quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Como nos tempos de Cabral

                                     

       O Cabral a que me refiro não é, por certo, esse nosso viajante Governador, o da turma do lenço, a quem o Rio, com justiça, hoje castiga em baixíssimos índices de aprovação, que refletem o descalabro nos transportes públicos de massa, na educação e saúde.
       Reporto-me a outro e muito bem conhecido, Pedro Álvares Cabral, o descobridor oficial da Terra de Santa Cruz que, por ordem de el-Rei D. Manuel, ancorou a frota de treze naus na baía de Porto Seguro.

      Teve aqui o seu banho de fama, rumando em seguida, para as brumas do esquecimento, nas bandas da Índia, com as especiarias e  miragens de império estendido muito além dos meios e população da heroica gente lusa que o Infante D. Henrique lançara no mar oceano.
      Por primeira vez na República, por que Luiz Inácio Lula da Silva – para sua honra – não ousou enveredar pelos caminhos chavistas das eleições, preferindo, ao invés de terceiro mandato, passar a faixa à companheira petista Dilma Rousseff.

      A reeleição – esta nova praga brasileira – fora inventada em má-hora pelo professor Fernando Henrique Cardoso, e até hoje, em todos os níveis da República, pagamos o amargo sobrepreço de corrupção e desgoverno que tal prática, tão antibrasileira, trouxe para prefeitos, governadores e presidentes.
      Dos dúbios critérios de Lula da Silva, há de escrever, com seu estilo distante e quiçá impessoal, esta amorfa entidade que chamam de História, cujas páginas surgiram por primeira vez nos circunstanciados relatos, por vezes cômicos, por vezes terríveis, mas quase sempre humanos, do mais insigne cidadão da hoje sepulta Halicarnasso. Assinale-se, por oportuno, que depois de décadas de relativo menosprezo, Heródoto, o pai da história, semelha superar o seu eterno rival, também grego, o ateniense Tucídides.

      Mas voltemos às realidades terrenas do ciclo de Lula da Silva. Após haver inventado, malgrado opiniões em contrário, a sua sucessora, cunharia a seguir o apelativo – para ele objetivo e não depreciativo – de poste, com que foi mimoseado o seu ex-Ministro da Educação, Fernando Haddad e a própria Mulher do Lula (como Dilma era conhecida no Nordeste). O fundador do P.T. não acha, de resto, pejorativo esse apodo, embora não creio todos tenham a mesma opinião.
       Já discuti e muito esse assunto, e não creio oportuno aqui aprofundá-lo. Basta apenas dizer – e com tristeza – que muito depõe contra o critério do eleitor ceder a outrem o critério de determinar quem deva e quem não deva ser eleito. Algum dia, o candidato será escolhido não por indicação, mas por mérito, proposta e folha corrida.

       Pensando bem, de 1500 para cá as coisas não mudaram tanto quanto parecem. Aos pobres e incautos indígenas que o acolhem na praia de Porto Seguro, e depois serão os perplexos assistentes da Primeira Missa, Cabral presenteia com miçangas e bugigangas, artefatos de discutível valia, mas que causam admiração aos índios pelo brilho, formato e consistência. Mais surpresos ainda ficariam pela indumentária da estranha gente, vinda não sabiam de onde.
          Apesar dos pífios resultados de quase três anos de mandato, beira o estarrecedor que o nível de aprovação da Presidente Dilma Rousseff se afaste dos baixios dos tempos das surpreendentes  passeatas de junho.

           Sem falar da inflação, que ela trouxe, com singular estouvamento, de volta, e que ora nos ronda, quase sempre estourando o teto dos índices em combate que mais parece a campanha dos exércitos derrotados da OKW nazista, em contínua retirada, que a patética linguagem dos comunicados não podia disfarçar.
          Para quem se diz desenvolvimentista, quanto açodamento e quanta trapalhada ! Os métodos são discutíveis – e os blogs já se detêm bastante no seu caráter irregular, no seu amadorismo e, sobretudo, no respectivo assistencialismo.

         Ao invés de obras de infraestrutura, na carência dos investimentos e na sua irregularidade, no portentoso ralo da corrupção – e, por falar nisso, que dizer da falta de saneamento básico em tantas cidades brasileiras – continuam no mercado as miçangas e as bugigangas que, como uma nêmesis, nos perseguem desde Cabral.
        Para quem se preocupa tanto com números, as estatísticas castigam já não digo no melancólico índice de crescimento negativo do PIB neste terceiro trimestre de 2013 de menos 0,5%. Em todo o governo Dilma, o crescimento do PIB fica em 2,1%, num parâmetro igual ao segundo mandato de FHC, mas não ao primeiro, no começo do Plano Real, que supera o dílmico índice com 2,4%.

