quarta-feira, 22 de junho de 2016

E se Ela escapar ? (2)

                                   


      Ao ver as fotos alinhadas dos quinze senadores 'indecisos', no que tange à respectiva posição sobre o afastamento definitivo ou não da presidente Dilma V. Rousseff, fotos essas publicadas pela Folha de S. Paulo, na sua edição de 2ª Feira, 20 de junho corrente, dificilmente o eleitor consciente , excluída uma ou talvez duas hipóteses , não sentirá aperto de coração acerca das perspectivas abertas para o Brasil.
      São quinze senadores indecisos, a favor neste momento haveria 37, e contra existem dezoito.
      Nesses termos, faltam dezessete (37 mais 17) para completar o número mínimo necessário para o seu afastamento definitivo (54). Assinale-se que para o afastamento temporário, cinquenta e cinco dos senadores votaram a favor. 
      Mais se pense e mais se tem certeza de que é um erro -  e   convite ao mais despudorado exercício de extorsão política - dividir em dois turnos  a votação do impeachment.
      Essa desfaçatez no mercadejar do voto, chega talvez ao máximo no comportamento do Senador Hélio José (PMDB-DF), conhecido em Brasília como Hélio Gambiarra, que pediu a Temer 34 cargos, entre eles as presidências do BB DTVM, dos Correios, do FNDE e de Itaipu. E não é só isso: esse senador também quer ser o líder do governo no Congresso e relatar as medidas provisórias sobre infraestrutura.  No Planalto, os pleitos do Sr. Gambiarra causaram irritação.  A respeito desse senhor, um dirigente partidário disse: "Se Hélio ficar contra o impeachment, ele morre no dia seguinte no PMDB".
        Por outro lado, há mudanças e certas posições que se definiram.  Os petistas já desistiram de Romário que alegadamente votará pelo impeachment.  Por sua vez, Marcello Crivella  (PRB-RJ) vai licenciar-se  (disputa mais uma vez a prefeitura do Rio), mas controla o voto do suplente Eduardo Lopes.  Por outro lado, Eduardo Amorim (PSDC), Vicentinho e Wilder Moraes passaram a declarar voto pró-deposição. 
         Por fim, Pedro Chaves (PSC-MS) : "Ainda estou analisando e não quero me precipitar."
         Como já adiantei em blog anterior, a única maneira de cortar esse mercadejar (ou pelo menos dificultá-lo) será proceder à votação em único turno  (como é, de resto, o procedimento adotado nos Estados Unidos da América). Transformar o processo em dois turnos é favorecer o que aí se depara, com o governo interino refém dos Senadores.

( Fonte: Folha de S. Paulo )
         


terça-feira, 21 de junho de 2016

Lembranças do meu Tio Adolpho (XVII)

                    


