quarta-feira, 14 de junho de 2017

Incêndio em Londres

                                

        A foto mostra o que os anglo-saxônicos chamam de high rise, um aparente pleonasmo (alta elevação), termos que empregam  para designar o que antes se designava de arranha-céu (sky scraper).
        Mas é claro que a foto mostra muito mais, e aí está o que impressiona. Um prédio de vinte e quatro andares inteiramente tomado pelo fogo. Diz a legenda que o edifício foi renovado recentemente, e que todas as precauções modernas foram tomadas, inclusive com material especial  anti-incêndio. Não obstante, doze pessoas morreram e setenta se feriram.
         Está (ou estava) situado na Londres Oeste, que parece ser  uma área elegante daquela cidade, por que passei naquelas rápidas estadas que costumam oferecer-te duas impressões: que viste a metrópole mas na verdade não a guardaste na memória, como outras em que viveste.
          A mania do high rise - o que para mim é um quase pleonasmo - se apossou não só da capital britânica, mas também de Manhattan, com verdadeiras agulhas, em que os arquitetos parecem desejar transformar os milionários que lá demoram literalmente em nefelibatas.  Se na antiga Hellas isso seria apenas uma expressão (caminhantes sobre nuvens), já na grande metrópole da costa leste dos Estados Unidos são verdadeiras agulhas de concreto que arranham as nuvens, ou as usam como écharpe, dando aos seus moradores, quem sabe, a ilusão de passear num ambiente que costuma também ser apresentado nos filmes como os domínios de um outro além, não sombrio e subterrâneo como o Hades dos helenos da Ilíada.
          É verdade que o modismo dessas agulhas pós-modernas também o associamos aos espaços arenosos da península arábica, com essas torres modernas que parecem querer fugir dos monótonos areais que as circundam.
         São também altíssimas e ao vê-las me assalta o alívio de nunca ter fruído da oportunidade de nelas quedar-me, inda que fosse por poucos dias.
          Apesar de não sofrer de acrofobia, sempre tive dupla impressão ao depará-las: da solidão extrema do concreto-armado ou lá o que for com que sejam construídas, além da angústia de não poder nunca dizer: querida, vou dar um pulinho no bar da esquina, talvez como aquele malandro carioca que disse à paciente esposa: querida, vou dar um pulo lá embaixo, pra comprar maço de cigarros.
         E não é que à noite, lhe telefona de São Paulo (descera de pijamas), para tranquilizar a cara-metade, prometendo: logo, logo estou de volta, meu amor.
 

( Fontes: The New York Times; e de outras estórias ) 

terça-feira, 13 de junho de 2017

Colcha de Retalhos E - 21

                                           

