Terá o saudosismo alguma base na realidade, ou a nostálgica reação seria apenas uma questão de memória, com a distância no tempo, romantizando os quadros antigos, expurgados de agruras e verrugas pelos suaves, insensíveis sopros de um parcial esquecimento ?
Como em tantas outras coisas, encontraremos dúplices respostas para essa pergunta, que tocará mais de perto os que já tenham atravessado um caminho mais longo.
Assim, personagem de René Clair, interpretado por Michel Simon, seria a recorrente voz do saudosismo. Na cavalgada do filme, em que o carrossel semelhava girar ao revés, aparecia a figura, reclamando dos tempos atuais, e louvando um passado desconhecido para os outros personagens.
Na desabalada carreira passado adentro, ressurgia o mesmo ator,sempre com roupas de outra época, e a entoar loas para tempos ainda mais distantes, tudo sob a alegra descrença dos companheiros de mesa.
Pode-se discutir a intenção do cineasta francês. Desejaria ele, pela ritual irrupção da cômica carantonha de Michel Simon, apenas satirizar os passadistas ? Ou se proporia relativizar as impressões humanas, em que a experiência seria máquina imperfeita, a produzir julgamentos datados e preconceituosos ?
Por sua vez, Woody Allen, no seu atual filme Meia Noite em Paris, parece recomendar um culto mais simplista, sem ironias gaulesas, de uma era que se procura eternizar nos largos traços de um quadro imutável, não mais sujeito aos caprichos da deusa fortuna. Daí os atrativos do conto de fadas, com personagens humanos, cuja prática não nos reserva surpresas, mas tão só a ilusão de uma trajetória fora das angústias do presente.
Diante do que se nos depara, a realidade brasileira desafia um definição apressada. Estaremos vivendo os famosos ‘tempos interessantes’, de que nos falam os chineses, e que de interessantes têm muito pouco, a não ser o travo amargo de um desagradável dia-a-dia ? Ou tudo será a mesma estória de sempre, que a eterna querela da memória com o rio do Lete torna por vezes irreconhecível ?
O cenário de abandono das cidades de Friburgo e Teresópolis, flageladas pela catástrofe de janeiro de 2011, só agora causa espanto, passados seis meses de inação do poder público mais próximo, que é o das prefeituras ? Como interpretar o desvio das verbas federais, que não se utilizam para o seu escopo precípuo ? Então, não há limite para a corrupção ? Será que a pulsão de levar vantagem em tudo, até mesmo em obras que visam a minorar as perdas de gente próxima, quiçá até conhecida, como os moradores do mesmo município, faça esses responsáveis pelos fundos públicos esquecer toda e qualquer atitude, já não digo de compadecimento e solidariedade, mas de mínima cautela, em face da enormidade do desastre e do escândalo da longa inação ?
Se fosse um exemplo isolado, poder-se-ía até dizer que este comportamento reprovável se dissocia de uma realidade de gente honesta, que sabe distinguir muito bem, na lição do político Raul Fernandes, entre fazenda pública e privada ?
Através da mídia, nos chega a voz da dissonância de atitude que se reproduz com desenvoltura não só em âmbito municipal, mas estadual e federal. Diante de tal quadro, a reação pode alternar-se entre o cinismo do desengano e a revolta dos que se recusam a aceitar as cenas da corrupção e do corporativismo como norma prevalente.
Os exemplos são tantos que a perplexidade da sociedade pode desaguar no derrotismo da passividade, ou na cólera de quem não se vê representado por tão desenfreada alienação.
Defrontando-se com este estado de coisas, a sociedade já mandou muitos recados, como o voto de protesto, que em tempo recente se viu na eleição de um palhaço, com simplória plataforma (pior não fica).
Será sempre uma mensagem, mas prefiro atitudes mais construtivas, fundadas na memória e na esperança.
Talvez esteja repetindo o ingênuo, teimoso otimismo dos saudosistas acima referidos. No entanto,devemos continuar trabalhando por iniciativas como a Lei da Ficha Limpa. Não importa que a vontade do povo tenha sido temporariamente escanteada.
Esta lei complementar nr. 135 pode ter sido vítima de uma situação surrealista. Mas não se deve jamais esquecer que a pressão popular não é uma ficção. Basta relembrar a trajetória dessa iniciativa do Movimento contra a corrupção eleitoral (MCCE) por Câmara e Senado. Malgrado a má-vontade, acabou votado por unanimidade.
Por isso, não nos devemos desencorajar. Esta é uma luta comprida. E os seus êxitos carecem de ser comemorados. Agir doutra forma trará apenas mais água para o moinho da corrupção.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
terça-feira, 12 de julho de 2011
Depois da Farra de 2010, a Cobrança
A história das crises de inadimplência – o chamado estouro dos calotes – costuma ter monótona evolução. A princípio, a euforia do crédito fácil, o que se vê agravado se o governo tem algum interesse em incentivar as compras. Sob a sensação de que agora vai ser diferente, as classes C e D se entusiasmam com as tão generosas ofertas de bens de consumo duráveis.
Os anúncios na mídia falam de oportunidades únicas, sem entrada, com a primeira prestação empurrada para uns dois ou três meses à frente, as parcelas fragmentadas em longos períodos, a perder de vista, e ainda por cima declarados sem juros !
O consumidor e a família se entusiasmam. Não só acreditam nas promessas, senão atraídos pelas ofertas embarcam no gostoso frenesi das compras !
Sem dar-se conta de que muitas módicas prestações mensais podem representar mais além um peso insuportável, nunca dantes neste país tanta gente de apertados meios acorre ao canto da sereia do comércio a crédito e, pasmem, sem juros !
Essa farra, que o governante interessado em criar falsa atmosfera da mágica terra da abundância não só permite, mas incentiva, vem a calhar para as grandes empresas revendedoras do comércio, e mais além para a indústria e as montadoras estrangeiras.
E o povão acode, mesmerizado e entontecido pela publicidade desenfreada, para a grande festa do ilusório consumismo.
Parte para o carro novo e os luzentes eletrodomésticos. Julga-se convidado para a festança das muitas aquisições, alacremente empilhando carnês e duplicatas, que, no entusiasmo das compras, vai cevando os gordos jornalões com seus cadernos especiais, as empresas e as montadoras, que falam em curvas ascendentes da atividade econômica e pensam nas fartas remessas para as matrizes lá fora.
As classes C e D por uma vez se acreditam convidadas para a grande festa. Tantas ofertas, tantas vantagens, resistir quem há de ? Não sabem, porém, que tudo aquilo deverá ser, daqui a uns poucos meses, por elas bancado.
Então as mesuras, os sorrisos, as facilidades viram miragens no deserto, e o vendedor risonho com seus acenos de créditos a perder de vista se metamorfoseia na carantonha do cobrador importuno, insistente e, no final, na cruel burocracia de sonhos desfeitos na realidade dos ávidos credores, na rotina dos bens arrancados pelos eternos capangas de uma farsa que se descobre, com todos os pormenores de um fim de sonho, no qual, sorrisos e afagos viram grosserias rituais do cair na real, sem nem mesmo o toque poético do e agora José.
*
Hoje, nos jornais, com preocupação assinala-se que a inadimplência sobe a 22,3% no primeiro semestre, o que é a maior alta em nove anos !
Interessante notar, a propósito, que este calote supera a todos os demais dentre esse período de nove anos, que, por coincidência, é simultâneo com a assunção ao poder por Luiz Inácio Lula da Silva e o petismo.
Com relação ao mesmo período de 2010, em 2011, de janeiro a junho, aumentam em 7% os cheques sem fundo,e os títulos protestados em 14,9%. Diminuiram em 2% as dívidas com os bancos.
Segundo se lê nas colunas, os especialistas, que são as pitonisas a interpretarem os fumos e os humores dessa entidade inaferrável que é o mercado, dizem que o consumidor de baixa renda pode ser o principal responsável pelo aumento nos calotes.
Vejam só. Quem pensava que era rei e convidado principal, ora é visto como estraga-festas.
Com os vapores da inflação e as medidas indispensáveis de restrição ao crédito, foi enfim individuado o principal responsável, aquele que de um jeito ou de outro, vai ter de pagar a conta.
( Fonte subsidiária: O Globo )
Os anúncios na mídia falam de oportunidades únicas, sem entrada, com a primeira prestação empurrada para uns dois ou três meses à frente, as parcelas fragmentadas em longos períodos, a perder de vista, e ainda por cima declarados sem juros !
O consumidor e a família se entusiasmam. Não só acreditam nas promessas, senão atraídos pelas ofertas embarcam no gostoso frenesi das compras !
Sem dar-se conta de que muitas módicas prestações mensais podem representar mais além um peso insuportável, nunca dantes neste país tanta gente de apertados meios acorre ao canto da sereia do comércio a crédito e, pasmem, sem juros !
Essa farra, que o governante interessado em criar falsa atmosfera da mágica terra da abundância não só permite, mas incentiva, vem a calhar para as grandes empresas revendedoras do comércio, e mais além para a indústria e as montadoras estrangeiras.
E o povão acode, mesmerizado e entontecido pela publicidade desenfreada, para a grande festa do ilusório consumismo.
Parte para o carro novo e os luzentes eletrodomésticos. Julga-se convidado para a festança das muitas aquisições, alacremente empilhando carnês e duplicatas, que, no entusiasmo das compras, vai cevando os gordos jornalões com seus cadernos especiais, as empresas e as montadoras, que falam em curvas ascendentes da atividade econômica e pensam nas fartas remessas para as matrizes lá fora.
As classes C e D por uma vez se acreditam convidadas para a grande festa. Tantas ofertas, tantas vantagens, resistir quem há de ? Não sabem, porém, que tudo aquilo deverá ser, daqui a uns poucos meses, por elas bancado.
Então as mesuras, os sorrisos, as facilidades viram miragens no deserto, e o vendedor risonho com seus acenos de créditos a perder de vista se metamorfoseia na carantonha do cobrador importuno, insistente e, no final, na cruel burocracia de sonhos desfeitos na realidade dos ávidos credores, na rotina dos bens arrancados pelos eternos capangas de uma farsa que se descobre, com todos os pormenores de um fim de sonho, no qual, sorrisos e afagos viram grosserias rituais do cair na real, sem nem mesmo o toque poético do e agora José.
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Hoje, nos jornais, com preocupação assinala-se que a inadimplência sobe a 22,3% no primeiro semestre, o que é a maior alta em nove anos !
Interessante notar, a propósito, que este calote supera a todos os demais dentre esse período de nove anos, que, por coincidência, é simultâneo com a assunção ao poder por Luiz Inácio Lula da Silva e o petismo.
Com relação ao mesmo período de 2010, em 2011, de janeiro a junho, aumentam em 7% os cheques sem fundo,e os títulos protestados em 14,9%. Diminuiram em 2% as dívidas com os bancos.
Segundo se lê nas colunas, os especialistas, que são as pitonisas a interpretarem os fumos e os humores dessa entidade inaferrável que é o mercado, dizem que o consumidor de baixa renda pode ser o principal responsável pelo aumento nos calotes.
Vejam só. Quem pensava que era rei e convidado principal, ora é visto como estraga-festas.
Com os vapores da inflação e as medidas indispensáveis de restrição ao crédito, foi enfim individuado o principal responsável, aquele que de um jeito ou de outro, vai ter de pagar a conta.
