sexta-feira, 15 de abril de 2011

O Maior Adversário de Obama

       Terminado o primeiro ‘round’ no embate entre democratas e republicanos, há na sociedade americana uma primeira impressão de que o G.O.P. estaria levando vantagem. Com a maioria na Câmara de Representantes, os republicanos partiram para o confronto valendo-se da imposição legal de que, a cada ano fiscal – que nos Estados Unidos vence em meados do ano cronológico – o Congresso deve aprovar um novo orçamento. Repete-se, assim, o que acontecera com o Presidente Bill Clinton,quando em 1995, a maioria republicana no Congresso, liderada por Newt Gingrich provocou o fechamento de muitas das funções não-essenciais do Governo estadunidense.
       Na verdade, se a história se repete, nem sempre o será da mesma forma. Em 1995, o Presidente Clinton soube manejar, com firmeza e determinação, a posição da Administração, tanto que o resultado da disputa pendeu claramente para os democratas e Bill Clinton. Gingrich sairia bastante chamuscado do entrevero e o Presidente, malgrado todo o acosso dos republicanos, lograria reeleger-se folgadamente.
       Já nesse novo episódio, embora a última palavra ainda não tenha sido dada, os papéis não se apresentam com as características de antes. Além de os republicanos terem arrancado várias concessões do Presidente Obama e dos democratas, a luta política ganha contornos que não são, por ora, favoráveis à Administração.
       Repercutiu mal a concessão por Obama de US$ 38 bilhões em termos de cortes no orçamento. Desagradou, ulteriormente, a circunstância de que tal redução nas dotações públicas objetivava apenas a prorrogação provisória do orçamento, não representando o naco de carne que exigiam os aguerridos representantes do G.O.P.
       Pareceu, outrossim, excessivo que Obama parabenizasse os republicanos (e democratas) por um acordo desse gênero que, com a economia americana ainda débil, pode prejudicar e mesmo anular a fraca recuperação da recente recessão.
       Não pareceu a colunistas como Paul Krugman que Barack Obama se estivesse valendo das prerrogativas de um Presidente. E ele se perguntava, após mencionar o seu carismátivo e inspirador comportamento no processo eleitoral de 2008, ‘quem é esta insossa, tímida pessoa que não semelha ter posição firme acerca de nada ?’
      Se a linguagem de Krugman, a partir do título do artigo – ‘Faz falta um Presidente’ – é provocativa e polêmica, não há negar que, na primeira fase, Obama cedeu a iniciativa aos novos republicanos. O Deputado Paul D. Ryan, novel presidente da Comissão do Orçamento da Câmara, apresenta um projeto com pesados cortes nos populares programas Medicare e Medicaid. Posto que nem todos os cortes tenham sido expostos claramente, o intuito republicano é o de atingir os programas sociais que foram introduzidos pelo Presidente Lyndon Johnson na década de sessenta (com o apoio então do G.O.P.) e agora o desmantelamento preventivo da Reforma Geral de Saúde. Essa conquista de Obama e dos democratas sofre ataque conjunto na justiça (sob pretexto de inconstitucionalidade) e ora, com o domínio compartido do Congresso, pelos republicanos que, a pretexto de ser um plano ‘socializante’, tem ódio visceral ao que chamam, para expressar o próprio irracional menosprezo, de ‘Obamacare’.
      A sede com que os republicanos estão indo ao pote, intentando desarticular programas sociais, desde muito utilizados pela população americana e em especial a de menor renda, pode representar para eles faca de dois gumes. Com efeito, a um tempo, escancara para a opinião pública a maneira cínica e brutal com que investem contra programas que, num país onde a medicina é a mais cara do mundo, atendem às necessidades clinicas dos menos favorecidos (Medicaid) e dos idosos (Medicare), e de outro, a sua constante preocupação de manter os demagógicos cortes nos impostos das classes mais ricas, sem esquecer o único ítem do orçamento em que preconizam o incremento nas dotações, vale dizer nos recursos já bastante vultosos da Secretaria da Defesa.
       Para continuar dobrando a Administração e o Presidente às suas pesadas condições, o G.O.P. pensa valer-se da próxima necessidade de levantar o teto da dívida pública federal (para maiores esclarecimentos nesse ponto, rogo ter presente o meu blog O impensável pode acontecer, de doze do corrente). É uma tática perigosa, pelas implicações que atingem não este ou aquele partido, mas os interesses da superpotência. Com as consequências desastrosas que poderia ter, é um projeto insano, de quem não discerne os limites e a responsabilidade dos partidos quanto ao estado da União.
      Buffon, do século das luzes, nos fala de que o estilo é o homem. Essa célebre assertiva se aplica como uma luva ao Presidente Barack Obama. Bom orador, soube inspirar os desejos latentes de ‘mudança’ em grandes faixas do eleitorado. No entanto, se não deseja ser presidente de um só mandato, como o seu longínquo antecessor Buchanan (às vésperas da eclosão da Guerra Civil americana), Obama carece de entender que dos instrumentos suscetíveis de proporcionar a vitória em pleitos majoritários muito difere a política e os recursos de um chefe de governo com vistas a implementar o respectivo programa.
      Vem provocando estranheza que Obama se afigura manietado pela aspiração de governar com apoio bipartidário. Acreditando nas suas qualidades de administrar mediante acordos políticos, o presidente vem queimando muitos dos seus trunfos no encalço de amplas concordância em uma época na qual as relações partidárias são marcadas não mais por antiquado cavalheirismo, mas por brutal contraposição em que adversários políticos são havidos como inimigos.
     Se esta característica presidencial se afigura inadequada em quadro de negociação que mais parece uma luta sem quartel na qual todos os recursos são válidos, os recentes decepcionantes resultados na presente crise representam ulterior comprovação da ineficácia desta linha de conduta da Administração.
    Agora Obama vem a público para asseverar a respectiva disposição de obter uma redução no déficit federal de quatro trilhões de dólares em um período de doze anos. Se os líderes republicanos – o Speaker John Boehner e o Líder da Minoria no Senado, Mitch McConnell - logo se apressam em contraditar-lhe o intuito. O mais importante estará não na redução do déficit em si – em um período no qual seria keynesiamente mais oportuna uma política de maior ênfase no crédito para reativar o emprego na economia - , mas na maneira em que tal decréscimo será logrado. O G.O.P. se apressa em declarar que é contra o aumento de impostos. Na verdade, tal afirmação, no mundo americano, deve ser lida como significando ‘somos contra o aumento dos tributos para as camadas mais ricas da população’.
     Ora, como se depreende, não se trata aqui de incremento de impostos. Obama busca a reposição das antigas alíquotas para os mais afluentes, alíquotas essas que foram generosamente canceladas por Bush júnior. Quando se sabe que a manutenção desse privilégio fiscal importaria em perda de arrecadação para o Estado de US$ 363 bilhões, num período bianual, se desnuda a perene estratégia do Partido Republicano de proteger os ricos e de prejudicar os programas sociais para as camadas mais pobres.
     Parece míope política do século XIX. O que mais surpreende é que esse Grand Old Party (grande e velho partido) consiga eleger presidentes, ter maiorias na Câmara dos Representantes e também no Senado, dispor de maioria na Corte Suprema, etc. etc.
  