       Somos a terra do impostômetro, do empreguismo público desvairado, da opção pelo consumo, com mais carros nas ruas, com escapamentos de terceiro mundo (faltam os controles vigentes no circuito Elizabeth Arden), e os lucros das feitorias vão para as combalidas matrizes no Primeiro mundo. O assistencialismo está aí no bolsa-família, já na segunda geração, e nos diversos mimos que artistas de segunda categoria anunciam, como descontos em eletrodomésticos.
       Por quanto tempo nos caberá a velha maldição de Cabral, como se permanecêssemos para sempre desvalidos. O que se precisa é de trabalho digno, higiene e saneamento (que trazem saúde), educação (que constrói a dignidade e o futuro). Falamos de estradas desde Washington Luís, JK as rasgou e construíu, e os pósteros permitiram a sua deterioração. Falamos de bom governo e se inventa a reeleição, que é a mãe da ubíqua corrupção e do desgoverno sistêmico.

      Que país e que governo temos, se quando os índices do IBGE começam a despencar, devemos agradecer que ainda dispomos de instituições de estado, que nos servem a verdade e não a subdesenvolvida patranha dos índices manipulados de Cristina, viúva de Kirchner.
      Na verdade, o que se carece é reinventar o Brasil. Agora, um morador de rua é o primeiro a ser castigado pelos excessos das passeatas de junho. Isso me relembra o infeliz que foi parar na cadeia por haver comido uma casca de árvore.

       De trabalho, dedicação e dignidade o Povo brasileiro não é pobre. Precisamos com urgência trazer estes singelos mas sinceros princípios para  Brasília e suas instituições tão afastadas da realidade brasileira. 
        Poderá alguém negar que a meta síntese de Juscelino se transmutou em cruel caricatura?

 

(Fontes subsidiárias:  Folha de S. Paulo,  O  Globo )

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Publicação do livro 'Crítica do Animal Político'



Como o leitor de Cartas ao Amigo Ausente, publicadas em duas séries no meu blog (I a XIX;
 e XX  a XXVII)   terá tomado ciência, P.C. Neves da Rocha escreveu o livro
"Crítica do Animal Político - O significado de uma expressão sem sentido'',
 obra de grande erudição e importância no campo do estudo da filosofia de Aristóteles.

Tal trabalho, a que dedicara a última década de sua existência, Pedro acabou por deixar o encargo da publicação a Antônio Rezende e a mim.  Como Rezende não pôde fazê-lo, me coube essa tarefa.

Apesar de o livro ter atingido as últimas instâncias da pré-publicação - inclusive com a aprovação do parecerista especializado - por circunstâncias de que não está livre o mercado editorial isto infelizmente não se pôde concretizar.

Na série de Cartas ao Amigo Ausente, repensei o assunto e cheguei à decisão de publicar a obra de Pedro na internet.  Ao fazê-lo,  estou plenamente ciente da ironia que paira sobre tal opção. Logo ele,  adepto fervoroso do paradigma de Gutenberg, ter sua obra  confiada ao espaço cibernético.
Lá de cima, no entanto,  penso que Pedro compreenderá o gesto do amigo, e, quem sabe, achará graça na ironia do veículo de sua derradeira mensagem.

Eis o link onde toda a obra está disponibilizada:

A Torrente da Revolução

                        

        O Presidente Viktor F. Yanukovych ao curvar-se às pressões de gospodin Vladimir Putin parece esquecido da experiência amarga da revolução laranja de 2004. Naquela época, a gritante fraude nos comícios para a presidência tornou necessário um novo pleito, em que foi derrotado por Viktor Yushchenko.
        Mais tarde, Yanukovych em outra eleição controversa terá derrotado a Primeira Ministra Yulia Timoshenko. Haver prevalecido sobre a líder da oposição, mesmo que em bases duvidosas, não semelha ter satisfeito de todo ao novel Presidente, que enveredou pela judicialização de diferendos políticos. Esse questionável procedimento,  que o seu poderoso vizinho do norte sói instrumentalizar, foi empregado contra a adversária.

