sábado, 6 de fevereiro de 2016

Propaganda encabulada


                              
        Vocês já viram a última propaganda política de um determinado partido que parece ter sido concebida sem pecado? Com efeito, e sem que me acusem de ilações inconvenientes ou mesmo pecaminosas, os novos magos da publicidade do grêmio político que, de repente e sabe-se lá por que, começou a apresentar inquietantes sintomas de rejeição popular, vejam só meus ilustres passageiros do velho bonde Brasil, o belo tipo faceiro que o senhores têm a seu lado!?

        A dizer verdade, não é alguém que o Rum Creosotado tenha salvo... É um ente estranho, que parece não ter passado nem presente. Lembra aquele tipo a que o poeta se refere - boca presa, que seu pai aí vem chegando!

        De repente, o estranho anúncio fala de tudo para de nada falar. É toda uma construção sem características, muitas palavras, mas ao cabo, se se busca aferrar com os punhos ou a cachola o que quer dizer, parece estória água com açúcar, que fala de tudo para nada significar.

       E os preciosos minutos do comercial-político, em que outros partidos - e há tantos a literalmente perder de conta nessa república de Pindorama, que inventou a multiplicação das ideologias, que ora são tantas que perderam o sentido para quem pensa sério, e ganharam triste sentido para aproveitadores venais e sanhudos da liberdade do pensamento político, que tanto a subdividiram de modo a torná-la sem sentido para a gente séria - hão de ver inquietos esse espaço outorgado pelo Povo e que a vergonha (ou o temor) obriga a ocupar sem nada dizer.

       Para que se tenha uma pista do discurso desenxabido, que asperge como se fora água benta conceitos sem nome, como se o espaço político fosse para ocultar-se, pundonoroso, do olhar público a que parece temer...

       Só no final a estrelinha vermelha que surge e logo se apaga, como se a demasiada exposição de uns poucos segundos já fosse por demais...

       Tanta vergonha, tanto rubor - que até pode ser usado para colorir a estrelinha - o que se esconde por trás dela, por trás dessa mesura ?...

       Como dizia a canção boa coisa não é...          

 

(Fontes: propaganda eleitoral obrigatória, Carlos Drumond de Andrade )

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O Cerco continua (3)


                                        
          Segundo informa O Globo, documentos apreendidos pela Polícia Federal no escritório do pecuarista José Carlos Bumlai (e o único a ter passe livre para entrar no gabinete presidencial, além da esposa, d. Marisa), em Campo Grande ( MS ) corroboram a tese de que ele pagou parte da reforma no sítio de Atibaia, utilizado amiúde por Lula da Silva. 

          Uma planilha com lista de fornecedores do pecuarista inclui o nome da empresa Fernandes dos Anjos & Porto Montagens de Estruturas Metálicas, vinculado a pagamentos no montante de R$ 550 mil. Em depoimento ao MP de São Paulo, um representante da Fernandes dos Anjos afirma ter recebido R$ 40 mil de Bumlai por serviços na reforma do sítio.

          A força-tarefa da Operação Lava-Jato e o MP paulista tentam identificar os responsáveis pela reforma do sítio, que pertenceria  a dois sócios de um dos filhos de Lula: Fernando Bittar e Jonas Suassuna. O local é usado com frequência pelo ex-presidente (teria visitado o aludido sítio 111 vezes).

          Segundo refere O Globo, o documento que cita a Fernandes dos Anjos foi apreendido em novembro de 2015, na 21ª fase  da Lava-Jato. Faz menção a dois pagamentos à empresa: sem citar datas, o primeiro de R$ 455,3 mil e o segundo, de  R$ 94,6 mil, sem citar datas.

          Assinala-se que tal documento está anexado a um dos processos em que Bumlai é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro por causa  de empréstimo forjado de R$ 12 milhões, contraído em seu nome.  O objetivo era permitir ao PT  o repasse de propina de um fornecedor da Petrobrás.

           De acordo com reportagem do jornal "O Estado de S. Paulo", as escrituras de compra e venda do sítio em Atibaia mostram que o negócio foi formalizado em 29 de outubro de 2010, no escritório do advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula.  O imóvel custou R$ 1,5 milhão, dos quais cem mil foram pagos em espécie.

