segunda-feira, 22 de agosto de 2011
O Fim Anunciado do Ditador Kaddafi
Na Grécia antiga encontramos o antepassado dos ditadores. É o tirano, cujo primeiro passo para assenhorear-se do poder estava no pedido de guarda armada, supostamente para garantir a segurança pessoal do chefe, mas na realidade a providência inicial no caminho da supressão das liberdades cívicas da cidade-estado. Pisístrato é o exemplo clássico, mormente por surgir em Atenas, que seria o berço da democracia. A sua ascendência, iniciada em 560 a.C., após curta interrupção, se estenderia até 527 a.C.
Cumpre notar que a figura do ditador na República Romana nada tem a ver com os precedentes e atuais ditadores. Era função constitucional, convocada em momentos de crise nacional, com finalidade específica e duração circunscrita à situação extraordinária que a motivara. Exemplo paradigmático é a ditadura de Quinctius Cincinato, que fora Cônsul em 460 a.C. Em situação de grave perigo, com a tropa do povo Aequi ameaçando Roma , o cônsul em função, Cincinato foi designado ditador. Em quinze dias, formou um exército, derrotou os Aequi.Após o triunfo, renunciou ao cargo e retornou ao manejo do arado, em seu campo. Como semelha óbvio, os ditadores do passado e presente, excluída o aspecto humano, em tudo o mais se diferenciam desses austeros vultos da Roma arcaica.
Tudo indica que a República Verde entra nas vascas da agonia. A Liga Rebelde já adentrou a chamada Praça Verde, em Trípoli. Se o bunker do lider da Jamairia ainda não foi invadido, dois de seus filhos foram presos. Com efeito, Saif al-Islam Kaddafi, fora indiciado pelo Tribunal Penal Internacional, por crimes contra a Humanidade.
Saif se encarregava do serviço secreto, e o Promotor Luiz Moreno Ocampo gostaria de hospedá-lo na Haia. Igualmente nas mãos dos rebeldes, outro rebento de Muammar, Saadi al-Kaddafi, hoje negociante e antes jogador de futebol.
O T.P.I. também indiciou Abdullah al-Sanussi, cunhado do ditador.
Kaddafi, o jovem major, que depôs, em golpe incruento, a 1º de setembro de 1969, o ausente Rei Idris (em tratamento médico na Turquia), liderava um grupo de jovens oficiais. Quem empolga o poder pela violência, tem de acostumar-se a que outros aventureiros queiram empregar a traiçoeira força contra ele ( a primeira conjura contra o major foi em dezembro de 1969, descoberta graças à espionagem egípcia). Muammar elegeu o presidente Gamal Abdel Nasser – que depusera o rei Faruk em 1952 – como seu ídolo e modelo. Para seu infortúnio, Nasser, amargado pela derrota na guerra dos seis dias em 1967, morreria em 28 de setembro de l970.
Kaddafi permanece à testa da Jamairia líbica há quase quarenta e dois anos. Para uns, símbolo do orgulho árabe e da luta contra o imperialismo; para outros, um déspota não-esclarecido, cruel, vingativo e caricato. Os exemplos são muitos, e não é o caso de elencá-los todos. Visto como um idealista, um novo líder cujo semblante, com o passar dos anos, se transformaria como no retrato de Dorian Gray, mostrando a flacidez e as cicatrizes do terrorismo (Lockerbie) dos bandos assassinos de dissidentes no exterior. Pagou em moeda o sofrimento que causara às vítimas e suas famílias do atentado contra a Pan Am (voo 103), e consentiu que dois nacionais seus fossem julgados como responsáveis, um deles sendo condenado à prisão perpétua (depois comutada em indulto). Kaddafi semeou sacrifício (perseguição aos bérberes, guerra do Tchad), mudou o nome dos meses do calendário (que passou a observar a cronologia islâmica) de agosto para hannibal, e de julho para nasser. O seu notório Livro Verde, que condensaria a imagem do futuro, parece ora destinado seja à lata de lixo de Trotzki, seja às fogueiras de Benghazi e alhures.
Como Kaddafi – que, mesmo na presente e precária situação, ainda desperta patéticas fidelidades e testemunhos – infligiu muito sofrimento. A revanche passou a concretizar-se no bombardeio ordenado por Reagan, para castigá-lo pelo torpe atentado da boîte La belle, em que seus sicários mataram três e feriram 229. A via penitencial do ditador ainda aprontaria algumas maldades periféricas pelo caminho como o ordálio infligido aos médicos búlgaros (libertos em 2007).
Abraçado enfim por George Bush e Tony Blair, ainda logrou encontrar-se com Barack Obama em 2009. Todos os seus esforços e a disposição de visitar (e revisitar) Canossa (ir a Canossa é humilhar-se perante o adversário), não foram bastantes para preservá-lo no mando, uma vez que o sacrifício de Mohamed Bouazizi atearia no mundo árabe as chamas da rebelião.
Por interposta pessoa, partiria da detestada costa oriental e a cidade de Benghazi, velhos aliados do rei Idris, a temida revolução. A própria desapiedada repressão aos respectivos nacionais – tratados como invasores alienígenas – ganharia para a Liga Rebelde o apoio da OTAN e do Ocidente, com as consequências que ora se vêem nas ruas de Trípoli.
Se Muammar Kaddafi será encontrado vivo ou morto, se será apanhado pelos adversários (como Benito Mussolini o foi para ser dependurado em Piazzale Loreto, na solitária companhia da amante Clara Petacci), o futuro, este caprichoso mago, por enquanto ainda nos oculta.
Difícil, no entanto, evitar-lhe este resumo histórico de quem encetou o caminho com grandes ideais, e acabou beijando o áspero pó da derrota infligida por inimigos tão persistentes quanto ingratos.
( Fonte subsidiária: CNN)
domingo, 21 de agosto de 2011
Colcha de Retalhos LXXXIX
Ministério das Cidades: a bola da vez ?
Segundo denuncia a revista VEJA – depois dos episódios dos Transportes (Alfredo Nascimento) e Agricultura (Wagner Rossi) – o próximo da lista seria o Ministro Mario Negromonte. A dezessete do corrente, parlamentares do Partido Progressista (PP) procuraram a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, para relatar estranhas ocorrências no interior do gabinete do ministro. O problema maior seria que Negromonte, de acordo com os informes, não se cingiria aos meios usuais da política (cargos, liberação de verbas,etc.), mas se estenderia a promessas de mesadas de trinta mil reais para quem quiser aderir.
