quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

PIF-PAF (3)

                                     
 

Outro Apagão

 

     Teve certos requintes irônicos o apagão de ontem, que atingiu onze estados, deixando seis milhões sem luz.
      Não é que o Ministro Lobão afirmara na véspera que não havia risco de corte de luz? E decerto a cidadania não terá esquecido a soberba de dona Dilma, na época candidata à  Presidente, quando verberou Fernando Henrique pelos apagões ? Coisa que certamente nunca aconteceria em governo do P.T.

      Nada como um dia depois do outro...

 

Um Alerta de A.Schwartsman

 

      Em sua coluna de hoje,  o ex-diretor do Banco Central se refere à recuperação da economia americana e à consequente perspectiva de alteração da política monetária americana. Dadas as decorrentes preocupações de mercados financeiros, ele assinala que nem todos os emergentes estão bem.
     Dessarte, há diferenças entre eles. Quem manteve políticas sólidas, consegue atravessar a turbulência de forma mais tranquila. Não é o caso, porém, dos que desperdiçaram a bonança com políticas equivocadas, como é manifesto nos casos de Argentina e Venezuela.

    Já o Brasil...  A falta de cuidado com a inflação nos últimos anos – que foi a característica do desenvolvimentismo de Dilma – volta agora para nos cobrar o preço. E resume o que virá: partindo de inflação alta e expectativas idem, o Banco Central  terá que trabalhar mais duro para evitar os efeitos inflacionários da desvalorização.

     Será que a Presidenta lhe dará a autonomia que a princípio não deu? E agora com agravante de uma poção mais amarga, ainda por cima em ano eleitoral?

     Ou será que não terá escolha ?

 

O Punho erguido do Dep. André Vargas (PT/PR)

 
       O punho erguido – por mais de uma vez – do Vice-Presidente da Câmara traz a molecagem para a mesa de abertura do ano legislativo.

       Decerto, um desrespeito ao Presidente do Supremo, e à instituição que ele preside. Por isso,  tem cabimento a representação do líder do PSDB, Antonio Imbassahy, por falta de decoro contra o Deputado André Vargas: “Foi comportamento condenável, de deboche e desrespeito ao presidente do Supremo. Uma apologia ao crime, não aceitamos isso. É quebra de decoro. Nossa manifestação está sintonizada com o sentimento da população.”

       O PT, por sua vez, interpreta como “factoide o que o PSDB quer fazer”.

       Com a base de que dispõe o governo, e a larga maioria na Câmara, duas conclusões se impõem: as relações com o Supremo hão de sofrer. Mais adiante, no caminho, outras reações poderão sobrevir. Por ora, é difícil prever quais e em que sentido.

        Talvez que tenha colhido melhor o quadro foi o cartunista Chico, com ‘usando os punhos’. A metafórica resposta de Joaquim Barbosa está na decretação da prisão na Papuda do deputado João Paulo Cunha (PT-SP) feita, com licença artística, literalmente através do deputado André Vargas... 

 

(Fontes : Folha de S. Paulo,  O  Globo)

Trincheiras da Liberdade B 2

                     
 
As Olimpíadas de Inverno em Sochi

 
        Às vésperas da inauguração das Olimpíadas de Inverno em Sochi, não se deve menosprezar o repto que enfrenta gospodin Vladimir V. Putin ao embarcar na arriscada aposta de transformar Sochi, nos contrafortes ocidentais do Cáucaso, antes refúgio invernal preferido do ditador Joseph Stalin, em local olímpico.

        Enormes investimentos da Rússia se tornaram indispensáveis pela própria inadequação do sítio para o evento. Embora Putin ‘revele’ gastos de sete bilhões de euros, e só metade desta soma alegadamente seriam em dispêndios públicos, as contas do opositor Alexis Navalny apontam outros totais muito mais salgados, segundo Helena Celestino.  Na verdade, a conta de Sochi monta a quarenta e oito bilhões de euros, e portanto mais cara do que as olimpíadas de Beijing, e quatro vezes o gasto em Londres!
      Como se vê, pela inadequação de Sochi para um tal evento – antes sítio isolado e de acesso difícil - foi necessário construir toda uma rede de infraestrutura, com túneis, vias férreas e o escambau, assim como, pela cercania de área conflagrada (Tchetchênia e Daguestão, que os rebeldes islamistas querem transformar em califado independente), e ainda sem falar de toneladas de neve artificial, a realização exitosa é mais um desafio para o super-herói Putin, que não mede nem despesas, nem riscos para levar adiante o seu objetivo.

    Nem Barack Obama, nem o Presidente da Alemanha comparecerão à inauguração. Por outro lado, os americanos são instados a não revelarem pelos abrigos a própria nacionalidade, dada a ameaça terrorista. Para complicar o quadro, existe a homofobia do regime e a sua tentativa de impedir que ativistas de toda ordem participem do certâmen, até mesmo como simples espectadores.   
    Não há negar que o troncudo Vladimir Putin – a exemplo dos homens fortes em que se modela, como, v.g., Benito Mussolini[1], aparecendo sem camisa na batalha do trigo – tem um senhor desafio pela frente!

 
O abandono dos jogadores  pelos cartolas

 
      Como um fogo persistente, que a princípio se dissimula em brasas, desde muito há válido descontentamento entre os jogadores de futebol no Brasil pela maneira em que se realiza a gestão dos alegres cartolas das múltiplas atividades desportivas.

      Igualmente, dentro do padrão corrente, há muitas possibilidades de que greve geral se inicie por São Paulo.  Em tal sentido, o Bom Senso F.C. faz mutirão para contactar representantes dos vinte clubes da primeira divisão do Paulista. O plano é disseminar a ideia de paralisação do torneio no fim de semana, de modo a que não se realize nenhuma das dez partidas da 7ª. Rodada.

