sábado, 7 de julho de 2012

Bashar al-Assad : o começo do Fim

                          
       Nem as duas alianças – a de Vladimir Putin com os seus vetos no Conselho de Segurança e a do hierarca Ali Khamenei, com os seus fundos – logram estancar a sangria do tirano Bashar.
      Se o número de mortos – que há tempos ultrapassou os dez mil – continua a empilhar-se, outra estatística vai crescendo. No entanto, ao contrário das macabras contas, com a sua carga de chacinas, atrocidades e crimes contra a Humanidade, esses números são promissores, ao acenarem para o começo do fim do regime.
      Na sua imortal oratória, quem primeiro cunhou a antinômica expressão fora o Primeiro Ministro Winston L.S.Churchill, após a longa noite do predomínio bélico nazista. Então, mudavam os ventos da guerra, e as forças do Eixo encetavam o caminho de inexorável retirada.
      As fatalidades que hão de levar Bashar al-Assad para o Tribunal da Haia não são decerto comparáveis às hecatombes da segunda guerra mundial, mas as suas muitas vítimas clamam igualmente por justiça, sob os destroços das próprias casas, nas mesas dos necrotérios, nos porões das masmorras com suas hediondas torturas e nos vastos campos do combate sem quartel pela liberdade e contra a tirania.
      Não é literária metáfora que os ratos e as ratazanas abandonam as embarcações – tanto os modestos, esquálidos pesqueiros, quanto os reluzentes navios de cruzeiro, com os seus incontáveis conveses – quando elas principiam a adernar sob o fatídico peso do naufrágio anunciado. É uma espécie de tropel de lemingues, mas às avessas, pois não buscam o penhasco da morte, correndo sob o chicote do instinto de sobrevivência.
     Assim, a figura do general de brigada Manaf Tlass, embora seja pessoa da intimidade do ditador, nos traz sinais de bom agouro, por causa de sua fuga para a França. A importância do gesto está na sinalização de que o horizonte de Bashar se enegrece mesmo para as lentes do seu círculo de amigos e apadrinhados.
     O pai de Manaf, Mustafa Tlass – a família é sunita - foi por longo tempo Ministro da Defesa do regime alauíta. O general Tlass, que pertencia à Guarda Republicana, já se afastara do serviço ativo, por discordância no que concerne às mortes de sunitas.
     A deserção de Tlass pesa mais pelo que prenuncia. Companheiro de estudos de Assad na escola militar, ele ajudara na organização da ascensão de Bashar ao poder, em 2000, quando morrera o pai, Hafez al-Assad. É a primeira personalidade a abandonar Bashar. Está na dianteira de uma tropa de anônimos soldados do exército sírio, que estão cruzando a fronteira com a Turquia.
     A fuga de Manaf Tlass foi saudada pela Secretária de Estado Hillary Clinton, na reunião em Paris do Grupo de Amigos da Síria: ‘as pessoas de dentro do regime e das Forças Armadas começam a mostrar seu desagrado’.
     Nessa oportunidade, Hillary verberou a posição de Rússia e China, pelo seu auxílio ao ditador sírio, inclusive através do bloqueio da atuação do Conselho de Segurança.
     Se são sabidas as limitações dos regimes que procuram sustentar-se pelo fuzil, também é conhecida a dinâmica da revolução.
     A observação da travessia de Bashar al-Assad desde que a primavera árabe soprou em sua terra condensa todo um manual dos fenômenos revolucionários. Das incipientes manifestações às enganosas promessas do déspota de reformas, do crescimento dos protestos, a princípio pacíficos, a irradiar-se da cidade sulina de Deraa, e a repressão cruel e covarde dos esbirros do poder, com seus atiradores ditos de elite (snipers), a gradual perda de credibilidade do palácio, com os seus acenos de paz para um povo mobilizado, a que se contrapunham ações de traição, com sevícias, torturas e os primeiros bombardeios.
     Ao seguir a senda da repressão, Bashar embarcou no carro de Muammar Kaddafi, como o cartunista  Ali Ferzat indicara no seu traço veraz,  pagando por isto com a quebra das mãos. A jornada prosseguiu, com a generalização da revolta, atingindo os espaços oficiais até então preservados, de Aleppo e Damasco. Apareceu igualmente a confraternização entre a tropa de conscritos e o povo, mais outro fenômeno característico da progressão inarrestável da revolução.
     Agora, a defecção do general Manaf Tlass nos sinaliza que o processo, malgrado a carantonha de gospodin Vladimir Putin e do solícito apoio dos gerarcas da ditadura chinesa, ganha em velocidade inercial.
     As horas do relógio de Bashar soam  mais cavas e ominosas. O cerco internacional se aperta sempre mais, e se entreolham os seus minguantes aliados quer internos, quer externos, enquanto paira sobre eles a inquietação da ruína. Há os que podem desertar, e os que se descobrem abandonados à própria sorte.    
     É momento difícil, nada invejável, quando as Erínias afinal acenam apossar-se de sua presa.