         A condenação da ex-Primeira Ministra Timoshenko, por um dócil juiz em processo amplamente visto como “motivado politicamente”, não saiu decerto consoante o cenário da preferência do presidente Yanukovych. O figurino Putin pode funcionar na Federação Russa – e ainda assim, atingindo personagens menores, implica em desgaste para o presidente russo – mas tentar aplicá-lo na sua direta antagonista demonstrou erro grosseiro do presidente ucraniano.
         Buscando ganhar tempo e manipulando falsas promessas, Yanukovych se recusa na prática a liberar a Timoshenko. Mantê-la em um lazereto em Kharkov, eludindo as várias gestões pela sua liberdade – necessária inclusive para tratamento médico em instituição categorizada do Ocidente – mostra, a um tempo, o ódio de potentado oriental, e a falta de discernimento de puxar a corda muito além do que a justiça (e o bom senso) determinam.

        Essa falta de compreensão – que se deriva da húbris ou de deficiências congênitas – o Presidente Yanukovych torna a demonstrá-la, agora na sua recusa (na undécima hora) de assinar acordo com a União Europeia,  trocando esta ligação com o Ocidente democrático pela dúbia associação com a União Aduaneira russa.
       Putin, o ex-dirigente da KGB, que a sorte quis virasse o sucessor (salvador) do desacreditado Boris Ieltsin, manifesta amiúde o pendor para resolver as questões caras ao Kremlin com a mão pesada de seus distantes antecessores, os czares de todas as Rússias. Consta que a súbita troca de alianças de Yanukovych se deveria a esses argumentos.  Surpreende, deveras, que essa estratégia – com efeitos determinantes em países como a Moldava e a Armênia – possa igualmente valer sobre a Ucrânia, o mais importante país que, em função do desaparecimento da URSS, se desprendera dos sufocantes laços de Moscou. Entrando para essa União – de que participam a Bielorrússia e o Kazakistão – evidenciaria assombrável fraqueza do governo de Kiev.

         No entanto, quiçá não tenha sido assim tão difícil fazer Yanukovych enjeitar a opção de Bruxelas. O presidente ucraniano pensa pleitear a reeleição em 2015, e para tanto carece do voto da parcela ucraniana filo-russa, que se localiza sobretudo  na parte oriental da Ucrânia. Além disso, a dispensa da assinatura do Acordo na reunião de Vilnius, na Lituânia, igualmente livraria Yanukovych de dar licença à prisioneira de Kharkov, Yulia Timoshenko, para sair do país, a fim de tratar-se na Alemanha. Desde muito, o presidente ucraniano tergiversa e contemporiza nessa questão.
         O erro crasso de Yanukovych foi o de personalizar a opção comunitária, como se fora apenas uma saída para a sua prisioneira política. Desconheceu ele o que representa para grande parte da população ucraniana bater a porta na escolha da União Europeia, com a abertura comercial e a mensagem da  democracia.

        Ao supostamente abaixar a cabeça para os ukases do Kremlin, Yanukovych tornou flagrante que a Ucrânia deveria continuar como satélite de Moscou, e não abrir-se para o intercâmbio de produtos, oportunidades e também idéias, que o Ocidente simboliza.

       A reação das multidões – e a união de todos os partidos de oposição a Yanukovych - não só reeditam as condições da Revolução Laranja de quase dez anos atrás, mas também lançam o debate menos sobre pessoas e mais sobre perpectivas de caminhadas futuras.

       Pelo ímpeto e a amplitude da reação à errônea proposta de Yanukovych, a situação em Kiev e em outros centros daquele país apresenta condições revolucionárias. Repetindo a história, ao norte, o autócrata do Kremlin brande ameaças, o presidente Yanukovych age com o distanciamento de potestades passadas, abraçando na própria ignorância o menosprezo da vontade do povo, enquanto as primeiras dissidências se abrem no partido situacionista, e as oposições, sob o látego da necessidade, se põem à frente das multidões que ocupam praças e palácios.

      Como isto vai terminar, só Deus sabe. Mas as idéias – e o projeto de liberdade – costumam ignorar, sobretudo nessas horas em que néscios pensam esmagá-las como se estivessem no dia-a-dia da rotina do poder, quando um valor mais alto se alevanta. A linguagem da História é difícil de deslindar e decifrar. Mas quando tal é possível, ai daqueles que, por soberbia, procuram ignorar-lhe os avisos.

 

(Fontes subsidiárias:  The New York Times, Folha de S. Paulo)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Rescaldo do Fim de Semana

                                   

Berlusconi tem algo a ver com Mensalão ?

            Com o seu habitual cinismo, Silvio Berlusconi quis comparar a própria expulsão do Senado com perseguição política.  A sua tentativa anterior de derrubar o gabinete de coalizão, encabeçado pelo jovem político da Esquerda, Enrico Letta, ao ensejo da confirmação definitiva da condenação judicial, já falhara miseravelmente.
           Agora a saída forçada de Palazzo Madama (a sede do Senado), ele tenta impingi-la como se fora  ‘perseguição política’. O cavaliere tenta demonstrar revolta – o dia é definido como “de luto para a democracia”, e para completar a encenação uma faixa foi colocada diante da suntuosa residência romana (Palazzo Grazioli), com os dizeres “É golpe de Estado”.