( Fonte subsidiária: O Globo )
segunda-feira, 11 de julho de 2011
É Hora de Reproclamar a República
Há muitas lições a serem tiradas da suposta descoberta de irregularidades no Ministério dos Transportes. Descoberta talvez não seja a expressão apropriada porque o simples fato de não declará-las ostensivamente, por espaço de tempo considerável, não implica em admitir que tais desvios de comportamento fossem desconhecidos até então.
A integridade é apanágio que não carece de muita retórica. Como segunda natureza, ela acompanha quem a pratica não por contingência e muito menos por ostentação. A sua exposição independerá dos cuidados que seus imitadores costumam empilhar sobre os rotos trajes da corrupção. Como no episódio do rei nu, bastará uma fímbria de verdade para que a contrafação salte aos olhos de quem quiser ver.
O Globo de hoje estampa assertiva que, entre outras reações, deve merecer estudo aprofundado. Leiamo-la, portanto, com atenção redobrada:
“Blairo: Pagot só fazia o autorizado”
Pedindo um pouco de paciência ao leitor, gostaria de reportar-me à relevância neste contexto do comentário do jornalista Janio de Freitas sobre o estranho procedimento adotado pela Presidenta Dilma Rousseff, ao encarregar o ex-Ministro Alfredo Nascimento de indicar nome para a pasta da qual vinha de ser demitido por notórios e sabidos motivos.
Que o despropósito de tal cometimento tenha escapado a muitos, não diz pouco sobre o estado ético da República. Se me permitem a comparação, em matéria de política o Brasil regrediu ao feudalismo. A raínha soberana não tem autoridade sobre os barões e seus feudos. A admissão desta realidade fática está no gesto, lógicamente absurdo, mas correto no respeito ao poder efetivo, de solicitar ao donatário da capitania a indicação de novo sucessor. A rainha não abdica da faculdade formal de apor a real chancela à designação feita pelo barão, que é de senhor do respectivo feudo.
A prática atual acaso respeita o artigo 84, inciso I, da Constituição Federal ?
Se a competência privativa do Presidente de República de nomear e exonerar os Ministros de Estados está sendo atendida na essência, não creio seja assunto de discussão. Se há adesão à forma, quem há de afirmar que também o mérito, a substância esteja sendo respeitado ?
Antes de concluirmos a análise deste pormenor, semelha importante assinalar que ele nos indica a trilha para que a sociedade civil saia do matagal onde a meteram. Com efeito, tal particular nos é útil para que nos convençamos da urgência da reforma política. Sendo a situação de ponta-cabeça, de que nos serve a postura do avestruz ?
No que tange à frase do Senador Maggi - indicado pelo chefe do Partido da República para sucedê-lo - a sua formal, ilusória aparência está, em realidade, eriçada de ameaças. Essa batida e tristemente notória defesa do burocrata – apenas cumpriu ordens – no caso em tela, mais parece a ponta de um ariete com que os pelotões do senhor feudal investiam os portões da fortaleza, malgrado o óleo fervente, as pedras e as flechas que os sitiados defensores do castelo lhes arrojavam.
Sem embargo das atitudes e das posturas, o estado da república exige a coragem e resolução de um Marquês de Barbacena. Se o exemplo deveria ser imitado, que o seja adaptado às circunstâncias presentes. Não é o caso, por conseguinte, de anunciar ao soberano a sua próxima queda, tornada inevitável pela própria responsabilidade, mas sim expor à presidenta, com bíblica concisão, o que as festas em palácio não podem ocultar:
Faça a reforma, antes que seja demasiado tarde.
( Fonte subsidiária: O Globo )
A integridade é apanágio que não carece de muita retórica. Como segunda natureza, ela acompanha quem a pratica não por contingência e muito menos por ostentação. A sua exposição independerá dos cuidados que seus imitadores costumam empilhar sobre os rotos trajes da corrupção. Como no episódio do rei nu, bastará uma fímbria de verdade para que a contrafação salte aos olhos de quem quiser ver.
O Globo de hoje estampa assertiva que, entre outras reações, deve merecer estudo aprofundado. Leiamo-la, portanto, com atenção redobrada:
“Blairo: Pagot só fazia o autorizado”
Pedindo um pouco de paciência ao leitor, gostaria de reportar-me à relevância neste contexto do comentário do jornalista Janio de Freitas sobre o estranho procedimento adotado pela Presidenta Dilma Rousseff, ao encarregar o ex-Ministro Alfredo Nascimento de indicar nome para a pasta da qual vinha de ser demitido por notórios e sabidos motivos.
Que o despropósito de tal cometimento tenha escapado a muitos, não diz pouco sobre o estado ético da República. Se me permitem a comparação, em matéria de política o Brasil regrediu ao feudalismo. A raínha soberana não tem autoridade sobre os barões e seus feudos. A admissão desta realidade fática está no gesto, lógicamente absurdo, mas correto no respeito ao poder efetivo, de solicitar ao donatário da capitania a indicação de novo sucessor. A rainha não abdica da faculdade formal de apor a real chancela à designação feita pelo barão, que é de senhor do respectivo feudo.
A prática atual acaso respeita o artigo 84, inciso I, da Constituição Federal ?
Se a competência privativa do Presidente de República de nomear e exonerar os Ministros de Estados está sendo atendida na essência, não creio seja assunto de discussão. Se há adesão à forma, quem há de afirmar que também o mérito, a substância esteja sendo respeitado ?
Antes de concluirmos a análise deste pormenor, semelha importante assinalar que ele nos indica a trilha para que a sociedade civil saia do matagal onde a meteram. Com efeito, tal particular nos é útil para que nos convençamos da urgência da reforma política. Sendo a situação de ponta-cabeça, de que nos serve a postura do avestruz ?
No que tange à frase do Senador Maggi - indicado pelo chefe do Partido da República para sucedê-lo - a sua formal, ilusória aparência está, em realidade, eriçada de ameaças. Essa batida e tristemente notória defesa do burocrata – apenas cumpriu ordens – no caso em tela, mais parece a ponta de um ariete com que os pelotões do senhor feudal investiam os portões da fortaleza, malgrado o óleo fervente, as pedras e as flechas que os sitiados defensores do castelo lhes arrojavam.
Sem embargo das atitudes e das posturas, o estado da república exige a coragem e resolução de um Marquês de Barbacena. Se o exemplo deveria ser imitado, que o seja adaptado às circunstâncias presentes. Não é o caso, por conseguinte, de anunciar ao soberano a sua próxima queda, tornada inevitável pela própria responsabilidade, mas sim expor à presidenta, com bíblica concisão, o que as festas em palácio não podem ocultar:
Faça a reforma, antes que seja demasiado tarde.
( Fonte subsidiária: O Globo )
domingo, 10 de julho de 2011
Colcha de Retalhos LXXXV
Mensalão: a Denúncia do Ministério Público
Há muito esperada, a acusação do procurador-geral Roberto Gusmão se cinge a 36 réus. Exclui dois acusados por falta de provas: Luiz Gushiken e Antonio Lamas. Dos réus, o procurador-geral estima que são treze os principais responsáveis pelo esquema do mensalão.
As palavras de Roberto Gusmão relativas ao mensalão precisam ser citadas por desmontarem o que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou durante a campanha eleitoral, quando se atreveu a dizer que o escândalo era farsa montada pela oposição contra o PT.
“A instrução comprovou que foi engendrado um plano criminoso voltado para a compra de votos dentro do Congresso. Trata-se da mais grave agressão aos valores democráticos que se possa conceber”. A nova peça de acusação complementa a denúncia inicial, feita pelo então procurador-geral Antônio Fernando de Souza. Com 390 páginas, o atual procurador-geral sustenta, com base em depoimentos e provas periciais, que dinheiro público irrigou um esquema de apoio ao governo Lula no Congresso e financiamento ilegal de campanhas, entre 2003 e junho de 2005.
Dentre os réus, os principais são José Dirceu (PT-SP), apontado como o cabeça do esquema, Marcos Valério, acusado de operá-lo, e José Genoino (PT-SP), fazia a articulação com os líderes partidários e procedia ao ajuste da vantagem financeira a ser paga. Também estão entre os maiores responsáveis Roberto Jefferson (PTB-RJ), por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Por acordo fechado entre Dirceu e Jefferson o PTB aderiu à base governamental mediante a paga de vinte milhões de reais. Delúbio Soares – que acaba de ser reacolhido pelo PT – participou do financiamento ilícito do projeto de poder do PT, e tampouco hesitou em locupletar-se do esquema.
Dentre os demais, João Paulo Cunha (PT-SP) recebeu, quando presidente da Câmara dos Deputados vantagem indevida no montante de cinquenta mil reais. Praticou igualmente peculato e lavagem de dinheiro, por duas vezes; Valdemar Costa Neto (PR-SP): formação de quadrilha, corrupção passiva e lavagem de dinheiro; Paulo Rocha (PT-PA): lavagem de dinheiro. Recebeu dinheiro em espécie, valendo-se de artifícios para ocultar origem e natureza ilícita dos valores recebidos; Professor Luizinho (PT-SP): Lavagem de dinheiro (recebeu através do Banco Rural vinte mil reais); João Magno (PT-MG) : Lavagem de dinheiro. Valendo-se de intermediação, coletou trezentos e sessenta mil reais; Bispo Rodrigues (ex PL-RJ) Lavagem de dinheiro (recebeu vinte mil reais); Anderson Adauto (ex-PL-MG) (Corrupção ativa e lavagem de dinheiro) Então Ministro dos Transportes, filiado ao PTB, recebeu valores nos dias que antecederam a votação de reforma tributária; Duda Mendonça (publicitário) Acusado de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Apresentada a denúncia, os réus têm o prazo de trinta dias para apresentar a sua defesa. Paira sobre o andamento do processo o risco de que o crime de formação de quadrilha prescreva. Tal se deve notadamente ao vetusto Código de Processo Penal que permite infinidade de recursos, além de permitir a convocação de um grande número de testemunhas pela defesa, com o único objetivo de ganhar tempo e, dessarte, tornar possível a prescrição de alguns crimes.
Espera-se, no entanto, que o Supremo Tribunal Federal aja com a indispensável presteza a fim de evitar que uma vez mais os suspeitos venham a tornar írritas por decurso de prazo fundadas acusações. Para tanto será necessária a abertura do julgamento pelo STF ainda no mês de agosto p.f.
Aumento do Desemprego nos E.U.A.
Em outro golpe contra a popularidade do Presidente Barack Obama, o desemprego continuou a crescer na economia estadunidense. Segundo o órgão responsável, a recuperação da grave recessão causada pela crise financeira internacional em 2008 e na primeira metade de 2009, é ainda bastante lenta e insuficiente. Apenas dezoito mil empregos foram criados em junho último, e o desemprego não acena baixar. Pelo contrário, registrou outra elevação, passando agora para 9,2%
Por ora, os expertos não prognosticam nova recessão, mas as perspectivas não são boas. Com o Presidente Obama e as lideranças do Congresso discutindo cortes nas despesas, a crise financeira na União Europeia e o crescimento da China em ritmo reduzido, as possibilidades de retomada da curva de ascensão da economia americana não se afiguram nada brilhantes.
Como tem amiúde escrito o Prêmio Nobel, economista Paul Krugman, através da contenção das despesas se agrava a situação econômica. Somente através da injeção de recursos na economia, que ensejem a abertura do emprego, é que se criaria condições para superar a presente estagnação. A política inversa só tende a formar um cenário que não é propício nem aos Estados Unidos nem a seu Presidente.