( Fontes: CNN e Folha de S. Paulo )

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Notícias do Front (24)

                                   
Relatório final sobre o voo AF-447       


      Não é muito tranquilizante o relatório do Bureau Francês de Investigação e Análise sobre o desastre do voo AF-447, na rota Rio de Janeiro – Paris, na noite de primeiro de junho de 2009. O Airbus A330 transportava 228 pessoas (entre passageiros e tripulantes). Havia entrado na chamada Zona de Convergência inter-tropical. É área de baixa pressão atmosférica e ali se chocam os ventos procedentes dos dois hemisférios. A aeronave da TAM que seguia na mesma rota optou por contornar a área em apreço. Por sua vez, na sua fatídica escolha de rota,  todos morreriam na queda de barriga ,no oceano, do Airbus da Air France.
     Depois de quatro longas buscas, a despeito da grande profundidade do oceano no sítio do acidente, foi possível localizar a maior parte dos destroços da aeronave, assim como a maioria dos corpos.  As caixas pretas com a gravação das vozes da cabine de comando, e o gravador dos dados do voo só foram recuperados do abismo oceânico em maio de 2011.
     Os problemas do AF-447 se iniciaram quando os tubos pitot – que formam sistema utilizado para determinar a velocidade de voo – tiveram os sensores bloqueados por cristais de gelo. Com esta falha, desconectou-se  o piloto automático. Embora o relatório não trate precipuamente de apontar a responsabilidade pelo desastre - que está sendo objeto de um inquérito judiciário independente - o relatório não deixa de assinalar que os pilotos não souberam como reagir diante do que estava acontecendo e para o qual não tinham sido treinados.
     Segundo o relatório, ‘a ocorrência da falha no quadro de um voo de cruzeiro surpreendeu por completo a tripulação’. Nesse sentido, os pilotos manipularam de forma excessiva os comandos da aeronave, o que desestabilizou a rota de voo e provocou ulterior série de confusas leituras. ‘No primeiro minuto após o desligamento do piloto automático, o fracasso da tentativa de entender a situação e a quebra (disruption) na cooperação da tripulação tiveram um efeito multiplicador, induzindo à perda total de controle cognitivo sobre a situação.’
     O Airbus 350 entrou em um contínuo stall[1], o que foi sinalizado por um aviso gravado, a par de movimentos bruscos da aeronave (buffeting).
     Malgrado tais persistentes sintomas, a tripulação nunca entendeu que se achava em situação de stall, e por isso não tomou as providências pertinentes. A resposta dos pilotos foi acionar os comandos para elevar o nariz da aeronave, ao contrário de abaixá-lo, de forma a que recuperasse a sustentabilidade.
     O relatório conforme divulgado não trata da ausência do comandante quando a crise se manifestou, com o desligamento do piloto automático. Em espaço de tempo de três minutos e meio – a duração da queda do Airbus – ele foi chamado de urgência, mas pelo visto, além de gritar para os co-pilotos a iminência do desastre, não teve tempo útil para tentar controlar a situação. Assinale-se que nenhum aviso foi feito para os passageiros.
         O relatório leva a interpretar que o acidente foi causado pela falta de treinamento dos pilotos para uma situação de desligamento do piloto automático. Traumatizados por processo bastante rápido – e agravado por manobras inadequadas – sem conhecimento de crises como a configurada na altitude de 38 mil pés, a sua atabalhoada reação foi instrumental para a ocorrência do desastre, que, no entender do especialista Richard Quest, da CNN, ‘nunca deveria ter acontecido’.
         Foi a chamada falha humana, a que colaborou  equipamento já sabido como passível de deficiências, como de fato ocorreu com os sensores  pitot, para medir a velocidade do avião.  



Cresce o Autoritarismo na Ucrânia   


      Se o certamen da Copa Europeia, realizado por Ucrânia e Polônia, não rendeu para o governoYanukovich os esperados benefícios, por causa da perseguição judicial à chefe da oposição, Yulia Timoshenko, há outros acontecimentos que tendem a afastar a Ucrânia de maior integração com a Europa ocidental e democrática.
      Com efeito, a aprovação de afogadilho em  sessão noturna do Parlamento do russo como segundo idioma do país está na contramão de suposta tendência de aproximação com Bruxelas.
     Decerto a aprovação do russo também como língua oficial debilita um elemento importante para o reforço da nacionalidade ucraniana. Em diversas regiões do país o russo constitui a lingua franca. Se para os assuntos oficiais em diversas áreas administrativas os ucranianos podem utilizar o russo, não há o consequente incentivo para que em diversas regiões os habitantes tenham de empregar o idioma nacional.
    Dado o caráter permissivo da nova legislação – o russo ganha status  regional se 10% da população na área o emprega como língua materna - , será previsível o prejuízo a ser provocado para o nacionalismo ucraniano.
    Aprovada em sessão noturna, sem que muitos dos deputados sequer ouvissem a convocação, as características do processo levaram o presidente do Parlamento a renunciar. Para que o referido projeto se torne lei, carece de ser assinado pelo Presidente Viktor Yanukovich (o que não semelha em dúvida), mas também pelo presidente da assembleia, Volodymyr Lytvyn. Como este último renunciou, a validade da lei ficaria pendente da segunda assinatura.
    É difícil entender o que almeja o Presidente Yanukovich. Os seus esforços para aproximar-se da União Europeia, ele próprio os tem inviabilizado por práticas ditatoriais, como a perseguição judicial à líder da oposição e agora o enfraquecimento de um dos símbolos da nacionalidade, que é o de dispor de idioma próprio de uso corrente por toda a população. 
    Acenando para Bruxelas, Yanukovich no entanto se vai acercando dos vizinhos Vladimir Putin na Rússia, e Aleksandr Lukashenko, na Bielo-Rússia. Como política é paradoxal, e tende a reforçar a interpretação de que entre os ganhos da abertura comercial e a alegada segurança da via autocrática, prepondera em Viktor Yanukovich o apego ao poder discricionário que ora exibem, em gradações diversas, os dois regimes do Leste.
 


