Acumulam-se os indícios de que a tão decantada modernização do Código Florestal vá ocorrer e a legislação a ser aprovada pelo Congresso não será exatamente o renovado instrumento que a mídia se tem prestado, por vezes, a noticiar de forma tão pressurosa e unilateral.
Senão vejamos. A preparação do ‘novo’ Código Florestal foi entregue aos cuidados do Deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Os leitores do blog estão sobejamente inteirados de o que implicam o comportamento, as alianças e as declarações de tal congressista, antes assinalado por peculiar projeto contrário ao emprego de ‘estrangeirismos’ no vernáculo (além de outras iniciativas nessa idiossincrática faixa).
Quanto ao Deputado Rebelo, ninguém mais pode alimentar dúvidas quanto à sua equanimidade. Tem o apoio da Frente Ruralista, o que lhe terá aproveitado para a reeleição a deputado, no passado sempre empresa difícil.
Seja dito desde logo que tal é um direito que assiste ao deputado Rebelo. Pode costurar as alianças e apoios que melhor lhe parecerem . O problema começa a surgir quando desta parceria com os ruralistas desenvolveu-se seu trabalho como ‘relator’ do projeto do novo Código Florestal. Ele o elaborou como mimosa cria – e tal se entende, seja pelo aporte de sufrágios em três de outubro, seja pela desenvoltura com que Sua Excelência tem sido acolhido por grandes veículos de comunicação, ensejando-lhe preciosa oportunidade de transmitir a sua ‘visão’ de um novo Código Florestal . O deputado Rebelo cuidou de colher a opinião de muita gente, embora tenha tratado de evitar a oitiva de especialistas em ambientalismo, sobretudo de qualquer doutor ou mestre em matéria ecológica.
Nesse contexto, chegou mesmo de forma descarada a dizer que consultara funcionário da Câmara com conhecimento em matéria correlata. Foi o único com laços científicos em cerca de setenta audiências públicas promovidas pelo deputado.
Ora, nesse contexto, é mais do que oportuno citar o que afirmou o Subsecretário-geral das Nações Unidas, Achim Steiner, em visita ao Brasil.
No entender de Steiner é positivo o Brasil discutir melhorias no código. Avisou, no entanto, que o mundo irá julgar a decisão que o Congresso tomar com base nos efeitos que ela possa causar na ‘produtividade das florestas’. A esse propósito, disse Steiner que a alteração dos limites das matas ciliares tem que ser discutida conforme o que recomenda a ciência.
“Temos que usar o melhor conhecimento científico disponível para determinar o impacto que as mudanças propostas trarão. Elas reduzirão futuramente os serviços e funções desses ecossistemas ? Elas trarão impacto econômico e ecológico ? As mudanças se justificam sob essas perspectivas ? (...) A única coisa que eu espero que não aconteça com o Código Florestal é que ele não reduza o comprometimento do Brasil de manter a produtividade de suas florestas e ecossistemas.”
Para que se aquilate a importância da advertência formulada pelo alto funcionário internacional ao Brasil, deve-se ter presente a sua necessidade de utilizar linguagem comedida, em que as perguntas não prejulguem a posição do Congresso, mas timbrem em pedir a atenção para o que está aqui em jogo.
Comprova-se que o relator do projeto não mostrou qualquer interesse em dialogar com a ciência ambiental e preferiu manter a embarcação junto a litoral, para ele seguro, de antigos conceitos e antigas ideias (compartilhadas por seu aliados ruralistas). Qualquer leitor que esteja interessado não em vantagens deste ou daquele grupo, mas na preservação de nossos recursos naturais, na prevenção ou no controle de catástrofes de origem climática, e no desenvolvimento sustentável da floresta (e outros biomas) e as atividades agro-pecuárias, há de convir que aqui existe perigosa contradição.
Malgrado os diversos e abundantes indícios dados pelo relator do projeto quanto à sua falta de isenção, qualquer observador, com um mínimo de interesse e de honestidade intelectual, verá profusos sinais de que abundam as más intenções, os erros crassos no projeto de Código Florestal, de que ora se propala a votação sem consenso.
De início, a tímida e displicente coordenação realizada pelo Ministro Antonio Palocci, a mando, suponho, da Presidenta Dilma Rousseff (que já se olvidou de seus votos ambientalistas, formulados sob o toque ameaçador do segundo turno, e que ambicionavam atrair gorda parcela dos sufrágios de Marina Silva).
Com efeito, falou-se a princípio de um substitutivo. Em seguida, por força talvez da fraqueza política da Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, e do pouco interesse da coligação governamental no tema, o assunto evoluíu para a discussão sobre pontos específicos, que, na ausência de um timoneiro firme, permitiu que ministros da mesma administração se digladiassem. Agiram, no caso, como senhores feudais, tratando dos próprios súditos e conveniências, sem que uma voz que respondesse pelo interesse nacional os organizasse e lhes desse coerência de governo.
Se a consequência dessa benigna negligência foi absurda ou lógica, depende de quem ouvirmos. Se escutarmos quem prioriza a causa ambiental e não interesses demagógicos, será forçoso rotular como absurdo colaborar com a feitura de tal legislação que apresenta efeitos potencialmente desastrosos para a devastação ambiental e a aceleração de tragédias como na região serrana fluminense.
Cresce, por conseguinte, o espanto e o assombro em continuar confiando o projeto de código aos cuidados do deputado Rebelo, que se arroga, a cada passo, direitos que não tem, de manter ou de modificar esse ou aquele ítem. Que lógica é essa que entrega tal arbítrio a um deputado isolado, brandindo autoridade que não tem, para pôr e dispor do futuro de nosso meio ambiente ?
Por toda parte,nessas mal-costuradas defesas ambientais, repontam falhas inquietantes: assim, segundo nos relata Miriam Leitão, o grande frigorífico Fribol não tem meios de saber se a carne que comercializa provém de criadores que respeitam a lei ou são desmatadores contumazes.
Não ambiciono cansar o leitor com a discriminação das inúmeras emendas danosas a que se propõe o projeto sob a zelosa guarda de Aldo Rebelo. Se perguntarmos aos legisladores de Santa Catarina o porquê das devastações que as suas bondades ensejaram aos cultivadores agrícolas, eles dirão que é a fatalidade divina (não entro aqui na questão das causas que explicam a persistência de forma inconstitucional da validade do código estadual catarinense ). Na convergência urbana e rural, serão invocadas as mesmas causas divinas para a tragédia da Região Serrana Fluminense ? E na urbana, construir obras públicas no morro do Bumba, igualmente se deve a hecatombe a tais conjunções obscuras de fatores insondáveis ?
Dilma Rousseff foi escolhida por Lula da Silva para sucedê-lo por suas capacidades gerenciais. Tais méritos, no entanto, não são setorializados. Supõe-se que o seu interesse sobrevoe o problema nacional. Permitir que surja do ventre legislativo, por míopes interesses ruralistas, aleijumes do gênero do novo projeto de Código Florestal, acalentado por Rebelo, não seria, conforme o dito célebre, apenas um crime, mas também costituiria garrafal e fatídico erro, que lhe comprometeria os ambiciosos propósitos da empresa presidencial.
( Fonte: O Globo )
quinta-feira, 28 de abril de 2011
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Falta de Vergonha
É difícil deixar passar em branca nuvem o que ora acontece no Senado Federal. Depois dos escândalos dos chamados atos secretos e da crise da presidência de José Sarney, voltamos a ser confrontados por comportamentos e iniciativas que não mais tem o condão de surpreender-nos ou até revoltar-nos.
A reação do cidadão só pode ser a do cansaço extremo, misturada àquela surda cólera que se experimenta diante de fatos abomináveis sobre os quais a experiência semelha dar-nos a dantesca advertência do abandono de qualquer esperança.
O Senado é o que é. Será ele a cara da Nação ? O que fizemos para merecer as afrontas com que nos mimoseia ?
Quando o povo brasileiro logrou fazer aprovar a Lei da Ficha Limpa por um Congresso a princípio reticente, poder-se-ia imaginar que um juiz recém-nomeado para o Supremo iniciaria a sua trajetória mandando para a geladeira a lei complementar nr. 135? Na sua crônica ‘De que lado está a Justiça ?’, Ferreira Gullar nos lembra verdades que precisam ser ditas: “Não pode o princípio jurídico formal sobrepor-se à realidade dos fatos, como ocorreu recentemente com a Lei da Ficha Limpa.Políticos notoriamente corruptos foram beneficiados por uma decisão do Supremo Tribunal Federal, tão discutível que a metade dos ministros daquela corte se opunha a ela.”
