Há várias formas de dizer que um problema não existe. No entanto, é interessante notar que nas leis da lógica – talvez não naquela formal e das teorias matemáticas – encontra-se dissimulado, mas irreprimível, um duende que se compraz em contestá-la, ou, o que vem a dar no mesmo, a jogar, na complexa maquinária de suas articulações teóricas, o soez bastãozinho da dúvida.
Para afirmar a realidade de uma situação, o sujeito dispõe não apenas da assertiva, mas também dos recursos de expô-la sem a necessidade de mencioná-la diretamente (seja através da forma tácita, ou da alusão pelo subentendido). Sem embargo, a lista de opções não para por aí. Proporia ainda a modalidade da negativa.
Negativa ? Como se pode admitir que refutar a existência de situação, processo ou fenômeno venha a implicar em maneira arrevesada de reconhecer-lhe a realidade ?
Se o leitor me permite exemplo factual para demonstrar a minha tese, basta ter presente o modo com que o governo Dilma Rousseff trata do problema da ressurgência da inflação.
Partindo da premissa de que a inflação na verdade não preocupa, porque está sendo duramente combatida, a Presidente, o Ministro da Fazenda e as demais autoridades, ao pensarem desanuviar o carregado horizonte inflacionário, de um modo perverso (no sentido lógico) não só contribuem para confirmar-lhe a ameaça, senão para torná-la mais presente.
Em 29 de abril último, Dilma se compromete a “jogar duro contra a inflação”. Antes, em sentido similar, se referira à determinação da mobilização do governo nesse sentido.
Já o Ministro Guido Mantega que, no governo Lula continuara a favorecer o crédito e as desonerações fiscais, quando aparecera inequívoca a luz amarela do perigo inflacionário, agora, transformado em austero combatente do monstro que ajudara a reviver, vem a público declarar que ‘o pior já passou’.
Todo esse espoucar de fogos se caracteriza por dois aspectos. Um negativo e sólido: desde 2005, é a primeira vez que a inflação rompe o teto da meta estipulada pelo governo. Ao invés do limite oficial de 6,5% o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), acumulou uma variação de 6,51%.
Posto que a diferença não seja grande, o aspecto relevante é que a carestia não está sob o controle oficial, malgrado as insistentes afirmações das autoridades competentes no sentido de que tudo se orienta para a normalidade.
Muitos de meus leitores talvez pressintam nas declarações de oficial otimismo do Ministro Mantega reminiscência de pregressas assertivas de atribulados ministros da fazenda da era pré-Real: ‘podemos respirar em maio’, diz o atual Ministro. E acrescenta: “Eu diria que nós estamos no chamado ponto de inflexão, ou seja, revertendo a inflação para baixo. Se continuarmos assim, já podemos respirar em maio, esperando um IPCA em torno de 0,45% ou 0,50%”.
Assinalo, por oportuno, uma dupla ênfase: a realidade adversa, ou o dado negativo, a autoridade governamental reconhece, mas somente como espécie de estribo para um desenvolvimento futuro, que assegura, com inabalável confiança, de que irá ocorrer. É o segundo aspecto, a promessa de uma formosa realidade, que em breve, muito breve se materializará. Mutatis mutandis, trata-se do approach de Herbert Hoover, o presidente republicano que foi varrido pela Grande Depressão, e cuja solução para tal desgraça se resumia em dizer que a prosperidade estaria logo de volta (round the corner).
O único problema com esse tipo de discurso – de Mantega e assemelhados - é que a sua repetição só tenderá a infirmar a confiança da opinião pública, pois esse tipo de filme ela já assistiu.
Graças à Lula e à sua irresponsabilidade fiscal – de que é partícipe o Ministro Guido Mantega, confirmado nas próprias funções por Dilma – um pesadelo que pensávamos fosse coisa do passado, se configura em nosso dia-a-dia com ar desenvolto que nos deixa, a um tempo, perplexos e aborrecidos.
Redespertar o dragão foi leviandade que não será decerto controlada com a facilidade que se apregoa. Nesse contexto, cabe relembrar o que nos diz a colunista Miriam Leitão em O Globo de hoje: “No mundo inteiro ela (a inflação) está subindo, só que a nossa é mais tinhosa, aprendeu manhas específicas com o longo passado inflacionário, como o de se reproduzir; nascendo de novo de si mesma, com a indexação. Quanto mais alta for e mais incerto o cenário, mais se fortalecem os músculos indexados.”
Talvez o calcanhar de Aquiles do Plano Real tenha sido o de não dispor acerca da extinção gradual da peçonha inflacionária, latente na profusão dos índices.
A felicidade – ou a benesse da ausência da inflação – será que só a sentimos sob o látego de quem se anime a negar-lhe a existência ?
( Fonte: O Globo )
sábado, 7 de maio de 2011
sexta-feira, 6 de maio de 2011
As Decisões de Obama
Com relação à operação de forças especiais americanas – os ‘Navy Seals’ (as focas da Marinha) – que, a exemplo dos antigos ‘comandos’, são as encarregadas das missões mais difíceis e perigosas, o Presidente Barack Obama tomou duas decisões.
A primeira que determinou a realização da missão – planejada e avaliada sob a sua supervisão direta, mormente nas últimas semanas que lhe antecederam o chamado dia ‘d’ – colheu o aplauso de democratas e republicanos, assim como da opinião pública americana.
Se as palmas acompanham o êxito, não se deixou de assinalar que a ordem presidencial implicava em coragem e resolução. Ora, tal comportamento discrepava da opinião generalizada de que o Presidente Obama era tímido e indeciso. Correra inclusive o dito que ele seria como cadeirinha de praia, tal a facilidade com que dobrava diante de situações diversas.
E, não obstante, se mostrou firme e corajoso em assumir a responsabilidade da empresa. Tenha-se presente que havia a probabilidade, mas não a certeza, de que Osama bin Laden estivesse na residência que seria invadida pelas forças especiais.No cômputo dos principais assessores, seria de 60% essa probabilidade. Existiam fortes indícios, mas não a factual segurança de que o objeto da ação lá efetivamente se achava.
Não terá escapado a Barack Obama o risco que corria. Afinal, fora por causa de intrépida, porém malograda missão, que o Presidente Jimmy Carter não conseguira resgatar os reféns da embaixada americana em Teerã. Se o tivesse feito, muito provavelmente garantiria a reeleição para o segundo mandato.
Nas palavras do personagem de David Lean, se a fortuna favorece os ousados, ao arrebatar o objetivo por tanto tempo perseguido pelos seus dois imediatos predecessores, Obama colheu os louros do aplauso e mesmo da euforia dos concidadãos. Como seria de esperar, vieram igualmente na rede lançada alguns espinhos de críticas, assim como a animosidade do campo adverso.
Quanto às observações de funcionários internacionais, talvez carreadas pelo impacto do evento, elas parecem não levar em conta o caráter sui generis do objeto da ação. Por outro lado, outro fato colateral da operação foi desvelar o que já se supunha, mas ainda não se podia afirmar com absoluta certeza.
Ao descobri-lo não homiziado em inacessível caverna, mas em cidade próxima à capital, na vizinhança de academia militar, e em mansão orçada em um milhão de dólares, tornou gritante, vergonhosa mesmo, a omissão do serviço secreto e dos militares paquistaneses em colaborar com Washington na descoberta do paradeiro do líder da al Qaida, obrigação esta para a qual o Paquistão havia sido regiamente pago.
Se a primeira decisão de Obama encontrou no seu país um aplauso amplo e interpartidário – nenhum republicano se animaria a tal manifestação de sectária cegueira – já a segunda, que é, na própria substância, de alcance incomparavelmente menor do que a inicial, não foi partilhada por todos.
Trata-se, no caso, de que o presidente autorize a divulgação de fotos do cadáver de Osama bin Laden. Nesse gênero de operação, será sempre impossível agradar a gregos e troianos. A desenvolta maneira com que se procedeu aos ritos determinados pelo credo muçulmano e a sepultura no Oceano Índico dos restos mortais do fundador da al Qaida, se despertam espécie, serão compreendidos por muitos como o modus faciendi de proceder a funeral que atenda ao mínimo exigido pela religião do falecido, mas que evite a sua inumação em terra. Pode-se discordar da opção, mas os seus motivos são evidentes.
Quanto à recusa do Presidente Obama na exposição das fotos dos restos mortais de Osama, e, em especial, do rosto desfigurado pelas balas que o vitimaram, parece-me que é de bom senso. A mostra da imagem deformada de Osama bin Laden só serviria para pôr mais fogo na fogueira, e para visualizar, de modo extremo, o sacrifício do líder carismático.
Terá Obama recordado a foto do Che Guevara morto na selva boliviana ? De qualquer modo, as palavras do Presidente fundamentam tal posição: “É importante assegurarmos que imagens muito dramáticas de alguém que recebeu um tiro na cabeça não fiquem circulando como incitação a mais violência e como ferramenta de propaganda. (...) Osama bin Laden não é um troféu.”
Quanto às eventuais dúvidas subsistentes no que concerne ao fato em si, à realidade da morte de bin Laden, apesar de existirem elementos bastantes para comprová-la, qualquer providência adicional, mesmo a produção de instantâneos mortuários, haverá sempre uma minoria de milenaristas, sebastianistas ou de eternos crentes em míticas conspirações. Quanto a esses, nada a fazer, porque são presença residual e inextinguível.
Aos demais, no entanto, caberá reconhecer o bem-avisado desta segunda decisão.
( Fonte: O Globo )
A primeira que determinou a realização da missão – planejada e avaliada sob a sua supervisão direta, mormente nas últimas semanas que lhe antecederam o chamado dia ‘d’ – colheu o aplauso de democratas e republicanos, assim como da opinião pública americana.
Se as palmas acompanham o êxito, não se deixou de assinalar que a ordem presidencial implicava em coragem e resolução. Ora, tal comportamento discrepava da opinião generalizada de que o Presidente Obama era tímido e indeciso. Correra inclusive o dito que ele seria como cadeirinha de praia, tal a facilidade com que dobrava diante de situações diversas.
E, não obstante, se mostrou firme e corajoso em assumir a responsabilidade da empresa. Tenha-se presente que havia a probabilidade, mas não a certeza, de que Osama bin Laden estivesse na residência que seria invadida pelas forças especiais.No cômputo dos principais assessores, seria de 60% essa probabilidade. Existiam fortes indícios, mas não a factual segurança de que o objeto da ação lá efetivamente se achava.
