terça-feira, 15 de junho de 2021

Morre o economista Carlos Langoni

     Aos setenta e seis anos, em decorrência da conhecida Covid-19, por conta da qual ele estava internado desde dezembro, morreu neste domingo, no Rio de Janeiro, o economista Carlos Langoni.  

       Próximo do Ministro Paulo Guedes, ele foi o primeiro brasileiro a formar-se em economia na Universidade de Chicago (EUA), em 1970.

       Natural de Nova Friburgo (RJ), a sua tese de doutorado é considerada um trabalho pioneiro sobre o retorno econômico do investimento em educação.  Nesse sentido, o respectivo estudo sobre o caso brasileiro, o diretor do Centro  de Economia Mundial,  da Fundação Getúlio Vargas, chegara a um resultado muito próximo ao obtido em todos quase todos os trabalhos posteriores: a rentabilidade do investimento em educação é, em média, o dobro da verificada nos investimentos convencionais em capital físico.

        Embora na atualidade a importância do investimento em capital humano constitua uma ideia consolidada, tal abordagem era polêmica na década dos setenta, máxime por ter sido elaborada na Universidade de Chicago, vista então como reduto de economistas de viés liberal. Até mesmo a ideia de  "capital humano" era encarada por grande parte dos pensadores de esquerda no Brasil como se fosse um conceito equivocado.

         "A educação foi negligenciada pela maioria dos economistas brasileiros. Langoni mediu os impactos no caso brasileiro específico, em um trabalho de altíssimo padrão, reconhecido internacionalmente", segundo assinalou  Aloisio Araujo, professor da FGV EPGE e do IMPA (Instituto de Matemática |Pura e Aplicada),   que conhecera Langoni na Faculdade e trabalhara com ele igualmente na Fundação.

          De retorno ao Brasil, no fim dos anos setenta, Langoni elabora estudo sobre distribuição de renda, que lhe fora confiado pelo então governo militar como reação a uma série de artigos que se ocupavam do tema. 

           Em entrevista ao projeto "Memória do Banco Central", Langoni afirma que ele levantava a discussão sobre aspecto no processo de crescimento econômico, em pleno período do Milagre, e que não era favorável ao governo de então, a saber, a desigualdade.  Com números, demonstrara que o problema era muito mais educacional e de estrutura social do que de política salarial do governo.

           Em 1979, assumiu a diretoria da Área Bancária do BC. Durante seu mandato, foi criado o Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia), um dos primeiros sistemas no mundo a assegurar a liquidação  virtual  de operações com títulos públicos.  Anos depois, a  Selic, taxa formada nesse processo de liquidação, se tornaria a taxa básica da economia brasileira.

            Em 1980, Langoni assume o comando da autoridade monetária.  Segundo a publica- ção do BC, em sua gestão, adotou-se uma política monetária que gerou um severo aperto de liquidez, com impacto sobre diversas instituições financeiras. 

             Nessa mesma época, Langoni lidera negociações relacionadas com a Dívida Externa Brasileira que envolviam o Fundo Monetário Internacional.

              Em período mais recente, apresenta ao Ministro Guedes a ideia de um "choque de energia barata",  que poderia diminuir o preço do gás à metade, reduzindo o domínio da Petrobras.

               O Ministro de Jair Bolsonaro   lamenta a morte de Carlos Langoni:  "Foi o primeiro economista a estudar com seriedade a questão do capital humano, a mostrar como a desigualdade nas oportunidades educacionais se transformam em desigualdades econômicas e  sociais, chamando para tanto a atenção para a importância de  políticas públicas na área",   afirmou o Ministro da Economia, Paulo Guedes.

( Fonte: Folha de S. Paulo )

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Israel e seu novo governo

     A política  israelense apresenta um quadro de complexidade extrema, que, por vezes, parece desafiar ao bom senso e à prevalência de uma real democracia.      