    Depois dos minutos de bate-bola entre as equipes do Campeonato Nacional do ano passado, a idéia é engrossar com a greve, eis que as demonstrações light da temporada do ano passado não deixaram marca. Somente com a falta das partidas, o movimento acordaria as torcidas e conscientizaria nas caixas respectivas que jogadores não são máquinas, e que deve haver planejamento sério e humano dos torneios.
      A coisa começa por São Paulo, mas, se  confirmado o propósito, não se sabe aonde vai terminar...

 

(Fontes: Folha de S. Paulo, New York Times)



[1] Então o famoso Duce extraía suspiros das moçoilas italianas. Mais tarde...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Dilma e a Presidência

                                       

        A frase de Buffon nos vem à memória com pequena adaptação determinada pelo avanço da posição da mulher. Assim, o estilo é a própria pessoa.

        Nos anais da presidência, a personalidade de Dilma Rousseff só encontraria similar em um general-presidente, Ernesto Geisel. Nos tempos do AI-5, de tudo ele pensava entender e com o poder discricionário que tinha, em tudo metia o bedelho, chegando ao ponto de fazer emendas em regulamentos técnicos.
       Para os que enfrentaram a prova das reuniões de trabalho no Palácio do Planalto – pois o irmão de Orlando Geisel – que lhe tinha garantido a escolha – queria de tudo saber, e para tanto não desdenhava descer até o nível de chefe de divisão, na vasta hierarquia burocrata.

       Nessa mesa presidencial costumava pairar um prudente e transido silêncio. Dar opinião ou ‘palpite’ – de acordo com o humor do chefe – não parecia aconselhável. Se interrogado – o general-presidente não consultava – o melhor era ser curto e breve, desde que dominasse o assunto. Nessa hipótese, guardaria ainda algum trunfo, se outra estocada viesse. Se não soubesse, ou tivesse apenas noção, melhor limitar-se ao mínimo, ou então encomendar a alma funcional ao Deus ex-machina e orar por um momento de tolerância.
      Ora, esse tipo de atmosfera não está no interesse de ninguém. Se o respeito ao chefe é a regra primeira, que prevalece sempre, não se deve confundi-lo com o terror dos infelizes. Em primeiro lugar, pela simples razão de que ele não aproveita a ninguém, a começar pelo chefe iracundo. Em segundo, porque a tensão enrijece cérebro e músculos. No esporte, se for mantida de forma indiscriminada, o atleta estará prejudicado, pois ela só carece de aparecer em momentos cruciais. O mesmo, mutatis mutandis, está nos grupos de trabalho, ou reuniões assemelhadas, como serão as mesas reunidas em torno da presidente.

      Em outro blog  mais antigo, ocupando-me igualmente da personalidade de Dilma Rousseff enquanto presidente, procurei mostrar que os grandes chefes buscam criar atmosfera conducente ao diálogo. Os convidados à mesa aí estão por causa das respectivas funções e, por conseguinte, em princípio, pela sua capacidade ou maior conhecimento técnico na matéria específica. A esse propósito, comparei os presidentes autoritários e centralizadores (V. Geisel) às grandes árvores na floresta, em torno das quais só se vê vegetação rasteira. Daí o precípuo interesse do líder em tornar mais aberta a atmosfera, para que o conhecimento ou a visão informada possa circular livremente.
     Dilma, pelo autoritarismo e a maneira com que trata os subordinados – de qualquer escalão – não semelha cuidar desse aspecto, a que deveria, por interesse próprio, atentar mais. JK é a sua antítese. Em geral sorridente, atencioso, simpático mesmo, distinguindo grandes e pequenos, colhia o melhor de cada um. A par de seus inegáveis dons e capacidade intrínseca, não estranha que esteja entre os grandes presidentes da República.

     A imprensa é rica em episódios do autoritarismo de Dilma e da sua tendência ao secretivo. Como foi referido, democracia é o regime aberto, onde a agenda de Presidente – e mormente em viagem – não se supõe seja carimbada de confidencial ou até secreta.
       Querendo ocultar suas escalas turísticas ou ad hoc nas respectivas viagens, Dilma Rousseff corre o risco de tentar guardar ‘segredos de Polichinelo’. Primo, porque em país democrático, a cidadania deve, em princípio, saber onde está a Chefe da Nação. Secondo e a fortiori, se se trata de escala turística – motivada em geral pela falta de autonomia de voo do Aero-Dilma. Por mais solícitos que sejam os serviços competentes, o assunto (a escala turística ou não) irá transpirar mais cedo ou mais tarde.

       Então, mesmo contra a vontade, porque não sorrir para com os deveres de ofício? E é inadmissível que, por causa de capela em Palermo, ou de restaurante em Portugal, se tente dar ares de segredo de estado ao que não passa de um capricho.

                                                                                            (a continuar)

(Fonte: O Globo)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Revista da Semana (III)

                  

A Situação na Ucrânia

          
            Enquanto os manifestantes permanecem na Praça da Independência – o seu número é ora estimado em cinquenta mil - o Presidente Viktor Yanukovych voltou ao exercício de suas funções nesta segunda-feira ( baixara ao hospital por sofrer de aguda afecção respiratória na quinta-feira, trinta de janeiro).

             Desse modo, o governo não mais está acéfalo, mas a resolução dos populares ucranianos congregados na Praça Maidan não mudou.

             O fato de o Kremlin os ter instado a parar com as ameaças e os ultimatuns só contribuíu para que os manifestantes se mantenham  firmes em sua postura quanto à renúncia do Presidente Yanukovych.

              O estado físico do ativista Dmitri Boulatov – que, segundo declarou, foi torturado pelo que se acredita sejam forças policiais (chegaram, inclusive, a crucificá-lo, perfurando-lhe as mãos) – condicionou o seu transporte por avião para a Lituânia.