          Pelas escrituras, o negócio foi formalizado no 19° andar de um edifício de escritórios na rua Padre João Manuel, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Este é o endereço  do escritório de Teixeira, que é amigo de Lula desde os anos oitenta e padrinho de Luis Claudio, o filho caçula do ex-presidente.

         Ontem, quatro de fevereiro corrente, o ex-Presidente Léo Pinheiro compareceu a Curitiba, onde corre a maior parte dos processos da Lava-Jato, para prestar depoimento  na investigação sobre a participação da empreiteira OAS na compra de móveis planejados da Kitchens, loja de alta qualidade especializada em ítens de cozinha, entregues no sítio de Atibaia e também no triplex que estava reservado para a família Lula no edifício Solaris, no Guarujá  (SP).

        Anteontem, o "Jornal Nacional" mostrou que a compra de ítens de cozinha para o sítio e para o triplex, em 2014, foram realizados na mesma loja em São Paulo. Segundo investigadores, foi possível identificar  que o pagamento foi feito pela empreiteira porque, nas duas compras, o negócio foi fechado por Gordilho.

        Responsáveis por retirar móveis do tríplex do Guarujá, após o caso vir à tona, representantes da empresa de transportes Granero devem ser chamados a prestar esclarecimentos à força-tarefa da Lava-Jato nos próximos dias.  O promotor Cássio Conserino intimou Lula da Silva e sua esposa, dona Marisa, a prestar depoimento na quarta-feira, dia dezessete de fevereiro.

 

( Fontes:  O Globo, O Estado de S. Paulo )

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Chô, mosquito e Dilma!

                     
 

        Na crença talvez que o Povão já esquecera, dona Dilma terá pensado que já seria tempo de voltar às cadeias de radio e tevê, a propósito de supostas emergências.

         Assim, através de meio de que tanto abusara, a presidenta veio pedir união contra vírus e mosquito.

          Querer instrumentalizar a emergência, e voltar às salas de visita do Povo brasileiro, provou-se, no entanto, mais uma precipitação dessa Senhora.

          Não deu outra. Não será através de pronunciamentos presidenciais, como o de ontem, saudado com sonoro panelaço em Copacabana, Flamengo e Laranjeiras, e em Icaraí, em Niterói.

          Igualmente em São Paulo, moradores de diferentes bairros foram às janelas bater panelas. Nesse caso, o protesto aumentou graças a buzinaço, quando os motoristas paravam os carros no meio da rua para protestar.

          Dilma anuncia por rádio e tevê a necessidade de combate ao Aedes Aegypti. Intuindo que a Presidenta desejaria instrumentalizar ação do Estado - por intermédio de militares e agentes sanitários - nesse ataque contra o zika virus e a dengue, boa parcela da população protestou.

          O que se afigura necessário é empenho da população e do Estado, e a conscientização de que a privacidade não poderá ser invocada de forma a inviabilizar ou dificultar  a ação pública contra esse mosquito pernicioso, vetor de tantas epidemias. Por isso, o empenho das autoridades deve estender-se a todas as classes da população, eis que a campanha no ataque aos refúgios do mosquito (pneus velhos amontoados, terrenos baldios, depósito de carros, piscinas abandonadas, displicência e descuido nos quintais, poças de água parada, desleixo em geral) não deve ter qualquer complacência.

           Sob a ameaça da epidemia e dos malefícios do zika não há direito à privacidade - que costuma ser apanágio dos ricos.

           Não pode haver condescendência com os desleixos da miséria e da ignorância, assim como da afrontosa empafia de ricos proprietários que se julgam acima dos deveres da cidadania.

           Já pensaram porque as áreas de favela - no morro ou na planície - são as mais ricas em desgraça e nos cultivos especiais da miséria - a saber, os criadouros de enfermidades sérias como a do zika (cuja crueldade contra os fetos e os recém-nascidos os condena a uma existência em branco, na prática com os anencéfalos)? Porque o descuido, a displicência, o abandono hoje tem prazo curto, abrindo as cancelas de enfermidades antes desconhecidas - como a do zika - e demasiado sabidas, como a dengue?