O desafio da economia e o incremento do desemprego contribui para solapar ainda mais os níveis de aprovação do Presidente Barack Obama. Passado o súbito aumento de popularidade, devido ao exito da operação contra Osama bin Laden, a tendência será para a baixa, empurrada pelo mau desempenho da economia que, como sói acontecer, respinga sobre o presidente em exercício, eventual candidato à reeleição.
Bill Clinton impediu em 1992 a reeleição de George H.W. Bush a um segundo mandato não só devido a recessão de então, mas sobretudo por focalizar a respectiva campanha na necessidade de reativar a economia americana. O seu slogan dizia tudo: É a economia, estúpido ! (It’s the economy, stupid !)
Como anda a revolução árabe democrática ?
Se a revolução democrática continua ativa e presente, a situação em diversos países não permite ainda formular juízos definitivos. Com efeito, se após o supremo sacrifício do verdureiro tunisiano, Muhammad Bouazizi, continua acesa a chama da insurreição na nação árabe, a vitória da democracia se afigura difícil objetivo, dada a resistência das forças do statu quo.
Nesse contexto, o Egito representa um primeiro exemplo que não induz a excessivo otimismo. As grandes, multitudinárias aglomerações da praça Tahrir alcançaram o seu objetivo inicial, v.g., a derrubada da trintenal ditadura de Hosni Mubarak.
No entanto, o cenário pós-Mubarak não parece muito animador. Existem dois atores, ambos presentes desde o século passado na antiga terra dos faraós, que semelham colocar-se em vantajosa posição, seja para continuar a ser o poder predominante, seja para colocar-se como força respeitável, com influência crescente na política egípcia.
Refiro-me ao exército, que através de seu comandante, o marechal de campo Mohamed Hussein Tantawi, é o chefe de estado de facto. Como as correntes democráticas se acham bastante fragmentadas, os acontecimentos vem evoluindo no sentido de que as forças armadas se posicionem para continuar a exercer o poder, seja de forma direta ou indireta.
Para tanto, parecem ter um acordo tácito com a Fraternidade Muçulmana. Saindo da semi-clandestinidade em que se achava, sobretudo nos anos derradeiros da ditadura de Mubarak, os islamitas se abstêm de oposição ao Conselho dominado pelos militares. Contam crescer muito nas próximas eleições, chegando mesmo a ambicionar o cinquenta por cento dos votos. É uma perspectiva que não induz a expectativas democráticas. A própria moderação presente das colocações da Irmandade indicam um partido que com palavras e posições bem-comportadas parece preparar-se para pelo menos a partilha do mando com o ator principal.
Há outros desenvolvimentos no Egito que tampouco representam bons presságios. Aumentou muito após a queda de Mubarak a intolerância religiosa, de que é vítima a minoria copta. Os coptas correspondem a cerca de dez por cento da população egípcia. A violência contra os cristãos se manifesta na destruição de várias igrejas, e a despeito dos reclamos dos líderes coptas, o estado não tem agido nem de forma a proteger a comunidade copta e seus templos, nem toma medidas no sentido de reconstruir o que foi arrasado pela raiva cega das camadas mais baixas, que são as mais suscetíveis de acreditar em boatos islamofóbicos e de agir em consequência.
No campo da resistência democrática, o recente Dia da Raiva – 27 de maio – não repetiu o impacto de eventos anteriores organizados pelos ativistas da praça Tahrir.
Foi notado, sem embargo, que o único segmento partícipe na revolução que não aderiu a essa jornada de protesto foi justmente a Fraternidade Muçulmana. E esta ausência foi gritada a plenos pulmões. Da multidão de trinta mil pessoas - número bastante inferior àqueles das concentrações na praça Tahrir – se repetiu o clamor ‘Aqui está o povo do Egito, onde está a Fraternidade Muçulmana ?’.
A insurreição na Síria perdura. Se as manifestações de protesto se espalham como o incêndio no restolho das planícies, se não mais subsistem dúvidas quanto ao desejo da maioria da população de pôr termo ao poder dinástico da família al-Assad, se as condenações ao regime alauíta vêm dos cantos mais imprevisíveis, como as duras palavras de Recip Erdogan, Primeiro Ministro da Turquia, aos procedimentos da ditadura contra movimentos pacíficos, se o número de mortos, nas dúbias estatísticas feitas à distância por motivo dos rigores da repressão em estilo iraniano, já atinge os mil e quinhentos, na contagem conservadora. Semelha difícil prognosticar a próxima evolução do drama neste país de magras riquezas, mas de grande relevância geopolítica.
Quiçá Hama, a cidade mártir da proto-insurreição, em 1982, então bárbara e metodicamente esmagada por Rifaat al-Assad, na época o condestável do ditador Hafez al-Assad, hoje volta a simbolizar essa postura libertária de sua população. A resistência tem sido tamanha que apesar de se sucederem tanques do exército e as ditas forças de segurança, o estado de desobediência de seus habitantes tem sido a constante. Entrementes, a ditadura de Bashar alterna retiradas e investidas, numa sequência em que a única lógica parece ser a do esforço de vencer pelo cansaço, o que nem as armas e os fuzis de atiradores, nem o cerco dos militares tem logrado. Até um governador foi demitido por Bashar, culpado talvez de não estabelecer aquela suposta ordem preferida pelo ditador de Damasco.
Em mostra inédita de apoio da comunidade internacional, os embaixadores da França e dos Estados Unidos visitaram Hama por dois dias, chegando na quinta e permanecendo na sexta, dia santo para os muçulmanos, e palco habitual das maiores concentrações de protesto. O governo sírio reagira enraivecido diante dessa inusitada presença estrangeira, sobretudo quanto à vinda do embaixador americano Robert Ford, a quem increpou de incitamento a demonstrações e a manter reuniões com ‘sabotadores’.
No Iêmen, onde as manifestações prosseguem desde a eclosão dos protestos no Egito, houve um recrudescimento na oposição, pela reiterada vontade do presidente Abdullah Saleh em retornar a Sana. Saleh aparece em público por primeira vez desde o atentado que sofreu em quatro de junho. Com o rosto queimado e as mãos enfaixadas, o presidente do Iêmen irrita os demonstrantes por expressar mais uma vez o seu propósito de aferrar-se ao poder. Em hospital na Arábia Saudita, enquanto seus filhos intentam manter as rédeas da governança, Saleh reincide na sua vontade de continuar na presidência, por mais que a resistência ao seu governo pessoal, no pequeno e pobre Iêmen, torne o seu desígnio a apresentar-se como um projeto voluntarista, que se apega a despeito de tudo ao mando, sem qualquer preocupação com a governabilidae da respectiva terra natal.
Por fim, na Líbia, a contraposição da Liga dos Rebeldes do Leste e o patético Líder supremo da Jamairia, Muammar Kadaffi, mais do que prolongar-se, na verdade se arrasta, no que aparece por vezes como fazendo parte daqueles conflitos de baixa intensidade que atazanam vários países, sem no entanto contar com a atenção da mídia. Os rebeldes de Benghazi tem a simpatia do Ocidente, os bombardeios pontuais da OTAN, mas não dispõem de estrutura bélica e de armamentos condizentes com a escala indispensável para movimentos estratégicos, com o escopo de vencer o núcleo de Trípoli, e os seus bunkers e subterrâneos, de onde o coronel vocifera contra os seus inimigos, reais e imagínários, ameaçando com terríveis ações que mais parecem criaturas de um cérebro enfermiço, do que ameaças a serem temidas e, eventualmente, computadas.
Agora se anuncia um ataque da Liga Rebelde, que tencionaria cortar a via de comunicação de Trípoli, com o sul do país. Se a investida for bem sucedida, espera-se que a situação de Muammar Kadaffi fique insustentável.
O que carece de ser demonstrada será a real aptidão dos rebeldes, em termos de equipamento e de força militar, em tornar efetivo esse propósito.
A Seleção de Mano Menezes
Os decantados valores individuais da equipe brasileira, na era Mano Menezes, não impediram até hoje derrotas contra grandes adversários (Argentina e França) e empates contra pequenos times, como a Venezuela.
Ontem, assistimos a um time mal-estruturado, com jogadas confusas, e inaudita debilidade na defesa, que proporcionou ao Paraguai – que não é este bicho-papão anunciado pela mídia – dois gols lamentáveis, ambos com os defensores, ou desarmados infantilmente, como Daniel Alves, o festejado beque do Barcelona, ou com a área escancarada, como se o esquema defensivo fosse mais de time de várzea do que o da antes temida seleção.
O Brasil teve muito sorte em empatar a três minutos do final, graças à intervenção de Fred. O scratch nacional, que até olé levou do Paraguai, ainda não disse ao que foi. O que talvez seja mais preciso, está apenas repetindo a desordenação tática, as falhas individuais e as incompreensíveis substituições do técnico. Contra a Venezuela ‘punira’ Pato, o único atacante a criar situação de gol; contra o Paraguai, tirando Jadson do time, ‘castigado’ por seu gol e pelo bom entendimento com Ganso.
( Fontes: O Globo, International Herald Tribune, The New York Review, CNN )
Há muito esperada, a acusação do procurador-geral Roberto Gusmão se cinge a 36 réus. Exclui dois acusados por falta de provas: Luiz Gushiken e Antonio Lamas. Dos réus, o procurador-geral estima que são treze os principais responsáveis pelo esquema do mensalão.
As palavras de Roberto Gusmão relativas ao mensalão precisam ser citadas por desmontarem o que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou durante a campanha eleitoral, quando se atreveu a dizer que o escândalo era farsa montada pela oposição contra o PT.
“A instrução comprovou que foi engendrado um plano criminoso voltado para a compra de votos dentro do Congresso. Trata-se da mais grave agressão aos valores democráticos que se possa conceber”. A nova peça de acusação complementa a denúncia inicial, feita pelo então procurador-geral Antônio Fernando de Souza. Com 390 páginas, o atual procurador-geral sustenta, com base em depoimentos e provas periciais, que dinheiro público irrigou um esquema de apoio ao governo Lula no Congresso e financiamento ilegal de campanhas, entre 2003 e junho de 2005.
Dentre os réus, os principais são José Dirceu (PT-SP), apontado como o cabeça do esquema, Marcos Valério, acusado de operá-lo, e José Genoino (PT-SP), fazia a articulação com os líderes partidários e procedia ao ajuste da vantagem financeira a ser paga. Também estão entre os maiores responsáveis Roberto Jefferson (PTB-RJ), por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Por acordo fechado entre Dirceu e Jefferson o PTB aderiu à base governamental mediante a paga de vinte milhões de reais. Delúbio Soares – que acaba de ser reacolhido pelo PT – participou do financiamento ilícito do projeto de poder do PT, e tampouco hesitou em locupletar-se do esquema.
