sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Tragédia ou Farsa ?

                                        

          Como diria o velho Aporelli, havia mais coisas no ar do que os aviões de carreira. Por isso, a impressão que sobrepairava, da expectativa de o que não foi. A opinião pública esperava, mas não ousava confiar no que traria a sentença do Tribunal Superior Eleitoral.
         Com o contraponto da validação de dois partidos sem voto – o Solidariedade, de Paulinho da Força e o PROS, de um ignoto ex-vereador de Goiás – chegara a hora de decidir sobre o destino de um terceiro partido – a Rede de Sustentabilidade, de Marina Silva.
         Enquanto os dois outros se somaram ao estapafúrdio número de trinta partidos, compondo trinta e dois (o Brasil, sem a cláusula de barreira, denegada pelo Supremo em assomo de proteção ideológica que descambou para o ridículo), singrando em mar de almirante, colhendo mesuras dos ministros e demais votantes, o quadro só estaria completo com o julgamento (e põe julgamento nisso!) do terceiro candidato a partido. A Rede diferia da dupla, não só porque tinha um projeto com votos, mas por estar associado aos ventos novos da política, ventos esses trazidos pelo movimento do passe livre.  Solidariedade e Pros são formações que se inserem na velha política desta nova república, com as suas legendas de aluguel.
         A seriedade com que o procurador Eugênio Aragão – no rito da pré-denegação – já evidenciara, não teve reflexos no que concerne ao Solidariedade, pelos apoiamentos trazidos por um morto, além dos nove servidores do Senado, recolhidos em listas de assinatura, malgrado não tenham assinado o requerimento pró-partido do Deputado Paulinho da Força (SP).
         Para sua honra, o Ministro Gilmar Mendes não permitiu a unanimidade de sete contra a Rede. Logo tocou nota dissonante, quebrando a monótona repetição do formalismo negativista. No seu entender, não se tratava de aceitar o registro de um partido que não apresentou o número de assinaturas exigidas pela lei, mas de reconhecimento do abuso cometido contra a Rede.
         E alçando o tom, acentuou: “Espero que nunca mais tenhamos uma sessão como esta, que a reforma política supere esse modelo. Sessão em que a Justiça Eleitoral, tão moderna, tenha que passar pelo constrangimento de mostrar a ineficiência de seus cartórios”.
         Por último, votou a Presidente do TSE. A sorte já estava lançada, e o que se anunciara, confirmado. O seu voto, que pretendeu ser sobretudo uma contestação ao Ministro Gilmar Mendes, me surpreendeu, tendo presentes outras intervenções da Ministra Carmen Lúcia: “Estamos aqui aplicando a lei de ofício e com obrigação, se não é preciso revogar a lei. Legalidade não é argumento. Legalidade é dever, ministro Gilmar Mendes. Se o pedido fosse aceito, aí sim seria casuísmo. Também espero, ministro Gilmar, que haja reforma política e que nós não precisemos disso, que a biometria possa suprir. Voto lamentando, gostaria muito que este partido pudesse receber (o registro) por deferimento. Mas não houve a apresentação de um requisito.”
          O dia três de outubro, jornada tão importante por assinalar o início da Revolução de 1930, feita para alcançar a validade e a confiabilidade do sufrágio – tão conspurcadas pela República Velha, dos votos a bico de pena -  não é mais feriado nessa república, embora continue a ser homenageada por servir de data para os grandes pleitos eleitorais.
            No dia de ontem, semelha difícil entrever uma homenagem ao voto, porque se recusara o veículo para a candidatura de alguém que se apresenta nas prévias como a antagonista de o que aí está. Marina é a esperança de uma nova Política, esperança esta que nos foi trazida por movimento cuja autenticidade até o presente ninguém ousou contestar.
             Por isso, enquanto se recusa o registro à Rede, por alegadamente carecer dos necessários apoiamentos, o seu nome estranhamente avulta nas listas das pesquisas, sendo a única a vedar à atual ocupante do Palácio do Planalto a eleição em primeiro turno.
             Alguma coisa anda errado nesse quadro. Como de cara limpa há gente que afirme que o resultado de ontem, se Marina optar por recusar as inúmeras ofertas de legenda que lhe ora são feitas, seria do agrado do Palácio do Planalto, peço vênia para modestamente discordar.
             Se esta porta fechada à Rede é do agrado da Presidenta, parece-me que ainda é tempo de uma eleição para valer, e não para constar. Uma que leve ao segundo turno, na ordem determinada pelo Povo soberano, a primeira com o apoio de Lula da Silva, e a segunda, levantando a bandeira da reforma autêntica, aquela desejada pelas passeatas de junho.