                                     ( Fonte: International Herald Tribune )

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Acordo entre ambientalistas e ruralistas ?

        O relator, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), está otimista quanto às perspectivas de aprovação do projeto do novo Código Florestal. Reunidos no gabinete do presidente em exercício, Michel Temer, consoante a interpretação de Rebelo, haveria dificuldades em cerca de 2% do projeto, que semelham fora do alcance de versão que satisfaça a ambos os lados.
        Não se tem maiores particulares sobre o restante do articulado, mas o otimismo do relator, tendo sobretudo em vista todos os pontos polêmicos que, por não mencionados, estariam dirimidos, não deixa de causar uma certa espécie.
        Há vários ditos populares que se adequam a esta situação um tanto paradoxal. Será a capacidade negociadora e contemporizadora do autor do relatório e do projeto, a tal ponto afiada que teria logrado tornar palatáveis aos ambientalistas as suas ‘inovações’, como v.g., as APPs sumariamente reduzidas, os cimos de morro disponíveis para o abate e o plantio, as multas dos desmatadores até 2008 revogadas ? Ou teria conseguido a concordância dos ruralistas para que as APPs sejam preservadas nas antigas dimensões, mantidos intocáveis os cimos de morro, e afinal aplicadas as multas ?
        Pobre quando vê muito esmola desconfia... Dado o apoio recebido pela frente ruralista pela grande imprensa (o blog se reportou, oportunamente, a duas dessas comoventes intervenções), não estará longe da verdade quem considerar o campo ambientalista como aquele com menores recursos e simpatias do poder econômico.
        Por isso, teima em incomodar-nos e provocar desconforto a assertiva de que está tudo bem quanto à eventual aprovação do Código Florestal, havendo 98 ou 99 % de acordo entre os dois lados, como nos adianta o relator.
        E quais são esses dois pomos da discórdia ? As divergências seriam apenas redacionais, e se concentrariam nos tópicos a seguir: para os ambientalistas, (a) a legislação não deve permitir novos desmatamentos e (b) que os produtores cumpridores da lei e que não abateram árvores possam ser compensados por isso.
        A perplexidade aumenta quando se sabe que os deputados da bancada ruralista concordam com essas duas questões. Se há consenso, qual seria então o problema ? A dificuldade se situa na circunstância de que os ruralistas aprovam em tese.
        A dificuldade seria de linguagem, pois, consoante o deputado Zequinha Sarney (PV-MA) o problema estaria nas nuances.
        Não obstante, se a sabedoria popular nos diz que o diabo se esconde nos detalhes, é mais do que interessante e oportuno que se cotejem os textos respectivos. Descobriríamos, assim, que obstáculos – ou perigos – se escondem na versão ruralista.
        Entre os pontos positivos da discussão, está o maior interesse do Executivo para examinar a questão e, se possível, agilizar-lhe a solução.
       Tenho dúvidas sobre o apoio eventual que o Planalto há de atribuir para um Código que seja realmente Florestal, e não de deflorestação. A despeito de seus tardios votos ecológicos, enquanto soava a campaínha do Segundo Turno, nada me tem demonstrado até o presente que a posição de Dilma se diferencie da de Lula, que, se assinava românticos manifestos ambientalistas, não se pejava de sancionar a MP da grilagem, o decreto das cavernas, a par das rituais suspensões de multa aos desmatadores.
       O relator, por fim, indicou que só irão a voto as disposições em que não houver acordo. As demais serão aprovadas por consenso.
       Estamos acaso na companhia do incorrigível Dr. Pangloss, com seus óculos cor de rosa ?
       Por fim, se as coisas andam à maravilha, por que os ruralistas têm pressa na votação da proposta, e não os ambientalistas, que, pelo visto, apreciam muitíssimo o debate e desejam estendê-lo o mais possível ?

                                                      ( Fonte: O Globo )

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O que é feito da Revolução Árabe ?

