domingo, 19 de maio de 2013

Colcha de Retalhos A 17

                                           
A Maldição do Segundo Mandato

          De repente, o céu de brigadeiro que Barack Obama atravessava, nos meses iniciais do segundo mandato, como que pela ação malévola de alguma divindade menor, se enegreceu, com portentosos cúmulos-nimbos saídos não se sabe bem de onde.
          Três questões se colocam, a primeira, egressa do ano anterior, relativa ao ataque de 11 de setembro à missão estadunidense em Benghazi, na Líbia, de que resultou a morte de quatro americanos, incluído o Embaixador  J. Christopher Stevens. A despeito de a matéria haver sido examinada por comissão de alto nível, os republicanos continuam insatisfeitos com as conclusões apresentadas. 
           As cem páginas de e-mails liberadas na quarta-feira, quinze, mostraram um desacordo entre David H. Petraeus, então Diretor da CIA, e seu segundo, Michael J. Morell, sobre o que se deveria revelar nos talking points a serem utilizados pela Embaixadora Susan E. Rice, nos contatos com a mídia quando de sua candidatura à Secretária de Estado.
            Servindo-se de objeções de funcionários do Departamento de Estado às inserções propostas, no que tange a avisos da CIA sobre ameaças extremistas, sob o argumento de que transmitiriam uma má impressão, republicanos da Casa de Representantes saudaram a divulgação dos e-mails. Aparentemente, há um viés faccioso de parte do GOP, que quer ver mais nos e-mails do que eles efetivamente contêm. No entanto, lembranças de passados castigos pelos eleitores de excessivo zelo do GOP nas inquisições têm igualmente motivado um grão de cautela de seus próceres.
           Por outro lado, a Administração Obama tem sublinhado a parte relativa a cortes nas dotações de segurança, alguns de iniciativa de comitê da Câmara sob liderança republicana. Em toda a discussão, não repontam, além das tentativas de interpretação negativa da oposição, nada que seriamente implique a direção do Departamento e a própria Secretária Hillary Clinton, como se desejou apresentar.
          Acossado por repórteres no jardim da Casa Branca, na recepção formal ao Primeiro Ministro turco Recip Erdogan,  o presidente Obama rejeitou a idéia de nomear um promotor especial (à moda de Watergate, o escândalo que forçara Richard Nixon a renunciar à presidência) para examinar o escândalo concernente ao IRS (Serviço da Renda Interna), o presidente frisou que “certamente nada sabia sobre” a atenção (targeting) dada a grupos conservadores pelo I.R.S., antes de ler o noticiário de imprensa da semana passada. Ao ser inteirado, assinalou que ‘o seu foco principal foi em resolver a questão’. Nesse sentido, na quarta-feira anunciou, que pedira e aceitara a exoneração do comissário em  funções, Steve Miller.
             Obama recusou-se a comentar sobre a avocação de fichas de chamadas telefônicas de jornalistas da Associated Press pelo Departamento de Justiça. Tal iniciativa, segundo foi especulado, teria sido motivada por notícia da A.P. acerca da obstrução (foiling) de um ataque terrorista partido de grupo ligado a Al-Qaida, e baseado no Iemen.  Sem embargo, Obama expressou “integral confiança” no Procurador-Geral, Eric H. Holder Jr., dizendo que ele conduzia o Departamento de Justiça com integridade e que continuaria a fazê-lo por algum tempo. Nesse contexto, o presidente sublinhou a necessidade de proteger o livre fluxo da informação, mas também enfatizou que vazamentos de informações de segurança nacional podem ameaçar as missões e as vidas de membros das forças armadas e do serviço de inteligência.
           Segundo as regras informais da política, a expectativa seria de que a Casa de Representantes, sob domínio do GOP, intentará levantar informes e declarações que possam vir a causar problemas para a Administração Obama. Quanto à ação do IRS no que concerne a grupos conservadores (Tea Party), já lograram a cabeça do encarregado do IRS. Especula-se que outras incursões da oposição se concentrem sobre o Departamento de Justiça e o Attorney General, no intuito de levantar mais material potencialmente comprometedor.  Quanto ao incidente de Benghazi, que já fora objeto de investigações no Senado e na Câmara, semelha difícil alvitrar, dada a passada insistência, se os elementos colhidos serão de molde a satisfazer o partido Republicano. O quadro, para os republicanos, se complica um tanto, todavia, dadas as lições pregressas. A intenção de alguns de seus líderes é de passar impressão de correção e responsabilidade, o que, se confirmado, é um dado bastante positivo.
 