 

(Fonte: O  Globo)

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O Apresamento do Arctic Sunrise


                           
        Será que a direção e a equipagem do navio Arctic Sunrise, da Greenpeace, empenhada em ação demonstrativa contra a Rússia, tinha plena consciência dos riscos políticos envolvidos ?  A exploração petrolífera no Ártico – que atualmente é um dos cenários mais flagrantes dos múltiplos efeitos da elevação da temperatura média da Terra –  representa ameaça ponderável para a frágil ecologia daquela região.
        A truculenta reação russa – e não me reporto à tentativa de abordagem da plataforma de petróleo da companhia – mas sim à apreensão do navio, rebocado até o porto de Murmansk, com a tripulação detida e submetida a interrogatório.  O comandante do navio é um americano, Peter Willcox, e estavam no ‘Arctic Sunrise’ cidadãos de dezessete outros países.  A brasileira Ana Paula Maciel, bióloga de 31 anos, acha-se entre os prisioneiros. A sua foto, encerrada em uma espécie de jaula, ao ser procedido o rito de instrução judicial, recorda instantâneos similares, tomados pela imprensa, de três jovens russas do Pussy Riot, presas por terem realizado uma espécie de show – com duração de menos de um minuto - na catedral moscovita de Cristo Rei.
          Hoje duas delas – Nadezhda Tolonnikova e   Maria Alekhina   - apodrecem em colônias penais, submetidas a condições de crua dureza que relembram os terríveis Gulags, que nos foram descritos por Aleksandr Solzhenitsyn, em diversos livros, a começar pela obra Um dia na vida de Ivan  Denisovich, cuja publicação foi autorizada por Nikita Krushev.
          As condições de detenção na Rússia não mudaram muito desde o século XIX, quando coube a Fiodor Dostoievski a dúbia distinção de ser mandado para uma casa dos mortos na Sibéria. No período comunista, se houve alterações, o foram para pior, como está o arquipélago prisional do camarada Stalin para demonstrar a todos aqueles que por diversos motivos (inclusive a paranoia do grande líder) foram para lá mandados a fim de serem despojados das remanescentes ilusões acerca do paraíso socialista.
         O atual regime, presidido por Vladimir Putin, é violenta corruptocracia. Como mostrei em blog recente, valendo-me do testemunho de Masha Gessen, as chamadas colônias penais da Federação Russa podem ser ainda piores do que as cadeias brasileiras.
         Pode ser que a circunstância de o apresado Arctic Sunrise reunir nacionais de dezessete países venha a convencer o arbitrário governo de gospodin Putin a encaminhar uma solução diplomática para a questão, dada a potencialidade de enorme desgaste para o Kremlin se resolver trancafiar os idealistas da Greenpeace nas masmorras russas, como se fossem terroristas da al-shabab. No entanto, Putin cinicamente comparou a imagem do ‘ataque’ de uma equipe da tripulação do barco da Greenpeace com o recente magnicídio terrorista ao mall de Nairobi, capital do Quênia, como se houvesse qualquer parâmetro de cotejo entre os dois atos.
         Por isso, a diplomacia brasileira e a própria Presidente Dilma devem arregaçar as mangas, para criar condições para que a bióloga Ana Paula, caída nas malhas da justiça russa, de resto um dócil instrumento nas mãos do Presidente Putin, possa ser rapidamente liberada do inferno carcerário em que se encontra. Nesse sentido, para alguma coisa devem servir a tal propósito as reuniões do BRIC, por mais hiper-estrutural que se afigure o acrônimo.  