Será possível ? Afinal, essas ‘bondades’ têm perturbadora semelhança com o mensalão – que o PT persiste em negar, a despeito dos 39 réus que tem à espera de julgamento pelo Supremo. Custa acreditar no fundamento de tal denúncia, que não só implica em fato ilegal, mas também que agride a inteligência.
Há seis anos o Ministério das cidades é feudo do PP. É o terceiro partido da ‘base’, com 41 deputados e cinco senadores. Tem orçamento de 22 bilhões de reais e programas com grande apelo popular: instalação de redes de água, esgoto e construção de casas populares.
Para Negromonte, que não tem especial simpatia de Dilma,e ascendeu à pasta mais por relações com o PT da Bahia do que por apoio intrapartidário. Agora, com o controle do PP nas mãos do grupo de Márcio Fortes, Mário Negromonte desejaria reverter o jogo de modo supostamente heterodoxo.
Por serem fortes as acusações, baseadas em indícios preocupantes, não se pode descontar a possibilidade de que a presidenta venha a receber mais uma carta.
A Estranha Prisão dos Jovens Americanos
A boa fé dos jovens americanos presos nas montanhas iranianas só não convence o governo dos ayatollahs. Procedentes da região autônoma do Curdistão iraquiano, a trinca de ‘hikers’ Josh Fattal, Shane Bauer e Sarah Shourd, adentrou em julho de 2009 por engano o território do Irã. Embora os andarilhos tenham obtemperado que o seu ingresso aí foi de boa fé, por não haver sinais ostensivos de demarcação fronteiriça, para o regime de Teerã a tentação seria demasiado forte. Como não detê-los sob a incriminação de espionagem, e tê-los como virtuais reféns no seu longo embate com a superpotência ?
Presos na famigerada prisão de Evin – em que a tortura e os maus tratos são administrados pelos torpes guardas – os três encarcerados padeceram sob condições duríssimas, que tornam a estada nas antigas cadeias turcas quase brinquedo de criança. Em três anos apenas três breves telefonemas com familiares lhes foram concedidos. Quando até o recebimento de cartas da família lhes foi negada, Fattal e Bauer entraram em greve de fome.
A própria libertação de Sarah Shourd, no ano passado, assinala o nível da extorsão. Por disporem de meios, os parentes de Sarah tiveram de depositar uma fiança de quinhentos mil dólares !
A denegação de justiça – ou o que uma ditadura pode fazer com pessoas cuja única ‘culpa’ é terem passaporte americano – continua a sua cínica progressão. A mídia ora informa que os dois infelizes ‘hikers’ foram condenados a oito anos de prisão, por terem ingressado ilegalmente em território iraniano.
Josh Fattal e Shane Bauer dispõem de vinte dias para recorrer da sentença. Como não lhes é permitido o acesso de advogados defensores – nem poder receber visitas consulares -, intui-se a gravidade da situação dos dois desafortunados andarilhos.
Para os ayatollahs de Teerã, a dupla é uma presa que vem a calhar. Para eles, é um mero detalhe não respeitarem qualquer norma comezinha de respeito aos detidos.
Vivem em masmorras, guardados por boçais carcereiros, que devem deleitar-se com a oportunidade de sevícias que a presença dos excursionistas lhes traz.
Na história da humanidade, é longa a crônica dos reféns inermes em imundos calabouços. Para esses infelizes, o tempo não passa. O opróbio e a injustiça das longas detenções, em que os presos são submetidos a todo gênero de malvadeza é um triste capítulo, que deveria ser objeto de reflexão pelas potestades deste mundo sem qualquer exceção.
A Visita a New Hampshire de um discreto texano
Mais do que sobrancelhas se alçaram quando o novel précandidato à designação (nomination) para as eleições presidenciais de novembro de 2012 condenou o propósito do Federal Reserve Bank em emitir mais dólares. Rick Perry, governador do Texas, não ficou nisso, e ameaçou, por palavras, veladas uma recepção hostil se o presidente do Fed, Ben Bernanke cometesse a imprudência de aparecer em terras texanas.
O précandidato, cuja postulação tinha sido recebida com fanfarras e a expectativa reservada aos pesos pesado, se terá decerto surpreendido com o diapasão crítico provocado pelo ataque a uma das poucas quase unanimidades de Washington. Com efeito, Ben Bernanke foi indicado para o Fed pelo George W. Bush, e posteriormente confirmado para um segundo mandato, por Barack Obama. Despertou por isso mais do que estranheza o insólito ataque. O inesperado e mal dirigido ímpeto do novel postulante fê-lo receber uma saraivada de censuras e repreensões, que terão sacudido a segurança imperial do candidato.
A aparição de Rick Perry no pequeno estado de New Hampshire, na Nova Inglaterra, mostrou aos republicanos um outro avatar do texano, caracterizado pela discrição, quase humildade.
Esperando receber alguém à direita de Átila rei dos Hunos, Perry encantou a muitos pela moderação. Para quem já pensara alto acerca da possibilidade de o Texas retirar-se da União americana, o governador Rick Perry não calçava botas de cowboy, nem exibia postura arrogante. Indagado sobre o peso de suas palavras sobre o Fed, disse : ‘Ontem o presidente falou que eu deveria pesar bem o que digo. Gostaria de responder: senhor Presidente, os atos falam mais alto do que palavras. Minhas ações como governador estão criando empregos neste país. Os atos do presidente estão matando os empregos no país’.
Como candidato à Casa Branca, entende-se que Perry deseje Obama como interlocutor. Na verdade, a advertência a que respondia fora feita pelo secretário de imprensa da presidência.
Outro tópico que Perry tratou com cuidado extra foi a circunstância que no Texas a tese criacionista e a teoria darwineana da evolução recebem atenção paritária nas escolas públicas.
Quanto à propalada abertura de novos empregos no estado do Texas, de que se gaba Perry, o Prêmio Nobel Paul Krugman, em sua coluna, a apontou como uma falácia, que não resiste a um exame mais detido e aprofundado.
O Combate à Corrupção... na Índia
Vestindo o traje e a simplicidade de um Gandhi, Anna Hazare, iniciara o seu combate a endêmica corrupção na Índia com uma greve de fome. Atacado com razões burocráticas de desrespeito à autoridade – por realizá-la em praça pública -, a sua incrível e insensível prisão provocara o que comentarista televisivo denominaria de “catarse nacional sobre a corrupção”.
Capacitando-se do torpe erro cometido, o Primeiro Ministro Manmohan Singh, do partido do Congresso, cedeu, permitindo a liberação de Hazare, depois de três dias de detenção.
Segundo afirmou Hazare, sua greve de fome continuará até a aprovação do projeto do Jan Lokpal. Para contornar a resistência dos legisladores às emendas que deseja introduzir no projeto – que na sua versão atual concede imunidade ao Primeiro Ministro e aos altos escalões do Judiciário - Hazare, com a sua greve de fome e a circunstância de realizá-la em público optou por trazer a pressão da opinião pública em seu favor.
