quinta-feira, 25 de maio de 2017

Desordem em Brasília

                              

      A manifestação, convocada pela CUT  e  a Força Sindical,  rapidamente  descambou para a desordem, a depredação e a destruição do Patrimônio Público.
       Compreende-se que na situação de fraqueza  o  Governo de Michel Temer haja decidido convocar as Forças Armadas.  A iniciativa foi criticada por muitos, mas deve ter-se presente, de um lado a gravidade dos danos infligidos ao Ministério da Agricultura, assim como a outros prédios públicos. Por outra parte,  a intervenção da polícia vinha sendo um tanto desordenada, inclusive com policiais militares atirando  não com tiros de festim, mas com munição real.

      É lamentável que tais desordens ocorram, eis que a situação oferece a baderneiros a oportunidade para recorrerem à violência e à danificação dos bens nacionais.  Dado o vulto do desafio, a intervenção da Força Armada contribuíu para o ulterior controle da situação.

Declaração do PGR Rodrigo Janot




       A Folha de S. Paulo de hoje, 24 de maio de 2017, publica à página 7, sob o seguinte título: "Governo encurralado - País seria mais lesado sem acordo com a JBS, diz Janot", e como subtítulo:"Procurador-geral da República sai em defesa da negociação com empresa" , a seguinte matéria,  precedida de observação do jornal em negrita: "Janot tem sido alvo de críticas, em especial de Temer, pelo fato de Joesley e demais da JBS estarem em liberdade".  
       Abaixo segue a matéria em apreço, com as informações prestadas pela Folha, assim como parte do artigo do Procurador-Geral da República: "Em sua primeira manifestação desde a abertura de investigação do presidente Michel Temer(PMDB), o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, defendeu a decisão de firmar acordo de delação premiada com os irmãos Wesley e Joesley Batista.
        A declaração aparece em artigo publicado nesta terça-feira (23) pelo UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha.
         Os empresários da JBS entregaram aos procuradores uma gravação de uma conversa com Temer ocorrida em março. No encontro, que não consta na agenda do presidente, Joesley afirma que tem  um plano para destituir um procurador da Lava Jato que investigava a JBS e que estava "dando conta" de dois juízes.
        No inquérito aberto a partir do acordo de delação, a PGR apontou indícios de três crimes supostamente cometidos pelo presidente: obstrução de Justiça, corrupção passiva e organização criminosa.
         Também são investigados no mesmo inquérito o senador Aécio Neves (PSDB) e o deputado Rodrigo  Rocha Loures (PMDB), próximos de Temer.
          "[Os irmãos Batista] apresentaram gravações de conversas com o presidente da República, em uma das quais se narravam diversos crimes supostamente destinados a turbar as investigações da Lava Jato", afirma Janot no artigo, além de citar "informações concretas sobre contas bancárias no exterior e pagamento de propinas envolvendo quase duas mil figuras políticas".
          "Mesmo diante de tais revelações, o foco do debate foi surpreendentemente deturpado". "Até onde o país estaria disposto a ceder para investigar a razão pela qual o presidente da República recebe, às onze da noite, fora da agenda oficial, em sua residência, uma pessoa investigada por vários crimes, para com ela travar diálogo nada republicano?", diz Janot.
            O artigo foi escrito após a Procuradoria ser criticada pelos benefícios concedidos aos irmãos  no acordo de delação, em especial se comparado a outros, como o da Odebrecht.
            Em pronunciamento, Temer afirmou que os donos da empresa JBS haviam cometido o "crime perfeito". "O autor do grampo está livre e solto, passeando pelas ruas  de Nova York", afirmou o presidente em seu pronunciamento na tarde deste sábado (20).
            No artigo, o procurador-geral afirma que os benefícios dados aos delatores "é ponto secundário do problema". "A alternativa teria sido muito mais lesiva aos interesses do país, pois jamais saberíamos dos crimes que continuariam a prejudicar os honrados cidadãos brasileiros", diz.
             Como procurador-geral da República, não tive outra alternativa senão conceder o benefício da imunidade penal aos colaboradores". Ele justifica com a "gravidade" dos fatos e "provas  consistentes" apresentadas pela JBS.
             Janot também ressaltou que o acordo prevê o pagamento de uma multa de R$ 11 bilhões e diz que a colaboração é "muito maior que os áudios questionados".