A vulnerabilidade de Trump

         Não há nada de concreto em termos de ameaça efetiva a que o mandato de Donald Trump, o 45º presidente americano, se veja encurtado por algum processo legal.
         No entanto, tal não é o pensamento dos especialistas nesse setor, dados os riscos efetivos que este novo presidente americano - cuja vitória foi decerto uma surpresa - ao vencer por curtíssima margem a sua adversária democrata, Hillary Clinton, e candidata de longe mais bem preparada para esse magno desafio  do que o seu histriônico adversário republicano.
          Sem embargo, após a leitura de longo e bem fundamentado artigo na New Yorker de oito de maio deste ano, da autoria de Evan Osnos, e sob o título "A cena política - JOGOS DO FIM" O que seria preciso para encurtar a Presidência Trump ?, em cerca de doze páginas, esmiuça todas as concretas possibilidades de interromper a presidência do histriônico capitalista.
         E, sem cair em exagero, não são poucas as possibilidades de que tais perspectivas possam realmente vir a ocorrer.
           O meu ceticismo inicial, quando comecei a ler o artigo de Osnos, foi aos poucos desaparecendo. Trabalhando com as características da personalidade de Trump, o seu relativo despreparo para as suas responsabilidades, se se tratasse de uma aposta, o leitor - diante da cultura americana e da exposição ao risco de quem surgira como o candidato do verão - se, como é lógico, ele não possa asseverar sem medo de erro que Trump é suscetível a ter o mandato cortado, tampouco ele, em sã mente, poderia arriscar-se a apostar que o dito Trump irá completar o seu mandato.
              Como o articulista expõe, faltam muitas defesas ao presidente Trump. Não foi prudente de sua parte não colocar o seu patrimônio anterior à eleição - que já não era pequeno, sendo ele um milionário por herança paterna - sob a responsabilidade de um tutor de sua confiança, ficando ele sem qualquer possibilidade de movimentar tais bens. Como não o fez, corre o risco de que possa ser acusado de aproveitar-se das funções presidenciais para aumentar a própria riqueza, o que dada a dita amplitude semelha difícil de ser evitado.
                   Quanto aos problemas mentais, a que presidentes mais idosos se acham expostos, o exemplo mais corrente é o de Reagan, no seu segundo mandato. Havia indicações de um possível Alzheimer's. No entanto, um exame mais atento por seus auxiliares diretos, realizado por Howard Baker Jr. , ex-senador e nomeado chefe da Casa Civil de Reagan, o encontrou confuso e meio avesso ao expediente. Por isso, Baker combinou com os seus colegas que eles o observariam durante o almoço.  Para satisfação de Baker, Reagan se mostraria alerta e jocoso,  e por isso Baker o assunto encerrado. Em 1993, quatro anos depois de concluir o seu segundo mandato, Ronald Reagan foi diagnosticado como paciente de Alzheimer´s.

Montagem da peça Julio Cesar    
                   
                    A peça Júlio Cesar virou subversiva na montagem ora encenada no Public Theater, pelo menos para certos patrocinadores que resolveram abandonar-lhe o financiamento.
                    Tal se deve à circunstância de que a montagem do drama de Shakespeare se terá inspirado demasiado em um outro personagem contemporâneo, que é Donald Trump.  Na tragédia shakespeariana, Júlio Cesar está perto de tomar o poder e acabar com a república, quando é morto no terceiro ato, na metade da apresentação.
                     O Bank of America e a empresa Delta, de aviação, resolveram retirar o seu apoio financeiro ao Public Theater, em New York, porque o personagem-titulo se conectaria de alguma forma com o Presidente estadunidense, Donald Trump.
                    Por sua vez, outros patrocinadores, como a Time Warner e o jornal New York Times seguem apoiando financeiramente o teatro.
                   Partiu de campanha-on line de grupos pro-Trump, de linha de direita como a Fox News e a Breitbart, entre outros veículos, o posicionamento de parte da midia,de orientação de direita,voltada para que as empresas abandonassem o financiamento do espetáculo.


( Fontes:  The New Yorker,  O Globo )