           Berlusconi, ao aprontar o que o italiano comum define como sceneggiata   (atitude artificial), há de motivar um número cada vez mais reduzido de partidários. Todos sabem que foi condenado pela Justiça italiana, depois de valer-se de todos os recursos e os melhores advogados.
           A sua própria fisionomia de canastrão não impressiona deveras, eis que nem ele logra transmitir a impressão de que esteja levando tais argumentos a sério.

           O interessante é que a sua tática defensiva tem muitas semelhanças com o escândalo do Mensalão, i.e., com os figurões petistas colhidos pela Ação Penal 470, que procuram passar para a sociedade a imagem de que são ‘perseguidos políticos’. Não se tem dúvida de que os braços levantados de José Dirceu e José Genoino são gestos patéticos, feitos para o grupo petista, assim como a mão levantada, com um vago aceno não se sabe para quem, do pluri-condenado Berlusconi, que com o seu partido Força, Itália, quer porque quer voltar à política, por motivos cada vez mais óbvios.
           A fábula de Berlusconi parece encaminhar-se para o fim de seu longo domínio sobre a política italiana. O populismo desvairado do Cavaliere, assim como os diversos episódios de corrupção hão de espantar no futuro, com a singela pergunta de como foi possível que um Primeiro Ministro e um líder relevante tenha carecido de fazer tantas, antes de ter a sua vitoriosa progressão enfim atolada no chavascal do continuado abuso de tudo – ou quase tudo – que um político não é suposto fazer.

 
Alemanha: de novo a grande coalizão.


             O principal obstáculo às negociações entre a Chanceler Angela Merkel, da C.D.U.,  e a liderança da S.P.D. (sociais democratas) estava no resultado negativo da última grande coalizão para esses últimos.

             Apesar de sua esmagadora vitória, a Merkel não logrou obter a maioria absoluta para o Bundestag (assembleia federal), o que ocorreu pelo malogro do F.D.P. (os liberais democratas), que não conseguiram superar a barreira dos 5%. Em consequência disso, os habituais sócios minoritários dos cristãos democratas morreram na praia. Dai a dificuldade em obter a concordância da SPD, e o longo tempo consumido pelas negociações interpartidárias.
             A principal exigência da SPD foi a da criação do salário mínimo (Euros 8.50 – R$ 26,35, por hora). Atualmente, cerca de 17% dos assalariados não ganham tal soma. Outras vantagens arrancadas pelos sociais-democratas são o compromisso de aperfeiçoar o sistema previdenciário e a concessão de dupla nacionalidade para filhos de imigrantes nascidos no país (os turcos são a principal minoria).

              A Chanceler declarou que manterá o controle das finanças, aumentando investimentos em educação, pesquisa e infraestrutura.
               Por exigência da SPD, será necessário que o acordo CDU-SPD para a grande coalizão seja referendado pelos 470 mil filiados dos sociais democratas.

               Se a coalizão passar por esta última barreira, o gabinete presidido pela Merkel terá 504 votos dos dois partidos (na verdade três, pois há também a CSU, que é a União Cristã da Baviera) dos 631 membros do Bundestag.   Tal votação que afinal dará  à Alemanha  um gabinete com o  referendo da maioria do Parlamento está marcada para 17 do corrente mês de dezembro.

 

(Fonte:  Folha de S. Paulo)

Cartas ao Amigo Ausente (XXVII)


 
                                                     

                                                 X X V I I

 

 

                Meu mui prezado e grande Amigo Pedro,

 

                essa nossa conversa – digamos à distância – começou numa saleta de apartamento de prédio sito à avenida Basilissis Sophia. Descobrira então fazia pouco que do largo balcão, entre o museu de arte bizantina e edifício sem outro atrativo que o de abrigar clube castrense, muito justamente defrontando a nossa temporária morada em Atenas havia um largo espaço de terreno – que para os ignaros pareceria baldio – onde estão as ruínas do Liceu.

                A coincidência era por demasiado feliz para que eu a calasse. Se os estudiosos da filosofia helênica se sói dividir em dois campos não necessariamente amistosos – os platônicos e os aristotélicos – e as diferenças entre o mestre e o discípulo tiveram as idades da história como palco, com várias peripécias marcadas pelo odium philosophum, não há negar que será sempre possível distinguir aprioristicamente entre os adeptos de uma e outra escola. Sem desmerecer do escolarca da Academia, a nossa preferência recaíu naturalmente sobre o Estagirita, ou aquele que por muitos séculos foi designado como o filósofo por excelência.  