 
(Fontes: International Herald Tribune,  O  Globo)

O Revés de Berlusconi

                                      

        Embora setores da mídia tenham anunciado o último tropeço de Silvio Berlusconi como o fim do Cavaliere do protagonismo na política italiana,  sua história pregressa recomenda certa prudência, dada a capacidade desse líder de reverter situações aparentemente ruinosas.
        É mister, no entanto, consignar que o espetáculo no plenário de Palazzo Madama, do Senado italiano teve todos os ingredientes da consumada queda, seguida de humilhação, de grande figura do cenário itálico.
        Berlusconi, condenado em última instância a quatro anos de cadeia, e marcado para ser despojado da senatoria, diante de uma situação adversa, cometeu um erro de avaliação que, dados os antecedentes do personagem, pode ser até compreendido, mas que, pelas circunstâncias, representou a gota d’água em uma taça já plena.
        O Cavaliere vem acumulando escândalos e, pelo uso repetido e com sucesso, dos próprios expedientes para, de alguma forma, neutralizá-los, terá pensado que o problema da vez não iria diferenciar-se dos anteriores.
        Pela arrogância e sobretudo a húbris, sua velha companheira, pensou que disporia do enésimo desafio como das vezes anteriores. Enganou-se, porém, eis que se propunha a jogar no chão o gabinete de Enrico Letta, composto como ultima ratio para salvar a Itália, abalada por uma crise maior de confiança nas instituições, e que para surpresa quase geral vem atuando com discrição, habilidade e competência para contornar os inúmeros escolhos e arrecifes da política peninsular.
       E para tanto Silvio Berlusconi julgou que bastaria a afronta de aplicar-lhe as consequências da condenação pela mais alta Corte da justiça italiana. Em outras palavras, jogar a frágil situação tanto política quanto econômica da República Italiana ao mar, como se nada devesse ser ousado contra ele. Com isso, ele cometia manobra tão canhestra quanto a do Comandante Schettino, presumindo que poderia por e dispor de seus ministros no gabinete, como se fossem fantoches a serem sacrificados diante do ídolo itálico.
      Esqueceu-se que, mesmo para os aúlicos, há limite para tudo, e, ou pela repetição, ou pela falta de sensibilidade, colocado na balança, ei-lo descoberto a não pesar o bastante para sustar, como em tempos precedentes, a nêmesis tão anunciada, quanto no passado adiada.
       Surgiu, por isso, o movimento palaciano – diante da enormidade da pretensão de tornar a sorte da República cativa perene de suas estripulias – desta feita se propagou e os ministros do partido Povo da Liberdade se negaram a abandonar a nave do governo.
      Eis que Berlusconi foi à terra pelo murro mais traiçoeiro que exista – aquele não previsto, que sai não se sabe de onde, e que causa o nocaute.
      Será que este é o quinto ato, e estamos diante do epílogo ?
      Se os personagens e o país fossem outros, talvez a resposta seria mais fácil. Em se tratando de Silvio Berlusconi, e da política italiana contemporânea, a última palavra terá saído realmente do forno ? Na terra das peripécias, não há negar que as suas já são portentosas na repetição.

      Se até a pitonisa de Delfos, instruída por Apolo, vestia os seus ditos oraculares com os véus da ambiguidade, quem ousará proceder de modo diferente diante desse personagem da Commedia dell’arte ?