As muitas razões do apoio de Putin a Bashar al-Assad


        O New York Times faz considerações interessantes sobre os motivos da sustentação de Vladimir Putin ao Presidente da Síria. A análise semelha importante, porque se tal não apoio inexistisse, outra seria a situação em Damasco.
         É sobejamente conhecida a antiga aliança  entre Damasco e Moscou. Ela se traduz em intercâmbio de monta para a Síria, sendo a Rússia a principal fornecedora das forças armadas do regime alauíta. A base naval de Taurus, no Mediterrâneo oriental, tem particular relevância para o Kremlin, por ser a única da marinha de guerra russa em águas quentes.  Escusado notar que tal base é a jóia da coroa na relação russo-síria, com importância estratégica para a Rússia.
         Para a sustentação dada por Moscou a Damasco, a edição internacional daquele jornal aporta outro argumento para o apoio de Putin a Bashar al-Assad. A especial visão geopolítica do Kremlin, em que líderes pró-Moscou foram afastados nas revoluções coloridas do início dos anos 2000, em favor do Ocidente, só acentuou a desconfiança de Putin com tal suposta interferência. Essa postura dataria das lutas na Europa oriental em prol da democracia, e do afastamento da então suzerania soviética.
        Consoante tal interpretação, o jovem Putin defendeu o quartel-general da KGB em Dresden contra sublevadas multidões alemãs. Essa postura só se exacerbou com as chamadas ‘revoluções coloridas’ do novo milênio. Dentro desse enfoque reducionista, a liderança russa viu os levantes árabes não como produto de mudança social, mas como produto da interferência de Ocidente, com o intento de atingir a Rússia.
       Com a queda de Muammar Kaddafi, atribuída por Moscou aos bombardeios da OTAN e a licença concedida pelas Nações Unidas, o governante russo cuidou que o ‘erro’ anterior não se repetisse no que tange ao amical regime alauíta.
      Sem embargo, o próprio Vladimir Putin e o seu Ministro do Exterior Sergei Lavrov são realistas. Se o apoio a Bashar al-Assad estará contingente à realidade no terreno – e são múltiplos os sinais contrários – o Kremlin tudo fará para que a transição seja a mais lenta possível.
      Em termos de Realpolitik Moscou se aferra ao antigo aliado, com quem tem relação político-estratégica de mútuo interesse. No entanto, Putin conhece o seu manual e não ignora o que possa significar estender demasiado a corda, para um regime agônico.  
       Como assinala o jornal, é uma árdua escolha. Nela pesa a experiência da juventude, em que, há duas décadas, cercado por multidões hostis, o atribulado agente da KGB  passara dias difíceis no quartel-general em Dresden, a queimar papéis que representavam anos de trabalho.




( Fontes: O Globo, International Herald Tribune )



[1] Fenômeno físico, em que a aeronave perde sustentação e inicia a queda.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O Claro Enigma da Morte de Arafat

