quinta-feira, 30 de março de 2017

A Lava-Jato chega ao Rio de Janeiro

                              
        Há muito esperada, a operação Lava-Jato afinal chegou ao Rio de Janeiro. Não despertam surpresa os locais visitados pela Polícia Federal. Cinco dos sete conselheiros do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e a detenção coercitiva para depor do Presidente da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, a famigerada Alerj, que é o deputado estadual Jorge Picciani (PMDB).
         Desde muito há comentários sobre a corrupção que grassa nesses dois órgãos estaduais.  Os detidos na operação são suspeitos de participarem de atos ilícitos ou de serem coniventes com supostos desvios  praticados em obras públicas na gestão do ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), preso em Bangu.
         Trata-se da operação  O Quinto do Ouro, que é mais um desdobramento da Lava-Jato. Aprofunda-se, em consequência, a crise política no Rio de Janeiro e, como era de esperar, as denúncias de corrupção se expandiram  do Poder Executivo para o Legislativo (comandado este  por Picciani) e tendo a Corte de Contas como órgão auxiliar.
          A ação em tela se serviu de informações fornecidas pelo conselheiro do TCE Jonas Lopes e por seu filho, o advogado Jonas Lopes Neto, através de acordo de colaboração premiada.
          Dado o andor da carruagem, há expectativa de que novas acusações atinjam o Poder Judiciário no Rio de Janeiro.
         Com autorização do Ministro Felix Fischer,do Superior Tribunal de Justiça (STJ), foram presos em regime temporário o atual Presidente do TCE,  Aloysio Neves, o vice-Presidente Domingos Inácio Brazão, e os conselheiros José Gomes Graciosa, Marco Antonio Alencar e José Maurício Nolasco. O ex-conselheiro  Aluísio Gama também foi detido.
           É de assinalar-se que da atual composição  da corte de contas apenas a corregedora Marianna Montebello Willeman não foi alvo da operação da P.F.
            Como sublinha a notícia do Estado de S. Paulo,  o citado Aloysio Neves, atual presidente do TCE, foi chefe de gabinete de Cabral quando este último ocupava a presidência da Alerj (de 1995 a 2002). Os dois - Neves e Cabral - aparecem juntos em fotos de uma viagem a Paris. Assinale-se igualmente que Jorge Picciani, hoje detido em condução coercitiva, era o primeiro-secretário da Alerj na gestão de Sérgio Cabral.




( Fonte: O Estado de S. Paulo )