 

(Fontes: O Globo, International Herald Tribune)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O TSE e Marina

                                          

         Já foi oportunamente lembrada alhures a posição do Tribunal Superior Eleitoral em momento importante para a democracia brasileira. O regime militar reivindicava que o voto no colégio eleitoral - que designaria o primeiro presidente civil desde a derrubada de João Goulart em abril de 1964 – formado pelos parlamentares de Senado e Câmara estivesse jungido pela fidelidade partidária. Nessas condições, o sufrágio seria mera formalidade, porque o Partido Democrático e Social (PDS) dispunha de número suficiente para eleger, por votação indireta, o sucessor do general João Figueiredo.
         Para sua honra, o TSE de então mostrou discernimento, ao abrir a votação para Presidente da República. Se a transição, à brasileira, se faria com o jeitinho do voto indireto, não se agregariam mais penduricalhos a esta assembleia ad hoc. O sufrágio seria livre, sem condicionamentos nem restrições com o velho ranço do regime discricionário.
         E por isso foi eleito Tancredo Neves. Se infelizmente não se empossou na Presidência, a decisão não foi nem verde-oliva, nem do TSE. Foi das Parcas. A instância competente se limitou a abrir o voto, sem impedimentos que o desvirtuariam.
         Marina e a sua Rede de Sustentabilidade está sendo criticada na imprensa e fora dela por motivos acessórios, que pouco têm a ver com o que está em jogo.
         É notório – e vergonhoso – o número de partidos reconhecidos na democracia brasileira. Se tal se deva em grande parte ao desvirtuamento provocado pela não-aceitação pelo Supremo de qualquer cláusula de exclusão de partido – sob o pretexto da abertura democrática incondicional da Constituição Cidadã – grita aos céus a legitimidade da Rede de Marina, diante do pálido cotejo com os dois outros partidos (Solidariedade e Pros) já aprovados pelo TSE.
        Pergunto-me se o parecer do vice-procurador-geral eleitoral, Eugênio Aragão, será o prego faltante para o féretro da licença para a Rede, que continuaria “sem condições de ser atendido”. 
        Não computadas as assinaturas que foram rejeitadas sem justificação pelos cartórios eleitorais, a legenda de Marina entregou ‘apenas’ 442,5 mil  assinaturas validadas pelos cartórios eleitorais.
        No parecer, o procurador Aragão afirma ter “certo pesar” em recomendar  a rejeição de uma legenda a princípio “marcada pela lisura”. Nesse contexto, frisa que o processo não contém qualquer indício de fraude, tendo sido procedimento, pelo que se constata dos autos, marcado pela lisura”.  Não obstante e “ao contrário de outros recentemente apresentados a essa corte” (indireta menção à suspeita de fraude pelo Pros e o Solidariedade)...
         A Rede difere da grande maioria das legendas de aluguel que caracterizam a maior parte dos 32 partidos. Os seus ‘companheiros’  Solidariedade (do Paulinho da Força) e o PROS podem ter a chancela do TSE, mas não têm votos. Enquanto este último já nasce governista e acolhe a família Gomes, o Solidariedade entra noutro esquema, que tampouco diz respeito a candidatos com apoio popular.
         As críticas dirigidas à Rede pecam pela pobreza dos próprios argumentos. Em nenhum momento se preocupam com a essência do sufrágio e o que está realmente em jogo. São tão pequenos e mesmo mesquinhos, que não suportam um exame mais aprofundado.
 
        O que eu espero deste julgamento do TSE sobre a postulação de Marina é que demonstre a mesma abertura e a mesma grandeza que os seus longínquos antecessores do TSE – então num período de lusco-fusco, em que se saía de uma ditadura de mais de vinte anos – demonstraram ao não se deixar iludir pelas lantejoulas armadas pelo PDS,  abrindo as cancelas da democracia. Se evidenciarem similar grandeza na vindoura votação, Marina Silva não tem nada a temer.