Não terá escapado a Barack Obama o risco que corria. Afinal, fora por causa de intrépida, porém malograda missão, que o Presidente Jimmy Carter não conseguira resgatar os reféns da embaixada americana em Teerã. Se o tivesse feito, muito provavelmente garantiria a reeleição para o segundo mandato.
Nas palavras do personagem de David Lean, se a fortuna favorece os ousados, ao arrebatar o objetivo por tanto tempo perseguido pelos seus dois imediatos predecessores, Obama colheu os louros do aplauso e mesmo da euforia dos concidadãos. Como seria de esperar, vieram igualmente na rede lançada alguns espinhos de críticas, assim como a animosidade do campo adverso.
Quanto às observações de funcionários internacionais, talvez carreadas pelo impacto do evento, elas parecem não levar em conta o caráter sui generis do objeto da ação. Por outro lado, outro fato colateral da operação foi desvelar o que já se supunha, mas ainda não se podia afirmar com absoluta certeza.
Ao descobri-lo não homiziado em inacessível caverna, mas em cidade próxima à capital, na vizinhança de academia militar, e em mansão orçada em um milhão de dólares, tornou gritante, vergonhosa mesmo, a omissão do serviço secreto e dos militares paquistaneses em colaborar com Washington na descoberta do paradeiro do líder da al Qaida, obrigação esta para a qual o Paquistão havia sido regiamente pago.
Se a primeira decisão de Obama encontrou no seu país um aplauso amplo e interpartidário – nenhum republicano se animaria a tal manifestação de sectária cegueira – já a segunda, que é, na própria substância, de alcance incomparavelmente menor do que a inicial, não foi partilhada por todos.
Trata-se, no caso, de que o presidente autorize a divulgação de fotos do cadáver de Osama bin Laden. Nesse gênero de operação, será sempre impossível agradar a gregos e troianos. A desenvolta maneira com que se procedeu aos ritos determinados pelo credo muçulmano e a sepultura no Oceano Índico dos restos mortais do fundador da al Qaida, se despertam espécie, serão compreendidos por muitos como o modus faciendi de proceder a funeral que atenda ao mínimo exigido pela religião do falecido, mas que evite a sua inumação em terra. Pode-se discordar da opção, mas os seus motivos são evidentes.
Quanto à recusa do Presidente Obama na exposição das fotos dos restos mortais de Osama, e, em especial, do rosto desfigurado pelas balas que o vitimaram, parece-me que é de bom senso. A mostra da imagem deformada de Osama bin Laden só serviria para pôr mais fogo na fogueira, e para visualizar, de modo extremo, o sacrifício do líder carismático.
Terá Obama recordado a foto do Che Guevara morto na selva boliviana ? De qualquer modo, as palavras do Presidente fundamentam tal posição: “É importante assegurarmos que imagens muito dramáticas de alguém que recebeu um tiro na cabeça não fiquem circulando como incitação a mais violência e como ferramenta de propaganda. (...) Osama bin Laden não é um troféu.”
Quanto às eventuais dúvidas subsistentes no que concerne ao fato em si, à realidade da morte de bin Laden, apesar de existirem elementos bastantes para comprová-la, qualquer providência adicional, mesmo a produção de instantâneos mortuários, haverá sempre uma minoria de milenaristas, sebastianistas ou de eternos crentes em míticas conspirações. Quanto a esses, nada a fazer, porque são presença residual e inextinguível.
Aos demais, no entanto, caberá reconhecer o bem-avisado desta segunda decisão.
( Fonte: O Globo )
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Tirando a Floresta do Código
Aos trancos e barrancos, tramita na Câmara de Deputados o chamado projeto de novo Código Florestal. Supostamente, o texto do relator entra na pauta de votação como se guiado por imponderáveis. No dizer das forças políticas envolvidas, o projeto de Aldo Rebelo, que fora adrede escolhido pela frente ruralista, a todos desagradaria.
Tentemos esmiuçar melhor essa estória que nos parece mal contada.
Para começar, há muito jogo de cena. Digladiam-se diversos grupos, às voltas com pré-posições de quem busca resguardar a respectiva retaguarda, ou que temem pela sobrevivência de pontos havidos como indeclináveis. Outros vêem configurar-se grave problema, ou mesmo uma crise, que não se teria materializado, caso tivesse sido dada maior atenção à matéria por quem de direito.
Algumas lições podem ser tiradas desses exercícios preliminares de uma votação prevista para esta quarta-feira, quatro de maio. Escusado acrescentar que as semanas no Congresso, por considerações demasiado conhecidas, se restringem, no que tange aos projetos a serem decididos pelo sufrágio dos deputados – e não de simbólicos votos de liderança – somente à quarta-feira, único dia em que os nobres congressistas comparecem em peso.
A primeira lição é que o Governo errou em não apresentar substitutivo ao anteprojeto do deputado Aldo Rebelo. Assim como Clemenceau declarara que a guerra era importante demais para ser deixada ao arbítrio dos generais, a Presidente Dilma Rousseff deveria ter pensado que mais valeria a pena elaborar código florestal com texto equilibrado e abrangente, de que a ciência ambientalista não fosse excluída. Tudo dentro da linha e do espírito do documento endossado no compasso do segundo turno da eleição presidencial, para atrair a caudal de votos da candidata Marina Silva.
Talvez o erro venha de antes, ao não indicar para a Pasta um grande nome político, que desse mais consistência à causa do meio ambiente.
Das reuniões coordenadas pelo Ministro Antonio Palocci resultou o contrário de o que se exigia para o desafio aprontado pelos ruralistas e pelo seu relator : exposta a descoordenação do governo, a situação disso decorrente só debilitou ainda mais o propósito de estruturar posição em que se resguardassem tópicos cujo abandono pode significar calamidades futuras de Mãe Natureza.
Na prática, a comissão informal dirigida por Palocci deixou à deriva toda a questão da elaboração de código florestal digno deste nome ao permitir que os ruralistas e seu relator ad hoc mantivessem um texto que não está à altura da grande questão que nos confronta a todos: salvaguardar o nosso maior recurso natural e fazê-lo de modo a integrá-lo na economia, mediante a sua exploração sustentável e harmônica.
Não é cabível, no entanto, responsabilizar singularmente o Ministro Palocci por tal falha. Sem a determinação presidencial, não se pode exigir do Ministro-Chefe da Casa Civil que implemente uma instrução que não lhe foi dada.
As aparências para tanto não faltam. E não me resporto às discordâncias dos Ministros da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário. Veja-se a respeito a postura equívoca do Presidente da Câmara de Deputados, Marco Maia. Quero crer que ele seja filiado ao P.T., mas ao pôr na pauta de votação de hoje o projeto de Código Florestal, dá a impressão de haver consultado mais a compromissos pregressos com a bancada ruralista, do que à orientação da Presidente Dilma Rousseff.
Aliás, há outros indícios de que o Partido dos Trabalhadores semelha algo esquecido da correligionária que preside a República. Pois José Dirceu não acaba de infligir uma segunda derrota à Presidente ? Após colocar Marco Maia na presidência da Câmara, volta a contrariar a Presidenta ao eleger Rui Falcão para substituir, por motivo de doença, a José Eduardo Dutra.
Marina Silva, apesar de não ter atualmente mandato, fez-se mais presente na defesa do ambientalismo do que muitos personagens oficiais sem liderança. A ex-senadora e ex-Ministra, soube extrair do Ministro Palocci a asserção de que o governo discorda cem por cento do relatório.
Ouçamos as palavras da candidata à Presidência da República: “É um absurdo tomar conhecimento de um texto na segunda-feira, às cinco da tarde, e ele ir para votação na quarta-feira. Aparentemente, o texto atende às demandas da sociedade, mas é só aparentemente, porque está cheio de pegadinhas. É imprudente e desrespeitoso com o processo democrático colocar esse texto em votação.”
Se não agir prontamente, e com o denodo que a questão merece, o Governo de Dilma Rousseff poderá em breve colher o amargo fruto de uma desastrosa negligência política.
( Fonte: O Globo )
Tentemos esmiuçar melhor essa estória que nos parece mal contada.
Para começar, há muito jogo de cena. Digladiam-se diversos grupos, às voltas com pré-posições de quem busca resguardar a respectiva retaguarda, ou que temem pela sobrevivência de pontos havidos como indeclináveis. Outros vêem configurar-se grave problema, ou mesmo uma crise, que não se teria materializado, caso tivesse sido dada maior atenção à matéria por quem de direito.
Algumas lições podem ser tiradas desses exercícios preliminares de uma votação prevista para esta quarta-feira, quatro de maio. Escusado acrescentar que as semanas no Congresso, por considerações demasiado conhecidas, se restringem, no que tange aos projetos a serem decididos pelo sufrágio dos deputados – e não de simbólicos votos de liderança – somente à quarta-feira, único dia em que os nobres congressistas comparecem em peso.
A primeira lição é que o Governo errou em não apresentar substitutivo ao anteprojeto do deputado Aldo Rebelo. Assim como Clemenceau declarara que a guerra era importante demais para ser deixada ao arbítrio dos generais, a Presidente Dilma Rousseff deveria ter pensado que mais valeria a pena elaborar código florestal com texto equilibrado e abrangente, de que a ciência ambientalista não fosse excluída. Tudo dentro da linha e do espírito do documento endossado no compasso do segundo turno da eleição presidencial, para atrair a caudal de votos da candidata Marina Silva.
Talvez o erro venha de antes, ao não indicar para a Pasta um grande nome político, que desse mais consistência à causa do meio ambiente.
Das reuniões coordenadas pelo Ministro Antonio Palocci resultou o contrário de o que se exigia para o desafio aprontado pelos ruralistas e pelo seu relator : exposta a descoordenação do governo, a situação disso decorrente só debilitou ainda mais o propósito de estruturar posição em que se resguardassem tópicos cujo abandono pode significar calamidades futuras de Mãe Natureza.
Na prática, a comissão informal dirigida por Palocci deixou à deriva toda a questão da elaboração de código florestal digno deste nome ao permitir que os ruralistas e seu relator ad hoc mantivessem um texto que não está à altura da grande questão que nos confronta a todos: salvaguardar o nosso maior recurso natural e fazê-lo de modo a integrá-lo na economia, mediante a sua exploração sustentável e harmônica.