           Não carecemos de caras presidenciais repontando na tevê - ou nas suas vozes pela  radiofonia - para nos mostrar a caminho da luta sem quartel contra as enfermidades da miséria e da indigência ! Precisamos em verdade - e de volta logo! - das caras conhecidas do soldado e do mata-mosquito, para na sua linguagem simples e direta desenharem em dois ou três riscos o que se deve fazer contra o atroz mosquito, que deve ser extinto da face da terra, porque ele só traz doença e infelicidade!

            Agora, gente brasileira, não adianta lá em Genebra os aventais brancos da Organização Mundial de Saúde proclamarem emergências, se as pessoas não se capacitam de o que fazer do front das batalhas contra zika e dengue! E esse front tende a ser sujo, mal-cuidado, cheio de espaços que são mais amigos da doença do que da gente que ali mora.

            E o único jeito de vencer é o de negar-lhes qualquer espaço no chão, nas vielas, nos quintais de bairros e favelas, em que se deixa tudo crescer !

             Não há pistolões nem favores de parte do nefasto mosquito da zika e da dengue. A única maneira de provar que se é capaz de vencê-lo é a de negar-lhe qualquer espaço, por onde se esteja!   

 

( Fonte:  O  Globo )

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Traços de Dilma


                                               

         Dilma Rousseff, se não chegou à presidência pela scala honorum [1]- e dadas as implicações, faço tal menção sem intúito pejorativo -, mas como mera paraquedista, indicada que foi pelo seu chefe, o Presidente Lula da Silva, não se poderia esperar que demonstrasse muito conhecimento no que tange ao cargo, e a suas possibilidades.

          Se a decisão de Lula respondia mais às próprias conveniências,  do que àquelas do país - e seria ridículo considerá-la um nome que estivesse em consonância com os grandes desígnios nacionais - semelha forçoso reconhecer que o então Presidente - como o próprio Ricardo Noblat acenaria - ao lançar-lhe a candidatura pensara resguardar o próprio interesse em mandato subsequente.

          O que ocorreu com essa jogada do Presidente Lula da Silva é do conhecimento geral. Agindo com um coronelão, ele conseguiu - sem excessiva dificuldade, tal a mediocridade do papel da oposição - emplacar a própria candidata. Com o que não contava, era que Dilma virasse o jogo, e lhe barrasse qualquer perspectiva de candidatura. O mais interessante nesse quadro é que o primeiro mandato de Dilma, além de medíocre, a tornara exposta a uma contestação da oposição.

           Sem embargo, ela pôde valer-se do aparelhamento do Estado pelo PT para impedir que fosse conhecida dos eleitores a enormidade dos próprios erros políticos e econômicos, a começar pelo enorme déficit da União, provocado em grande parte por decisões mal-avisadas em termos de política econômica.

           Com a lentidão própria dos organismos judiciais, está pendente no Tribunal Superior Eleitoral uma ação da oposição que cassaria  o mandato de Dilma por irregularidades na própria eleição. A candidata Marina Silva considera as perspectivas desta ação - uma vez julgada pelo TSE - como mais fortes do que o próprio impeachment impetrado pelos juristas Hélio Bicudo e Miguel Reale, e que se fundamenta nas pedaladas de Dilma, condenadas por unanimidade pelo T.C.U.

           Por outro lado, a operação Lava-Jato - que tanto tem contribuído para desfazer a incrível roubalheira que atacou a Petrobrás - continua avançando, com a preciosa ajuda da delação premiada, que tem ensejado abrir cofres e gavetas de gatunos contumazes, e dessa forma exposto um ataque, primeiro aos cofres da Petrobrás, através do notório Petrolão, e depois um mar de lama (que apequena o de Gregório Fortunato, chefe da guarda presidencial de Vargas, e que levou o honesto e íntegro Presidente Getúlio Dornelles Vargas ao suicídio, único instrumento por ele encontrado para contra-arrestar os ataques de Carlos Lacerda e o golpe militar orquestrado por esse tribuno  e a UDN).

             A desastrosa herança da Rousseff, que fez despencar a economia brasileira (hoje às voltas com forte recessão, enorme desemprego, com o real enfraquecido, e a fortiori com uma inflação que se acerca dos onze por cento ao mês) despedaçou o Plano Real e nos fez cair outra vez nos domínios do dragão, com tudo isso que de pernicioso tem não só para a economia, mas para o projeto Brasil, de novo manchado com mau nome internacional.

