quinta-feira, 25 de abril de 2013

Quem tem medo de José Dirceu ?

                             
        De autoria de obscuro deputado do Piauí, Nazareno Fonteles (PT), a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que deveria ser a mais prestigiosa da Câmara, e que conta entre seus insignes membros dois mensaleiros condenados pelo STF – José Genoino (PT/SP) e João Paulo Cunha (PT/SP) – aprovou sem discussão o projeto de PEC, que  na atual saraivada de PECs (proposta de emenda constitucional) é a de número 33.
        Segundo Merval Pereira, de O Globo, os ‘aloprados’ atacam. Muitos vêem nessa investida o dedo de José Dirceu, que, pelo visto, não se confina aos embargos infringentes, os quais, à maneira das velhas cargas da cavalaria ligeira, surgem do lugar nenhum para livrar os acossados colonos invasores do ataque insidioso dos perversos indígenas (que tentavam preservar as próprias terras).
        Realmente, se todo esse fogo amigo se deve ao bom comissário Zé Dirceu, é coisa de tirar o chapéu. Pois essa PEC-33, aprovada no único dia laboral do Congresso (a quarta-feira !) em sessão pro-forma da CCJ, com a presença e a fala dos dois mensaleiros e também do deputado por São Paulo Paulo Salim Maluf, é um acinte jurídico, parente do outro projeto que almeja emascular o Ministério Público (a famigerada PEC-37).
       A Câmara de Deputados quer impingir à Nação essa emenda constitucional que atenta contra o equilíbrio dos poderes. Chega até a determinar que decisões do Supremo de editar súmulas vinculantes (os documentos que orientam os subordinados órgãos do Judiciário a pautar suas decisões futuras sobre temas decididos pelo plenário do STF) devam ser referendadas pelo Congresso! Este blog, como o leitor há de ter presente, reivindica há muito  súmula vinculante para a questão da censura, que continua a ser imposta por sentenças inconstitucionais de juízes singulares e até de tribunais de alçada). 
       Além disso, se este aleijume constitucional fosse aprovado, decisões do STF de declarar inconstitucionais emendas à Constituição teriam de ser submetidas ao Congresso.  Adentrando fundo na competência do Supremo, o Congresso elevaria para quatro quintos (nove votos) o total requerido de votos para pronunciar a dita inconstitucionalidade, que hoje é de seis votos (a maioria absoluta)  para ela e de oito  para a súmula vinculante.
       Entraríamos em um assemblearismo selvagem, que é justamente o oposto da autonomia dos poderes, resguardada do descontrole como no sistema introduzido pela Constituição americana. É patética tentativa  (na palavra do colunista Merval Pereira) de fazer retroceder a História, eis que a ‘Polaca’, a constituição elaborada sob medida pelo jurista Francisco Campos (o  Chico Ciência) para o Presidente Getúlio Vargas dava ao Primeiro Mandatário o poder de cassar decisões tomadas pela Corte Suprema, além de confirmar a constitucionalidade de leis derrubadas pelo STF.
      A forte reação dos membros do Supremo – para o Ministro Marco Aurélio Mello a proposta seria uma retaliação à Corte, enquanto Gilmar Mendes usou a expressão ‘tenebrosa’ ao se reportar ao tema.
       Dada a iminência de conflito entre os Poderes, em boa hora o Presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB/RN) declarou, no final do dia de ontem, que é preciso buscar o diálogo com o Judiciário: “Essa Casa não quer conflito”.