               Obviamente, não havia condição política para que ele fosse tratado em hospitais ucranianos. Tanto a ‘ministra do exterior’ da U.E. Catherine Ashton, e o Secretário de imprensa da Casa Branca, Jay Carney, condenaram os maus tratos sofridos pelo ativista Boulatov.                   

 

A queda da Trierweiler

  
          François Hollande não aprecia, aparentemente, o formalismo do matrimônio.  Prefere as uniões informais.  Foi assim com Ségolène Royale, a quem François Mitterrand, nos seus dois mandatos, confiou ministérios importantes, sem jamais lembrar-se de Hollande para o gabinete.

             Seria, assim, com Valérie Trierweiler, que pelo temperamento e a simpatia ganhou o apelido de Rottweiler ? Pelos cálculos de Valérie, há oitos anos viviam juntos, mas, no poder, não durou muito.

             Ao contrário de Ségolène, que tem carisma (poderia, inclusive, ter sido eleita presidente, se não sofresse boicote tão acirrado dos cavalheiros socialistas) e tinha bom ibope com a opinião pública, a Trierweiler, para todos efeitos, e parodiando o que disse Bernardette, a esposa de Jacques Chirac (não é o campeão da felicidade conjugal), não era tampouco campeã da simpatia...

             Pensando viver nas alturas, e desfazendo de tanta gente, disse: ‘não estava prestando atenção. Quando soube, foi como cair de um arranha-céu’.

 

Lupi e acusações de corrupção  

       
      Carlos Lupi, o ex-ministro do Trabalho, não é exatamente um tímido. Lembram-se acaso do beija-mão um tanto forçado em dona Dilma, já às vésperas de sua saída do ministério do Trabalho ?

           Pois ele não faz segredo de suas boas relações com o ex-presidente Lula.  Segundo disse Lula à Folha, os dois conversaram por telefone recentemente. “O Lula me falou: ‘Lupi, esquece, isso sai na urina’, contou o ex-Ministro e presidente do PDT, reportando-se às acusações de corrupção da empresária Ana Cristina Aquino.

          E acrescentou Lupi: “Ele disse que é isso aí, que eu tô certo em processar.”

          Consoante a notícia da Folha, Lupi atacou a denunciante, que diz ter levado uma bolsa com R$ 200 mil ao gabinete do então ministro, em Brasília. De acordo com Lupi, o encontro nunca ocorreu.

 

O lentíssimo degelo iraniano

       
        Não, não me estou referindo aos vários processos do aquecimento global e como mais um ou dois graus centígrados de paulatino aumento da temperatura vem afetando o meio-ambiente de diversos modos.

          Assim, as ilhas Maldivas, no oceano Índico, estão ameaçadas  de sumirem do mapa, submergindo o território  de um país acreditado nas Nações Unidas.

          Por outro lado, o permafrost da Sibéria e do Alasca se vai aos poucos derretendo, com as inelutáveis consequências ecológicas, de que a mais grave é a exalação do gás metano (nocivo ao homem).

         Também no Irã,  um lago salgado, cujo nível vem decrescendo a cada ano, mostra que o processo não distingue em termos de religião.

         Pretendia reportar-me acima, em verdade, ao processo do degelo, que no contexto do aquecimento global igualmente não favorece o homem. Também não é o caso de aplicar essa metáfora ao Irã dos ayatollahs. Se há ali algum degelo político, ele é extremamente lento e por conseguinte pouco perceptível a olho nu. Assim, os dois principais candidatos “derrotados” em 2009 por Mahmoud Ahmadinejad, continuam a ser castigados pelo estamento radical-conservador por terem protestado contra o esbulho que sofreram (não está esclarecido quem ‘venceu’, se o clérigo Kerroubi, se Mir Hossein Mousavi, antes da intervenção do líder supremo, dando a vitória a Ahmadinejad.

         Dessarte, não se deve exagerar a capacidade do novo presidente, o clérigo Hassan Rohani em reverter a estabelecida radicalização política de setores do clero e das forças armadas. Nesse contexto, o próprio Supremo Lider Ali Khamenei teria, se porventura o quisesse, extrema dificuldade em cercear os ultras no cenário da teocracia iraniana.

         Daí, fica mais fácil de entender que a libertação da cadeia de Mehdi Kerroubi, em verdade, não passa por ora de  uma prisão domiciliar, atenuação que por enquanto  sequer foi concedida a Mir Hossein Mousavi, líder do movimento verde, e que no tempo do Imã Khomeini era o Primeiro Ministro.

 

 
(Fontes: CNN, Folha de S. Paulo)

Diário da Mídia (V)

                 

Comunicação na Presidência Dilma Rousseff 

 

        O veterano jornalista e colunista da Folha, Janio de Freitas, reserva palavras duras sobre a comunicação na presidência Dilma. A respeito da parada da Presidenta e sua comitiva por menos de um dia em Lisboa, será que cabe “à Secretaria de Comunicação da Presidência proporcionar prontos e claros esclarecimentos” ? 
       Após aditar que a “sua existência é para isso”,  J.F. conclui  que “há muitos meses o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, foi incumbido de fazer o papel público de secretário de imprensa”. (...) “Seu tom é ( no entanto), sempre mais pessoal do que jornalístico ou governamental. Aí, e não no PT ou outra influência, está presente a já longínqua conveniência de mudança ampla  na comunicação do governo Dilma, sobretudo a da Presidência, a pior das que me lembre. Se vai melhorar, nem imagino.”

(o grifo é da responsabilidade do blog. Voltarei a este assunto)

 
A Epidemia Secreta  


 
       Por incrível que pareça, o Governo do Distrito Federal do senhor Agnelo Queiroz optou por esconder os casos de dengue em Brasília durante a Copa das Confederações. Nesse contexto, os moradores do Estado do Rio – e do Rio de Janeiro em particular - também tem conhecimento da inépcia governamental no combate à epidemia (como esquecer a observação de Cesar Maia – durante uma das mais graves epidemias de dengue sofridas pelo povo carioca:  que seria melhor esperar que os mosquitos Aedes Aegypti voassem para o mar ? ).