             Cabe, no entanto, que no caso da Presidenta, que se reveja, de certa forma, a metodologia a ser empregada. Sob um determinado ângulo, pode parecer trabalho perdido alinhar as muitas culpas e falhas da Presidente Dilma Rousseff. Quiçá a falha principal esteja na decisão, estabelecida pelo TSE, do Povo soberano de confirmá-la em segundo mandato. Nesse plano teórico, pode-se rebater que o processo teria sido invalidado porque a informação necessária ao eleitor lhe foi indevidamente subtraída, a par da inquietante disponibilidade de indicações sobre a mandatária que já seria suficientes, em tese, para não conferir-lhe um segundo voto de confiança.

             Dentro desse contexto ampliado, muitos elementos estão disponíveis para ensejar visão mais aproximada da realidade. 

             Estaria ela conforme a prescrição de meu saudoso amigo Pedro Neves da Rocha de que brasileiro(a) para ser eleito(a) precisa ter formação universitária ? De uma certa forma, sim, mas há muitos elementos na sua formação que podem no caso viabilizar-nos visão mais aproximada da realidade.

             Com efeito, Dilma Rousseff se formou em economia política, mas, ao contrário de o que a princípio declarou não completou nenhum curso em nível de pós-graduação.

              Em suas atividades, terá mostrado capacidades administrativas, mas não se assinalou no campo intelectual.          Que não tenha maior propensão aos estudos teóricos, e/ou maior aprofundamento de economia e política, algumas de suas opiniões podem dissipar o breu que se esconde por trás dos panos de suas eventuais leituras.

              Assim, invectivou contra os delatores da Lava-Jato como se fossem elementos perniciosos e maléficos - chegando ao cúmulo de compará-los a Joaquim Silvério dos Reis, o traidor da Inconfidência Mineira.

                 Abstraindo a possível má-fé, é  tese grosseira tentar confundir Silvério dos Reis com  os delatores da Lava-Jato. Além de ser argumento intelectualmente risível - não há comparação entre traição à  Inconfidência, com a bisonha tentativa de assemelhar as fontes das ilegalidades e dos diversos crimes denunciados pelos delatores ao  Ministério Público, com o que uma vez verificada a veracidade pela Justiça, tem a possibilidade de ser diminuída a pena a que foram condenados pelo Juiz.

                 Por outro lado, Dilma tem evidenciado visão superficial, comum às pessoas menos instruídas, no que tange ao Medievo. Com a facilidade de cultura popular ela se reporta a medieval como se fora algo atrasado, quando a historiografia moderna tem redimensionado esse período da Humanidade, mostrando os avanços nessa fase da civilização, de que são exemplo grandes nomes como Dante Alighieri e Boccaccio.    

                 Pelo descuido na própria terminologia, Dilma, de forma inadvertente, levanta um pouco do lençol que encobre o próprio cabedal de conhecimento. E pelo se entrevê, a Presidente tem uma lacunosa cultura, onde se refletem amiúde preconceitos próprios de pessoas cujo conhecimento  histórico e cultural se afigura limitado.

                  Não surpreenderá, portanto, que embora munida de canudo de ensino superior, a sua base de conhecimento muita vez não se compare àquela do antecessor e mentor, o ex-Presidente Luis Inácio Lula da Silva, embora este se tenha formado na universidade das ruas.

 

( Fontes: O Globo, Folha de S. Paulo, Grande Enciclopédia Delta-Larousse, Getúlio, Lira Neto, Máximo Gorki)



[1] A Scala Honorum (A escada das Honras) era aquela feita pelos políticos na Roma antiga, até o cargo de Cônsul, o posto máximo na hierarquia da República.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Os estranhos 'caucus' de Iowa

  

        Se pedissem para resumir os resultados do primeiro teste eleitoral para a eleição presidencial americana de novembro próximo, caberia dizer: uma surpresa (derrota de Trump) e uma confirmação (resultado apertado entre Hillary e Bernie Sanders).

         Iowa é um pequeno estado americano cujo principal título no pleito presidencial será o de apontar os primeiros resultados.