Aécio Neves na Presidência do  PSDB   

           O Senador Aécio Neves (MG), o provável candidato tucano à presidência da república em 2014, declarou em seu discurso na reunião de que participaram as principais lideranças do PSDB, que o partido errou ao não defender o legado dos dois governos FHC (1995 a 2002).
            Seria o caso de perguntar aos dois principais interessados – José Serra, candidato em 2002 e 2010, e Geraldo Alckmin, candidato em 2006  - se estão de acordo com essa postura.
           A notar que Serra, em sua alocução, observou que já viu “muita água passar por debaixo da ponte” e que atuará pela união do PSDB e das oposições.  Dado o comportamento de Aécio na última eleição, em que criou óbices à candidatura José Serra, e notadamente se negou a integrar a chapa, com o que muito contribuíu para enfraquecê-la, é fato público e notório que as relações entre o Senador mineiro e o hoje militante do PSDB não são das melhores.
            Daí, alimentada pelas sibilinas observações de José Serra, a sua intervenção foi interpretada como a de alguém  que se mantém na disputa ao Planalto, a despeito dos obstáculos existentes e da convergência das alas tucanas – excluída a sua – para a candidatura Aécio. De resto, no seu discurso, o provável candidato do PSDB, utilizou linguagem mais dura quanto ao governo Dilma, reportando-se a um Brasil estagnado, que precisa de reformas estruturais.
 

Indiscrições de Angela Merkel ?

            Conforme assinala a imprensa, a cada quatro anos , quando se aproxima a data das eleições que decidirão sobre a sua continuação ou não à testa da Chancelaria Federal,  Angela Merkel mostra ao público uma versão quiçá mais soft e não tão reservada quanto é o seu hábito arraigado, enquanto Chanceler Federal.
            Merkel postula um terceiro mandato. Não há dúvida quanto à sua popularidade – tem nível de aprovação de 65% - e por seu bom senso e reserva, goza de grande aceitação pela opinião pública alemã.
            Nisto, a Chanceler difere bastante do principal opositor nos comícios de setembro, o ex-Ministro Peer Steinbruck, da SPD, cujas indiscrições lhe têm criado problemas seja junto ao público feminino, seja quanto a políticos italianos.
            Como sói ocorrer em véspera de eleição, foram lançados vários livros acerca da Merkel.  Aquele que levantou celeuma foi “A Primeira Vida de Angela M.”, em que os autores (Ralf Georg Reuth e Günther Lachmann) se reportam a supostas declarações de antigos colegas que dizem ter ela servido como secretária de agitação e propaganda (agit-prop). 
            A nova polêmica sobre o seu passado tem o respectivo alcance assaz redimensionado pelas assertivas de Gregor Gysi, o chefe parlamentar do Partido da Esquerda, herdeiro do Partido comunista: “Certamente não me cabe defender a Chanceler, mas em um certo momento tem de se pôr um fim a tal absurdo (non-sense)”.
            Malgrado as avaliações pessoais favoráveis à Angela Merkel, uma série de derrotas da CDU (União Cristã Democrática) nos estados (Länder) apontam para as dificuldades que ela deverá arrostar nas eleições de setembro p.f.  Como se sabe, a CDU  é o partido da Chanceler, como foi no passado de Konrad Adenauer e Helmut Kohl. Em geral,  a formação da maioria carece do aporte de um segundo partido, eis que a CSU, é a versão bávara da CDU. O FDP (liberal) tem sido o membro júnior da coalizão e de seu eventual satisfatório desempenho depende um tanto a permanência de Angela Merkel na Chancelaria.
            Somente em uma data mais próxima, se poderá ter melhor ideia das perspectivas da  Chanceler Angela Merkel.