Não é cabível, no entanto, responsabilizar singularmente o Ministro Palocci por tal falha. Sem a determinação presidencial, não se pode exigir do Ministro-Chefe da Casa Civil que implemente uma instrução que não lhe foi dada.
As aparências para tanto não faltam. E não me resporto às discordâncias dos Ministros da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário. Veja-se a respeito a postura equívoca do Presidente da Câmara de Deputados, Marco Maia. Quero crer que ele seja filiado ao P.T., mas ao pôr na pauta de votação de hoje o projeto de Código Florestal, dá a impressão de haver consultado mais a compromissos pregressos com a bancada ruralista, do que à orientação da Presidente Dilma Rousseff.
Aliás, há outros indícios de que o Partido dos Trabalhadores semelha algo esquecido da correligionária que preside a República. Pois José Dirceu não acaba de infligir uma segunda derrota à Presidente ? Após colocar Marco Maia na presidência da Câmara, volta a contrariar a Presidenta ao eleger Rui Falcão para substituir, por motivo de doença, a José Eduardo Dutra.
Marina Silva, apesar de não ter atualmente mandato, fez-se mais presente na defesa do ambientalismo do que muitos personagens oficiais sem liderança. A ex-senadora e ex-Ministra, soube extrair do Ministro Palocci a asserção de que o governo discorda cem por cento do relatório.
Ouçamos as palavras da candidata à Presidência da República: “É um absurdo tomar conhecimento de um texto na segunda-feira, às cinco da tarde, e ele ir para votação na quarta-feira. Aparentemente, o texto atende às demandas da sociedade, mas é só aparentemente, porque está cheio de pegadinhas. É imprudente e desrespeitoso com o processo democrático colocar esse texto em votação.”
Se não agir prontamente, e com o denodo que a questão merece, o Governo de Dilma Rousseff poderá em breve colher o amargo fruto de uma desastrosa negligência política.
( Fonte: O Globo )
terça-feira, 3 de maio de 2011
Foxconn ou Tecnologia em pacote neocolonialista
As formas de instalação no Brasil da empresa taiwanesa Foxconn, dentro de negociação em curso, provavelmente encetada durante a visita de Dilma Rousseff à República Popular da China, vão tomando contornos decerto familiares a esse tipo de inversão e de suposta transferência de tecnologia.
Do chamado grupo dos BRICS, com a possível exceção da neófita África do Sul, o Brasil se assinala pela marcada ausência de grandes empresas de capital nacional no ramo de indústrias com alto potencial tecnológico. Exceção feita de Volta Redonda,da Embraer, da Vale – esta precipuamente grande mineradora e, portanto, exportadora de matéria prima – e obviamente da Petrobrás, o restante de nosso parque industrial apresenta alto coeficiente de controle estrangeiro, e correspondente baixo aporte de alta tecnologia.
No setor das grandes montadoras, o governo – o que, paradoxalmente, já se delineara no regime militar – permitiu que as empresas brasileiras desaparecessem. A própria administração FHC escarneceu da resistência do último remanescente, a Gurgel, que também passou a controle alienígena. nEm tal aspecto, convém que se frise, o Brasil é a único grande país que não dispõe de montadoras de veículos nacionais.
Ficou, dessarte, a nossa implantada indústria de autopeças submetida a condições de mercado bastante desfavoráveis. Embora genuinamente nacional, enfrenta a paradoxal situação que as suas compradoras – as montadoras de veículos automotores – são todas estrangeiras. Sendo a relação entre as produtoras de autopeças e as montadoras ou oligopsônica ou mesmo monopsônica (de poucos ou de um único comprador), as descabidas exigências e abusivos baixos preços estabelecidos pelas grandes montadoras (o monopsônio ou oligopsônio é o reverso da medalha do monopólio ou oligopólio, com o mesmo desequilíbrio em favor do comprador ou vendedor isolado) tendem a colocar as empresas de autopeças em situação estrutural de dependência, que vai muito além das condições aceitáveis do mercado.
Nesse sentido, o seu caráter clientelar tende a acentuar-se. As eventuais correções, realizadas pela autoridade governamental, quando a duras penas requestadas, não são de molde a modificar a iniqua estruturação da relação de produção.
Antes de tratar especificamente das exigências da notória empresa Foxconn, semelha oportuno relembrar as condições neocolonialistas que presidiram à instalação em território brasileiro de muitas das sucursais das montadoras americanas, européias e asiáticas. Em verdadeiro jogo de gato e rato (parece escusado precisar a quem se reportam os ditos animais), os governadores estaduais se prodigavam em arrancar o privilégio da instalação nos respectivos domínios de montadoras estrangeiras interessadas em ter filial no Brasil. Entrava-se em uma espécie de leilão às avessas, no sentido de que quem oferecia a sede cuidava de podar ou até anular as próprias vantagens de potencial vendedor, concedendo isenções fiscais a perder de vista, facilitando ou até dando o terreno para a prospectiva montadora, e decerto outras vantagens mantidas in pectore.
Nada mais neocolonial que os termos desta relação, em que a esperança futura de emprego de mão-de-obra local e longínquos benefícios, adiados quase sine die pela forma concessiva e necessariamente lesiva que estigmatiza a relação desde o seu princípio. Ali não se podia alimentar dúvidas entre o senhor inversor e sua equipe dirigente, vindos em missão colonizadora, e a malta dos empregados. Se tal tipo de transação existisse no século XIX, Karl Marx o teria utilizado em seus exemplos para conceituar a mais-valia.
É hora de ocuparmo-nos da transação entre a dita Foxconn e o Governo brasileiro. Será com estranhável assombro – como diriam os nossos maiores – que um tal negócio possa ser acalentado por administração do Partido dos Trabalhadores.
A Foxconn é uma mega-empresa, de origem taiwanesa, mas com implantação na China. Dentro do atual sistema de terceirização maciça dos fatores terra e trabalho, essa organização estaria, certamente, dentre um seleto grupelho de concorrentes para levantar o dúbio galardão daquela que impõe as mais severas condições para os seus empregados.
Para garantir os maiores lucros, é imprescindível para esse gênero de empresa que os custos de fabrico sejam os mais baixos possíveis, de forma a ensejar o dumping respectivo nos grandes mercado de consumo. Se já é amplamente do domínio público a baixa remuneração e os longos horários de trabalho do operário chinês – uma das faces do dito milagre da RPC -, a Foxconn terá lugar de proa nesta categoria perante a qual empalidecem como quase anódinas as condições implantadas na hidrelétrica de Jirau pela Camargo Corrêa.
Dessarte, além de paga reduzida, a aludida empresa de Formosa coloca os seus operários – a que mantém em relativo isolamento - em galpões, para lá fruírem do dickensiano tempo de lazer que lhes é outorgado. As condições existenciais impostas pela Foxconn foram tão duras e absurdas, que houve um incremento na taxa de suicídios do corpo laboral. E qual o remédio concebido para evitar tão desagradáveis eventos ? Simplesmente, gradear as janelas.
Segundo o perene formato do país de là-bas, não passa pela mente de nossos governantes incentivar a criação e crescimento de genuínas indústrias nacionais. Houve tempo em que o suposto vezo patriótico era objeto de mofa dos quadros neoliberais imperantes e de seus epígonos na imprensa.
Quais são as precondições da Foxconn ? Segundo a Folha, para que se efetive o anunciado investimento de US$ 12 bilhões, escalonados em cinco anos, a megaempresa exige: a infraestrutura necessária para a montagem da prometida ‘cidade inteligente’ da firma, garantia de investimentos e mudança na legislação fiscal.
Antes que se aprofunde o exame dos ‘pedidos’ da Foxconn, ter-se-á presente situação anterior como as capitulações no antigo Império Otomano – na fase em que passara a ser cognominado como o ‘homem doente’ do Continente europeu – e as concessões especiais, arrancadas pelas grandes potências de então, e notadamente a Grã-Bretanha, ao decadente ‘ Império do Meio’ chinês.
De início, a Foxconn deseja que o Brasil fixe prazos para atender as demandas.Nesse contexto, lembra-se o tempo levado por outros países para viabilizar os projetos: oito meses, na RPC; e até dois anos, na Rússia e Índia.
Diante das exigências, a Presidenta Dilma Rousseff nomeou grupo de trabalho para avaliá-las e, num prazo curto, estabelecer cronograma de negociação com a empresa.
Integram o grupo de trabalho os Ministros Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento), assim como a Receita Federal, BNDES e a Secretaria de Tecnologia da Informação.
De acordo com a técnica de negociação da Foxconn, em que à cenoura da suposta transferência de tecnologia se contrapõem os bastões (ameaças) de possível mudança de parceiro, no caso México ou Argentina.
Desse maneira, a generosa oferta inicial é colocada na mesa carregada de muitas precondições (e até de abandono da parceria), que estabelecem os incentivos e as alterações na legislação fiscal.
Como os ipads (tabletes) ainda não estão classificados, buscam-se jeitinhos fiscais. Não tendo teclados físicos, não seriam notebooks.
Outro ‘detalhe’ na oferta da Foxconn é que os citados doze bilhões de dolares (mais ou menos dezenove bilhões de reais) não serão disponibilizados inteiramente pela firma taiwanesa. Parcela não precisada desta soma viria dos sócios, obviamente minoritários, brasileiros, assim como na forma de incentivos fiscais e de financiamentos (já se compreende o ingresso do BNDES no grupo de trabalho).
Não param aí as ‘solicitações’ da Foxconn: para a ‘cidade inteligente’ se exige cabeamento total de fibra ótica e malha de transporte que garanta escoamento rápido da produção.
Além disso, o terreno deve ser grande para abrigar um cluster industrial (conglomerado de empresas que usam a mesma estrutura). Esse complexo industrial, a par dos componentes eletrônicos, deverá produzir equipamentos médicos e de automação, bem como abrigar usina de produção de energia fotovoltaica.
Para a anunciada montagem (ajuntamento das peças respectivas, no modelo da Zona Franca de Manaus) do iPad no Brasil, previsto para novembro em uma das quatro unidades de que a Foxconn já dispõe no Brasil.
Se o leitor pensa que as exigências findaram, é necessário para ela um regime alfandegário diferenciado para os seus produtos, bem como terminais exclusivos em portos e aeroportos.
