terça-feira, 1 de maio de 2018

Do Suicídio do Reitor Cancellier


        

           Segundo reporta o Estado de S.Paulo, um dos argumentos usados por ministros  do Supremo para defender que a Polícia Federal faça delação premiada é que... a medida enfraquece o poder do Ministério Público, o que semelha no mínimo questionável.
           Esse raciocínio me parece para lá de dúbio, porque não se trata de reforçar ou debilitar esta ou aquela corporação. O Estado - e não me estou referindo obviamente ao jornal - não deve ter outra preferência do que aquela da capacitação relativa da instituição a exercer esta ou aquela tarefa.
           O vergonhoso inquérito a que a P.F. submeteu o reitor Luiz Carlos Cancellier, da Universidade Federal de Santa Catarina, supostamente culpado de integrar "esquema criminoso" que teria desviado "oitenta milhões de reais", teve resultado sombrio, pois levou um homem honesto ao suicídio.
          Como assinala a reportagem de capa da VEJA desta semana, por causa de acusação irresponsável, na operação da PF os agentes prenderam sete pessoas, entre as quais o professor Luiz Cancellier de Olivo, então com 59 anos, reitor da Universidade.  Cancellier foi então algemado, agrilhoado pelos pés e submetido à revista íntima.  De uniforme cor de laranja, permanece trinta horas detido, parte delas em presídio de segurança máxima, e, ao sair, fica proibido de pisar no campus da universidade, até ser liberado por ordem judicial.
          Tão traumática experiência, de um sádico tratamento de choque, cuja premissa é a alegada culpa escrachada do suspeito, a que se intenta não só desmoralizar, mas também aniquilar no mais fundo recesso do próprio auto-respeito, tal inominável tratamento possui turbadoras características que recordam as penalidades impostas pelo nazi-fascismo. Não surpreende, portanto, que esse violento, boçal tratamento de choque deixe em Cancellier indelével cicatriz, que é tanto mais sensível pela estúpida, arbitrária e fundamente injusta intrínseca violência desta atitude cujas raízes decerto se encontram nas mais façanhudas ditaduras.
          Com essa funda e de todo inesperada brutal violência, surpreenderá acaso que um homem inocente e íntegro, profissional conceituado, merecedor das atenções a que fazem jus os homens de bem, e que, por certo, em um cenário de justiça e de respeito, tinha todos os motivos para sentir-se intelectual e profissionalmente realizado, como se há de imaginar que um justo venha a receber um tratamento que se dispensa aos réprobos e criminosos?
          Poderão aqueles surpreender-se diante do tratamento de choque que encenaram,  dezoito dias depois da humilhação sofrida - e quanto mais injusta ela é, não só na acusação, mas também na crueldade de um ritual em que a vítima sequer possui o direito da presunção de inocência. Como se estivera, de repente, nas mãos de um boçal delegado interiorano, não surpreende decerto que as defesas naturais do ser humano tenham caído e de forma repentina, tal o inominável, estúpido e de inacreditável injustiça ritual acusatório, que na sua intrínseca, medieval mesmo violência, se abate sobre ele, e lhe impõe toda sorte de humilhação, como se triturar o ego de um homem, e denegar-lhe a qualidade do próprio caráter constituam as regras para a destruição do amor-próprio, do auto-respeito do Magnífico Reitor.
          Diante do tratamento que lhe foi imposto, e com as suas bárbaras características, que começam pela falta de qualquer atenção para com a pessoa acusada, a quem se dispensa um ritual que visa a triturar-lhe o próprio ego,  eis que as suas premissas constituem um espelho às avessas.
          Será preciso vestir-se de muito cinismo se se ousa encenar esse procedimento, que não espantaria a Dante Alighieri, se ele, pela súbita intentada destruição de seu conceito profissional e da própria auto-dignidade, leva   Cancellier a tal gesto extremo.
         Na campa do cemitério de Florianópolis, ali encontraremos o granito que mostra aos pósteros quem cometeu a mais corajosa afirmação de auto-respeito com que defenderá para sempre a lisura, a inteligência e a grande qualidade do próprio  trabalho. E será com a coragem extrema de quem não hesita sacrificar o próprio ser aos vis intentos que buscaram diminuí-lo e escarnecê-lo, ele se suicida, como homem e profissional digno que sempre foi e será, lançando-se do 7º andar de um shopping center em Florianópolis.