         Terá sido muito importante para Barack Obama em 2008 por sinalizar que o antes azarão deveria ser considerado com respeito. Com efeito, a vitória sobre Hillary Clinton do jovem Senador por Illinois daria o empurrão necessário para que Obama ganhasse ímpeto - o que os americanos chamam 'momentum' (força inercial) - e uma vez transformado em mensageiro da mudança (change), essencialmente a campanha pelas primárias já estaria quase decidida e, de certo modo, a própria eleição já era, com a vitória sobre o candidato republicano John McCain, uma inevitável conclusão.

          Oito anos depois, mais envelhecida, mas também mais calejada, Hillary Clinton se depara com outra 'surpresa', o veterano senador também democrata, mas com viés socialista, Bernie Sanders,  no mesmo estado interiorano de Iowa, cujos 'caucus' (convenções partidárias) sóem dar o início da campanha pelas primárias, i.e., a luta pela nomination, que será decidida pela Convenção partidária, ao cabo de longo percurso através de muitos estados.

           O noticiário vindo de Iowa transmite surpresa republicana - a derrota de Trump por Ted Cruz, - e um 'empate' entre Hillary e Sanders.

           A vantagem por Cruz se deveria ao aporte dos cristãos evangélicos e, se a diferença para Donald Trump não foi grande, não se negará a sua importância simbólica, ao cortar a série de primazias do 'candidato do verão' (como os seus adversários descreveram inicialmente o milionário, que consideravam fenômeno passageiro).

          Embora New Hampshire (a próxima primária importante), pelo aporte relativamente diminuto, tampouco constitua indicativo seguro para o restante do processo eleitoral, não deixará de ter interesse para a evolução das campanhas dos dois partidos, embora pese relativamente menos para o Partido Democrata (dada a circunstância do apoio da Nova Inglaterra a Sanders), será importante, no entanto, que a vantagem deste último não seja demasiado grande para prejudicar a pré-candidatura de Hillary.

             Quanto aos efeitos da vitória do Senador Cruz sobre Trump, só o futuro dirá se terão maior peso na continuação da disputa. Em outras palavras, resta determinar se Iowa terá significado para retirar do fenômeno Donald Trump a sua mística de vitorioso até o presente.

             No que concerne aos efeitos dos 'caucus' sobre Hillary, é importante ter presente que, apesar de não revelados, a circunstância de que o noticiário se refira a uma pequena diferença entre Hillary e Bernie, esse enfoque jornalísticamente só faz sentido se Hillary teve pequena vantagem. No caso contrário, Bernie Sanders, como o 'underdog' (o candidato inferiorizado até então em relação à sua adversária) teve um bom resultado, descontando bastante a diferença em relação à dianteira (Hillary), mas não de modo a ultrapassá-la.

 

( Fonte:  The New York Times )

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Os 'caucus' de Iowa


                                         

        Diversos das primárias do restante do país, os 'caucus' de Iowa marcam um certo bizantinismo no processo. Não é só o seu feitio que os distinguem da aferição da vontade dos eleitores nas primárias do restante dos Estados Unidos.

       A marginalidade nesse estado agrícola e central será sempre um desafio para os candidatos-líderes. Na eleição de 2008, a então novel candidatura de Barack Obama surpreendeu a favorita Hillary Clinton. Graças à Iowa, Obama passou a liderar a disputa, e a campanha para Hillary se transformou em longa subida, no intento de recuperar a precedência. Apesar da renhida disputa entre os dois pré-candidatos, a vantagem, durante o longo enfrentamento nas primárias, estaria quase sempre com o novato Obama.

       Dessa feita, a ameaça está a cargo do Senador Bernie Sanders, que teria boas possibilidades de uma vez mais barrar o caminho de Hillary. É um tanto incôngruo que um socialista cresça nas pesquisas na Terra de Tio Sam. E a votação para esse até há pouco obscuro senador por New Hampshire costuma surpreender, nas pesquisas. Hillary tem vantagem no quadro geral, embora isto não se reflita nem em Iowa, nem sobretudo nas primárias de New Hampshire.

       Por outro lado, dentre os republicanos, o líder nas pesquisas, Donald J. Trump continua favorito, e o rival mais próximo, é o Senador Ted Cruz.