quarta-feira, 29 de março de 2017

O Processo Bomba

                              
         O Presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Ministro Gilmar Mendes, após informar que o julgamento da ação começará na 3ª feira, quatro de abril, reservando-se quatro sessões, na primeira semana do mês.
         Após essa seção extraordinária, mais três sessões nesta semana do mês de abril. Provocou certa espécie a pressa denotada pelo relator, Herman Benjamin, pressa esta  que se prenderia ao desejo de possibilitar que o Ministro Henrique Neves possa votar no processo. De qualquer forma, o seu tempo de TSE finda a dezesseis de abril.
          O Presidente Gilmar Mendes também comunicou aos colegas que instaurou sindicância interna  para apurar a origem  da divulgação dos depoimentos de ex-executivos da Odebrecht à Justiça Eleitoral, diante de seu caráter sigiloso.
           Para os auxiliares do Presidente Michel Temer, é tido como certo que o relator Ministro Herman Benjamin peça pela cassação da chapa Dilma - Temer.  No mesmo sentido parece fora de dúvida que o relator venha a recusar o pedido da defesa de Michel Temer para separar as contas da campanha.
           De qualquer forma, desde algum tempo, o Ministro Herman Benjamin tem evidenciado particular empenho em apressar o processo - no que se insere a ultimação do respectivo voto.
           Também tem Herman Benjamin se esforçado, dentro de suas possibilidades, de apressar o tempo da apreciação pela Corte do processo.  Para tal, abre maiores possibilidades de que ao Ministro Henrique Neves  sobre tempo (a data da sua saída é dezesseis de abril). Outra participante, que também votaria contra Temer, é a Ministra Luciana Lossio, representante dos advogados e que deixa o tribunal a cinco de maio.
            Não é segredo para aqueles que se especializam em prognosticar para onde soprarão os ventos de que a trinca dos Ministros Herman Benjamin, Henrique Neves e Luciana Lóssio pende pela condenação da chapa.
            Em um colégio de sete ministros, se há de convir que se tal  esquema se realizar, a perspectiva da condenação dependeria de um único voto, colhido eventualmente dentre os quatro que restariam: o presidente Gilmar Mendes, os ministros Luiz Fux e Rosa Weber (os três do Supremo) e mais o Ministro Napoleão Maia Filho.
             De qualquer forma, se o Ministro Herman Benjamin já parece haver dado bons motivos para que se acredite provável o seu parecer pela condenação da chapa,  nem tudo está decidido.  Ao Ministro-presidente Gilmar Mendes não faltam possibilidades concretas de influir no resultado final, e tal não só por seu eventual voto em favor do Presidente Temer.
              Há outra possibilidade que não parece suscetível de não ser eventualmente utilizada de forma a garantir o resultado favorável para o sentir das partes.
               Dentre os modos de influir no resultado - há dois ministros com o respectivo relógio de participação já com tempo assaz curto - está o nosso velho conhecido do "pedido de vista do processo", que pode ou ser encarado como um lídimo procedimento de esclarecer pontos essenciais no processo contra a chapa, ou simplesmente para ganhar tempo e criar condições para o colimado escopo.
                Além disso, há outros mecanismos - a solicitação pelo TSE da junção de mais provas, ou o recurso das Partes envolvidas, ou diretamente ao TSE, ou mesmo ao Supremo, seja para dirimir pontos específicos, seja para obter orientação determinada.  
                 Há outras considerações que poderiam pesar na decisão do TSE: o desastre político que representaria a cassação da chapa Dilma - Temer, se aceita a tese de que não caberia a separação, conforme alvitrada; a força dos fatores em jogo, um deles no exercício da presidência, em um momento particularmente delicado do quadro político brasileiro, e a outra parte, além de haver sido a cabeça de chave e, por conseguinte, não só predominante mas também tendente a fazer presumir que a outra parte (Michel Temer) tenha no caso exercido a influência que os vices geralmente têm em tais circunstâncias...
                  São, no entanto, apenas elocubrações de um velho bacharel formado no vetusto edifício da Moncorvo Filho...


( Fonte:  Estado de S. Paulo )

Até quando, Trump, abusarás da paciência americana?

                    

          Não só proclamar a própria visão,  mas também  atuar  com a determinação - em geral reservada às causas nobres - tem sido atitude comum do 45º Presidente,  Donald John Trump.
           Que um país do nível dos Estados Unidos tenha eleito esse senhor será talvez discutido por muitos anos  após tal triste retrocesso que foi dado a conhecer poucas horas depois da jornada das eleições americanas.
           Se muitos tiveram naquele infausto dia sensação de desconforto e de perplexidade, que uma pessoa, enjeitada pela direção do próprio Partido Republicano,  haja logrado vencer pela votação indireta prescrita pela Constituição setecentista alguém incomparavelmente mais preparada e com atuação  que a transportara das bancas da Universidade, e dos prêmios reservados aos melhores estudantes até o Departamento de Estado, com longa trajetória política, assinalada pelo comprometimento pelas boas causas, e a promoção dos extratos mais necessitados.
          Ao deparar hoje a conduta do sucessor de Obama, o único consolo que resta ao eleitor é a ciência de que, em qualquer lugar do mundo,Hillary venceria a Trump, como venceu por três milhões de votos no cômputo numérico, seria hoje a primeira Madam President. Já é mais do que tempo de abandonar esse obsoleto, caprichoso sistema que costuma decretar a derrota dos candidatos que têm a maioria na votação numérica.
          Erasmo, o humanista, escreveu o Elogio à Loucura.  Se na pátria de Lincoln houvesse alguém à sua altura escreveria talvez a propósito o Elogio do bobo da Corte.
           Porque este senhor se empenha em desfazer o bom, como a legislação ambiental de Barack Obama? Trazer de volta o carvão e todas as demais pragas anti-ambientais, depõe não só contra a ciência, mas sobretudo contra a saúde.
  
          São três coisas inconciliáveis: não se pode ser ao mesmo tempo pessoa inteligente, honesta e opositor da teoria ambientalista. Assim, se alguém execra o ambientalismo, pode ser honesto mas não é inteligente. Tampouco será honesto se descrê da teoria ambientalista, e tendo poder, se empenha em  destruir-lhe os efeitos benéficos, como no caso do carvão.
  