      Após doze anos de governo, Israel  consegue livrar-se da permanência  de Benjamin Netanyahu no topo da estrutura parlamentarista. Para tanto, foi formada uma improvável coalizão que se amalgama contra o símbolo dessa governança, que é o próprio Netanyahu. Como todo projeto de sistema, que se baseia na contraposição a um líder, cujo poder se alimenta na corrupção e no favorecimento indevido - que é uma das características desse tipo de  arregimentação - tal candidatura à sucessão, ela terá necessariamente de sofrer na sua tentativa de conseguir  justificar o próprio pleito, pois a sua aliança terá a ínsita fraqueza de todo poder - por mais podre e corrupto que seja  - que tem de justificar-se dentro de uma linha de ação que tende forçosamente ao negativismo.

     Como os estudos sobre o poder tendem a demonstrar, o seu exercício por longo tempo leva a corromper a liderança que aprendeu a valer-se das prebendas e das vantagens (tanto óbvias quanto menos discerníveis) que se associam a essa oportunidade, que com o passar dos dias, meses e anos tenderá  a crescer e a impor-se como se fora  consequência inelutável e até natural de um  crescente comércio com tal realidade que se avantaja  sempre mais. Nessa condução de um processo que é azeitado pelas oportunidades do próprio exercício, a própria existência do "sistema", corrupto, Bibi Netanyahu coexistira com um sistema de arranjos (arreglos) e de negócios por debaixo do pano, que pareceriam  imagem distorcida da democracia, mas que na realidade constituem a sua própria negação.

        É sempre hora difícil para o grupo (coalizão) que se contraponha ao bloco formado por Netanyahu - que, de resto, se empenha em usar o poder para livrar-se de processos judiciais em que é acusado de ... corrupção. A própria "lógica" desse tipo de governança o obriga a dela valer-se para se livrar de processos judiciais em que venha a ser acusado de corrupção.

          Por sua vez,  Naftali Bennett. líder do Yamina e ex-ministro da Defesa, afirma  que o recém-empossado e autonomeado "governo da mudança" se empenhará em representar a "todos os israelenses". No seu discurso, ressalta que é mais do que hora de uma "mudança de regime" e que o país "parou o trem antes do abismo".

           A extrema fragmentação do atual regime israelense não pode ser subestimada.  Ela está presente, tanto nas asserções dos políticos, quanto nas respectivas atitudes de combate ou de convivência com tais pulsões.  Nesse sentido,  assim se expressa Naftali Bennett : "Tenho orgulho da habilidade de sentar com pessoas que têm visões muito diferentes da minha.  Chegou a hora de líderes diferentes, de todas as partes da população, porem um fim nessa loucura."

             Nos termos do acordo firmado no dia onze, Bennett será o primeiro ministro por dois anos. Se a coalizão sobreviver até 2023 - ela terá a maioria de sessenta e uma cadeiras, apenas uma a mais do que a metade -  e ele Bennett será substituído por Yair Lapid, lider do Yesh Atid e negociador central da aliança, em um esquema de rodizio.  Até esse momento futuro, Lapid será o ministro das relações exteriores.

               Ao reportar-se ao "fim da loucura",  Naftali Bennett falava da onda de violência intercomunitária entre árabes-israelenses e judeus ultra conservadores, que coincidira com a crise  em Gaza, e ao nó-político que finalmente é desatado,  após quatro eleições inconclusi- vas em três anos, diante da sequência de tentativas de Netanyahu de permanecer no poder. Se o ex-premier não dá sinais de que vá desaparecer,  mormente após passar  os últimos dias buscando minar o novo governo, com efeito, a campanha nesse sentido de Netanyahu não dá sinais de esmorecimento: "Se nosso destino é estar na oposição, faremos isso de cabeça erguida, derrubaremos esse governo ruim e voltaremos a liderar o país de nossa maneira", afirmou em seu derradeiro discurso na Knesset. E acrescentou: "Vou lutar cotidianamente contra esse governo de esquerda perigoso. "

               Com efeito,  Netanyahu, neste discurso que se entende como de despedida, não afeta humildade, nem que alimente idéias de uma eventual composição. Dessarte, ao deixar o poder, Netanyahu chama Bennett de "falsa direita", e até de traidor, por ter-se juntado a siglas de esquerda,  de centro e de árabes-israelenses.  Nesse contexto, foi anunciado que o governo que está de saída não realizará cerimônia para marcar a transição de poder, mas que haveria uma reunião de passagem hoje. 