              Os R$ ll bilhões citados pelo procurador-geral se referem ao valor sugerido pelo Ministério Público Federal para o fechamento de um acordo de leniência. A empresa, porém, rejeitou esse valor e, vencido o prazo, uma nova negociação foi aberta. O acordo é fundamental para que o grupo siga habilitado a conseguir empréstimos e contratos com o governo."


quarta-feira, 24 de maio de 2017

Flynn apela para a 5ª Emenda

                           

         De todas as emendas constitucionais, esta é a mais controversa e, em geral, não ajuda muito a quem pretende dela servir-se.
         Como indicou para o New York Times, o advogado Raymond Granger, de Nova York, antes promotor do estado e também federal, a decisão de Flynn de valer-se da 5ª Emenda nesse caso constitui um erro comum de testemunhas. Essa emenda não se reporta a documentos, mas a proteger cidadãos americanos por declarações a que tenham sido compelidos a fazer. Não se reporta, portanto, a declarações em que se pretenda proteger-se contra a auto-incriminação.
   
        Como se sabe, essa indicação de Trump para o prestigioso posto de Assessor de Segurança Nacional só ficou 24 dias nesse cargo, tendo sido forçado a exonerar-se após vir a público que mentira para o Vice-Presidente acerca de seus contatos com o Embaixador russo.

           A qualidade ética desse funcionário ficou patente quando ele declarara que nada recebera de companhias estrangeiras e tivera apenas contatos sem qualquer substância  com alienígenas. Tudo isso veio abaixo quando ficou patente que ele dois meses antes  sentara-se ao lado do Presidente Putin, em exibição de gala da tv russa, que pagou ao general da reserva Flynn cerca de 45 mil dólares para participar do evento e dar um discurso em separado...
             Agora o ex-Assessor de Segurança Nacional - que dadas as suas falhas teria curtíssima permanência  no relevante cargo - deve ora preparar-se  para ulteriores incômodos, eis que, pelo visto,  invocar a 5ª Emenda pode tornar a sua posição ainda mais precária.


( Fonte: The New York Times ) 

Audiência do Papa a Trump

                              

              Personalidades distintas e posições políticas igualmente díspares, que a visita do Presidente Donald Trump ao Sumo Pontífice tenha transcorrido em ambiente cordial é indicação inequívoca da vontade de ambos de, conscientes das respectivas divergências, procurarem encontrar um espaço mútuo de  concordância, mesmo que seja o de se por de acordo... para discordar.

            Na sua primeira viagem ao estrangeiro como 45º presidente, Trump procurou reduzir as arestas, ou pelo menos dar-lhes menor realce.  A preocupação de Papa Francisco  estava, no entanto, presente na inclusão de sua Encíclica  sobre o Meio ambiente, entre as dádivas protocolares que destinou ao visitante, de acordo com a usança  da Santa Sé.

           No mesmo sentido, dada a conhecida posição de Trump em retirar o seu país  do Acordo sobre o Clima, o Secretário de Estado, Cardeal Pietro Parolin, encareceu a Trump não retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o Clima.
          

( Fonte: The New York Times. )

terça-feira, 23 de maio de 2017

Colcha de Retalhos E 18

                              

PSDB e DEM sustentam Temer

       Ao contrário de outros partidos, as cúpulas do PSDB e do DEM decidiram esperar até a decisão do STF sobre o recurso de Michel Temer.
       Se o Supremo, em caso inédito, suspender  inquérito contra Temer, pesará no julgamento a credibilidade da denúncia, se forem  afastadas suspeitas de que o audio da entrevista na Jaburu terá sido objeto de manipulação.
        Nesta 4ª Feira o STF decidirá se mantém ou não o inquérito aberto para investigá-lo.