Mas voltemos ao Senado que, em breve, receberá reforços que pensávamos afastados para sempre daquele singular colégio. Como discutível aperitivo das notícias hoje veiculadas, o Senador Roberto Requião arrancou o gravador das mãos de um reporter e, ainda por cima, cuidou de apagar o que dissera acerca da absurda pensão que recebe como ex-governador. E, como se tal fosse pouco, foi à tribuna para exprobar o jornalista com a ridícula acusação de bullying.
O Senado, com as suas centenas de diretores e com o mágico ponto, anunciado num dia e no outro já desmoralizado, nos vem agora com Conselho de Ética que bem representa o atual nível dessa assembleia. Na companhia de suplentes e de ex-suplentes – que representam unidades federativas sem haver recebido um voto sequer – o espanto e a consternação com a composição do alegado Conselho de Ética é uma consequência de situação determinada. O subtítulo do cabeçalho de O Globo já nos diz quase tudo: 8 respondem a processos no Supremo dos quinze parlamentares que formam a comissão encarregada de velar pela ética na dita Câmara Alta.
Não obstante, se são indicados pelos partidos Renan Calheiros, Gim Argello, Valdir Raupp e Lobão Filho, entre muitos outros, duas questões vêm à mente: haveria possibilidade de dar outra feição àquele Conselho ? E se tal não for factível, a abolição do Senado não mereceria ser objeto de referendo pela Nação ?
( Fonte: O Globo )
A reação do cidadão só pode ser a do cansaço extremo, misturada àquela surda cólera que se experimenta diante de fatos abomináveis sobre os quais a experiência semelha dar-nos a dantesca advertência do abandono de qualquer esperança.
O Senado é o que é. Será ele a cara da Nação ? O que fizemos para merecer as afrontas com que nos mimoseia ?
Quando o povo brasileiro logrou fazer aprovar a Lei da Ficha Limpa por um Congresso a princípio reticente, poder-se-ia imaginar que um juiz recém-nomeado para o Supremo iniciaria a sua trajetória mandando para a geladeira a lei complementar nr. 135? Na sua crônica ‘De que lado está a Justiça ?’, Ferreira Gullar nos lembra verdades que precisam ser ditas: “Não pode o princípio jurídico formal sobrepor-se à realidade dos fatos, como ocorreu recentemente com a Lei da Ficha Limpa.Políticos notoriamente corruptos foram beneficiados por uma decisão do Supremo Tribunal Federal, tão discutível que a metade dos ministros daquela corte se opunha a ela.”
Mas voltemos ao Senado que, em breve, receberá reforços que pensávamos afastados para sempre daquele singular colégio. Como discutível aperitivo das notícias hoje veiculadas, o Senador Roberto Requião arrancou o gravador das mãos de um reporter e, ainda por cima, cuidou de apagar o que dissera acerca da absurda pensão que recebe como ex-governador. E, como se tal fosse pouco, foi à tribuna para exprobar o jornalista com a ridícula acusação de bullying.
O Senado, com as suas centenas de diretores e com o mágico ponto, anunciado num dia e no outro já desmoralizado, nos vem agora com Conselho de Ética que bem representa o atual nível dessa assembleia. Na companhia de suplentes e de ex-suplentes – que representam unidades federativas sem haver recebido um voto sequer – o espanto e a consternação com a composição do alegado Conselho de Ética é uma consequência de situação determinada. O subtítulo do cabeçalho de O Globo já nos diz quase tudo: 8 respondem a processos no Supremo dos quinze parlamentares que formam a comissão encarregada de velar pela ética na dita Câmara Alta.
Não obstante, se são indicados pelos partidos Renan Calheiros, Gim Argello, Valdir Raupp e Lobão Filho, entre muitos outros, duas questões vêm à mente: haveria possibilidade de dar outra feição àquele Conselho ? E se tal não for factível, a abolição do Senado não mereceria ser objeto de referendo pela Nação ?
( Fonte: O Globo )
Melhora no Superávit Fiscal
Ao contrário dos resultados negativos no ano anterior, o Governo central (Tesouro Nacional, Previdência e Banco Central) registrou um superávit fiscal primário acumulado (economia para o pagamento dos juros da dívida), nos três primeiros meses do ano, de R$ 25,5 bilhões. Tal valor (de janeiro a março de 2011) já supera a meta marcada para o primeiro quadrimestre, orçada em R$ 22,9 bilhões. Assinale-se que, em março, a economia para o pagamento de juros da dívida montou a R$ 9,134 bilhões, o segundo melhor resultado para o mês desde março de 2008, quando foi de R$ 10,606 bilhões. Em março de 2010, ano de eleições, registrou-se déficit de R$4,533 bilhões.
Dado o desafio do combate à inflação – ontem a Presidente veio a público para manifestar a sua preocupação com a carestia e o compromisso da mobilização do governo nesse sentido (V. também o blog Dilma e a Inflação, de 25 do corrente) – o Ministro Guido Mantega, intento em demonstrar a seriedade do comprometimento com a austeridade fiscal e a redução dos gastos públicos, antecipou a revelação dos números oficiais, a cargo do Secretário do Tesouro, Arno Augustin.
Ainda consoante o Ministro da Fazenda, a previsão para 30 de abril seria de um superávit primário, cerca de 50% da meta estimada para todo o ano de 2011, vale dizer de R$ 81,8 bilhões. Logo, em quatro meses, estaríamos perfazendo a soma antevista para seis.
A que se devem tais resultados auspiciosos ? O Governo Dilma Rousseff adota agora o que a administração Lula se recusou a fazer no segundo semestre de 2010.
Além da reversão dos estímulos dados à economia durante a crise mundial de 2008 – política de desoneração fiscal e de facilidades creditícias – com o corte de R$ 50 bilhões nas despesas públicas, se entra, conforme o Ministro Mantega, em um processo de consolidação fiscal.
Por outro lado, o Secretario do Tesouro acentuou que se estão reduzindo as despesas em mais de 4%. Tal política contracionista visa a evitar demasiadas pressões inflacionárias. Nesse quadro, somente as despesas com o Programa da Aceleração do Crescimento (PAC) – que aumentaram em 35% - serão mantidas.
Assinale-se que o melhor desempenho fiscal da União se deve notadamente ao superávit do Tesouro Nacional de R$ 12,3 bilhões. Por sua vez, o déficit da Previdência foi de R$ 3,1 bilhões, um resultado menos ruim do que o de 2010 (percentualmente a Previdência tivera então diferença negativa de 1,7% do PIB), o déficit de 2011 (1,01% do PIB).
Em função de tais dados, a base existe para a melhoria dos gastos do governo, com o aumento dos investimentos e a perspectiva de eventual queda da taxa de juros, se a inflação for efetivamente controlada. Outro dado positivo, sublinhado pelo Ministro Guido Mantega, está na inflexão das despesas com pessoal (queda de 4,4% de janeiro a março), em relação ao mesmo período de 2010.
Se o diapasão não sofrer mudanças, e a tendência à recuperação no aspecto fiscal se evidenciar sustentada, os efeitos sobre a elevação nos preços tenderão a fazer-se sentir de forma positiva. No entanto, ainda se afigura cedo para acenar com rebaixas na taxa Selic de juros. A esse propósito, o Secretário Arno Augustin observou que o corte dos cinquenta bilhões no orçamento foi sentido ‘com ênfase’ em março. Resta saber quando se manifestarão os cinquenta bilhões da nova capitalização do BNDES, que a muitos pareceu como o ingresso pela porta dos fundos dos recursos que a badalada redução orçamentária de valor equivalente retirou pela porta da frente.
( Fonte: O Globo )
Dado o desafio do combate à inflação – ontem a Presidente veio a público para manifestar a sua preocupação com a carestia e o compromisso da mobilização do governo nesse sentido (V. também o blog Dilma e a Inflação, de 25 do corrente) – o Ministro Guido Mantega, intento em demonstrar a seriedade do comprometimento com a austeridade fiscal e a redução dos gastos públicos, antecipou a revelação dos números oficiais, a cargo do Secretário do Tesouro, Arno Augustin.
Ainda consoante o Ministro da Fazenda, a previsão para 30 de abril seria de um superávit primário, cerca de 50% da meta estimada para todo o ano de 2011, vale dizer de R$ 81,8 bilhões. Logo, em quatro meses, estaríamos perfazendo a soma antevista para seis.
A que se devem tais resultados auspiciosos ? O Governo Dilma Rousseff adota agora o que a administração Lula se recusou a fazer no segundo semestre de 2010.