Como se vê, esse aporte de doze bilhões de dólares não é exatamente o que a Foxconn desejara que parecesse à primeira vista.
Quanto às relações de patrão e empregado, o Ministro Aloizio Mercadante é, diante do comportamento da pregressa da megaempresa, de um otimismo comovente: “O Brasil tem legislação clara e garantidora dos direitos dos empregados, e a empresa vai segui-la rigorosamente”.
Diante dessa assertiva, tudo parece resolvido, não é ? E se a coisa se prefigurar de outra forma, depois do sútil emagrecimento a que foi submetido o pacote inicial da Foxconn (além das delicadas ameaças de trocar de parceiro), quem terá o direito de reclamar ?
( Fonte: Folha de S. Paulo )
Do chamado grupo dos BRICS, com a possível exceção da neófita África do Sul, o Brasil se assinala pela marcada ausência de grandes empresas de capital nacional no ramo de indústrias com alto potencial tecnológico. Exceção feita de Volta Redonda,da Embraer, da Vale – esta precipuamente grande mineradora e, portanto, exportadora de matéria prima – e obviamente da Petrobrás, o restante de nosso parque industrial apresenta alto coeficiente de controle estrangeiro, e correspondente baixo aporte de alta tecnologia.
No setor das grandes montadoras, o governo – o que, paradoxalmente, já se delineara no regime militar – permitiu que as empresas brasileiras desaparecessem. A própria administração FHC escarneceu da resistência do último remanescente, a Gurgel, que também passou a controle alienígena. nEm tal aspecto, convém que se frise, o Brasil é a único grande país que não dispõe de montadoras de veículos nacionais.
Ficou, dessarte, a nossa implantada indústria de autopeças submetida a condições de mercado bastante desfavoráveis. Embora genuinamente nacional, enfrenta a paradoxal situação que as suas compradoras – as montadoras de veículos automotores – são todas estrangeiras. Sendo a relação entre as produtoras de autopeças e as montadoras ou oligopsônica ou mesmo monopsônica (de poucos ou de um único comprador), as descabidas exigências e abusivos baixos preços estabelecidos pelas grandes montadoras (o monopsônio ou oligopsônio é o reverso da medalha do monopólio ou oligopólio, com o mesmo desequilíbrio em favor do comprador ou vendedor isolado) tendem a colocar as empresas de autopeças em situação estrutural de dependência, que vai muito além das condições aceitáveis do mercado.
Nesse sentido, o seu caráter clientelar tende a acentuar-se. As eventuais correções, realizadas pela autoridade governamental, quando a duras penas requestadas, não são de molde a modificar a iniqua estruturação da relação de produção.
Antes de tratar especificamente das exigências da notória empresa Foxconn, semelha oportuno relembrar as condições neocolonialistas que presidiram à instalação em território brasileiro de muitas das sucursais das montadoras americanas, européias e asiáticas. Em verdadeiro jogo de gato e rato (parece escusado precisar a quem se reportam os ditos animais), os governadores estaduais se prodigavam em arrancar o privilégio da instalação nos respectivos domínios de montadoras estrangeiras interessadas em ter filial no Brasil. Entrava-se em uma espécie de leilão às avessas, no sentido de que quem oferecia a sede cuidava de podar ou até anular as próprias vantagens de potencial vendedor, concedendo isenções fiscais a perder de vista, facilitando ou até dando o terreno para a prospectiva montadora, e decerto outras vantagens mantidas in pectore.
Nada mais neocolonial que os termos desta relação, em que a esperança futura de emprego de mão-de-obra local e longínquos benefícios, adiados quase sine die pela forma concessiva e necessariamente lesiva que estigmatiza a relação desde o seu princípio. Ali não se podia alimentar dúvidas entre o senhor inversor e sua equipe dirigente, vindos em missão colonizadora, e a malta dos empregados. Se tal tipo de transação existisse no século XIX, Karl Marx o teria utilizado em seus exemplos para conceituar a mais-valia.
É hora de ocuparmo-nos da transação entre a dita Foxconn e o Governo brasileiro. Será com estranhável assombro – como diriam os nossos maiores – que um tal negócio possa ser acalentado por administração do Partido dos Trabalhadores.
A Foxconn é uma mega-empresa, de origem taiwanesa, mas com implantação na China. Dentro do atual sistema de terceirização maciça dos fatores terra e trabalho, essa organização estaria, certamente, dentre um seleto grupelho de concorrentes para levantar o dúbio galardão daquela que impõe as mais severas condições para os seus empregados.
Para garantir os maiores lucros, é imprescindível para esse gênero de empresa que os custos de fabrico sejam os mais baixos possíveis, de forma a ensejar o dumping respectivo nos grandes mercado de consumo. Se já é amplamente do domínio público a baixa remuneração e os longos horários de trabalho do operário chinês – uma das faces do dito milagre da RPC -, a Foxconn terá lugar de proa nesta categoria perante a qual empalidecem como quase anódinas as condições implantadas na hidrelétrica de Jirau pela Camargo Corrêa.
Dessarte, além de paga reduzida, a aludida empresa de Formosa coloca os seus operários – a que mantém em relativo isolamento - em galpões, para lá fruírem do dickensiano tempo de lazer que lhes é outorgado. As condições existenciais impostas pela Foxconn foram tão duras e absurdas, que houve um incremento na taxa de suicídios do corpo laboral. E qual o remédio concebido para evitar tão desagradáveis eventos ? Simplesmente, gradear as janelas.
Segundo o perene formato do país de là-bas, não passa pela mente de nossos governantes incentivar a criação e crescimento de genuínas indústrias nacionais. Houve tempo em que o suposto vezo patriótico era objeto de mofa dos quadros neoliberais imperantes e de seus epígonos na imprensa.
Quais são as precondições da Foxconn ? Segundo a Folha, para que se efetive o anunciado investimento de US$ 12 bilhões, escalonados em cinco anos, a megaempresa exige: a infraestrutura necessária para a montagem da prometida ‘cidade inteligente’ da firma, garantia de investimentos e mudança na legislação fiscal.
Antes que se aprofunde o exame dos ‘pedidos’ da Foxconn, ter-se-á presente situação anterior como as capitulações no antigo Império Otomano – na fase em que passara a ser cognominado como o ‘homem doente’ do Continente europeu – e as concessões especiais, arrancadas pelas grandes potências de então, e notadamente a Grã-Bretanha, ao decadente ‘ Império do Meio’ chinês.
De início, a Foxconn deseja que o Brasil fixe prazos para atender as demandas.Nesse contexto, lembra-se o tempo levado por outros países para viabilizar os projetos: oito meses, na RPC; e até dois anos, na Rússia e Índia.
Diante das exigências, a Presidenta Dilma Rousseff nomeou grupo de trabalho para avaliá-las e, num prazo curto, estabelecer cronograma de negociação com a empresa.
Integram o grupo de trabalho os Ministros Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento), assim como a Receita Federal, BNDES e a Secretaria de Tecnologia da Informação.
De acordo com a técnica de negociação da Foxconn, em que à cenoura da suposta transferência de tecnologia se contrapõem os bastões (ameaças) de possível mudança de parceiro, no caso México ou Argentina.
Desse maneira, a generosa oferta inicial é colocada na mesa carregada de muitas precondições (e até de abandono da parceria), que estabelecem os incentivos e as alterações na legislação fiscal.
Como os ipads (tabletes) ainda não estão classificados, buscam-se jeitinhos fiscais. Não tendo teclados físicos, não seriam notebooks.
Outro ‘detalhe’ na oferta da Foxconn é que os citados doze bilhões de dolares (mais ou menos dezenove bilhões de reais) não serão disponibilizados inteiramente pela firma taiwanesa. Parcela não precisada desta soma viria dos sócios, obviamente minoritários, brasileiros, assim como na forma de incentivos fiscais e de financiamentos (já se compreende o ingresso do BNDES no grupo de trabalho).
Não param aí as ‘solicitações’ da Foxconn: para a ‘cidade inteligente’ se exige cabeamento total de fibra ótica e malha de transporte que garanta escoamento rápido da produção.
Além disso, o terreno deve ser grande para abrigar um cluster industrial (conglomerado de empresas que usam a mesma estrutura). Esse complexo industrial, a par dos componentes eletrônicos, deverá produzir equipamentos médicos e de automação, bem como abrigar usina de produção de energia fotovoltaica.
Para a anunciada montagem (ajuntamento das peças respectivas, no modelo da Zona Franca de Manaus) do iPad no Brasil, previsto para novembro em uma das quatro unidades de que a Foxconn já dispõe no Brasil.
Se o leitor pensa que as exigências findaram, é necessário para ela um regime alfandegário diferenciado para os seus produtos, bem como terminais exclusivos em portos e aeroportos.
Como se vê, esse aporte de doze bilhões de dólares não é exatamente o que a Foxconn desejara que parecesse à primeira vista.
Quanto às relações de patrão e empregado, o Ministro Aloizio Mercadante é, diante do comportamento da pregressa da megaempresa, de um otimismo comovente: “O Brasil tem legislação clara e garantidora dos direitos dos empregados, e a empresa vai segui-la rigorosamente”.
Diante dessa assertiva, tudo parece resolvido, não é ? E se a coisa se prefigurar de outra forma, depois do sútil emagrecimento a que foi submetido o pacote inicial da Foxconn (além das delicadas ameaças de trocar de parceiro), quem terá o direito de reclamar ?
( Fonte: Folha de S. Paulo )
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Morte de Osama bin Laden
No fim da noite de ontem, 1º de maio, foi morto por forças especiais americanas o terrorista Osama bin-Laden. Encontrava-se homiziado em reforçado complexo residencial, na localidade de Abbottabad, próximo da cidade de Islamabad, capital do Paquistão.
Desde o fatídico onze de setembro de 2001, quando do ataque terrorista às Torres Gêmeas, bem como ao Pentágono, provocou mais de três mil mortes de civis, bin-Laden vem sendo perseguido por forças dos Estados Unidos.
Refugiado a princípio no Afeganistão, na época sob o domínio dos talibãs, o terrorista lograra escapar de seu esconderijo nas montanhas de Bora-bora. Nunca ficou bem esclarecido como Osama conseguira fazê-lo, mas dada a circunstância de que o governo de George Bush Jr. lhe delegara a eventual captura a chefes da guerra afegãos, não se pode excluir que a respectiva evasão haja sido facilitada.