       A chama da sublevação foi acesa ainda em dezembro de 2010 pelo mártir Mohamed Bouazizi, no que parecia o inamovível feudo de Ben Ali. O sacrifício do verdureiro de Sidi Bouzid (V. blog O Icone da Revolução, de 23 de março último), culminado em 4 de janeiro de 2011, desencadearia movimento que se alastraria pela nação árabe afora. A irrupção e a presteza, quase alacridade, com que atingiria as mais recônditas e na aparência inabaláveis tiranias, fortaleceu-lhe o ímpeto e a confiança, uma vez derrubado o mito de que os árabes são dóceis súditos do déspota da vez.
       Como todo incêndio, a insurreição crepita mais forte, se levada pelos ventos turbulentos da indignação em terras ressecadas por opressão e injustiça. Para tanto, a flama espalhada pela raiva de Bouazizi se deparou com vastos campos e páramos, onde jazia latente a revolta plantada por tantas décadas de arrogância, privilégio e corrupção.
      O avanço inicial alcançou não só o Egito, de Hosni Mubarak, e o Iêmen, de Ali Abdullah Saleh, senão a Argélia, de Abdelaziz Bouteflika. Contido nestes últimos países, iria derribar a trintenal ditadura de Mubarak, enquanto a pertinácia de Saleh estenderia a confrontação muito além do previsível.
      Não tardou a atingir a Líbia, do coronel Muamar Kadaffi. A farcesca Jamairia se cindiria entre o oeste dos cruéis caprichos de um tirano, que acredita no próprio carisma, e o leste esquecido e perseguido de seus opositores. Mais tarde, viria a intervenção da OTAN, com a zona de interdição aérea. Os débeis armamentos dos rebeldes e as limitações do poder aeronáutico tem assegurado por enquanto a sobrevivência política de Kadaffi.
     Os ares do motim e da rebelião se espraiaram até confins havidos por impregnáveis, como a Síria de Bashar al-Assad, que entre promessas de liberdades e as balas do exército e da polícia, peleja por manter o próprio dinástico mando. Já a Jordânia, em que o rei Abdulah II contraria o esteio beduíno da monarquia, se vê às voltas com as manifestações da ruas; e o Bahrein, pequeno reino insular onde convivem, em virtual apartheid, a maioria xiita, sob os sunitas que na hora da tomada de contas recebem a não-desinteressada ajuda militar do rei Abdulah da Arábia Saudita.
     Até no Egito da praça Tahrir, e da alegre convivialidade entre o povo intransigente e a soldadesca, após a queda acolchoada de Hosni Mubarak, se levanta a suspeita de que todo o sacrifício e a euforia da conquista vão se dissipar nos ares de tantas revoluções traídas.
     Se o cansaço da refrega afasta muitos, não faltam ainda aqueles que protestam contra o Marechal de Campo Mohamed Hussein Tantawi, que colhe a sucessão do velho amigo Mubarak, e à testa do Exército protege o ex-ditador das agruras da planície. De novo, o povo egípcio se levanta contra o aparente escárnio da revolução, que parece acabar sob os cuidados castrenses. É longa a luta, e mais mortos se empilham, culpados de terem pensado que os dias na praça não tinham sido em vão.
     Teima em defrontar-nos a pergunta de como passará à história a revolução árabe democrática. O caso de Egito nos aconselha a prudência. O autoritarismo, se representado por uma instituição – no caso o exército – há de colocar  desafio muito maior do que aquele de um ditador isolado. O poder pessoal será sempre mais fácil de ser varrido. Depois do hercúleo esforço de derrubar Mubarak, que sempre governara com o apoio e a colaboração das forças armadas, partícipes no processo, e após o congraçamento da reivindicação atendida em pleno, a opinião pública se dá conta de que a face da governança terá mudado, mas que a essência de seus instrumentos permanece a mesma.
    Dessarte, o brado da praça Tahrir – não mais com o número e a concentração anterior, pelo natural desgaste de um processo revolucionário aparentemente vencedor – não tenderá a soar com igual força. A par do cansaço, entra em consideração o respeito tido pela força armada. Não é, por acaso, que desde a queda do jovem rei Faruk em 1952, os militares mantêm o monopólio do poder.
    Na Síria, o que representaria uma vantagem para a revolução está no caráter canhestro do sucessor de Hafez al-Assad. Não se desrespeita Maquiavel impunemente. De qualquer forma, o movimento liberal carece de coordenação, e não semelha em condições, por ora, de levar de roldão a ditadura dinástica.
    Na Líbia, a luta dá a impressão de encontrar-se num impasse. A liga rebelde não quer Kadaffi de volta, mas não dispõe de armas e de estrutura para derrotá-lo. Por seu lado, os bombardeios da OTAN sofrem do cerceamento imposto ao poder aéreo. E tampouco a estratégia ocidental parece querer utilizar a arma de que dispõe com a amplitude desejada pelos rebeldes, para maior proteção dos civis.
    No pobre Iêmen, a resistência do presidente Saleh desafia a lógica. Em tais embates, os vaticínios devem ser evitados, porque tudo semelha depender dos caprichos da deusa Fortuna.
    A família que domina o Bahrein – os al-Khalifa – vem demonstrando crueldade crescente, como se verifica pela negação de tratamento médico aos manifestantes xiitas. Sob o braço armado do destacamento de ocupação da Arábia Saudita, os al-Khalifa se julgam acobertados e com rédea livre.
    Como se há de intuir, ainda é cedo para um juízo acerca da revolução árabe democrática. Se imitará a revolução de 1848 na Europa, que terminaria como o primeiro sintoma de um processo, ou se ao cabo, de mais alguns meses, terá outros troféus a exibir, não disponho de bola de cristal para aventurar-me a tais prognósticos.