 

( Fonte:  Folha de S. Paulo )

Eleições intermediárias nos EUA (II)

                               

                  O domínio na maioria dos Estados do Partido Republicano tem resultado nos seguintes “avanços”:  redução dos impostos sobre ricos e grandes corporações; taxa mais abrangente sobre as vendas; corte nos benefícios para os desempregados; redução das  verbas para educação e diversos serviços públicos; e a tentativa de quebrar o poder dos sindicatos.
                  Por outro lado, as autoridades republicanas tem buscado manipular o direito de voto, constitucionalmente garantido, com vistas a dificultar o acesso e restringir o número de locais de votação, nas áreas com predominância de afro-americanos, latino-americanos e pobres, que, por óbvias razões, votam maciçamente nos candidatos democratas. Nesse sentido, em 2012, o governador da Flórida e o procurador-geral de Ohio cortaram o número de locais de votação, assim como a extensão de horas e dias em que estariam abertos, justamente em áreas ocupadas por negros e outras minorias, assim como idosos pobres, em gritante esforço para limitar-lhes o acesso às urnas, e a consequente votação no Partido Democrata. Malgrado o esforço dessas  minorias, consubstanciado nas longas filas nos locais de voto, pode imaginar-se o efeito que possa ter essa cruel (e inconstitucional) interferência no direito de voto dos cidadãos, sobretudo se a eleição for renhida.
                 O GOP já mostrara no passado recente, quanto um governador pode auxiliar em uma eleição. Como assinala E.Drew, Jeb Bush (irmão de George W.Bush), como governador da Flórida, é o mais perfeito exemplo do potencial alcance dessa ‘ajuda’, como aconteceu no aludido estado da Flórida, em 2000, quando a longa recontagem dos votos em áreas favoráveis ao candidato democrata Al Gore foi interrompida por inédita  sentença da Suprema Corte, que por primeira vez na história americana determinou quem seria o próximo presidente.
                  Por sua vez, a atual maioria direitista na Câmara – a que o Speaker John Boehner não contraria – se empenha em patética sucessão de tentativas de inviabilização da Reforma Sanitária Custeável. Ilustrativas da histeria nessa empresa da bancada republicana são quarenta votações para derrogar o odiado Obamacare. O esforço, posto que inútil – pois o Senado se recusa a sequer tramitá-las – serve, no entanto, para efeito propagandístico, além de ajudar o GOP a levantar dinheiro para essa estulta campanha.
                  A radicalização da postura dos republicanos na Câmara – como se vê agora em que se fechou de forma irresponsável o governo (pela sua não-aprovação do orçamento, o que não ocorria há dezessete anos) – pode ser um tiro no pé do GOP, como aconteceu no passado, com Newt Gingrich. A dose desta feita é ainda maior, pois, os republicanos semelham querer valer-se também do pretexto da revisão do teto fiscal da dívida, eis que os fundos estatais só devem durar até meados do corrente mês de outubro. 
                 A loucura da direita – e da extrema-direita do Tea Party – se parece cada vez mais com as conhecidas corridas dos lemingues. Se o instinto humano quanto à própria preservação (existencial e política) é característica que tende a influenciar – e mesmo determinar – o próprio comportamento, até o presente este saudável traço não tem aparecido muito nas hostes do Grand Old Party.
                Como se verifica, a não-representatividade da Câmara dos Representantes – que é decorrente do extenso guerrymandering efetuado depois da eleição intermediária de 2010 – é uma bomba de retardamento no mundo político americano. Com o artificialismo de seu desequilíbrio para a direita – que força o Speaker John Boehner a pular entre os blocos de gelo glacial a cada crise, na imagem de E. Drew (o problema, segundo aponta a articulista, é que os tais blocos de gelo estão desaparecendo...) – e a consequente paralisia no Congresso, a perspectiva de que os energúmenos na Câmara Baixa provoquem um problema maior (com graves prejuízos, v.g., para a situação financeira de Tio Sam) não é, pelo andar da carruagem e o irrealismo dessa bancada, um problema simplesmente teórico.
                 Por enquanto, não se vêem soluções. Sem embargo, como o instinto de sobrevivência é forte nos humanos, espera-se que se logre, contra toda a expectativa, evitar o pior... A solução – apesar de todos os obstáculos, artificiais ou não – está no corpo eleitoral varrer essas minorias enquistadas artificialmente em posições de poder através da varinha de condão do voto. A despeito de esforços em contrário – como os republicanos têm evidenciado – até hoje não se descobriu melhor maneira de pôr jeito no ordenamento jurídico do bicho homem. Esperemos que tal crença venha a ser mais uma vez corroborada em todas as eleições (gerais ou intermediárias) pelo ato simples de participar através do sufrágio livre na construção desse complicado edifício que é a democracia. Com bem evidencia Elizabeth Drew todos os pleitos são relevantes nessa complexa e laboriosa empresa.                         
 