Dentre os demais, João Paulo Cunha (PT-SP) recebeu, quando presidente da Câmara dos Deputados vantagem indevida no montante de cinquenta mil reais. Praticou igualmente peculato e lavagem de dinheiro, por duas vezes; Valdemar Costa Neto (PR-SP): formação de quadrilha, corrupção passiva e lavagem de dinheiro; Paulo Rocha (PT-PA): lavagem de dinheiro. Recebeu dinheiro em espécie, valendo-se de artifícios para ocultar origem e natureza ilícita dos valores recebidos; Professor Luizinho (PT-SP): Lavagem de dinheiro (recebeu através do Banco Rural vinte mil reais); João Magno (PT-MG) : Lavagem de dinheiro. Valendo-se de intermediação, coletou trezentos e sessenta mil reais; Bispo Rodrigues (ex PL-RJ) Lavagem de dinheiro (recebeu vinte mil reais); Anderson Adauto (ex-PL-MG) (Corrupção ativa e lavagem de dinheiro) Então Ministro dos Transportes, filiado ao PTB, recebeu valores nos dias que antecederam a votação de reforma tributária; Duda Mendonça (publicitário) Acusado de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Apresentada a denúncia, os réus têm o prazo de trinta dias para apresentar a sua defesa. Paira sobre o andamento do processo o risco de que o crime de formação de quadrilha prescreva. Tal se deve notadamente ao vetusto Código de Processo Penal que permite infinidade de recursos, além de permitir a convocação de um grande número de testemunhas pela defesa, com o único objetivo de ganhar tempo e, dessarte, tornar possível a prescrição de alguns crimes.
Espera-se, no entanto, que o Supremo Tribunal Federal aja com a indispensável presteza a fim de evitar que uma vez mais os suspeitos venham a tornar írritas por decurso de prazo fundadas acusações. Para tanto será necessária a abertura do julgamento pelo STF ainda no mês de agosto p.f.
Aumento do Desemprego nos E.U.A.
Em outro golpe contra a popularidade do Presidente Barack Obama, o desemprego continuou a crescer na economia estadunidense. Segundo o órgão responsável, a recuperação da grave recessão causada pela crise financeira internacional em 2008 e na primeira metade de 2009, é ainda bastante lenta e insuficiente. Apenas dezoito mil empregos foram criados em junho último, e o desemprego não acena baixar. Pelo contrário, registrou outra elevação, passando agora para 9,2%
Por ora, os expertos não prognosticam nova recessão, mas as perspectivas não são boas. Com o Presidente Obama e as lideranças do Congresso discutindo cortes nas despesas, a crise financeira na União Europeia e o crescimento da China em ritmo reduzido, as possibilidades de retomada da curva de ascensão da economia americana não se afiguram nada brilhantes.
Como tem amiúde escrito o Prêmio Nobel, economista Paul Krugman, através da contenção das despesas se agrava a situação econômica. Somente através da injeção de recursos na economia, que ensejem a abertura do emprego, é que se criaria condições para superar a presente estagnação. A política inversa só tende a formar um cenário que não é propício nem aos Estados Unidos nem a seu Presidente.
O desafio da economia e o incremento do desemprego contribui para solapar ainda mais os níveis de aprovação do Presidente Barack Obama. Passado o súbito aumento de popularidade, devido ao exito da operação contra Osama bin Laden, a tendência será para a baixa, empurrada pelo mau desempenho da economia que, como sói acontecer, respinga sobre o presidente em exercício, eventual candidato à reeleição.
Bill Clinton impediu em 1992 a reeleição de George H.W. Bush a um segundo mandato não só devido a recessão de então, mas sobretudo por focalizar a respectiva campanha na necessidade de reativar a economia americana. O seu slogan dizia tudo: É a economia, estúpido ! (It’s the economy, stupid !)
Como anda a revolução árabe democrática ?
Se a revolução democrática continua ativa e presente, a situação em diversos países não permite ainda formular juízos definitivos. Com efeito, se após o supremo sacrifício do verdureiro tunisiano, Muhammad Bouazizi, continua acesa a chama da insurreição na nação árabe, a vitória da democracia se afigura difícil objetivo, dada a resistência das forças do statu quo.
Nesse contexto, o Egito representa um primeiro exemplo que não induz a excessivo otimismo. As grandes, multitudinárias aglomerações da praça Tahrir alcançaram o seu objetivo inicial, v.g., a derrubada da trintenal ditadura de Hosni Mubarak.
No entanto, o cenário pós-Mubarak não parece muito animador. Existem dois atores, ambos presentes desde o século passado na antiga terra dos faraós, que semelham colocar-se em vantajosa posição, seja para continuar a ser o poder predominante, seja para colocar-se como força respeitável, com influência crescente na política egípcia.
Refiro-me ao exército, que através de seu comandante, o marechal de campo Mohamed Hussein Tantawi, é o chefe de estado de facto. Como as correntes democráticas se acham bastante fragmentadas, os acontecimentos vem evoluindo no sentido de que as forças armadas se posicionem para continuar a exercer o poder, seja de forma direta ou indireta.
Para tanto, parecem ter um acordo tácito com a Fraternidade Muçulmana. Saindo da semi-clandestinidade em que se achava, sobretudo nos anos derradeiros da ditadura de Mubarak, os islamitas se abstêm de oposição ao Conselho dominado pelos militares. Contam crescer muito nas próximas eleições, chegando mesmo a ambicionar o cinquenta por cento dos votos. É uma perspectiva que não induz a expectativas democráticas. A própria moderação presente das colocações da Irmandade indicam um partido que com palavras e posições bem-comportadas parece preparar-se para pelo menos a partilha do mando com o ator principal.
Há outros desenvolvimentos no Egito que tampouco representam bons presságios. Aumentou muito após a queda de Mubarak a intolerância religiosa, de que é vítima a minoria copta. Os coptas correspondem a cerca de dez por cento da população egípcia. A violência contra os cristãos se manifesta na destruição de várias igrejas, e a despeito dos reclamos dos líderes coptas, o estado não tem agido nem de forma a proteger a comunidade copta e seus templos, nem toma medidas no sentido de reconstruir o que foi arrasado pela raiva cega das camadas mais baixas, que são as mais suscetíveis de acreditar em boatos islamofóbicos e de agir em consequência.
No campo da resistência democrática, o recente Dia da Raiva – 27 de maio – não repetiu o impacto de eventos anteriores organizados pelos ativistas da praça Tahrir.
Foi notado, sem embargo, que o único segmento partícipe na revolução que não aderiu a essa jornada de protesto foi justmente a Fraternidade Muçulmana. E esta ausência foi gritada a plenos pulmões. Da multidão de trinta mil pessoas - número bastante inferior àqueles das concentrações na praça Tahrir – se repetiu o clamor ‘Aqui está o povo do Egito, onde está a Fraternidade Muçulmana ?’.
A insurreição na Síria perdura. Se as manifestações de protesto se espalham como o incêndio no restolho das planícies, se não mais subsistem dúvidas quanto ao desejo da maioria da população de pôr termo ao poder dinástico da família al-Assad, se as condenações ao regime alauíta vêm dos cantos mais imprevisíveis, como as duras palavras de Recip Erdogan, Primeiro Ministro da Turquia, aos procedimentos da ditadura contra movimentos pacíficos, se o número de mortos, nas dúbias estatísticas feitas à distância por motivo dos rigores da repressão em estilo iraniano, já atinge os mil e quinhentos, na contagem conservadora. Semelha difícil prognosticar a próxima evolução do drama neste país de magras riquezas, mas de grande relevância geopolítica.
Quiçá Hama, a cidade mártir da proto-insurreição, em 1982, então bárbara e metodicamente esmagada por Rifaat al-Assad, na época o condestável do ditador Hafez al-Assad, hoje volta a simbolizar essa postura libertária de sua população. A resistência tem sido tamanha que apesar de se sucederem tanques do exército e as ditas forças de segurança, o estado de desobediência de seus habitantes tem sido a constante. Entrementes, a ditadura de Bashar alterna retiradas e investidas, numa sequência em que a única lógica parece ser a do esforço de vencer pelo cansaço, o que nem as armas e os fuzis de atiradores, nem o cerco dos militares tem logrado. Até um governador foi demitido por Bashar, culpado talvez de não estabelecer aquela suposta ordem preferida pelo ditador de Damasco.
Em mostra inédita de apoio da comunidade internacional, os embaixadores da França e dos Estados Unidos visitaram Hama por dois dias, chegando na quinta e permanecendo na sexta, dia santo para os muçulmanos, e palco habitual das maiores concentrações de protesto. O governo sírio reagira enraivecido diante dessa inusitada presença estrangeira, sobretudo quanto à vinda do embaixador americano Robert Ford, a quem increpou de incitamento a demonstrações e a manter reuniões com ‘sabotadores’.
No Iêmen, onde as manifestações prosseguem desde a eclosão dos protestos no Egito, houve um recrudescimento na oposição, pela reiterada vontade do presidente Abdullah Saleh em retornar a Sana. Saleh aparece em público por primeira vez desde o atentado que sofreu em quatro de junho. Com o rosto queimado e as mãos enfaixadas, o presidente do Iêmen irrita os demonstrantes por expressar mais uma vez o seu propósito de aferrar-se ao poder. Em hospital na Arábia Saudita, enquanto seus filhos intentam manter as rédeas da governança, Saleh reincide na sua vontade de continuar na presidência, por mais que a resistência ao seu governo pessoal, no pequeno e pobre Iêmen, torne o seu desígnio a apresentar-se como um projeto voluntarista, que se apega a despeito de tudo ao mando, sem qualquer preocupação com a governabilidae da respectiva terra natal.
Por fim, na Líbia, a contraposição da Liga dos Rebeldes do Leste e o patético Líder supremo da Jamairia, Muammar Kadaffi, mais do que prolongar-se, na verdade se arrasta, no que aparece por vezes como fazendo parte daqueles conflitos de baixa intensidade que atazanam vários países, sem no entanto contar com a atenção da mídia. Os rebeldes de Benghazi tem a simpatia do Ocidente, os bombardeios pontuais da OTAN, mas não dispõem de estrutura bélica e de armamentos condizentes com a escala indispensável para movimentos estratégicos, com o escopo de vencer o núcleo de Trípoli, e os seus bunkers e subterrâneos, de onde o coronel vocifera contra os seus inimigos, reais e imagínários, ameaçando com terríveis ações que mais parecem criaturas de um cérebro enfermiço, do que ameaças a serem temidas e, eventualmente, computadas.
Agora se anuncia um ataque da Liga Rebelde, que tencionaria cortar a via de comunicação de Trípoli, com o sul do país. Se a investida for bem sucedida, espera-se que a situação de Muammar Kadaffi fique insustentável.
O que carece de ser demonstrada será a real aptidão dos rebeldes, em termos de equipamento e de força militar, em tornar efetivo esse propósito.
A Seleção de Mano Menezes
Os decantados valores individuais da equipe brasileira, na era Mano Menezes, não impediram até hoje derrotas contra grandes adversários (Argentina e França) e empates contra pequenos times, como a Venezuela.
Ontem, assistimos a um time mal-estruturado, com jogadas confusas, e inaudita debilidade na defesa, que proporcionou ao Paraguai – que não é este bicho-papão anunciado pela mídia – dois gols lamentáveis, ambos com os defensores, ou desarmados infantilmente, como Daniel Alves, o festejado beque do Barcelona, ou com a área escancarada, como se o esquema defensivo fosse mais de time de várzea do que o da antes temida seleção.
O Brasil teve muito sorte em empatar a três minutos do final, graças à intervenção de Fred. O scratch nacional, que até olé levou do Paraguai, ainda não disse ao que foi. O que talvez seja mais preciso, está apenas repetindo a desordenação tática, as falhas individuais e as incompreensíveis substituições do técnico. Contra a Venezuela ‘punira’ Pato, o único atacante a criar situação de gol; contra o Paraguai, tirando Jadson do time, ‘castigado’ por seu gol e pelo bom entendimento com Ganso.