Além da reversão dos estímulos dados à economia durante a crise mundial de 2008 – política de desoneração fiscal e de facilidades creditícias – com o corte de R$ 50 bilhões nas despesas públicas, se entra, conforme o Ministro Mantega, em um processo de consolidação fiscal.
Por outro lado, o Secretario do Tesouro acentuou que se estão reduzindo as despesas em mais de 4%. Tal política contracionista visa a evitar demasiadas pressões inflacionárias. Nesse quadro, somente as despesas com o Programa da Aceleração do Crescimento (PAC) – que aumentaram em 35% - serão mantidas.
Assinale-se que o melhor desempenho fiscal da União se deve notadamente ao superávit do Tesouro Nacional de R$ 12,3 bilhões. Por sua vez, o déficit da Previdência foi de R$ 3,1 bilhões, um resultado menos ruim do que o de 2010 (percentualmente a Previdência tivera então diferença negativa de 1,7% do PIB), o déficit de 2011 (1,01% do PIB).
Em função de tais dados, a base existe para a melhoria dos gastos do governo, com o aumento dos investimentos e a perspectiva de eventual queda da taxa de juros, se a inflação for efetivamente controlada. Outro dado positivo, sublinhado pelo Ministro Guido Mantega, está na inflexão das despesas com pessoal (queda de 4,4% de janeiro a março), em relação ao mesmo período de 2010.
Se o diapasão não sofrer mudanças, e a tendência à recuperação no aspecto fiscal se evidenciar sustentada, os efeitos sobre a elevação nos preços tenderão a fazer-se sentir de forma positiva. No entanto, ainda se afigura cedo para acenar com rebaixas na taxa Selic de juros. A esse propósito, o Secretário Arno Augustin observou que o corte dos cinquenta bilhões no orçamento foi sentido ‘com ênfase’ em março. Resta saber quando se manifestarão os cinquenta bilhões da nova capitalização do BNDES, que a muitos pareceu como o ingresso pela porta dos fundos dos recursos que a badalada redução orçamentária de valor equivalente retirou pela porta da frente.
( Fonte: O Globo )
terça-feira, 26 de abril de 2011
Que Santo para nossos dias ?
Despertou espécie em vários círculos, eclesiais ou não, a rapidez com que o Papa João Paulo II, o venerável servo de Deus Karol Wojtyla será elevado aos altares pelo antigo colaborador e atual Pontífice, Bento XVI.
Por iniciativa de Papa Ratzinger, foi descumprido, no caso de João Paulo II, o prazo mínimo de cinco anos após a morte, para a instauração do processo de beatificação. O quinquênio é exigido pelo óbvio motivo de que a causa não sofra a influência de fatores emotivos decorrentes da proximidade do desaparecimento do eventual candidato à santidade.
A beatificação, que é precedida de seu reconhecimento como servo venerável, não deveria ser o produto imediato do sentimento de pesar e da perda ainda recente do Pontífice. O intervalo de cinco anos ensejaria, dessarte, um tempo de reconsideração e de reavaliação da obra, da personalidade e da excelência das respectivas virtudes, para que a eventual decisão seja menos resultado da emoção, do que da reflexão.
O Papa Bento XVI, que ascendeu à Sede Pontifícia, com 78 anos de idade – em marcado contraste com a relativa mocidade de João Paulo II – terá considerado, a par de seu apreço pelo predecessor, a disponibilidade do tempo para alcançar o que julga como injunção de elementar justiça.
João Paulo II, o papa polonês, gozou em seu pontificado – o quarto mais longo na história da Igreja - de imensa popularidade, devida em boa parte ao forte caráter e à influência política – refletida notadamente na contribuição para a derrocada do comunismo - a grande capacidade comunicativa, e o incansável trabalho pastoral, com as incontáveis viagens através do mundo.
O atentado de Ali Agca, a 13 de maio de 1981, no terceiro ano de ministério, lhe marcaria cruelmente a trajetória, porque, após vencer a grave lesão e inesperada recaída na convalescença, Papa Wojtyla perderia, decerto prematuramente, parcela da energia e a desenvoltura que lhe tinham assinalado o início do empenho pastoral.
Combalido e, mais tarde, com o avanço da doença de Parkinson, realizou esforço indômito para prosseguir com pesada rotina de trabalho. Tal sofrimento fê-lo crescer ainda mais no respeito e na veneração de todos aqueles que, de perto ou de longe, tiveram a oportunidade de acompanhá-lo na sua faina de sucessor de Pedro.
No entanto, João Paulo II marcaria também a permanência na Santa Sé por acentuado viés conservador – um traço do episcopado polonês e, sobretudo, de seu mentor, o Cardeal-Primaz da Polônia, Stefan Wyszynski – que o levaria, já nos seus albores, a tratar duramente diversos teólogos de nomeada, como Hans Küng, Edward Schillebeeckx e, mais tarde, através do Cardeal-Prefeito do antigo Santo Ofício, a Leonardo Boff, O.F.M. Foi nesse contexto que o maior teólogo da época, Karl Rahner, cunhou, com a habitual reserva, a expressão ‘o inverno na Igreja’.
Dentro de tal postura, Papa Wojtyla favoreceria prelados e organizações de matiz conservador. Nesse contexto, mostraria especial predileção por José Maria Escrivá de Balaguer, fundador da Opus Dei. Com efeito, João Paulo II beatificaria e canonizaria (em 2002) a Escrivá de Balaguer, a despeito de persistirem várias e sérias dúvidas sobre as suas virtudes heróicas.
Por fim, - e talvez seja o argumento mais grave contra a beatificação do Papa polonês - a sua inação no que respeita às denúncias de pedofilia na Igreja. Neste aspecto, como assinala Maureen Dowd na sua coluna, apesar de formalmente acusado de pedofilia em processo vaticano, o fundador da Legião de Cristo, o Rev. Marcial Maciel Degollado, manteve o respectivo prestígio com o Vigário de Cristo. Assinale-se, como refere Dowd, que ‘a ultra-ortodoxa Legião de Cristo e a Opus Dei eram as tropas de choque na guerra de João Paulo (II) contra os Jesuítas e outros teólogos progressistas’.
Entrementes, o Papa do Concílio, João XXIII, teve a própria santidade reconhecida por João Paulo II apenas em 2002. Papa Roncalli morrera em três de junho de 1963 cercado pela devoção dos fiéis e a admiração dos não-crentes, o que fazia crer na proximidade de sua elevação aos altares. Os seus sucessores, no entanto, malgrado a extensão do culto que lhe é dirigido, timbraram em postergar-lhe o reconhecimento eclesial (João Paulo I, dado o caráter efêmero de seu ministério, não pode ser obviamente incluído nessa companhia).
Em 2000, João Paulo II, nos anos finais do pontificado, beatificou o Papa Bom. Com tantas qualidades – o grande carisma, a bondade, humildade e abertura da Igreja aos tempos modernos – a par da manifesta santidade e amplitude da respectiva devoção, nos defronta a pergunta ineludível: por que a Igreja, enquanto distingue tantos nomes que não suscitam comparável atenção, fervor e veneração, timbra em retardar-lhe a diferida e por muitos ansiada canonização ?
Recordo-me de em visita protocolar ao Prefeito da Congregação da Causa dos Santos, Cardeal Corrado Bafile, haver perguntado sobre as perspectivas do processo de santidade de Papa Roncalli (João XXIII). Bafile me disse julgar apropriado que os candidatos à santidade tivessem período de espera de cinquenta anos. Posto que então tal norma me parecesse algo despropositada, se fizermos as contas (João XXIII faleceu em 1963) a data de sua consagração estaria iminente, mesmo segundo o critério ultracauteloso do Prefeito da Causa dos Santos...
Não sei, de resto, o que pareceria àquele Cardeal da Cúria a pressurosa homenagem de Bento XVI ao seu antigo chefe e dileto amigo. De qualquer forma, como nos ensinou o Papa do Concílio, a Igreja precisa sair dos palácios e abrir as janelas para os ares dos novos tempos. Sob o signo da Obediência aos princípios da fé, e da busca da Paz, que nasce de um respeito pelo próximo que vai muito além das fórmulas de conveniência. Em toda a sua longa caminhada Angelo Roncalli seria sempre a epítome dessa vocação de respeito, compreensão e boa vizinhança.
(Fonte subsidiária: International Herald Tribune)
Por iniciativa de Papa Ratzinger, foi descumprido, no caso de João Paulo II, o prazo mínimo de cinco anos após a morte, para a instauração do processo de beatificação. O quinquênio é exigido pelo óbvio motivo de que a causa não sofra a influência de fatores emotivos decorrentes da proximidade do desaparecimento do eventual candidato à santidade.