 

(Fonte: O  Nó em nossa Política, de Elizabeth Drew, apud  The New York Review)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Eleições intermediárias nos EUA

                            

           A veterana politóloga Elizabeth Drew nos brinda neste número de outono da New York Review com um seminal artigo – a que já me referi, en passant, no blog – e que peço licença para resumir em seus aspectos mais relevantes.
          O corpo eleitoral estadunidense tem o hábito de não dar importância às eleições intermediárias – aquelas em que não há eleição presidencial. Isso tem muitas consequências negativas.
          Apesar de menosprezadas, cada eleição intermediária renova a totalidade da Casa de Representantes, várias governanças estaduais e um terço do Senado Federal.
          Nos últimos dez pleitos, as eleições presidenciais atraíram entre 51.7% e 61.6% dos votantes. Por sua vez, as intermediárias oscilam na faixa mais alta dos 30%. Quando prevalece a oposição, em geral há comparecimento maior dos eleitores: em 1994, com o Contrato com a América o GOP arrebatou a maioria dos democratas (votaram 41.1); em 2010, na famigerada tunda compareceu 41.6 do eleitorado. Foi nessa eleição, que os republicanos recuperaram a maioria na Câmara, até hoje por eles mantida.  Por sua vez, com um Bush júnior enfraquecido, e no segundo mandato (2006), os democratas se apoderaram de Senado e Câmara. Naquele ano o comparecimento foi de 40.4%, e tal se refletiu também nas governanças estaduais.
            É importante notar que os resultados das midterm elections dependem das principais questões e da qualidade dos candidatos, mas no entender de E.Drew o afluxo às urnas (turnout) é quase sempre decisivo.
            Na eleição de 2010 – que foi desastrosa para Obama e o Partido Democrata – os republicanos estavam exasperados com a nova Lei da Assistência Sanitária e o sovado bordão do governo gastador, em especial a Lei de Estímulo (tão mal falada e tão importante para relançar a economia) – e por isso foram às urnas em maior número que os democratas. Na citada eleição, o GOP ganhou 63 cadeiras na Câmara e passou a controlar as governanças e as assembleias em doze estados. Por sua vez, o controle dos democratas sobre as assembleias diminuiu bastante, com relação de forças somente comparável a 1946 (um ano após a morte de FDR, e com a baixa popularidade do vice Harry Truman).
             De acordo com a análise de E.Drew, esta eleição intermediária é a principal responsável pela paralisia no Congresso e o extremismo prevalente nos republicanos da Casa – de que é exemplo a irresponsabilidade hodierna de provocar o fechamento das principais atividades do Estado, e aponta para a insânia do default (calote) nas contas americanas, se o GOP não autorizar a elevação do teto da dívida.  
             Consoante demonstra E. Drew no seu artigo, a atual disfunção política tem sua origem nos Estados. O total controle do GOP se estende a 24 estados (quase a metade desses resulta da eleição de 2010). Por sua vez, os Democratas controlam catorze estados. Dentre os estados dominados pelo GOP, estão os mais populosos (excetuados California e New York). Há uma coordenação nacional da agenda regressiva implementada pelo GOP nos estados. Tal se verifica tanto no aspecto econômico, quanto em política social truculenta (favorecimento dos ricos, redução das conquistas das mulheres, a começar pelo aborto).