A operação especial para prender ou matar o principal objeto da investigação das forças americanas foi deslanchada por ordem expressa do Presidente Barack Obama. Depois de buscarem o terrorista em aldeias remotas e em cavernas nas montanhas, as pesquisas levaram a identificar-lhe o abrigo em complexo residencial de três andares, com muros altos e revestidos de concertina, em toda a sua extensão.
A busca que os levou a bin-Laden partira das movimentações de duas pessoas, identificadas com os seus correios da mais estrita confiança. Na localidade de Abbottabad, em que residem militares paquistaneses reformados, essa residência, se examinada no contexto dos elementos de segurança, avulta em relação às demais.
Determinou-se, outrossim, certas especificações no ‘compound’ que apontavam para inusitada preocupação de segurança: os residentes queimavam o respectivo lixo, ao invés de destiná-lo à coleta municipal. A mansão tampouco dispunha de telefone, ou de serviço de internet. A despeito de seus três andares, as paredes têm poucas janelas dando para o lado externo.
Os dois correios aí viviam com suas famílias. Determinou-se, outrossim, que existia amplo espaço para abrigar uma terceira família, do tamanho da de bin-Laden. A fortiori, os correios não possuíam fontes conhecidas de recursos para viver nesse tipo de propriedade, que se distingue em sinais de riqueza das outras mansões.
De conformidade com informações alegadamente transmitidas pelo serviço de inteligência paquistanês, os americanos deles obtiveram dados indicativos sobre a localização do terrorista.
Na progressão da pista,em setembro de 2010, a CIA informou Obama que bin-Laden vivia em complexo residencial no Paquistão. Em meados de fevereiro, as autoridades de segurança julgaram dispor de elementos bastantes para principiar a planejar a ação para a captura ou eliminação do terrorista.
Para discutir a inteligência e desenvolver o plano, Obama presidiu a cinco sessões do Conselho de Segurança Nacional – de meados de março até fins de abril último.
Pouco antes de viajar para visitar a área flagelada pelos tornados, no Alabama, às 8:20 hs de sexta-feira, 29 de abril, o presidente deu a ordem para a incursão. Nesse sentido, Obama decidiu por ataque (targeted approach) que tivesse por alvo o conjunto do compound, eis que não se tinha absoluta certeza de que Osama bin-Laden estivesse na citada casa.
A determinação presidencial não especificava a eliminação do fugitivo, mas, dada a sua provável resistência, as possibilidades maiores pendiam para a sua morte. O complexo habitado por bin-Laden existia há cinco anos, mas não se sabe por quanto tempo ele lá morou.
Na expressão do Presidente, o pequeno grupo de soldados investiu o esconderijo. A resistência durou cerca de quarenta minutos. Morto Osama bin-Laden e apreendido o cadáver, não houve vítimas de parte americana, porém outras pessoas do círculo de bin-Laden foram igualmente mortas, com a inclusão de uma mulher. Não restam dúvidas sobre a identidade do terrorista, com a identificação feita do respectivo DNA.
Na noite de domingo, primeiro de maio, antes de falar à Nação, o Presidente se comunicou com seus antecessores George W. Bush e Bill Clinton. Ambos haviam tentado em vão eliminar o terrorista, Clinton através de mísseis Tomahawk e Bush, por diversas maneiras.
A ação militar que culminou na eliminação de Osama bin-Laden, além de ser um êxito das forças especiais estadunidenses, é indubitável vitória do Presidente Barack Obama. Em momento conturbado, haverá reforço na popularidade do Presidente, que conseguiu o que sobretudo o seu predecessor republicano não lograra. Ainda é cedo, contudo, para computar tais efeitos no quadro político a médio prazo.
Mesmo antes do pronunciamento oficial, multidão se reunira diante da Casa Branca, celebrando o feito por tanto tempo perseguido.
O atual diretor-geral da CIA, Leon Panetta - e provável futuro Secretário da Defesa - em e-mail para os funcionários da Agência, elogiou “as altamente complexas, inovadoras e avançadas operações” que culminaram com a localização e eliminação de bin-Laden. Nas suas palavras, “nós livramos o mundo do mais infame terrorista do nosso tempo.”
As missões diplomáticas americanas entraram em regime de alerta máximo, tendo presente eventuais represálias pelo anúncio da morte de Osama bin-Laden.
Em sua breve alocução, Barack Obama enfatizou que os Estados Unidos não estão em guerra contra o Islã. Consoante afirmou o Presidente, bin-Laden não era um líder religioso, mas sim ‘assassino em massa’ (mass murderer), responsável pela morte de grande número de muçulmanos.
Não se sabe o que significará o desaparecimento de Osama para a atividade da temida al-Qaida. Circularam informes de que o terrorista desde algum tempo não se ocupava do lado operacional dessa rede. Por outro lado, a sua estruturação em uma pluralidade de células, com autonomia de ação, torna obviamente mais difícil a respectiva localização e eventual desmanche. Com paradeiro ignorado, o egípcio Ayman al Zawahiri, muito chegado ao terrorista morto, poderia vir a sucedê-lo na chefia da al Qaida.
( Fontes: C.N.N. e O Globo )
Desde o fatídico onze de setembro de 2001, quando do ataque terrorista às Torres Gêmeas, bem como ao Pentágono, provocou mais de três mil mortes de civis, bin-Laden vem sendo perseguido por forças dos Estados Unidos.
Refugiado a princípio no Afeganistão, na época sob o domínio dos talibãs, o terrorista lograra escapar de seu esconderijo nas montanhas de Bora-bora. Nunca ficou bem esclarecido como Osama conseguira fazê-lo, mas dada a circunstância de que o governo de George Bush Jr. lhe delegara a eventual captura a chefes da guerra afegãos, não se pode excluir que a respectiva evasão haja sido facilitada.
A operação especial para prender ou matar o principal objeto da investigação das forças americanas foi deslanchada por ordem expressa do Presidente Barack Obama. Depois de buscarem o terrorista em aldeias remotas e em cavernas nas montanhas, as pesquisas levaram a identificar-lhe o abrigo em complexo residencial de três andares, com muros altos e revestidos de concertina, em toda a sua extensão.
A busca que os levou a bin-Laden partira das movimentações de duas pessoas, identificadas com os seus correios da mais estrita confiança. Na localidade de Abbottabad, em que residem militares paquistaneses reformados, essa residência, se examinada no contexto dos elementos de segurança, avulta em relação às demais.
Determinou-se, outrossim, certas especificações no ‘compound’ que apontavam para inusitada preocupação de segurança: os residentes queimavam o respectivo lixo, ao invés de destiná-lo à coleta municipal. A mansão tampouco dispunha de telefone, ou de serviço de internet. A despeito de seus três andares, as paredes têm poucas janelas dando para o lado externo.
Os dois correios aí viviam com suas famílias. Determinou-se, outrossim, que existia amplo espaço para abrigar uma terceira família, do tamanho da de bin-Laden. A fortiori, os correios não possuíam fontes conhecidas de recursos para viver nesse tipo de propriedade, que se distingue em sinais de riqueza das outras mansões.
De conformidade com informações alegadamente transmitidas pelo serviço de inteligência paquistanês, os americanos deles obtiveram dados indicativos sobre a localização do terrorista.
Na progressão da pista,em setembro de 2010, a CIA informou Obama que bin-Laden vivia em complexo residencial no Paquistão. Em meados de fevereiro, as autoridades de segurança julgaram dispor de elementos bastantes para principiar a planejar a ação para a captura ou eliminação do terrorista.
Para discutir a inteligência e desenvolver o plano, Obama presidiu a cinco sessões do Conselho de Segurança Nacional – de meados de março até fins de abril último.
Pouco antes de viajar para visitar a área flagelada pelos tornados, no Alabama, às 8:20 hs de sexta-feira, 29 de abril, o presidente deu a ordem para a incursão. Nesse sentido, Obama decidiu por ataque (targeted approach) que tivesse por alvo o conjunto do compound, eis que não se tinha absoluta certeza de que Osama bin-Laden estivesse na citada casa.
A determinação presidencial não especificava a eliminação do fugitivo, mas, dada a sua provável resistência, as possibilidades maiores pendiam para a sua morte. O complexo habitado por bin-Laden existia há cinco anos, mas não se sabe por quanto tempo ele lá morou.
Na expressão do Presidente, o pequeno grupo de soldados investiu o esconderijo. A resistência durou cerca de quarenta minutos. Morto Osama bin-Laden e apreendido o cadáver, não houve vítimas de parte americana, porém outras pessoas do círculo de bin-Laden foram igualmente mortas, com a inclusão de uma mulher. Não restam dúvidas sobre a identidade do terrorista, com a identificação feita do respectivo DNA.
Na noite de domingo, primeiro de maio, antes de falar à Nação, o Presidente se comunicou com seus antecessores George W. Bush e Bill Clinton. Ambos haviam tentado em vão eliminar o terrorista, Clinton através de mísseis Tomahawk e Bush, por diversas maneiras.
A ação militar que culminou na eliminação de Osama bin-Laden, além de ser um êxito das forças especiais estadunidenses, é indubitável vitória do Presidente Barack Obama. Em momento conturbado, haverá reforço na popularidade do Presidente, que conseguiu o que sobretudo o seu predecessor republicano não lograra. Ainda é cedo, contudo, para computar tais efeitos no quadro político a médio prazo.
Mesmo antes do pronunciamento oficial, multidão se reunira diante da Casa Branca, celebrando o feito por tanto tempo perseguido.
O atual diretor-geral da CIA, Leon Panetta - e provável futuro Secretário da Defesa - em e-mail para os funcionários da Agência, elogiou “as altamente complexas, inovadoras e avançadas operações” que culminaram com a localização e eliminação de bin-Laden. Nas suas palavras, “nós livramos o mundo do mais infame terrorista do nosso tempo.”
As missões diplomáticas americanas entraram em regime de alerta máximo, tendo presente eventuais represálias pelo anúncio da morte de Osama bin-Laden.
Em sua breve alocução, Barack Obama enfatizou que os Estados Unidos não estão em guerra contra o Islã. Consoante afirmou o Presidente, bin-Laden não era um líder religioso, mas sim ‘assassino em massa’ (mass murderer), responsável pela morte de grande número de muçulmanos.