          Na gilded age, escritor americano satirizava - que é a arma da inteligência - as necedades dos novos ricos. Os chamados barões ladrões - de onde saíram muitas grandes famílias - pelo menos tinham conquistado a riqueza, e contribuído a elevar a opulência do jovem Estados Unidos.
            O que dizer desse senhor, que cultiva a gente pobre do Cinturão da Ferrugem,e lhes acena com promessas que um con man do Oeste não ousaria fazer ?
            Hillary pensa que a intervenção russa na eleição americana terá sido vingança de Putin, por ela haver exposto, há algum tempo, as manipulações nesse campo eleitoral de gospodin Presidente. Quem sabe? Mas a ajuda ao amigo terá sido movida pelo consequente enfraquecimento ou, quem sabe?, sua impetuosa ajuda ao chamado declínio americano ?     

            Quem poderia dar visão mais depreciativa de o que abanar-se com esse triste arremedo de leque, qual juntar-se aos ignorantões que negam o óbvio, ou o que é ainda pior, colaborar em jogar os Estados Unidos ou no pântano do retrocesso, ou no deserto do atraso e do ridículo internacional ?


( Fontes: Apud Cicero - discurso contra Catilina;Mark Twain, The New York Times)



BRASIL 3 X PARAGUAI 0

                    

        O 'professor' Tite, pelo seu afinco, seriedade e competência transformou a seleção canarinho da antiga confusão técnica e tática que reinava sob o antecessor Dunga, em "a seleção", como o escrete canarinho era antigamente conhecido no futebol mundial.

       É um grande prazer ver um time com a qualidade técnica  do atual scratch brasileiro. Feio o futebol paraguaio, com o seu recurso à violência.

        Por outro lado, além de assinalar a superioridade brasileira e a aliança entre classe individual e futebol de conjunto, se o embate a princípio não parecia fácil, a manutenção do esquema, a classe individual e coletiva da equipe, e o controle do técnico Tite, que vai destruindo mitos como o do Estádio Centenário, em Montevidéu, nos fazem esperar por presença afirmativa do Brasil na Copa da Rússia.



( Fontes: Rede Globo e O Globo )

terça-feira, 28 de março de 2017

TSE: Relatório de Herman Benjamin

           