    

( Fontes:  O  Globo,  Estado de São Paulo, Folha de S.Paulo )     

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O Imbroglio Sírio

                         
          Como se fora possível deixá-la dormitar além das fronteiras da Síria, a guerra civil naquele país, se continua a dilacerar a população, parece goza de uma falsa trégua branca no noticiário internacional.
          Seria como se as potências ocidentais se houvessem entediado, senão com a obstinada resistência do regime alauíta, mas com a continuada empresa da Liga Rebelde de derribar a tirania de Bashar al-Assad.
          As notícias,quando porventura aparecem, são em geral consignadas às páginas internas tanto dos jornais, quando da atenção da comunidade internacional. Esse inquietante desenvolvimento aproveita mais aos vilões nesta longa saga, do que ao povo sírio que, na sua grande maioria, deseja livrar-se de Bashar e de seus amigos.
         Dentro da tradição de Saddam Hussein, não fará muito surpresa a notícia de que Damasco se tenha servido de armas químicas. Não há recurso mais cruel e vilipendiado pela comunidade internacional do que este.
         Do  vizinho governo de Israel nos chega a acusação de que o governo da Síria  empregou – e mais de uma vez – armas químicas no passado mês de março. Consoante o general Itai Brun, encarregado-chefe de pesquisas na repartição de inteligência do Tsahal, “o regime vem empregando cada vez mais armas químicas”. Além de reiterar asserções já feitas por Reino Unido e França, Brun aduz: “O próprio fato de que eles recorreram a armas químicas sem (colher) qualquer reação constitui um desenvolvimento  preocupante, pois pode sinalizar que (tal uso) seja legítimo.”
         As declarações do general Brun, feitas em conferência de segurança em Tel Aviv, representam a expressão mais categórica por autoridade israelense quanto ao emprego de armas químicas nos arredores de Aleppo e Damasco, a dezenove de março último.
         Malgrado a circunstância de que a Administração Obama haja declarado que o uso de armas químicas constitui linha vermelha que acionaria a intervenção americana no conflito, Washington preferiu manter a sua atitude de cautelosa espera.  A razão para tanto é que faltariam às acusações (tanto de Israel, quanto de Londres e Paris) dados físicos concretas. Com efeito, a prova irrefutável só pode ser dada por elementos físicos, coletados no local.
          Depreende-se que fica bastante complicado ter absoluta certeza – a despeito das evidências acessórias – se o Governo de Damasco recusar a entrada de equipe das Nações Unidas para obter o material. Na verdade, a boa-fé síria semelha mais do que questionável, pois, dadas as aparências Damasco deseja que o lado rebelde seja investigado, e não as forças de Bashar...
          Entrementes, se arrasta no seu terceiro ano o que começara com pacíficas manifestações de rua. Dada a brutal e estúpida reação do regime alauíta,  o solitário registro feito por refugiado sírio[2] na Inglaterra já superou os setenta mil mortos. A irresolução do governo Barack Obama que, por motivos díspares, se tem recusado sistematicamente a auxiliar mais diretamente o lado rebelde, ao contrário da Federação Russa, de Vladimir Putin, e da Teerã, dos ayatollahs.  Enquanto houver esperança para a ditadura do bom Bashar, tais regimes continuarão a apoiá-lo. Não o fazem por bondade ou pelos belos olhos de Bashar al-Assad. O Kremlin quer continuar a dispor de sua base naval de águas quentes, no Mediterrâneo Ocidental, além de recuperar todos os rublos que tem vertido no caixa sírio. Por sua vez,  Ali Khamenei não pode sequer  visualizar o isolamento político que o próprio regime sofreria com a queda do poder alauíta.  E Nasrallah, do Hezbollah tampouco quer admitir tal desventura, que enfraqueceria os xiitas do Líbano e adjacências, com resultados imprevisíveis.
            Entrementes, Barack Obama pede mais provas para intervir na velha Síria. Não lhe bastou no passado a recomendação dos Departamentos de Estado e da Defesa, além da CIA. A sua irresolução será bem acolhida pelos ‘amigos’ de Damasco, enquanto o Exército Rebelde Sírio tem de satisfazer-se com a ajuda de Arábia Saudita, Qatar e remessas de armamento da Croácia.
            E, no entanto, a segunda Administração Obama não está em posição de desdenhar maior presença no campo tanto externo, quanto interno.  O Presidente, como assinala Maureen Dowd, colunista do New York Times, depois de ganhar a batalha junto ao povo americano pela motivação no controle das armas, por falta de empenho ou de proficiência, deixou que uma primeira reforma para evitar tragédias futuras, como a de Connecticut, naufragasse no Senado americano. É difícil crer que a NRA (Associação Nacional de Armas) tenha tanto poder assim... Lyndon Johnson não deixaria escapar uma tal oportunidade...