          Passados sete meses da tragédia que desabou sobre um inocente, a revista VEJA teve acesso às seis mil páginas do inquérito e as oitocentas do relatório final da investigação.
         Como VEJA enfatiza "é uma leitura perturbadora pelo excesso de insinuações e escassez de provas".
          Do pobre Reitor, que, ao cabo de tudo, surge como homem honesto que sempre foi - há de convir-se que nesse Brasil de hoje Cancellier pagou preço demasiado alto para ser submetido à ânsia de corporações, que partem do pressuposto de que alguém é culpado e condenado antes mesmo de ter direito a exame digno, imparcial e equilibrado, das acusações e do próprio conceito funcional. Da ânsia fascista que logra destruir  a autoestima de um homem profissionalmente respeitado, e que o joga ao mais fundo do desespero - que é aquele de ser vilipendiado por eventual conduta e supostos crimes de que hoje é reconhecido que  será para sempre inocente - restam apenas as marcas macabras da própria lápide no cemitério Parque Jardim da Paz, em Florianópolis.
           Aonde se acobertam os canalhas que, por motivos decerto inconfessáveis, lograram armar um processo mais próprio da Inquisição - em que ali, os verdadeiros infelizes já adentravam as lúgubres salas, torturados e com a cabeça a prêmio?
            Todo esse procedimento autoritário - em que alguém já entra culpado nas salas de interrogatório - está resumido na reportagem da VEJA.  A pressa e a ambição de colher mais um culpado já na leitura das páginas do semanário perturba ao leitor. "O relatório dispara uma fuzilaria verbal contra o Reitor. Afirma que "Cancellier detinha pleno conhecimento sobre o funcionamento  e a dinâmica das fundações e de todas as irregularidades." Assegura, ainda, que o reitor "agiu decisivamente em condutas impugnadas nesta investigação" e participa de uma "orcrim" (abreviação policiesca para organização criminosa).
             "O aspecto alarmante é que as afirmações do relatório não se baseiam em provas conclusivas. Não há um depoimento peremptório, um documento inequívoco, uma prova cabal. O texto limita-se a especular sobre a intenção de troca de funcionários e sobre o conteúdo real de conversas no WhatsApp, a apontar a estranheza de algumas coincidências, e chega até a fazer referências a fofocas e "comentários".  O Ministério Público Federal, num sinal de que não considera o trabalho acabado, já pediu mais 180 dias para examiná-lo.
               "Ao final, os investigadores pedem o indiciamento de 23 pessoas, com base  na suposta ocorrência  contumaz de pequenos golpes praticados por funcionários e beneficiários de bolsas do governo.( ...)  Também sobre os 23 listados.os elementos e indícios são frágeis. Ficam na esfera das possibilidades, desconfianças, suspeitas vagas. A leitura das 6000 páginas do inquérito, mas principalmente das oitocentas páginas do relatório final, passa a impressão de que a PF, acuada pela suspeita de que agiu de modo arbitrário ao pedir a prisão do reitor, se empenhou em superdimensionar as acusações, dando-lhes cores mais intensas do que a prudência recomendaria."
                   A reportagem da VEJA continua, mas o leitor fica com a impressão de que há uma perda trágica de tempo, na medida em que crescem as suspeitas de que o Reitor Cancellier foi a vítima da vez, perseguido  por ambições inconfessáveis e por ímpetos que lembram outros tempos, cruéis decerto e demasiado apressados para chegar à suposta verdade, dentro da mentalidade de que o réu de um processo desse gênero, inquisitorial e apressado, é o culpado, que, por esta ou aquela razão, já está condenado de antemão.
                     Essa gente, que se prefere não definir, não contava com a coragem extrema da vítima da vez.
                      Mas além de não confinar o pobre Cancellier àquela lápide,  cumpre que nesse Brasil se reconheça um homem honesto e digno, que não hesitou em realizar o ato extremo, na falta de outro para convencer a horda de que se tratava de uma pessoa respeitada na sua profissão, e que não trepidara em pôr a própria existência como prova inconfutável[1].