       O Ministro Herman Benjamin, relator do processo (que pede a cassação da chapa Dilma - Temer) pediu ao Ministro Gilmar Mendes,  presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE),  que marque o julgamento, que pode ocorrer já no decurso da próxima semana.
      Ontem, segunda-feira, 27 de março de 2017, o relator Herman Benjamin, enviou o relatório final para os demais integrantes do tribunal, e pediu para incluir o processo na pauta de julgamentos no plenário.
       Também neste sentido, o Ministro Benjamin telefonou para o Presidente da Corte, Ministro Gilmar Mendes, e dele ouviu a promessa de que convocaria sessões extraordinárias para a realização do julgamento. Nesse sentido, há a possibilidade de o citado julgamento acontecer na próxima semana. As bancas de advogados da ex-presidente Dilma Rousseff e do presidente Michel Temer reclamaram da 'pressa' em concluir logo  o processo. 
        No Palácio do Planalto, o suposto atendimento por Gilmar  do pedido de Benjamin causou preocupação. A expectativa era que o início do julgamento demorasse ainda mais um pouco. Nesse contexto, o Governo Temer tenta evitar  que ao menos o ministro Henrique Neves vote,  por ser alegadamente favorável à condenação da chapa (ele sai do TSE a dezesseis de  abril). A inquietude do Planalto também se estende à ministra Luciana Lóssio (deixa o TSE a quinze de maio), eis que também tenderia à cassação da chapa.
          Por outro lado, a avaliação do governo Temer é que o voto do Ministro-relator, Herman Benjamin, pela condenação da chapa será "muito duro". Ora, se acompanhado  pela dupla de Neves e Luciana, o placar do juízo já estaria em três votos pela condenação,  num colegiado de sete ministros.
          No sentido da Lei Complementar  64 - que define os prazos para esse gênero de processo - quando o relatório for liberado para julgamento, depois de três dias é feito pedido de inclusão do caso "para julgamento na primeira sessão subsequente".  O Ministro Benjamin se baseou nessa regra, no seu ofício ao Presidente do TSE.
            A chapa Dilma-Temer  é acusada de ter cometido abuso de poder político e econômico na campanha de 2014.  O PSDB abriu o processo no TSE - a candidatura Aécio Neves  fora então derrotada.  Se houver condenação , o presidente da República poderá perder o cargo. Se comprovado que Dilma e Temer  sabiam das ilegalidades supostamente praticadas, ambos podem ficar inelegíveis pelo prazo de oito anos. A chapa é acusada de haver cometido abuso de poder político e econômico na campanha de 2014.
              Dessarte, se houver condenação - tanto de Dilma, quanto de Temer - o Presidente da República poderá perder o cargo. 
               Na semana passada, Benjamin  enviara relatório parcial aos colegas. Agora, ele elaborou  nova versão, com dados enviados por alega- ções finais pelo PMDB, PT e PSDB.  O processo tem 1086 páginas e está sob sigilo. O Ministério Público tem prazo até amanhã  para se manifestar no processo.
                O encerramento do processo nessa fase de instrução indicava aos ministros do TSE que não poderia por ora realizar-se  com data de abril pela iniciativa do Relator de incluir no processo depoimento de dez delato-res da Odebrecht, com fatos relativos à investigações da Lava-Jato.  No conjunto, cerca de cinquenta testemunhas foram ouvidas durante o processo. Igualmente, foram realizadas diligências e perícias - em especial, para apurar se as gráficas que prestaram serviço para a campanha seriam de fachada.
                  A defesa do Presidente Michel Temer pediu que a prestação de contas dele seja separada daquela de Dilma Rousseff.  Com isso, os seus advogados querem colocar apenas do lado da petista as supostas ilegalida-des cometidas. Tal tese deverá ser analisada pelo plenário do Tribunal Superior Eleitoral durante o curso do julgamento.
                  O causídico Gustavo Guedes, que defende o presidente Temer, questionou o calendário do julgamento: "Não há razão para observância estrita da lei, se o relator não observou outros prazos estabelecidos. Não é razoável que um processo com tantas peculiaridades  e da importância deste tenha de ser julgado neste prazo."
                  A defesa de Dilma também criticou a pressa do Ministro Benjamin em pautar o caso. Na avaliação do advogado Flávio Caetano, o processo ainda não está maduro para ser julgado, uma vez que não teria sido garantido o direito à ampla defesa. 
                  Se o processo for levado a julgamento em tais condições, o Dr. Caetano pretende levantar essa questão na sustentação oral, durante o julgamento: "Se o ministro não se sensibilizar com os argumentos e levar a julgamento, vamos sustentar isso no plenário. O processo não está maduro para ser julgado, porque ele ofende o contraditório, a ampla defesa."
                  Nesse contexto, o Dr. Flávio Caetano sublinhou que ao serem ouvidas dez pessoas ligadas à Odebrecht, não houve direito à ampla defesa. Segundo afirmou o causídico, as testemunhas falaram por dezenove horas e trinta minutos. Nesse contexto, a defesa de Dilma pediu que também fossem ouvidas pessoas mencionadas nos depoimentos. No entanto, somen-mente  o prefeito de Araraquara (SP), Edinho Silva (PT), que foi tesoureiro da campanha de Dilma em 2014 teve direito a oitiva.
                        No julgamento, a votação dos sete ministros está assim disposta: o primeiro é o relator, e o último a se pronunciar será o presidente do Tribunal. Entre esses dois, votam, pela ordem, Napoleão Nunes Maia, que também integra o Superior Tribunal de Justiça (STJ); Henrique Neves e Luciana Lóssio, que ocupam as duas vagas alocadas a advogados; e, por fim Luiz Fux e Rosa Weber, que são ministros do Supremo.