         A ciranda dos Bancos pode parecer brincadeira de criança,mas para o meu Tio Adolpho era coisa séria, que pressupunha trabalho aturado.
         Não sei se a dependência dos principais bancos seria decorrência da natureza de Adolpho Bloch, que, sem ser pródigo ou estouvado, não media despesas para alcançar os próprios objetivos.
         O capital dos Bloch tinha sido amealhado ao longo dos anos. Não foi decerto sem dificuldade que Bloch Editores evoluiria do núcleo da Frei Caneca para aquele do Rússell.
         Para dar esses grandes passos, além da visualização da oportunidade em  mercado competitivo como aquele das revistas de grande circulação, Adolpho se acomodou com o sofrível.
         Ele queria para o seu grupo o que fosse o melhor. Estava longe de proceder dessa forma por vaidade ou por aspectos acessórios. Tinha como cometimento na vida atingir níveis de excelência, que colocassem as suas publicações junto das melhores internacionais.
          Agia dessa forma por ambição profissional e por compromisso com a qualidade. Se uma ou outra vez se tenha adaptado a condições de mercado, meu tio Adolpho Bloch jamais se curvaria a condicionalismos extemporâneos. O seu norte sempre esteve na perseguição da qualidade e da superação, tanto própria, quanto no nível a ser alcançado pelos respectivos veículos de divulgação.
           Por vezes os seus ademanes, a sua linguagem, e até a própria franqueza, poderiam induzir quem não lhe conhecesse bem que o respectivo rumo pudesse ser alterado por vantagens episódicas. Essa avaliação não poderia estar mais afastada da realidade. Não era um capricho o que induzia Adolpho a perseguir o melhor. Era a sua própria natureza.
           Mas a sua jornada não foi simples, nem fácil. Imigrante saído da Ucrânia, então província do Império Russo,  Adolpho tinha a ética do trabalho bem-feito. Vindo com o pai Josef Bloch e sua família, o jovem de treze anos cedo aprendeu que para alcançar os próprios fins, não podia relaxar na qualidade de seu trabalho, onde quer que ele estivesse.
            Por isso, nos ofícios que aprendeu, a começar pelo de gráfico, ele nunca, por carioca da gema que se tornou, ele nunca abraçaria o jeitinho, aquele enganoso atalho que pensa queimar etapas, escamoteando a qualidade do trabalho.
               Nunca vi pessoa que tanto prezasse o trabalho como Adolpho Bloch. Escarnecia - e com boa razão - do chamado facilitário, dos atalhos que pensam simplificar a tarefa. Sabia bem aonde se iria parar, de concessão em concessão. Adolpho nada tinha de rígido, pois ele não se atinha ao trabalho, à faina de toda atividade, como se fosse algo intocável, um valor por si mesmo.
               Dessarte, tio Adolpho prezava o bom trabalho, porque, como dizia sempre, só através dele se chega a qualquer coisa que valha a pena. Ria dos vigaristas e dos malandros, porque eles - como dar-me-ía conta - aravam um terreno sáfaro e, se a  alguém iludiam,  era a eles próprios.
              Por isso, a mística de Adolpho podia parecer singela, mas não esqueçamos o que ela presumia em termos de esforço e, sobretudo, de objetivo.
               Adolpho não se fixava objetivos vazios, de oca vaidade. Em tudo que se empenhava, carregava uma senhora vontade. Dizia que só acreditava no trabalho. E se poderia até concordar com ele, desde que não se esquecesse de que a sua idéia do trabalho ía muito além do dever rotineiro,  que toda profissão envolve.
                Para ele, o trabalho tinha a sua mística, que, no entanto, somente por uma interpretação que era própria dele, ajudava a entender o quão longe essa labuta poderia levá-lo.

                Mas isso é tarefa para os próximos blogs.  

Hillary e os problemas de Trump

                           

       Os últimos percentuais da campanha presidencial americana indicam 45% para Hillary e 39% para Trump.
       Terminadas as primárias, os dois candidatos se preparam para as respectivas Convenções, a de Filadelfia, relativa aos democratas, e  Cleveland, que concerne aos republicanos.
        Como tem sido a característica geral, as convenções já têm os respectivos candidatos escolhidos. Ambos os partidos ainda não escolheram os vices, e por enquanto é apenas um jogo de adivinhação.
         Hillary está passando em revista os possíveis vices. É um trabalho que tem envolvido boa parte de seu staff. Se podemos resumir a prescrição da candidata democrata, o seu segundo (as mulheres estão excluídas por óbvias razões) terá de somar com a cabeça de chapa, ser de preferência relativamente jovem, e proveniente de estado que possa ser útil para a votação global de Hillary. Além de ser simpático e integrado, carece de ser um bom subchefe na chapa democrata.
         Enquanto a campanha de Hillary procura ser um relógio,  afastado aparentemente o principal incômodo, resta outra função de importância na próxima Convenção. Trata-se de neutralizar - enquanto tal seja possível - Bernie Sanders. Vale dizer, encontrar um nicho para Bernie Sanders, de modo a integrá-lo no esforço dos democratas. Tudo isso, é lógico,  na medida da possibilidade que uma personalidade como o independente Senador por Vermont seja suscetível  de adaptar-se a uma posição ajustada na equipe democrata ora vencedora.
          Não pode haver maior contraste entre os times de Hillary Clinton e de  Donald Trump. Enquanto aquele se assinala pela ordem e a não-improvisação, o do republicano, conforme as próprias características sui generis, é quase o oposto.
           Agora, a imprensa revela que os fundos de campanha de Trump estão muito baixos  - neste junho possuía em dinheiro US $ 1.3 milhão, que como assinala o New York Times é montante que pareceria mais próprio para uma candidatura a deputado na Casa de Representantes...
           Já Hillary levantou US$ 28 milhões em maio, e teria hoje cerca de US$ 41 milhões. A equipe do republicano tem setenta pessoas, e a de Hillary, cerca de setecentas...
           Também os orçamentos nas campanhas de anúncios para a televisão põem a nu esta enorme disparidade em termos de dinheiro. 
             Em blog anterior, se havia notado, como se fora falha na administração da campanha de Trump, que os ataques de Hillary pela tevê (verberando o temperamento do candidato do GOP, as suas declarações absurdas e o seu incrível deboche e zombaria contra  reporter com defeitos físicos) tenham ficado sem resposta. Agora se verifica que Trump não tinha outra saída, senão não reagir aos anúncios agressivos de sua rival. Pois, faltava-lhe a erva necessária para responder às críticas da direta rival...
             Para somar-se a esta situação caótica,  Trump demitiu recentemente o seu chefe de campanha, Corey Lewandowski. Este tinha procurado tornar qualidade uma situação de carência. Temos de ser mais eficazes, mais eficientes, por sermos mais magros, dizia.
            Forçado pela situação, Donald Trump depende mais em termos de fundos do Comitê Nacional Republicano.  Por isso,os republicanos acreditam poder compensar a partida tardia de Trump em termos de fundos de campanha. 
              Por enquanto, contudo, são os democratas que estão liderando na coleta de dinheiro para a campanha. E o próprio Trump se encarrega de confundir as bolas.  Na campanha, ele se mostra disposto a pagar do próprio bolso as despesas, o que absolutamente não facilita o trabalho de seus auxiliares, que vão bater à porta de ricos republicanos, para pedirem cheques de seis dígitos.
                Depois de ouvir que o candidato Trump  vai pagar do próprio bolso,  é difícil para esses ricaços entenderem o porquê de  os ajudantes de Donald  virem pedir-lhes polpudas contribuições...