Existe na Índia desilusão pública com o processo político e a crescente falta de conexão entre o estamento dominante da classe governante e a massa dos governados. Nesse sentido, a corrupção generalizada, revelada em grandes e pequenas propinas, constitui um tópico explosivo.
A afronta feita ao ativista Hazare – que foi lançado no cárcere, enquanto os ladrões do partido governista lordeiam no parlamento – implicou em estúpido erro, típico da arrogância do poder. As centenas de manifestações espontâneas do povo indiano em favor de Anna Hazare levaram os nervosos funcionários governamentais a tentar soltá-lo da prisão. Hazare só admitiu sair se confirmada a autorização de continuar a greve de fome em praça pública. A autorização foi afinal dada, mas traz embutida a má-vontade burocrática, eis que foi limitada a quinze dias.
É terrível viver-se em países como a Índia, em que populares honestos e ascéticos – como o gandhiano Hazare – têm de arrostar o corporativismo de uma classe política que vive vida de privilégio e de impunidade.
(Fontes:VEJA, CNN, International Herald Tribune, O Globo)
Segundo denuncia a revista VEJA – depois dos episódios dos Transportes (Alfredo Nascimento) e Agricultura (Wagner Rossi) – o próximo da lista seria o Ministro Mario Negromonte. A dezessete do corrente, parlamentares do Partido Progressista (PP) procuraram a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, para relatar estranhas ocorrências no interior do gabinete do ministro. O problema maior seria que Negromonte, de acordo com os informes, não se cingiria aos meios usuais da política (cargos, liberação de verbas,etc.), mas se estenderia a promessas de mesadas de trinta mil reais para quem quiser aderir.
Será possível ? Afinal, essas ‘bondades’ têm perturbadora semelhança com o mensalão – que o PT persiste em negar, a despeito dos 39 réus que tem à espera de julgamento pelo Supremo. Custa acreditar no fundamento de tal denúncia, que não só implica em fato ilegal, mas também que agride a inteligência.
Há seis anos o Ministério das cidades é feudo do PP. É o terceiro partido da ‘base’, com 41 deputados e cinco senadores. Tem orçamento de 22 bilhões de reais e programas com grande apelo popular: instalação de redes de água, esgoto e construção de casas populares.
Para Negromonte, que não tem especial simpatia de Dilma,e ascendeu à pasta mais por relações com o PT da Bahia do que por apoio intrapartidário. Agora, com o controle do PP nas mãos do grupo de Márcio Fortes, Mário Negromonte desejaria reverter o jogo de modo supostamente heterodoxo.
Por serem fortes as acusações, baseadas em indícios preocupantes, não se pode descontar a possibilidade de que a presidenta venha a receber mais uma carta.
A Estranha Prisão dos Jovens Americanos
A boa fé dos jovens americanos presos nas montanhas iranianas só não convence o governo dos ayatollahs. Procedentes da região autônoma do Curdistão iraquiano, a trinca de ‘hikers’ Josh Fattal, Shane Bauer e Sarah Shourd, adentrou em julho de 2009 por engano o território do Irã. Embora os andarilhos tenham obtemperado que o seu ingresso aí foi de boa fé, por não haver sinais ostensivos de demarcação fronteiriça, para o regime de Teerã a tentação seria demasiado forte. Como não detê-los sob a incriminação de espionagem, e tê-los como virtuais reféns no seu longo embate com a superpotência ?
Presos na famigerada prisão de Evin – em que a tortura e os maus tratos são administrados pelos torpes guardas – os três encarcerados padeceram sob condições duríssimas, que tornam a estada nas antigas cadeias turcas quase brinquedo de criança. Em três anos apenas três breves telefonemas com familiares lhes foram concedidos. Quando até o recebimento de cartas da família lhes foi negada, Fattal e Bauer entraram em greve de fome.
A própria libertação de Sarah Shourd, no ano passado, assinala o nível da extorsão. Por disporem de meios, os parentes de Sarah tiveram de depositar uma fiança de quinhentos mil dólares !
A denegação de justiça – ou o que uma ditadura pode fazer com pessoas cuja única ‘culpa’ é terem passaporte americano – continua a sua cínica progressão. A mídia ora informa que os dois infelizes ‘hikers’ foram condenados a oito anos de prisão, por terem ingressado ilegalmente em território iraniano.
Josh Fattal e Shane Bauer dispõem de vinte dias para recorrer da sentença. Como não lhes é permitido o acesso de advogados defensores – nem poder receber visitas consulares -, intui-se a gravidade da situação dos dois desafortunados andarilhos.
Para os ayatollahs de Teerã, a dupla é uma presa que vem a calhar. Para eles, é um mero detalhe não respeitarem qualquer norma comezinha de respeito aos detidos.
Vivem em masmorras, guardados por boçais carcereiros, que devem deleitar-se com a oportunidade de sevícias que a presença dos excursionistas lhes traz.
Na história da humanidade, é longa a crônica dos reféns inermes em imundos calabouços. Para esses infelizes, o tempo não passa. O opróbio e a injustiça das longas detenções, em que os presos são submetidos a todo gênero de malvadeza é um triste capítulo, que deveria ser objeto de reflexão pelas potestades deste mundo sem qualquer exceção.
A Visita a New Hampshire de um discreto texano
Mais do que sobrancelhas se alçaram quando o novel précandidato à designação (nomination) para as eleições presidenciais de novembro de 2012 condenou o propósito do Federal Reserve Bank em emitir mais dólares. Rick Perry, governador do Texas, não ficou nisso, e ameaçou, por palavras, veladas uma recepção hostil se o presidente do Fed, Ben Bernanke cometesse a imprudência de aparecer em terras texanas.
O précandidato, cuja postulação tinha sido recebida com fanfarras e a expectativa reservada aos pesos pesado, se terá decerto surpreendido com o diapasão crítico provocado pelo ataque a uma das poucas quase unanimidades de Washington. Com efeito, Ben Bernanke foi indicado para o Fed pelo George W. Bush, e posteriormente confirmado para um segundo mandato, por Barack Obama. Despertou por isso mais do que estranheza o insólito ataque. O inesperado e mal dirigido ímpeto do novel postulante fê-lo receber uma saraivada de censuras e repreensões, que terão sacudido a segurança imperial do candidato.
A aparição de Rick Perry no pequeno estado de New Hampshire, na Nova Inglaterra, mostrou aos republicanos um outro avatar do texano, caracterizado pela discrição, quase humildade.