Repressão na Rússia

          
           Ontem foi o Dia da Rússia. No entanto, na terra de gospodin Vladimir V. Putin, a comemoração dessa jornada dá calafrios aos policias e agentes especiais do Kremlin.
           Não surpreende, assim, que o principal opositor ao Presidente russo, Alexei A. Navalny não haja podido celebrar de igual forma a muitos de seus concidadãos este dia que é dedicado à exaltação da pódina (pátria em russo).
      Navalny é demasiado bom orador e tem carisma bastante para que os apparatchicks da Federação Russa não se tenham apressado a arranjar pretexto para trancafiá-lo em algum cárcere. A par disso, complacente juiz se apressara em aplicar-lhe trinta dias de xilindró, sob o sovado pretexto de ameaça à ordem pública.
           Classificar a Rússia como democracia lembra àquelas frases em que quem as escreve se sente incômodo, eis que falta alguma coisa. Assim, os oxímoros não parecem indispensáveis, pois não se consegue livrar-se da impressão de que falta alguma coisa...
            A esposa do oposicionista Navalny, armada de celular, pôde fotografar a prisão do marido, logo de manhãzinha, quando ele se aprestava a sair de casa (iria discursar no centro de Moscou, mas isso obviamente seria anátema para os lacaios do regime).  E, dessarte, não deu outra: ele foi detido na soleira de casa. A sua esposa logrou captar o instantâneo da prisão, com a legenda "Feliz Dia da Rússia !" no seu twitter.  
              Para essa república autoritária, qualquer ajuntamento popular pode representar problemas para os angustiados, quase paranóicos, agentes policiais do regime. Em 2017, os focos dos protestos foram a corrupção e a estagnação política.
             De saída, o Primeiro Ministro Dmitri A. Medvedev, o fiel auxiliar direto de Putin desde os tempos de Leningrado ( e quem fora por quatro anos presidente da Rússia, assim permitindo conveniente estágio como Primeiro Ministro a Vladimir Putin, polindo então a sua algo desgastada imagem) foi objeto de campanha pela oposição como o desonesto beneficiário  de palácios, iates, vinhedos e outros luxos presenteados por alguns dos grandes milionários da Rússia, e disfarçados como obras de caridade. Para Navalny, "o povo entende muito bem a conexão entre corrupção e propriedade. O que leva as pessoas a saírem do interior é a pobreza, a piora constante do nível de vida."
             Como as eleições na Rússia são trucadas, parece impossível que, nas condições em que elas se realizam, sob a égide da manipulação, as possibilidades de vitória tendem para zero. Mas mesmo assim, o regime russo toma suas precauções: Aleksei Navalny foi condenado, por um juiz interiorano, pelo crime (inexistente) de peculato. O propósito da condenação é tão só impedir que Navalny possa registrar-se como candidato, pois tem a ficha suja...


( Fontes: The New York Times,  Putin's Kleptocracy, de Karen Dawish )    

Luta pela Justiça (na Venezuela)

                            
         A luta contra Nicolás Maduro se desenvolve em várias frentes.  As ruas continuam a manifestar-se - e é fenômeno que não se cinge à capital  Caracas, mas a todo o país.
          Contudo, a contestação continua em outra faixa, a da Procuradora-Geral da República, Luisa Ortega Díaz.  Ela é autoridade importante na institucionalidade do chavismo.

           Ao invés do deacordismo de outras figuras do estabelecimento chavista, a Procuradora-Geral-da-República surge como a voz discordante do situacionismo dissidente enquanto viga institucional do chavismo, em crescente e frontal discordância, não só contra o inepto herdeiro direto  do poder de Hugo Chávez Frias, o Presidente Nicolás Maduro, mas também contra os demais chefes de fila do estamento chavista, entre os quais o radical Diosdado Cabello, com trânsito no extremismo oportunista.
           A trajetória da Procuradora Ortega Díaz é por vezes confundida como se fora expoente do chamado chavismo light. Na verdade, os sucessores de Hugo Chávez - porque seria incorreto limitar a apenas Nicolás Maduro - que não tem estofo para aguentar o rojão - mas também devemos acrescentar-lhe a faixa esquerda, de Diosdado Cabello, com as tinturas gangsterísticas, assim como as Forças Armadas, que, por enquanto, tem respaldado o inepto Nicolás Maduro - e a todas essas figuras contrasta a aparente solidão da Procuradora-Geral-da-República, Luisa Ortega Díaz.
            É uma estranha solidão esta, que vê o respectivo apoio crescer, ainda que formalmente não-institucionalizado.  A Procuradora-Geral não tem, por ora, o apoio ostensivo das principais forças institucionais do chavismo, mas, quem sabe?, aí está um dos segredos do próprio peso e do respeito que semelha comandar.