 

(Fontes: International Herald Tribune, Folha de S. Paulo,  Globo on-line )   

Causas da Desvalorização do Comércio Exterior


            Desde que o Brasil existe – nas fases de colônia, reino, império e república – o nosso comércio exterior se caracteriza pela exportação de matérias primas, hoje denominadas commodities. Do pau-brasil, passando pela cana de açúcar, o ouro das Minas Gerais, o café e atualmente diversificadas em soja, carne, minério de ferro,   café e cacau, as vendas para o exterior continuam prisioneiras do paradigma colonial. O petróleo – lembram-se do tempo em que relatórios estrangeiros afirmavam que não tínhamos reservas relevantes ? – cresce em importância, mas não deixa de ser também um produto primário (além de combustível fóssil). Esquecia-me de incluir a madeira, retirada legal e ilegalmente de nossas matas. O Brasil continua a ter a maior floresta do mundo, e os recursos em biodiversidade por ela proporcionados, mas se não adotarmos uma verdadeira política ambientalista – e não o código ruralista de recente aprovação – iremos em marcha acelerada no caminho da Malásia e de outros países devastados pela savanização. Para alguns, há sempre o consolo de que a madeira brasileira está embelezando grandes obras na Europa. O turista minimamente informado poderá disto cientificar-se ao visitar novas construções e instituições culturais, em grandes capitais do Velho Continente, e admirar os magníficos assoalhos e terraços que exibem a bela madeira de Pindorama.
     Então o Brasil não tem indústria ? Com sorriso, responderão que temos, sim! Da siderúrgica em diante, chegando até a Embraer,  com a sua presença no mercado das aeronaves – é a terceira em produção, atrás apenas de Airbus e Boeing – e a liderança para jatos de curso médio. Fabrica aviões comerciais, executivos, agrícolas e militares. É grande o parque industrial brasileiro, sendo o principal na América Latina. No entanto, a indústria automobilística se ressente de sua total desnacionalização[1]. Como já referi oportunamente, corresponde a feitorias de que o lucro das sucursais pesa na balança de bens e serviços, pela sua pontual remessa para as matrizes estrangeiras. Dentro de sua faixa própria, o Brasil é o único país industrializado que não dispõe de montadoras nacionais. O seu caráter subalterno tem reflexos em diversos campos: (a) falta de incentivo a desenvolver tecnologias e modelos próprios; (b) limitações às exportações, por não interessar às matrizes a concorrência da filial com a penetração em outros mercados; (c) o atraso tecnológico também se reflete nas medidas antipoluição, em que, com a conivência das autoridades responsáveis, o automóvel brasileiro tem nível ambiental de proteção à poluição (e, por conseguinte, de nocividade ao povo brasileiro) muito inferior ao das viaturas que circulam no circuito Elizabeth Arden.

      Antes de voltar ao tema da estruturação de nossas exportações  - por que diabos nos aferramos a padrão colonial – é importante notar que é quase um milagre termos o parque industrial da relativa pujança criada por nossos empresários. O Estado brasileiro – e está aí o impostômetro  para não nos desmentir – foi nas últimas décadas acometido de famélico apetite tributário, que nos coloca quase na faixa dos 40%. Conhecendo o animal, não temos dúvida de que lá chegará. Esse peso fiscal-burocrático é, na verdade, um monstro que se autoalimenta, seja pelos ralos do empreguismo e do assistencialismo desvairado, seja por aqueles tão vorazes quanto, como os da corrupção e do simples desperdício. Dado o caráter patrimonialista de todo esse edifício, o cidadão não vê, do dinheiro que sai do respectivo bolso,  retorno digno deste nome em termos de saúde, educação, segurança e infraestrutura viária, aeroportuária e ferroviária.