( Fonte:  International Herald Tribune )   



[1] Italiano. As principais acepções, segundo o Zingarelli são: enredado, complicação, questão confusa e difícil.
[2] Rami Abdul Rahman, valendo-se da mais simples tecnologia da internet, mantém em Coventry, na Inglaterra, o registro das baixas do longo conflito. E o faz na prática quase sozinho.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Trincheiras da Liberdade (II)

                                           
          O julgamento de Aleksei Navalny não se realiza na província de Kirov por acaso. Qualquer sugestão para Vladimir Putin trazê-lo para Moscou correria o risco  de merecer-lhe aquele rasgado sorriso de desdém que o caracteriza. Gospodin Putin sabe que, ao submeter o blogueiro Navalny a um processo criminal,  fundado em falseadas provas de suposto desfalque, o que importa é o pretexto para obter a condenação, e não determinar a verdade. Como assinala Bill Keller a inanidade das acusações contra Navalny fora determinada por firma advocatícia de Chicago.
         Se tal não bastasse, as autoridades locais realizaram ampla investigação e concluíram que nenhum crime havia sido cometido. Sem embargo, o Comitê de Investigação Federal não se pejou de – sem nada acrescentar à documentação apresentada – incriminar Navalny pelo furto de madeira em valor acima de quinhentos mil dólares.
         Tampouco ajudou ao blogueiro a circunstância de haver exposto recentemente o fato de o chefe do Comitê de Investigação, Aleksandr Bastrykin, ser detentor de visto de residência e de propriedade imobiliária na República Checa. Como o governo de Praga é membro da OTAN, tais circunstâncias expõem Bastrykin à ameaça de chantagem, além de colocar em dúvida a sua fé no regime russo.
         Não há dúvida, segundo sublinha Keller, quanto à importância do processo. Até o presente, Putin se tem servido do sistema judiciário russo para implementar a repressão política. Persegue os antagonistas através das cortes penais (taxa de absolvição: 0,4%): o ex-amigo Mikhail Khodorkovsky, e ex-czar de agência petrolífera,  ainda na prisão, no curso da segunda sentença; Sergei Magnitsky, o advogado defensor dos direitos humanos, que morreu por maus tratos e negação de assistência médica no cárcere; e o juízo das moças de Pussy Riot, que sublinhou a falta de espírito do presidente, se ele é o objeto da sátira.  Não há dúvida que o pendor para déspota de Vladimir Putin se tem evidenciado, mas o seu comportamento não o habilitaria  a apresentar-se como  déspota esclarecido.  
           Putin acaso enfrenta riscos nesse julgamento ?  Em relação aos alvos anteriores, não há negar a magnitude e a popularidade de Aleksei Navalny. Por isso, o presidente não traria o caso para a capital, porque o imponderável – que existe sempre – aumentaria deveras, mesmo dentro de um processo manipulado como o atual.
           Quanto ao perigo que correria Putin ao incrementar a sua ‘solução judicial’, vale dizer dispor de seus adversários por meio de um dócil sistema judiciário – o que o colocaria no nível de Aleksandr Lukashenko,  o presidente-vitalício da Bielorrússia – tal me parece assaz discutível, dada a exponencial diferença relativa em termos econômicos e políticos da Federação Russa. 
           O destino de Vladimir Putin, como de outros tiranos, sói ser decidido pelo próprio povo. Enquanto mantiver o domínio dos meios de comunicação e do Legislativo – sem falar é claro do Judiciário – o mais provável é que continue a ser persona grata nos diversos conciliábulos do Ocidente. Quanto ao Oriente, não creio haver problema com o magno vizinho da República Popular da China, onde a democracia não semelha representar  prioridade urgente.  A propósito, o pobre Liu Xiaobo, Prêmio Nobel da Paz 2010, continua numa masmorra do fundo interior chinês, enquanto sua esposa Liu Xia, goza de prisão domiciliar não-declarada. Tudo isso por haver defendido uma hiper-moderada reforma política pela Carta 08.