( Fontes:  Veja, Dante Alighieri (Commedia) )


[1] Do latim confuto - suprimir, restringir, conter.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Abbas articula frente anti-EUA


               

         Talvez Mahmoud Abbas, o Presidente palestino, haja  convocado reunião na data de hoje, 30 de abril, do Conselho Nacional Palestino (CNP), assembleia de setecentos  membros, sob o guarda-chuva da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que é o órgão máximo do Estado palestino, pensando nas mudanças no tabuleiro diante do desequilíbrio trazido pelo presidente Donald Trump.

        Diante do viés anti-palestino do atual presidente estadunidense, e das inúmeras medidas que Donald Trump vem tomando contra esse povo, e em apoio a Israel - como na escandalosa mudança de sede da Embaixada estadunidense em Israel - o velho líder palestino Mahmoud Abbas pretenda considerar a formação de frente unida do Povo Árabe Palestino contra Israel e Estados Unidos.

        É decerto lamentável que, no governo de Donald Trump, Washington  tenha adotado uma política pró-Israel a tal ponto que muitos estudiosos da área  considerem que, ao tornar-se cada vez mais pró-Israel, os Estados Unidos venham perdendo a sua posição e estatura que o habilitara no passado a manter posições de alguma imparcialidade para tentar dirimir as possíveis dificuldades que hoje lhe cairiam em cima, se tentasse voltar a agir como honest broker, no diferendo entre árabes e judeus.

( Fonte:  O  Estado de S. Paulo )

Continua a matança de Palestinos


                                            

        Desde  começos de abril, que hoje finda, se sucedem as  manifestações da revolta palestina diante das condições existenciais prevalentes na Faixa de Gaza.
      
            Ontem, 29 de abril, mais três palestinos morrem em confrontos com soldados israelenses.
       Como o blog tem noticiado, desde o início deste mês de abril, continuam os protestos de palestinos ao longo da fronteira para exigir o direito de retorno de refugiados.
    
        No domingo, dia 29 de abril, conforme fontes israelenses, dois manifestantes palestinos  tentaram adentrar  o lado israelense.   Incontinenti, os soldados dispararam (tal exército não faz tiros de advertência - sejam militares, sejam snipers, eles atiram para matar). Em consequência, mais um palestino morre e o outro, é preso para ser interrogado.
           Mais tarde, no mesmo dia, mais dois palestinos tentam cruzar a fronteira e lançam explosivos.  Dentro da "política" israelense, os dois incontinenti são abatidos e mortos.
           Não surpreende, por conseguinte, que tal 'política' israelense de receber invasores (em geral desarmados) da fronteira a bala, não surpreende decerto, embora a revolta palestina seja mais do que compreensível. Em consequência, desde o início dessa série de protestos, quarenta e dois palestinos foram mortos e cerca de dois mil, feridos pelos disparos (feitos por snipers ou soldados de infantaria).

            Tampouco surpreende que as autoridades palestinas acusem Israel de usar força despropor-cional para lidar com as manifestações e ataques à cerca de arame farpado colocada por Israel na fronteira com a Faixa de Gaza. Como vem sendo descrito pela coluna, a regra é o tiro de fuzil, as mais das vezes visando a região letal.  Nesse aspecto, os ataques dos snipers - verdadeiros bandidos - visam repórteres com vestes e outros petrechos dessa atividade pacífica, que para o assassino sniper é motivo bastante em atirar para matar. Surpreende, nesse ponto, que essa postura bélica criminosa do governo Netanyahu não haja fundamentado as mais do que cabíveis reclamações e ações penais junto ao Tribunal da Haia.