Esperando receber alguém à direita de Átila rei dos Hunos, Perry encantou a muitos pela moderação. Para quem já pensara alto acerca da possibilidade de o Texas retirar-se da União americana, o governador Rick Perry não calçava botas de cowboy, nem exibia postura arrogante. Indagado sobre o peso de suas palavras sobre o Fed, disse : ‘Ontem o presidente falou que eu deveria pesar bem o que digo. Gostaria de responder: senhor Presidente, os atos falam mais alto do que palavras. Minhas ações como governador estão criando empregos neste país. Os atos do presidente estão matando os empregos no país’.
Como candidato à Casa Branca, entende-se que Perry deseje Obama como interlocutor. Na verdade, a advertência a que respondia fora feita pelo secretário de imprensa da presidência.
Outro tópico que Perry tratou com cuidado extra foi a circunstância que no Texas a tese criacionista e a teoria darwineana da evolução recebem atenção paritária nas escolas públicas.
Quanto à propalada abertura de novos empregos no estado do Texas, de que se gaba Perry, o Prêmio Nobel Paul Krugman, em sua coluna, a apontou como uma falácia, que não resiste a um exame mais detido e aprofundado.
O Combate à Corrupção... na Índia
Vestindo o traje e a simplicidade de um Gandhi, Anna Hazare, iniciara o seu combate a endêmica corrupção na Índia com uma greve de fome. Atacado com razões burocráticas de desrespeito à autoridade – por realizá-la em praça pública -, a sua incrível e insensível prisão provocara o que comentarista televisivo denominaria de “catarse nacional sobre a corrupção”.
Capacitando-se do torpe erro cometido, o Primeiro Ministro Manmohan Singh, do partido do Congresso, cedeu, permitindo a liberação de Hazare, depois de três dias de detenção.
Segundo afirmou Hazare, sua greve de fome continuará até a aprovação do projeto do Jan Lokpal. Para contornar a resistência dos legisladores às emendas que deseja introduzir no projeto – que na sua versão atual concede imunidade ao Primeiro Ministro e aos altos escalões do Judiciário - Hazare, com a sua greve de fome e a circunstância de realizá-la em público optou por trazer a pressão da opinião pública em seu favor.
Existe na Índia desilusão pública com o processo político e a crescente falta de conexão entre o estamento dominante da classe governante e a massa dos governados. Nesse sentido, a corrupção generalizada, revelada em grandes e pequenas propinas, constitui um tópico explosivo.
A afronta feita ao ativista Hazare – que foi lançado no cárcere, enquanto os ladrões do partido governista lordeiam no parlamento – implicou em estúpido erro, típico da arrogância do poder. As centenas de manifestações espontâneas do povo indiano em favor de Anna Hazare levaram os nervosos funcionários governamentais a tentar soltá-lo da prisão. Hazare só admitiu sair se confirmada a autorização de continuar a greve de fome em praça pública. A autorização foi afinal dada, mas traz embutida a má-vontade burocrática, eis que foi limitada a quinze dias.
É terrível viver-se em países como a Índia, em que populares honestos e ascéticos – como o gandhiano Hazare – têm de arrostar o corporativismo de uma classe política que vive vida de privilégio e de impunidade.
(Fontes:VEJA, CNN, International Herald Tribune, O Globo)
sábado, 20 de agosto de 2011
Notícias do Front (IX)
Estrebucha a ditadura de Kaddafi ?
Em meio a rumores de que o ditador Muammar Kaddafi estaria doente, rebeldes e forças governamentais se empenham em renhido combate pelo controle da cidade (e refinaria) de Zawiya, 40 km a oeste de Trípoli. Os rebeldes teriam ocupado Zlitan (150 km a leste) da capital. Em torno de Trípoli, aumentam as incursões da Liga Rebelde, o que levou ao fechamento da saída rodoviária para a Tunísia.
Se completar-se o cerco da capital líbica, com o anel rebelde cerrando-se em torno do último reduto de Kaddafi, é óbvio que a situação do líder da Jamairia há de assumir caráter dramático.
Restará ao coronel apenas o Mediterrâneo como eventual via de abastecimento (ou retirada). Dadas as condições prevalentes, sua utilização tende a ser muito precária, com o domínio dos ares pela OTAN, e a probabilidade de estabelecimento de um bloqueio marítimo. Se não houver retrocessos na progressão das unidades rebeldes, o cerco de Trípoli fechará as vias de comunicação por terra (a liga de Benghazi já controla mais de dois terços do país).
Em tais condições, circulam boatos de iminência da debandada do bunker pelo coronel, para tentar o refúgio na Tunisia. Se os progressos militares da Liga no entorno tripolitano se confirmarem, resta determinar em que termos se realizaria a fuga in extremis do coronel Kaddafi, ao cabo de mais de quarenta anos de ditadura.
A Situação de Bashar al-Assad
Os Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido e Canadá pedem afinal a saída do ditador sírio. O presidente Obama determinou, outrossim, o congelamento de todos os depósitos sírios, assim como o embargo a negócios de cidadãos americanos com a Síria. Por sua vez, o Kremlin continua a apoiar Assad. No que tange a Brasil, Índia e União Sul-Africana – há pouco fizeram gestão do grupo Ibas dos embaixadores acreditados em Damasco encarecendo moderação ao regime alauíta - não se associaram à nova postura ocidental.
No cenário diplomático relativo à crise síria, resta determinar a posição da Turquia de Recip Erdogan, que antes se dissociara do governo de Damasco em função da desapiedada, brutal repressão pelas forças de Bashar da população civil da Síria. Há pouco, a atitude de Ancara fora mais incisiva que a do Ibas. Com efeito, a gestão, em nível de ministro do exterior, dadas as relações anteriores entre os dois países,e a circunstância da Turquia ser o vizinho ao norte, conferiu à missão respeitável carga de pressão. Nesse contexto, a seriedade da mensagem não poderia ser ignorada por al–Assad. Por não tratar-se de mera audiência protocolar, sua eventual desatenção ao recomendado pelo alto emissário de Erdogan tenderia a desencadear reações mais drásticas.
A atitude de Bashar al-Assad parece padecer de autismo agudo, em meio à pressão internacional. Com a determinação de uma coluna de lemingues, prossegue no seu caminho para frente, com os trucidamentos de manifestantes, a exemplo dos 29 civis abatidos nessa última sexta-feira, o dia santo muçulmano. As mortes decorrem de postura mais afirmativa dos manifestantes, que souberam contornar as muitas barreiras colocadas pelo regime para dificultar os protestos.