( Fonte:  The New York Times )

             

segunda-feira, 20 de junho de 2016

E se Ela escapar ?

                                    

         Parece até brincadeira... mas se for, será uma de muito mais gosto. Já me tinha referido ao sistema disfuncional de impeachment adotado pela legislação brasileira. Decorrência de um atraso de mais de meio século, em que a lei complementar desse processo constitucional date dos anos cinquenta (do século passado!), feita sob outra Constituição, já de muito enterrada por um golpe militar, não há de surpreender que a legislação vigente para o dito processo se assemelhe a um verdadeiro Frankenstein ...
         Em blog já me havia referido a outra idiossincrasia do vigente processo de impeachment, que vigorou para livrar-nos da presidência de Fernando Collor, e que está em aplicação para supostamente determinar o afastamento definitivo da Presidente Dilma Rousseff.
         No entanto, o governo interino do vice-presidente Michel Temer segue aos trancos e barrancos, tendo que livrar-se de uma série de ministros que caíram na engrenagem da Lava-Jato. Não é só o cordão dos puxa-sacos que cada vez aumenta mais. Vários ministros já foram demitidos ou se exoneraram porque havia propinas no seu passado.  O próprio presidente interino se vê no campo de tiro da metralhadora giratória do delator-mór da República, o peemedebista Sérgio Machado. 
          Ele não titubeou em  negar que houvesse pedido propina para a candidatura a prefeito de Chalita, e o fez com a dignidade que costuma vestir as próprias declarações.
           Mas como dizia o personagem de Beaumarchais, que recomendava o desbragado recurso à calúnia: "Sempre fica alguma coisa..." Será? É a pergunta que insiste em colocar-se.
           Por todos esses sacolejos e eventuais tropeços, não surpreende que principiem a surgir dúvidas entre os senhores senadores. Surge um bloco de indecisos... E volta a haver dois polos.
            Em blog anterior reportei-me ao procedimento análogo adotado nos Estados Unidos. Mas convenhamos, na sua brevidade oitocentesca - que, decerto, algumas emendas posteriores vieram engordar um pouquinho - a Constituição americana trata a questão do impeachment de uma maneira assaz mais breve e mais... inteligente.
             Repitamos um processo bastante recente. O GOP queria porque queria derrubar o popular presidente democrata Bill Clinton. Razões foram encontradas, mas o procedimento constitucional nos States difere do nosso. A coisa, por complicada que seja, é tratada de uma forma mais simples do que a nossa: a Câmara dos Representantes vota se o Presidente deve ou não ser julgado pelo Senado. Nesse processo, a maioria se pronuncia favoravelmente ao julgamento. O Senado então julga, e por maioria de votos, o presidente Clinton não sofreu o impeachment. Agora, se a maioria fosse pelo impeachment, o presidente seria afastado de forma definitiva.
                 Em Pindorama, o processo de impeachment pode ser um convite ao que está agora sucedendo. Uma presidenta desmoralizada é afastada por larga maioria de votos, mas ao invés de entrar em funções um novo governo, se instala um presidente interino, sob o pretexto de que o Senado ainda carece de mais tempo para decidir se a presidenta deve ser ou não afastada definitivamente.
                   Não é necessário ser  grande conhecedor  da natureza humana, para ver aí a velha burocracia vigente na península ibérica, e por infeliz herança, entre nós, para de  forma inequívoca tornar a refazer o processo, a pretexto de informar-se mais sobre os erros da presidente afastada.
                     Através desse sistema complicamos o que é simples, e o que é pior, damos oportunidade a quem é vista como uma das mais disfuncionais presidentes, com uma popularidade abissal que rivaliza com a de Collor e a de Sarney, a ter oportunidade de voltar depois de todo o mau governo (inflação nas alturas, largo desemprego e os tombos na ética) - como é que ficaríamos depois, com uma presidenta disfuncional, desprovida de qualquer condição de governar? 
                      Tudo isso pode ocorrer porque um grupo de senadores que se crêem muito espertos farejaram que os tropeços do Governo interino de Michel Temer lhes dão a oportunidade única de leiloar quem deva ser presidente na Terra da Santa Cruz.