      Para Trump, as exigências do processo em Iowa, que criaria dificuldades para o núcleo de seus fans - a classe trabalhadora menos inclinada a votar, ainda por cima em processo mais complicado - a vitória representaria um  empurrão ainda maior no caminho da nomination.

      Para Hillary, as perspectivas se apresentam mais complicadas. Se a sua vitória confirmaria a liderança nacional e agregaria força às perspectivas de colher a nomination,  já a afirmação do Senador Sanders, a quem o voto dos mais jovens privilegia, sinalizaria um outro quadro, com complicações para aquela que tem liderado até agora as pesquisas.

       No lado do GOP, há uma incógnita que é o Senador Ted Cruz, que também corteja o voto zangado das franjas da direita.

 

( Fonte: The New York Times )

domingo, 31 de janeiro de 2016

A Qualidade é Importante ?


                                       

           Há tempos escuros e tempos brilhantes? E, se existem, qual a sua influência sobre a sociedade?

           Nem sempre é fácil classificar a época em que se vive.

           Há exemplos de pessoas que, em momentos sociais depois reconhecidos como altamente satisfatórios, se lamentam da sorte, interpretando tropeços individuais ou conjugais, como fatores determinantes.

           O conjunto social e a sua situação serão decerto relevantes para a avaliação de certa realidade, que, por conta de vivermos em espaço determinado, adquire uma presença que tende a contribuir para o juízo individual, familiar, local e nacional.

            Já mencionei neste blog que os chineses - um dos povos de mais antiga organização sócio-política - consideram como maldição que se dirija a outrem o voto de que viva em tempos interessantes. Para o chinês, esse interessante assinala as convulsões sociais e os momentos difíceis das épocas de crise na organização política do Estado, seja por ameaça externa, seja por influxos internos.

            Por que o momento interessante (atendidas as condições acima) pode ser socialmente desestabilizante? Não só em determinadas tarefas, mas também se atravessarmos hora que a todos afeta em geral, parecerá à grande maioria preferível que ela não provoque emoções (ou comoções) demasiado fortes (por mexerem com a qualidade e/ou a expectativa de vida). O ser humano não enjeita as emoções, ainda que deseje ter algum controle sobre elas. Assim, viver em tempos interessantes pode implicar horas difíceis e imprevisíveis ameaças. Passada a tempestade, muita vez se avalia como positiva a experiência vivida, mas isto não quer necessariamente dizer que a travessia - plena dos riscos do ignoto - venha a ser experiência que valha a pena de ser vivida.

            No Brasil atual, não vivemos decerto na tranquilidade da sociedade bem organizada. Antes de ocuparmo-nos desta importante característica negativa, parece-me oportuno (a) compará-la com êxitos sociais no passado, e tentar prever-lhe a postura no próximo-futuro.

            A excelência brasileira, em épocas recentes, não parecia apta a sofrer contestações no campo do futebol, em que o Povo brasileiro considerava de altíssimo nível, como o demonstraram os sucessivos (5) campeonatos mundiais, todos conquistados fora do país. A  experiência de mais um título perdido no próprio país - 1950 e 2014 - não se limitou, porém, a tal, pois a derrota para a Alemanha por 7x1 foi um trauma nacional, além de constituir  sinalizador de   desestabilização mais ampla.

             O vexame de Belo Horizonte mostrou que temos de evoluir em termos de organização tática e de postura atlética. Algo está muito errado com o nosso desporto nacional se nas semifinais a Alemanha vence com dificuldade a Argélia por 2x1, e nos esmaga em menos de vinte minutos, com quatro gols, e para o que o técnico nacional não atina com defesa alguma.

              Havia a ilusão de que a nossa qualidade nesse campo era tal que era desnecessária a refundação de nossas estruturas futebolísticas. A saga brasileira começada na Suécia em 1958, tinha base sólida pela simples razão de que a CBF estava em boas, íntegras mãos. A situação atual, após a prisão na Suiça do presidente da CBF e a fuga desabalada de seu sucessor para o Brasil mais do que indicam a necessidade de  urgente reformulação da chefia da CBF. Não estranha que nada tenha sido feito, e agora se assiste a patética tentativa de Del Nero (que não viaja para o exterior por óbvios motivos) de, ou continuar à testa da CBF, ou lá instalar alguém de sua confiança.