Trump na Arábia Saudita      
        
          O presidente Donald Trump foi à Ryadh para promover uma mega-venda de armas à Arábia Saudita. Achou oportuno fazer apelo aos líderes árabes que expulsassem  aqueles que promovessem o ódio nos seus países.
            A conexão entre a venda de armas e o apelo posterior a uma postura mais dura contra a violência internacional, com a tentativa de marginalização das linhas mais violentas e agressivas  no mundo árabe, tende a parecer como uma dessas políticas que não têm maior possibilidade de implantação,dada a pecha que muitos desses países desejariam evitar ao darem motivo de serem apontados como moderados.

 O Extremo Oriente      

          Enquanto o líder da Coréia do Norte continua com a sua normal atuação, que é fazer todo o contrário de o que desejaria o Presidente Trump, outra notícia sinalizou uma mortandade inesperada que, pelo visto, terá ocorrido em silêncio, e somente agora é trazida para o grande público ocidental.
             Sob o regime do novo chefe chinês, Xi Jinping, a CIA perdeu um número substancial de o que antes se chamava espião, e hoje é referido como agentes de inteligência.
             De qualquer forma,  a notícia que transpirou não induz qualquer otimismo sobre  possível abertura da RPC ao Ocidente.
             É claro que a suposta eliminação de agentes de informação - pelo visto neste caso realizada de forma metódica e abrangente - além de constituir risco considerável para o intercâmbio internacional, ao fazer que a procura do conhecimento artístico e cultural possa ser confundida com a atividade dos espiões, que nada tem a ver com as correntes culturais. espionagem essa versão para essa atividade que já convive com tantos perigos.

             O agente estrangeiro de inteligência enfrenta na RPC um enorme risco. Se tal constitui perigo que vai junto com a atividade - a abertura dos países às influências estrangeiras é aspecto de todo diverso. Outra coisa bastante diversa é a espionagem que se no corrente não desperta no Ocidente a atitude de antanho - quando toda essa atividade era jogada no mesmo balaio do preconceito contra o alienígena - tampouco será vista com bons olhos, se ela visar a fins outros que os culturais e artísticos.

Atentado em Manchester

                               

        O atentado na Arena de Manchester, na Inglaterra, durante o show de Ariana Grande, com o público jovem, muitos adolescentes e até crianças, compõe a textura, a um tempo cruel, mas também imprevisível, das assistências na Inglaterra, e em outras paragens do Ocidente, enquanto à sua exposição aos sinistros projetos do ISIS. Basta um fanático que acredite na estória de que está participando na luta para golpear o cruel e impio Ocidente com a adjunta promessa de que ruma prontamente para o paraíso islâmico, aonde o espera o acompanhamento de dezenas de huris, tudo isso na sequência de anos de imigração com os portões abertos, tende a formar explosiva torta  com efeitos homicidas a médio e longo prazo, que é para tantos incongruente e até mesmo estúpida. Para compor tal drama - que é  transportável alhures, dado o horrendo, mas inegável êxito nos replays anteriores - não basta a eventual incúria e, mesmo ignorância, dos organizadores, além da própria cupidez, mas também o alheamento de muitos responsáveis, que, para não parecerem caretas, delegam demasiado para os jovens e adolescentes, sobre os quais tenham alguma formal responsabilidade. Se ao invés, lavam as mãos,  em um entorno de alegre displicência, enquanto os organizadores e os artistas da ocasião mergulham nas delícias do público que, por condicionamento da adolescência, tende a pensar nas experiências de seus maiores, quando as grandes aglomerações eram promessa de memoráveis diversões, livres então dos perigos que rondam tais espetáculos hodiernos. Deixa perplexo a muitos que se perguntam o ritual Porquê?, depois do fato, quando, diante do permeante e envolvente passado mediato,que é demasiado transido por infernais armadilhas e facilitados massacres para que possa ser esquecido em mais este triste, melancólico espetáculo, de que, como Virgílio, tenho horror em relatar, carnificina esta provocada por estágios diversos na estrada da civilização, pois há gente de ainda tenra idade que se deleita nos panes et circences, enquanto falta aos mais velhos, discernimento e/ou capacidade de supervisionar, como v.g. àquelas autoridades que fazem rodar caminhões com lúridos, xenófobos cartazes pelas vizinhanças pobres para incrementar a massa de manobra contra a imigração. Trágico engano, porque em geral penalizam o imigrante de boa fé e fomentam pobreza e indigência, enquanto se vestem de democratas e instigam vis preconceitos contra aqueles perseguidos. Melhor seria que abrissem os braços, enquanto protegessem os ingressos de tais manifestações com a necessária tecnologia que há de apontar os fanáticos - que carregam explosivos. É mais do que hora que evitemos essas cruéis  e cruentas hecatombes, pelas quais mostra o Isis a face a um tempo sinistra e rudimentar, que zomba da incúria do Ocidente, que tanto lhe facilita a ignóbil e execrável encenação da morte, que a todos gelidamente abraça, enquanto desses um punhado de tolos estúpidos pensa ter o passe-livre para o imaginário paraíso, construído com a trágica argamassa da superstição.   