 

( Fonte:  International Herald Tribune )    

    

         

Decadência do Rio & etc.


 O ‘ponto facultativo’

            Este artifício da burocracia estatal não é decerto mazela exclusiva do Rio de Janeiro. Se tal hipocrisia do poder  fosse um fenômeno a ser inserido sob o transparente manto do “para inglês ver” pareceria  discutível, mas que é aparentada com aquela criação do século XIX, na época da supremacia inglesa, não creio subsistam dúvidas.
            O ponto facultativo é a fórmula envergonhada do meio-feriado. Sua realidade, no entanto, corresponde a outra ordem de coisas, que tem a ver com o reino das aparências. Assim como não há meias-virgens (falando de tempos passados em que tais truques semelhavam indispensáveis ou necessários), que me permitam as autoridades, tampouco existe o ponto facultativo.
           Aqui no Rio de Janeiro, as administrações estadual e municipal dele têm, no que concerne aos atuais titulares, marcada memória. Na eleição anterior para prefeito, Fernando Gabeira foi para o segundo turno contra Eduardo Paes, o candidato do Governador. A luta prometia ser renhida e Sérgio Cabral tirou da cartola um providencial ponto facultativo. Criar para os funcionários do Estado a miragem de  longo fim-de-semana foi a poção milagreira de uma vantagem apertada para o aliado Eduardo, pois Cabral sabia não ser idolizado pelos funcionários estaduais. Tal artimanha se acha no domínio dos instrumentos discutíveis, mas ela não foi contestada.
          O Globo de hoje noticia sobre o ‘ponto facultativo’ de ontem, e a insuficiência dos plantões para atender, nos postos médicos da Prefeitura, à procura de atendimento motivada pela epidemia de dengue e a campanha de vacinação.
          O feriado hodierno se deve à demagogia do antecessor de Eduardo Paes. Seus efeitos na economia já são conhecidos, e o Rio de Janeiro deve muito de sua decadência à proliferação desses feriados, dos pontos facultativos e das notórias pontes, que, no caso, ligam o absenteísmo com a malandragem.
          Tratando-se de um inventado feriadinho municipal, não teria sido o caso de evitar-se a ponte, diante da óbvia necessidade do povo carioca ? Ou será que mesmo nesta hipótese o medo de contrariar os funcionários à cata de mais outro feriadão sobreleva a tudo, mesmo campanhas de vacinação e epidemias de dengue ?

 
Os Embargos Infringentes    

 
         Desconhecidos para o comum dos mortais, esses embargos não existem mais desde que a Lei 8.038, de 1990, regulamentou os processos nos tribunais superiores, e não os previu para o Supremo.
          Por causa da celeuma levantada no transcurso da Ação Penal 470, a do Mensalão, de uma hora para outra, eles viraram a tábua de salvação de diversos condenados pelo STF.
          O Presidente Joaquim Barbosa encontra-se nos Estados Unidos, onde é objeto de merecidas homenagens, posto que em Pindorama se alcem vozes discrepantes, inspiradas, quem sabe, pelo semblante amuado da Presidenta Dilma Rousseff com que S.Excia. marcou a sua presença na posse de Barbosa na presidência do STF.
         Merval Pereira, que tem boas fontes no Supremo, nos recorda particulares interessantes que podem nos reservar o post-Acórdão do Mensalão. Os “embargos infringentes” serão acaso reminiscentes daquelas aparições determinantes da carga da cavalaria ligeira ? Eis que, depois do longo e muito público julgamento, os ditos embargos podem mudar a condenação de nada menos que doze dos vinte e cinco réus em dois itens: formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.   
         Nesse contexto, quem mais teria a ganhar seria José Dirceu. Condenado a dez anos e dez meses, se for absolvido agora da acusação de formação de quadrilha terá dois anos e onze meses deduzidos de sua pena, o que lhe fará pegar o regime semiaberto, ao invés do fechado. Também se beneficiaria dessa mudança no tapetão judicial a condenada Simone Vasconcellos.
        Tudo isso pode ocorrer pelas aposentadorias de Cezar Peluso e Ayres Britto. Outro condenado – João Paulo Cunha tem vantagem ainda maior, eis que o placar que o condenou, de seis contra cinco (lavagem de dinheiro), já está empatado em cinco a cinco. O novo juiz, Teori Zavascki, indicado por Dilma, será o voto decisivo.
        Se a vitória da sociedade civil derreter-se em uma modificação substancial do veredito do Supremo na Ação penal 470, qual será a sua reação ? A de desencanto, se levar o desenlace à conta de o que costuma ocorrer em termos da punição, que se evapora ? Ou a de revolta,  por mais um logro ?