                       Não seria comovente? E quem acredita que Dilma Rousseff teria condições de governar ?

domingo, 19 de junho de 2016

Depois das Primárias


           O candidato Donald Trump continua a preocupar a hierarquia do GOP. Vencedor nas primárias, a ponto de forçar o seu mais direto rival, como foi o caso do Senador Ted Cruz, a renunciar, Trump continua a tomar atitudes pouco consentâneas com as de um candidato de grande partido, como é o seu caso.
           Além de referir-se de forma negativa como 'mexicano' a  juiz americano, Trump tem levado grandes nomes do GOP a reconhecer o próprio desconforto com as suas assertivas. Assim, o atual Speaker da Câmara de Representantes, Paul Ryan,  que é uma das primeiras figuras na hierarquia republicana, não deixou de assinalar o seu desagrado com posições do candidato Trump.
           Por outro lado, ele tem demonstrado certo descuido no que tange aos anúncios negativos colocados pela campanha de Hillary contra ele, os quais tem ficado sem resposta.  Tal revela, pelo menos, certa desorganização na sua campanha, pois norma básica da política é não deixar sem resposta a propaganda negativa de sua provável adversária.
           Por sua vez, o adversário de Hillary nas primárias democratas, o Senador Bernie Sanders, além de ter feito uma campanha agressiva contra a candidata, até o momento se tem abstido de apoiar Hillary como candidata do Partido Democrata.
           Como a campanha das primárias democratas também já terminou - e Hillary teve quinze milhões de votos contra doze milhões do Senador por Vermont -, inclusive com a vitória da democrata na Califórnia, é difícil saber qual a razão que leva Sanders a abster-se de patrocinar a candidatura de Hillary.  Tal de resto é o que se pratica, como foi o caso de Hillary, em 2008, em que ela reconheceu, contrariando o próprio marido Bill Clinton, a vitória de Barack Obama nas primárias (antes que essas terminassem).
           Por outro lado, como Hillary já dispõe do número de delegados suficiente para dar-lhe a nomination - e portanto o seu rival não tem mais condições de barrar-lhe a candidatura - a pergunta que se coloca é porquê Bernie ainda lhe recusa o endosso. Será que pensa que ainda possa impor-lhe condições?...
           Hillary além de ter o apoio e o endosso do Presidente Obama, mostra vantagem sobre o seu adversário republicano Trump, vantagem essa que ora está por volta dos dois dígitos.
           Vários nomes prestigiosos no Partido Democrata já lhe concederam o próprio apoio, como a Senadora  Elizabeth Warren, de quem se havia até falado de uma possível candidatura sua pelos democratas.