( Fontes: Publius Vergilius Maro, mídia )       

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Entrevista de Temer à Folha de S. Paulo


                    
         Em entrevista à Folha, publicada em 1ª página,  o presidente afirmou que ' não renuncia; se quiserem, me derrubem'.
          Sobre a entrevista em si, disse o Presidente: "Eu tenho demonstrado com relativo sucesso que o que o empresário fez foi induzir uma conversa."
          Acerca de eventual culpa, Temer respondeu: "Ingenuidade. Fui ingênuo ao receber uma pessoa naquele momento."
          Folha:  O Sr estabeleceu que ministro denunciado será afastado e, se virar réu, exonerado.  Caso o PGR o denuncie, o sr. vai se submeter a essa regra?
           Michel Temer: Não, porque eu sou chefe do Executivo. Os ministros são agentes do Executivo, de modo que a linha de corte que eu estabeleci para os ministros, por evidente, não será a linha de corte para o presidente.
           Folha: Mas o sr. voluntariamente poderia se afastar.
           M.T. : Não vou fazer isso, tanto mais que já contestei muito acentuadamente a gravação espetaculosa que foi feita. Tenho demonstrado com relativo sucesso que o que o empresário fez foi induzir uma conversa. Insistem sempre no ponto que avalizei um pagamento para o ex-deputado Eduardo Cunha, quando não querem tomar como resposta o que dei a uma frase dele em que ele dizia: "Olhe, tenho mantido boa relação com o Cunha".(E eu disse): "Mantenha isso". Alem do quê, ontem mesmo o Eduardo Cunha lançou uma carta em que jamais pediu (dinheiro) a ele (Joesley) e muito menos a mim. E até o contrário. Na verdade, ele me contestou algumas vezes. Como eu poderia comprar o silêncio, se naquele processo que ele sofre em Curitiba, fez 42 perguntas, 21 tentando me incriminar?"
            Folha:  O Joesley falar em zerar, liquidar pendências. Não sendo dinheiro, seria o quê ?
             M.T.:  Não sei. Não dei a menor atenção a isso.  Aliás, ele falou que tinha (comprado) dois juízes e um procurador. Conheço o Joesley de antes deste episódio. Sei que ele é um falastrão, uma pessoa que se jacta de eventuais influências. E logo depois ele diz  que estava mentindo.
             Folha:  Não é prevaricação se o sr. ouve um empresário dentro da sua casa relatando crimes?
              MT : Você sabe que não? Eu ouço  muita gente, e muita gente me diz as maiores bobagens que eu não levo em conta. Confesso que não levei essa bobagem em conta. O objetivo central da conversa não era esse. Ele foi levando a conversa para um ponto, as minhas respostas eram monossilábicas...
              Folha: Quando o sr. fala "ótimo, ótimo", o que o sr. queria dizer?
              MT:  Não sei, quando ele estava contando que estava se livrando das coisas, etc.
               Folha: Era nesse contexto da suposta compra de juízes.
               MT: Mas veja bem. Ele é um grande empresário. Quando tentou muitas vezes falar comigo, achei que fosse por questão da [Operação] Carne Fraca. Eu disse: "Venha quando for possível, eu atendo todo mundo" [Joesley disse]: 'Mas eu tenho muitos interesses no governo, tenho empregados, dou muito emprego". Daí ele me disse que tinha contato com Geddel [V.Lima, ex-Ministro], falou do Rodrigo [Rocha Loures], falei: "Fale com o Rodrigo quando quiser, para não falar toda hora comigo."
               Folha: Ele buscou o sr. diretamente?
               MT: Ele tentou três vezes me procurar. Ligou uma vez para a minha secretária, depois ligou aquele rapaz, o [Ricardo] Saud, eu não quis atendê-lo. Houve um dia em que ele me pegou, conseguiu o meu telefone, e eu fiquei sem graça de não atendê-lo. Eu acho que ele ligou ou mandou alguém falar comigo, agora confesso que não me recordo bem.
               Folha: Por que não estava na agenda? A lei manda.