           Com efeito, a Venezuela hoje vivencia panorama revolucionário, em que se contrapõem,  de um lado às forças situacionistas do chavismo (nelas incluído uma porção do grande mudo), e de outra grande parte, das camadas populares, jogadas na oposição pelo misto de incompetência e corrupção do chavismo institucionalizado (Maduro mais a ala oportunista do chavismo de Diosdado Cabello), sempre com o condicional apoio castrense.
               O extremismo desse regime deturpado, mas ainda conforme à corrupção do chavismo entrado na sua fase pré-terminal, constitui um verdadeiro quebra-cabeças na História, eis que semelha realmente dificil de explicar que esta ordem chavista logre manter-se em meio à confusão erigida como sistema de governo, como se vê na contínua fuga para a frente (fuite en avant) deste arremedo político que seria a suposta ordem no caos de Nicolás Maduro, a que se misturam os seus apoiadores oportunistas.

                Dada a comprovada incapacidade do "sistema" hoje representado ou melhor encimado por Maduro, com o acintoso bebê de Rosemary, que é o caos na economia venezuelana, a única perplexidade que tal agregado político desperta é a sua aparente resistência. A única explicação disponível será a caução acaso fornecida pelo "grande mudo", que, no caso, constituem as Forças Armadas, que o Comandante do Exército, Major-general Alexis López Ramirez representa.
              Mas em meio deste aparente caos organizado à venezuelana, a Procuradora-Geral intenta acelerar a própria ação desestabilizadora, com a  decisão de impugnar a nomeação de treze magistrados no Supremo Tribunal de Justiça. Ora, por maiores simpatias que granjeie tal decisão da Procuradora-Geral, é compreensível o espanto que a postura haja causado, eis que Luísa Ortega Diaz decide questionar-lhes a nomeação ano e meio após que a escolha fora tornada pública.
               Trata-se da chamada superlotação do STJ por Maduro, iniciativa adotada às pressas pelo Presidente, pensando dessarte controlar o eventual prejuízo político na vitória da Oposição no pleito para a Assembleia Legislativa.
              Pensando que a vitória da Oposição na Assembleia Legislativa pudesse ser controlada por uma espécie de puxadinho, Maduro designou às carreiras mais treze membros ditos efetivos no STJ, além de vinte suplentes, que segundo a Procuradora assumiram todos os respectivos cargos de forma irregular.
              Mas não se detém aí a ação da Procuradora-Geral. Com efeito, a organização politica na Venezuela fora transformada em verdadeiro Frankenstein político, por Maduro. É um jurisdicismo golpista, eis que coisas inauditas foram perpetradas por Nicolás Maduro: havendo sido a Assembleia Nacional conquistada pela Oposição pelo voto popular, a única maneira de resolver o problema foi o de declarar a A.N. em desacato, e substituí-la pelos novos membros, oriundos da operação de superlotação do STJ.
                   Como se vê, o procedimento de Maduro é o de empilhar ilegalidades, e quando estas não bastam, reforçar a dose com inconstitucionalidades.
                    Antes tarde do que nunca? Apesar de ter demasiada razão, porque esperou tanto a pugnaz e corajosa Procuradora-Geral da República?       
              Não se pode decerto discutir do acerto de suas medidas. O que causa estranhável espanto é a tardança.
                    De qualquer forma, e com a dupla razão de sua (compreensível) irritação diante de mais outra flagrante inconstitucionalidade de Nicolás Maduro, i.e., a polêmica convocação de constituinte extra (a dos vereadores), que não está prevista pela Constituição, e que como a vira-latas que é, se espoja em cínicas inconstitucionalidades, a Procuradora-Geral resolveu reagir.
                     Ainda que no mundo caribenho, as coisas procedam devagar, a Macondo de García Márquez está aí,  o questionamento pela Procuradora-Geral da nomeação dos membros do STJ tardou um ano e meio (dezoito meses). A explicação de Ortega Díaz está na dificuldade e na consequente demora no acesso às atas que deveria assinar.
                    A própria vivência da realidade caribenha, com governo em que se somam corrupção e incompetência, acrescenta outra característica à pátria venezuelana.
               Em atmosfera kafkiana, o absurdo faz parte do dia-a-dia, e tudo tende a parecer natural na antiga terra de Bolívar, em que o nome do Libertador enfeita a violência uniformizada dos pelotões repressivos, e os temíveis coletivos surgem do nada para reprimir, nessa cruel loteria da pobreza,  com tiros certeiros a quem ousara sair dos próprios casebres para protestar contra fome e miséria.