terça-feira, 12 de abril de 2011

O Impensável pode acontecer

       É saudável, compreensível e necessário que na sociedade existam situação e oposição. Nos Estados Unidos tais forças políticas são representadas pelos partidos Democrata e Republicano. Em passado não tão longínquo havia entre estas duas principais formações tácita concordância quanto a princípios básicos que sobrelevavam à luta política interpartidária.
      Nesse sentido, o espírito do bipartidismo representava a união que forma a base do pacto constitucional, dentro do pressuposto que o espírito de facção não pode prevalecer em detrimento dos objetivos nacionais permanentes. Corolário deste axioma residia na cordialidade das relações interpartidárias e, por conseguinte, na possibilidade de que, sem prejuízo da natural rivalidade política, subsista  base sólida sobre a qual situação e oposição possam estabelecer acordos amplos tendo presente o interesse nacional.
     O Presidente Barack Obama já deu sobejas mostras de acreditar na validade do bipartidarismo. Os fatos têm, no entanto, evidenciado, e até de forma exagerada, que esse respeitado instituto da política americana aparece, no momento, apenas como lembrança de épocas passadas.
     O princípio da unidade dentro da diversidade, que se me afigura o fundamento do bipartidismo, se vai tornando uma fórmula antiquada para crescente número de representantes políticos. Esta contraposição se acentua tanto em pequenos detalhes, quanto em grandes projetos e objetivos.
     Se as diferenças entre os grandes partidos constituem características lógicas, o recíproco cavalheirismo constituía a fundamentação não escrita para eventual transigência e concordância, sob a premissa dos interesses básicos da nação.
     O Presidente Obama procurou valer-se deste princípio tácito para chegar a um acordo com o Partido Republicano sobre o projeto de reforma sanitária, objetivo perseguido desde o início do século passado. Os líderes do G.O.P. se valeram do elogiável propósito presidencial – que se voltava para grandes acordos pregressos alcançados pelo espírito do bipartidismo – para ganhar tempo, não para aperfeiçoar a legislação proposta, mas para fazê-la encalhar nos baixios de largas e infrutíferas tramitações.
     Desde que a direita evangélica se firmou no Partido Republicano, condenando a corrente moderada – em que luziram no passado representantes de nomeada como Nelson Rockefeller – a uma progressiva irrelevância, acentuou-se o seu antagonismo contra o Partido Democrata. Essa tendência para a demagogia agressiva passou a demonizar o adversário político, transformado em virtual inimigo. O movimento Tea Party, para cuja consolidação muito contribuíram os multibilionários irmãos Koch (1) , semelha constituir a ala de ultra-direita do Partido Republicano.
    Os membros do Tea Party, ao participarem das primárias republicanas para a indicação dos candidatos aos diversos postos eletivos, a par de colaborarem, em alguns casos, para a vitória dos democratas – dada a sua radicalização direitista-, em outros, foram eleitos para Câmara e Senado, tomando o lugar de republicanos mais moderados.
    Como nas últimas eleições, o G.O.P. logrou obter a maioria na Câmara de Representantes, com substancial aporte de membros mais radicais do Tea Party, a atuação do Speaker John Boehner (Rep.-Ohio) se viu bastante condicionada pela postura mais extremista dos deputados recém-eleitos, saídos das urnas de novembro de 2010.
    Nada ilustra de forma mais aguda esta crise, que não é mais do bipartidismo, mas aquela relativa à necessidade de convergência sobre posições em que sobreleva o interesse nacional, que o atual choque entre os Partidos Republicano e Democrata, acerca da aprovação do orçamento.
    Em provisório acordo, que prorrogou o orçamento por mais seis meses, o Presidente Obama concordou com a exigência republicana de corte de despesas de US$ 38 bilhões.
    No entanto, a maioria republicana da Câmara de Representantes está condicionando o seu placet à elevação do teto da dívida pública federal, que se acha atualmente no montante de US$ 14,25 trilhões. Consoante informa o Secretário do Tesouro, Timothy F. Geithner, este teto será atingido por volta de 16 de maio vindouro, se bem que, mediante medidas extraordinárias, se conseguiria eventualmente prorrogar o prazo fatal até 8 de julho próximo.
    Tentemos resumir, de início, o que ocorreria se o Tesouro estadunidense não receber a indispensável autorização do Congresso para elevar o teto respectivo da dívida pública federal.
    Uma vez ultrapassado o aludido limite, o Tesouro não poderia mais realizar as operações financeiras – hoje de rotina – para financiar as transações federais, e rolar a dívida preexistente. Em consequência, se veria impossibilitado de pagar dívidas vencidas, colocando o governo estadunidense – até hoje o padrão na credibilidade do crédito – em situação inadimplente.
    Os títulos do Tesouro Americano são considerados como o sustentáculo no mercado de obrigações (bond market), porque os investidores sempre partiram da premissa que a inadimplência (default) é impossível.
    Essa doutrina do mercado leva muitos bancos, companhias de seguro e outros investidores internacionais a considerarem as obrigações do Tesouro americano como uma modalidade de dinheiro em espécie (cash) de baixo risco. Nesse particular, é oportuno observar que a China, uma das maiores credoras dos Estados Unidos, detém grande montante de tais obrigações.
   Quais seriam as repercussões da inadimplência do Tesouro americano ? As consequências de um evento deste porte – que até o presente é tido como impensável - não seriam de condensação fácil, dada a enormidade dos interesses em jogo.
    Não é ocioso dizer que a superpotência não o é apenas em poder militar, mas a sua expressão econômica colocou a respectiva moeda na posição de principal divisa internacional. Desastre desta natureza – não importa se causado por cegueira política de partido com representação suficiente para infligir tal calamidade – teria consequências, que como as desgraças produziriam efeitos plurais e de reação em cadeia.
   Senão vejamos. As cotações das obrigações do Tesouro tenderiam a encarecer e bastante, dada a súbita quebra de confiança na renovação das preexistentes. Os efeitos cumulativos logo se estenderiam aos cidadãos comuns, com a alça das taxas de juro, e, a fortiori a incerteza financeira de que a economia americana estava, na aparência, superando.
   Se o que antes era havido como impensável, se torna, por decisão política irresponsável da oposição, não só pensável, mas fato concreto, a reação em cadeia provocará uma crise internacional – que não é suscetível de ser cotejada com as ‘falências’ anteriores das economias grega, irlandesa e portuguesa.
    Por outro lado, se o dolar estadunidense tem tendência à queda, esta baixa é controlada, por ser resultado da política do Federal Reserve Bank. O Brasil, a tal propósito, já sofre os conhecidos prejuízos da consequente apreciação do real.
   Não resta dúvida, contudo, que o principal golpe seria contra a liderança americana no mundo, conforme refere Robert E. Rubin. De repente, a comunidade internacional se depararia com um gigante que claudica na sua credibilidade creditícia.

As exigências republicanas contrariam a racionalidade.