      Pois agora encontramos algo ainda mais condenável. A Administração Cesar Maia pode ter realizado campanha inepta contra a dengue, mas pelo menos a existência da epidemia foi reconhecida e a sua evolução noticiada pelos jornais.

     A atitude do governo do Senhor Agnelo Queiroz foi muito pior, pois procurou ocultar a epidemia do conhecimento dos habitantes do Distrito Federal. “(Como) o governo do D.F.  simplesmente decidiu esconder os relatórios técnicos que alertavam sobre o avanço da doença (na época da Copa das Confederações). Uma decisão que teve dois objetivos: evitar um monumental constrangimento aos organizadores e omitir a negligência dos administradores públicos. O vexame, porém, pode ter sido apenas adiado. Sem ações concretas de prevenção, é muito grande o risco de a dengue ressurgir com força às vésperas da Copa do Mundo.”

      Consoante revela Veja desta semana, “o desaparecimento dos relatórios foi descoberto pelo Ministério Público do D.F. em abril, quando os casos de dengue atingiam o pico (...) e já representavam um aumento de 500% em relação aos números registrados no mesmo período do ano anterior. Investigando o episódio, a promotoria de Defesa da Saúde soube, através de funcionários do próprio governo do Distrito Federal que houve uma ordem informal para embargar  a divulgação das ocorrências de dengue notificadas. Os mapas epidemiológicos produzidos pelos técnicos, antes disponibilizados na internet, passaram  a receber um carimbo de ‘circulação restrita’ e sumiram da rede a partir de janeiro (de 2013), mês em que os casos da doença começam a aumentar por causa das chuvas. ‘Essa omissão foi criminosa. A Secretaria de Saúde escondeu esses dados para não comprometer a imagem do governo, justamente às vésperas da Copa das Confederações’, acusa o promotor Jairo Bisol.”

         Bisol vai entrar com uma ação de improbidade contra os responsáveis pelo repasse das verbas.  Desperta espécie que o governador Agnelo Queiroz tenha anunciado agora (fim do ano passado) a liberação de 40 milhões de reais para a realização de campanhas publicitárias para orientar a população sobre as maneiras de combater a doença.

        Segundo o M.P., nos últimos dois anos apenas oito milhões  de reais foram aplicados em ações de publicidade contra a dengue pelo governo do D.F. Por sua vez, os recursos aplicados no combate direto à moléstia foram praticamente irrisórios. “E aí o governo chega agora e diz que vai gastar quarenta milhões  apenas em publicidade? Não deixa de ser estranho esse descompasso justamente num ano eleitoral”, observou o promotor.

         E o governo do D.F. está agora colhendo o que semeou. O monitoramento revela que os casos da doença em Brasília já quadruplicaram, em relação à primeira semana do ano. A propósito, a subsecretária da Vigilância em Saúde, Marília Coelho, negou qualquer irregularidade ou mesmo negligência, mas não conseguiu explicar o porquê de ainda hoje os dados da epidemia de 2013 continuam inacessíveis na página do governo.

 

“Fontes: Folha de S.Paulo, VEJA”    

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Colcha de Retalhos B 5

                                  

Porta de Livraria[1]

 
      O livro de Anthony Pagden, Professor da Universidade da Califórnia, sob o título “The Enlightenment” (O Iluminismo), e o subtítulo “E porque ainda tem importância” (And why it still matters), é obra de interesse por tratar de movimento intelectual que mudou a Weltanschauung[2] da intelligentsia, com a consequente transformação das elites e da sociedade. Adumbrado no século XVII, por filósofos e cientistas de nomeada – Newton, Galileo, Locke, Hobbes, Descartes e Spinoza – seria no século XVIII com Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Diderot, D’Alembert, Condorcet, Hume, e Kant, que o iluminismo se transformaria em visão de mundo não mais alternativa.
     Depois do longo domínio de Aristóteles, havido como o filósofo por excelência, e do tomismo, com a visão doutrinal da Igreja, esse paradigma[3] começou a ser contestado por Galileo Galilei, com a prova do heliocentrismo. São conhecidos os dissabores do sábio, e a sua condenação pela Inquisição romana, mas acabou ressoando mais forte o seu murmúrio ‘eppur si muove’ (e, no entanto, (a terra) se move).

    Dentre os precursores do Iluminismo, um dos maiores é Thomas Hobbes. Através do Leviatã, ele nos apresenta a incessante (unrelenting) violência do estado de natureza do homem primitivo. Como frisa Pagden, é uma das frases mais carregadas e fortes da língua inglesa: “nenhum conhecimento da face da Terra; nenhuma noção do Tempo; sem Artes; sem Letras; sem Sociedade, e o que é o pior de tudo, contínuo medo e perigo de morte violenta; e a vida do homem, solitária, pobre, desagradável (nasty),brutal e curta.”
      Montesquieu, nascido em 1689, é da mesma geração de Voltaire (1694-1778), mas teve uma vida mais curta (morreu em 1755). A sua principal obra foi “O Espírito das Leis” (1748), que teve enorme influência sobre a política, com a doutrina da divisão dos poderes. Apesar de todos os cuidados que tomou, não evitaria que ela caísse no Index, sendo proibida pela Igreja. Reflete deveras o espírito prevalente na época, que essa negação extrema pelo Magistério não tivesse maiores consequências, como o demonstra o fato de que as ideias do Barão de Montesquieu sobre a divisão dos poderes foram acolhidas pela Assembleia Constituinte da Revolução, na sua fase girondina (moderada).  