( Fonte:  O  Globo )

segunda-feira, 27 de março de 2017

Trump e o círculo infernal

                                            

        O deputado Devin Nunes, republicano da Califórnia, segundo o Washington Post, terá desejado ajudar o Presidente Donald Trump, com  observação sobre o suposto grampo por ele sofrido por ordem  do então Presidente Barack Obama.
        No entanto, o que Devin Nunes terá conseguido foi criar problemas para o respectivo comitê de Inteligência na Câmara de Representantes, enquanto a sua credibilidade para analisar a alegada intromissão russa na última eleição se vê bastante comprometida.
        Por outro lado, está em marcha o exame feito pelo Federal Bureau of Investigations, sob a chefia do Diretor James Comey, com vistas a aprofundar o que realmente houve em termos da suspeitada intervenção do governo do Presidente Vladimir Putin no processo democrático americano, entre outras ações, as do hacking do Comitê Democrata (com o intúito de divulgar informes de viés negativo desse Comitê, através do site Wiki-Leaks,  por conta do asilado equatoriano Julian Assange).
         Chamuscado pela pesada derrota na sua tentativa de esvaziar  as acusações contra Trump,  Devin Nunes volta não exatamente de mãos abanando ao trabalho de seu Comitê na Câmara de Representantes. A pergunta que se coloca a respeito do deputado republicano da Califórnia diz respeito não só à própria credibilidade em analisar questões que podem respingar e bastante no seu patrão, e ainda mais, no que tange a envolver-se de forma ainda mais crível aos inúmeros tópicos que carecem de ser apro-fundados se realmente terá condições políticas de deslindar o que, por ora, supostamente ele se empenha em confrontar.
         Essa crise, como uma sucuri, vai crescendo nos seus nós que, pouco a pouco, envolvem os inúmeros  membros do núcleo de Trump. Como isto vai acabar é pergunta que muitos fazem em Washington, golpeados que foram pela rapidez da involução do Governo Trump.
          As crises muita vez não se saciam com a turma de médio escalão. Elas, de resto, nutridas pela indiscrição de uns, os maus passos de outros, e a sua peculiar lógica que, tanto admite uma suposta salvação in extremis, quanto súbito agravamento na corte de Rei Trump.
              A sofreguidão quase sempre é péssima conselheira, como se verificou  no episódio da investida contra a aborrecida Obamacare.  Adversários, mesmo aparentemente à terra, não carecem de ser subestimados.
               No seu afã, tão juvenil quanto vazio, de derribar o pavilhão democrata, Trump no seu pressuroso  afã quase juvenil pensara que poderia reduzir  e destruir  o Affordable Care Act, a que os republicanos detestam, primo por ter sido aprovado sem um único voto do Grand Old Party, e secondo, por lograr amplo e sólido sucesso, de que são prova os vinte milhões de pessoas a que tem servido e atendido com proficiência.
                Na sua alegada campanha contra o pavilhão democrático,  Donald John Trump agiu como o monarca vão, que ataca, sem cuidar da própria retaguarda, a fortaleza provada por sete anos de bons serviços prestados não à moça Raquel, personagem de seus sonhos, mas à Lia que viria a ser-lhe empurrada goela abaixo. Indivíduos estouvados como o é Trump tem sede de glória e felicidade.  Ele esquece, no entanto, que nenhuma lei surge do nada, e se o detestado Obamacare  lograra vencer todas as campanhas  alimentadas pelo ódio e a mentira,Trump, na sua lua de mel com o poder, imaginara que a hora da verdade tinha chegado.
                 Na sua ânsia de levar adiante a grande conquista, humilhando o predecessor  - como todo indivíduo vão, Trump acredita no que lhe dizem os próprios cortesãos - amarga surpresa lhe estava reservada. No seu sétimo aniversário, esta grande Lei  humilharia a quem se acreditara votado à inebriante travessia, com o incenso dos triunfos romanos.
                  Vão, vaidoso e da vitória voluptuoso, Donald Trump, sem o saber,  abria a porta das intempéries - logo ele que pensa transformar  os aguaceiros  no céu azul que eles escondem -  e dava solene início à prematura  temporada da inclemência e dos sonhos ruins.
                   A primeira derrota será sempre lembrada, e não por saudosismo,mas por negar, com golpes imprevistos e traições fementidas,  que o solene cortejo do triunfo se veja fustigado pelas intempéries, tanto as temíveis, quanto aquelas materiais, todas elas porém engordando o malévolo cortejo dos inimigos.As desditas do rei e soberano, tanto as passadas, quanto as vindouras, crescem na consciência que a conjura dos adversários anima, enquanto ele,  o chefe de vaporosos cabelos,  vê com raiva  irromperem os rancorosos de plantão, ora robustos e rugentes todos, rindo-se às bandeiras despregadas, como se por ruir já estivesse o magnífico edifício.  
                A horda pode até vencer , mas não convencerá jamais. Engambelada com mentiras, festejada pelos cortesãos, a sua caminhada estará eivada de surpresas ruins, todas elas fecundadas por tolas ambições, sob o aplauso da patuléia interesseira. Mas como o ir e vir das vagas, o poder e suas ilusões escorrerão pelas próprias ávidas, mas pequenas mãos, tão diminutas quanto as mentes que lhe giram em torno, até que soe a hora da verdade, e ele se descubra escorraçado por criaturas que, ou conhecia demasiado, ou jamais nelas pousara a pesada mão nos passados dias de fausto e da consequente vã, vingativa retribuição.