 
( Fonte:  O  Globo )     

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Rescaldo do Fim de Semana


       A  Cara Amiga de Lula

       Por insondáveis motivações a revista VEJA obteve acesso a uma sindicância oficial de Rose Noronha, a caríssima amiga do ex-presidente Lula. Os dados obtidos voam baixo, eis que não concernem o tráfico de influência, a formação de quadrilha e a corrupção passiva, pela qual a secretária do presidente foi exonerada do cargo em São Paulo (chefe da secretaria da presidência da república) e indiciada pela Polícia Federal.
       O calhamaço de 120 páginas produzido pela sindicância pode ser interpretado  como que dando acesso à opinião pública para visualizar a atuação de Rosemary, que encontrou diferentes e inventivas formas de desvirtuar as funções do cargo.
       A gentil secretária – sempre disponível nas viagens ao exterior do ‘PR’ (como referia a Lula em suas mensagens) quando D.Marisa delas não participasse – aliava as duas faces típicas desses personagens da intimidade do regime – arrogante e grosseira com os subalternos, à cata de mordomias e favores incidentais (carro oficial para tarefas privadas, resort ou cruzeiro de navio, quando não hospedagem em embaixada) e as várias gradações de simpatia, partida de quem era público e notório para os gerarcas do regime petista que se fundavam nos laços únicos, porém reais do favor presidencial.
      Repercutindo na imprensa, o furo de VEJA provoca supostos intentos da oposição de pescar em águas turvas, e aprofundar a delicada questão. Entre querer e conseguir, contudo, medeia distância considerável, máxime se se verifica a composição e a força das bancadas respectivas de governo e oposição.
 

D. Dilma teme o confronto nas urnas ?

       As bancadas da maioria se empenharam na passada semana, através dos recursos do poder, de ‘tentar cortar pela raiz – nas palavras do colunista Merval Pereira – a ameaça que vê na candidatura da ex-Senadora Marina Silva em 2014’.
       A despeito de sua atual larga vantagem sobre os demais putativos concorrentes, D. Dilma Rousseff não hesita em valer-se dos meios que julga válidos para assegurar-se um panorama favorável no próximo pleito, de que quer evitar a todo pano a eventualidade do segundo turno.
       Dentre os rivais – e existem muitos – os que mereceriam maior cuidado, ao ver dos inquietos olhos da  Primeira Mandatária, seriam o governador Eduardo Campos (PSB) e sobretudo Marina Silva (Rede).  É essa rede que o governo, apelando, que condenar à míngua, para obstaculizar a temida marcha de Marina para um eventual confronto de segundo turno.
       Não se sabe como Dilma chegaria a esse marco. Pairam sobre ela nuvens traiçoeiras, a começar pela própria incompetência em desatrelar os dragões da carestia, além de difundir sensação de desconforto (pibinho, faxina entregue às urtigas, empreguismo desvairado) no eleitorado. Daí o recurso para apelações e mudanças de regra de última hora ?  