Não se sabe o que significará o desaparecimento de Osama para a atividade da temida al-Qaida. Circularam informes de que o terrorista desde algum tempo não se ocupava do lado operacional dessa rede. Por outro lado, a sua estruturação em uma pluralidade de células, com autonomia de ação, torna obviamente mais difícil a respectiva localização e eventual desmanche. Com paradeiro ignorado, o egípcio Ayman al Zawahiri, muito chegado ao terrorista morto, poderia vir a sucedê-lo na chefia da al Qaida.
( Fontes: C.N.N. e O Globo )
O Atoleiro é Aqui Mesmo
A maneira com que foram ‘terminados’ os trabalhos para o Pan-Americano não deveria ter sido esquecida tão depressa. Como é público e notório, tal resultou da abúlica e incompreensível atítude da última gestão de Cesar Maia na prefeitura do Rio de Janeiro. Tampouco é segredo que o atual prefeito, Eduardo Paes, fora então convocado de urgência na qualidade de interventor plenipotenciário.
Bem ao modo tupiniquin, todos os prazos haviam sido irresponsavelmente ignorados. Na vigésima-quinta hora, com o vexame pan-americano à espreita, adentrou a cena o antigo auxiliar do prefeito Maia, para salvar as aparências no que se afigurava humanamente realizável.
Como espécie de deus ex-machina, Eduardo Paes fez o que era possível. No entanto, dados os prazos e as condições em que encontrou as obras, foi apenas factível, de acordo com esquema conforme às condições pan-americanas, dar por terminado o trabalho para as inúmeras construções exigidas por aquela competição.
As condições decerto não mais respondiam ao ideal, mas às características do relativamente aceitável. Abundaram reclamações de atletas e delegações quanto à situação da chamada Vila Olímpica. Tampouco, a piscina Maria Lenk e o seu entorno, e otras cositas más não resplendiam com as qualidades e o visual do país que, sob Juscelino Kubitschek, levantara a Capital federal em meio ao então ermo do Planalto Central
O pior de tudo, no entanto, não estava nas pouco satisfatórias condições com que foram recebidos os atletas, em 2007, para o Pan-Americano.
Mais grave ainda é que a mesma irresponsabilidade parece ter sido mantida na preparação de dois grandes eventos, que Lula, Sérgio Cabral e Eduardo Paes, trataram de trazer para o Rio de Janeiro e o Brasil. A Olimpíada, para que preparamos magnífico visual ( em Vilas Potiomkin concorremos com os russos ) e também a Copa do Mundo, esta ainda mais próxima, ambas as empolgamos. No caso da Olimpíada, com manifestações emocionantes e profusas lágrimas.
Aí interveio síndrome também tipicamente tupiniquim. Conquistado o direito de realizar em solo pátrio os magnos certamens, governo e assemelhados passaram a agir como se tudo estivesse decidido e acertado.
O atraso – que já é palavra benigna, pois pressupõe um começo, que, na mor parte dos casos, inexiste – se escancara por toda a parte, enquanto – outra característica de nossa gente – zune o fogo cruzado das recriminações.
Somos apequenados pelas comparações. Houve cidades que concorreram às Olimpíadas e que já dispunham de grande parte das obras necessárias realizadas. O Comitê Olímpico se rendeu aos encantos do Rio de Janeiro e, neste momento, caro leitor, não sei se em boa ou má hora.
Aparece na imprensa quem recomende a opção da renúncia – a exemplo da Colômbia, então sob o ataque da guerra civil. Mas o Brasil vive a nossa normalidade, aquela das disputas partidárias menos pelas grandes obras do que pelos ministérios das vultosas verbas em que, para as principais pastas o crachá do partido semelha valer mais do que
Quiçá o que enfrenta agora o Prefeito Eduardo Paes não seja estritamente responsabilidade de sua administração. Pergunto-me, no entanto, se Sua Excelência desconhecia as condições em que foi construída a Vila Olímpica. Agora, as fendas aparecem no asfalto, os postes ficam tortos, e se teme – apesar dos desmentidos oficiais – pelas fundações nos edifícios do entorno. É voz corrente que se levantou a citada ‘vila’ sobre terreno pantanoso. Não surpreende, pelas características da área da Barra. Uma das questões que avulta é determinar o que fazer: levantar obras sobre tal superfície será providência suscetível de aprovação por quem tem títulos e competência para tanto ?
A improvisação é parente da irresponsabilidade ou mesmo da desídia, que deixa passar os prazos. Assim, num arremedo daquele credo da Polinésia – o ‘cargo cult mentality’ – que acredita piamente na onipotência divina (nela incluída a capacidade de fazer as obras dos humanos) para num piscar de olhos sanar todas as falhas e salvar-nos uma vez mais do descrédito e da zombaria alienígena.
Pois não é que Deus é brasileiro ?
( Fonte subsidiária: O Globo )
Bem ao modo tupiniquin, todos os prazos haviam sido irresponsavelmente ignorados. Na vigésima-quinta hora, com o vexame pan-americano à espreita, adentrou a cena o antigo auxiliar do prefeito Maia, para salvar as aparências no que se afigurava humanamente realizável.
Como espécie de deus ex-machina, Eduardo Paes fez o que era possível. No entanto, dados os prazos e as condições em que encontrou as obras, foi apenas factível, de acordo com esquema conforme às condições pan-americanas, dar por terminado o trabalho para as inúmeras construções exigidas por aquela competição.
As condições decerto não mais respondiam ao ideal, mas às características do relativamente aceitável. Abundaram reclamações de atletas e delegações quanto à situação da chamada Vila Olímpica. Tampouco, a piscina Maria Lenk e o seu entorno, e otras cositas más não resplendiam com as qualidades e o visual do país que, sob Juscelino Kubitschek, levantara a Capital federal em meio ao então ermo do Planalto Central
O pior de tudo, no entanto, não estava nas pouco satisfatórias condições com que foram recebidos os atletas, em 2007, para o Pan-Americano.
Mais grave ainda é que a mesma irresponsabilidade parece ter sido mantida na preparação de dois grandes eventos, que Lula, Sérgio Cabral e Eduardo Paes, trataram de trazer para o Rio de Janeiro e o Brasil. A Olimpíada, para que preparamos magnífico visual ( em Vilas Potiomkin concorremos com os russos ) e também a Copa do Mundo, esta ainda mais próxima, ambas as empolgamos. No caso da Olimpíada, com manifestações emocionantes e profusas lágrimas.
Aí interveio síndrome também tipicamente tupiniquim. Conquistado o direito de realizar em solo pátrio os magnos certamens, governo e assemelhados passaram a agir como se tudo estivesse decidido e acertado.
O atraso – que já é palavra benigna, pois pressupõe um começo, que, na mor parte dos casos, inexiste – se escancara por toda a parte, enquanto – outra característica de nossa gente – zune o fogo cruzado das recriminações.
Somos apequenados pelas comparações. Houve cidades que concorreram às Olimpíadas e que já dispunham de grande parte das obras necessárias realizadas. O Comitê Olímpico se rendeu aos encantos do Rio de Janeiro e, neste momento, caro leitor, não sei se em boa ou má hora.
Aparece na imprensa quem recomende a opção da renúncia – a exemplo da Colômbia, então sob o ataque da guerra civil. Mas o Brasil vive a nossa normalidade, aquela das disputas partidárias menos pelas grandes obras do que pelos ministérios das vultosas verbas em que, para as principais pastas o crachá do partido semelha valer mais do que
Quiçá o que enfrenta agora o Prefeito Eduardo Paes não seja estritamente responsabilidade de sua administração. Pergunto-me, no entanto, se Sua Excelência desconhecia as condições em que foi construída a Vila Olímpica. Agora, as fendas aparecem no asfalto, os postes ficam tortos, e se teme – apesar dos desmentidos oficiais – pelas fundações nos edifícios do entorno. É voz corrente que se levantou a citada ‘vila’ sobre terreno pantanoso. Não surpreende, pelas características da área da Barra. Uma das questões que avulta é determinar o que fazer: levantar obras sobre tal superfície será providência suscetível de aprovação por quem tem títulos e competência para tanto ?
A improvisação é parente da irresponsabilidade ou mesmo da desídia, que deixa passar os prazos. Assim, num arremedo daquele credo da Polinésia – o ‘cargo cult mentality’ – que acredita piamente na onipotência divina (nela incluída a capacidade de fazer as obras dos humanos) para num piscar de olhos sanar todas as falhas e salvar-nos uma vez mais do descrédito e da zombaria alienígena.
Pois não é que Deus é brasileiro ?
( Fonte subsidiária: O Globo )
domingo, 1 de maio de 2011
Colcha de Retalhos LXXVII
O Casamento Real e a Mídia
Existe um certo segmento da mídia que já formou o próprio juízo acerca da situação da monarquia no Reino Unido. Tal ponto de vista o evidenciam artigos como o de Jonathan Freedland (O Nó dos Windsor), na New York Review pré-datada de 28 de abril de 2011, assim como reportagem de 1ª página de cobertura do matrimônio, no New York Times, assinada por Sarah Lyall.
Enquanto o leitor do primeiro – escrito muito antes do evento – pode colher a impressão de um pré-obituário não só da dinastia dos Windson, senão do regime monárquico no Reino Unido, se bem que Freedland deixe aberta a perspectiva de uma sobrevivência malgrado as grandes pedras no caminho, a matéria principal do jornalão nova-iorquino vem marcada desde as primeiras linhas por um viés cuidadosamente negativista, em que os encômios da pompa e do fasto do ‘royal wedding’ são bordados em um discurso irônico, facecioso e quase esquizofrênico.
Compreendo a surpresa de quem me lê. No entanto, para quem acompanhou pela CNN a cobertura de todas as fases dessas bodas reais, a primeira dúvida que nos assalta é se Ms. Lyall e os demais pobres mortais assistiram ao mesmo espetáculo. O que significa, assim, a presença da multidão alegre e participativa em todo o percurso da cerimônia – assim como em muitos outros locais com telões de projeção – abanando bandeirinhas com a efígie do jovem casal sobre as cores britânicas (ou mesmo de outras nações integrantes do reino insular), sem qualquer aceno de protesto ou nota dissonante do júbilo à sua volta ? E não só a extensão dessa presença, mas as inúmeras fileiras de que se compõe, em quantidades que foram estimadas em dois milhões de pessoas em todo o trajeto, e beirando o inacreditável milhão na multidão que, contida a custo por um cordão de ‘bobbies’ (os guardas ingleses), se postara diante das grades do Palácio de Buckingham, somente para presenciar a vinda dos recém-casados William e Kate, para o beijo no balcão ?