( Fonte: Camões, Washington Post,  The New York Times )

domingo, 26 de março de 2017

E agora, Obama ?

                                     

      Segundo noticia o Washington Post, o 44º Presidente, ao contrário de muitos de seus antecessores, não pretende deleitar-se,  quer em merecido descanso (depois do torvelinho presidencial),  quer em posição prestigiosa, mas afastada da política.
      Não poderia estar mais de acordo com a opção que seria a de Barack H. Obama. Para reforçar a presença da política, que ele vê meio afastada da população,  o ex-presidente divulgou declaração em que exorta o GOP a não desmantelar de forma unilateral o principal legado de sua Administração.
       Colaboraram com tal desejo - não exatamente por vontade própria dos indigitados - o presidente Donald Trump, a incompetência política do Speaker Paul Ryan, a oposição da linha dura republicana, e a qualidade do instrumento que pretendiam estripar.
       Os Obama permanecem, por ora, em Washington - sobretudo para esperar o término do curso ginasial da filha mais jovem,  mas também pela compulsão da Administração Trump de colocá-los sob as luzes da atualidade.
        Obama prepara a própria sequência existencial, o que é sempre um desafio para os ex-mandatários americanos, eis que lhe está fechado o grande portão do retorno à Casa Branca.
        Como seria de esperar, uma relação diga-se cordial - próxima, por conta das respectivas diferenças de intelecto e posição política estaria decerto nos impossíveis da velha coluna de Ripley - parece rapidamente encaminhar-se para o brejo das almas, diante das fantasias do 45º presidente, como a acusação de que Obama o grampeara durante a eleição.
          Em termos de Partido Democrata, Obama semelha favorecer o surgimento de novas gerações. Se as suas relações com a candidata Hillary Clinton sempre estiveram na senda do correto, e nunca foram demasiado calorosas, o mais provável é que Barack H. Obama não faça demasiado esforço em viabilizar uma nova confrontação com Trump.
           O seu olhar - pelo que conta em termos de apoio um ex-presidente - irá em busca de novos valores.
           O que interessa sobremodo neste momento é a sua disposição de dedicar-se ao redistritamento. Nesse contexto, o Washington Post indica que Obama pretende dedicar à especializada (wonky) e altamente partidária questão do redistritamento. O escopo precípuo seria o "de reverter os declínios eleitorais que os Democratas experimentaram durante os seus dois mandatos".
            Ao reportar a suposta direção do esforço do ex-Presidente, o Washington Post não poderia evitar a extrema prudência com que o establishment político tende a tratar de um fenômeno específico, que não é outro senão o gerrymandering.   Se o novo instituto de Obama lograr tal objetivo, que é o de desfazer o extenso gerrymandering estabelecido pelo GOP em estados de governo republicano, em que a 'instituição' desse peculiar sistema (essencialmente comprimir nos distritos democratas o maior número de eleitores com essa tendência, e traçando distritos do GOP em que a' maioria' esteja garantida para o Partido Republicano, temos a formação dessa contrafação eleitoral, em que fica assegurada a vitória de um maior número de deputados do GOP para a Câmara de representantes do que de democratas). Nesse contexto, a maneira mais simples de verificar que existe o gerrymander será através da votação geral no Estado (v.g., Ohio) em que senador e governador (que são eleitos por todo o Estado) costumam ter votação geral mais alta para o Partido Democrata, enquanto os representantes das Câmaras (tanto a estadual, quanto a federal) registrarão a vitória nos cômputos dos distritos respecti- vos para o Partido Republicano...



( Fontes: Washington Post, The New York Review )