                Nesse contexto, a sua tática é o conhecido quanto pior, melhor.  Pensa desestabilizar a aliança, mirando novas eleições que, eventualmente, o catapultariam de volta ao poder (segundo pensa), mas, pelo visto, não atenta para os respectivos problemas judiciais, que, pelas indicações disponíveis, tenderão a ser grandes...  

                Marginalizado,  o  líder da Oposição  busca desestabilizar a aliança, mirando a miríficas novas eleições que, no seu entender, o catapultariam de volta ao regaço do poder. Decerto, tal transformação não o ajudou, e a tarefa passou para Lapid, que tinha uma potencial aliança com siglas de centro e esquerda, além da Lista Árabe Unida.  Após semanas de conversa, o Yamina decidiu apoiar a coalizão, e um acordo de última hora - a cerca de quarenta minutos do prazo dado pelo Presidente Rivlin - com Naftali Bennett, bateu o martelo para a formação da coalizão, tendo presente a condição do próprio  Naftali para unir-se à composição  - i.e., assumir o comando da coalizão na primeira metade do mandato.

                 Dada a sua formação, muita cautela é aconselhável para o eventual balizamento do novo gabinete. Naftali Bennett é filho de imigrantes americanos, sendo o ex-líder do Yesha, o principal movimento de colonos israelenses na Cisjordania, que são os assentamen- tos  e a anexação dos territórios ocupados na chamada Guerra dos Seis Dias, em 1967, sendo ele opositor da criação de um Estado palestino.  Depois do cargo de comandante das Forças de Defesa Israelenses, ele veio a tornar-se multimilionário ao comprar, desenvolver e vender start-ups  tecnológicas.

                  Se as dificuldades que Bennett vá encontrar no respectivo programa de trabalho já poderiam estar indicadas na sua posição política e nos seus procedimentos consequentes, dados os antecedentes, afigura-se, no entanto,   prematuro tentar condicionar  tais características como eventuais falsos caminhos para a situação e conformação de seu gabinete. A própria história recente de Israel e de suas relações  com os seus vizinhos tenderia a recomendar cautela  quanto a eventuais ilações, dadas as características e as condicionantes dessa mesma política, tendo inclusive presente o extremo cuidado que demandaria o seu tratamento, sobretudo em um ambiente que tenderia a ser rico em contradições, como a própria experiência recente induz a demonstrar, sendo esse teatro político cheio de desafios e de consequentes problemas.


( Fonte: O Globo )


domingo, 13 de junho de 2021

A Motociata de Bolsonaro

( À minha querida e saudosa esposa,  Ana Maria Bohrer)


       A  palavra soa artificial , mas ela aparece nos jornalões, e, pelo visto, não há como dissociá-la de Jair Bolsonaro, como um rápido perlustre nos fará forçosamente concordar. Em fenômenos associados à sua presidência, pode parecer estranha, mas não há negar que represente uma realidade,  posto que incômoda. 

      De qualquer forma, é difícil não reconhecê-la, e tal reação o amigo leitor há de convir  terá muito a ver com a realidade, por mais que essa visão composta tenda a sofrer sob a influência dessa força da natureza com que a última eleição presidencial - e tal por uma série de fatores cuja composição há de assustar a muitos - ao introduzir esse elemento antes não computado, e que veio bagunçar o coreto de muitas situações que pecaram pela falta da necessária vigilância. 