A beatificação, que é precedida de seu reconhecimento como servo venerável, não deveria ser o produto imediato do sentimento de pesar e da perda ainda recente do Pontífice. O intervalo de cinco anos ensejaria, dessarte, um tempo de reconsideração e de reavaliação da obra, da personalidade e da excelência das respectivas virtudes, para que a eventual decisão seja menos resultado da emoção, do que da reflexão.
O Papa Bento XVI, que ascendeu à Sede Pontifícia, com 78 anos de idade – em marcado contraste com a relativa mocidade de João Paulo II – terá considerado, a par de seu apreço pelo predecessor, a disponibilidade do tempo para alcançar o que julga como injunção de elementar justiça.
João Paulo II, o papa polonês, gozou em seu pontificado – o quarto mais longo na história da Igreja - de imensa popularidade, devida em boa parte ao forte caráter e à influência política – refletida notadamente na contribuição para a derrocada do comunismo - a grande capacidade comunicativa, e o incansável trabalho pastoral, com as incontáveis viagens através do mundo.
O atentado de Ali Agca, a 13 de maio de 1981, no terceiro ano de ministério, lhe marcaria cruelmente a trajetória, porque, após vencer a grave lesão e inesperada recaída na convalescença, Papa Wojtyla perderia, decerto prematuramente, parcela da energia e a desenvoltura que lhe tinham assinalado o início do empenho pastoral.
Combalido e, mais tarde, com o avanço da doença de Parkinson, realizou esforço indômito para prosseguir com pesada rotina de trabalho. Tal sofrimento fê-lo crescer ainda mais no respeito e na veneração de todos aqueles que, de perto ou de longe, tiveram a oportunidade de acompanhá-lo na sua faina de sucessor de Pedro.
No entanto, João Paulo II marcaria também a permanência na Santa Sé por acentuado viés conservador – um traço do episcopado polonês e, sobretudo, de seu mentor, o Cardeal-Primaz da Polônia, Stefan Wyszynski – que o levaria, já nos seus albores, a tratar duramente diversos teólogos de nomeada, como Hans Küng, Edward Schillebeeckx e, mais tarde, através do Cardeal-Prefeito do antigo Santo Ofício, a Leonardo Boff, O.F.M. Foi nesse contexto que o maior teólogo da época, Karl Rahner, cunhou, com a habitual reserva, a expressão ‘o inverno na Igreja’.
Dentro de tal postura, Papa Wojtyla favoreceria prelados e organizações de matiz conservador. Nesse contexto, mostraria especial predileção por José Maria Escrivá de Balaguer, fundador da Opus Dei. Com efeito, João Paulo II beatificaria e canonizaria (em 2002) a Escrivá de Balaguer, a despeito de persistirem várias e sérias dúvidas sobre as suas virtudes heróicas.
Por fim, - e talvez seja o argumento mais grave contra a beatificação do Papa polonês - a sua inação no que respeita às denúncias de pedofilia na Igreja. Neste aspecto, como assinala Maureen Dowd na sua coluna, apesar de formalmente acusado de pedofilia em processo vaticano, o fundador da Legião de Cristo, o Rev. Marcial Maciel Degollado, manteve o respectivo prestígio com o Vigário de Cristo. Assinale-se, como refere Dowd, que ‘a ultra-ortodoxa Legião de Cristo e a Opus Dei eram as tropas de choque na guerra de João Paulo (II) contra os Jesuítas e outros teólogos progressistas’.
Entrementes, o Papa do Concílio, João XXIII, teve a própria santidade reconhecida por João Paulo II apenas em 2002. Papa Roncalli morrera em três de junho de 1963 cercado pela devoção dos fiéis e a admiração dos não-crentes, o que fazia crer na proximidade de sua elevação aos altares. Os seus sucessores, no entanto, malgrado a extensão do culto que lhe é dirigido, timbraram em postergar-lhe o reconhecimento eclesial (João Paulo I, dado o caráter efêmero de seu ministério, não pode ser obviamente incluído nessa companhia).
Em 2000, João Paulo II, nos anos finais do pontificado, beatificou o Papa Bom. Com tantas qualidades – o grande carisma, a bondade, humildade e abertura da Igreja aos tempos modernos – a par da manifesta santidade e amplitude da respectiva devoção, nos defronta a pergunta ineludível: por que a Igreja, enquanto distingue tantos nomes que não suscitam comparável atenção, fervor e veneração, timbra em retardar-lhe a diferida e por muitos ansiada canonização ?
Recordo-me de em visita protocolar ao Prefeito da Congregação da Causa dos Santos, Cardeal Corrado Bafile, haver perguntado sobre as perspectivas do processo de santidade de Papa Roncalli (João XXIII). Bafile me disse julgar apropriado que os candidatos à santidade tivessem período de espera de cinquenta anos. Posto que então tal norma me parecesse algo despropositada, se fizermos as contas (João XXIII faleceu em 1963) a data de sua consagração estaria iminente, mesmo segundo o critério ultracauteloso do Prefeito da Causa dos Santos...
Não sei, de resto, o que pareceria àquele Cardeal da Cúria a pressurosa homenagem de Bento XVI ao seu antigo chefe e dileto amigo. De qualquer forma, como nos ensinou o Papa do Concílio, a Igreja precisa sair dos palácios e abrir as janelas para os ares dos novos tempos. Sob o signo da Obediência aos princípios da fé, e da busca da Paz, que nasce de um respeito pelo próximo que vai muito além das fórmulas de conveniência. Em toda a sua longa caminhada Angelo Roncalli seria sempre a epítome dessa vocação de respeito, compreensão e boa vizinhança.
(Fonte subsidiária: International Herald Tribune)
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Dilma e a Inflação
Como referido no blog A dádiva de Lula não há dúvida sobre quem recai a responsabilidade do ressurgimento da inflação, que tantos planos heterodoxos e ministros da fazenda jogara por terra, enquanto consumia a economia brasileira em decenal estagnação. Só mesmo irresponsável e temerário governante poderia brincar com esse gênio, que somente fora posto na garrafa, ao cabo de grandes sacrifícios, pelo Plano Real,mérito do presidente Itamar Franco e de seu ministro Fernando Henrique Cardoso.
É bem verdade que na vitória sobre a inflação o governo de então jamais teve qualquer cooperação de Lula e do Partido dos Trabalhadores. Tudo foi feito pelo PT para colocar o Plano no mesmo saco de tantos outros esquemas, como o Plano Cruzado, cujo efêmero sucesso fora bastante para o estelionato eleitoral que dera grandes maiorias no Congresso e muitos governadores ao PMDB. No dia seguinte à eleição, o Ministro da Fazenda, Dilson Funaro e o Presidente José Sarney editaram o Cruzado II, que pôs fim à empulhação do Plano Cruzado.
A população, que sofrera as agruras da inflação, teve o bom senso de não acreditar na propaganda de Lula, que tudo fez para desmerecer da confiança do público no Plano Real. A estabilidade dos preços trazida pelo Real foi o maior cabo eleitoral de FHC. Contra ele, a demagogia de quem antes liderara as pesquisas se desfazia, incapaz de brigar com a realidade vista em um dia-a-dia que, por fim, trazia segurança na manutenção do valor da moeda e do respectivo salário no fim do mês.
Já se tratou demasiado do modo leviano com que se buscou agradar ao povo, com as desonerações fiscais e facilidades de crédito, a par do empreguismo desenfreado como ferramenta eleitoreira, e as famigeradas ‘capitalizações’do BNDES, esta suposta mágica varinha que, pelo aumento da dívida pública, suplementaria os níveis insuficientes de poupança para alavancar os investimentos e a economia.
Tampouco ajudou o Ministro Guido Mantega, deveras mais flexível que o seu antecessor Antonio Palocci, e incapaz de contrariar o sôfrego Presidente Lula, a quem não importava brincar com a inflação, eis que tinha postos os olhos na eleição de sua candidata.
Hoje sabemos – cortesia do Wiki-Leaks - que a propalada ‘autonomia’ do Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, era estória da carochinha, posto que ainda em doses moderadas. Não obstante, dona Dilma resolveu afastá-lo, e o substituíu com Alexandre Tombini.
Conhecemos os pendores desenvolvimentistas da Presidenta. Não somos decerto contrários ao desenvolvimento de nossa terra, mas já aprendemos – cortesia do dragão – que o crescimento econômico não se alcança por taumatúrgicos atalhos que desconhecem os riscos da carestia. Se há um país em que as autoridades não têm o direito de alegar desconhecimento de tais perigos é o Brasil.