A ler-se Ms. Lyall, tudo isso é armação da mídia. Para trocar as coisas pelo avesso, ela coleta uma série de citações de espectadores que ali estavam, ou por acaso, ou porque não tinham mais o que fazer, os auto-denominados basbaques, ou os chamados monarquistas por um dia. Se não se pode ignorar o número, o entusiasmo, a fluidez e os aplausos dos súditos, nada melhor que nos fornecer o que os de fala inglesa qualificam de cherry-picking, isto é, selecionar em enorme prato, e para confirmar os respectivos preconceitos, apenas aquelas cerejas que convenham ao narrador...
Talvez a elucidação esteja no leitor nova-iorquino, que é o destino precípuo das ‘observações’da jornalista. Ele mistura a sua admiração pela realeza britânica e seus espetáculos grandiosos, com ambígua desconfiança de entranhado republicano (não o do partido, mas o do regime) que experimenta algum desconforto pela bela cerimônia da antiga mãe-pátria, a qual infelizmente não pode ser imitada deste lado do Atlântico...
O Desrespeito à Nação brasileira
No blog de 27 de abril último, sob o título ‘Falta de Vergonha’, mais uma vez recomendei a possível consideração sobre a abolição do Senado Federal, mediante um referendo submetido à Nação brasileira.
A composição do Conselho de Ética – após ser mantido adrede inativo por quase dois anos – já representa em si um escárnio da opinião pública, num procedimento autista no que concerne ao corpo eleitoral, dentro do molde pregresso de colusão e corporativismo acendrado, tristemente próprio da nova Capital, e sua cultura dos alegres compadres, de que já nos falava Carlos Lacerda nos seus derradeiros anos.
É com satisfação que assinalamos a existência de um homem probo e corajoso na Câmara Alta. O Senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) foi o único a votar contra as indicações dos partidos para o Conselho de Ética.
“Tem hora que acho que o Senado busca o suicídio. O Conselho de Ética ter entre seus integrantes parlamentares que respondem a processo na Justiça ou que já foram alvo de representações na Casa é um verdadeiro deboche”.
Não esperava outra coisa do Senador Jarbas Vasconcelos, que nos brindara com sua célebre entrevista sobre o que é o PMDB.
No contexto do digno e solitário voto do Senador Vasconcelos, cabe uma pergunta: onde estavam os éticos Pedro Simon (PMDB-RS), Cristovam Buarque (PDT-DF) e Eduardo Suplicy (PT-SP) ?
A Vergonha Judiciária
Já houve no passado uma greve de juízes no Brasil, o que representou um anti-marco na história de nossas instituições.
O CNJ oportunamente advertiu aos eventuais participantes da ‘paralisação’ de 24 horas, promovida pela Associação dos Juízes Federais do Brasil (AJUFE) e seu operoso presidente, Gabriel Wedy. Não se pode senão aplaudir a medida do CNJ de cortar o ponto dos que se associem à dita ‘paralisação’, não obstante os esforços do juiz Gabriel Wedy em tentar fazer crer que ‘paralisação’ não configura uma ‘greve’.
Essa greve anunciada pela Ajufe é outro triste espetáculo do anunciado desrespeito por parte dos juízes federais no que concerne ao deveres da magistratura.
Sem dúvida, parcela não pequena da responsabilidade de tais manifestação anômicas carece de ser atribuída ao Congresso. Em um blog no passado já me ocupei do grande número de dispositivos da Constituição de 1988 que continuam inaplicáveis, eis que o Poder Legislativo, por decenal desídia, não os regulamenta por Lei Complementar como devera.
Nesse particular, avulta o controverso direito de greve no serviço público, sobretudo nas chamadas carreiras de Estado e naquelas atividades de grande interess público, em que greves, paradas ou paralisações, a qualquer título, se afiguram inadmissíveis.
A própria relação das ‘reivindicações’dessa categoria de juízes federais, tão pressurosamente defendida pelo presidente da Ajufe, já representa, através de sua leitura crítica, e no contexto das demais carreiras do funcionalismo público, uma diatribe a contrario sensu para a realização da pretendida ‘greve’. A propósito, seria de todo interesse pronunciamento inequívoco a respeito, do Presidente do Supremo Tribunal Federal e, por conseguinte, do Conselho Nacional de Justiça, Dr. Cezar Peluso.
O Problema Sírio
O ditador Bashar al-Assad, apoiado pelo Exército e pela Polícia Secreta, resolveu abandonar as meias palavras e as ocas promessas – entre as quais a suposta ab-rogação da Lei de Emergência, e se resolveu a assumir, na plenitude, o legado paterno de liquidar a ferro e fogo os manifestantes democráticos que teimam em contestar-lhe a autoridade.
Fundado em espécie de direito dinástico – como na antiga Sicília os Tiranos de Siracusa se sucediam por ordem genealógica – e sem qualquer carisma, Bashar, por dupla morte – do pai, Hafez al-Assad (em junho de 2000) e do irmão mais velho, Basil al-Assad que fora preparado para assumir o mando, por acidente de carro em janeiro de 1994 – assumiu os encargos familiares.
O diálogo decerto não é o forte dos al-Assad, como seu pai demonstrou ao esmagar rebelião em Hama, levante da Irmandade Muçulmana, em 1982, arrasando a cidade e infligindo cerca de vinte mil mortes. O filho, ao prosseguir na sua cínica eliminação das massas descontentes, pensa encontrar da comunidade internacional as mesmas débeis admoestações e a falta de qualquer intervenção que disturbe o homem forte de turno de continuar no seu papel de açougueiro dos manifestantes democráticos.
A Síria não é país rico, não tendo o petróleo de Muamar Kadaffi, mas pela sua localização geopolítica é um ator relevante nas crises médio-orientais. Não tem relações com Israel – como, de resto, a esmagadora maioria das nações árabes – mas as suas posições no contexto do Líbano e do Hezbollah, e o contencioso das alturas do Golan, assim como a aliança com o Irã de Ahmadinejad, tornam a Síria um fator regional importante.
A contestação contra o regime se tem acentuado, e o morticínio dos manifestantes – os cômputos oscilam pela ausência de controles, mas restam poucas dúvidas que se aproximam do milhar – com o sangue estupidamente derramado contribui não para amedrontar, mas para acirrar os contrastes. Em um panorama das chamadas mortes civis (longas permanências em masmorras ou campos de ‘reeducação’) e das quedas heróicas sob a metralha do açougueiro de Damasco, terminam por confundir-se na famigerada alternatina entre a peste e o cólera.
A oposição olha para o Ocidente, na esperança de uma ajuda que mui provavelmente não poderá ser dada. Existem, desde logo, dificuldades na política de sanções punitivas, pela circunstância de que os estamentos dominantes na Síria de Bashar al-Assad já são objeto de muitos desses instrumentos. No cipoal das sanções, coloca-se a pergunta se ainda subsistem algumas de ordem pontual que sejam suscetíveis de condicionar determinados tipos de atuação – como o atual trucidamento de manifestantes contrários ao regime.
Bashar al-Assad é uma figura menor, sustentada por uma coligação disparatada, que teme, no entanto, uma eventual ascendência da maioria sunita da população, até o momento sem participação correspondente aos seus números demográficos. Apoiando-se exclusivamente nas faculdades do fuzil, o ditador al-Assad sabe que adentra uma via de mão única, para a qual não há outra saída que a continuação da violência. Como para toda situação, há um limite implícito, que está no convencimento dos seus aliados das respectivas possibilidades de prevalência, em fim de contas tudo dependerá da vontade de resistência da população opressa, e da correspondente previsão do campo contrário, de que abraça a fórmula vencedora.
A anunciada guerra no Sudão
O ditador norte-sudanês, General Omar al-Bashir saudara com melífluas palavras a decisão da população sudanesa do sul (negra, cristã e animista), em referendo fiscalizado pelas Nações Unidas, de separar-se do Sudão do Norte.
Como se sabe, o referendo de julho – que ratificou a maciça aprovação pelos sudaneses do sul da secessão de Kartum – fez parte do denominado C.P.A. (acordo abrangente de paz).
As palavras de composição do generl al-Bashir – indiciado pelo Tribunal Penal Internacional por haver contribuído para os dois milhões de mortes da população notadamente de Darfur – tinham surpreendido favoravelmente.
Não obstante, as desconfianças persistiam, diante da conduta truculenta do general al-Bashir.
Eclodiram agora choques no distrito de Abiyel, área rica em depósitos petrolíferos.
Abiyel, dada a considerável riqueza envolvida, constitui um dos problemas a serem resolvidos, eis que os dois países reivindicam-lhe a posse.
Nesse contexto, cresce a possibilidade de um novo conflito armado, o que é, de resto, exacerbado, pela assertiva do presidente sudanês de que “Abiyel é parte do Norte e continuará a sê-lo”.
Segundo o Secretário de Estado Adjunto para Assuntos Africanos, Johnnie Carson, “estes comentários não ajudam e só servem para inflamar e aumentar as tensões.” Carson sugeriu que os dois chefes de estado - al-Bashir e o presidente Salva Kiir , do Sudão do Sul - se reunam para decidir as questões em suspenso antes de julho p.f.
(Fontes: International Herald Tribune, New York Review of Books e C.N.N.)
Existe um certo segmento da mídia que já formou o próprio juízo acerca da situação da monarquia no Reino Unido. Tal ponto de vista o evidenciam artigos como o de Jonathan Freedland (O Nó dos Windsor), na New York Review pré-datada de 28 de abril de 2011, assim como reportagem de 1ª página de cobertura do matrimônio, no New York Times, assinada por Sarah Lyall.
Enquanto o leitor do primeiro – escrito muito antes do evento – pode colher a impressão de um pré-obituário não só da dinastia dos Windson, senão do regime monárquico no Reino Unido, se bem que Freedland deixe aberta a perspectiva de uma sobrevivência malgrado as grandes pedras no caminho, a matéria principal do jornalão nova-iorquino vem marcada desde as primeiras linhas por um viés cuidadosamente negativista, em que os encômios da pompa e do fasto do ‘royal wedding’ são bordados em um discurso irônico, facecioso e quase esquizofrênico.