               Se queremos vencer a corrupção, não temos alternativa. Devemos desalojá-la das praças, das tocas, dos estádios e dos palácios. E, sem embargo, essa inação do presente se afigura tristemente típica do momento hodierno. De certo modo, a política imita o esporte, eis que a atual Presidente - Dilma Rousseff -, uma das mais fracas e decepcionantes mandatárias que a História brasileira conhece, não tem condições de liderar, estando em uma luta de vida e morte pela manutenção do próprio segundo mandato, que é pendente de um processo de impeachment impetrado pelo político e jurisconsulto Hélio Bicudo.

                 Diga-se, de passagem, que Hélio Bicudo saíu do PT no Escândalo do Mensalão, que foi a primeira grande crise política do Partido dos Trabalhadores, enquanto no Poder. Personalidade de notória integridade, ele não hesitou em deixar na estrada da vida um partido que se transformara negativamente, corrompido que foi pelo poder. Do grêmio aguerrido, honesto, jacobino mesmo nos próprios compromissos, o PT continua hoje partido aguerrido, cuja única vocação é o poder. As demais características, que o sinalizavam, ele as deixou como margaridas pelo caminho, enquanto se agarra aos atrativos mil do poder.

                 Por que  nosso futebol falhou, e deixou de ser  nossa metáfora predileta de afirmação, posto que jogando por um caneco mundial em nossa terra, e junto da boa gente brasileira? Porque essa habitual qualidade natural do brasileiro, que o tornara adversário temível das demais equipes estrangeiras não recebeu a atenção técnica necessária, que estivesse em condições de manter a seleção apta a vencer os desafios desse esporte.

                 Atravessamos um período cinzento em nossa progressão histórica. Consultando  interesses pessoais,  o então Presidente do PT preferiu indicar alguém que mais respondia aos seus interesses pessoais, do que ao interesse nacional. Depois de um desastroso primeiro mandato, Dilma conseguiria a reeleição pela ocultação da realidade econômica do País.  O Povo votou pela sua continação - em disputa apertada - ignorando o tamanho do déficit das contas públicas, o que constituiu um verdadeiro estelionato político.

                 Configurada a situação e o esbulho que o Povo sentiu haver sofrido, a rejeição de Dilma e do Partido dos Trabalhadores em geral assumiu enorme escala. Há um processo de impeachment que o PT vem conseguindo travar. Por outro lado, a justiça brasileira, através da operação Lava-Jato vem esmiuçando as contas e as irregularidades dos líderes petistas, notadamente através do Petrolão e de uma série de escândalos que tem postos executivos de empreiteiras, antes poderosos, na cadeia. Além disso, o processo está longe de concluir-se e se aproxima sempre mais dos notáveis do PT, a começar por Lula da Silva.

                  A surda revolta popular contra os desmandos e as irregularidades do Governo do PT continua a crescer, alimentada pela série de escândalos contra o governo e o universo petista, e seus cardeais. Uma boa parte deles, como José Dirceu, já estão na cadeia, e esse destino semelha encomendados para outros, em poleiros ainda mais altos.

                   É bem verdade que o brasileiro olha em vão à sua volta, na busca de grandes valores, e se depara com um deserto que pode relembrar a alguns a solidão dos espaços saáricos, em que só os ecos respondem aos gritos de quem se anime a palmilhar os pétreos ermos.

                  A esperança será a última que morre, e quem sabe os nossos tempos interessantes nos hão de elevar, na boa gente brasileira, aqueles que mais nos encham as medidas.

                   Mas como disse o poeta, a vida é luta renhida, que aos fracos abate, mas aos fortes...

                    Nessa escuridão, há muitos fanais diante do sofrido Povo brasileiro.

                    Depois de atravessar o breu da caverna, o filósofo nos promete luzes de esperança e saber.

                     Se no futebol, esse mero deporto que tanto nos é caro, o Povo aguarda voltar a ver craques de futebol, que nos encantem tanto pela maestria, quanto pelo bom exemplo na própria fazenda,  em um espaço mais amplo será demasiado querer um Presidente com a alegria e o querer fazer de um JK, com a firmeza de um Getúlio Vargas, e com a autoridade - sem as excentricidades - de um Jânio Quadros ?

 

( Fonte: Arnold Toynbee, A Study of History )