( Fontes: O Globo, International Herald Tribune, The New York Review, CNN )
sábado, 9 de julho de 2011
Mais um Vacilo de Obama ?
Reuniram-se na Casa Branca as lideranças democráticas e republicanas no Congresso. Discute-se um grande acordo bipartidário que possibilite a aprovação pelas duas Câmaras da elevação do teto da dívida pública, que, segundo informa a Secretaria do Tesouro, não pode ir além de dois de agosto sob pena de consequências imprevisíveis para a economia americana, diante de um virtual default (estado de inadimplência) dos Estados Unidos no que tange às obrigações da dívida pública, e outros efeitos, num cenário até há pouco impensável.
Tal situação, como é notório, decorre da postura maximalista da maioria republicana na Casa de Representantes. Servindo-se do pretexto da regulamentar autorização congressual (e até o presente implementada burocrática e automáticamente) da elevação do montante da dívida pública, o G.O.P. utiliza um instrumento que vai bastante além de uma posição séria e responsável em termos de política, eis que considera como válido instrumento de política interna pôr em risco o estado das finanças públicas nacionais(os efeitos em cascata seriam, em termos racionais, apenas dignos de entrarem num enredo de ficção barata, no estilo das películas sobre catástrofes).
Uma proto-tentativa nesse sentido fora feita por Newt Gingrich, então Speaker da Câmara de Representantes. A jogada se cingira a forçar o fechamento do Estado por não aprovação do orçamento a despesas indispensáveis. Gingrich fracassou porque o Presidente Bill Clinton soube agir com firmeza, aparecendo como vencedor junto à opinião pública a respeito da solidez dos respectivos princípios. E em termos políticos, é oportuno que se assinale, o presidente democrata estava em minoria, depois do Contrato com a América de Gingrich, nas duas Casas do Congresso.
Como tenho referido, o Presidente Barack Obama, por estranhos motivos, tem marcada propensão para ceder em negociações com a liderança republicana. A característica já é do domínio público, tanto que se chega a compará-lo a cadeirinha de praia, pela facilidade com que se dobra (fold).
Para surpresa e indignação dos líderes e bancadas democratas na Câmara e no Senado, filtrou o informe de que Obama, ao ensejo do primeiro encontro com os republicanos (entre outros, o Speaker John Boehner, o deputado Paul Ryan, e o Líder da Minoria, Senador Mitch McConnelly), teria indicado a disposição de aceitar emendas republicanas em programas destinados a idosos e a carentes – Medicare e Medicaid -, além de outros cortes na Previdência Social (Social Security).
É notório o ataque dos republicanos – de que a proposta do presidente (chairman) da Comissão do Orçamento da Câmara, Paul Ryan é o ariete, com cortes em programas de assistência que datam de Lyndon Johnson nos anos sessenta. Enquanto o GOP cuida dos ricos, os democratas defendem os entitlements (garantias) concedidos a segmentos da população como idosos (Medicare) e pobres (Medicaid).
Outra garantia básica que o Partido Democrata sempre defendeu é a Previdência Social (Social Security), de que a lei de Assistência Médica Acessível (a Reforma da Saúde aprovada no primeiro biênio do mandato de Obama, representa o intento de tornar a cobertura de plano de saúde bem mais ampla, posto que ainda não universal.
Dentro da velha técnica de desmerecer o que se deseja destruir, os republicanos enveredaram por campanha de negação total dessa Reforma. A razão não parece entrar nos argumentos contra ela, mas são bastante articulados ao fomentar a tentativa de desmonte seja pelos tribunais (dois ou três juízes aceitaram a sua argumentação de inconstitucionalidade) do plano geral de saúde, a que vilipendiam, GOP e a sua linha auxiliar do Tea Party, como Obamacare. Este é um jogo arriscado para o Partido Republicano, pois o povo é capaz de reconhecer, no meio da barragem midiática, que a lei do Healthcare (assistência de saúde) lhe proporciona vantagens palpáveis, vantagens essas a que antes não tinha acesso.
Nesse quadro, compreende-se a reação de Nancy Pelosi, lider da minoria na Câmara, de boa parcela dos deputados democratas, e de senadores, de perplexidade a princípio, e de repulsa a eventuais concessões do Presidente, que ensejem cortes no programa Medicare e na Previdência Social. A defesa desses programas, além do Medicaid, sempre foi a bandeira do Partido Democrata. Se Obama consentir em um pacote com os republicanos que aceite as suas emendas – que perseguem desde Bush Jr. – contra as garantias sociais a idosos e menos favorecidos, tal é encarado mais do que renúncia pelos democratas à sua defesa das causas dos negros, idosos e pobres. Na prática equivaleria à perda da maioria no Senado e na Câmara.
Se apoiar tais propostas dos republicanos, os democratas perderiam a oportunidade de investir contra essa postura do GOP que favorece os ricos e prejudica pobres, negros e idosos. A par disso, o partido democrata não poderia valer-se de o que representam essas propostas republicanas como prejuízo para essas camadas menos favorecidas. Poupariam, dessarte, ao GOP o considerável desgaste eleitoral que significaria martelar junto à opinião pública o que essas emendas têm de ignominioso, voltadas que são contra os segmentos mais pobres da sociedade.
Especula-se que Obama almejaria com tais concessões colocar-se acima dos partidos, evidenciar a suposta visão de estadista, e conseguir a colimada reeleição. O mais provável é que, ao olvidar de onde provém o respectivo apoio, seja levado de roldão nos comícios de novembro de 2012, dando ao GOP o que persegue, com aturada determinação: tornar o detestado Barack H. Obama o primeiro presidente de um só mandato no século XXI.
Diante da situação, e conhecendo a têmpera do quadragésimo-quarto presidente, as bancadas democratas na Câmara e no Senado fizeram saber da respectiva insatisfação em que Obama admita incluir alterações em programas assistenciais na mesa de negociação sobre a questão da dívida pública. Nesse sentido, recordaram ao Presidente que deve ter presente essa posição congressual se deseja ter os votos da bancada necessários para ratificar o dito acordo.
A líder da minoria na Câmara, Nancy Pelosi – que foi recebida em audiência exclusiva pelo Presidente – disse à sua bancada que os democratas se opõem a qualquer redução nos benefícios que tornam tais programas sociais verdadeiras redes de segurança para os idosos, os pobres e os inválidos : “Nós não vamos reduzir o tamanho do déficit ou subsidiar cortes nos impostos para os ricos sobre as costas dos velhos americanos”, acrescentou Pelosi, em conferência de imprensa no Capitólio.
Há muitas reservas quanto ao plano que estaria sendo considerado por Obama – e que é preconizado por republicanos como o Senador Mitch McConnolly – que prevê um corte de quatro trilhões no orçamento plurianual. Além das negativas do chefe do grupo (caucus) negro, o democrata Emanuel Cleaver (Dem.-Missouri) que não votará a favor de emendas nesses programas assistenciais, o deputado Jim McGovern (Dem.-Massachusetts) disse: ‘Vim para o Congresso para proteger a Segurança Social e o Medicare, não para desmantelá-los’. Outrossim, setenta congressistas democratas mandaram carta para Obama em que requerem mantenha fora da mesa de negociação os programas Medicare, Medicaid e a Social Security.
Por outro lado, os líderes republicanos vêem dificuldades em convencer as suas bancadas em sufragarem aumentos de renda. Trocando em miúdos, tanto o líder da maioria da Câmara, Eric Cantor, e o segundo republicano no Senado, John Kyl, expressaram reservas quanto às possibilidades de aprovar um pacote de quatro trilhões pelo Congresso, se ele vier a incluir um trilhão em incremento de impostos.
Para alcançar tão alta soma, os republicanos teriam de concordar com propostas que vão muito além de fechar buracos (loopholes) na legislação, e que iria contra o compromisso do GOP de não elevar os impostos.
Como se vê, a partida se torna cada vez mais interessante – no sentido chinês do vocábulo. Enquanto Obama pensa brincar de estadista, intentando um acordo bipartidário (o seu insistente sonho), em que desconhece verdadeiras cláusulas pétreas do ideário democrata, os republicanos, dentro de sua tática de valer-se de modo extorsivo da necessidade de elevar o teto da dívida, se descobrem confrontados com medidas como a da elevação de impostos (consideram até como se fora aumento a supressão do corte anterior de Bush aos tributos sobre os ricos), elevação esta que seria anátema para o GOP, tanto que a desejam tornar demagogicamente imutável através de emenda constitucional.
À guisa de aprendizes de feiticeiro, permitiram, na sua sanha para empolgar o poder, que saíssem do frasco espíritos a que a prudência manda tratar com a antiga cautela.
Nessa desabalada corrida de lemingues em direção ao penhasco, nem sempre se dará melhor quem chegar primeiro.
( Fonte: CNN)
Tal situação, como é notório, decorre da postura maximalista da maioria republicana na Casa de Representantes. Servindo-se do pretexto da regulamentar autorização congressual (e até o presente implementada burocrática e automáticamente) da elevação do montante da dívida pública, o G.O.P. utiliza um instrumento que vai bastante além de uma posição séria e responsável em termos de política, eis que considera como válido instrumento de política interna pôr em risco o estado das finanças públicas nacionais(os efeitos em cascata seriam, em termos racionais, apenas dignos de entrarem num enredo de ficção barata, no estilo das películas sobre catástrofes).
Uma proto-tentativa nesse sentido fora feita por Newt Gingrich, então Speaker da Câmara de Representantes. A jogada se cingira a forçar o fechamento do Estado por não aprovação do orçamento a despesas indispensáveis. Gingrich fracassou porque o Presidente Bill Clinton soube agir com firmeza, aparecendo como vencedor junto à opinião pública a respeito da solidez dos respectivos princípios. E em termos políticos, é oportuno que se assinale, o presidente democrata estava em minoria, depois do Contrato com a América de Gingrich, nas duas Casas do Congresso.
Como tenho referido, o Presidente Barack Obama, por estranhos motivos, tem marcada propensão para ceder em negociações com a liderança republicana. A característica já é do domínio público, tanto que se chega a compará-lo a cadeirinha de praia, pela facilidade com que se dobra (fold).
Para surpresa e indignação dos líderes e bancadas democratas na Câmara e no Senado, filtrou o informe de que Obama, ao ensejo do primeiro encontro com os republicanos (entre outros, o Speaker John Boehner, o deputado Paul Ryan, e o Líder da Minoria, Senador Mitch McConnelly), teria indicado a disposição de aceitar emendas republicanas em programas destinados a idosos e a carentes – Medicare e Medicaid -, além de outros cortes na Previdência Social (Social Security).
É notório o ataque dos republicanos – de que a proposta do presidente (chairman) da Comissão do Orçamento da Câmara, Paul Ryan é o ariete, com cortes em programas de assistência que datam de Lyndon Johnson nos anos sessenta. Enquanto o GOP cuida dos ricos, os democratas defendem os entitlements (garantias) concedidos a segmentos da população como idosos (Medicare) e pobres (Medicaid).