Compreendo a surpresa de quem me lê. No entanto, para quem acompanhou pela CNN a cobertura de todas as fases dessas bodas reais, a primeira dúvida que nos assalta é se Ms. Lyall e os demais pobres mortais assistiram ao mesmo espetáculo. O que significa, assim, a presença da multidão alegre e participativa em todo o percurso da cerimônia – assim como em muitos outros locais com telões de projeção – abanando bandeirinhas com a efígie do jovem casal sobre as cores britânicas (ou mesmo de outras nações integrantes do reino insular), sem qualquer aceno de protesto ou nota dissonante do júbilo à sua volta ? E não só a extensão dessa presença, mas as inúmeras fileiras de que se compõe, em quantidades que foram estimadas em dois milhões de pessoas em todo o trajeto, e beirando o inacreditável milhão na multidão que, contida a custo por um cordão de ‘bobbies’ (os guardas ingleses), se postara diante das grades do Palácio de Buckingham, somente para presenciar a vinda dos recém-casados William e Kate, para o beijo no balcão ?
A ler-se Ms. Lyall, tudo isso é armação da mídia. Para trocar as coisas pelo avesso, ela coleta uma série de citações de espectadores que ali estavam, ou por acaso, ou porque não tinham mais o que fazer, os auto-denominados basbaques, ou os chamados monarquistas por um dia. Se não se pode ignorar o número, o entusiasmo, a fluidez e os aplausos dos súditos, nada melhor que nos fornecer o que os de fala inglesa qualificam de cherry-picking, isto é, selecionar em enorme prato, e para confirmar os respectivos preconceitos, apenas aquelas cerejas que convenham ao narrador...
Talvez a elucidação esteja no leitor nova-iorquino, que é o destino precípuo das ‘observações’da jornalista. Ele mistura a sua admiração pela realeza britânica e seus espetáculos grandiosos, com ambígua desconfiança de entranhado republicano (não o do partido, mas o do regime) que experimenta algum desconforto pela bela cerimônia da antiga mãe-pátria, a qual infelizmente não pode ser imitada deste lado do Atlântico...
O Desrespeito à Nação brasileira
No blog de 27 de abril último, sob o título ‘Falta de Vergonha’, mais uma vez recomendei a possível consideração sobre a abolição do Senado Federal, mediante um referendo submetido à Nação brasileira.
A composição do Conselho de Ética – após ser mantido adrede inativo por quase dois anos – já representa em si um escárnio da opinião pública, num procedimento autista no que concerne ao corpo eleitoral, dentro do molde pregresso de colusão e corporativismo acendrado, tristemente próprio da nova Capital, e sua cultura dos alegres compadres, de que já nos falava Carlos Lacerda nos seus derradeiros anos.
É com satisfação que assinalamos a existência de um homem probo e corajoso na Câmara Alta. O Senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) foi o único a votar contra as indicações dos partidos para o Conselho de Ética.
“Tem hora que acho que o Senado busca o suicídio. O Conselho de Ética ter entre seus integrantes parlamentares que respondem a processo na Justiça ou que já foram alvo de representações na Casa é um verdadeiro deboche”.
Não esperava outra coisa do Senador Jarbas Vasconcelos, que nos brindara com sua célebre entrevista sobre o que é o PMDB.
No contexto do digno e solitário voto do Senador Vasconcelos, cabe uma pergunta: onde estavam os éticos Pedro Simon (PMDB-RS), Cristovam Buarque (PDT-DF) e Eduardo Suplicy (PT-SP) ?
A Vergonha Judiciária
Já houve no passado uma greve de juízes no Brasil, o que representou um anti-marco na história de nossas instituições.
O CNJ oportunamente advertiu aos eventuais participantes da ‘paralisação’ de 24 horas, promovida pela Associação dos Juízes Federais do Brasil (AJUFE) e seu operoso presidente, Gabriel Wedy. Não se pode senão aplaudir a medida do CNJ de cortar o ponto dos que se associem à dita ‘paralisação’, não obstante os esforços do juiz Gabriel Wedy em tentar fazer crer que ‘paralisação’ não configura uma ‘greve’.
Essa greve anunciada pela Ajufe é outro triste espetáculo do anunciado desrespeito por parte dos juízes federais no que concerne ao deveres da magistratura.
Sem dúvida, parcela não pequena da responsabilidade de tais manifestação anômicas carece de ser atribuída ao Congresso. Em um blog no passado já me ocupei do grande número de dispositivos da Constituição de 1988 que continuam inaplicáveis, eis que o Poder Legislativo, por decenal desídia, não os regulamenta por Lei Complementar como devera.
Nesse particular, avulta o controverso direito de greve no serviço público, sobretudo nas chamadas carreiras de Estado e naquelas atividades de grande interess público, em que greves, paradas ou paralisações, a qualquer título, se afiguram inadmissíveis.
A própria relação das ‘reivindicações’dessa categoria de juízes federais, tão pressurosamente defendida pelo presidente da Ajufe, já representa, através de sua leitura crítica, e no contexto das demais carreiras do funcionalismo público, uma diatribe a contrario sensu para a realização da pretendida ‘greve’. A propósito, seria de todo interesse pronunciamento inequívoco a respeito, do Presidente do Supremo Tribunal Federal e, por conseguinte, do Conselho Nacional de Justiça, Dr. Cezar Peluso.
O Problema Sírio
O ditador Bashar al-Assad, apoiado pelo Exército e pela Polícia Secreta, resolveu abandonar as meias palavras e as ocas promessas – entre as quais a suposta ab-rogação da Lei de Emergência, e se resolveu a assumir, na plenitude, o legado paterno de liquidar a ferro e fogo os manifestantes democráticos que teimam em contestar-lhe a autoridade.
Fundado em espécie de direito dinástico – como na antiga Sicília os Tiranos de Siracusa se sucediam por ordem genealógica – e sem qualquer carisma, Bashar, por dupla morte – do pai, Hafez al-Assad (em junho de 2000) e do irmão mais velho, Basil al-Assad que fora preparado para assumir o mando, por acidente de carro em janeiro de 1994 – assumiu os encargos familiares.
O diálogo decerto não é o forte dos al-Assad, como seu pai demonstrou ao esmagar rebelião em Hama, levante da Irmandade Muçulmana, em 1982, arrasando a cidade e infligindo cerca de vinte mil mortes. O filho, ao prosseguir na sua cínica eliminação das massas descontentes, pensa encontrar da comunidade internacional as mesmas débeis admoestações e a falta de qualquer intervenção que disturbe o homem forte de turno de continuar no seu papel de açougueiro dos manifestantes democráticos.
A Síria não é país rico, não tendo o petróleo de Muamar Kadaffi, mas pela sua localização geopolítica é um ator relevante nas crises médio-orientais. Não tem relações com Israel – como, de resto, a esmagadora maioria das nações árabes – mas as suas posições no contexto do Líbano e do Hezbollah, e o contencioso das alturas do Golan, assim como a aliança com o Irã de Ahmadinejad, tornam a Síria um fator regional importante.
A contestação contra o regime se tem acentuado, e o morticínio dos manifestantes – os cômputos oscilam pela ausência de controles, mas restam poucas dúvidas que se aproximam do milhar – com o sangue estupidamente derramado contribui não para amedrontar, mas para acirrar os contrastes. Em um panorama das chamadas mortes civis (longas permanências em masmorras ou campos de ‘reeducação’) e das quedas heróicas sob a metralha do açougueiro de Damasco, terminam por confundir-se na famigerada alternatina entre a peste e o cólera.
A oposição olha para o Ocidente, na esperança de uma ajuda que mui provavelmente não poderá ser dada. Existem, desde logo, dificuldades na política de sanções punitivas, pela circunstância de que os estamentos dominantes na Síria de Bashar al-Assad já são objeto de muitos desses instrumentos. No cipoal das sanções, coloca-se a pergunta se ainda subsistem algumas de ordem pontual que sejam suscetíveis de condicionar determinados tipos de atuação – como o atual trucidamento de manifestantes contrários ao regime.
Bashar al-Assad é uma figura menor, sustentada por uma coligação disparatada, que teme, no entanto, uma eventual ascendência da maioria sunita da população, até o momento sem participação correspondente aos seus números demográficos. Apoiando-se exclusivamente nas faculdades do fuzil, o ditador al-Assad sabe que adentra uma via de mão única, para a qual não há outra saída que a continuação da violência. Como para toda situação, há um limite implícito, que está no convencimento dos seus aliados das respectivas possibilidades de prevalência, em fim de contas tudo dependerá da vontade de resistência da população opressa, e da correspondente previsão do campo contrário, de que abraça a fórmula vencedora.
A anunciada guerra no Sudão
O ditador norte-sudanês, General Omar al-Bashir saudara com melífluas palavras a decisão da população sudanesa do sul (negra, cristã e animista), em referendo fiscalizado pelas Nações Unidas, de separar-se do Sudão do Norte.
Como se sabe, o referendo de julho – que ratificou a maciça aprovação pelos sudaneses do sul da secessão de Kartum – fez parte do denominado C.P.A. (acordo abrangente de paz).
As palavras de composição do generl al-Bashir – indiciado pelo Tribunal Penal Internacional por haver contribuído para os dois milhões de mortes da população notadamente de Darfur – tinham surpreendido favoravelmente.
Não obstante, as desconfianças persistiam, diante da conduta truculenta do general al-Bashir.
Eclodiram agora choques no distrito de Abiyel, área rica em depósitos petrolíferos.
Abiyel, dada a considerável riqueza envolvida, constitui um dos problemas a serem resolvidos, eis que os dois países reivindicam-lhe a posse.
Nesse contexto, cresce a possibilidade de um novo conflito armado, o que é, de resto, exacerbado, pela assertiva do presidente sudanês de que “Abiyel é parte do Norte e continuará a sê-lo”.
Segundo o Secretário de Estado Adjunto para Assuntos Africanos, Johnnie Carson, “estes comentários não ajudam e só servem para inflamar e aumentar as tensões.” Carson sugeriu que os dois chefes de estado - al-Bashir e o presidente Salva Kiir , do Sudão do Sul - se reunam para decidir as questões em suspenso antes de julho p.f.
(Fontes: International Herald Tribune, New York Review of Books e C.N.N.)
Assinar:
Postagens (Atom)