Por obra e graça de Lula, refestelado na sua fácil aprovação de mais de oitenta por cento, caíu no colo de sua pupila e Presidenta, com o Palácio do Planalto, o dúbio regalo da carestia.
A despeito do desaparecimento da inflação, se deixarou em virtual hibernação uma pletora de índices, que sempre cuidaram de satisfazer o insaciável apetite das várias corporações, a começar pelos seus corifeus do judiciário.
No entanto, redesperta a velha senhora, com a prestimosa ajuda de toda a tralha de índices, ela de repente se transforma de tênue aviso em perigo presente.
Assim, só pode consternar a fraqueza do Copom, sob a presidência de Tombini, que preferiu os modos brandos de uma alça na Selic de 0.25%, quando a seriedade da situação – e a circunstância de o índice inflacionário já ter quebrado todos os prognósticos oficiais para este ano – exige mais firmeza e seriedade.
Assistíramos, neste governo, o mal-disfarçado embuste de um corte no orçamento de R$50 bilhões, que foi logo ‘compensado’por mais uma ‘capitalização’ do BNDES, essa falsa mágica de Mantega, que aumenta a dívida e onera o Tesouro (além de manter a pressão inflacionária, na bisonha prestidigitação que a ninguém engana).
Se os estratosféricos níveis de popularidade de Lula no seu segundo mandato ensejaram a eleição da candidata por ele inventada, malgrado o tropeço no primeiro turno, o povo pode ser iludido por um tempo, mas não o será por muito se, ao fim e ao cabo, nos encontrarmos em meio ao recrudescimento da inflação, em pleno governo do PT e de D. Dilma. Por maiores que sejam os malabarismos não lograrão fugir à própria responsabilidade histórica de terem sido os vetores conscientes do regresso do temido dragão.
Pelo Brasil e por todos nós, desejo que o atual governo tenha êxito em afastar este flagelo da economia e dos brasileiros, máxime os mais humildes, aparentemente os mais protegidos pelo assistencialismo do P.T. Que a Presidente Dilma Rousseff não se faça ilusões, em meio às melífluas palavras dos áulicos que enxameiam à sua volta: está diante não de um falso enigma, pois se não vencê-lo, ele a fará morder a poeira dos derrotados. Pelo Brasil, repito, espero que assim não seja. No entanto, por ora, o que se vê, só lança mais lenha na fogueira das inquietações.
É bem verdade que na vitória sobre a inflação o governo de então jamais teve qualquer cooperação de Lula e do Partido dos Trabalhadores. Tudo foi feito pelo PT para colocar o Plano no mesmo saco de tantos outros esquemas, como o Plano Cruzado, cujo efêmero sucesso fora bastante para o estelionato eleitoral que dera grandes maiorias no Congresso e muitos governadores ao PMDB. No dia seguinte à eleição, o Ministro da Fazenda, Dilson Funaro e o Presidente José Sarney editaram o Cruzado II, que pôs fim à empulhação do Plano Cruzado.
A população, que sofrera as agruras da inflação, teve o bom senso de não acreditar na propaganda de Lula, que tudo fez para desmerecer da confiança do público no Plano Real. A estabilidade dos preços trazida pelo Real foi o maior cabo eleitoral de FHC. Contra ele, a demagogia de quem antes liderara as pesquisas se desfazia, incapaz de brigar com a realidade vista em um dia-a-dia que, por fim, trazia segurança na manutenção do valor da moeda e do respectivo salário no fim do mês.
Já se tratou demasiado do modo leviano com que se buscou agradar ao povo, com as desonerações fiscais e facilidades de crédito, a par do empreguismo desenfreado como ferramenta eleitoreira, e as famigeradas ‘capitalizações’do BNDES, esta suposta mágica varinha que, pelo aumento da dívida pública, suplementaria os níveis insuficientes de poupança para alavancar os investimentos e a economia.
Tampouco ajudou o Ministro Guido Mantega, deveras mais flexível que o seu antecessor Antonio Palocci, e incapaz de contrariar o sôfrego Presidente Lula, a quem não importava brincar com a inflação, eis que tinha postos os olhos na eleição de sua candidata.
Hoje sabemos – cortesia do Wiki-Leaks - que a propalada ‘autonomia’ do Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, era estória da carochinha, posto que ainda em doses moderadas. Não obstante, dona Dilma resolveu afastá-lo, e o substituíu com Alexandre Tombini.
Conhecemos os pendores desenvolvimentistas da Presidenta. Não somos decerto contrários ao desenvolvimento de nossa terra, mas já aprendemos – cortesia do dragão – que o crescimento econômico não se alcança por taumatúrgicos atalhos que desconhecem os riscos da carestia. Se há um país em que as autoridades não têm o direito de alegar desconhecimento de tais perigos é o Brasil.
Por obra e graça de Lula, refestelado na sua fácil aprovação de mais de oitenta por cento, caíu no colo de sua pupila e Presidenta, com o Palácio do Planalto, o dúbio regalo da carestia.
A despeito do desaparecimento da inflação, se deixarou em virtual hibernação uma pletora de índices, que sempre cuidaram de satisfazer o insaciável apetite das várias corporações, a começar pelos seus corifeus do judiciário.
No entanto, redesperta a velha senhora, com a prestimosa ajuda de toda a tralha de índices, ela de repente se transforma de tênue aviso em perigo presente.
Assim, só pode consternar a fraqueza do Copom, sob a presidência de Tombini, que preferiu os modos brandos de uma alça na Selic de 0.25%, quando a seriedade da situação – e a circunstância de o índice inflacionário já ter quebrado todos os prognósticos oficiais para este ano – exige mais firmeza e seriedade.
Assistíramos, neste governo, o mal-disfarçado embuste de um corte no orçamento de R$50 bilhões, que foi logo ‘compensado’por mais uma ‘capitalização’ do BNDES, essa falsa mágica de Mantega, que aumenta a dívida e onera o Tesouro (além de manter a pressão inflacionária, na bisonha prestidigitação que a ninguém engana).
Se os estratosféricos níveis de popularidade de Lula no seu segundo mandato ensejaram a eleição da candidata por ele inventada, malgrado o tropeço no primeiro turno, o povo pode ser iludido por um tempo, mas não o será por muito se, ao fim e ao cabo, nos encontrarmos em meio ao recrudescimento da inflação, em pleno governo do PT e de D. Dilma. Por maiores que sejam os malabarismos não lograrão fugir à própria responsabilidade histórica de terem sido os vetores conscientes do regresso do temido dragão.
Pelo Brasil e por todos nós, desejo que o atual governo tenha êxito em afastar este flagelo da economia e dos brasileiros, máxime os mais humildes, aparentemente os mais protegidos pelo assistencialismo do P.T. Que a Presidente Dilma Rousseff não se faça ilusões, em meio às melífluas palavras dos áulicos que enxameiam à sua volta: está diante não de um falso enigma, pois se não vencê-lo, ele a fará morder a poeira dos derrotados. Pelo Brasil, repito, espero que assim não seja. No entanto, por ora, o que se vê, só lança mais lenha na fogueira das inquietações.
domingo, 24 de abril de 2011
Colcha de Retalhos LXXVI
A Insurreição Síria
Bashar al-Assad, o aliado de Mahmoud Ahmadinejad enfrenta a revolta de seus compatriotas sírios com os instrumentos que recebeu de seu pai, o general Hafez al-Assad. Sem outra legitimação que a da força, assim como das eleições ‘dirigidas’,no décimo-primeiro ano de sua dominação ele se descobre em meio à borrasca de um povo desperto pela revolução árabe democrática desencadeada pelo mártir tunisiano Mohamed Bouazizi.
O governante sírio tem tentado lidar com o inopinado desafio da sublevação seja com o fuzil, que abate manifestantes desarmados, a clamarem por democracia, seja com mentiras e falsas promessas. Buscando dar a aparência de mudança, Bashar al-Assad multiplica iniciativas cosméticas que sequer enganam aos titeres reunidos na assembleia formada pelos bem-conhecidos pleitos fraudulentos.
A quem ilude derrogando a lei de emergência, que vige desde o início do regime do partido Baath, nos sessenta, se as novas disposições nada mudam na essência ?
Tampouco a dança das cadeiras no governo, em que os cortesãos trocam de lugar,
nada altera quanto à realidade da ditadura dinástica dos al-Assad.
Representante de seita islamita minoritária, a alauíta, Bashar não está sozinho no poder. Além do apoio dessa seita – que teme a predominância da maioria sunita -, mantém aliança com o exército e com os comerciantes abastados, que preferem os privilégios dos al-Assad às incógnitas de um regime seja democrático, seja dominado pelas classes ora insatisfeitas.