               Dessarte, com a falta de interesse e sobretudo de empenho nas eleições intermediárias, sobreveio em muitos estados o sistema político mais polarizado na história moderna estadunidense. Essas políticas estaduais estão divorciadas por inteiro de o que acontece no plano federal, e em alguns casos isso se estende à lei e à Constituição.
               Para E. Drew, o pleito de 2010 foi o evento mais importante que levou ao domínio pela extrema direita da Casa de Representantes. Tal não aconteceu por acaso. A recessão (causada, é bom lembrar, pelo governo Bush), e o ‘aparecimento’ do Tea Party[1], com a sua agitação e demonização do Obamacare,- a nova Lei de Assistência Sanitária Custeável (ACA), aprovada pelo Congresso sem um voto sequer do GOP – tudo isso energizou os republicanos e os ditos ‘independentes’ para darem este presente de grego para a democracia americana.
               O relativo autismo de Barack Obama neste primeiro biênio – de que o livro Homens de Confiança, de Ron Suskind, é o relato mais abrangente – também contribuíu para o dito shellacking (tunda), nas próprias palavras do 44º presidente. Para que se tenha idéia do landslide (avalanche) eleitoral, além de abocanhar a maioria na Casa de Representantes, o GOP passou a controlar doze estados adicionais, inclusive Ohio, Florida, Wisconsin, Pennsylvania e Michigan.
               As eleições gerais expuseram diversos fatos, a começar pela não-representatividade da Casa de Representantes. Em 2012 – quando Obama foi reeleito – os democratas obtiveram mais l,7 milhão de sufrágios que os republicanos, mas essa diferença lhes deu só oito cadeiras adicionais. A esse propósito, Drew assinala que esta foi a maior discrepância entre votos e a divisão na Casa desde 1950. Trocando em miúdos: Obama obteve 51,1% do voto popular em 2012, mas em consequência do redistritamento (por força da eleição de 2010), na Casa de Representantes, a maioria republicana corresponde a 47,5 % , enquanto os 48,8% de votos para os deputados democratas se metamorfoseia na bancada minoritária. O gerrymandering pode assumir proporções escandalosas, como no caso de Ohio, em que Obama ganhou o estado (com 51% dos votos), mas a votação para a Câmara produziu 75% de republicanos e 25% de democratas!
                 O timing da eleição de 2010 – e a passividade de Obama – foram determinantes para que a vitória do GOP no shellacking se traduzisse na mão pesada do gerrymander, que ultrapassou todos os limites. Embora a desfaçatez seja tal, que é difícil compreender que os abusos não sejam corrigidos por via judicial, há um aspecto positivo na livre discussão desse agressivo gerrymandering.
                  Tudo isso indica que, como tudo está torto, fica muito mais difícil criar condições para que as eleições não sejam adulteradas pelo redesenho fraudulento dos distritos eleitorais. A ânsia, contudo, de criar distritos seguros (safe seats), desestabilizou a suposta segurança dos atuais detentores das deputanças, pelo fato de que eles podem ser derrotados por adversários ainda mais radicais à sua direita. O GOP ao criar um monstro não imaginou que poderia desestabilizar os seus líderes, por ataques vindos da direita.                                                   
                                               