                Por isso, ao ser inteirado da cercania, conseguiria em breve tempo visitar o local, na companhia de arqueóloga especialmente encarregada dos trabalhos de preservação do local, malgrado seja forçoso reconhecer que da antiga escola aristotélica, de sua colunata e palestra restam apenas indícios, dada a passagem dos milênios e a circunstância de haver abrigado até uma caserna.

               Dei-me pressa, no entanto, em transmitir por correspondência ao amigo – então acessível por correio comum – todos os elementos colhidos na visita, a que anexei recortes lá obtidos.  A dizer verdade, meu velho, o exame do antigo Liceu repete em escala menor a experiência havida com o quadro geral dessa difícil convivência. Em Atenas – no contexto da coexistência do antigo e do moderno, que se depara também em Roma - se carece, em diversos casos, de alguma imaginação e de muitos aportes eruditos do dedicado pessoal que cuida desse imenso parque arqueológico que consegue sobreviver, em luta desigual, contra a diuturna e multifária invasão da metrópole dita moderna.

               Receberia a tua resposta em breve prazo – e esta foi a derradeira correspondência que recebi do mestre. Decerto ainda conversaríamos quando de minha ida em férias ao Brasil. Se não é o caso de aqui repetir o que já foi dito, basta aduzir que o telefonema do Rezende eu o receberia no meu apartamento do Rio.

               Terá sido esta brutal interrupção – que mais sentimos porque pelas circunstâncias das jornadas da tua breve e fatal enfermidade não recebemos qualquer notícia do transe em que te encontravas.

                Não sabíamos – eu e Rezende – que já descias para o Hades. Caronte te esperava, com a tacanha ganância do meio óbolo, enquanto ignorávamos a tua tangida caminhada, para o mundo das sombras sem memória.

                Desta partida, só colhi indícios e acenos a posteriori, que para mim se resumem na tua inopinada questão em aberto, no que concerne ao destino dos teus livros.

                Se as queixas e as reminiscências podem, às vezes, vestir-se com os opacos panos das nênias e dos epicédios, não há grito mais roufenho, inda que inaudível, do que o marmóreo silêncio da tumba.

                Diante das divindades infernais, haverá algo a tentar? Quem dera...

                Na imensa sala de espera da vida, chega o tempo em que desaparecem enfermeiras e pacientes. Do esculápio, nem falar.  No seu jeito desabrido, enquanto os enfermos mais velhos dormitavam, partiu, mandou-se, sabe-se lá para onde.

                 Então, meu velho, não há mesmo nada a fazer. Só aguardar.

     

 

domingo, 1 de dezembro de 2013

Colcha de Retalhos A 44

                                      

Estará pronto o site da Assistência da Saúde?

      Depois de dar tratamento burocrático à abertura do site da assistência custeável para a saúde (ACA), a mais importante reforma introduzida por Barack Obama, a Administração empreende um rush final, para colocar a porta de entrada para a inscrição no Obamacare realmente disponível para os usuários, com a previsão de que possa receber 50 mil acessos simultâneos neste domingo, primeiro de dezembro. Serão indispensáveis nesse sentido diversas atualizações e reparações no software para o fim de semana.
     Contudo, para atender aos prazos de inscrição, muito ainda resta a ser feito no site Healthcare.gov, de custo agregado para o Erário no montante de US$ 360 milhões. Os aperfeiçoamentos se destinam a receber a antecipada caudal de pessoas interessadas em adquirir o seguro de saúde do governo. De acordo com os técnicos, sem as mudanças adicionais, o site na internet poderia sofrer disfunções (quedas) em períodos de utilização intensa.

    Este esforço incluíu duas suspensões no site. Para ensejar a instalação dos upgrades (aperfeiçoamentos), ele foi fechado por onze horas na noite de sexta-feira, 29 de novembro. Além disso, na noite deste sábado, 30 de novembro, houve interrupção em quatro horas de tempo extra, necessárias para a manutenção e os retoques finais.
    Diante da delicadeza da situação, a Administração evitou fazer campanha de marketing para dezembro, temerosa de que o site venha a cair diante de súbita elevação no tráfego. Não obstante, ao contrário da displicência burocrática anterior, o desafio da implantação do site teve cinco semanas de trabalho intenso, frenético mesmo, de que resultaram visíveis melhorias para esta câmara federal de inscrição.