      A ‘negociação’ que se prefigura decorre de condições irresponsáveis, colocadas pelas correntes extremistas do Partido Republicano, e até o presente seguidas por liderança que se vê à reboque de radicais, os quais se aprestam a golpear o interesse nacional americano.
     Há republicanos que até afirmam ser a dívida estadunidense ‘culpa dos democratas’. É uma posição mais do que contestável. Basta lembrar que o último presidente a lograr deixar a economia americana com orçamento superavitário foi Bill Clinton. Depois dele, tivemos Bush júnior que, com os seus cortes de impostos favorecendo os mais ricos e as guerras iniciadas (Afeganistão e Iraque), logo transformou a situação fiscal em pesadamente deficitária.
    Por outro lado, a estratégia maximalista dos republicanos – que ambiciona cortar fundo em alocações federais destinadas às classes menos favorecidas (Medicare, Medicaid), além de estropiar a Reforma geral da saúde (o abominado Obamacare dos republicanos), e ainda por cima com a redução dos impostos devidos pelos mais favorecidos - só tende a provocar enormes déficits orçamentários, como o demonstram as políticas de Reagan e de Bush júnior.
    Posto diante dessas condições inaceitáveis – o que equivaleria a renegar parte substancial de sua política econômica – o Presidente Barack Obama, tido como grande conciliador, carecerá de têmpera e habilidade para fazer ver à opinião pública quem trabalha pelo interesse americano (e por conseguinte do contribuinte). Se o lograr, poderá assim arrancar da oposição a necessária concordância para que se possa alcançar acordo que não seja comprado com a renúncia do próprio programa de governo.
    Dadas as implicações da condições que o GOP deseja impor, a estratégia da oposição foi qualificada de demencial (crazy). Segundo a interpretação de observadores de bom senso, Washington não poderia ficar refém das confusas teses do Tea Party, que dá a impressão de não hesitar em colocar em risco a segurança econômica dos Estados Unidos para fazer valer o seu desvairado populismo.
   É o que se saberá nas próximas semanas.

( Fonte: International Herald Tribune)

[1] Os irmãos Koch são empresários da indústria dos combustíveis fósseis. Além de subvencionarem o Tea Party, procuram incentivar movimentos contra propostas ambientalistas. Apoiaram igualmente a campanha que levou à aprovação, pela maioria conservadora da Corte Suprema, da sentença Citizens United (Cidadãos Unidos), pela qual não há mais restrição de gastos nas intervenções em campanhas políticas (notadamente na publicidade) pelas grandes corporações.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Inflação e Responsabilidade

      Seria desnecessário recordar o que significou no Brasil a inflação em termos de obstáculo ao desenvolvimento e de tributo adicional para os assalariados e pensionistas ? Excluídas as novas gerações surgidas após o Plano Real – que não sofreram tal experiência -, os demais olvidados ou são néscios, ou irresponsáveis.
      A esse respeito, em sua coluna dominical, Miriam Leitão nos brinda com sábias palavras: ‘se há uma coisa que as últimas décadas nos ensinaram é que com inflação não se brinca, num país que tem o histórico do Brasil’.
      A princípio, para fugir da ‘marolinha’, mas depois por haver gostado dos remédios, o presidente Lula – com a anuência de Guido Mantega, que não sabe dizer não ao chefe – enveredou por uma política de estímulos fiscais e de crédito. De início, tal recurso era necessário, mas o uso do cachimbo faz a boca torta. Uma vez controlada a recessão decorrente da crise financeira internacional, o governo carecia de sustar os estímulos da desoneração fiscal e do geral facilitário em matéria de crédito.
      Tampouco interrompeu o emprego do mágico instrumento da capitalização, que encantou ao Presidente Lula pelos recursos adicionais proporcionados – os demais, como se sabe, já estavam comprometidos com o assistencialismo e o empreguismo, o que explica, mas não justifica a queda nos investimentos estatais. Muito pelo contrário, eis que as capitalizações continuam na ordem do dia, pois também agradam à Presidenta, como se viu na enésima capitalização do BNDES. Nesse jogo tosco, que só ilude aos torpes e áulicos, o ‘corte’ de cinquenta bilhões no orçamento se foi pelo ralo, com a nova ‘operação’ financeira do BNDES em igual montante...
      O PT possuía um triste retrospecto em termos de combate à inflação. Esse partido e o seu corifeu demonstraram serem efetivamente os últimos a acreditarem na eficácia do Plano Real. Enquanto toda a população sentia o alívio proporcionado em viver num mundo livre da cultura inflacionária e do paroxismo dos reajustes, o PT e seu candidato teimavam em comparar o Plano Real com os artifícios do passado. Levaram essa denegação a extremos.
     Por fortuna, o seu maior adversário era a patente reimplantação da normalidade.
     Ao vencer afinal nas urnas, houve a princípio o temor de que Lula e o PT trariam de volta o dragão. No primeiro mandato, graças ao dever de casa bem feito pelo Ministro Palocci, a economia continuou progredindo, crescendo o renome brasileiro nas finanças internacionais.
     No segundo mandato, as coisas mudaram. Pelas gastanças do Presidente e fraqueza do sucessor de Palocci, aquela velha conhecida principiou a dar os ares de sua graça. Desnecessário repetir a série de dispêndios levianos que formariam o que chamei em blog anterior a dádiva de Lula.
     Dona Dilma, por causa de uma de suas irritações, resolveu prescindir do Ministro Henrique Meirelles no Banco Central. Ele havia ousado repetir a condição da chamada autonomia na instituição, nunca aceita pelo predecessor. Tanto bastou para que a dama se desvencilhasse do importuno e designasse para o lugar Alexandre Tombini.
    Não é segredo que o controle da inflação no Brasil recai sobre o Banco Central. É  instrumento único, que atua sobretudo através da elevação da taxa de juros e o controle do crédito. Ora, pelo visto, a atuação do BC não mais se pautará por uma interpretação assim tão estrita. A sua equação para enfrentar o dragão adaptou-se às preferências desenvolvimentistas da sucessora de Lula. Dessarte, nas reuniões do Copom (o conselho monetário que decide sobre a taxa Selic) luzirá forte a necessidade da manutenção do crescimento econômico.
    Fica mais fácil agora intuir porque Guido Mantega passou a enterder-se tão bem com o presidente do Banco Central. Na verdade, o fenômeno da inflação continua a ser minimizado por Mantega e Tombini. Tudo não passaria de efeitos sazonais que, a crer no que diz o sr. Mantega, vão desaparecer. Por circunstâncias palacianas, a dupla sabe o que a Chefa quer ouvir.
   Os que já viveram a experiência inflacionária – e a ingente dificuldade de expungi-la da ânsia dos reajustes e contínuos aumentos – vêem o quadro com crescente preocupação. O aprendiz de feiticeiro permitiu que o gênio saísse da garrafa. Agora, os seus sucessores, ao invés de conscientizar-se da tarefa precípua, nos brindam com o papo furado de que tudo não passa de algo fugaz, que um dia vai sumir...
   O Brasil goza de enganosa pausa em que a força do real condiciona a irrefreável vinda dos dólares especulativos. Com a inflação – ou a contínua desvalorização da moeda – tais atrativos desaparecem forçosamente.
   Infelizmente, nossos governantes parecem ignorar quais são os grandes desafios desse membro dos BRIC. Permanecemos uma potência agrária e manufatureira, com as exceções de regra (Embraer). Não é mistério que arrostamos gargalos temíveis na infraestrutura. E, com a anuência do leitor, estendamos esse conceito de infraestrutura à área do conhecimento e da ciência. As nossas indústrias se queixam da falta de trabalho qualificado.
   O assistencialismo – que semelha ser o forte do PT – só cuida de um presente sem futuro. Se não investirmos no conhecimento estaremos destinados a ser o que hoje somos – uma grande promessa que, por misteriosas razões, jamais se desvencilha dos próprios cueiros.
   E aí se completa o círculo da prestidigitação. Parece bonito, engana a muitos por uns tempos, mas volta sempre ao ponto de partida. Para os que vivem do imediato, basta.
   Mas para aqueles que, mesmo sem uma câmera, tem uma ideia na cabeça ?