                                                                                                                   (a continuar)

 
(Fonte: O  Nó em nossa Política, de Elizabeth Drew, apud  The New York Review)



[1] O Tea Party é movimento extra-parlamentar (e agora parlamentar, por sua penetração no GOP) que surgiu instigado pelos velhos profissionais republicanos Karl Rove e Dick Armey, sem falar nos irmãos Koch, os petroleiros multimilionários.

A Arena Amazônia

                                         

         O projeto do Governo Lula da Silva – valendo-se da época das vacas gordas pré-crise desencadeada em setembro de 2008 pela bancarrota do Banco Lehman Brothers, e a seguinte crise financeira internacional -  de divulgar o fenômeno Brasil – potência teria dois magnos eventos internacionais: a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016.
        Muito se valendo do gogó e da propaganda – sem falar da boa imprensa das finanças brasileiras, então a cargo de gente responsável – ambos os projetos foram premiados com a chancela internacional, seja dos gnomos da Fifa, seja do Comitê Olímpico.
        No que tange ao futebol, o planejamento dos estádios com o chamado padrão Fifa, em que estavam consolidadas as exigências de Sepp Blatter & cia., com refinamentos tecnológicos e uma visão primeiro-mundista (em termos de confortos e assentos), implicava na derrubada dos velhos ícones (como o heróico Maracanã, marcado pela Copa de 1950) e a construção de estádios modernosos, com menor capacidade de espectadores, porém com custos muito mais elevados.
       Na ânsia de embarcar no projeto Copa-2014, o governo Lula da Silva não mediu despesas. Ao invés, as aumentou dando livre rédea à demagogia eleitoreira e às fumaças do Brasil-potência.
       Carregaram o programa governista da Copa do Mundo a húbris da multiplicação das arenas populares e a demagogia de inserir centros demográficos mais afastados e com menores possibilidades de embasarem projetos autossustentáveis.
       Segundo Romário, dentre os novos palácios populares “os estádios em Manaus, Cuiabá e Natal são absurdos. Ali se realizarão algumas partidas e depois o quê?  É um absoluto desperdício de tempo e de dinheiro.”
       Em um país com tantas deficiências em termos de saneamento básico – os governos vêm e vão e tudo continua na mesma, com as promessas pré-eleitorais e o descaso subsequente. A administração de dona Dilma não é decerto exceção.
      O movimento do passe-livre – e de sua ausência nas ruas o Brasil voltou a sentir as habituais consequências – exigira para as obras governamentais o padrão-Fifa.  Com efeito, os elefantes brancos para a Copa se distinguem pelos refinamentos tecnológicos (além de quase inviabilizarem a presença do povão nos estádios, logo ele que é a não-tão secreta razão da difusão e do entranhamento do futebol na alma e na habilidade do brasileiro).
     Se em Natal e Cuiabá o levantamento de tais estádios é estranhável, Manaus representa no capítulo um exemplo-limite. De certa forma, repete a insânia da construção do famoso Teatro da Ópera, inaugurado em 1896, depois de quinze anos de construção, e então sustentado no boom da borracha.
     Se em outras – mais populosas e acessíveis – capitais, os estádios já são questionados, pelo desvio (no bom sentido) de recursos de projetos que são mais importantes para o bem-estar e a saúde da população em geral, o que dizer de Manaus, no meio da Amazônia. A loucura de elevar esse templo ao futebol – com o custo final de seiscentos milhões de reais – para tentar enchê-lo em uma que outra partida da Copa, e depois para quê ? Em uma região com tantos problemas de saneamento, muita vez agravados pela exuberância ecológica, a falta de proteções adequadas para o desafio das enchentes (que o bicho-homem e os maus governos estão tratando de agravar), afigura-se sério dispender essas fortunas, para dispor de um gigante inacabado? (em fins de agosto 78% da construção estavam terminados, com o prazo previsto para o fim marcado para dezembro p.f)
        É uma pergunta que parece acadêmica, mas infelizmente não é.
        Terminada a Copa, seria ótimo se ficássemos com o caneco.  Esqueçamos a experiência pregressa, em que também se gastou muito dinheiro (houve suspeitas de corrupção na construção do Maracanã em 1949-50), menos preocupação com refinamentos e sofisticações tecnológicos, porém o Maraca não deixou de ser a simbólica beleza da arquitetura brasileira daquele tempo.
        Podia ainda haver andaimes quando dos primeiros jogos, mas isto não teve maiores consequências sobre a resistência da obra, que chegou até a sua inglória demolição muito bem obrigado.
       Só não posso garantir o mesmo para os estádios padrão-fifa de que Monsieur Jérôme Valcke, de maneira tão vívida, apressou a construção pelas autoridades ditas responsáveis.

 

(Fonte:  International Herald Tribune )