       Por outro lado, o horror às reformas estruturais (fiscal, política e judiciária, notadamente) se traduz em imenso cipoal de leis e leizinhas, que, na maior parte  dos casos, apenas exacerbam o voluntarismo, a improvisação, a pulverização e o amadorismo imperantes. Tais práticas instituem a confusão macroeconômica e a consequente impossibilidade de previsão nos investimentos de médio prazo pelo menos. Como assinalou Mailson da Nobrega, a paralisia é a consequência da ‘política’ de desonerações fiscais, caracterizada por ser errática e, portanto, imprevisível para quem se disponha a investir em algum setor de produção.
         Feito esse prólogo, fica mais fácil entender porque é instável o nosso crescimento econômico. Como as exportações brasileiras, na sua maioria, são de produtos primários, com baixo componente de agregação tecnológica, elas serão necessariamente mais dependentes das flutuações dos mercados. De acordo com os dados fornecidos pela Funcex (Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior) nos doze meses encerrados em março último houve piora de 4,5% nos termos de troca – a relação entre o que é vendido e o que é comprado pelo país.

         Essa desvantagem em termos de troca nada tem de novo, eis que o produto, com o maior índice de agregação tecnológica, será muito menos suscetível de reduções pronunciadas. Como este desafortunadamente não é o caso em grande parte dos produtos de nossa pauta de exportação, muitos deles manufaturados com baixo grau de insumos tecnológicos, para não falar das matérias primas em geral, ela tenderá a ser muito mais vulnerável aos caprichos do mercado.

         É bem verdade que para dar o salto tecnológico – e deixar realmente de ser um país de là-bas, o nível de educação do fator trabalho tem que ter  melhora pronunciada, melhora essa que só é possível com política sustentada de investimentos de maior fôlego, e avanços marcantes  na educação, na saúde e na alimentação. Os salários devem, outrossim, corresponder à qualidade do trabalho prestado. Não se deve conspurcá-la com favorecimentos abusivos, como se tem verificado no Congresso, em que ascensoristas, mordomos, despachantes e quejandos recebem mais do que profissionais universitários, em acintoso desrespeito à dignidade do trabalhador.

         O desenvolvimento econômico é decorrência de política macroeconômica centrada em investimento e poupança, e não em facilitações ao crédito de consumo, que levam ao endividamento. Todo o resto são fogos de artifício, que podem enganar a uns poucos por algum tempo, mas não à sociedade civil.
         Como nos ensinaram tantos planos heterodoxos supostamente infalíveis, fora da ortodoxia econômica não há salvação.
 

(Fonte subsidiária:  Folha de S. Paulo )



[1] È importante sublinhar que as indústrias brasileiras de autopeças, subordinadas pelo regime de monopsônio (único comprador – que é a montadora respectiva) não têm condições objetivas de impedir essa desnacionalização.