                                                                        ( Fonte: O Globo )

domingo, 10 de abril de 2011

A Tirania Iraniana

     Há diversos tipos de ditaduras. Conquanto a distinção entre um país livre e um regime autoritário é acessível a qualquer pessoa, por mais obtusa e ignara que seja, existem diversas gradações nessa classificação.
     O Irã dos ayatollahs fornece a esse respeito um triste exemplo. A sociedade iraniana se rebelou contra o Xá Reza Pahlevi. Foi uma revolta realmente popular, com a maciça participação de todos os extratos sociais na luta para liberar-se do jugo da dinastia Pahlevi, com a sua corrupção e detestada polícia política.
     O lider inconteste desse movimento autenticamente democrático foi o ayatollah Khomeini que, no estrangeiro, soube imantar a atenção de seus compatriotas como um polo alternativo ao poder do Xá.
     Uma vez derrubado Reza Pahlevi, o liberalismo do Imã, que tanto servira para atrair à revolução iraniana todos os opositores do Xá, sofreu um rápido processo deteriorativo. Convidados para participarem do movimento de liberação, muitos elementos passariam a ser vistos de outra forma, uma vez empolgado o mando por Khomeini e seus seguidores civis e religiosos.
     No entanto, a radicalização do processo, de início voltada contra o ‘Grande Satã’ e a sua criatura israelense, assinalou-se por primeira fase na qual, a despeito da crescente intolerância contra o dissenso, ainda mantinha faixas de debates abertos, posto que não de todo livres.
     Apesar dos excessos do regime e das consequentes dificuldades decorrentes da guerra de agressão sofrida na década de oitenta pelo Iraque de Sadam Hussein, a teocracia instaurada pelo imã continuou a fruir de certa popularidade, a par de admitir certos terrenos de liberdade para os jovens e mesmo para as mulheres, malgrado todo o gênero de entrave que encontram em muitos países islâmicos.
     Não há, no entanto, comparação possível entre o governo no tempo do ayatollah Khomeini e a presente situação sob o ayatollah Khamenei, em que está montada uma das tiranias mais corruptas e odientas de todo o mundo.
     Se a intolerância do imã não tardou a desvelar-se – inclusive no modo em que procedeu ao banimento e mesmo à liquidação de integrantes do partido Tudeh (comunista) que apoiara a revolução e seu chefe -, o carisma e a popularidade de Khomeini não conviviam com as práticas despóticas e antipopulares de alguém que sabe não ter condições de manter-se no poder exceto através do medo e da intimidação.
    É esta experiência democrática, com todos os seus condicionamentos, que desejaram reviver os candidatos Mir Hussein Moussavi e o clérigo Mehri Karroubi, que foram esbulhados pelo Líder Supremo Ali Khamenei nas eleições de 12 de junho de 2009. Com acintosa presteza, foi reconfirmado o tiranete Mahmoud Ahmadinejad.
    O próprio Lord Acton e sua famosa sentença sobre o poder da corrupção no regime absolutista se surpreenderia com a extensão do horror e de sua abrangência nos atuais domínios da velha Pérsia, hoje entregues à dupla Khamenei-Ahmadinejad.
    Artigo escrito em The New York Review, pela refugiada política Haleh Esfandiari – atualmente diretora do Programa para o Oriente Médio do Centro Internacional Woodrow Wilson, em Washington – nos traça de forma inequívoca em que consiste a ‘democracia’ dos ayatollahs.
    Para que se tenha alguma ideia com que tipo de gente Lula, coadjuvado por seu ministro oficial para assuntos exteriores, julgou oportuno e apropriado estabelecermos relações amicais e estreitas, eis alguns tópicos: as execuções aumentaram drasticamente com Ahmadinejad. No seu primeiro ano de governo (2005),86 pessoas foram executadas. Esses números se tem elevado de modo sustentado: 346, em 2008; 388, em 2009, e 542 em 2010, dos quais somente 242 foram anunciados. Segundo revela a organização Campanha Internacional pelos Direitos Humanos só em janeiro de 2011 86 pessoas foram executadas !
   Depois de uma fase de juizos coletivos – em que dezenas de indivíduos foram submetidos a esse ominoso espetáculo, vulgar e rasteiro sem dúvida, que tanto tem a ver com a justiça como os tribunais de Stalin e Hitler – o regime terá optado pela discrição.Foi ampliado o leque de imputações para a pena capital. Assim, Khamenei e Ahmadinejad acham preferível condenar à forca dois manifestantes após a fraude eleitoral de 2006 por ‘guerrear contra Alah’. Outra motivação de uso crescente pela justiça do regime é a de ‘tráfico de entorpecentes’.
  Malgrado a diferença nas populações respectivas, o Irã dos ayatollahs goza do dúbio galardão de ser o segundo país – atrás apenas da República Popular da China – em número de execuções por ano.
  Aos que escapam da morte, o regime reserva penas duríssimas, com uma relação quiçá esquizofrênica para com os delitos cominados. O jornalista Emadeddin Baghi, cuja coragem em denunciar os abusos praticados contra os prisioneiros políticos no Irã, foi condenado a seis anos de prisão e despojado de seus direitos civis por cinco anos. As acusações são genéricas – ‘atividades contra o interesse nacional’ e ‘publicidade em favor dos inimigos do regime’- mas o verdadeiro motivo terá sido a sua entrevista com o Grande Ayatollah Hussein Ali-Montazeri. Em blog anterior, reportei-me à relação de Montazeri com o governo de Teerã. Respeitadíssimo pelo estamento clerical de Qom, e por isso inatacável, a postura de Montazeri refletia igualmente as medidas restritivas dos teólogos xiitas da cidade santa de Qom à camarilha de Teerã. Nesse sentido, explica-se não só o empenho do sistema em atalhar eventuais manifestações contrárias quando do multitudinário enterro de Montazeri, senão o covarde castigo aplicado ao mensageiro Emadeddin Baghi, na linha de Sadam Hussein de fulminar os portadores de notícias desagradáveis.
     Os fatos incriminantes são muitos, porém, em respeito às vítimas, e para que a repetição não implique em eventual banalização de comportamento, a um tempo boçal e sem limites, os restrinjo a um par de exemplos colhidos no artigo de Esfandiari.
     Ali Khamenei ordenou o fechamento da mal-afamada prisão de Kahrizak, nas cercanias de Teerã. Tal se deveu ao vazamento de notícias sobre a morte de vários detentos em razão das torturas sofridas. Ainda no período da repressão aos protestos contra a fraude na eleição presidencial, o candidato Karroubi divulgara cartas recebidas de familiares de presos, em que, além da tortura, os carcereiros eram acusados de estuprarem prisioneiros de ambos os sexos.
     Dentro da selvageria que lhe é inerente, o regime de Khamenei-Ahmadinejad vem recorrendo a um ulterior expediente que, a par de ser odioso, se acredita sofisticado. Irritado talvez com a obstinada persistência de seus adversários, o oficialismo iraniano passou a visar igualmente os advogados defensores dos dissidentes políticos. A própria Shirin Ebadi – Prêmio Nobel da Paz em 2003 – não mais goza da antiga relativa imunidade. O seu Centro de Defesa dos Direitos Humanos foi invadido por agentes de segurança em dezembro de 2008 e, em seguida, fechado. Ebadi vive agora em exílio forçado. E para culminar o ataque aos advogados, Nasrine Sotoudeh, defensora de Ebadi, foi condenada no ano passado a onze anos de prisão. A tal pena, foi pendurada uma outra, de infamante cinismo: Nasrine está proibida de praticar advocacia e de viajar para o exterior por vinte anos!
     Em termos de cooperação técnica, Teerã não teria mãos a medir para atender as consultas de, entre outros, Alexander Lukashenko (Bielo-rússia), Kim Jong-Il (Coreia do Norte), e o general Than Shwe (Mianmar), mais conhecido como verdugo da Prêmio Nobel Aung San Suu Kyi.