               MT: Você sabe que muitas vezes eu marco cinco audiências e recebo 15 pessoas. Às vezes à noite, portanto inteiramente fora da agenda. Eu começo recebendo às vezes no café da manhã e vou para casa às  22hs, tem alguém que quer conversar comigo. Até pode-se dizer, rigorosamente, deveria constar da agenda. Você tem razão.
               Folha:  Foi uma falha?
               MT: Foi, digamos, um hábito.
               Folha: Um hábito ilegal, não?
               MT:  Não é ilegal porque não é da minha postura ao longo do tempo [na verdade, está na lei 12.813/13]. Talvez eu tenha de tomar mais cuidado. Bastava ter um detector de metal para saber se ele tinha alguma coisa ou não, e não me gravaria.
               Folha: É moralmente defensável receber tarde da noite, fora da agenda, um empresário que estava sendo investigado?
               MT: Eu nem sabia  que ele estava sendo investigado.
               Folha: O sr. não sabia?
               MT: No primeiro momento, não.
               Folha: Estava no noticiário o tempo todo, presidente [Joesley naquele momento era investigado nas operações Sepsis, Cui Bono? e Greenfield].
               MT: Ele disse na fala comigo que as pessoas estavam tentando apanhá-lo, investigá-lo.
                Folha: Um assessor muito próximo do sr.[Rocha Loures] foi filmado  correndo  com uma mala pela rua. Qual sua avaliação?
                MT:  Vou esclarecer direitinho.  Primeiro, tudo foi montado. Ele [Joesley] teve treinamento de quinze dias, vocês que deram [refere-se à Folha], para gravar, fazer a delação, como encaminhar a conversa.
                 Folha: A imagem dele correndo com dinheiro não é montagem.
                 MT: [Irritado] Não, peraí, eu vou chegar lá, né, se você me permitir... O que ele [Joesley] fez? A primeira coisa, o orientaram ou ele tomou a deliberação: "Grave alguém graúdo".
                   Depois, como foi mencionado o nome do Rodrigo, certamente disseram: "Vá atrás do Rodrigo".  E aí o Rodrigo certamente foi induzido, foi seduzido por ofertas mirabolantes e irreais.
                 Agora, a pergunta que se impõe é a seguinte:a questão do CADE foi resolvida? Não foi. A questão do BNDES foi resolvida?Não  foi."
                    Folha: O Rocha Loures errou ?                                                                                    MT:  "Errou, evidentemente".
                    Folha: O Sr. se sente traído?
                    MT: Não vou dizer isso, porque ele é um homem, coitado, ele é de boa índole, de muito boa índole. Eu o conheci como deputado, depois foi para o meu gabinete na Vice-Presidência, depois me acompanhou na Presidência,mas um homem de muito boa índole.
                    Folha: Ele foi filmado com R$ 500 mil, que boa índole é essa?
                    MT:  Sempre tive a convicção de que ele tem muito boa índole. Agora, que esse gesto não é aprovável.
                    Folha: O sr. falou com ele desde o episódio?
                     MT:  Não. 
                     Folha:  O sr. rompeu com ele?
             MT: Não se trata de romper ou não romper, não tenho uma relação, a não ser uma relação institucional [com ele].
             Folha: Quando o Sr. diz para o Joesley que ele poderia tratar de "tudo" com o Rodrigo Rocha Loure, o que o sr. quer dizer?
             MT:      Esse tudo são as matérias administrativas. Não é tuuudo [alongando o 'u']. Eu sei a insinuação que fizeram: "Se você tiver dinheiro para dar para ele, você entregue para ele". Evidentemente que não é isso. Seria uma imbecilidade, da minha parte, terrível.
              Folha: O senhor o conheceu há quantos anos ?
              MT: Quando ele era deputado, portanto, há uns dez anos.
              Folha: E mesmo o conhecendo há dez anos, ele tendo sido seu assessor...
               MT: Mas espera aí, eu conheço 513 deputados há dez anos.