 
Reeleição de Giorgio Napolitano

           O ex-comunista Napolitano tornou-se o chefe de estado mais idoso do mundo (87 anos) ao aceder para a eleição de um novo (e antes improvável) mandato, dada a manifesta incapacidade do colégio eleitoral italiano de pôr-se de acordo na escolha de seu substituto.
           A eleição para o posto quase cerimonial de Presidente na Itália constituía no passado ambição dos chefes políticos. Amintore Fanfani, por exemplo, um dos caciques da velha Democracia Cristã, teve barrada a sua eleição em dezembro de l971, por temores nas bancadas de que desse ao cargo uma tournure autoritária, por mais incôngruo e anticonstitucional que tal fosse nas décadas finais do século XX.
          Pelo resultado imprevisto dos últimos comícios, que deixaram na prática a Itália sem a possibilidade de formar um gabinete, o ancião Napolitano acabou por tornar-se a tábua de salvação da governabilidade na península. Não se supõe que pretenda exercer mais um longo mandato, mas sim o necessário para viabilizar a constituição de um novo gabinete (que precisa passar pelo Sila e Caribdis de Beppe Grillo, Berlusconi et al.).
           Não é decerto empresa para amadores. Talvez Napolitano tenha êxito aonde Pier Luigi Bersani, o líder do Partido Democrático ( esquerda unida), jogou a toalha. A verificar.

 

( Fontes:  VEJA, O Globo, International Herald Tribune )       

domingo, 21 de abril de 2013

Inflação mais quê ?

                                         

                O F.M.I. no passado mandava missões ao Brasil, então seu devedor assumido, para examinar, com suposta arrogância tecnocrática, o estado de nossa economia, enquanto colhiam compromissos das autoridades, compromissos esses que ambos sabiam – Fundo e ministros dos governos sucessivos – serem mentirosos, coisa para burocrata internacional ver e arquivar.
                Agora, em que por uma feliz sucessão de superávits, o velho Clark Kent brasílico saíu da cabine telefônica com as vestes de Super-homem, podendo até virar credor do FMI, a questão não é mais agitar o lenço do orgulho lulista e patrioteiro, despedindo como se fora para sempre, o espectro da missão de inspeção.
                Depois que assumiu o poder federal, das mãos e gesto comovido de seu criador, dona Dilma, decerto embalada pela petista certeza de que tudo continuará pelo melhor dos mundos,  não se dará conta que a temida peripeteia dos gregos – quando as coisas viram de ponta cabeça – pode tornar a visitar-nos.
                O último exame do FMI não é nada lisonjeiro com o governo Dilma Rousseff. Nos últimos três anos, nenhum avanço significativo foi feito para remover obstáculos à expansão do Produto Interno Bruto (PIB). Como se sabe, o baixo nível de investimentos é característica induzida pela Administração petista, que, em 2010, subira para as alturas de 7%, graças à escalada nas cotações dos produtos de base (commodities) e pela explosão dos investimentos.
                 Posto que esses ledos eventos não fossem da responsabilidade direta do governo, eis que eram precipuamente o efeito benfazejo de forças externas sobre as quais não tínhamos controle direto, ao manter sob Lula da Silva os balanços em regra o Brasil dispunha de condições favoráveis para valer-se dos bons ventos de além-mar.