O recurso sistemático à violência letal, em que intenta amedrontar as massas não mais com a ameaça da repressão, mas com a fuzilaria indiscriminada há de recordar exemplos passados que, se porventura lembrados, não trarão o conforto dos mágicos remédios ansiado pelo regime dos al-Assad.
A história demonstra que apelar para os cossacos, com as suas matanças de multidões indefesas, não é a solução adequada, mesmo consoante os cínicos esquemas do ditador sírio. As ruas coalhadas de cadáveres não foram sinais de bom augúrio para os czares autócratas. O começo das revoluções não nos prenuncia como hão de terminar. Muita vez podem parir até mostrengos, piores dos que se propunham derrubar.
Se o remédio final pode ser amargo, as forças por ela desencadeadas avançam no próprio caminho, deixando muitas vezes à cega fortuna a decisão da refrega. Por ora, exército e polícia de segurança tratam do ‘problema sírio’ segundo a respectiva natureza. Multiplicam-se os mortos – 88 na antevéspera, culpados por se reunirem e gritar slogans pró-democracia, e mais outros dez, no dia seguinte, culpados esses por acompanharem os enterros dos companheiros abatidos.
É cedo ainda para esboçar vaticínios. Mas não semelha demasiado tarde para afirmar que o contágio da revolução pôs por terra a falsa ordem dos al-Assad, e o mito da ditadura inexpugnável. Para terror dos Ahmadinejad, dos Lukashenko (Bielorrússia) e até mesmo de Kim Jong-Il (Coreia do Norte) ainda não descobriram a fórmula de lidar com o eterno enigma dos oi polloi (os muitos – como se designava na Antiga Grécia a massa dos habitantes).
A Líbia e a ajuda encabulada da OTAN
O ditador Muamar Kadaffi parece ter com os civis atitude ciclotímica. Deles se vale amiúde para montar escudos humanos para salvaguardar locais que lhe são de ainda maior valia.
Na guerra civil entre a frente rebelde e o que resta da Jamairia, aprecia deveras que a organização revolucionária não disponha de armas pesadas. Dessarte, ela se torna presa fácil para as suas investidas, muita vez realizadas com a especial cortesia da OTAN.
Talvez por causa da sigla – quem pode ter raiva da Otan, diante desse acrônimo que mais dissimula do que revela os países responsáveis – tem sido observada com crescente inquietude, a forma encabulada e a decorrente esparsa presença com que ora se apresenta a ajuda ocidental às forças que desejam derrubar Kadaffi.
A própria estúpida morte de dois repórteres ocidentais põem uma vez mais a descoberto esse suposto domínio dos ares, que se tem mostrado de singular ineficácia na luta contra a ditadura do coronel líbio.
Não se pode contestar a John McCain a coragem e a determinação. A visita à Benghazi, nas condições vigentes, em nada se assemelha às habituais missões de congressistas.
Dentro da atual desencontrada liderança estadunidense – em que assistimos a timidez em certos episódios bélicos contrastar com o regurgitar de comportamentos da administração anterior, em que a enfática negação da tortura os fatos se encarregaram de desmascarar -, a presença do rival derrotado de Barack Obama em 2008 pode contribuir para moldar uma ajuda mais eficaz à Frente Rebelde.
A revolução árabe democrática aqui se desenvolve em fragmentada guerra civil.
É crença quase generalizada de que Muamar Kadaffi faz jus ao repouso, após quarenta anos de controverso domínio. Mais por incompetência do campo adversário – e é óbvio que tal responsabilidade não caia de forma exclusiva nos ombros dos rebeldes – do que dos feitos do coronel, o embate se prorroga e se atola nas traiçoeiras areias do deserto.
Por isso, a passagem pela cena de John McCain pode até ser útil, ao trazer o sopro de uma determinação que semelha muito em falta nos dias que correm.
Anunciado o Fim de um longo reino ?
Do Iêmen, um dos primeiros países a serem afetados pela revolução árabe, se anuncia a decisão do eterno presidente Ali Abdullah Saleh em renunciar. Como tal disposição não é exatamente nova – a longa luta da população iemenita em afastá-lo do poder já colheu promessas similares no passado – cabe a pergunta se o suposto propósito de Ali Saleh de sair da presidência corresponde à realidade dos fatos, ou a mais um artifício do ditador em agarrar-se à curul presidencial, e aí permanecer contra vento e maré. A revolução no Iêmen alcança enorme maioria. Por toda parte, inclusive de comandos militares, repontam indicações de que não mais desejam a continuação do mando de Ali Abdullah Saleh. E a despeito de tudo e de quase todos, o ditador continua a discursar e a residir na casa presidencial.
Agora, a derradeira notícia revela que irá afinal exonerar-se, dentro de trinta dias.
Para quem se agarra ao poder com tal pertinácia, o prazo causa espécie. Não será, porventura, que deseje Sua Excelência explorar mais uma vez a paciência das multidões, e testar, como quem não quer nada, a possibilidade de ao cabo dos tais fatídicos trinta dias continuar em palácio, a cuidar dos interesses do Iêmen, com tem sido, há mais de trinta anos, a sua sárcina ?
( Fontes: International Herald Tribune e Folha de S.Paulo )
Bashar al-Assad, o aliado de Mahmoud Ahmadinejad enfrenta a revolta de seus compatriotas sírios com os instrumentos que recebeu de seu pai, o general Hafez al-Assad. Sem outra legitimação que a da força, assim como das eleições ‘dirigidas’,no décimo-primeiro ano de sua dominação ele se descobre em meio à borrasca de um povo desperto pela revolução árabe democrática desencadeada pelo mártir tunisiano Mohamed Bouazizi.
O governante sírio tem tentado lidar com o inopinado desafio da sublevação seja com o fuzil, que abate manifestantes desarmados, a clamarem por democracia, seja com mentiras e falsas promessas. Buscando dar a aparência de mudança, Bashar al-Assad multiplica iniciativas cosméticas que sequer enganam aos titeres reunidos na assembleia formada pelos bem-conhecidos pleitos fraudulentos.
A quem ilude derrogando a lei de emergência, que vige desde o início do regime do partido Baath, nos sessenta, se as novas disposições nada mudam na essência ?
Tampouco a dança das cadeiras no governo, em que os cortesãos trocam de lugar,
nada altera quanto à realidade da ditadura dinástica dos al-Assad.
Representante de seita islamita minoritária, a alauíta, Bashar não está sozinho no poder. Além do apoio dessa seita – que teme a predominância da maioria sunita -, mantém aliança com o exército e com os comerciantes abastados, que preferem os privilégios dos al-Assad às incógnitas de um regime seja democrático, seja dominado pelas classes ora insatisfeitas.
O recurso sistemático à violência letal, em que intenta amedrontar as massas não mais com a ameaça da repressão, mas com a fuzilaria indiscriminada há de recordar exemplos passados que, se porventura lembrados, não trarão o conforto dos mágicos remédios ansiado pelo regime dos al-Assad.
A história demonstra que apelar para os cossacos, com as suas matanças de multidões indefesas, não é a solução adequada, mesmo consoante os cínicos esquemas do ditador sírio. As ruas coalhadas de cadáveres não foram sinais de bom augúrio para os czares autócratas. O começo das revoluções não nos prenuncia como hão de terminar. Muita vez podem parir até mostrengos, piores dos que se propunham derrubar.
Se o remédio final pode ser amargo, as forças por ela desencadeadas avançam no próprio caminho, deixando muitas vezes à cega fortuna a decisão da refrega. Por ora, exército e polícia de segurança tratam do ‘problema sírio’ segundo a respectiva natureza. Multiplicam-se os mortos – 88 na antevéspera, culpados por se reunirem e gritar slogans pró-democracia, e mais outros dez, no dia seguinte, culpados esses por acompanharem os enterros dos companheiros abatidos.
É cedo ainda para esboçar vaticínios. Mas não semelha demasiado tarde para afirmar que o contágio da revolução pôs por terra a falsa ordem dos al-Assad, e o mito da ditadura inexpugnável. Para terror dos Ahmadinejad, dos Lukashenko (Bielorrússia) e até mesmo de Kim Jong-Il (Coreia do Norte) ainda não descobriram a fórmula de lidar com o eterno enigma dos oi polloi (os muitos – como se designava na Antiga Grécia a massa dos habitantes).