Outra garantia básica que o Partido Democrata sempre defendeu é a Previdência Social (Social Security), de que a lei de Assistência Médica Acessível (a Reforma da Saúde aprovada no primeiro biênio do mandato de Obama, representa o intento de tornar a cobertura de plano de saúde bem mais ampla, posto que ainda não universal.
Dentro da velha técnica de desmerecer o que se deseja destruir, os republicanos enveredaram por campanha de negação total dessa Reforma. A razão não parece entrar nos argumentos contra ela, mas são bastante articulados ao fomentar a tentativa de desmonte seja pelos tribunais (dois ou três juízes aceitaram a sua argumentação de inconstitucionalidade) do plano geral de saúde, a que vilipendiam, GOP e a sua linha auxiliar do Tea Party, como Obamacare. Este é um jogo arriscado para o Partido Republicano, pois o povo é capaz de reconhecer, no meio da barragem midiática, que a lei do Healthcare (assistência de saúde) lhe proporciona vantagens palpáveis, vantagens essas a que antes não tinha acesso.
Nesse quadro, compreende-se a reação de Nancy Pelosi, lider da minoria na Câmara, de boa parcela dos deputados democratas, e de senadores, de perplexidade a princípio, e de repulsa a eventuais concessões do Presidente, que ensejem cortes no programa Medicare e na Previdência Social. A defesa desses programas, além do Medicaid, sempre foi a bandeira do Partido Democrata. Se Obama consentir em um pacote com os republicanos que aceite as suas emendas – que perseguem desde Bush Jr. – contra as garantias sociais a idosos e menos favorecidos, tal é encarado mais do que renúncia pelos democratas à sua defesa das causas dos negros, idosos e pobres. Na prática equivaleria à perda da maioria no Senado e na Câmara.
Se apoiar tais propostas dos republicanos, os democratas perderiam a oportunidade de investir contra essa postura do GOP que favorece os ricos e prejudica pobres, negros e idosos. A par disso, o partido democrata não poderia valer-se de o que representam essas propostas republicanas como prejuízo para essas camadas menos favorecidas. Poupariam, dessarte, ao GOP o considerável desgaste eleitoral que significaria martelar junto à opinião pública o que essas emendas têm de ignominioso, voltadas que são contra os segmentos mais pobres da sociedade.
Especula-se que Obama almejaria com tais concessões colocar-se acima dos partidos, evidenciar a suposta visão de estadista, e conseguir a colimada reeleição. O mais provável é que, ao olvidar de onde provém o respectivo apoio, seja levado de roldão nos comícios de novembro de 2012, dando ao GOP o que persegue, com aturada determinação: tornar o detestado Barack H. Obama o primeiro presidente de um só mandato no século XXI.
Diante da situação, e conhecendo a têmpera do quadragésimo-quarto presidente, as bancadas democratas na Câmara e no Senado fizeram saber da respectiva insatisfação em que Obama admita incluir alterações em programas assistenciais na mesa de negociação sobre a questão da dívida pública. Nesse sentido, recordaram ao Presidente que deve ter presente essa posição congressual se deseja ter os votos da bancada necessários para ratificar o dito acordo.
A líder da minoria na Câmara, Nancy Pelosi – que foi recebida em audiência exclusiva pelo Presidente – disse à sua bancada que os democratas se opõem a qualquer redução nos benefícios que tornam tais programas sociais verdadeiras redes de segurança para os idosos, os pobres e os inválidos : “Nós não vamos reduzir o tamanho do déficit ou subsidiar cortes nos impostos para os ricos sobre as costas dos velhos americanos”, acrescentou Pelosi, em conferência de imprensa no Capitólio.
Há muitas reservas quanto ao plano que estaria sendo considerado por Obama – e que é preconizado por republicanos como o Senador Mitch McConnolly – que prevê um corte de quatro trilhões no orçamento plurianual. Além das negativas do chefe do grupo (caucus) negro, o democrata Emanuel Cleaver (Dem.-Missouri) que não votará a favor de emendas nesses programas assistenciais, o deputado Jim McGovern (Dem.-Massachusetts) disse: ‘Vim para o Congresso para proteger a Segurança Social e o Medicare, não para desmantelá-los’. Outrossim, setenta congressistas democratas mandaram carta para Obama em que requerem mantenha fora da mesa de negociação os programas Medicare, Medicaid e a Social Security.
Por outro lado, os líderes republicanos vêem dificuldades em convencer as suas bancadas em sufragarem aumentos de renda. Trocando em miúdos, tanto o líder da maioria da Câmara, Eric Cantor, e o segundo republicano no Senado, John Kyl, expressaram reservas quanto às possibilidades de aprovar um pacote de quatro trilhões pelo Congresso, se ele vier a incluir um trilhão em incremento de impostos.
Para alcançar tão alta soma, os republicanos teriam de concordar com propostas que vão muito além de fechar buracos (loopholes) na legislação, e que iria contra o compromisso do GOP de não elevar os impostos.
Como se vê, a partida se torna cada vez mais interessante – no sentido chinês do vocábulo. Enquanto Obama pensa brincar de estadista, intentando um acordo bipartidário (o seu insistente sonho), em que desconhece verdadeiras cláusulas pétreas do ideário democrata, os republicanos, dentro de sua tática de valer-se de modo extorsivo da necessidade de elevar o teto da dívida, se descobrem confrontados com medidas como a da elevação de impostos (consideram até como se fora aumento a supressão do corte anterior de Bush aos tributos sobre os ricos), elevação esta que seria anátema para o GOP, tanto que a desejam tornar demagogicamente imutável através de emenda constitucional.
À guisa de aprendizes de feiticeiro, permitiram, na sua sanha para empolgar o poder, que saíssem do frasco espíritos a que a prudência manda tratar com a antiga cautela.
Nessa desabalada corrida de lemingues em direção ao penhasco, nem sempre se dará melhor quem chegar primeiro.
( Fonte: CNN)
sexta-feira, 8 de julho de 2011
O P.R. está magoado
A ‘mágoa’ do Partido da República, aquele de Valdemar Costa Neto e Alfredo Nascimento, pode ser até genuina, se a tentarmos entender dentro do presente contorcido sistema brasileiro de governo.
O regime é dito presidencialista, mas em uma caterva de ministros, a presidenta, ao invés de escolher uma plêiade de auxiliares, guindados aos respectivos cargos por sua capacidade, competência e integridade, se vê na maior parte constrangida a apenas chancelar as indicações dos partidos da coalizão.
Ironicamente, ela dispõe de uma ‘quota’ de ministros, que ela ‘pode’ nomear a seu talante. Essa magnânima parcela, que os ávidos partidos lhe atribuem, se descobre no caso em tela estar um tanto prejudicada, eis que a criatura Dilma, ao montar o ministério, teve de atender às ‘solicitações’ de quem a retirou da própria algibeira, para impô-la ao PT e, em consequência, ajudado pelos vacilos da oposição, arrancar-lhe a eleição em segundo turno, superado o susto do primeiro.
E não foram poucos, a dizer verdade, os nomes soprados por Luiz Inácio Lula da Silva. Deixemos de lado esta coorte, em que nem sempre o mérito terá sido o peso determinante na balança, para singularizarmos a figura do Senador Alfredo Nascimento. A sua manutenção no cargo – após o parêntese da malograda campanha pela governança do Amazonas – se terá devido, segundo conhecido colunista, a um desejo pessoal de Lula, por causa de um terceiro, a quem ligam laços de estreita amizade ao presidente de honra do Partido dos Trabalhadores.
Descoberta a profusão de irregularidades no Ministério dos Transportes, a sessão de reprimendas no estilo de Dilma Rousseff pôs em praça pública o que muitos decerto não ignoravam, com a corrupção nos preços superfaturados das licitações, a que, na incrível desenvoltura de departamentos e estatais encarregados da infraestrutura viária do Brasil, se chegava aos ‘aditivos’.
Com o afastamento dos supostos responsáveis – notadamente Luiz Antonio Pagot, do Dnit (ligado a Blairo Maggi) e José Francisco das Neves, da Valec – a peteca da suspeição caíu na quadra de Alfredo Nascimento, cuja responsabilidade política não semelhava cabível de ser varrida para baixo do tapete.
Em rápida fritura, o ministro Nascimento caíu, mas a turma do P.R. – de que participa como co-gestor Valdemar Costa Neto, do antigo P.L. e envolvido no mensalão – reagiu, não com o manto do arrependimento, mas calçando os coturnos da mágoa em ter a sua gente tratada de maneira ríspida.
Nesse ponto é que se abre a chaga de incômoda realidade. A tal esmagadora maioria parlamentar que apóia a administração de dona Dilma, na verdade, é um agregado disparatado de partidos em que a cupidez e a ganância prevalecem sobre o interesse da Nação.
Estranho presidencialismo este em que a Chefe do Executivo parece ter menor poder do que um primeiro ministro de regime parlamentar. Este, pelo menos, dentro de um programa político acordado pelos partidos que o apóiam, seleciona nome de sua estrita confiança. Como se sabe, não é o caso no presidencialismo de Lula e Dilma.
E tal é demonstrado com brutal sutileza pelo corrente entrevero da nomeação de um ministro, que pela constituição é demissível ad nutum pela Presidenta. Magoada, a cúpula do P.R. vetou, repito, vetou a efetivação do ministro interino dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, que era o ‘desejo’ da Presidente da República.
Não me deterei no tamanho médio da bancada da agremiação que surgiu da crisálida do PL, oportunamente abandonada por Valdemar Costa Neto e correligionários. Mas se o número dos integrantes do P.R. é suficiente para que a Presidenta não exerça a sua faculdade constitucional de seleção de auxiliares diretos, recuando prontamente em face da ‘mágoa’ do P.R., e, incontinenti convidando o patrono de Luiz Antonio Pagot, o senador Blairo Maggi, detentor de tantos troféus, entre os quais o de ‘Motosserra de ouro’ conferido pelo Greenpeace, alguma coisa – e não das menores – está profundamente errada nesta República.
Qual será o signo desta suposta governabilidade, em que a presidenta, dita enérgica e autoritária, não evidencia autoridade no mais comezinho de seus direitos, que é o de selecionar seus ministros, mas se deve curvar a agremiações como o P.R., aguardando paciente enquanto esta figura de proa do Mato Grosso analisa os prós e os contras de sentar-se na cadeira de Alfredo Nascimento.
Que esses prós e contras pouco tenham a ver com o desafio de mudar a triste realidade de infraestrutura viária que desserve ao Brasil, e sim com as implicacões políticas da eventual abertura de armário que se murmura cheio de esqueletos, eis outro aspecto que não se acresce à glória presidencial.
(Fonte: O Globo )
O regime é dito presidencialista, mas em uma caterva de ministros, a presidenta, ao invés de escolher uma plêiade de auxiliares, guindados aos respectivos cargos por sua capacidade, competência e integridade, se vê na maior parte constrangida a apenas chancelar as indicações dos partidos da coalizão.
Ironicamente, ela dispõe de uma ‘quota’ de ministros, que ela ‘pode’ nomear a seu talante. Essa magnânima parcela, que os ávidos partidos lhe atribuem, se descobre no caso em tela estar um tanto prejudicada, eis que a criatura Dilma, ao montar o ministério, teve de atender às ‘solicitações’ de quem a retirou da própria algibeira, para impô-la ao PT e, em consequência, ajudado pelos vacilos da oposição, arrancar-lhe a eleição em segundo turno, superado o susto do primeiro.