       Voltaire, e a sua longa vida, exerceu influência sobre as letras e o espírito do tempo, que para alguns foi enorme e generosa, para outros, condicionada e polêmica. Participou de muitas campanhas de opinião: écrasez l’infâme (contra o preconceito, em que alguns viram ação contra a Igreja e o próprio Jesus Cristo); a questão Calas (em que batalhou pela sua reabilitação; enorme correspondência (inclusive com Benedito XIV, um Papa para o século das luzes). Sem embargo, era adversário temível, valendo-se de todos os meios, inclusive os apócrifos, para prevalecer ou desmoralizar o adversário. No Palácio de Sans Souci (sem cuidado), foi hóspede de Frederico II (que chegou a desavir-se com a sobrinha do escritor, a quem apostrofou em carta). Voltaire, pela postura independente, temia o poder real. Por isso, a sua propriedade de Ferney o colocava nas cercanias da Suiça, para dessarte evitar as tropelias reais de que Rousseau foi vítima. Nos pródromos da agonia, terá assentido confessar-se com um padre, o que seus familiares evitaram, à conta de seu professado agnosticismo.      

       Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) é um dos gigantes do século das luzes. As contradições de sua personalidade – definido como escritor francês, nascido em Genebra – não se detêm na nacionalidade, nem na religião. Rousseau oscilou entre o catolicismo e o protestantismo, mas a condição da fé não lhe evitou perseguições tanto na Suiça (em que a participação no rebanho não impediu ações de pastor tão interiorano, quanto preconceituoso, além do temor reverencial de Genebra diante do poder real francês), quanto na França (pela condenação do livro Emilio ou da educação, pela justiça - parlamento – francesa). Rousseau escreveu o romance epistolar Júlia ou A Nova Heloisa, quando obteve incrível sucesso de público. Em outros tempos, teria garantido fortuna. No entanto, em matéria política, as suas principais obras são o Discurso sobre a Origem da Desigualdade, Emílio, Contrato Social, Confissões e  vastíssima correspondência (em 20 vols.), coligida por Théophile Dufour e revista por Pierre-Paul Plan. Também escreveu um auto musical “Le Devin du Village” e se sustentava pela cópia de partituras musicais. Após alcançar o renome nas letras, residiu em Montmorency, na propriedade de Mme. d’Épinay. Em seguida, transferiu-se para cabana ainda em Montmorency, nos domínios do Marechal duque de  Luxembourg, onde fruíu de sua proteção, e depois da  morte deste  grande de França em 1764, daquela da viúva, Mme. de Luxembourg. Será no contexto da publicação do Émile, que escreve as quatro cartas a Chrétien Guillaume de Malesherbes, então censor do rei e muito estimado pela intelectualidade (advogado do Rei Luís XVI, seria em 1794 guilhotinado pela audácia de defender a Luís Capeto).  Por força da publicação do Emílio e, sobretudo, pelo deísmo da inclusa célebre alocução do Vigário da Savoia, o Parlamento de Paris sentenciou a queima do livro e a prisão do autor. Foge às pressas para a Suiça (1763-1765). Mais tarde, com a ajuda de du Peyrou, se transfere para Estrasburgo. A caminho da Inglaterra, Rousseau viaja para encontrar-se com David Hume, com quem se desentende posteriormente. Durante a sua estada em Albion, recebe pensão do Rei Jorge III, a que pouco depois renuncia. De volta à França, goza do patrocínio do  Principe de Conti. Será sob a égide do Marquês de Girardin que Rousseau passará os seus últimos dias em Ermenonville, falecendo em 1778. O reconhecimento à grande contribuição de Rousseau à Revolução foi obra conjunta das principais correntes revolucionárias: proposto sob a Constituinte, decidido pela Convenção, durante o período chamado do Terror, por Maximilien de Robespierre no Comitê de Salvação Pública, em 1794, foi inumado já na fase pós-Termidor, havendo sido dos primeiros a ser inumado no Panteon.

         O leitor relevará o longo resumo da atribulada existência de Rousseau, notadamente após a condenação do Émile e, em seguida, do Contrato Social. Jean Jacques causou muitas relações de amizade e admiração, e não só na aristocracia. Manteve amistosa correspondência com Buffon, da Academia Francesa, autor da História Natural, que é autor da frase famosa ‘o estilo é o próprio homem’. Rousseau, como colaborador da Enciclopédia, manteve relações em geral amistosas com Denis Diderot. Dentre os enciclopedistas, estaria mais próximo de D’Alembert. Tal relacionamento, no entanto, carece de ser relativizado, se acompanharmos a correspondência, cotejada inclusive com terceiros destinatários.

        Personalidade carismática, capaz de provocar grandes admirações e também fundas inimizades, Rousseau seria o mais perseguido dos grandes nomes intelectuais do século XVIII. A tal cumpre agregar um temperamento difícil e suspicaz, que com o passar do tempo, e em função de experiências dolorosas, se marcaria pelo temor de conspirações de desafetos. Essas impressões dispunham, em mais que uma oportunidade,  de frágeis bases na realidade. É muito provável, portanto, que com o passar do tempo e das difíceis vivências, não se possa excluir, a priori, que Jean-Jacques tenha padecido da afecção psicológica da paranoia.

       Dada a importância da obra, e atendida a beleza de seu estilo literário (há passagens no Émile que emocionam o leitor pela capacidade descritiva e evocativa), compreende-se a força da própria sensibilidade, e quão grande será a influência da pena de Rousseau para a formação do romantismo como visão do mundo. Na filosofia e na teoria política o mais ilustre genebrino colocou as bases conceituais para a revolução francesa – e daí a razão primeva de que as forças do absolutismo hajam ‘privilegiado’ a ameaça que representava, desencadeando contra ele uma repressão que não faria por ‘merecer’ nenhum outro doutrinador das ideias novas trazidas pelo iluminismo.

