o seu destino será o de crescentes problemas com a rede bancária, com a consequente mancha do nome e do acesso ao  crédito na praça, também na esfera pública, irresponsabilidade fiscal não promete horizontes promissores nem  manutenção de bom nome na praça internacional.
       Por quanto tempo ainda a turma do Mantega poderá sacar à custa da credibilidade adquirida pelo primeiro Lula, com Antonio Palocci e Henrique Meireles? Pelo andar da carruagem, não vai durar muito a encheção de boca sobre Brasil credor do FMI... Será que pela incompetência da Administração Dilma estaremos fadados ao retrocesso e a nos irmanar com a Argentina, de Cristina de Kirchner, para não falar no caso limite da Venezuela, de Nicolás Maduro ? 

 

(Fonte: O Globo )