Dessarte, na província sulista de Daraa, há oito vítimas fatais em Ghabagheb, cinco em Herak, uma em Inkhel e uma em Nawa. Por sua vez, caíram cinco manifestantes na cidade ocidental de Homs, dois em Harasta, dois em Rehela e um em Douma, nos arredores de Damasco.
Como se verifica, malgrado a violência das tropas de Bashar, a calma da capital semelha estar sendo quebrada. Se são difíceis as grandes concentrações na principal cidade da Síria, a maré rebelde dá sinais de que não mais se confinará ao interior do país..
A Base não está nem aí
O autismo da chamada base no Congresso emitiu mais um sinal de grave falta de sintonia com a atitude da sociedade civil.
Para comandar a Comissão Especial da Câmara dos Deputados que discutirá mudanças no Código de Processo Civil – que visam a tornar a Justiça mais ágil e moderna – os líderes do PT Deputado Paulo Teixeira, e do PMDB, Deputado Henrique Eduardo Alves indicaram , respectivamente, os deputados João Paulo Cunha (PT-SP) e Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
Como se sabe, a iniciativa dos líderes tem odores de provocação, eis que João Paulo é réu no processo do mensalão no Supremo, e Eduardo Cunha responde a inquérito também no STF. Atitude como essa das lideranças partidárias da ‘base’ está manifestamente na contramão das tendências prevalentes na sociedade e no próprio Judiciário.
Segundo se assinala, o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, que presidiu o grupo de juristas responsável pela proposta de reforma, ficou constrangido com a situação. Os dois indicados, além de não serem da área de competência, ainda por cima serão julgados pelo Ministro Fux no STF.
O corporativismo - que é o traço marcante de um Congresso inexpressivo enquanto não representa o sentir da sociedade civil – tende a pautar a ação respectiva pela alienação da realidade social. Como se não tivessem raízes e o processo eleitoral constituísse apenas uma efeméride com estritos limites, circunscritos à publicidade eleitoral, apuração e diplomação, a grande maioria dos congressistas age como se o mandato do colégio eleitoral fora formalidade jurídica, sem outras condições.
É mais do que urgente que a mobilização da sociedade civil sacuda essa doce ilusão de Suas Excelências. Um banho de realidade se impõe, para que se dissolvam tais sandices independentistas da base partidária.
( Fontes: O Globo, Folha de S. Paulo, International Herald Tribune )
Em meio a rumores de que o ditador Muammar Kaddafi estaria doente, rebeldes e forças governamentais se empenham em renhido combate pelo controle da cidade (e refinaria) de Zawiya, 40 km a oeste de Trípoli. Os rebeldes teriam ocupado Zlitan (150 km a leste) da capital. Em torno de Trípoli, aumentam as incursões da Liga Rebelde, o que levou ao fechamento da saída rodoviária para a Tunísia.
Se completar-se o cerco da capital líbica, com o anel rebelde cerrando-se em torno do último reduto de Kaddafi, é óbvio que a situação do líder da Jamairia há de assumir caráter dramático.
Restará ao coronel apenas o Mediterrâneo como eventual via de abastecimento (ou retirada). Dadas as condições prevalentes, sua utilização tende a ser muito precária, com o domínio dos ares pela OTAN, e a probabilidade de estabelecimento de um bloqueio marítimo. Se não houver retrocessos na progressão das unidades rebeldes, o cerco de Trípoli fechará as vias de comunicação por terra (a liga de Benghazi já controla mais de dois terços do país).
Em tais condições, circulam boatos de iminência da debandada do bunker pelo coronel, para tentar o refúgio na Tunisia. Se os progressos militares da Liga no entorno tripolitano se confirmarem, resta determinar em que termos se realizaria a fuga in extremis do coronel Kaddafi, ao cabo de mais de quarenta anos de ditadura.
A Situação de Bashar al-Assad
Os Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido e Canadá pedem afinal a saída do ditador sírio. O presidente Obama determinou, outrossim, o congelamento de todos os depósitos sírios, assim como o embargo a negócios de cidadãos americanos com a Síria. Por sua vez, o Kremlin continua a apoiar Assad. No que tange a Brasil, Índia e União Sul-Africana – há pouco fizeram gestão do grupo Ibas dos embaixadores acreditados em Damasco encarecendo moderação ao regime alauíta - não se associaram à nova postura ocidental.
No cenário diplomático relativo à crise síria, resta determinar a posição da Turquia de Recip Erdogan, que antes se dissociara do governo de Damasco em função da desapiedada, brutal repressão pelas forças de Bashar da população civil da Síria. Há pouco, a atitude de Ancara fora mais incisiva que a do Ibas. Com efeito, a gestão, em nível de ministro do exterior, dadas as relações anteriores entre os dois países,e a circunstância da Turquia ser o vizinho ao norte, conferiu à missão respeitável carga de pressão. Nesse contexto, a seriedade da mensagem não poderia ser ignorada por al–Assad. Por não tratar-se de mera audiência protocolar, sua eventual desatenção ao recomendado pelo alto emissário de Erdogan tenderia a desencadear reações mais drásticas.
A atitude de Bashar al-Assad parece padecer de autismo agudo, em meio à pressão internacional. Com a determinação de uma coluna de lemingues, prossegue no seu caminho para frente, com os trucidamentos de manifestantes, a exemplo dos 29 civis abatidos nessa última sexta-feira, o dia santo muçulmano. As mortes decorrem de postura mais afirmativa dos manifestantes, que souberam contornar as muitas barreiras colocadas pelo regime para dificultar os protestos.
Dessarte, na província sulista de Daraa, há oito vítimas fatais em Ghabagheb, cinco em Herak, uma em Inkhel e uma em Nawa. Por sua vez, caíram cinco manifestantes na cidade ocidental de Homs, dois em Harasta, dois em Rehela e um em Douma, nos arredores de Damasco.
Como se verifica, malgrado a violência das tropas de Bashar, a calma da capital semelha estar sendo quebrada. Se são difíceis as grandes concentrações na principal cidade da Síria, a maré rebelde dá sinais de que não mais se confinará ao interior do país..
A Base não está nem aí
O autismo da chamada base no Congresso emitiu mais um sinal de grave falta de sintonia com a atitude da sociedade civil.
Para comandar a Comissão Especial da Câmara dos Deputados que discutirá mudanças no Código de Processo Civil – que visam a tornar a Justiça mais ágil e moderna – os líderes do PT Deputado Paulo Teixeira, e do PMDB, Deputado Henrique Eduardo Alves indicaram , respectivamente, os deputados João Paulo Cunha (PT-SP) e Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
Como se sabe, a iniciativa dos líderes tem odores de provocação, eis que João Paulo é réu no processo do mensalão no Supremo, e Eduardo Cunha responde a inquérito também no STF. Atitude como essa das lideranças partidárias da ‘base’ está manifestamente na contramão das tendências prevalentes na sociedade e no próprio Judiciário.