( Fonte: The New York Times )

sábado, 18 de junho de 2016

Lembranças de meu Tio Adolpho (XVI)

                  

         O que os franceses chamam la campagne  não fica assim tão longe de Paris. Mal desapareça a grande cidade, e eis-nos na campanha. Naquele começo de tarde, seguindo os que conheciam o caminho, eu levei meus tios Lucy e Adolpho para um restaurante então bem cotado, e que se chama Le Coq Hardi. Ficava não tão perto da Cidade-luz, e por isso conservava o seu galhardão de campagnard; mas tampouco dela se afastava demasiado, para não desencorajar a vinda dos que lhe apreciassem a cozinha.
         Era um fim de semana, e o tempo primaveril colaborou para aquele encontro que reuniu muitos brasileiros e algumas francesas. Seguindo alguém que conhecia o caminho - era a primeira vez que vinha - não tardamos em dar com o restaurante.
          Muitos reconheceram Lucy e Adolpho, e logo nos sentamos em mesa redonda, onde couberam umas oito pessoas.
          Em nosso grupo estava o ator Jorge Dória. A cozinha nos pareceu muito boa, e a qualidade dos pratos costuma realçar-se ainda mais, se o vinho é francês e corre à vontade pelos alegres comensais.
          À minha volta, via como os humores respondiam à atenção dos garçons. Sabedor que tinha pela frente estrada estreita e sinuosa, como eram os bons caminhos vicinais de antanho, tratei de proteger a minha taça, para que não lamentasse depois alguma surpresa menos benvinda causada por aquela interesseira profusão.
           Esta é a sina dos providentes. A avinhada alegria tomara quase todas as mesas. Meus tios tinham o riso mais frouxo, porém o freio de mão da prudência os tinha induzido a ingerir do bordeaux sem o abandono de outros conhecidos.
            A horas tantas, em que as garrafas escasseavam, cresciam os decibéis do riso em meio aos convivas. Aproximou-se então do ainda jovem Jorge Dória madame francesa a quem aquele vinho encorpado parecia ter cortado os liames de esquecido recato. Não demorou muito, que Dória, com o seu jeitão histriônico, exclamasse: 
"ela acaba de me passar um torpedo !"
             A senhora, para mim na faixa das cinquetonas, não se deu por achada. A abordagem falhara, mas ela parecia lamentar menos o tropeço na conquista, do que o gesto mal-educado em pregar peça a alguém mais experiente...
                 E são assim as memórias. Guardam apenas o essencial: a beleza da campanha, em dia de sol e céu azul; a alegria daquela gente no restaurante famoso; o bom vinho francês, e as surpresas que ele pode aprontar.
                  Mas hoje, onde estará toda aquela ruidosa gente?
                  Dos desconhecidos, não há nada a dizer.
                  Mas daqueles conhecidos,
                  estão todos deitados,
                  dormindo profundamente.

( Fonte:  Manuel Bandeira, Vol. 1, Poesia,  Profundamente, p.211. )

  

Colcha de Retalhos D 26

                                 

Suspensão da Rússia das Olimpíadas


       Em decisão inédita, a WADA (Agência Mundial Anti-doping) suspendeu toda a representação atlética da Federação Russa às Olimpíadas do Rio de Janeiro.
       Tal se deveu às numerosas queixas e instâncias em que se determinara o uso indiscriminado de doping para incrementar a performance de seus atletas. O único fato similar de que se tem notícia foi o da antiga RDA (República Democrática Alemã), vale dizer a Alemanha comunista, que com a recente reunificação alemã desapareceu do mapa.
       No entanto, se a RDA sofreu penalidades, não  foram com a amplitude aplicada à Rússia de Vladimir Putin, que não tem precedente.
       A Federação Russa entrou com recurso, mas se estima pouco provável  que a penalidade seja rescindida.
        Não surpreende, decerto, que seja aplicada tal inédita suspensão à Rússia. Foi, contudo, o largo emprego de substâncias proibidas - não só por alterarem os resultados, senão e sobretudo por prejudicarem os atletas -, assim como as tentativas de intimidação das agências de controle, que levaram a instância internacional a essa inédita suspensão.
       Dado o comportamento do respectivo governo, infelizmente isso não constitui surpresa.


Decretação de Calamidade Pública

 

        Em medidas combinadas com a autoridade federal, o governo estadual de Francisco Dornelles, governador em exercício pela enfermidade do titular, Pezão,  decretou estado de calamidade pública, sob a válida alegação de que a crise financeira ameaça compromissos olímpicos e poderia levar ao colapso de serviços essenciais.
        Diante disso, a União vai liberar R$ 2,9 bilhões para o Rio de Janeiro. Tal quantia permitirá a conclusão da Linha 4 do Metrô, assim como pagar os atrasados salários e horas extras de policiais.
           A medida em apreço vai permitir ao Estado reequilibrar as finanças e pegar empréstimos com bancos federais. Se não dispusesse de tais recursos extraordinários o Estado, inadimplente,não poderia reequilibrar as finanças e tomar empréstimos com bancos federais, sem ferir a lei.
           Com a queda nos royalties do petróleo, a principal renda do Estado sumiu. Por isso, entende-se  por que o  governador em exercício Dornelles afirme que tomará "medidas duras". E a própria Firjan concorda em que amplo reajuste se fará imprescindível.