( Fontes:  O Globo,R.Polanski, F. Kafka, G.García Márquez ) 

Da barração de Nenê

                                             
                                      

       Não é fenômeno incomum que técnico de futebol pretenda 'afirmar-se' pela barração do principal craque do time, cuja 'direção técnica' porventura haja assumido.  
        Não é primeira vez que se me depara este estranho fenômeno. Recordo-me, no passado, de postura nesse sentido de Wanderley Luxemburgo. Agora, a estranha prática é aplicada pelo técnico Milton Mendes, e como o Vasco, no presente,  é quase um deserto em termos de grandes jogadores, a vítima da vez é o craque Nenê.
       Já me inquieta que o responsável pela escalação da equipe recorra a esse tipo de tática. Freud, por certo, a explicaria, pois ela traz como traço gritante a insegurança do técnico, que dá a impressão de ver-se incomodado pela unanimidade tanto da torcida, quanto dos próprios companheiros, no que tange à capacidade técnica e de liderança de Nenê.
         Talvez Pelé, a seu tempo, nunca tenha padecido tal ignomínia, mas o técnico - qualquer que ele seja - assina  atestado de insegurança, com firma reconhecida, ao barrar dessa forma o único craque da equipe. Decerto, há dois outros jogadores no CRVG - o goleiro uruguaio e a recente 'aquisição' de Luís Fabiano - que são de ótimo nível naquele quase deserto de bons jogadores, uma decorrência da estranha política de Eurico Rezende de, ao invés de fortalecer, debilitar o esquadrão cruzmaltino pela continuada venda de bons elementos.
         Colocar a Nenê como se estivesse a disputar uma vaga na equipe vascaína - logo ele, um solitário grande jogador naquele deserto de craques -  pode parecer humilhação forçada por um dirigente técnico que de muito semelha carecer valer-se dessa vazia autoridade para afirmar-se na direção e formação da equipe.
         Essa postura que tem um traço claro e distinto, só pensa repontar quando é o diretor-técnico aquele em se acha aguda necessidade de mostrar a própria capacidade.
         Barrar Nenê da equipe é mais um traço de incapacidade da respectiva direção técnica. Não é pela injustiça - e pela consequente acintosa estupidez - que os quadros do CRVG serão reforçados. Afrontar a torcida - que não é burra e quer o melhor para o seu time - não é  boa tática, se alguém deseja firmar-se em São Januário ou alhures.
         Ele mesmo, se tiver presente o que sucedera a Wanderley Luxemburgo no passado,  ganharia juízo, pois não será por barrar o maior craque da equipe - qualquer que ela seja - que o técnico da vez logrará manter-se na respectiva direção.
          Vedetismo se deve utilizar em doses moderadas e, de preferência, deixá-lo aos craques da equipe (se ela os tem no plural).


( Fonte: O Globo )

domingo, 11 de junho de 2017

Nova vitória de Macron

                                
        O novo partido centrista do presidente Emmanuel Macron logrou espetacular vitória nas eleições para a Assembléia  Nacional. As projeções indicam que o jovem Presidente da Republica - que sucedera a François Hollande - terá bancada de seu partido - La Republique au Commande - entre 415 e 445 deputados. É uma enorme maioria, eis que a Assemblée Nationale tem um total de 577 membros.

       É de esperar-se que Macron saiba valer-se dessa enorme vantagem política para fazer as reformas que se tornam necessárias, e que levaram à superação dos velhos partidos como a SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária, mais conhecida como Partido Socialista). François Hollande na parte final de seu mandato padecia de grande impopularidade. Marido de Segolène Royale - que sempre se afirmara mais do que o marido, como o próprio anterior presidente socialista François Mitterrand o reconhecia.
       Outra indicação positiva na França está na derrota da extrema direita de Marine Le Pen.