A Líbia e a ajuda encabulada da OTAN
O ditador Muamar Kadaffi parece ter com os civis atitude ciclotímica. Deles se vale amiúde para montar escudos humanos para salvaguardar locais que lhe são de ainda maior valia.
Na guerra civil entre a frente rebelde e o que resta da Jamairia, aprecia deveras que a organização revolucionária não disponha de armas pesadas. Dessarte, ela se torna presa fácil para as suas investidas, muita vez realizadas com a especial cortesia da OTAN.
Talvez por causa da sigla – quem pode ter raiva da Otan, diante desse acrônimo que mais dissimula do que revela os países responsáveis – tem sido observada com crescente inquietude, a forma encabulada e a decorrente esparsa presença com que ora se apresenta a ajuda ocidental às forças que desejam derrubar Kadaffi.
A própria estúpida morte de dois repórteres ocidentais põem uma vez mais a descoberto esse suposto domínio dos ares, que se tem mostrado de singular ineficácia na luta contra a ditadura do coronel líbio.
Não se pode contestar a John McCain a coragem e a determinação. A visita à Benghazi, nas condições vigentes, em nada se assemelha às habituais missões de congressistas.
Dentro da atual desencontrada liderança estadunidense – em que assistimos a timidez em certos episódios bélicos contrastar com o regurgitar de comportamentos da administração anterior, em que a enfática negação da tortura os fatos se encarregaram de desmascarar -, a presença do rival derrotado de Barack Obama em 2008 pode contribuir para moldar uma ajuda mais eficaz à Frente Rebelde.
A revolução árabe democrática aqui se desenvolve em fragmentada guerra civil.
É crença quase generalizada de que Muamar Kadaffi faz jus ao repouso, após quarenta anos de controverso domínio. Mais por incompetência do campo adversário – e é óbvio que tal responsabilidade não caia de forma exclusiva nos ombros dos rebeldes – do que dos feitos do coronel, o embate se prorroga e se atola nas traiçoeiras areias do deserto.
Por isso, a passagem pela cena de John McCain pode até ser útil, ao trazer o sopro de uma determinação que semelha muito em falta nos dias que correm.
Anunciado o Fim de um longo reino ?
Do Iêmen, um dos primeiros países a serem afetados pela revolução árabe, se anuncia a decisão do eterno presidente Ali Abdullah Saleh em renunciar. Como tal disposição não é exatamente nova – a longa luta da população iemenita em afastá-lo do poder já colheu promessas similares no passado – cabe a pergunta se o suposto propósito de Ali Saleh de sair da presidência corresponde à realidade dos fatos, ou a mais um artifício do ditador em agarrar-se à curul presidencial, e aí permanecer contra vento e maré. A revolução no Iêmen alcança enorme maioria. Por toda parte, inclusive de comandos militares, repontam indicações de que não mais desejam a continuação do mando de Ali Abdullah Saleh. E a despeito de tudo e de quase todos, o ditador continua a discursar e a residir na casa presidencial.
Agora, a derradeira notícia revela que irá afinal exonerar-se, dentro de trinta dias.
Para quem se agarra ao poder com tal pertinácia, o prazo causa espécie. Não será, porventura, que deseje Sua Excelência explorar mais uma vez a paciência das multidões, e testar, como quem não quer nada, a possibilidade de ao cabo dos tais fatídicos trinta dias continuar em palácio, a cuidar dos interesses do Iêmen, com tem sido, há mais de trinta anos, a sua sárcina ?
( Fontes: International Herald Tribune e Folha de S.Paulo )
sexta-feira, 22 de abril de 2011
O Amor Chega Tarde
O filme de Jan Schütte ‘Love comes lately’ (2007) se inspira em três contos de Isaac Bashevis Singer, o Prêmio Nobel que se refugiara em New York, e que escrevia em iídiche, o idioma da comunidade judia da Polônia.
O personagem central Max Kohn (Otto Tausig), escritor de contos sobre gente comum, como o descreve a apresentadora em uma de suas conferências. Kohn vive com uma eterna namorada, Reisele (Rhea Perlman), em típico apartamento da classe média de Manhattan. Embora ela o trate mais como um irmão ranzinza, está sempre alerta para as suas aventuras. Não pode, contudo, acompanhá-lo em suas viagens a convite de universidades, porque tem de cuidar de sua mãe. Tal presença materna não precisa aparecer, para reter Reisele em New York e condená-la aos próprios ciúmes.
Os três episódios da trama se passam em Hannover, Miami e Springfield. A morte está sempre presente nessas estórias, tecidas com o displicente humor judeu nas fazendas de realidade, sonho e fantasia. Já a maestria de Schütte, vagando com a facilidade do pensamento em áreas tão diversas, dificulta por vezes a compreensão do espectador do plano em que ora se encontre Kohn.
Perseguem o personagem mais os pesadelos do que os azuis sonhos de realizadas fantasias. Neles a figura do cobrador personifica com o próprio uniforme o guarda que irrompe no subconsciente de Kohn para inquiri-lo de suas intenções (decerto maldosas), de sua atuação sexual, com a implícita insinuação da impotência. Tudo isso, mesmo na lógica onírica – afinal a sua única culpa é de não encontrar a passagem do trem – vai num crescendo, até que a angústia o empurre para a realidade da cama quase-conjugal com Reisele.
A figura de Tausig, ator austríaco, lembra a de Woody Allen, unidos que são pelo jeito de intelectual judeu e nova-iorquino, no esplendor de seus setenta anos. Kohn é também o escritor esquecidiço, sempre a perder coisas, enquanto a secretária e amante busca organizar-lhe a vida.
Kohn costuma ir de trem para os seus compromissos. Interessante o contraste entre Hannover e Springfield. Na primeira cidade, o conferencista tem a esperá-lo um comitê de admiradoras, que o conduzem para a conferência. Lá o professor-titular que o convidara não dá as caras, mandando outro professor que nada conhecia de sua obra. Kohn lê a conferência preparada para um auditório, cheio de cadeiras vazias, e que não faz perguntas.
Em outra esfera, contudo, a incursão lhe acena com antigos amores. Reencontra Rosalie (Barbara Hershey), que foi sua estudante e com quem teve um caso. Ela se revela um espelho feminino das conquistas de Kohn, eis que tampouco as suas relações têm o selo da estabilidade – e é o que de novo os atrai, por uma noite.
Tudo muda na ida para a escala de Springfield. O cobrador é atencioso, ao acordar o viajante exausto para a chegada na próxima estação, destino do professor-conferencista. Desta vez, contudo, na plataforma não há ninguém a esperá-lo e ele tem de tomar um táxi para procurar o hotel.
Na verdade, para seu espanto, é apenas um albergue. O empregado da noite, um sikh hindu, com turbante e tudo, o ignora completamente. Não há, na hospedaria de terceira classe, reserva alguma em seu nome. O hindu toda vez que o nomeia, o faz com um sobrenome diverso: é Khan, é Cohen, mas nunca, apesar dos apelos do escritor – eu me chamo Max Kohn - tem condições de chamá-lo corretamente.
Parece pesadelo, mas Kohn se defronta com imprevista realidade. Por fim, consegue um quarto sem banheiro. Pouco depois, o porteiro volta para advertir Mr. Khan que de modo algum saia do aposento. O motivo ? a mulher que dormia no quarto ao lado se suicidara e estavam removendo o corpo.
Sem dinheiro e sem modo de contactar os anfitriões – uma tentativa desesperada para que a namorada lhe transfira dinheiro bate no rochedo da raiva de Reisele que ao redescobrir-se,mais uma vez, traída pelo companheiro (ele não estava no hotel de Hannover e ela não teve dúvidas de que partilhava a cama com as ... de sempre – deixo para o leitor o palavrão). Chega até a mandar-lhe recado pelo eterno sikh, que repete para Mr. Cohen o desabafo raivoso de Reisele.
Nesse momento, só em seu quartinho, resolve esquecer o aperto, e escrever um conto.
Por fim, o sofrimento do herói goza do benefício de uma pausa. O comitê universitário que o convidara vem buscá-lo. Como não lograra dar com o bilhete de Reisele, em que estava o nome do hotel, trocara as bolas e fora parar no Springfield Mountain e não no Springfield Fountain, onde tudo estava preparado para ele.
Nessa univerdade, o espera um auditório repleto, e quem o apresenta, o faz em palavras de conhecedora do consagrado escritor de contos sobre gente comum. E ele os cativa não com a conferência – perdida junto com a pasta que lhe dera Reisele – mas com a narração da estória que acabara de redigir.