( Fonte:  O Estado de S. Paulo )

A Volta do Patriarca


                              

         A  História por vezes se repete.  Nem sempre, porém, o propósito de reescrever com as mesmas letras e o mesmo vinco acompanha o intuito.

           Veja-se, v.g., o que está acontecendo no Maranhão, antigo feudo dos Sarney.

            Há vinte e oito anos atrás,  o ex-presidente José Sarney transfere o título eleitoral para o estado do Amapá. Sarney quis valer-se do seu trânsito nesse antigo território para estender a presença dos familiares e partidários tanto no Amapá, quanto no Maranhão, que desde muito, após a queda de Vitorino Freire, torna-se terra em que o clã Sarney predomina.
            Agora, é a vez de refazer o caminho primevo.  O ex-presidente transfere o título de eleitor de volta para o Maranhão,  sua terra natal e berço político, como frisa o Estado de S. Paulo.
             Se Sarney é político da velha escola, e desde que afastara o chefe anterior Vitorino Freire, do Maranhão, o seu domínio foi quase inconteste - houve apenas o  intervalo, com a entrada do partido de Lionel Brizola, com o PDT de Jackson Figueiredo. Foi talvez nesse lance duvidoso, em que, com o auxílio dos tribunais,  José Sarney restabelece a dominação.

            Com esse movimento,  o ex-presidente quer resolver duas questões. Evitar o esfacelamento do respectivo clã e, não por último, despejar, a qualquer custo, do Palácio dos Leões, o governador Flávio Dino (PCdoB). Dino, eleito em 2014, depois de quarenta anos de domínio quase ininterrupto da família Sarney, quer repetir a dose no próximo pleito.
              Por sua vez, o ex-Presidente Sarney, se alega motivos pessoais para o retorno, consoante o próprio círculo, o motivo é outro.  Na verdade, o ex-presidente, segundo a sua roda de amigos e colaboradores,  só fala em restabelecer o domínio interrompido apenas uma vez do sarneyzismo no Estado.
             Dessarte, o seu escopo seria duplo: evitar o esfacelamento do clã Sarney e, last but not least, retirar a qualquer custo do Palácio dos Leões o governador Flávio Dino.

            Segundo um dos amigos mais próximos do ex-presidente, Benedito Buzar, presidente da Academia Maranhense de Letras: "O que Sarney  pensa é em voltar ao poder no Maranhão. Nem é tanto pelo poder em si, mas por uma maneira de dar  a volta por cima, de no final não ser um homem derrotado, marginalizado. Dino tem agido com uma agressividade terrível contra os Sarney."

              Sarney acaba de completar 88 anos.  Nesse sentido, se tem empenhado em montar base política para apoiar a pré-candidatura de Roseana Sarney (MDB) ao governo. Por enquanto, porém, Sarney tem colhido malogros na sua tentativa de minar a larga aliança que dá apoio a Dino.

                Mas Sarney não desiste. Na festa do aniversário, Sarney disse a amigos que pretende sair do luxuoso apartamento no bairro Ponta da Praia, e voltar para a antiga casa da família, na praia do Calhau.  Para ele, a disposição da residência, ao contrário do apartamento, facilitaria os contatos políticos...


( Fonte: O Estado de S. Paulo )

Quem matou Marielle ? (2)

                                 