( Fonte:  CNN )

Trinta e nove degraus (1)

                                              

        A decisão da sexta-feira do Tribunal Superior Eleitoral de absolver a chapa Dilma Rousseff - Michel Temer levantou debate sobre a necessidade de uma Justiça Eleitoral a título permanente.
2.     O órgão tem orçamento para este ano de R$ 2 bilhões, custa R$ 5,4 milhões ao dia para os cofres públicos (V.ONG Contas Abertas). Como seria de prever, a maior parte se destina ao pagamento de pessoal (permanente).
 3.       "Em nenhuma democracia importante do mundo, tem Justiça Eleitoral", assinala o deputado Roberto Freire,  para quem o ambiente para discutir a extinção da Corte está posto. "A discussão era isolada, mas agora vai ganhar adeptos
4.        O ministro Aloysio Nunes fará uma defesa enfática, na reunião de segunda, pela permanência do PSDB no governo Temer.
5.         A expectativa para a reunião do PSDB é de que o ex-presidente FHC atue como um conciliador para impedir que o racha no partido se aprofunde.
6.     O PSDB deve antecipar eleições para tirar, em definitivo, Aécio Neves do comando tucano. O governador  de Goiás, Marconi Perillo, poderá ser o indicado.     
7.           Sobre a decisão de não responder  às perguntas enviadas pela Polícia Federal para o Presidente Michel Temer,  "O questionário é um acinte a sua dignidade pessoal e ao cargo que ocupa", assim se manifestou o advogado de defesa do Presidente, Antônio Mariz Oliveira. 
8.            A Federação das Associações dos Advogados do Estado de S. Paulo (Fadesp) questionou a decisão do Ministro Edson Fachin, na petição 7003, que homologou acordo de delação premiada firmado entre executivos do grupo empresarial J&F e o Ministério Público. Segundo o decano Celso de Mello, o habeas corpus não pode ser utilizado para tal finalidade, uma vez que este instrumento processual visa a tutela da liberdade individual.  Nesse contexto, o decano ressaltou outra inviabilidade do habeas corpus: ter sido formulado em favor de um grupo indeterminado de pessoas, "o povo brasileiro".
9.               Assinale-se que a FADESP buscava invalidar a decisão do Ministro Fachin e, por conseguinte, que se autorizasse a continuidade de ações penais e oferecimento de novas denúncias contra os delatores, assim como eventual prisão processual. Para a Fadesp, o acordo foi firmado fora dos termos legais e, por isso, não deveria ter sido homologado.
10.               É de frisar-se que a homologação da delação da JBS ocorreu no dia dezoito de maio e deu validade jurídica ao Acordo, permitindo à Procuradoria-Geral da República pedir novas investigações.
11.              Esta delação mergulhou o Governo Michel Temer em sua mais grave crise. O Presidente é alvo  de inquérito na P.F.  que o põe sob suspeita de corrupção passiva, organização criminosa e obstrução de Justiça.
12.                   Acionistas e executivos do grupo dos irmãos Batista gravaram diálogos com Michel Temer, com o Senador Aécio Neves (PSDB-MG) e com o ex-deputado federal e ex-assessor  do Presidente da República Rodrigo da Rocha Loures (PMDB-PR), atualmente preso no presídio da Papuda em Brasília.
13.             Como é de amplo conhecimento, o Presidente Michel Temer não respondeu às 82 perguntas que lhe foram enviadas pela Polícia Federal, no inquérito da Operação Lava Jato, em que é investigado por corrupção passiva, organização criminosa,  e obstrução de Justiça. Nesse sentido, a defesa pediu ontem, nove de julho, o arquivamento do inquérito.
14.                   Em petição entregue ao Ministro Edson Fachin, Temer ataca em catorze páginas as perguntas que lhe foram dirigidas nos autos do inquérito da Operação Patmos. Na aludida peça, o causídico Antonio Cláudio Mariz de Oliveira as classifica como "verdadeiras bisbilhotices". Diz a propósito o advogado que Temer foi "coadjuvante (sic) de uma comédia bufa, encenada por um empresário e criminoso confesso".