Segundo se assinala, o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, que presidiu o grupo de juristas responsável pela proposta de reforma, ficou constrangido com a situação. Os dois indicados, além de não serem da área de competência, ainda por cima serão julgados pelo Ministro Fux no STF.
O corporativismo - que é o traço marcante de um Congresso inexpressivo enquanto não representa o sentir da sociedade civil – tende a pautar a ação respectiva pela alienação da realidade social. Como se não tivessem raízes e o processo eleitoral constituísse apenas uma efeméride com estritos limites, circunscritos à publicidade eleitoral, apuração e diplomação, a grande maioria dos congressistas age como se o mandato do colégio eleitoral fora formalidade jurídica, sem outras condições.
É mais do que urgente que a mobilização da sociedade civil sacuda essa doce ilusão de Suas Excelências. Um banho de realidade se impõe, para que se dissolvam tais sandices independentistas da base partidária.
( Fontes: O Globo, Folha de S. Paulo, International Herald Tribune )
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Alianças Políticas
Talvez não tenha sido intenção da presidenta Dilma Rousseff que a faxina no governo assumisse o alcance evidenciado tanto no ambiente político, quanto na sociedade. No que tange ao primeiro, a reação tende a ser negativa, porque a corrupção, como toda planta daninha, costuma proliferar. No que respeita ao entorno social, a raiva vem de longe, e a circunstância de haver sido reprimida por um período respeitável, não lhe retirou nem a pujança reativa, nem a rapidez na propagação. Muito pelo contrário.
Esses movimentos, quando desatados, podem semelhar o fogo, em campos e matas. Uma vez ateados, ganham força própria, correndo céleres por áreas imprevistas, na sua aliança com os ventos e demais caprichos da natureza.
Até o presente, essa nova criatura do Planalto tem sido divindade benfazeja para Dilma. Começou a livrá-la de entulho que, por sua condição, lhe tinha sido imposto pelo Presidente Lula. Mais talvez do que a três efígies atingidas (Palocci, Nascimento e Rossi), o ganho veio mais por acréscimo, ao brunir-lhe a imagem de faxineira empenhada na limpeza. E essa labuta de asseio se estendeu com proveito aos andares inferiores, conforme demonstrado pelo DNit.
A cruzada contra a corrupção – porque importa que Dilma refugue o eventual maniqueísmo da postura – ganha, na opinião pública, a força inercial desde muito represada pelos escândalos reflexos em segurança, hospitais, rodovias, portos, aeroportos e quejandos.
Não é à toa que frente política de respaldo à ação saneadora de Dilma Rousseff só possa colher nove senadores na Câmara Alta. Se forem sérios no propósito – e não factóide de uma semana, que se derreta com os primeiros arreganhos da primavera – no pequeno número estará grande parte de sua força.
Dizem que o Partido dos Trabalhadores – lembram-se acaso da formação aguerrida que não assinou a Constituição Cidadã, que expulsou um punhado de deputados que ousara sufragar Tancredo Neves, e erigiu o ‘não’ como blindagem às influências ditas espúrias da partidocracia ? – está irritado pelo desgaste à patina de ‘Nosso Guia’ implícita na faxina da sua criatura presidencial ?
Se procede ou não, não desafina do novo tom do PT, que hoje parece espojar-se com prazer em práticas fisiológicas, no longínquo passado pré-2003 escarnecidas e vilipendiadas. Dentre as dádivas de Lula, não será das menores o sistema das amplas coalizões partidárias pós-mensalão.
As consequências desse sistema para o cidadão são conhecidas. Basta transitar nas estradas esburacadas e sem acostamento, aceder aos deploráveis terminais terceiro-mundistas de nossos aeroportos, ou ter de recorrer a um hospital público, para sentir o que significa ser taxado de tributos como na Escandinávia, e dispor de um retorno de quarto mundo, em termos de infraestrutura.
Para afirmar o seu perfil, e não definhar na sombra dos títeres de um modelo de maximato mexicano dos tempos de Plutarco Elias Calles. é mister reconhecer que dona Dilma vem procedendo com habilidade, inteligência e pertinácia, ao reivindicar o seu lugar no panteão antes exclusivo.
Nesse sentido, a par dos contatos amiudados com o seu ubíquo criador, nossa primeira presidenta tem sabido, com destreza, mostrar ao que veio. Costura para tanto alianças antes impensáveis, como a empatia com Fernando Henrique, mais de uma vez sinalizada. Como FHC não há de deparar com simpatia a abertura da novel sucessora, justamente se lhe cotejarmos a experiência precedente, quando por motivos que não vale a pena escarafunchar, jamais o convidaram, sequer, para um cafezinho ?
Nem todas as embarcações da frota de Dilma vestem, de coração, suas cores. Sem embargo, seu jeito, destreza e até rompantes, os tem dissuadido de manobras hostis mais ostensivas. De todas as alianças, a mais relevante será a do povo, sobretudo se este entrevir na disposição da presidenta a vontade de fazer com que o impostômetro funcione mais em proveito do cidadão, de suas crenças privadas e dos seus anseios públicos.
Das excelências, terá todo o apoio que serão capazes de dar, se sentirem forte a ventania contrária. Mais aconselhável será contentar-se com as benesses próprias de seus cargos, que já não são de enjeitar.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Dançando com dona Corrupção
Como todos sabemos, não existe corrupção no Brasil. Esta importante informação a podemos colher com o colunista Ricardo Noblat, que desaconselha, com sobejas razões, que se atribua tão ignóbil qualificativo a políticos brasileiros.
A prática judiciária demonstra que eles estão deveras conscientes de seus direitos nesse campo aleivoso e escorregadio. Dessarte, é recomendável evitar esse gênero de apodo, eis que a presunção de inocência foi levada pelo Supremo às últimas consequências.
Ao contrário de outros países, decerto mais atrasados nesses domínios, todo cidadão, sobretudo, me seja permitido agregar, aqueles que não são comuns (V. a respeito a memorável lição do presidente Lula da Silva) só podem ser havidos como culpados depois da ação passar em julgado. Ora, também se sabe, que muito justamente os políticos acusados dispõem de meios para defender a sua reputação,o que implica em longas tramitações nas três instâncias a que Suas Excelências têm, sem qualquer aceno de dúvida, todo o direito.