                   
         O líder do Povo palestino, presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), símbolo da luta dessa nação pela dignidade e independência, foi transportado de urgência, em 29 de outubro de 2004, acometido por mal indefinido, da sua virtual prisão, na Muqata, o complexo presidencial de Ramallah, para o hospital militar de Percy, na região parisiense.
         Treze dias depois, onze de novembro, Yasser Arafat viria a falecer. O corpo médico do nosocômio francês foi de extrema discrição. Mais tarde, vazariam para a imprensa o que seria a causa mortis. O documento de quinhentas páginas apontava causas naturais para o óbito, após acidente vascular cerebral antecedido de infecção e hemorragia.
          Na trágica história palestina, a travessia desse personagem carismático, tão ligado a partir dos anos sessenta ao al-Fatah e à O.L.P., constituía a epítome de uma longa caminhada,  iniciada pela retomada do controle sobre o respectivo movimento, e que passara pelas estações da luta armada, do terrorismo, até admitir a solução pacífica através de acordo justo com os inimigos da véspera. Nesta segunda fase – que foi  uma das grandes oportunidades perdidas – se nos depara a cerimônia da assinatura dos Acordos de Oslo nos jardins da Casa Branca, e o aperto de mão de Yitzak Rabin e Arafat, na presença de Bill Clinton, o então Presidente dos Estados Unidos.
           As esperanças do processo de paz, que luziam fortes naqueles dias, iriam ser consumidas pela praga continuada dos assentamentos ilegais de colonos, que a inexperiência dos delegados palestinos não soubera atalhar, e que Rabin e Shimon Peres toleraram.
          A direita israelense, ávida de terras, representada por Ariel Sharon, após o derradeiro fracasso em Taba de um entendimento abrangente, nos dias terminais do governo Clinton – que Arafat teria recusado pela questão dos refugiados – levou à saída de cena do governo de Ehud Barak.  Antes, e não por sua própria vontade, desaparecera Rabin, abatido por assassino da extrema direita israelense.
          Sharon não tardaria a assumir o governo.  Com ele vieram as provocações que levaram a uma nova Intifada, e o muro, que procurava tornar ainda mais  prisioneira a Nação Palestina.
         Tampouco surpreende que, da cordialidade de Clinton, Arafat se deparasse doravante com a frieza do novo Presidente, George W. Bush. Enquanto a estranha relação clientelar entre Washington e Tel-Aviv se estreitava ulteriormente, na prática Arafat se tornaria um pária para a dupla Bush – Sharon. Não mais teve abertas as portas do salão oval da Casa Branca, enquanto o chefe do governo israelense, Ariel Sharon o transformou em autêntico prisioneiro, na Muqata de Ramallah.
          Nada mais próprio para esses olhos hostis a um líder nacional que, de solução para a questão palestina , se transmutasse em obstáculo. Tentaram demovê-lo por um acosso permanente na  cidadela de Ramallah, impedido de viajar, e com intentos repetidos de inviabilizar a administração do arquipélago de bantustans em que se metamorfoseara a não-ocupada margem ocidental do Jordão e a Faixa de Gaza.
        O longo padecimento do presidente da Autoridade Palestina, um virtual cativo de poderes que o julgavam um estorvo para a consecução dos fins do general Sharon, e da maioria do povo israelense. Arafat se metamorfosearia em um estranho mal, que a prevalente precariedade no inferno de Ramallah já faria presumir como  fatalidade anunciada.
       O configurado claro enigma que caracterizaria o passamento do heróico símbolo da nacionalidade palestina desde a sua morte agora terá encontrado o princípio de resposta, há muito suspeitado pelo seu sofrido povo.
      Hana Ashrawi é uma respeitada ex-ministra e membro da Organização para a Libertação da Palestina. Ela declara: ‘A suspeita  de que ele foi morto, deliberadamente assassinado sempre lá esteve. A maioria dos palestinos acredita nisso. Eu acredito porque estive lá, porque o vi, presenciei a transformação’.
      A autorização ora dada pela viúva Suha possibilita, a instâncias da rede tv al – Jazeera, o exame dos pertences pessoais de Arafat, usados nas semanas que antecederam  sua morte. Aí foram identificados indícios remanescentes de irradiação com a substância radioativa polônio-210.
      O contato com este gás venenoso é mortal para o ser humano. Em 2006, apesar de internado em hospital londrino, o espião russo  Alexander Litvinenko – e opositor do governo de Vladimir Putin – faleceria sob os efeitos devastadores do polônio 210.
      Como os registros do hospital de Percy omitem qualquer referência ao gás, e referem causas naturais para o fim de Arafat, a exumação do corpo, inumado na Muqata, teve a concordância da viúva. O Presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas ordenou, em consequência, investigação para apurar as causas da morte de Yasser Arafat, com a interveniência de peritos árabes e estrangeiros.
      Em decisão concomitante, anunciou Abbas que pedirá ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que determine a abertura de investigação internacional nos moldes da efetuada no Líbano, ao ensejo de outro magnicídio, com vistas a apurar as circunstâncias do assassínio de Rafik Hariri.
      É de esperar-se que o procedimento a ser instaurado corra com mais rapidez e menos dilações do que o do Líbano, e que a verdade possa afinal ser conhecida em  toda a sua extensão e implicações.
      Na árdua caminhada do Povo Palestino, a luz da verdade – que às vezes tarda muito, mas que, de uma forma ou outra sempre aparece  -  pode representar uma última contribuição do velho líder à causa da justiça e da plena independência do Estado da Palestina.



( Fontes:  CNN,  O Globo )       

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O Mercosul e o Subdesenvolvimento