15.                          Note-se que uma das estratégias da defesa a cargo do Dr. Mariz de Oliveira é ganhar tempo:  com efeito, pediu um prazo de resposta maior  do que as vinte e quatros horas iniciais dadas na Segunda-feira.
16.                          Com efeito, o Palácio do Planalto já espera o agravamento da crise política nos próximos dias, com a provável apresentação de denúncia contra o Presidente da República, por parte do Ministério Público.
17.                         Se o Ministro Fachin negar o pedido protocolado pelo Dr. Antonio Mariz de Oliveira, e resolver prosseguir com a investigação, o Presidente Michel Temer recorrerá e buscará valer-se de todas as medidas cabíveis para permanecer no poder.
18.                          Em 48 tópicos encaminhados ao Supremo Tribunal Federal,  o Dr. Mariz de Oliveira sustenta que o Presidente Michel Temer é alvo de "rol de abusos e de agressões aos seus direitos individuais e à sua condição de mandatário da Nação que colocam em risco a prevalência do ordenamento jurídico e do próprio Estado Democrático de Direito".
19.                         Nesse sentido, o defensor Mariz de Oliveira destaca que o Presidente Temer "agora está sendo objeto de uma inquirição invasiva, arrogante, desprovida de respeito e do mínimo de civilidade."
20.                               Dessarte, em uma sucessão de blocos, o defensor do Presidente da República explica porque o Presidente não responderia às aludidas perguntas.
21.                              Sobre as relacionadas com o áudio,  o Advogado Antonio Cláudio Mariz de Oliveira disse que por conta da "ilegitimidade" da gravação não poderia respondê-las.
22.                        Sem embargo, mesmo sem responder, Mariz diz  que "o interesse do Presidente, declarado desde o início, é de que haja uma investigação que coloque às claras a verdade dos fatos". Entretanto, para ele, "é inadmissível que se faça uma avaliação desses fatos precipitada e maculada por paixões políticas ou ideológicas ou por partidarismos de quaisquer espécies."
23.                         Sobre a delação dos executivos do grupo J&F, "empresários confessadamente delinquentes", a defesa afirmou que se baseou em "gravação clandestina " .
24.                                E, dessarte, completou o Dr. Antonio Cláudio Mariz de Oliveira a defesa do Presidente Michel Temer: " O questionário demonstra que os trabalhos investigativos, diante da ausência de elementos incriminadores, perderam-se no caminho."
25.                                No que concerne à outra figura alegadamente chave neste processo, o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) escolheu de início o silêncio como estratégia de defesa. Nesse sentido, o ex-deputado e ex-assessor especial do Presidente Michel Temer, resolveu não responder a nenhuma pergunta dos delegados federais no inquérito da Operação Patmos.
26.                                  Assinale-se, por oportuno,  que o ex-deputado Rocha Loures foi preso no sábado passado, por ordem do Ministro  Edson Fachin, relator da Operação Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal (STF). Com efeito, em ação controlada pela Polícia Federal (PF), foi ele flagrado na noite de 28 de abril p.p., correndo por uma rua no bairro dos Jardins, em São Paulo, carregando  mala com R$ 500 mil em dinheiro - que, de acordo com a Polícia Federal, seria propina da JBS.
27.                                 A partir de interceptações telefônicas e de outros dados, a tese dos investigadores é que esta soma teria o Presidente Michel Temer como destino, o que o tornaria alvo de inquérito por suspeita de corrupção passiva, organização criminosa e obstrução de justiça.
28.                                          De acordo com o inquérito, a propina da JBS, que teria sido paga em troca de apoio a demandas do interesse do grupo em órgãos do Governo, seria semanal e se estenderia por até vinte e cinco anos. Ainda de acordo com que teria sido dito pela voz de Rocha Loures, no grampo da Polícia Federal, assim ficaria garantida a "aposentadoria" de Michel Temer.