                 Ao invés disso, Dilma enjeitou as reformas – quando poderia ter ousado, no discurso de posse – sem qualquer esforço seja no campo da política, seja no fiscal. Ao contrário de reforçar a economia, o seu incentivo ao consumo, com as desonerações fiscais, além de aumentar a inadimplência, envolveu a atividade fabril com véu mágico, eis que só a Presidenta e seus harúspices sabiam para onde iria o toque da varinha de condão. Disso – como bem assinalou Mailson da Nóbrega – só poderia advir a paralisia nas inversões dos empresários, não podendo adivinhar aonde cairia o maná da desoneração.
                 Se me permitem a comparação, dá a impressão de que Dilma prefere pulverizar a atividade industrial com suas tópicas benesses, do que moldá-la por reformas coerentes e abrangentes.
                 Talvez o problema do Brasil – e deixarei de lado o constrangedor terceiro-mundismo do gabinete ministerial que breve explodirá no simbolismo dos quarenta, ou a inútil sobrecarga de empreguismo desvairado, com o lastro inútil da inchação dos gastos correntes - esteja em haver esquecido a mensagem do governo de Juscelino Kubitschek.
                JK, com seu plano de metas, a que agregou a meta-símbolo, Brasília, jamais pensara em burocratizar o planejamento e a reforma. Foi por esta singela razão, que as suas programadas reformas saíram do papel, não para meter-se em gavetas, ou para engordar burocratas, como é hoje a prática.  
                 Elas se transformaram em realidades – do seu tempo, é claro – mas concretas. Ninguém irá negar a realidade da Belém-Brasília, da indústria automobilística – e do seu flamante ramo nacional (hoje extinto – quem se lembra do Aero-Willys, que rodava muito bem, obrigado, e cuja robustez podia salvar vidas) e de tantas outras benesses que, num exíguo punhado de anos, ele, um dos nossos maiores presidentes e democratas, teria de explicar para um punhado de arrogantes IPMs.
                   A desgraça ou a maldição para o Brasil foi que, mesmo sem razão, os governos verde-oliva e os sucessivos colheram a palma, transformando o que era vetor de progresso e de melhoria em geral, em um enorme ralo, a cargo de ‘n’ ministérios, na hipertrofia burocrática, que se pavoneia na Esplanada, esquecida da carga brutal de tributos e impostos, da qual se locupleta.
                   O contribuinte – que enxerga a corrupção crescer à sua volta – já se cansou de perguntar para onde vai todo o impostômetro. Ele aguenta as inanidades não só dos partidos grandes, médios e pequenos  mas também as  legendas de aluguel que vêm desrespeitar, não digo mais a privacidade do eleitor, mas a sua própria capacidade-limite de tolerar infindas e improváveis mutações ideológicas, importuná-lo, além de ofender-lhe a inteligência, com as suas ocas e cínicas promessas.
                   Talvez uma sugestão para ‘resolver’ os problemas e as mazelas do Brasil seria brincar com o relógio, e ao invés de antecipar na propaganda a mirífica realidade de reformas e  maravilhas prometidas, deixar para depois do três de outubro a sua efetiva realização, que de perene engodo ao cidadão havido como trouxa, se transmutaria no cumprimento da palavra e a concretização do esboçado sonho pós-pleito. Perderia o mandato no espaço de um ano o candidato mentiroso, pela simples causa de que não se deve iludir o eleitor.   