        As últimas peripécias no Mercosul me fizeram relembrar frase ouvida de colega já há bastante tempo, em que, a propósito de um reclamo de representante platino, sentenciara nada haver de seguro no subdesenvolvimento.
        Os anos passam e se por vezes trazem o benefício da experiência para alguns, não raro o tempo não será equânime para outros. Tal será ainda mais provável se persistir a mentalidade subdesenvolvida a despeito de sinais exteriores de riqueza.
       Com a vantagem dos dias transcorridos, o que se acoimou de ‘golpe legislativo’ no processo político que culminou no impeachment de Fernando Lugo – e não há negar que tudo foi demasiado rápido, não se dando sobretudo ao Presidente o tempo necessário para preparar a sua defesa – a retribuição de parte de Rousseff e Kirchner não parece muito diferente na esfuziante brevidade.
      Reclama-se - e com razão - do Congresso paraguaio. Sem embargo, em que difere a reação dos países dominantes do Mercosul ?  A justiça não casa bem com a extrema celeridade. Os magistrados – e bem o fazem – sóem examinar os assuntos contenciosos com a devida prudência. Tal característica em geral pressupõe um especial cuidado em não proceder a toque de caixa. A pressa, dizem os nossos maiores, é a inimiga da perfeição. Vejam no caso no que deu o afobamento do Congresso paraguaio.
     O Mercosul, fruto do bom senso dos então governantes no Cone Sul, e sob o impulso de Brasil e Argentina, vem avançando com as dificuldades próprias do subdesenvolvimento. Se nos seus mais de vinte anos não crescera em número de membros, tampouco enfrentara problemas da gravidade dos últimos dias.
     Apanhados de surpresa, os demais membros do Mercosul mandaram às carreiras para Assunção delegação de ministros das relações exteriores. Só o futuro dirá se o instrumento diplomático foi o adequado para lidar com o desafio.  Mal preparada  a empresa teve o resultado que acompanha tais tentativas, i.e. o malogro.
    As semelhanças entre os dois processos continuaram a manifestar-se, sobretudo no afogadilho que presidiu às decisões lá e cá.
    A respeito,há algumas perguntas que carecem de resposta. O Mercosul é um organismo que pretende ser sério, formado por quatro países fundadores. Firmado por tratado e submetido a normas e rituais, causa espécie a fulmínea rapidez da suspensão de um dos seus membros. Acaso a questão não deveria ter sido tratada com a atenção e o cuidado que o assunto requer ? Por outro lado, a plena titularidade dos membros respectivos se assinala pela fragilidade evidenciada nos prazos, como verificado no caso do Paraguai e seria também aplicável, se pertinente, aos demais membros, inclusive os de maior peso econômico como Brasil e Argentina ?
     Mas os problemas motivados pelo açodamento do parlamento paraguaio não param por aí. De forma quase concomitante, e valendo-se na aparência da ocasião oportunista, similar velocidade foi empregada para abrir as portas do Mercosul para o companheiro Hugo Chávez, que solicitara faz muito participar do organismo, em caráter de membro pleno.
     Na Inglaterra, uma das censuras que se fizeram a Cromwell, o Lord Protector, foi o de valer-se do Rump Parliament[1] e dos  parlamentos que se seguiram para forçar a aprovação de disposições do interesse do Protetorado. Nesse contexto,  terá sido porventura apropriado decidir pela admissão da Venezuela, malgrado a oposição do Paraguai ?
    Surpreende, a propósito, que o motor principal de valer-se da feliz conjunção entre a compulsória ausência paraguaia e a continuada vontade de Chávez foi acionado pela companheira Dilma Rousseff ? Para tanto, a Presidenta empregou no exterior o seu mandonismo de que se vale no gabinete do Palácio do Planalto.
    De saída, afastou os pobres chanceleres da reunião, sob a desculpa de ser política a motivação do conciliábulo. Política ? E não são acaso políticas todas as agendas dos presidentes ?
    Dona Dilma preferiu conversar com os restantes membros en petit comité, sem a presença de quaisquer assessores. É um direito seu, dirão, para um problema delicado como este – que a fizera trazer o Advogado Geral da União, Luiz Inacio Adams,  para dissipar inquietudes jurídicas – mas cabe indagar se não seria mais conveniente ter à disposição o conhecimento indispensável,  que um chanceler poderia disponibilizar.
    Sabemos agora o porquê do empenho em restringir a participação na reunião. O Ministro das Relações Exteriores do Uruguai, Luis Almagro, afirma que o ingresso da Venezuela no Mercosul só ocorreu por causa da intervenção de Dilma Rousseff.
      E, não obstante as tentativas de desmentir o modus faciendi da entrada na bruta do companheiro Chávez, o Vice-Presidente do Uruguai, Danilo Astori, a condenou, chegando a verberá-la como uma ‘ferida institucional’.
     Será que é indispensável perguntar se o companheiro (e Presidente) José Pepe Mujica, deixado sozinho, não terá  podido obtemperar com firmeza aos irresistíveis argumentos da Presidenta em prol do companheiro e muy amigo Hugo Chávez ?
     Nessa caixa de surpresas, a discrição de Cristina Kirchner  - que tantos sinais de amizade política recebeu no passado do líder da Alba – parece comovente.
    E na próxima eleição do presidente paraguaio, o Brasil – com tantos interesses comuns que partilha com o país mediterrâneo -  o que deverá esperar em termos de suas  relações com Assunção ?
     Valerá a pena desgastar-se tanto para ter companhia tão problemática e tão incerta quanto a do companheiro Hugo Chávez Frias ?




( Fontes:  O Globo, Folha de S. Paulo )      



[1] em tradução livre, o que restou do parlamento, depois de cassados muitos de seus membros.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Entropia Brasileira