                                    ( Fonte: The New York Review of Books )

sábado, 9 de abril de 2011

Uma Reflexão sobre a Chacina de Realengo

      O assassino, Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, desempregado, entra na Escola Municipal Tasso de Oliveira por volta das 8:15hs. Reconhecido como ex-aluno, facilitam-lhe o ingresso por sua alegação de que participaria das atividades comemorativas do quadragésimo aniversário da instituição.
      Wellington adentra o edificio com a intenção de matar. Traz consigo dois revolveres, um calibre 32, o outro calibre 38, carregados e com muita munição suplementar. Serve-se, inclusive, de sofisticados carregadores com seis balas, o que lhe permite recarregar as armas em pouco mais de um segundo.
      Na sua mente perturbada, quer matar as meninas e não os meninos. Os seus quinze minutos de homicida abatem dez meninas e dois meninos. Os tiros na cabeça são desferidos de cima para baixo, penetrando pelo cérebro e saindo pela boca ou queixo.
      Avisa aos infelizes que vai matá-los e manda que fiquem de costas.
      Além dos mortos, a sua fúria deixa doze vítimas feridas, duas em estado grave.
      O barulho dos tiros e a confusão no colégio chamou a atenção do sargento da PM Márcio Alexandre Alves, que estava em blitz próxima ao local. O sargento intercepta Wellington que subia pela escada para o terceiro andar. Este procura alvejá-lo, porém o sargento da PM é mais rápido e o atinge no abdomen.
      Wellington cai e, sem hesitar, se suicida com tiro na cabeça. A comoção no colégio, no bairro e na própria cidade pode ser imaginada. Todos os notáveis do estado com o governador à frente, acompanhado pelo prefeito, vêm à escola. Em cerimônia no Palácio do Planalto, a Presidenta Dilma Rousseff, com a voz alterada e os olhos marejados, pede um minuto de silêncio, aos convidados de ato oficial dedicado aos microemprendedores.

O cenário internacional.

     O Brasil já assistiu a muitas chacinas, mas não há aqui precedente para este ato isolado de Wellington, voltado contra adolescentes e sobretudo garotas.
     O atentado mais difundido – objeto inclusive de filmes, como o de Michael Moore – foi no ginásio de Columbine, em Littleton, no Colorado. Em ato de vingança, em 20 de abril de 1999, Eric Harris e Dylan Klebold matam treze pessoas, inclusive um professor, e depois se suicidam. Outro massacre, realizado em 2007 pelo sul-coreano Cho Seung-hui, dizimou 32 pessoas (entre alunos e professores), na Universidade Virginia Tech. Cho também se suicida. Antes enviara fotos, vídeos e uma carta à TV NBC News, em que aparece empunhando as duas pistolas que utilizaria, e diz: “vocês me levaram a fazer isso”. Há outros massacres nos Estados Unidos, mas igualmente na Escócia (1996), no Azerbaijão (2009) e na China (2010), todos perpetrados por homem solitário que costuma arrematar o crime com a própria execução.
      Citam-se dois casos em Israel: em 25 de fevereiro de 1994, Baruch Goldstein, colono americano-israelita, entra na mesquita Ibrahimi com uma metralhadora e mata trinta fiéis palestinos, além de ferir a muitos outros. Goldstein morre no fogo cruzado. Por sua vez, em março de 2008, palestino armado com fuzil M-16, penetra no seminário rabínico Merkaz HaRav, em Jerusalém, e abate nove estudantes, deixando cerca de vinte feridos. Entretanto, esses dois casos não podem ser confundidos com os demais. Estamos diante de exemplos de violência em Israel, que se integram em um choque político mais amplo, na luta dos palestinos pela liberação dos territórios ilegalmente ocupados por Israel ao cabo da guerra dos seis dias, de junho de 1967.