       Muitas vezes as modificações respectivas tendem a nos fazer rememorar conexões que nos pareciam inviáveis ou improváveis, mas quando este senhor Sobrenatural de Almeida entra em campo, o que os canais ditos competentes não podem de jeito nenhum desconhecer, é que a máxima atenção se impõe àqueles mortais que não devem permitir que o discurso político viaje por searas estranhas, de utilidade dúbia, que mais aproveitam aos eternos oportunistas de plantão do que àqueles interessados na defesa da Democracia e não de cenários alternativos que com ela, pobrezinha, muito pouco têm a ver. 

        Essa última motociata de Bolsonaro trafega em caminhos já demasiado óbvios. O governador João Dória (PSDB) paira nessa área, ele que é o adversário político do atual presidente, e até achei graça com a multa que a autoridade paulistana aplicou no presente morador da Palácio da Alvorada, por cruzar  avenidas daquela metrópole desprovido da necessária máscara... 

        Segundo noticia a Folha,  em primeira página a tal motociata   reunira cerca de doze mil motos. Ele foi, por isso, autuado pela gestão paulista, logo a do seu adversário Dória, e o valor da multa é de R$ 552,71...

          Em discurso no Ibirapuera, após o desfile das motocicletas, o presidente investira contra as políticas de isolamento. Neste sentido, ele  as ataca, por mais bem-fazejas que sejam,  batendo, como é  sabido, o seu discurso nesta tecla, o que não ajuda muito à tentativa de inviabilizar o distanciamento social, que no bê-a- bá se afigura indispensável  no combate ao contágio causado pela Covid 19.

            Como se sabe, o atual presidente da República vem recebendo grande atenção  também pela CPI do Senado Federal, que tem procurado  montar um quadro que faça sentido para o Povo Brasileiro, de forma a retirar do seu caminho este senhor perigo para a nacionalidade, tantos são os brasileiros que são apanhados pelas redes desta cruel pandemia.

              Nesse singular jogo de xadrez, vendo tantos inocentes carregados pelo  cruel flagelo, é mais do que hora de livrar o Povo Brasileiro, que não pode seguir tombando  pelas artes de estranhíssimo  vilão, que vindo da China, já se acerca da marca maldita dos quinhentos mil, como os bonecos da Rede Globo, ao cabo do telejornal, fazem questão de lembrar a  Nós, sim, logo a Nós,  míseros mortais, tele-expectadores que somos, dessas convolutas maravilhas da tecnologia moderna...        


( Fontes: Folha de S. Paulo; O Estado de S. Paulo )    

sexta-feira, 11 de junho de 2021

De novo o voto impresso

         Sabemos que o voto impresso é uma bandeira do senhor Jair Bolsonaro. Já o Ministro Luiz Roberto Barroso, o atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral considera que a medida em termos de trazê-lo de volta seria um retrocesso, eis que não há qualquer histórico de fraude com a  urna eletrônica, enquanto é clara a notoriedade desse "recurso", quando vigorava o uso do voto impresso.

           O Povo brasileiro deve dizer não junto com o ministro Barroso, e pôr um fim nessa tentativa de trazer de volta tal prática que se presta a esse tipo de recurso, o que além de ser negativo e constituir um triste retrocesso, abriria as portas para uma anomalia que já fora dominada no passado para orgulho da nossa gente.

            O Tribunal Superior Eleitoral  deve continuar a valer-se das próprias conquistas no campo da tecnologia, que asseguram o respeito da vontade popular, o que constitui apanágio da Democracia.

( Fontes: O Estado de S. Paulo; O Globo )

sábado, 5 de junho de 2021

A Aceitação da Copa América por Bolsonaro é contestada pela Seleção

   A  incrível aceitação pelo Presidente Jair Bolsonaro da realização da Copa América no Brasil também veio a ser contestada pelos próprios jogadores, e tal se entende porque isso corresponde ao velho e provado bom senso. 