                                             
         Qual o futuro do Brasil ? Seremos a grande Nação de que a mídia – a versão moderna dos profissionais do otimismo – nos fala com interesseira insistência ?
          No atual revisado oba-oba, que é o longínquo legatário do ufanismo quiçá simplista do Conde de Affonso Celso e das elogiosas visões de estrangeiros como Stefan Zweig, não entrevemos o largo gesto da convicção desinteressada de outrora.
          Hoje, os profissionais do patriotismo – aqueles que se enquadram na imortal correlação dada pelo Dr. Samuel Johnson[1]-  ou se aninham nos altos escalões da administração, ou atuam no setor de comunicações que referi acima. Esse tipo de locutor mais parece animador de auditório. Insufla as ilusões mais descabeladas de sua audiência, aferrando-se às supostas excelsas qualidades do objeto de seus encômios, até o momento em que sente mudar o humor do público, a que tratará de prontamente associar-se.
         Quanto aos altos funcionários, acreditam oportuno jamais se despojar das róseas lentes do Dr. Pangloss[2]. Se são igualmente profissionais do otimismo, a que se agarram com a ênfase dos afogados, a sua dúplice motivação difere da outra postura. Assim, para eles o otimismo será tanto um álibi, a preservá-los da raiva imediata da sociedade, quanto fulgurante meta a jogar o problema para um porvir mais afastado, que só eles logram distinguir.  
        Na verdade, se chovem as magníficas previsões, o observador desinteressado tende a ficar perplexo com a desconexão entre o confortável quadro de uma grandeza futura –  alguns chegam ao desplante de anunciá-la como já presente – e contraditória realidade, em que proliferam inquietantes fenômenos.
        Estamos em ano de eleição, o que costuma, para os enxovalhados cofres do Erário, representar ocasião de destrambelhadas ‘bondades’. Noticia a imprensa que mais cinco mil e setenta vereadores serão eleitos em outubro vindouro. De nada valeram as tentativas na justiça de manter os edis em seu número presente que, em geral, são mais do que suficientes para atender as necessidades dos municípios respectivos.
        A  atividade que para muitos deveria ser ad honorem (como era o mister político no passado), se oferece  irresponsável oportunidade de inchar ainda mais as vereanças, a que se atribuem gordas remunerações (a par da desfaçatez de mimosear os edis com carros de luxo, como se tentou na Gaiola de Ouro do Rio de Janeiro). No estado do Rio de Janeiro, tal vergonha se descobre maior do que as de outras cãmaras municipais.
       Como definir o aumento dos vereadores em Friburgo e Teresópolis ? A tragédia serrana do ano passado pôs a descoberto a falta de medidas dessas corporações que, não só nada fizeram para prevenir ou minorar os efeitos da calamidade, mas também, segundo exposto pela imprensa, malbarataram em muitos casos a ajuda vinda de toda parte do Brasil.
       Em comunidades parcas de recursos – e mal servidas pelos governos federal, estadual  e municipal – parece o cúmulo da  insensibilidade, ao invés de privilegiar obras necessárias  para defender as cidades de desgraças no futuro, se cogite no desvio de minguados haveres para cevar um parasitário – em grande número de casos -  corpo de edis.  
       Surpreenderá acaso que Câmara e Senado se prestem a tal espetáculo, e que alegremente aprovem dotações e mais dotações em que o fisiologismo – esse parente próximo do alienado corporativismo – concentre verbas cujo emprego, em um país sério, se voltaria para dar aos flagelados de mãe Natureza as obras indispensáveis para assegurar-lhes uma melhor e mais digna existência.
       Por outro lado, o Congresso das quartas-feiras só semelha pensar em aumentar a respectiva remuneração. Seria interessante determinar a admiração e o respeito que a atual direção do Senado Federal -  José Sarney – e da Câmara Federal – Marco Maia colhe junto à opinião pública.
      Quais as notas que daria a sociedade civil a tais personalidades ? De Sarney sabemos, por cortesia de Lula, que ele não é um homem comum, o que pode deixar intrigados os constitucionalistas, mas que decerto implicou para quem interessar possa mensagem de brutal (e salvadora) franqueza.
      Quanto ao deputado do PT gaúcho, talvez por ser não tão acintosamente veterano quanto o oligarca maranhense, debalde se busca colher indicações no que tange ao respectivo significado do personagem.
      Em todo esse quadro, é preciso não esquecer a presença da Presidenta (como ela gosta de ser chamada) Dilma Rousseff.
      Sei que a Presidenta se encarrega da faxina no seu ministério. Se ele continua congolês na sua disparatada inchação, pelo menos – com a exceção do amigo Pimentel – os demais envolvidos em malfeitos foram afastados.
      Resta aos muitos remanescentes tremerem nas audiências privadas, por ser terrível a ira da Chefa. Até o momento não transpirou que a gritaria da Presidenta haja batido contra um isolado rochedo de dignidade republicana.
     Enquanto disparam as suas avaliações, não seria o caso da Primeira Magistrada da Nação usar o seu prestígio para atalhar essa farra de gastos inúteis em remuneração de congressistas já gordos bastante, como paga do pífio trabalho que fazem em prol da comunidade das pessoas que têm semanas de cinco dias úteis ?
    Onde está essa liderança que tanto aparece nas pesquisas, mas que ignora a incômoda manifestação de entropia a repontar por toda parte ?



( Fonte:  O Globo )  





[1] O patriotismo é o último refúgio de um patife.
[2] Personagem otimista do romance Candide, de Voltaire.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Rescaldo da Semana

                                        
 Guerra civil na Síria ?


      Já nasce sem perspectivas o acordo costurado pelo enviado Kofi Annan para pôr em marcha a transição política na Síria. O artificialismo do texto  sequer menciona a participação ou não de Bashar al-Assad e outros integrantes do regime alauíta.
      No caso do Plano de Paz para a Síria, o próprio Annan teve de reconhecer seu fracasso na tribuna da Assembleia Geral. Por imposição russa não se toca na  figura do ditador.
      O imobilismo de Putin impede que se remova a causa principal da virtual guerra civil a alastrar-se pelo território sírio. Ao inviabilizar qualquer recurso com o aval supranacional do Conselho de Segurança pode estender a vida de um regime por um tempo imprecisado. No entanto, o autocrata do Kremlin se engana quanto a sua capacidade taumatúrgica de manter o amigo Bashar no poder.
      Se as mortes aumentam – o macabro marco das dez mil vítimas desde muito foi ultrapassado – o aferrar-se a uma estrutura de que os indícios de colapso avultam, pode ao cabo deixar Moscou sem a base naval em Taurus.
      Por outro lado, o bombardeio que atinge Damasco, a explosão de uma tevê pró-regime e a notícia, ainda não confirmada, de que os rebeldes aprisionaram dois generais, traz um odor  de derrocada, ou de princípio do fim.
     A extrema rigidez de gospodin Vladimir Putin ameaça fazê-lo engolir solucão bastante mais amarga, do que há algumas semanas atrás.
    Assombra, por outro lado, que o experiente Kofi Annan continue a associar o seu nome a textos vagos, que não afrontam o problema. A essa altura do enfrentamento, soa falsa a declaração do ex-secretário-geral das Nações Unidas de que o conflito deva ser resolvido através da negociação pacífica.
    Com a exacerbação das mortes – 93 civis mortos no dia anterior – é de perguntar-se para quem Kofi Annan se está dirigindo.