    De 24, último domingo de novembro até a quarta-feira 27, cerca de vinte mil usuários lograram inscrever-se no plano de seguro, enquanto durante todo o mês de outubro menos de 27 mil tinham conseguido registrar-se.
    Sem embargo, o ritmo nas inscrições terá de aumentar e muito para atingir a meta fixada pelo governo Obama de sete milhões de inscritos em fim de março (esse número é o fixado pelos asseguradores para distribuir (spread) os riscos e manter baixos os preços do registro).

    Há poucos sites estabelecidos pelos Estados. A maior parte da incumbência recai sobre o site federal (abrangendo 36 estados), com dois terços da população estadunidense  que a ele carecem de recorrer. Essa situação se deve em parte à tentativa de boicote ao Obamacare de parte do Partido Republicano.
     Esse erro do GOP não deixará, no futuro, de criar-lhe embaraços  políticos, eis que salta aos céus a conveniência para o cidadão de dispor da proteção de seguro de saúde.

    Pelo ritmo atual – que é artificialmente lento e pode ser bastante melhorado com esforço tardio, mas intenso da Administração – haveria no prazo de março um total de 1,l milhão de inscritos. Verifica-se, por conseguinte, que a meta de sete milhões de registrados não seria de fácil implementação, se o site se ativesse à sua relativa lentidão atual.
    Contudo, há muitos motivos para crer que, com a progressão na qualidade técnica do site, esse número poderá ser alcançado e até mesmo superado.

      Muito dependerá do resultado do rush para que a avaliação da presidência Obama se recupere, e que as perspectivas para as eleições intermediárias de 2014 sofram uma virada no sentido do Partido Democrata.

   
Pesquisa do Datafolha

 
        Os resultados da segunda pesquisa presidencial do Datafolha depois da abrupta queda de Dilma para 30%, sob o choque das passeatas de junho último,  indicam a relativa recuperação sustentada da Presidente.  Agora o índice de aprovação de seu governo passa de 38% (outubro) para o 42% de agora.

        Dilma bateria todos os concorrentes já no primeiro turno, com a única exceção de Marina.  O esbulho sofrido pela Rede de Sustentabilidade continua, por conseguinte, a pesar e muito no resultado final.

       Enfrentando a Aécio Neves, os totais seriam de 47 % (Dilma) contra 19% (Aécio Neves - PSDB) e 11% de Eduardo Campos (PSB).  Já tendo Marina (26%), como candidata do PSB, a performance de Dilma cai para 42%, mantida a candidatura de Aécio, agora com 15% . Se o candidato do PSDB for Serra, Dilma teria  45% e Serra 22% ( Eduardo Campos manteria os 11%).
          Por fim, cenário relativamente melhor para a oposição está nas candidaturas de Marina (24%)  e Serra (19%), com 41% para Dilma, que é o seu menor percentual nesta pesquisa.

          Diante destes números, as seguintes conclusões se impõem: Dilma ganharia no primeiro turno contra Aécio (cujo candidatura não parece estar decolando) e Campos, e possivelmente contra Serra, quando teria 45% contra 22%.
          Com a inclusão de Marina (PSB?), os totais de Dilma caem para 42% e 41% (neste caso, com a agregação da candidatura Serra).

          Assinale-se, no caso de o PT resolver recorrer a Lula da Silva, ele venceria a disputa sem necessidade de recurso ao segundo turno, com os totais respectivos oscilando entre 52% a 56%.
          Há, por fim, nesta consulta do respeitado instituto Datafolha, um óbvio sinal amarelo para a atual Presidenta.  Dois terços dos consultados dizem preferir que “a maior parte das ações do próximo presidente seja diferente” das adotadas por Dilma Rousseff.

          Tal manifestação do eleitorado se afigura como séria advertência para a Presidenta, e constitui clara abertura a ser explorada por candidato(a) da oposição. A disponibilidade dos consultados de avalizar outros candidatos, desde que ofereçam um rumo mais conforme às aspirações populares não poderia estar expresso de modo mais evidente.

 
Para 2014, segundo Dilma, tudo será melhor

 
           Segundo noticia o caderno de Mercado da Folha, realizou-se reunião secreta no Palácio da Alvorada, para definir os rumos da política fiscal de 2014, e construir assim a “narrativa econômica” de seu governo para fins da eleição presidencial.
         Foram convocados para a reunião os ministros Guido Mantega (Fazenda), Aloizio Mercadante (Educação) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Industria e Comércio Exterior). Mantega foi, portanto, entre os ministros, o único convidado ratione materiae.[1] O prestígio de Mercadante cresceu muito, máxime em 2013, sendo usado para diversas incumbências que seriam mais da pessoa encarregada da Casa Civil. Por outro lado, Pimentel tem laços de amizade com a Presidenta, que já lhe valeram deveras como no caso das consultorias.