       Daí a surpresa e o espanto que experimentei ao ler o livro de Anthony Pagden. É uma regra não-escrita da teoria política – que tem inclusive fumaças platônicas – que a emoção e eventuais idiossincrasias pessoais não devem ter acesso desembaraçado à construção de qualquer obra de natureza político-filosófica. Pela sua animosa prevenção contra Jean-Jacques Rousseau, sem quiçá dar-se conta o autor criou dificuldades para a exposição de sua tese sobre o iluminismo. Fundada em muita pesquisa e erudição, Pagden, tangido pela visceral antipatia a Rousseau, colocou não só uma mas várias pedras em seu caminho autoral.

       Não é só a antipatia quanto ao cidadão de Genebra. Não fazendo por merecer seja um capítulo, seja sequer seção abrangente, Rousseau surge quase de forma travessa pois reponta na composição sem ser convidado,  vindo sempre à tona trazido pela própria dinâmica da matéria. Pagden recebe esse intruso com a irritação de uma evolução imprevista, e a ele reserva as censuras habituais, inclusive com o vinco da caracterização negativa. Infame é uma palavra latina que nas alusões a Jean-Jacques aparece amiúde nas análises supostamente críticas de seu pensamento.

        Excluído o erro de investir contra talvez a maior figura do iluminismo na França, como se pode avaliar a contrariu sensu pela obra de Pagden, é também verdade que ela sofre igualmente de agudo filo-anglicismo. O capítulo sobre Hobbes é primoroso, e a sua importância inegável. Mas qual a relevância de Francis Hutcheson e Shaftesbury? ‘Nenhum dos dois é hoje muito lido ou se vê amiúde atribuído hoje um lugar significativo na genealogia do Iluminismo’ (V. Pagden, p.85) Se não há dúvidas sobre a presença de David Hume, que, de resto, vinha a Paris com certa frequência, também a inclusão de Adam Smith nos faz perguntar sobre a pertinência de tal personagem neste contexto, dada a sua grande importância no contexto da economia política.

        Com efeito, a leitura da obra de Pagden – que se o leitor suportar as idiossincrasias do professor de ciência política e história da Universidade da Califórnia, é experiência decerto instrutiva – nos mostrará que no século dezoito – referidos os precursores ilustres do movimento no século dezessete -  o iluminismo é movimento intelectual precipuamente francês, com presenças ilustres na Itália (então realidade apenas geográfica) de Vico (Scienza Nuova e Princípios da Filosofia da História) e Marquês de Beccaria (Tratado dos Delitos e das Penas), e em Koenigsberg, Immanuel Kant (1724-1804), “cuja filosofia é havida na Alemanha como a conclusão e a superação da época do Iluminismo e simultaneamente o ponto de partida para a nova filosofia”[4].  Anthony Pagden estende a lista para um frade beneditino espanhol, Benito Jeronimo Feijó (princípios do século XVIII).



 A Ucrânia e os Militares

           A bota castrense entra em cena na Ucrânia. O enfermo presidente Viktor Yanukovych recebeu inusitada mensagem das Forças Armadas. Depois de longo silêncio – os militares não deveriam ocupar-se de questões políticas – as Forças Armadas daquele país, por intermédio do seu site, instaram o Presidente que adote ‘medidas urgentes’ para estabilizar o país.

           Acamado por uma afecção respiratória, o presidente é informado que os militares consideram ‘inaceitável’ a ocupação de prédios públicos, assim como intentos para impedir o cumprimento das funções do Executivo.

          Depois de um mutismo de dois meses, as Forças Armadas abandonam o seu silêncio para afirmar que “a escalada de contestação ameaça a integridade territorial ucraniana”.

          Essa quebra do silêncio constitucional das Forças Armadas não manda uma boa mensagem para a cidadania ucraniana. Até o momento existe um embate que coloca de um lado a cidadania, e de outro as forças policiais. Coisa bem diferente – e reminiscente de putsches e golpes militares - são intervenções de forças se supõem existam para defender a integridade nacional contra agressores estrangeiros e que venham a ser empregadas de forma inconstitucional contra a cidadania.

          A licença de Yanukovych não o impediu de referendar anistia aos manifestantes detidos, condicionada porém à sua saída dos prédios ocupados. A oposição, porém, não concorda com essa instrumentalização da anistia.

          O Secretário de Estado  John Kerry e a chefe da diplomacia da U.E., Catherine Ashton, deverão reunir-se hoje na Alemanha com os deputados opositores Vitali Klitschko (do Udar) e Arseni Yateseniuk, chefe interino do partido Pátria, cujo líder principal é Yulia Timoshenko, a prisioneira do lazareto de Kharkov.

         A Federação Russa protesta contra a alegada interferência do Ocidente na crise ucraniana. Pelo visto, o Kremlin a considera como chasse gardée (terreno de caça exclusivo)...
 

Mais um manifestante ferido a tiros pela polícia   

 
 
       É preocupante que mais um manifestante tenha sido baleado pela polícia. O quadro não é tranquilizador, porque o estudante Fabrício Proteus Nunes Fonseca  Mendonça Chaves foi atingido por um (ou dois) disparo(s), em ato de protesto contra a realização no Brasil da Copa do Mundo.

        Se o processo é pacífico, todos os brasileiros têm o direito de expressar a própria opinião, que não carece ser a mesma de Herr Blatter e de Dona Dilma.
        O estudante Fabrício foi ferido a tiros pela polícia, e teria reagido após o inusitado ataque.

        A polícia paulista – que reagira com violência às manifestações do passe-livre (lembram-se ainda da pobre repórter da Folha que perdeu uma das vistas por causa da sólita bala de borracha? ) – volta a pôr as manguinhas de fora.