Mercosul: O que é feito da diplomacia brasileira ?  


    O Itamaraty está atravessando mares encapelados na  crise do Paraguai, com o impeachment de Fernando Lugo, e os consequentes problemas no Mercosul. No passado, sob os mais diversos regimes, a Casa de Rio Branco, depositária de uma política externa secular soube conviver com e resolver árduas questões.
    A premissa básica para que tal missão haja sido cumprida a inteiro contento reside precipuamente no entendimento de pacta sunt servanda (os tratados devem ser cumpridos), a par de profissionalismo baseado no conhecimento do mister e, last but not least, o Itamaraty trata de assuntos de Estado, e não da promoção de projetos politico-partidários.
    Essa característica central de nossa diplomacia, pelo mérito e a competência, na defesa dos interesses nacionais sempre mereceu a aprovação da sociedade civil, e o respeito dos países com quem mantemos relações, a começar pelos nossos vizinhos sul-americanos. Essa tradição itamaratiana foi instrumental para que a Casa de Rio Branco tivesse a missão facilitada pelo reconhecimento de seus títulos como defensora do interesse nacional, que está colocado acima das conveniências e das vaidades partidárias.
    Não é o que deparamos hoje na leitura dos jornais. A propósito da crise – porque de crise se trata - o editorial de O Globo deste domingo se refere  à  “Trajetória decadente do Itamaraty”. Por outro lado, o jornalista Elio Gaspari, na Folha de S. Paulo também de domingo, sob o título “Dilma deveria pedir uma aula a FHC”, se reporta a  episódio em que a discreta intervenção diplomática brasileira pôde resolver uma questão paraguaia que se mal conduzida poderia criar situação contrária ao interesse nacional brasileiro.
    Não é incomum encontrar em pessoas com superficiais conhecimentos de diplomacia a impressão de que a  competência do Ministério das Relações Exteriores seria, na verdade, sobre assuntos de fácil solução. Não é o que  ensinam  nosso patrono, o Barão do Rio Branco, nem os diplomatas da diplomacia do Império, para não falar da personalidade de Alexandre de Gusmão, o secretário de D. João V, e o cérebro do Tratado de Madrid, que riscou as fronteiras do Brasil moderno. Como paulista de Santos, ele é com justiça reconhecido como o Precursor da diplomacia brasileira.
    É importante ouvir e seguir o conselho dos profissionais no ofício. A única autoridade no capítulo  será o estudo dos antecedentes e as implicações da eventual questão para o interesse do Estado brasileiro. Atuar  de forma autoritária e tumultuada tão só  agrava o problema, além de correr o risco de agir a reboque de outrem.  Nosso Norte deve ser sempre o interesse do Estado brasileiro.Se o atendermos estaremos bem, porque estaremos construindo ou respeitando formas duráveis em nossas relações.
     Não vamos descambar para a diplomacia de afogadilho. Os aplausos para o Itamaraty não são gratuitos. E nunca se viu um chefe de Estado brasileiro reclamar por ter às suas ordens um organismo preparado para defender os nossos interesses.


( Fontes: O Globo, Folha de S. Paulo )  