     Como se verifica pela matéria de primeira página de O Estado de S. Paulo, os jogadores não querem disputar esse torneio e irão manifestar-se sobre o assunto, após a partida nesta terça-feira do Brasil contra o Paraguai, pelas Eliminatórias, tendo-se presente o que noticia em sua primeira página de hoje, cinco de junho.

     Ao ver que outra representação da equipe nacional brasileira tenha sido eliminada hoje, pela fraca seleção do Cabo Verde, após prevalecer no primeiro tempo com grande facilida- de, dado o temor que a seleção canarinho provoca em muitos de seus adversários, incumbiria ter presente que tampouco a  nossa equipe nacional  deva facilitar, nem entrar em projetos que estão manifestamente contra o bom senso na política, como o caso específico em tela, ainda mais com a prevalência da pandemia, eis que ideia de Bolsonaro, que ao ver de muitos agride ao bom senso, como, de resto, o reflete o repúdio dessa Copa por inúmeros países sul americanos. 

      Como assinala o Estadão, a confirmação do Brasil como sede da  Copa América deflagrou crise na Seleção. Os jogadores não querem disputar o torneio e irão falar sobre isso após a partida contra o Paraguai, na terça-feira, pelas  Eliminatórias. Como assinala o Estadão, liderados pelos jogadores que atuam na Europa, eles estão descontentes com o fato de não terem sido informados previamente da realização do campeonato  em nosso País. O técnico Tite também apoia os atletas e por isso virou alvo de ataques públicos nas chamadas redes sociais, assim como o coordenador de seleções da CBF, Juninho Paulista.


( Fonte: O Estado de S. Paulo )

           

         

quarta-feira, 2 de junho de 2021

A Radicalização das Polícias

         Só pode ser vista com muita preocupação a radicalização das Polícias Militares, que tendem a reagir com maior rigor e mesmo excessos desproporcionais, aos eventuais atos políticos contrários ao atual presidente,  que venham a ser realizados pelo Povo brasileiro. 

           Artigo publicado pelo Estadão sob o título " Ação no Recife expõe risco de radicalização nas PMs." Com efeito,  a ação de p.ms. de Pernambuco, com violenta repressão a manifestantes pacíficos contrários ao presidente Jair Bolsonaro veio reabrir a discussão sobre a referida radicalização política nas PMs. Nesse contexto, há um elemento importante, que seria a tendência observada por especialistas em segurança pública. Em tela, é séria agravante  na radicalização das PMs, que se acha na atuação dos chamados "lobos solitários" nessas corporações em nosso país. Assinalada pela imprensa e em parti-cular pelo "Estado de S. Paulo", a intervenção desses lobos solitários  ganha repercussão nessas corporações no país.  Em tal contexto, desde janeiro de 2020  repercutiram nacional-mente pelo menos em quinze episódios em que policiais foram acusados de agirem influen-ciados de forma político-partidária contra eventuais opositores do governo.

         Como se verifica, o episódio de ontem, primeiro de junho, no Recife, configura esta grave  deturpação. Com efeito, recorrer à bala de borracha que, embora qualificada de operação não-letal, se desvirtuada, pode incorrer em sério risco para os manifestantes, como foi exatamente o caso. Como assinala Roberto Romano "No Recife, duas pessoas perderam a vista porque a Polícia Militar se julga superior aos dirigentes civis do Estado." 

           Era uma manifestação pacífica, em que, sem embargo, os policiais recorreram às balas de borracha que, embora seja munição não-letal, se apontada para o olho pode cegar uma pessoa. No caso em tela, "foram duas pessoas que perderam a vista porque a Polícia Militar se julga superior aos dirigentes civis do Estado", como assinala a análise de Roberto Romano. A hiper-crueldade - mirar a manifestante em passeata que não configura, pelo próprio caráter pacífico e democrático do evento  qualquer ameaça - é uma séria deturpação  das  eventuais prerrogativas do alegado cuidado ao respeito devido às autoridades que se crêem envolvidas pela manifestação em tela. As balas de borracha, definidas como munição não-letal, podem constituir como o foram no caso em utilização cruel desse suposto meio que não tem nada de anódino.