29.                                       Segundo terá transpirado, o ex-deputado e ex-Assessor do Presidente Michel Temer na Presidência, Rodrigo Rocha Loures, estaria disposto  a fazer a delação premiada.
30.                                        É de notar-se, outrossim, que o ex-deputado e ex-assessor presidencial, encontra-se na Prisão da Papuda, no Distrito Federal. Ali teve o cabelo cortado, segundo uns, por determinação carcereira, segundo outros por causa do calor. Consoante a respectiva esposa, o corte lhe teria feito bem.
31.                                        Dada a manifesta relevância da eventual delação premiada do ex-assessor presidencial, e qual será a respectiva implicação para o futuro, pairam no ar - como diria o velho Aporelli - não só os aviões de carreira, dada a manifesta relevância para o caso,  no que tange às perspectivas do mandato de Michel Temer.
32.                             Por outro lado, o Palácio do Planalto já trabalha com a possibilidade de que o ex-Ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) venha a ser o próximo alvo da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal, em investigações.
33.                                        Segundo interlocutores do Presidente Michel Temer, ele vem sendo "atacado" com o objetivo de desestabilizar o Governo. Nesse sentido, nesta semana, o ex-ministro foi intimado a depor como testemunha no inquérito ligado a Michel Temer.
34.                                        Qual o objetivo da nova investigação?  Geddel estaria sendo investigado pelo suposto recebimento de "vantagens não-contabilizadas" de parte da construtora Odebrecht, no que tange a campanhas eleitorais em 2006 e 2014. Tais pagamentos, consoante o Ministério Público Federal (MPF) tinham sido contabilizados como contrapartida ao apoio de Geddel à aprovação de Medida Provisória e em contratos relativos  ao Transporte Moderno de Salvador II (TMS II).
35.                                 Segundo consta, a investigação foi aberta com base em delações premiadas de três ex-executivos da Odebrecht: Marcelo Odebrecht, herdeiro do grupo, Cláudio Melo Filho e João Antônio Pacífico Ferreira. O caso foi encaminhado em abril, para a Justiça Federal, na Bahia, com cópia para a Procuradoria da República no Estado, porque o ex-Ministro não tem mais foro privilegiado. Com efeito, Geddel deixou o governo em novembro de 2016, após denúncias de que teria pressionado o ex-Ministro da Cultura Marcelo Calero a liberar a construção  de um prédio nos arredores de área tombada em Salvador.
36.                                  Questionado pelo Estado de S. Paulo em fins de maio, o ex-Ministro Geddel Vieira Lima assim se expressou acerca da hipótese de fazer delação: "Isso é uma canalhice, um desrespeito, uma indignidade", declarou ele à época. Agora o ex-Ministro afirma que não comentaria.  Já o advogado de Geddel não foi encontrado.
37.                                          Apesar da alegada má-fama deste novo instituto penal, vale dizer a delação premiada, as reações das personalidades porventura envolvidas por sua capacidade de aliciamento tendem a seguir os parâmetros indicados pelo quadro abaixo descrito.
38.                                           A princípio, desenha-se a rejeição, que semelha ser firme e resoluta. Mas, lenta e gradualmente, as vantagens da delação, por mais calhorda que ela pareça, tem o condão de insinuar-se no pensamento, pois, não é que aliviam do cárcere a pesada carga, e, em certos casos, até a fazem dissipar-se no ar, como nas folhas madidas pelo orvalho? 
39.                                          Chegamos afinal aos trinta e nove degraus  do filme de Hitchcock. Para uns, travessia breve e fatal.  Para outros, o condão da surpresa.                        



[1] Primeiro grande filme de A.Hitchcock