        O  blog fez esta pergunta a catorze de abril de 2018.
         'Seu'  Antonio, pai de Marielle, disse então:
         "A gente precisa saber quem foi. Faz um mês, dá muita angústia e preocupação.  A família quer essa resposta e a  sociedade também."
          A resposta, por enquanto, é igual a outras. É o silêncio.
           Falou-se muito do inquérito policial.  Freixo - ex-candidato a Prefeito - também vocalizou essa inquietação da sociedade.  Referiu-se mesmo aos papiloscopistas que já foram cedidos em outras oportunidades às investigações da Polícia.
            Ora, essa palavra não existe no dicionário Houaiss. Esperemos, no entanto, que a circunstância de que tantas investigações fiquem sem resposta, caindo na vala comum dos crimes sem solução, não venha a acontecer neste megacídio.
            Seria algo que a cidade não merece.  Marielle, como vereadora, foi uma luz que brilhou intensamente. Com grande força e  poder de renovação, trazendo para a tão vilipendiada Gaiola de Ouro tamanho entusiasmo e empenho.
            Temos presente as multidões que o megacídio levantou.
             Tanta gente indignada.
              Se o esquecimento não será nunca memória, que não se permita que sobre esse crime recaia o manto disforme da inação e dos espaços vazios que o vento atravessa em vão, com sua mixórdia infame de gemidos e  queixas, que pela negligência se misture à memória dos crimes que sóem rolar  nas lufadas solitárias que a noite vá aos poucos engolindo.

( Fonte: Drummond de Andrade  )

O PT apela para a censura...


      

           Noticia a imprensa que o Partido dos Trabalhadores, esquecendo a própria mensagem, deseja  proibir o Supremo Tribunal Federal de televisionar sessões.
            Mais uma vez, e por motivos inconfessáveis,  o  PT deseja emplacar na pauta da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, projeto que proíba a TV Justiça de transmitir as sessões do Supremo Tribunal Federal (STF), e demais tribunais superiores.
            Consoante assinalado pela imprensa, essa proposta pelo deputado Vicente Cândido (PT-SP) é de 2013, mas foi requentada e  virou prioridade para esse partido depois que a Corte negou o habeas corpus  contra a prisão do ex-presidente Lula.
           Quanto à profissão libertária do Partido dos Trabalhadores, ela decerto depende dos tempos e das conveniências políticas.  Uma vez mais, tenta o PT calar a imprensa e o seu conduto hoje mais perigoso no seu entender - a transmissão pela TV Justiça das votações em nossa mais alta Corte.
          O julgamento do Mensalão - que tanto já preocupara o tribuno Lula - abriu novos caminhos para a democracia no Brasil. Até hoje, há gente desse partido que acoime ao então Ministro Joaquim Barbosa a relatar, com as tintas acerbas da verdade, o escândalo do Mensalão, que outro Ministro se empenhara em procrastinar.         
            Bem fez o Ministro Barbosa em relatar com honestidade e precisão o escândalo petista.   Agora reponta outra tentativa inconfessável de representante petista,  que ousa propor - e através da CCJ - o desígnio de calar a verdade, e de ocultar ao Povo soberano as discussões e os debates do Supremo.
           Ter medo da verdade e do conhecimento, e nesse sentido apelar para os procedimentos mais vis de acobertamento da realidade, é sinal inequívoco de menosprezo pela Constituição Cidadã.  Pregar a censura como o faz esse representante de partido que, ao que tudo indica, perdeu o pejo de valer-se desse vil instrumento das ditaduras e dos regimes corruptos, que é a negação da verdade. A Constituição de Ulysses Guimarães estigmatiza esse sórdido recurso das ditaduras a que, pelo visto,  o  PT hodierno não se peja de recorrer.
           Nada foi de maior proveito para a conscientização do Povo soberano do que a transmissão dos debates no Supremo Tribunal Federal. Levá-los a público reforça a nossa democracia - porque o medo da verdade é  a perene desculpa das ditaduras e dos propósitos inconfessáveis que animam esse suposto temor de que a gente brasileira ainda não estaria preparada para lidar com ela.
            Até hoje, o Ministro Joaquim Barbosa provoca temores inconfessáveis.  A verdade é o sangue da democracia. Os que dela têm medo mostram quais são os seus reais propósitos.  Por isso, armados de todos os pretextos da chicana, eles a perseguem, e de forma ardilosa.  Jamais ousam enfrentá-la. 
             E porque dela têm o medo daqueles que conhecem da verdade a força e a pujança, tudo fazem para afastá-la ou desviá-la, para tanto sequer se pejando de que tudo isso perpetram para melhor defendê-la.
             O conhecimento da verdade é a droga mágica das democracias. Não temê-la, nem querer encafuá-la nas alcovas dos regimes ditatoriais, constitue o remédio milagroso que serve a pobres e ricos, porque não há outra salvação para qualquer regime que o culto sem peias nem limites da Verdade.
             Fora com os atalhos da ditadura!  Fora com os arautos da mentira e do privilégio.
             Fora com a censura, em todos os seus atavios e trajes!