             Diante de tal exemplo, me parece cogente que posto diante dessa  extrapolação e crueldade,  todo o cidadão encontra razões sólidas para precaver-se contra tais abusos. Ou não vivemos em uma democracia,  eis que participar de manifestações pacíficas é desvir-tuado a ponto de implicar o risco de ser vítima de um tal achincalhe,  que na verdade veste os policiais com cruel e inadmissível arbítrio, que protegidos pela hipocrisia (no caso) da utilização de uma arma dita como não letal, chega ao cúmulo do achincalhe ao roubar alguém daquilo que ele tem de mais precioso, que é a própria visão.

                  Cabe, portanto, assinalar, como assinala Roberto Romano, que "No Recife, duas pessoas perderam a vista porque a Polícia Militar se julga superior aos dirigentes civis  do Estado".  E todos nós que não nascemos ontem sabemos o que significa cegar alguém em um de seus olhos, que é  ato de indizível crueldade,   por todas as incômodas e infindas limitações que são por ele causadas.  


(Fontes:  O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo)

terça-feira, 1 de junho de 2021

A incrível decisão de Bolsonaro

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     É um desafio ao bom senso, mas com o Brasil sob a ameaça de uma terceira onda da Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro decidiu aceitar a realização da Copa América, em nosso país.

      Após as desistências da Colômbia, que atravessa uma crise política, e da Argentina, por conta da escalada da pandemia, a Conmebol anunciou o Brasil como novo anfitrião. Por vezes, a estranheza é grande, pelas manifestações que o presidente transmite em termos de não vivenciar as reações dos brasileiros que, como seus irmãos do norte e do sul, reputam que essa é uma escolha em má hora, que não atende aos interesses pátrios, porque traz para nossa terra a realização de um evento esportivo para o qual o Brasil e sobretudo a sua gente não está preparada.

         Criticada por especialistas e autoridades - salta aos olhos de qualquer um que se entre em uma fria dessas - decerto não surpreende que a decisão estapafúrdia provoque a reação  de governadores, que não consideram seja o momento de arranjarmos mais um fautor de aglomerações, sem falar da existência de uma rede de atendimento em colapso, que chega à necessidade do recurso dramático à bandeira vermelha, com foi, nos correntes dias, o caso de Curitiba. Ontem o município já acumulava 215 mil infecções de Covid, que é um retrato dantesco àquele visto em todo o Paraná, onde o índice  se reflete em todo o Estado, com um índice que chega a incriveis 95%.

         Depois das manifestações - com grande afluxo de gente - que sinalizaram a discordância da população à atual direção do País, provoca mais do que estranheza a reação do Presidente Jair Bolsonaro venha a público para propor que o Brasil se apresente como país disposto a receber a Copa América.

          Com as UTIs lotadas  e as redes de acolhimento em colapso, o país já não oferece uma imagem que nos transquilize, quanto ao Futuro. Grita aos céus que alguém de bom senso possa sequer imaginar que seja cabível aceitarmos  adentrar em uma fria dessa en vergardura. 

           Para tudo há limite, e parece que não devemos entrar nessa, enjeitada tanto pela Argentina, quanto pela Colômbia.  Parece - que me perdoem - até provocação que se possa conceber a hipótese de criar para o país uma situação de tal desfavor. Nada ou pouco temos a ver com essa competição, que decerto não interessa ao Brasil e à sua gente, que nos prestemos a hospedá-la.

            Como escrevi acima, há limite para tudo,  e quero crer que nosso pais não deve fazer prova de manifesto mau juízo. Que aqueles que engendraram tais monstros, encontrem maneiras de lidar com eles. Nunca devemos sacrificar a própria gente para receber competições que não atendem ao interesse nacional.