        É de presumir-se, igualmente, que esteve presente no conciliábulo o ex-Ministro do regime militar Antonio Delfim Netto, que tem exercido papel de conselheiro informal da Presidenta.  Quanto ao cumprimento em 2014, da meta do superávit primário – os sucessivos recuos na previsão do superávit para o corrente ano foram prejudiciais à imagem do governo Dilma, sobretudo no que tange à confiabilidade fiscal - parte de sua equipe econômica considera que apenas a Presidente da República teria credibilidade para convencer, de forma taxativa, o mercado de que, a partir de agora, a meta será cumprida.
        Essa tese vem sendo defendida pelo conselheiro informal Delfim Netto, como a única forma de proteger o país de o que chama de “tempestade perfeita” –rebaixamento da nota brasileira (por uma das agências classificadoras americanas) e a disparada do dólar, por causa do fim dos estímulos à economia dos EUA em 2014 (como se antevê seja a orientação de Janet Yellen, a provável nova presidente  do Federal Reserve Bank, a qual deverá suceder a Ben Bernanke na direção do Fed, após aprovada pelo Senado Federal.

           Em crítica indireta à equipe econômica – na qual o mercado não mais acredita quando o assunto é credibilidade fiscal – na avaliação do muy amigo Delfim Netto somente a presidente Dilma Rousseff tem confiabilidade e deveria usá-la para assumir uma meta neste patamar.
           Resta saber se dona Dilma acolherá o conselho do seu colaborador informal. Na avaliação do círculo palaciano o ano que vem será melhor do que 2013, por causa dos investimentos que serão gerados pelos leilões de concessão e porque, até junho, a inflação não deve ser problema.

           De acordo ainda com a reportagem – que presumivelmente reproduz as doutas opiniões das autoridades presentes na dita reunião secreta – o risco está concentrado em julho e agosto, quando a taxa anualizada corre o risco de subir, e isso exatamente nos meses que antecedem a eleição presidencial.

 
Manifestações anti-Yanukovych em Kiev

         Com a reunião da União Européia em Vilnius, na Lituânia, chegando ao fim – e com isso a possibilidade de que o presidente Viktor Yanukovych assine acordo comercial com Bruxelas – realizaram-se manifestações populares na capital ucraniana. Na primeira, houve intervenção da polícia, que bateu em diversos manifestantes.
         Em consequência, revoltados por estarem sendo impedidos de expressarem pacificamente as suas opiniões – e em especial o acordo com a União Europeia que o presidente Yanukovych desdenhou à última hora, optando pela participação na União Aduaneira do presidente Vladimir Putin, da Rússia – milhares de pessoas se congregaram pacificamente em praça central de Kiev, na manhã deste sábado.

         Além de protestar contra o cerceamento da opinião, enfatizado pela violência policial da véspera, o comício manifestou o próprio desagrado com a opção de Yanukovych por Moscou, que fecha a avenida que seria aberta pela assinatura do documento em Vilnius.

          Com isso também correm cinicamente pelo ralo os diversos e inconclusivos acenos do Presidente por uma associação mais estreita com Bruxelas, o que sinalizaria para o povo ucraniano um futuro mais ocidental e democrático, inclusive pela licença de afastamento do país da líder da oposição Yulia Timoshenko, que sofre no lazareto de Kharkov pelos efeitos de condenação politicamente motivada, feita sob medida de seu adversário Yanukovych, para dispor da via desimpedida para a ansiada reeleição.

          Enquanto isso, nesse modo oriental de neutralizar a antagonista – que sofre de sério problema de coluna – se inviabiliza o seu tratamento em hospital digno desse nome.

 

 (Fontes: The New York Times, Folha de S. Paulo)



[1] Em razão da matéria.

sábado, 30 de novembro de 2013

Má-gestão na Economia ?

                                        

         O governo da Presidenta Dilma Rousseff acumula erros na economia, apesar de suas declaradas boas intenções. Antes de percorrer o varejo de tantos equívocos, semelha importante perguntar sobre as causas da controversa e confusa performance.
         Pois Dilma Rousseff tem estudo e experiência na matéria. Em termos de energia, o seu curriculum mostra cargo político exercido no Rio Grande, não sem louvores. A par disso, Lula da Silva, seu criador, foi buscá-la nas Minas e Energia, onde a colocara, para substituir nada menos que o maestro do Mensalão, o então deputado e virtual Primeiro Ministro José Dirceu.