               Folha: Mas apenas ele foi seu assessor próximo.
               MT: Como são próximos todos os meus assessores.
               Folha: E mesmo próximo era apenas uma relação institucional?
               MT: Institucional, sem dúvida.
               Folha: Nos últimos dias, o sr. veio numa escalada nas declarações. Acha que a Procuradoria-Geral armou para o senhor?
                MT: Eu percebo que você é muito calma [risos]. Espero que você jamais sofra as imputações morais que eu sofri.Eu estava apenas retrucando as imprecações de natureza moral gravíssimas, nada mais do que isso.Agora, mantenho a serenidade, especialmente na medida em que eu disse: eu não vou renunciar, especialmente na medida em que eu disse: eu não vou renunciar. Se quiserem, me derrubem, porque, se eu renuncio, é uma declaração de culpa.
                 Folha: No pronunciamento o sr. foi muito duro com o acordo de delação.
                 MT: Não faço nenhuma observação em relação à Procuradoria. Agora chamou a atenção de todos  a tranquilidade com que ele [Joesley] saíu do país, quando muitos estão na prisão. Ou, quando saem, saem com tornozeleira. Além disso, vocês viram o jogo que ele fez na Bolsa. Ele não teve uma informação privilegiada, ele produziu uma informação privilegia-da. Ele sabia, empresário sagaz  como é, que no momento em que ele entregasse, o dólar subiria e as ações de sua empresa cairiam. Ele comprou US$l bilhão e vendeu as ações antes da queda.
                 Folha: Se permanecer no cargo, em setembro tem de escolher um novo procurador. O Sr. acha que tem condição de conduzir tal processo sem estar contaminado depois de tudo isso que está acontecendo?
                 MT: Contaminado por esses fatos? Não me contamina, não. Aliás, eu tiro o "se". Porque eu vou continuar.
                 Folha: É preciso alguma mudança na maneira como esses acordos são feitos? Mudança na lei?
                 MT: Acho que é preciso muita tranquilidade, serenidade, adequação dos atos praticados. Não podem se transformar em atos espetaculosos. E não estou dizendo que a Procuradoria faça isso, ou o Judi-ciário. Mas é que a naturalidade com que se leva adiante as delações... Você veja, as delações estão sob sigilo. O que acontece? No dia seguinte, são públicas. A melhor maneira de fazer com que eles estejam no dia seguinte em todas as redes de comunicação é colocar uma tarja na capa dizendo: sigiloso.
                   Folha: Esse processo dá novo impulso ao projeto de lei de abu-so de autoridade ?
                   MT: É claro que ninguém é a favor do abuso de autoridade. Se é preciso aprimorar toda a legislação referente a abuso de autoridade, eu não saberia dizer. Abusar da autoridade é ultrapassar os limites legais.
                Folha: O Sr. falou muito do Joesley. Mas qual é a culpa que o sr. tem?
                MT: Ingenuidade. Fui ingênuo ao receber uma pessoa naquele momento.
                Folha: Além dos áudios, há depoimentos em que os executivos  da JBS fazem outras acusações. Por exemplo, que o sr. pediu caixa dois em 2010, 2012 e 2016. Inclusive para o [marqueteiro] Elsinho Mouco, para uma campanha da internet.
             MT: No caso do Elsinho, ele fez a campanha do irmão do Joesley, e por isso recebeu aquelas verbas. Fez trabalhos para a empresa Diz que até  recentemente, esse empresário grampeador pediu se o Elsinho poderia ajudá-lo na questão da Carne Fraca.       
              Folha: Empresário grampeador?
              MT: Mas qual é o título que ele tem de ter? Coitadinho, ele tem de ter vergonha disso.Ele vai carregar isso pelo resto da vida.E vai transmitir uma herança muito desagradável para os filhos.
              Folha: Nos depoimentos, há conversa do Loures com o Joesley sobre a suposta compra do Cunha que é muito explícita.
              MT: Por que é explícita?