sábado, 20 de abril de 2013

Terroristas da Chechênia ?

                                              
                             
         A Chechênia, uma pequena república integrante da Federação Russa, na prática desde a dissolução da URSS luta pela sua independência. De maioria muçulmana, no sul do Caucaso, essa província tem sido mantida a ferro e fogo na Rússia, desde o governo de Boris Ieltsin,  menos pelo valor do respectivo território, do que pelo efeito disruptivo que a sua eventual secessão provocaria quanto a outras nacionalidades também sob o domínio de Moscou.
        A repressão na Chechênia, e a participação nela do sátrapa governista – que não é um herói em termos de respeito aos direitos humanos – tem provocado muitos atentados terroristas em Moscou e em províncias russas. Dentre esses, se insere o assassínio em outubro de 2006 da jornalista investigativa Anna Politkovskaya, abatida sob encomenda, no modesto saguão do prédio moscovita onde residia. O móvel do crime estaria supostamente  em suas revelações quanto a violações aos direitos humanos naquela infeliz república, embora até hoje sucessivos juízos não tenham individuado o mandante.
       Diante do comportamento integrado dos dois irmãos chechenos – os Tsarnaev emigraram com a família, via Quirguistão, para os EUA em 2002 – cerca alguma perplexidade a aparente incoerência do atentado terrorista contra a maratona de Boston e o comportamento pregresso dos dois irmãos.
        Tamerlan Tsarnaev, residente permanente nos EUA desde 2007, nascera em 1986, e se casara com Katherine Russell, americana de Rhode Island. Treinara sem sucesso para integrar a equipe olímpica de boxe, e também em 2009 foi detido por violência doméstica (agressão a uma namorada). Tornou-se devoto do Islã, e viajou de New York para Sheremetyevo, na Rússia, em 2012, onde permaneceu por seis meses. O FBI procura saber se recebeu alguma formação terrorista nesse período. Ao contrário do gregário irmão mais jovem, Tamerlan admitia não se ter integrado na vida americana: “não tenho nenhum amigo americano. Eu não os entendo”, disse a Johannes Hirn, autor de ensaio fotográfico da faculdade Bunker Hill, onde o irmão mais velho estudava engenharia.
        O temperamento do irmão caçula,  Dzhokar Tsarnaev, difere bastante. Simpático, alegre, e muito inteligente, estuda medicina na Universidade de Massachusetts em Dartmouth. Com dezenove anos, cidadão americano desde onze de setembro de 2012, ganhou bolsa de US$ 2,5 mil, doada a 45 estudantes promissores em Cambridge, onde se formou em 2011, no ensino médio. George McMasters, diretor de esportes aquáticos de Harvard, contratou Dzhokar como salva-vidas por dois anos e meio. O ex-fuzileiro naval – empenhado na busca de terroristas no Iraque – nunca levantou qualquer suspeita contra o rapaz: ‘Sempre na hora, atento e sem problemas com os outros salva-vidas’.
        No quarto dia da caçada da polícia de Boston, junto com o FBI, as forças da ordem se teriam visto com a dupla individuada pelas câmeras de segurança, que se tornara a maior ameaça ao país desde os ataques de onze de setembro de 2011.
        Na madrugada desse dia dezoito, a perseguição teria chegado aos irmãos Tsarnaev.  Na troca de tiros, Tamerlan, de 26 anos, morrera (o policial Sean Collier teria sido morto antes pelos irmãos), e Dzhokar, ferido, lograra escapar.  Em carro roubado, Dzhokar conseguiu furar o cerco, e se refugiou em quintal de casa em Watertown.
        A perseguição foi retomada quando o dono dessa casa, Edward Davis, após descobrir o ensanguentado Dzhokar escondido em um barco, denunciou o fato às autoridades.  Horas depois, a operação – com contornos hollywoodeanos – chegava ao fim, com a prisão do suspeito nr.  dois.
        O Presidente Barack Obama saudou o fim da busca e cumprimentou as forças da ordem pelo dever cumprido.
         Sem embargo,  tempo passará até que todas as dúvidas sejam dissipadas. Se o irmão mais velho, Tamerlan, tem perfil que pode encaixar-se como o suspeito nr. 1, o que dizer do simpaticão irmão caçula, Dzhokar ? Que interesse e motivação poderia ter?
         E com respeito aos indícios juntos pela polícia para individuar os suspeitos ? Onde estaria escrito ou sinalizado que os dois estavam a fim de desestabilizar a maratona de Boston ? Qual o propósito da dupla ? Se o inadaptado Tamerlan pode encaixar-se como candidato, que dizer de Dzhokar, com exitosa vida pela frente, e, sem embargo, de repente entrando às cegas em tresloucado plano terrorista ?
         Se a opinião pública tiver acesso à versão de Dzhokar – não importa qual – pode ser que o quebra-cabeças venha a ser montado a contento.
         Agora, para público que já viu tantos filmes onde inocentes são individuados, perseguidos, encurralados e afinal ou detidos, ou abatidos, parece indispensável que a verossimilhança da culpa dos irmãos Tsarnaev venha a ser esmiuçada e comprovada com o necessário rigor.
          O próprio Barack Obama, que tem acompanhado com grande interesse esse episódio ligado à maratona de Boston, cidade aonde possui tantos laços existenciais e de carreira, reconhece que ainda há dúvidas remanescentes sobre o ataque a serem esclarecidas.

    
(Fontes:  O  Globo, Globo on-line )