E não foram poucos, a dizer verdade, os nomes soprados por Luiz Inácio Lula da Silva. Deixemos de lado esta coorte, em que nem sempre o mérito terá sido o peso determinante na balança, para singularizarmos a figura do Senador Alfredo Nascimento. A sua manutenção no cargo – após o parêntese da malograda campanha pela governança do Amazonas – se terá devido, segundo conhecido colunista, a um desejo pessoal de Lula, por causa de um terceiro, a quem ligam laços de estreita amizade ao presidente de honra do Partido dos Trabalhadores.
Descoberta a profusão de irregularidades no Ministério dos Transportes, a sessão de reprimendas no estilo de Dilma Rousseff pôs em praça pública o que muitos decerto não ignoravam, com a corrupção nos preços superfaturados das licitações, a que, na incrível desenvoltura de departamentos e estatais encarregados da infraestrutura viária do Brasil, se chegava aos ‘aditivos’.
Com o afastamento dos supostos responsáveis – notadamente Luiz Antonio Pagot, do Dnit (ligado a Blairo Maggi) e José Francisco das Neves, da Valec – a peteca da suspeição caíu na quadra de Alfredo Nascimento, cuja responsabilidade política não semelhava cabível de ser varrida para baixo do tapete.
Em rápida fritura, o ministro Nascimento caíu, mas a turma do P.R. – de que participa como co-gestor Valdemar Costa Neto, do antigo P.L. e envolvido no mensalão – reagiu, não com o manto do arrependimento, mas calçando os coturnos da mágoa em ter a sua gente tratada de maneira ríspida.
Nesse ponto é que se abre a chaga de incômoda realidade. A tal esmagadora maioria parlamentar que apóia a administração de dona Dilma, na verdade, é um agregado disparatado de partidos em que a cupidez e a ganância prevalecem sobre o interesse da Nação.
Estranho presidencialismo este em que a Chefe do Executivo parece ter menor poder do que um primeiro ministro de regime parlamentar. Este, pelo menos, dentro de um programa político acordado pelos partidos que o apóiam, seleciona nome de sua estrita confiança. Como se sabe, não é o caso no presidencialismo de Lula e Dilma.
E tal é demonstrado com brutal sutileza pelo corrente entrevero da nomeação de um ministro, que pela constituição é demissível ad nutum pela Presidenta. Magoada, a cúpula do P.R. vetou, repito, vetou a efetivação do ministro interino dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, que era o ‘desejo’ da Presidente da República.
Não me deterei no tamanho médio da bancada da agremiação que surgiu da crisálida do PL, oportunamente abandonada por Valdemar Costa Neto e correligionários. Mas se o número dos integrantes do P.R. é suficiente para que a Presidenta não exerça a sua faculdade constitucional de seleção de auxiliares diretos, recuando prontamente em face da ‘mágoa’ do P.R., e, incontinenti convidando o patrono de Luiz Antonio Pagot, o senador Blairo Maggi, detentor de tantos troféus, entre os quais o de ‘Motosserra de ouro’ conferido pelo Greenpeace, alguma coisa – e não das menores – está profundamente errada nesta República.
Qual será o signo desta suposta governabilidade, em que a presidenta, dita enérgica e autoritária, não evidencia autoridade no mais comezinho de seus direitos, que é o de selecionar seus ministros, mas se deve curvar a agremiações como o P.R., aguardando paciente enquanto esta figura de proa do Mato Grosso analisa os prós e os contras de sentar-se na cadeira de Alfredo Nascimento.
Que esses prós e contras pouco tenham a ver com o desafio de mudar a triste realidade de infraestrutura viária que desserve ao Brasil, e sim com as implicacões políticas da eventual abertura de armário que se murmura cheio de esqueletos, eis outro aspecto que não se acresce à glória presidencial.
(Fonte: O Globo )
quinta-feira, 7 de julho de 2011
A Batalha do Orçamento
Os republicanos tudo farão para que Barack H. Obama integre, no registro da história, aquele grupo de presidentes marcados por não terem alcançado a medida preconizada por George Washington, o herói nacional, que enjeitou a oferta da segunda reeleição.
Não são muitos aqueles que não conseguem a reeleição, mas os que viram denegada tal simbólica confirmação pelo eleitorado, o malogro lhes pesa como estigma. Há diferenças, por certo, dentre os mal-aquinhoados, mas se alçará sempre a razão que com o passar do tempo se torna irrespondível.
No século XIX, temos James Buchanan, o décimo-quinto presidente, que não soube enfrentar o desafio da questão da escravidão. No século XX, Herbert Hoover, republicano, trigésimo-primeiro presidente, levado de roldão pela grande Depressão, Jimmy Carter, democrata, trigésimo-nono presidente, que não uniu, em tempos difíceis, a própria capacidade à energia na liderança, e George H.W.Bush, republicano, quadragésimo-primeiro presidente, o qual, apesar de bom diplomata foi vencido pela recessão. Há outros, mas este rol já nos transmite o essencial, que é a capacidade de liderar e de atender aos problemas maiores. Nesta balança, o candidato à reeleição carece de ser pesado.
Barack Obama logrou sua indicação para a candidatura pelo Partido Democrata à presidência levado pelos bons ventos da utilização plena da nova tecnologia nos meios de comunicação, e com a binária mensagem do otimismo (yes, we can – sim, nós podemos) e da mudança (change). Desmontou a favorita, Hillary Clinton, a quem pespegou a pecha do voto de apoio à guerra ruinosa de George Bush júnior contra o Iraque de Saddam Hussein. Em verdade, as primárias de 2008 anteciparam o pleito de novembro, no qual Obama, com facilidade, superou o rival republicano, o veterano John McCain.
No primeiro biênio de seu mandato, o quadragésimo-quarto presidente cometeu dois pecados políticos graves: não trouxe para os que motivara a impressão de relizar a prometida mudança; e não soube valer-se das sólidas maiorias nas duas câmaras para fazer um ataque ao desemprego e à recessão com cores rooseveltianas.
Semelha árduo explicar em poucas linhas essas duas faltas. Muito terão a ver com uma certa insegurança de Obama. O primeiro afro-americano a residir na Casa Branca, ótimo orador, culto e extremamente articulado, com marcantes passagens por Harvard e pelo Senado, Obama é político que favorece a composição e a formação de amplas alianças políticas. Não obstante o que precede, seu gabinete na Presidência não manteve o contato e a comunicação com as bases nos estados, no estilo de seu primeiro chefe de gabinete, Rahm Emanuel.
Por outro lado, no que toca ao aspecto econômico-financeiro, formou uma equipe que ainda tinha demasiados laços com Wall Street para estar em condições de realizar as reformas tornadas indispensáveis pelo descalabro permitido pela administração anterior e a falta de fiscalização de Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve Bank. É necessário malhar o ferro enquanto está quente, já diz o ditado, e Obama não dispôs de equipe econômica com ânimo de enfrentar os medalhões de Wall Street. Teria que haver disposição e determinação de alcançar duas metas básicas: criar mecanismos financeiros para tornar inviável no futuro a farra especulatória fundada no mercado sub-prime das hipótecas, dos derivativos e swaps, restabelecer os controles e disposições regulamentares instituídos em função da Grande Depressão e desmontados pelo laissez-faire e a fé inabalável nos míticos poderes do Mercado.
Seria suma injustiça asseverar que nada foi feito, e a lei Dodd-Frank representa progresso nesse sentido. No entanto, a impressão fica de que as coisas foram feitas pela metade. Tampouco no desastre do Golfo do México, com o considerável derramamento de petróleo oriundo de explosão em plataforma da B.P., o presidente não desvelou a energia que se julgava necessária. Se Obama esteve muito longe da gestão desastrada de Bush no que tange ao furacão Katrina, não soube transmitir à opinião pública o que ela desejava ver.
Essa atitude um tanto olímpica da Casa Branca se veria impiedosamente exposta pela derrota na eleição senatorial de Massachusetts, em que Scott Brown, candidato republicano com apoio do Tea Party, ironicamente ficaria com o assento do liberal Ted Kennedy.
A falta de comunicação e o desejo de um impossível apoio bipartidário seriam explicações suplementares para a perda do controle da Câmara de Representantes e a redução na maioria democrata no Senado.
O segundo biênio se abriu, dessarte, sob signos mal-agourentos, com a maioria republicana liderada por John Boehner, o novo Speaker que sucede à democrata Nancy Pelosi.
Com a ousadia dos que se acreditam donos da verdade, os republicanos – cuja missão cardeal é fazer com que Obama seja presidente de um só mandato – entraram em colisão contra o presidente e os democratas. Desde muito, é verdade, são antiquadas memórias o ar da fidalguia bi-partidária, que encara no outro lado o eventual adversário e nunca o inimigo. Hoje, os republicanos moderados são espécie em acelerada extinção, de que sobram alguns poucos ameaçados e timoratos espécimes (contáveis nos dedos de u’a só mão).
Será ingenuidade, por isso, pensar que tal gente vá entender a linguagem dos ramos de oliveira. Obama – que passa a impressão, tanto para os republicanos, quanto para os democratas de alguém tendente a tentar compor-se e, por conseguinte, ceder se o julgar conveniente – viu crescer diante dele uma campanha tanto politica, quanto judiciária, de desmantelar a jóia da coroa do primeiro biênio, i.e., a grande reforma da saúde. Os republicanos, com astúcia politiqueira e voluntária obtusidade, investem contra essa primeira tentativa bem-sucedida de um presidente para a reforma sanitária, escopo perseguido desde os princípios do século passado.
Sendo o partido dos ricos, financiado pelos irmãos Koch (os arqui-inimigos do meio-ambiente e os apoiadores do ultra-direitista Tea Party), o G.O.P. está com as associações médico-farmacêuticas que engoliram a contragosto a reforma da saúde.
Por isso, partiram para inviabilizar o que apodaram de Obamacare (a velha técnica de desmerecer o adversário, não lhe concedendo sequer o direito a um nome digno).
Já votaram a revogação da Lei da Reforma Sanitária, em iniciativa que sabem inutil, porque o Senado democrático não aprovará a demagógica iniciativa dos deputados republicanos.
Tudo isso, no entanto, se cinge a artilharia inicial. O Deputado Paul Ryan, presidente (chairman) da Comissão de Orçamento da Câmara propõe, para o próximo ano fiscal – que nos EUA se inicia ainda neste ano – cortes descomunais nas rubricas que favorecem as camadas mais pobres e desvalidas. No seu açodamento, adentra terreno perigoso, pois se volta contra programas médicos de grande valia para o povo americano (Medicare, para os idosos; Medicaid, para os mais carentes). As únicas rubricas intocáveis para Ryan e seus correligionários são defesa e a preservação dos cortes tributários de Bush em favor dos mais afluentes.
A esta batalha se junge a campanha motivada pela autorização do Congresso ao ensejo da necessidade de ultrapassar o atual teto da dívida pública federal, que anda por mais de catorze trilhões de dólares. O Secretário do Tesouro, Timothy Geithner, comunicou que se não houver a aprovação do Congresso para elevar o teto, a começos de agosto, o Erário americano cairá no equivalente à falência (default) do comum dos mortais, o que teria efeitos impensáveis sobre as obrigações do tesouro americano (hoje, fundados em critérios de um juizo de antanho, considerados virtualmente sem risco). Essa irresponsabilidade republicana teria consequências algumas inimagináveis hoje, outras assaz próximas, como a piora da recessão e do desemprego.