Para gáudio da Presidenta Dilma Rousseff – e horror de seu padrinho e criador – a faxina continua. Caíu mais um ministro, o paulista Wagner Rossi, do PMDB. Segundo se comenta, Rossi perdeu as condições de permanecer no cargo. Se não o tinha derrubado a desenvoltura com que o lobista Julio Fróes circulava pelas dependências no ministério, a que acedia pelo elevador privativo, a sua utilização de jatinho da Ourofino – empresa do setor agropecuário que obteve, só em 2010, 38,9 milhões de recursos federais – acabou por derrubá-lo.
Em sua carta de demissão, Wagner Rossi insinuou que as acusações contra ele têm a ver com a política paulista. As alusões quanto ao poder quase sobrenatural do ‘único político brasileiro’ que disso seria capaz, fazem pensar – consoante assinala Merval Pereira – que se tal procedesse José Serra teria tido mais sorte nas vezes em que disputou a presidência da república.
Dilma Rousseff pôde,assim, manter a imagem da faxineira. Depois de Antonio Palocci, Alfredo Nascimento e Nelson Jobim, Wagner é o quarto a sair do gabinete. Do quarteto, apenas Jobim foi exonerado por falar demais. As causas da demissão dos demais estão ligadas à faxina.
É bem verdade que Wagner Rossi se adiantou quando sentiu que a situação se tornara insustentável. Antes, no episódio do lobista, a presidenta se abalara a telefonar-lhe para cumprimentá-lo pelas explicações fornecidas, por ela julgadas convincentes.
Agora a bola está com o máximo representante do PMDB no governo, o Vice-Presidente Michel Temer. A ele caberá a prerrogativa (ou o ônus) de indicar o sucessor de Rossi na Agricultura. Mendes Ribeiro (PMDB-RS), atual lider do governo seria o mais cotado. Constantes da lista de prováveis contendores, o ex-Ministro e deputado Reinhold Stephanes (PMDB-PR) e Valdemir Moka (PMDB-MT).
Conforme se comenta,a presidenta teria deixado nas mãos de Temer o destino de seu afilhado político. Tinha ela a consciência de que não deveria tomar a iniciativa de afastá-lo, pois tal fato poderia abalar de maneira definitiva a sua relação com o PMDB.
Por isso, as cousas ficaram por conta de Temer. Teria percebido que a eventual permanência de Rossi por mais alguns dias poderia também ‘contaminá-lo’. Para uma conversa tensa o Ministro da Agricultura chegara ao gabinete do Vice-Presidente. Disse na oportunidade que não seria ‘um empecilho’. Foi combinado então que se comunicaria à Presidenta a saída de Rossi.
Na luta pela moralização do governo, a faxina continua a avançar. Repercute bem na opinião pública e, por conseguinte, nas avaliações de Dilma Rousseff. Observa-se, a propósito, que este sentimento de repúdio à corrupção se difunde na sociedade e não só nos andares mais altos.
É um desenvolvimento importante, porque a política alternativa – a de conviver com a corrupção, como se fora um mal menor, cuja erradicação traria descomunais prejuízos contra a governabilidade – é um falso caminho. Qualquer um pode ver o que representa – nos três níveis de governo – esta chaga. Ao contemplarmos seus efeitos – nas rodovias e estradas de ferro, na infraestrutura de portos e aeroportos, na desgraça da assistência médica, na falta de segurança, e em tantas outras coisas, grandes e pequenas – nós podemos vê-la e sentir uma raiva forte e anônima.
Não te enganes, porém. Em cada propina que porventura te arrancarem e que pensaste ser do teu interesse, estarás colaborando para tornar tua vida – e a de teus próximos – ainda mais desagradável e difícil.
Não é só na Índia que a luta contra a corrupção é oportuna e tem o apoio da maioria do povo. Porque, quem se dissocia desse combate, ou é doente da cabeça, ou dela se beneficia.
( Fonte subsidiária: O Globo )
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
A Líbia é um atoleiro ?
O pessimismo do coronel Muammar Kaddafi ao conversar com seu velho amigo Ben Ali tinha fundos motivos. Por tantos anos Líbia e Tunísia tinham sido bons vizinhos. Agora sopravam de Túnis maus ventos, desencadeados por um simples verdureiro. Na verdade, a compreensão do líder da Jamairia com a situação do presidente tunisiano não era apenas fruto de suposto altruísmo. Quem depusera o rei Idris em 1969 sabia que a vizinha sublevação não deixaria de afetar-lhe e até contagiar-lhe os próprios domínios.
Essa para ele deplorável progressão lhe invadiria o país, assim como o vizinho Egito. Hosni Mubarak iria cair igualmente. Não obstante, as coisas lá seriam diferentes. A revolução da praça Tahrir permanece incompleta e não há sinal verossímil de que o exército pretenda ceder o lugar a poder civil. Afinal, desde 1952, com a derrubada do rei Faruk, na terra dos faraós o mando veste farda.
O dito famoso de Lord Acton sobre o poder e a corrupção cairia, com o passar dos anos, como uma luva sobre o jovem major que, em clássico golpe de estado em soberano viajante, foi aos poucos se transformando em ambulante caricatura das suas ilusões.
A revolução verde que pensara implantar na sociedade tribal da Líbia terá sido sempre mais fantasia do que planta a lançar raízes. Apesar de mais de quarenta anos no poder, plantou as sementes da cizânia – gramínea que os militares gostam de citar – ao imitar, sem o saber, o princípio dos Bourbon. Não esquecendo a aliança das tribos da Cirenaica com o soberano deposto, como poderia perdoá-las ?
Se, como disse Heródoto, o Egito é uma dádiva do Nilo, a Líbia será uma ilusão geopolítica, com províncias costeiras que remontam à antiguidade helênica, e vasto, desértico interior onde jorra valioso petróleo.
Na primavera árabe, a rebelião líbica seria outro fenômeno anunciado. O levante de Benghazi e das localidades do litoral oriental viria fatalmente. Espontâneo, desorganizado, sem estrutura castrense nem armamento pesado, foi encarado a princípio com benévola indiferença pelo Ocidente. Paradoxalmente, Kaddafi tratou de ajudá-lo ao procurar debelá-lo como se fora hoste estrangeira, empregando para tanto os seus aviões bombardeiros e a artilharia.
Ao agir como um tirano, terá pensado no exemplo do general Omar al-Bashir do Sudão, a quem o Ocidente favoreceu, não interferindo pelo genocídio de Darfur. Agora, a maior exposição da costa e a riqueza petrolífera em jogo terão pesado mais, transformando a postura ocidental nas proativas bombas da OTAN.
Depois de estabelecer área de proibição de sobrevoo, e de posteriormente tentar, de forma sistemática, alcançar o que Reagan não havia conseguido, as limitações da aliança rebelde, as suas dissensões internas, a par da endêmica desordem no conflito líbico, a recusa de Kaddafi em sair de cena, tudo isso conduziu a um estado de estagnação.