              Folha: Porque eles conversam sobre pagamentos.
              MT: Você está falando de uma conversa de Joesley com o Rodrigo. De repente, você vai me trazer uma conversa do Joesley com o João da Silva.
              Folha: O Rocha Loures não é um João da Silva.
              MT (irritado) Eu sei, você está insistindo nisso, mas eu reitero que o Rodrigo era uma relação institucional que eu tinha, de muito apreço até, de muita proximidade. Era uma conversa deles, não é uma conversa minha.
              Folha: Um desembarque do PSDB e do DEM deixaria o sr. em uma situação muito difícil. O sr. já perdeu PSB e PPS.
              MT: O PSB eu não perdi agora, foi antes, em razão da Previdência. No PPS, o Roberto Freire veio me explicar que tinha dificuldades. Eu agradeci, mas o Raul Jungmann, que é do PPS, está conosco.
              Folha: Até onde o sr.acha que vai a fidelidade do PSDB?
              MT: Até 31/12 de 2018.
              Folha: Até que ponto vale a pena continuar sem força política para aprovar reformas e com a economia debilitada? 
                 MT:  Isso é você quem está dizendo.Eu vou revelar força política precisamente ao longo dessas próximas semanas com a votação de matérias importantes.
                 Folha: O sr. acha que consegue?
                  MT: Tenho absoluta convicção de que consigo. É que criou-se um clima que permeia a entrevista do senhor e das senhoras de que vai ser um desastre, de que o Temer está perdido. Eu não estou perdido.
                   Folha: O julgamento da chapa Dilma-Temer recomeça no TSE em seis de junho. Essa crise pode influenciar a decisão?
                   MT: Acho que não. Os ministros se pautam não pelo que acontece na política, mas pelo se passa na vida jurídica.
                   Folha: Se o TSE cassar a chapa, o sr. pretende recorrer ao STF?
                   MT: Usarei os meios que a legislação me autoriza a usar. Agora, evidentemente que, se um dia, houver uma decisão transitada e julgada eu sou o primeiro a obedecer.
                    Folha: O sr. colocou ênfase no fato de a gravação ter sido adulterada. Se a perícia concluir que não há problemas, o sr. não fica em situação complicada?
                     MT: Não. Quem falou que o áudio estava adulterado foram os senhores, foi a Folha [com base em análise de um perito feita a pedido do jornal]. E depois eu verifiquei que o "Estadão" também levantou o mesmo problema. Se disserem que não tem modificação nenhuma eu direi: a Folha e o "Estadão" erraram.
                    Folha: Como o Sr. vê a OAB pedir o seu impeachment?
               MT: Lamento pelos colegas advogados. Eu já fui muito saudado, recebi homenagens da OAB. Tem uma certa surpresa minha, porque eles me deram espada de ouro, aqueles títulos fundamentais da ordem, agora se comportam dessa maneira. Mas reconheço que é legítimo.
               Folha: Em quanto tempo o sr.acha que reaglutina a base?
               MT:  Não sei se preciso reaglutinar. Todos os partidos vêm dizer que estão comigo. É natural que entre os deputados... Com aquele bombardeio, né?  Há uma emissora de televisão (TV Globo) que fica o dia inteiro bombardeando.
                Folha: Essa crise atrasou quanto a retomada da economia?
                 MT: Tenho de verificar o que vai acontecer nas próximas semanas. [Henrique] Meirelles (Fazenda) me contou que se não tivesse acontecido aquele episódio na quarta [dia da divulgação do caso], ele teria um encontro com duzentos empresários, todos animadíssimos. (Essa crise) causa um mal para o país.
                 Folha: Como o sr. está sentindo a repercussão de seus dois pronunciamentos, mais incisivo?
                 MT: Olha, acho que eles gostaram desse novo modelito [risos]. As pessoas acharam que eu... Enfim temos presidente.


(Transcrito na íntegra da Folha de S.Paulo, de 2ª feira, 22 de maio de 2017)