Perfil do Assassino.

      Wellington era filho adotivo. Morou na rua Piraquara em Realengo, a menos de um quilômetro da escola. Mudou-se para Sepetiba há menos de ano, depois da morte da mãe por infarto. Calado, solitário, não há histórico de violência familiar. Na sua carta de despedida, encarece ser sepultado ao lado do túmulo da genitora.
      Criou-se no culto da Igreja Testemunhas de Jeová, em Santa Cruz. Nos últimos tempos, quando foi morar sozinho, deixou a barba crescer e passou a vestir roupas pretas.
      Trabalhou em empresa de alimentos, como auxiliar de almoxarifado. Como a firma determinava aos funcionários não usarem barba, terá sido a causa de sua demissão em agosto de 2010.
      Recolheu-se depois disso, levando existência solitária. Cresce bastante a sua barba e em contatos familiares se mostra partidário de soluções violentas. Sem embargo, essa violência ele não a demonstraria até o dia sete de abril.
      Retraído, não falava com os vizinhos, e costumava ausentar-se de casa, para a qual retornava ao fim da tarde. Onde ficava entrementes não se sabe.
      Nascido com um defeito na perna que o fazia coxear, era vítima de graçolas e ditos ofensivos dos colegas, em mais um exemplo do bullying que sempre existiu por aqui – como, de resto, em toda a parte – mas que só agora parece na moda, sendo apontado como mais uma importação dos Estados Unidos. O que aconteceu com o cabisbaixo e discreto Wellington é um fenômeno anunciado, pela tendência dos coetâneos de extravasarem a própria insegurança na pele de alguém que se afigure mais fraco, seja lá por qual razão. A única importação aqui dos Estados Unidos não passa de outro macaquear de palavras e atitudes da terra de Tio Sam. Para muitos, fica mais bonito chamar tão execrável comportamento de bullying e de aduzir que estamos apenas copiando o exemplo alienígena...
     Por haver destruído o respectivo computador e os eventuais disquetes, será árduo determinar como realmente pensava o infeliz Wellington que, por falta de atenção e tratamento adequado, descambaria para este morticínio. Difícil, sem dúvida, mas não impossível. Não é de estranhar a facilidade desse rapaz em munir-se de um senhor arsenal, a par de realizar macabro treinamento para a perpetração da tragédia. Não terá tido nisso nenhum instrutor ? Como conseguiu adquirir os revólveres que, como nos dizem, são de compra proibida por particulares, sem a devida autorização burocrática ?
     E onde aprendeu a fé islâmica ? Basta descrever-lhe a indumentária e a longa barba, para alguém que, por razão de ofício, pode vislumbrar os integristas, não alimentar muitas dúvidas quanto a direção e as vestes da fé de Wellington e salafitas.
     Outro aspecto interessante são as recomendações que estipula o suicida – após a realização de um ato que julga heróico e que pensa abrir-lhe afinal o convívio com as 72 huris no vasto paraíso islâmico -, frisando envolvê-lo em alvos lençóis, e que não seja conspurcado por mãos impuras. Essa carta de Wellington não difere muito da missiva de Mohamed el-Atta – o condutor do ataque terrorista às torres-gêmeas, no dia onze de setembro de 2001.
     Dada a sua aparência, e falta de jeito no convívio com as moças, a sua solidão se terá exacerbado. Terá assim sublimado o repúdio do sexo feminino em atitude de alegado menosprezo. Desta forma, explicam alguns a sua singular preferência em matar meninas, ao invés de meninos. Se para tentar entender a loucura, às vezes é forçoso partilhar de seus absurdas visões e interpretações, não me parece muito provável que o ensandecido Wellington tenha despejado as suas balas como vicária vingança de foras e de negativas recebidas.
     Dentro de sua fé, nova mas aparentemente fervorosa, Wellington terá abraçado credo islâmico nas suas linhas mais radicais, em que os talibans viram moderados. Na versão xiita do islamismo a mulher não pode ser tocada, nem sequer cumprimentada,por qualquer estranho, pela simples razão de que, se estiver no período impuro, forçará o ignaro cumprimentante a um complexo ritual de purificação.
     Adorando a própria mãe, mas menosprezando as demais mulheres – que não lhe chegavam aos pés – Wellington ao direcionar a sua vindita ao colégio em que terá passado por momentos desagradáveis, terá julgado, na sua destrambelhada lógica, que entre meninos e meninas, deveria poupar àqueles e a fustigar aquelas.

Pensando no futuro.

     Não há dor maior para um pai do que perder um filho ou uma filha. Primeiro, porque biológica e racionalmente não faz sentido. Não se supõe, em sã mente, que a sina dos pais é a de enterrar os próprios filhos. Segundo, o corolário da sensação.
     A visita do senhor governador e do senhor prefeito foi ato de comiseração cristã. No entanto, seria interessante que o brutal, estúpido, devastador sacrifício imposto a pais e mães não se esvaia em ditos coléricos e presenças efêmeras.
    A violência campeia por toda a parte, e um acontecimento como o de Realengo pode bater em teclas erradas.
    Sugiro, portanto, pequena e módica providência: postar um guarda na porta de entrada da instituição e submeter visitantes e frequentadores ao exame simples do detector de metais.
    Creiam-me, autoridades que ontem choraram por causa das vítimas inocentes, invectivando e condenando o facínora, os meninos e meninas da Escola Municipal Tasso da Silveira terão, nos muitos dias de uma vida que desejamos longa e profícua, maior motivo para entoar loas a esses poderosos personagens, se lhes for prestada a pequena dádiva, que pela sua oportuna utilidade e eficácia pode até dispensar planos e programas talvez mais abrangentes, mas que na realidade das contas públicas muito breve se transformam em lindas miragens.

                                                                                                 ( Fonte: O Globo )