A loucura humana desafia a imaginação dos ficcionistas. Contudo, é relevante aduzir-se que tal demência política tenderá a proliferar se pensar arrimar-se na eventual debilidade do adversário, no caso o Presidente. Nos observadores, paira o temor de que Barack Obama não evidencie a têmpera de Bill Clinton, quando da chantagem de Newt Gingrich, ao provocar o fechamento parcial do Estado por falta de fundos.
A luta política se descobre complicada por manobra adicional e também demagógica de propor nova emenda à Constituição, que vedaria aos pósteros orçamentos públicos desequilibrados – fundos e despesas devem equiparar-se. Tal disposição traria mais água ao moinho republicano: na prática, está proibida a criação de novos impostos. Essa estapafúrdia medida – que compromete o futuro para um suposto ganho político imediatista – não semelha ter possibilidades de reunir as indispensáveis maiorias de dois terços em Senado e Câmara para a aprovação (que não tem de resto o facilitário das reformas constitucionais brasileiras, eis que careceria de ser aprovada igualmente por 38 assembleias estaduais).
Dentro de insensata campanha, que não se peja de cinicamente ignorar os perigos que irá acarretar, caso logre abrir os inúmeros frascos – os gênios que desencadearia nada têm de fantasiosos -, a magna pergunta reside no procedimento que virá a adotar o Presidente Barack H.Obama para arrostar esta hidra de mil cabeças e um único fim – abrir o caminho a eleição do candidato republicano, não importa quem seja, por meio da desmoralização do presidente em funções e responsável pela União estadunidense.
Esta será a pergunta da sua vida política e de sua eventual sobrevivência. Será o enigma que se Obama não decifrar e responder com a força, convicção e determinação exigidas pela hora, sua sorte estará lançada. Como Buchanan, o paradigma dos fracassados mandatários, ele se arrastará até os comícios de 2012.
Não é necessário ser americano, para não desejar tal eventualidade.
(Fonte subsidiária: International Herald Tribune)
Não são muitos aqueles que não conseguem a reeleição, mas os que viram denegada tal simbólica confirmação pelo eleitorado, o malogro lhes pesa como estigma. Há diferenças, por certo, dentre os mal-aquinhoados, mas se alçará sempre a razão que com o passar do tempo se torna irrespondível.
No século XIX, temos James Buchanan, o décimo-quinto presidente, que não soube enfrentar o desafio da questão da escravidão. No século XX, Herbert Hoover, republicano, trigésimo-primeiro presidente, levado de roldão pela grande Depressão, Jimmy Carter, democrata, trigésimo-nono presidente, que não uniu, em tempos difíceis, a própria capacidade à energia na liderança, e George H.W.Bush, republicano, quadragésimo-primeiro presidente, o qual, apesar de bom diplomata foi vencido pela recessão. Há outros, mas este rol já nos transmite o essencial, que é a capacidade de liderar e de atender aos problemas maiores. Nesta balança, o candidato à reeleição carece de ser pesado.
Barack Obama logrou sua indicação para a candidatura pelo Partido Democrata à presidência levado pelos bons ventos da utilização plena da nova tecnologia nos meios de comunicação, e com a binária mensagem do otimismo (yes, we can – sim, nós podemos) e da mudança (change). Desmontou a favorita, Hillary Clinton, a quem pespegou a pecha do voto de apoio à guerra ruinosa de George Bush júnior contra o Iraque de Saddam Hussein. Em verdade, as primárias de 2008 anteciparam o pleito de novembro, no qual Obama, com facilidade, superou o rival republicano, o veterano John McCain.
No primeiro biênio de seu mandato, o quadragésimo-quarto presidente cometeu dois pecados políticos graves: não trouxe para os que motivara a impressão de relizar a prometida mudança; e não soube valer-se das sólidas maiorias nas duas câmaras para fazer um ataque ao desemprego e à recessão com cores rooseveltianas.
Semelha árduo explicar em poucas linhas essas duas faltas. Muito terão a ver com uma certa insegurança de Obama. O primeiro afro-americano a residir na Casa Branca, ótimo orador, culto e extremamente articulado, com marcantes passagens por Harvard e pelo Senado, Obama é político que favorece a composição e a formação de amplas alianças políticas. Não obstante o que precede, seu gabinete na Presidência não manteve o contato e a comunicação com as bases nos estados, no estilo de seu primeiro chefe de gabinete, Rahm Emanuel.
Por outro lado, no que toca ao aspecto econômico-financeiro, formou uma equipe que ainda tinha demasiados laços com Wall Street para estar em condições de realizar as reformas tornadas indispensáveis pelo descalabro permitido pela administração anterior e a falta de fiscalização de Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve Bank. É necessário malhar o ferro enquanto está quente, já diz o ditado, e Obama não dispôs de equipe econômica com ânimo de enfrentar os medalhões de Wall Street. Teria que haver disposição e determinação de alcançar duas metas básicas: criar mecanismos financeiros para tornar inviável no futuro a farra especulatória fundada no mercado sub-prime das hipótecas, dos derivativos e swaps, restabelecer os controles e disposições regulamentares instituídos em função da Grande Depressão e desmontados pelo laissez-faire e a fé inabalável nos míticos poderes do Mercado.
Seria suma injustiça asseverar que nada foi feito, e a lei Dodd-Frank representa progresso nesse sentido. No entanto, a impressão fica de que as coisas foram feitas pela metade. Tampouco no desastre do Golfo do México, com o considerável derramamento de petróleo oriundo de explosão em plataforma da B.P., o presidente não desvelou a energia que se julgava necessária. Se Obama esteve muito longe da gestão desastrada de Bush no que tange ao furacão Katrina, não soube transmitir à opinião pública o que ela desejava ver.
Essa atitude um tanto olímpica da Casa Branca se veria impiedosamente exposta pela derrota na eleição senatorial de Massachusetts, em que Scott Brown, candidato republicano com apoio do Tea Party, ironicamente ficaria com o assento do liberal Ted Kennedy.
A falta de comunicação e o desejo de um impossível apoio bipartidário seriam explicações suplementares para a perda do controle da Câmara de Representantes e a redução na maioria democrata no Senado.
O segundo biênio se abriu, dessarte, sob signos mal-agourentos, com a maioria republicana liderada por John Boehner, o novo Speaker que sucede à democrata Nancy Pelosi.
Com a ousadia dos que se acreditam donos da verdade, os republicanos – cuja missão cardeal é fazer com que Obama seja presidente de um só mandato – entraram em colisão contra o presidente e os democratas. Desde muito, é verdade, são antiquadas memórias o ar da fidalguia bi-partidária, que encara no outro lado o eventual adversário e nunca o inimigo. Hoje, os republicanos moderados são espécie em acelerada extinção, de que sobram alguns poucos ameaçados e timoratos espécimes (contáveis nos dedos de u’a só mão).
Será ingenuidade, por isso, pensar que tal gente vá entender a linguagem dos ramos de oliveira. Obama – que passa a impressão, tanto para os republicanos, quanto para os democratas de alguém tendente a tentar compor-se e, por conseguinte, ceder se o julgar conveniente – viu crescer diante dele uma campanha tanto politica, quanto judiciária, de desmantelar a jóia da coroa do primeiro biênio, i.e., a grande reforma da saúde. Os republicanos, com astúcia politiqueira e voluntária obtusidade, investem contra essa primeira tentativa bem-sucedida de um presidente para a reforma sanitária, escopo perseguido desde os princípios do século passado.
Sendo o partido dos ricos, financiado pelos irmãos Koch (os arqui-inimigos do meio-ambiente e os apoiadores do ultra-direitista Tea Party), o G.O.P. está com as associações médico-farmacêuticas que engoliram a contragosto a reforma da saúde.
Por isso, partiram para inviabilizar o que apodaram de Obamacare (a velha técnica de desmerecer o adversário, não lhe concedendo sequer o direito a um nome digno).
Já votaram a revogação da Lei da Reforma Sanitária, em iniciativa que sabem inutil, porque o Senado democrático não aprovará a demagógica iniciativa dos deputados republicanos.
Tudo isso, no entanto, se cinge a artilharia inicial. O Deputado Paul Ryan, presidente (chairman) da Comissão de Orçamento da Câmara propõe, para o próximo ano fiscal – que nos EUA se inicia ainda neste ano – cortes descomunais nas rubricas que favorecem as camadas mais pobres e desvalidas. No seu açodamento, adentra terreno perigoso, pois se volta contra programas médicos de grande valia para o povo americano (Medicare, para os idosos; Medicaid, para os mais carentes). As únicas rubricas intocáveis para Ryan e seus correligionários são defesa e a preservação dos cortes tributários de Bush em favor dos mais afluentes.
A esta batalha se junge a campanha motivada pela autorização do Congresso ao ensejo da necessidade de ultrapassar o atual teto da dívida pública federal, que anda por mais de catorze trilhões de dólares. O Secretário do Tesouro, Timothy Geithner, comunicou que se não houver a aprovação do Congresso para elevar o teto, a começos de agosto, o Erário americano cairá no equivalente à falência (default) do comum dos mortais, o que teria efeitos impensáveis sobre as obrigações do tesouro americano (hoje, fundados em critérios de um juizo de antanho, considerados virtualmente sem risco). Essa irresponsabilidade republicana teria consequências algumas inimagináveis hoje, outras assaz próximas, como a piora da recessão e do desemprego.
A loucura humana desafia a imaginação dos ficcionistas. Contudo, é relevante aduzir-se que tal demência política tenderá a proliferar se pensar arrimar-se na eventual debilidade do adversário, no caso o Presidente. Nos observadores, paira o temor de que Barack Obama não evidencie a têmpera de Bill Clinton, quando da chantagem de Newt Gingrich, ao provocar o fechamento parcial do Estado por falta de fundos.
A luta política se descobre complicada por manobra adicional e também demagógica de propor nova emenda à Constituição, que vedaria aos pósteros orçamentos públicos desequilibrados – fundos e despesas devem equiparar-se. Tal disposição traria mais água ao moinho republicano: na prática, está proibida a criação de novos impostos. Essa estapafúrdia medida – que compromete o futuro para um suposto ganho político imediatista – não semelha ter possibilidades de reunir as indispensáveis maiorias de dois terços em Senado e Câmara para a aprovação (que não tem de resto o facilitário das reformas constitucionais brasileiras, eis que careceria de ser aprovada igualmente por 38 assembleias estaduais).
Dentro de insensata campanha, que não se peja de cinicamente ignorar os perigos que irá acarretar, caso logre abrir os inúmeros frascos – os gênios que desencadearia nada têm de fantasiosos -, a magna pergunta reside no procedimento que virá a adotar o Presidente Barack H.Obama para arrostar esta hidra de mil cabeças e um único fim – abrir o caminho a eleição do candidato republicano, não importa quem seja, por meio da desmoralização do presidente em funções e responsável pela União estadunidense.
Esta será a pergunta da sua vida política e de sua eventual sobrevivência. Será o enigma que se Obama não decifrar e responder com a força, convicção e determinação exigidas pela hora, sua sorte estará lançada. Como Buchanan, o paradigma dos fracassados mandatários, ele se arrastará até os comícios de 2012.
Não é necessário ser americano, para não desejar tal eventualidade.
(Fonte subsidiária: International Herald Tribune)
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