        Como é procedimento usual – também praticado aqui no Rio, contra manifestante que a polícia desejava incriminar nas cercanias do Palácio Guanabara – acharam elementos incriminantes também na sua sacola. André Singer, em coluna na Folha, adota postura salomônica. É seu direito. Mas não há negar que quem caíu por terra e foi parar no hospital foi o manifestante Fabrício.

 

 Brasília entregue à  bandidagem

 
        Todos sabemos que o governador Agnelo Queiroz, por ser do PT, goza de invejável blindagem. Foi de resto o que se viu na última comissão pizza no Congresso, em que o Partido dos Trabalhadores se pôs de acordo com o PSDB (leia-se Marconi Perillo) e PMDB (leia-se Sérgio Cabral) para igualmente pôr a salvo o intemerato Queiroz.

        Agora, na própria ante-sala de Dona Dilma, a bandidagem goza da operação tartaruga da P.M. e da inépcia da governança do D.F., que permite assassínios, esfaqueamentos em super-mercados, e um pico tão acintoso quanto revoltante da criminalidade no próprio terreiro do Partido dos Trabalhadores, seja federal, ou distrital.

       Agnelo Queiroz, volta e meia, chama a si as atenções, pena que tenha o vezo de provocá-las a contrapelo. Não é que na sua campanha eleitoral Queiroz tenha prometido de forma irresponsável que aumentaria os vencimentos da P.M. do D.F. (e em 60%). Como Sua Excelência esqueceu de cumpri-la, manteve a princípio contrafeito silêncio enquanto a polícia permitia com criminoso abandono do dever que a cidadania do distrito ficasse entregue às feras. Somente agora – com o impressionante saldo de 63 assassinatos em 29 dias – é que o Governador resolve discutir a questão com o comandante da PM...

 
 Sempre a Gaiola de Ouro

 
         É um velho nome para a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Data dos tempos do D.F., quando o Rio excelia sob as benesses da Presidência, sendo a Capital da República.

         Faz tempo que JK deu um jeito nisso – que pode ter sido bom para o Brasil, mas para a antiga Corte e depois Distrito Federal tenho as minhas dúvidas – porém numa coisa é mister estar de acordo.
         Os costumes da vereança no antigo D.F. não mudaram muito se comparados com os  atuais vereadores do Rio de Janeiro.

         Como decorrência das oportunas manifestações de rua irrompidas com o Movimento do Passe-Livre em São Paulo, e em seguida  difundidas por esses vastos brasis,  devemos reconhecer que os pobres edis já não gozam do sereno desprezo da cidadania carioca.

         Os infelizes tem sido vítima de iteradas e solertes manifestações, algumas que chegaram ao cúmulo da invasão dos amplos salões da Gaiola, antes utilizados para a discreta aprovação de medidas do gosto do prefeito – hoje o Senhor Eduardo Paes – na presença de um punhado de silenciosos representantes.

        Esses manifestantes que exigem absurdos dos senhores vereadores, como o respeito dos direitos da povoação carioca (notadamente em matéria de transportes, além de um vastíssimo etcétera).

       Pois não é que  os pobres vereadores são de novo incomodados ? Tudo não passaria de mais um malentendido.

      O Tribunal de Justiça determinou que a Câmara de Vereadores do Rio corte 406 cargos comissionados. Todos esses cargos são ocupados por indicação política, sem qualquer concurso público.

      A Câmara de Vereadores descumpre um decreto legislativo de 1991, que limitou em 1.019 o número de cargos comissionados.  Em depoimento prestado em 2012, o presidente da Câmara de Vereadores, Jorge Felipe, confirmou que havia 1.425 cargos em comissão. Por outro, segundo admissão da própria Câmara, ela não faz concursos públicos desde 1998 (os  406 cargos custam a bagatela de R$ 5 milhões ao ano).

      A medida foi determinada pela Juíza da 2ª Vara de Fazenda Pública, Alessandra Cristina Tufvesson, por ação do Ministério Público. A medida deve ser cumprida em até sessenta dias.



O empréstimo do BNDES para o porto de Mariel, em Cuba

     
      A visão do porto de Mariel, em Cuba, que já é o melhor do Caribe, provoca várias reações segundo a pessoa interessada. A da Presidenta, não carece gastar muita tinta digital, se virmos a sua expressão beatífica diante do líder máximo de sua juventude, o companheiro Fidel Castro, hoje um tanto alquebrado, mas ainda puxando os seus cordéis.

      Ver Mariel e as instalações magníficas do porto cubano, provoca em muitos a reação de compará-las aos portos brasileiros, com as suas deficiências (conjugadas com as lacunas da armazenagem de nossas matérias primas – entra século, sai século e continuamos a exportar commodities...) e é difícil não pensar no que seria bom se o governo do PT também cogitasse de aparelhar portos brasileiros no mesmo nível de excelência.

         Será que depois de cumprir o que desejavam os gerarcas (Fidel e Raul) de Cuba, não terá assaltado a antiga militante Dilma Rousseff alguma dúvida se retirar 682 milhões de dólares do pau-pra-toda-obra BNDES não é um pouco demais para retirar de um país em que os gastos são muitos (sobretudo em empregos para os companheiros e para o assistencialismo), mas os investimentos em infraestrutura são pífios ?  Que porto temos em Pindorama que se assemelhe com a aventura em Mariel ?    

        E carimbar de Secreto  as razões da concessão do empréstimo – dessarte os detalhes do projeto só poderão ser divulgados em 2027 ! – hão de dar um frisson. Os pormenores da operação – concluída em base de garantia soberana, balizada pelos bancos centrais. É segura quando há um mecanismo de compensação de exportações entre os países, o que não ocorre com Cuba. É inquietante que faltarão dois anos (para 2029) de prazo para que Havana pague.