Neste episódio se repete o personagem distraído de Miami, a quem as mulheres procuram e se oferecem, em um ritmo que mais semelha ditado por regras que fluem com inacreditável naturalidade onírica. Passivo, ele convive com absurdas situações – como a do homem que o carrega, como testemunha, para a casa da ex-mulher e do companheiro, a quem vai exterminar com uma quase bazuka.
A esperança renasce quando o procura a vizinha Ethel (Tovah Feldshuh). Tudo parece correr à maravilha, tanto que ela o convida para almoçar no seu apartamento, que é contíguo ao do heterônimo de Kohn, no caso Bendeman.
Ethel está encantada com as parecenças do personagem Bendeman com as de seu falecido esposo. A tal ponto está entusiasmada que pensa na possibilidade de unir-se com Bendeman. Este, induzido pela abertura de Ethel, a beija longamente na boca. No entanto, esse abandono da passividade será fatal para a relação e para a própria Ethel.
Decerto, por culpar-se dessa traição ao morto, ela pede a Bendeman que saia de sua casa, e deixa claro que deseja dar um tempo nos respectivos ardores. Para surpresa do personagem, ele não tardará a saber que a senhora morte interveio mais uma vez, agora pelo suicídio de Ethel.
Em Max Kohn, escritor de relativa fama, que pode receber o súbito pedido de autógrafo de jovem admiradora, convivem diversos personagens, o do refugiado que teme os interrogatórios da Gestapo, o conquistador-passivo, a vítima de pesadelos que o visitam tanto nas poltronas de um trem, quanto no próprio quarto, o paciente que se queixa da operação da próstata, o nova-iorquino de classe média, cercado e por vezes sufocado pelas atenções da namorada-amiga.
O espectador agradece a Jan Schütte haver sabido retirar da obra de Singer, e de forma tão harmônica, muitos dos dybbuks (demônios) que lhe assombram os livros, e que Max Kohn (Otto Tausig) ora nos apresenta com um quase jeitão de Woody Allen.
O personagem central Max Kohn (Otto Tausig), escritor de contos sobre gente comum, como o descreve a apresentadora em uma de suas conferências. Kohn vive com uma eterna namorada, Reisele (Rhea Perlman), em típico apartamento da classe média de Manhattan. Embora ela o trate mais como um irmão ranzinza, está sempre alerta para as suas aventuras. Não pode, contudo, acompanhá-lo em suas viagens a convite de universidades, porque tem de cuidar de sua mãe. Tal presença materna não precisa aparecer, para reter Reisele em New York e condená-la aos próprios ciúmes.
Os três episódios da trama se passam em Hannover, Miami e Springfield. A morte está sempre presente nessas estórias, tecidas com o displicente humor judeu nas fazendas de realidade, sonho e fantasia. Já a maestria de Schütte, vagando com a facilidade do pensamento em áreas tão diversas, dificulta por vezes a compreensão do espectador do plano em que ora se encontre Kohn.
Perseguem o personagem mais os pesadelos do que os azuis sonhos de realizadas fantasias. Neles a figura do cobrador personifica com o próprio uniforme o guarda que irrompe no subconsciente de Kohn para inquiri-lo de suas intenções (decerto maldosas), de sua atuação sexual, com a implícita insinuação da impotência. Tudo isso, mesmo na lógica onírica – afinal a sua única culpa é de não encontrar a passagem do trem – vai num crescendo, até que a angústia o empurre para a realidade da cama quase-conjugal com Reisele.
A figura de Tausig, ator austríaco, lembra a de Woody Allen, unidos que são pelo jeito de intelectual judeu e nova-iorquino, no esplendor de seus setenta anos. Kohn é também o escritor esquecidiço, sempre a perder coisas, enquanto a secretária e amante busca organizar-lhe a vida.
Kohn costuma ir de trem para os seus compromissos. Interessante o contraste entre Hannover e Springfield. Na primeira cidade, o conferencista tem a esperá-lo um comitê de admiradoras, que o conduzem para a conferência. Lá o professor-titular que o convidara não dá as caras, mandando outro professor que nada conhecia de sua obra. Kohn lê a conferência preparada para um auditório, cheio de cadeiras vazias, e que não faz perguntas.
Em outra esfera, contudo, a incursão lhe acena com antigos amores. Reencontra Rosalie (Barbara Hershey), que foi sua estudante e com quem teve um caso. Ela se revela um espelho feminino das conquistas de Kohn, eis que tampouco as suas relações têm o selo da estabilidade – e é o que de novo os atrai, por uma noite.
Tudo muda na ida para a escala de Springfield. O cobrador é atencioso, ao acordar o viajante exausto para a chegada na próxima estação, destino do professor-conferencista. Desta vez, contudo, na plataforma não há ninguém a esperá-lo e ele tem de tomar um táxi para procurar o hotel.
Na verdade, para seu espanto, é apenas um albergue. O empregado da noite, um sikh hindu, com turbante e tudo, o ignora completamente. Não há, na hospedaria de terceira classe, reserva alguma em seu nome. O hindu toda vez que o nomeia, o faz com um sobrenome diverso: é Khan, é Cohen, mas nunca, apesar dos apelos do escritor – eu me chamo Max Kohn - tem condições de chamá-lo corretamente.
Parece pesadelo, mas Kohn se defronta com imprevista realidade. Por fim, consegue um quarto sem banheiro. Pouco depois, o porteiro volta para advertir Mr. Khan que de modo algum saia do aposento. O motivo ? a mulher que dormia no quarto ao lado se suicidara e estavam removendo o corpo.
Sem dinheiro e sem modo de contactar os anfitriões – uma tentativa desesperada para que a namorada lhe transfira dinheiro bate no rochedo da raiva de Reisele que ao redescobrir-se,mais uma vez, traída pelo companheiro (ele não estava no hotel de Hannover e ela não teve dúvidas de que partilhava a cama com as ... de sempre – deixo para o leitor o palavrão). Chega até a mandar-lhe recado pelo eterno sikh, que repete para Mr. Cohen o desabafo raivoso de Reisele.
Nesse momento, só em seu quartinho, resolve esquecer o aperto, e escrever um conto.
Por fim, o sofrimento do herói goza do benefício de uma pausa. O comitê universitário que o convidara vem buscá-lo. Como não lograra dar com o bilhete de Reisele, em que estava o nome do hotel, trocara as bolas e fora parar no Springfield Mountain e não no Springfield Fountain, onde tudo estava preparado para ele.
Nessa univerdade, o espera um auditório repleto, e quem o apresenta, o faz em palavras de conhecedora do consagrado escritor de contos sobre gente comum. E ele os cativa não com a conferência – perdida junto com a pasta que lhe dera Reisele – mas com a narração da estória que acabara de redigir.
Neste episódio se repete o personagem distraído de Miami, a quem as mulheres procuram e se oferecem, em um ritmo que mais semelha ditado por regras que fluem com inacreditável naturalidade onírica. Passivo, ele convive com absurdas situações – como a do homem que o carrega, como testemunha, para a casa da ex-mulher e do companheiro, a quem vai exterminar com uma quase bazuka.
A esperança renasce quando o procura a vizinha Ethel (Tovah Feldshuh). Tudo parece correr à maravilha, tanto que ela o convida para almoçar no seu apartamento, que é contíguo ao do heterônimo de Kohn, no caso Bendeman.
Ethel está encantada com as parecenças do personagem Bendeman com as de seu falecido esposo. A tal ponto está entusiasmada que pensa na possibilidade de unir-se com Bendeman. Este, induzido pela abertura de Ethel, a beija longamente na boca. No entanto, esse abandono da passividade será fatal para a relação e para a própria Ethel.
Decerto, por culpar-se dessa traição ao morto, ela pede a Bendeman que saia de sua casa, e deixa claro que deseja dar um tempo nos respectivos ardores. Para surpresa do personagem, ele não tardará a saber que a senhora morte interveio mais uma vez, agora pelo suicídio de Ethel.
Em Max Kohn, escritor de relativa fama, que pode receber o súbito pedido de autógrafo de jovem admiradora, convivem diversos personagens, o do refugiado que teme os interrogatórios da Gestapo, o conquistador-passivo, a vítima de pesadelos que o visitam tanto nas poltronas de um trem, quanto no próprio quarto, o paciente que se queixa da operação da próstata, o nova-iorquino de classe média, cercado e por vezes sufocado pelas atenções da namorada-amiga.
O espectador agradece a Jan Schütte haver sabido retirar da obra de Singer, e de forma tão harmônica, muitos dos dybbuks (demônios) que lhe assombram os livros, e que Max Kohn (Otto Tausig) ora nos apresenta com um quase jeitão de Woody Allen.
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