domingo, 1 de julho de 2012

O Catolicismo hoje, no Brasil e no Mundo

                       
       A queda do catolicismo no Brasil, confirmada pelo censo do IBGE,  não surpreende, ainda que a redução não mais seja apenas relativa, a ponto de refletir-se agora em números absolutos. Com efeito, a Igreja Católica viu partirem do aprisco um milhão e seiscentos mil fiéis de 2000 a 2010. Passou de 124,9 milhões (2000) para 123,2 milhões em 2010. Enquanto decresce a católica, aumentam os evangélicos. Nestes, a curva ascendente se eleva de 15% para 22%.
       Por muito tempo o Brasil se jactou de ser o maior país católico do mundo, o que pode ainda ser a realidade. Mas dadas as características da evolução demográfica, e o fato de as antigas seitas se terem transmutado em igrejas com números respeitáveis, tal condição parece indicar a confirmação de uma outra dinâmica, que não mais tem a ver com vazias afirmações de pujança, e que aponta para a acentuada probabilidade de um outro tipo de processo.
      Na área evangélica, prossegue o fenômeno da redistribuição das diversas denominações. Nesse contexto, a Assembleia de Deus, que já era a maior, passou de 8,4 milhões a 12,3 milhões, com aumento de 46%, enquanto a Evangélica Batista subiu de 3,2 milhões para 3,7 milhões (18% de incremento). Por sua vez, a Congregação Cristã do Brasil baixou 8% (de 2,5 milhões para 2,3 milhões) e a Universal do Reino de Deus caíu de 11% (de 2,1 para 1,9 milhões).
       O encolhimento do catolicismo não é um fenômeno súbito, nem localizado. Em várias regiões da América Latina, a religião católica que se confundia com as respectivas histórias nacionais – a partir notadamente do descobrimento ou da conquista, dependendo do estágio das populações indígenas pré-colombianas – começou a sofrer a ação de nova onda de missionários. Muitas hierarquias católicas encararam com preocupação o fenômeno em que prelados viram a inspiração e o suporte da presidência de Ronald Reagan. Tal desenvolvimento duplicou o avanço interno dos evangélicos na Terra de Tio Sam. Desde então, a relevância das correntes evangélicas para o Partido Republicano contribuíu tanto para o desaparecimento da ala moderada, como para a radicalização da direita no GOP.
      As vagas de pregadores que vinham anunciar o novo credo nos países latino-americanos – com a substituição da religião católica que integrava a nacionalidade respectiva – constituíram projeto de mais de uma geração. Se não irrompeu com a reação da direita nos anos oitenta, e teve predecessores até nos anos sessenta – quem não se recorda do aparecimento dos crentes no Brasil, em geral nas comunidades fora do alcance assistencialista da religião oficial ? – forçoso será reconhecer o maciço incremento no processo de proselitismo, com deploráveis consequências de despojamento dos antigos costumes ancestrais.
     Na América Central, por exemplo, o processo tem sido rápido. Como símbolo da nova situação, foi eleito um presidente evangélico, Jorge Serrano. Com a progressão evangélica vinda de além-mar, acentuou-se a descaracterização antropológica na população, com o abandono de costumes e práticas seculares, no caminho de progressiva alienação do indígena de sua herança racial e nacional.
      Para o avanço dos credos evangélicos no Brasil, há dois fatores relevantes: o oficialismo burocrático e conservador da Igreja Católica e a falta de um sopro renovador de sua hierarquia.
      A tentativa de correntes progressistas dentro da religião católica, que haviam recebido um grande impulso no pontificado do grande Papa o Beato João XXIII, sofreu nos posteriores reinados, seja pelas hesitações de Paulo VI, seja pelo longo predomínio do arqui-conservador João Paulo II – o Papa João Paulo I foi fugaz esperança, no seu brevíssimo pontificado -  uma forte reversão de curso.
      Ao invés da teoria da libertação – e da perseguição implacável aos seus promotores, como Hans Küng, na Alemanha, Edward Schillebeeckx, na Holanda, e Leonardo Boff, no Brasil -  a Igreja Católica se enrijeceu no oficialismo e no triunfalismo, o que representou um lamentável retrocesso aos tempos de Pio XII.
      Os núncios[1] para cá mandados não mais repetiram a obra meritória de Monsignor Lombardi, que promovera ao episcopado diversos sacerdotes progressistas, empenhados em trabalhos sociais. Com Paulo VI e sobretudo João Paulo II, o papa polonês, a ênfase caíu na linha conservadora. O triste estado da corrente progressista pode ser epitomizado por D. Helder Câmara. O grande bispo auxiliar do Rio de Janeiro, com a sua humildade e proximidade com os extratos menos favorecidos, teria uma obra episcopal que repercutiria mundialmente.
     Não teve nenhum apoio da Cúria romana, embora não ousassem enfrentá-lo pelo efeito de seu trabalho pastoral e renome mundial. Nunca foi criado cardeal por Papa Wojtyla, teve um auxiliar seu morto pela ditadura militar, e tampouco pôde recber o Brasil, por sua augusta pessoa, a distinção do Prêmio Nobel da Paz, o que semelha atribuível aos esforços da extensão do poder militar junto à comissão em Oslo.
    Durante o longo parêntesis da chamada Redentora, a hierarquia brasileira teve em D. Paulo Evaristo Arns, D. Aloiso Lorscheider e D. Ivo Lorscheiter notáveis representantes, os dois primeiros chegaram ao cardinalato, e o terceiro quis a fortuna que assim não fosse, posto que haja atuado com vigor na CNBB.
    Quiçá esteja no presente domínio da ala conservadora na Igreja Católica – o que o maior teólogo do século XX, Karl Rahner, referiu o inverno na Igreja – uma das razões para o recuo mundial do catolicismo, com templos vazios de fiéis, e uma lamentável ausência do esforço dos prelados na promoção de uma presença pastoral que não se limite aos domingos, e não adentre as áreas de pobreza com a necessária disposição de defesa das comunidades, como diversos bispos do valor de D. Pedro Casaldáliga não titubearam em dar o desejado testemunho.
    Não , por acaso,  Papa Giovanni continua Beato,  não  reconhecido como o Santo que é, com o largo culto que lhe é reservado. Ao escolher o palácio, ao invés do campo e das comunidades, o atual Pontífice, Bento XVI e a sua linha eclesial continuarão a receber homenagens dos poderosos de turno, mas transmitem uma mensagem que se traduz em naves vazias e em novos sítios entregues ao deus dará. Falta-lhes a veia messiânica, o compromisso evangélico da Igreja que teve Pedro como seu primeiro Pontífice. É uma longa história que no momento presente se distanciou do povo, a quem vê amiúde, nos cortejos pontíficios, em largas e amorfas multidões a que falta o espírito renovador da verdadeira mensagem de Cristo.
 



( Fonte subsidiária:  O Globo)



[1] Núncio é o título oficial do representante diplomático da Santa Sé. Acumula as funções de um virtual fiscal do Sumo Pontífice junto ao episcopado nacional.