As defecções da Jamairia, acentuadas a princípio, hoje refletem o aparente marasmo militar. Há entusiasmo, mas não organização na Liga Rebelde. Não lhe faltam apoios políticos, mas a supremacia aeromilitar não se afigura bastante para culminar o que antes se julgara inexorável. Por outro lado, Kaddafi pode ser patético na resistência – assim como às vezes semelham patéticas as visitas que se animam a prestar-lhe estranha solidariedade, que parece mais fundada na confusão ideológica do que em avaliação de princípios.
Está, portanto, formado o atoleiro ? A OTAN bombardeia – e as suas incursões, por vezes, nada têm de burocrático – mas não logra atingir o sonhado bunker do coronel. Será que a história voltará repetir-se em farsa ?
Como deste drama falta o fim, fica difícil ler o que reservam as paredes – ou ruinas – do futuro.
Há gente que busca apelar para a razão. Talvez, ao invés de solução, tal convicção constitua parte do problema. Porque nesse entrevero – como na interminável novela pregressa – existem pessoas que deram sempre rédea solta ao corcel da paixão, ignorando o do discernimento. Como até agora julgam ter-se dado bem...
(Fonte subsidiária: International Herald Tribune)
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Notícias do Front (VIII)
A Morte mais do que anunciada
As desculpas das autoridades, jogando implicitamente a responsabilidade da falta de segurança sobre a vítima, é comportamento que não contraria a habitual negligência. Não eram segredo, segundo informa O Globo, as ameaças de morte à juíza Patrícia Acioli.
Dois dias antes do assassinato, policial civil da Delegacia de Combate às Drogas (Dcod) esteve na Polícia Federal para informar que havia plano para executar a juíza, considerada linha-dura (sic) nos julgamentos contra PMs da banda podre de São Gonçalo.
A própria futura vítima, Patrícia Acioli, estivera na semana anterior ao crime, na sede da Corregedoria da P.M., onde teria referido estar sendo ameaçada por policiais do 7º BPM (São Gonçalo) e do 12º BPM (Niterói).
Por outro lado, informação recebida a quinze do corrente pelo Disque-Denúncia indica quatro detentos do presídio Ary Franco, em Água Santa, como os mandantes do crime. Ligados à exploração de máquinas caça-níqueis em Niterói, São Gonçalo e Maricá estariam por trás do assassinato da juíza.
Consoante as intenções desse grupo criminoso, os próximos alvos seriam um juiz federal de Niterói e o perene ameaçado, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), presidente da CPI das Milícias que divulgou relatório referente ao assunto.
Como se sabe, os honestos incomodam, mais ainda os da têmpera e coragem de Marcelo Freixo. A circunstância de alcunhar de linha-dura os magistrados e deputados que cumprem seu dever em combate contra a corrupção e o crime organizado é um triste, ignominioso sinal da dúbia atitude de muitos. Olhando para o outro lado, a sua omissão contribui para que esses crimes se tornem possíveis.
Frente Parlamentar contra a Corrupção
Registrem-se os nomes dos poucos senadores integrantes da Frente contra a Corrupção: Pedro Simon (PMDB-RS); Cristovam Buarque (PDT-DF); Pedro Taques (PDT-MT); Randolfe Rodrigues (PSOL-AP); Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE); Ricardo Ferraço (PMDB-ES); Ciro Miranda (PSDB-GO); Ana Amélia Lemos (PP-RS) e Eduardo Suplicy (PT-SP). Assinale-se que há apenas duas adesões da oposição.
Quanto ao PT diz muito acerca da nova posição do Partido dos Trabalhadores, que pouco ou nada tem a ver com as suas aguerridas posições quando na oposição. Que um movimento lançado por Simon para respaldar a atitude ética da presidenta tenha apenas o apoio simbólico de uma estrela solitária do PT constitui o indício mais acachapante da adesão petista à cultura da ‘base fisiológica’ prevalente no Congresso, de emendas parlamentares e apoios não de princípio mas de oportunidade.
É também deplorável que a oposição (PSDB e DEM) não venha integrar a frente contra a corrupção. Negar apoio à Dilma Rousseff na sua faxina mostra à sociedade que, na verdade, as bancadas desses dois partidos não diferem muito das da ‘base’.
Nos discursos, releva sublinhar: continuação da faxina (Simon), que seja completa, incluindo o PMDB ( Vasconcelos). O toque original foi dado por Cristovam: não queremos ficar só na faxina. “ É hora de a presidente chamar para conversar pessoas que não querem indicar nenhum cargo”, ao contrário da prática dos últimos governos, em que o presidente só chama quem quer indicar cargos ou liberar emendas.
Reações contra Ricardo Teixeira
O presidente Ricardo Teixeira, há cerca de vinte anos à frente da CBD, declarou à revista Piauí que só se preocuparia com acusações quando aparecessem no Jornal Nacional da Rede Globo.
Pelo visto, os tempos principiam a mudar. A Globo, no telejornal do sábado, se reportou a gastos públicos do Distrito Federal em amistoso Brasil x Portugal, na gestão do governador Arruda. Há implicação, posto que discreta, de Ricardo Teixeira.
Haveria algum filtro de proteção ao ainda poderoso Teixeira ? Nesse contexto, vem a lume manifestação popular contra o ex-genro de João Havelange, que pede a sua saída da CBD.
Por outro lado, a BBC inglesa acusou três integrantes da Comissão Executiva da Fifa (Teixeira, Nicolás Leoz do Paraguai e Issa Hayatou, dos Camarões) por terem recebido na década de 90 propinas da ISL, empresa de marketing desportivo.
Que haja nuvens pesadas sobre a Fifa e seu presidente Sepp Blatter, o processo de sua última eleição deixou entrever.
Por enquanto, Ricardo Teixeira não tem recebido a necessária atenção.A menção à passeata contra ele em São Paulo não foi de grande realce. Em época de faxina, seria interessante que o longo mandarinato de Teixeira na CBD caísse sob crivo investigativo.
Afinal, o Brasil se apresta a ser o anfitrião da Copa do Mundo. A opinião pública deveria ter maior acesso às questões relativas à longuíssima gestão de Teixeira. Até o momento, por considerações de programação esportiva, em particular da Rede Globo, Sua Senhoria continua a ser tratado com luvas de pelica.
Tudo o que concerne à seleção, no país do futebol, máxime o atual desgoverno no setor técnico, deve interessar a todos nós. Por isso, agradeceríamos cobertura mais isenta.
( Fonte: O Globo )
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