( Fonte: O Estado de S. Paulo )

Gaza: nova trincheira da liberdade


                        

          No  fenômeno Gaza, se o visualizarmos com espírito crítico, está à flor da pele o escândalo que um tal sanhudo, agressivo desrespeito ao direito humano mais entranhado que existir possa tende a provocar no observador das relações entre pessoas, por mais que este indivíduo se esforce em considerar os agentes do poder militar israelense também como seres humanos.
         O escândalo que ora se vivencia na Faixa de Gaza constitui um duplo desafio para o observador que se esforce e se empenhe em tentar compreender o que está sucedendo na faixa de Gaza.
          Há diferenças que investem contra qualquer observador, que tente ver o que está acontecendo em torno da cerca de arame farpado da Faixa de Gaza, símbolo a um tempo de prisão a céu aberto, e de um local em que tudo é permitido aos guardas israelenses dessa fronteira, que mais parece uma chaga aberta, em que quotidianamente se afronta a liberdade, como se os seres humanos enjaulados, em verdade não o sejam, tratando-se de espécie de homens a que a prolongada sujeição a condições inumanas colocasse em suposta situação de inferioridade. 
            O que acontece nessa estreita faixa de terra é, desde logo, um acinte aos direitos humanos: na verdade, pelo seu próprio comportamento, os guardas israelenses e os snipers ajem como se fossem verdadeiras bestas-feras humanas. Ahmed Abu Hussein, de 25 anos de idade, é o segundo jornalista a morrer nos protestos - iniciados no mês passado, no limite da faixa de Gaza com o território israelense.
             Tenha-se presente que Ahmed desempenhava o próprio mister de foto-jornalista com o cuidado de ter veste que o caracterizava como representante da imprensa, além de portar capacete especial.  Apesar de desarmado, Ahmed não estava ali como mero assistente, mas exercia  seu trabalho de repórter. Tal não impediu que um sniper israelense o alvejasse de forma vil e criminosa no estômago, a treze de abril corrente. 
               Transferido para Ramallah, dois dias depois de ferido gravemente, só seria transpor-tado para Ramat Can (Israel) onde sucumbiria  pouco depois.
                Mas não é o único jornalista criminosamente abatido pelos assassinos de aluguel de Israel. Yaser Murtaje é mais um jornalista morto, no correr deste mês. Também para ele de nada serviu para protegê-lo o colete de imprensa, que assinala a sua própria missão de jornalista.
                Outro cotejo revoltante no que concerne a esses protestos da população de Gaza pelas condições em que vive, cercada pelo arame farpado desse campo de concentração em que a repressão israelense transformou a faixa de Gaza. 
                42 palestinos já foram abatidos em Gaza durante os protestos, seja por snipers, seja por soldados uniformizados. Querer melhores condições de vida e não ser cercados pelo arame farpado dos stalags,  foi o crime que cometeram para a soldadesca israelense.  E assinale-se que, em todo esse período, nenhum soldado israelense foi morto ou sequer ferido.
                    Enquanto isso, os snipers assassinos atiram para matar em palestinos desarmados.  
                    Que tanto a soldadesca, quanto os snipers atirem para matar, sem detê-los sequer a sinalização de que os palestinos trabalham em cobertura de imprensa, com os coletes e os capacetes regulamentares.
                    Mas o escândalo continua, através dos assassinos adrede contratados para matar palestinos indefesos que só não querem viver como animais na terra de que levam o nome.



( Fonte: CNN )