Determinação providente mas tardia
             

             O presidente interino, Michel Temer, diante dos estragos em seu ministério provocados pela Operação Lava-Jato, determinou que todo o primeiro escalão do Governo seja consultado. Quem tiver envolvimento com irregularidades deve pedir para sair do Governo.
              O próprio Mendonça Filho caíu na rede. Deputado federal pelo DEM em Pernambuco, é o Ministro da Educação, e terá recebido cem mil da UTC para sua campanha a deputado federal. O Procurador Janot vê indício de propina.
              Por outro lado, em reunião, Temer declarou que o seu Governo tem como prioridade zero que a Lava-Jato chegue do Governo.  E ao Palácio do Planalto, nem se fala. A diretriz dada na  reunião  foi a de que  quem tiver qualquer envolvimento peça para sair.  'Se não sair, será saído.'
              Na reunião realizada no Planalto, os peemedebistas demonstraram preocupação diante da delação de Fábio Cleto, que acabou atingindo Henrique Alves e o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha. Segundo fonte do governo, há citação a Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo).
               De acordo com avaliação do Governo, não foram só as 'pedaladas fiscais' que levaram ao afastamento da presidente Dilma Rousseff, mas, sobretudo, a circunstância de as investigações terem chegado ao Palácio do Planalto, afetando os ex-Ministros Edinho Silva (Comunicação Social) e Jaques Wagner (Casa Civil).
               Os Catões estão em falta. "É muito difícil arrumar um ministro que não dê problema" - reconhece um interlocutor de Michel Temer...


Atrasos do SUS

              Os atrasos no Sistema Unificado de Saúde (SUS) não constituem surpresa para os eventuais atendidos pelo Sistema.  Como se noticia, lei  sancionada em 2012 prevê o atendimento do servidor no prazo de sessenta dias. Sem embargo,  de acordo com notícia da Folha, quatro em cada dez pessoas atingidas pelo câncer devem esperar mais do que sessenta dias  para serem atendidas pelo dito SUS.
               Nesse sentido, os especialistas consultados confirmam o óbvio. A demora no atendimento pode agravar a situação do paciente.


O Estupro dos 33

                
                 Uma adolescente de dezesseis anos foi vítima de um estupro  no passado mês de maio, numa favela da zona oeste do Rio de Janeiro.  Tratou-se de um estupro coletivo, em que teria havido a participação de 33 homens, segundo o depoimento da  menina.
                  Um primeiro inquérito levará a delegada Cristiana Bento, da Delegacia da Criança e Adolescente Vítima, a pedir a prisão de seis homens e a apreensão de um adolescente menor de idade.
                   Como a vítima falou de 33 pessoas no estupro coletivo e  não essas sete, um novo inquérito será aberto para verificar se houve participação de mais pessoas na violência.
                    Há dois videos em causa.  Num, de  38 segundos, um grupo de quatro homens debocha da vítima e pelo menos um dele toca nas partes íntimas da garota.  O segundo vídeo, obtido pela polícia,  mostra novas cenas do estupro da jovem. Neste ela aparece reagindo ao estupro e negando contato sexual.
                      A perícia da polícia não consegue definir a ordem de produção dos citados vídeos. Nesse sentido, a polícia pedirá a prisão do traficante Sergio Luiz da Silva Júnior, o Da Russa, chefe do tráfico no morro da Barão (sic). A casa conhecida como "abatedouro"  fica diante da sede do tráfico na comunidade.
                       Segundo assevera a delegada do caso: "A vítima, em depoimento, diz que encontrou com Da Russa na porta da casa quando deixava o local. É impossível que algo ali acontecesse sem que ele soubesse. Ele tem o domínio final do fato."
                          Dos sete indiciados, dois estão presos: Raí e Raphael. Eles negam que tenham praticado o estupro.  Em dois depoimentos, Raí diz que fez sexo consensual com a adolescente e confirma que o aparelho celular seja dele. Já Raphael nega que haja divulgado a imagem."
                 
                      
( Fontes:  O  Globo; Folha de S. Paulo )