        O estranho é que também os negócios de estado com Angola sejam carimbados de secreto. Em um país onde até a apuração das eleições é secreta, qual a serventia de tanto segredo. Dadas as características de kleptocracia de tantos países naqueles continente – e tudo fica resolvido com mais um perdão de dívida... – não é brincar um pouco demais com o dinheiro do contribuinte brasileiro ?

       

(Fontes: The Enlightenment, de A. Pagden; Correspondance Générale de J.-J. Rousseau, Grande Enciclopédia Delta-Larousse, Nouveau Larousse Illustré, Der Neue Brockhaus; Rousseau, par Th. Ferenczi; O Globo; Folha de S. Paulo; VEJA)



[1] Porta de Livraria começa como sub-seção da Colcha de Retalhos. O futuro dirá de sua eventual publicação como série autônoma no blog.
[2] Visão do mundo.
[3] No sentido dado ao termo por Thomas S Kuhn, na sua obra ‘A Estrutura das Revoluções Científicas’
[4] Der Neue Brockhaus, vol. III

sábado, 1 de fevereiro de 2014

De repente, o risco Brasil


                                  
        Em sua coluna de hoje, Miriam Leitão enfatiza talvez o dado mais importante para a economia: a hora é de cautela. Com efeito, “estamos sendo colocados na lista dos vulneráveis. Nesses momentos, as autoridades devem ter em mente o cenário pior e torcer pelo melhor. E a equipe econômica está acreditando no melhor e desprezando os sinais de risco”.

      O mais inquietante nesse enredo é que o comportamento do governo Dilma, desde o começo, não tem diferido. O otimismo, acoplado com práticas que se pensavam superadas – e o bom senso de Lula – Palocci fora determinante neste sentido – continua a nortear a Administração. A princípio, a Presidenta pensou que poderia exorcizar a inflação com retórica essencialmente vazia, do tipo não permitirei...

     Como em muitas outras questões, a carestia no supermercado e na opinião pública – sem diferenças de A, B, C, D e E, porque o povão não é bobo, e tampouco esqueceu o dragão – levou a presidenta a jogar a toalha no que tange a liberar Banco Central (leia-se Copom) em restabelecer a serventia da taxa de juros Selic como a nossa única sentinela para o controle dos preços.

     No entanto, não é mistério que a inflação, posto que contida, continua no limite, e, portanto, alta. Devemos à economista Dilma Rousseff essa dúbia gentileza: o índice persiste no limite.

     O segundo Governo do PT está colhendo, no limiar de seu último ano constitucional, a messe de seus erros passados, e em especial da renitente teimosia de que lhe aproveitam a contabilidade fiscal maquiada, os passados procedimentos como preços administrados, e  intervencionismo varejista que vai cobrar a amarga conta no atacado.

     A desestabilização do Plano Real está em marcha. Se se ataca a Lei da Responsabilidade Fiscal – como nas intentadas ‘bondades’ para o jovem companheiro Fernando Haddad, com novas (e perniciosas) regras para gerir a dívida da prefeitura de São Paulo, mandando à breca quem respeitara o dever de casa – se em almoço para colher idéias para debelar a inflação, dona Dilma convoca Delfim Netto & Belluzzo (e deixa na geladeira quem resolvera o problema), se a cada compromisso, como o do superávit, Mantega e seus alegres compadres inventam remédios heterodoxos para acalmar os ‘nervosinhos’, com a devida vênia da colunista, a cujo bom senso e experiência há de parecer difícil lidar com a alheia leviandade, tudo o que leio nos jornais e o que me traz a mídia me leva a reações menos prontas e talvez um pouco mais céticas.

      Adentramos  ano eleitoral pleno. Para os políticos em geral, além da promessa (que é a versão light da mentira), existem gastos e iniciativas ainda mais danosos, porque comprometem o Erário, na tentativa insensata de pavimentar o próprio caminho do dito sucesso político com despesas, umas pesadas, outras calamitosas, em adiantado grau de delirante demagogia.

      Por obséquio de dona Dilma, o Brasil deixou o cercado das economias respeitáveis, para entrar naquele das vulneráveis. Na mutável classificação do tempo político, o dito evangélico mantém a sua tenebrosa pertinência: dize-me com quem andas e te direi quem és.

     Veja-se a nossa atual companhia, na inconfortável cauda das economias periclitantes, algumas já como Argentina e Venezuela, no compartimento dos casos de lata de lixo (basket cases). Ainda – e felizmente! – não estamos lá, mas diante de tanta incompetência, é hora de armar-se de temores e não de certezas.

     Não é à toa que as nuvens negras de  rebaixamento por agência de classificação de risco tire o sono de Dilma & Cia. Paira sobre nós, do etéreo espaço de Wall Street e adjacências, a ameaça que nos escorracem da zona protegida dos investimentos.

     Quando as tempestades se acumulam, de nada vale invectivar contra elas, nem correr ao altar de Zeus – o deus do raio e do trovão – para mendigar a clemência que até então tudo se fez para escarnecer.

     Nessas alturas, sem querer parodiar ninguém, eu também tenho um sonho para o Brasil. Na verdade, se a experiência do comportamento e da húbris do poder nos traz tanto o realismo, nos bons momentos, e o pessimismo, nos outros, em que revisitamos experiências pretéritas, a hora vai ficando aziaga.

      O barco Brasil está jogando muito, e o mar à frente, para resumir, não esta prá peixe. A tripulação não inspira confiança, mas é a que temos. Quem sabe, tempestade menor afaste os mais travessos, e possamos ir à frente, em busca de um melhor destino e de águas menos traiçoeiras.

     Quem sabe, a experiência da borrasca se torne mestra severa, porém oportuna, e nos traga, na hora dos comícios, ou uma escarmentada timoneira, ou alguém que redesperte a trêfega esperança, com a visão de um futuro melhor.

     Será pedir muito?

 

 

(Fontes: O Globo e coluna de Miriam Leitão; Folha de S. Paulo)