        Há a velha crença religiosa de que não se deve servir a dois senhores. Em termos de credo, este axioma é obedecido por panteísmo e monoteísmo. Assim, mesmo no panteon helênico, Zeus tinha a primazia. Se hoje memória dele só se consente nas ruínas de seus templos, o princípio foi abraçado por seus epígonos, por mais distantes e menos críveis que muitos deles ora se apresentem.
        Se a diarquia não subsiste na religião – este perene refúgio do homem em meio às tempestades - muito menos a lógica mais comezinha poderá admiti-la na governança da economia.

        Pois, malgrado todos os apodos e afrontas com que se visita a sombria ciência (dismal Science) da economia política, na definição famosa de Disraeli, primeiro-ministro inglês no século XIX, há regras firmes e inflexíveis nas suas aparentes incertezas.
        Ora, Dilma Rousseff e seus ministros (que na sua Administração estão bem próximos da servil etimologia do hoje altissonante vocábulo) muita vez dizem uma coisa e fazem outra, ou, o que dá no mesmo, enquanto a Presidenta professa a ortodoxia, por baixo do pano, ou nem tanto, inviabiliza os resultados que afirma perseguir.

        Isto veremos, na coisas mais comezinhas, ou nas mais complexas. O leitor que me honra com a sua atenção poderá isto confirmar na através de um sem-número de blogs.
       Deste modo, a Presidenta parece acreditar na mágica virtude da palavra, mesmo se não acompanhada de ação coerente e diuturna. No calor do pico inflacionário – causado pelo então manietamento do Banco Central e pela habitual gastança sem apoio fiscal –  convoca almoço no Planalto, cujo prato principal é o suposto combate à carestia. Contando com a boa-vontade de quem já sinalizou esta menção, permito-me a ela recorrer uma vez mais, eis que as constantes visitas podem tornar o próprio objeto mais cogente e relevante.

       Na verdade, tal episódio não é tão singelo quanto aparenta, e traz consigo uma lição permanente. Para tratar de luta contra a inflação, ela chama para convivas Antonio  Delfim Netto e Luiz Gonzaga Belluzzo! Está igualmente presente o favorito Arno Augustin. Nesse contexto, também as ausências são importantes: Dona Dilma não convida nem o seu discreto Ministro da Fazenda, Guido Mantega, e tampouco os únicos que têm o que mostrar no capítulo, vale dizer os artífices do Plano Real.
      No entanto,  a  Presidente Dilma Rousseff quer conciliar o inconciliável. Para tanto, ou recorre – como era seu hábito, quando o dragão ainda dormitava – a uma esgrima verbal contra a besta-fera, como se o flagelo de tantas décadas da economia brasileira tivesse medo de ocas e retóricas ameaças, ou num micro-gerenciamento desvairado, multiplica mesuras anti-inflacionárias, com um comportamento oposto, em que se favorecem as capitalizações (as mágicas não-fiscais que tanto agradaram a Lula), a inchação dos gastos correntes (com o desvairado empreguismo público), as mágicas fiscais e a imitação da contabilidade da companheira Cristina, viúva de Kirchner.

      Assim, de que serventia terá um superávit fiscal primário, que encolhe vexaminosamente? Também se ataca a Lei da Responsabilidade Fiscal, a chave da abóbada da boa-gestão econômico-financeira.  E a investida se agrava, pelo tratamento preferencial que se pretende dar à prefeitura ora sob os cuidados do companheiro e também poste de Lula, Fernando Haddad. Trata-se agora de redigir as leizinhas malignas que permitirão aos inadimplentes um tratamento que não foi – e por justa razão – dado àqueles que deveriam pagar as próprias dívidas, e não sobrecarregar a União.

     Multiplica-se em detrimento dos investimentos, seja a opção pelo consumo – com a sobrecarga dos cofres da União na subvenção a compras de eletro-domésticos – ou os subsídios à conta energética, sem falar na farra das térmicas (que não são exatamente ecológicas, com sua contribuição ao aquecimento global), sem falar das desonerações fiscais (verdadeira roleta-russa para os empresários) e o amadorismo clientelista, que a tudo perpassa no seu paranoico temor da resposta das urnas. Para tanto, se sobrecarrega o Estado com o peso de desvairado assistencialismo, cujo escopo é o de assegurar, pela coleira de enganosos benefícios, a preferência de inteiras regiões que torne dispensável o aleatório juízo de partidos e eleitores independentes.
                                                                                        (a continuar)

 

(Fontes subsidiárias:  O Globo, Folha de S. Paulo)