sábado, 18 de maio de 2013

A Luta pelo controle das Armas

                                    
          A propalada ‘maldição do segundo mandato’ parece cair igualmente sobre Barack Obama, mas dúvidas persistem quanto ao que neste enredo se deva atribuir a idiossincrasias do temperamento do 44º presidente.
         Tomemos, por exemplo, o tema do controle das armas. A tragédia de Newtown, no Connecticut, com tantas crianças estupidamente massacradas por um desequilibrado, se faz parte do macabro seriado estadunidense, no chamado modelo Columbine, representou evento demasiado acachapante para que não levasse um timorato Congresso a assumir a própria responsabilidade, impondo enfim controles para valer à venda de armas.
        Sem embargo, o lobby da N.R.A. (Associação Nacional de Armas) prevaleceu uma vez mais, em votação no Senado, que visava  quebrar uma filibuster de senadores republicanos, a qual se propunha a matar na raiz uma legislação de controles mínimos sobre o comércio de armas de fogo.
        Faltou empenho a Obama que tinha o apoio esmagador da opinião pública (mais de noventa por cento). Sequer obteve o voto de senadores democratas para completar o total obrigatório de sessenta votos para encerrar a filibuster. Lyndon Johnson, que foi presidente e também influente líder da maioria no Senado, se terá agitado na tumba defronte de tal apatia. Ele e muitos outros não teriam deixado escapar esta oportunidade. Com efeito, o presidente tem muitos poderes, inclusive, como ensinou outro predecessor de Obama, Theodore Roosevelt, o de bully pulpit. É expressão de difícil tradução, e me arriscaria a propor arregimentação pelo púlpito (presidencial), como uma força do bem.
         A campanha pelo controle das armas ficou mais difícil, com esse tropeço presidencial (o coloquial vacilo vem a propósito).
         Não obstante, o bom combate não foi dado como perdido pela ex-deputada Gabrielle Giffords. Essa congressista democrata preferira não pleitear sua certa reeleição pelos impedimentos sofridos por atentado sofrido de um lunático, que abateu  seis pessoas num comício de Tucson, no Arizona, em 2011.   
         Atingida na cabeça, ela tem ainda longo tratamento pela frente, para tentar superar as lesões sofridas. No segundo aniversário do atentado, a oito de janeiro, o casal Gabrielle Giffords e Mark Kelly lançaram a associação ‘Americanos por Soluções Responsáveis’.  Já levantaram mais de dez milhões de dólares, ganharam a adesão de mais de trezentas mil pessoas, lançaram anúncios na tevê nacional pela expansão das verificações de antecedente dos compradores de armas, e fizeram campanha pela medida em uma dúzia de estados.
        Será muito difícil para a NRA apresentá-los como debilóides opositores da Segunda Emenda da Constituição (a que dá aos americanos o direito de formar milícias e de se armar). Nesse contexto, a senhora Giffords dispensa apresentações, pois, além de ser ex-congressista de estado do Oeste americano, é caçadora e partidária do direito às armas. Por sua vez, Kelly é um militar veterano, piloto da Marinha e comandante de nave espacial.
        Tampouco será fácil para a ex-deputada virar o jogo. No entanto, dentro da prática americana, o casal tem colocado anúncios em cinco estados considerados chave, seja atacando os opositores da medida, como o líder republicano Mitch McConnell e a Senadora Kelly Ayotte, único parlamentar da Nova Inglaterra que votara contra a medida, seja apoiando senadoras, como Mary Landrieu, da Lousiana, e Kay R. Hagan, da Carolina do Norte, que enfrentam o eleitorado em 2014.
        A senhora Giffords recebeu, em princípios de maio, das mãos de Caroline Kennedy, a comenda do Comitê ‘Perfis de Coragem’, inspirado pelo livro homônimo de John F. Kennedy.  
        Pela frente, o casal tem árdua e sobretudo comprida luta. Quiçá a trajetória fosse mais simples, se a atitude de Barack Obama tivesse sido mais pró-ativa.
       Gabrielle Giffords avulta, no entanto, à maneira de um bom filme americano de antigamente, como temível campeã de uma causa justa. Por todos os títulos, merece boa sorte.

 

( Fonte: artigo de Albert R. Hunt no International Herald Tribune ).

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Picado com Pimenta à brasileira

                                           
Assaltante estupra passageira

            De repente cenas de violência sexual estouraram nos ônibus cariocas. Depois de um primeiro estupro meses atrás, sofrido por moça em banco traseiro do coletivo, a prática criminosa dá a impressão de tornar-se quase corriqueira.
            Se os assaltos aos passageiros, a que os ladrões despojam de seus magros cobres, desde muito aparecem como ocorrência dentro da suposta normalidade, mais um inconveniente a sobrepairar no acidentado trajeto para o trabalho A violência sexual contra mulheres representa, mesmo no ceticismo do carioca, uma escalada na animalidade.
            Não creio que os criminosos estejam imitando o estupro da jovem na India. O fenômeno é local, e mostra a que ponto chegamos em termos de insegurança e de desrespeito ao público. Se põe a nu a selva do transporte nos ônibus, com a falta de fiscalização e o excesso de velocidade, não é incidente isolado, mas mais uma página da escabrosa crônica, de que a geral insegurança e o desrespeito contumaz às leis do trânsito são consequências da perene negligência das autoridades, que não podem banalizar tal violência como se fora algo incontrolável, a suportar com asiático conformismo.
           Consta que o estuprador era de menor. Se para alguma coisa serve, será para escancarar o fracasso do  Estatuto da Criança e do Adolescente. Como o noticiário tem evidenciado de forma nauseante, esta lei está sendo instrumentalizada grosseira e acintosamente tanto pela criminalidade – que chega ao cúmulo de terceirizar os delitos, dada a virtual impunidade dos falsos incapazes – quanto pelo coro usual dos românticos defensores de uma juventude que não mais existe, seja nas ruas de São Paulo, seja no Rio de Janeiro.
          É mais do que tempo de pôr cobro a tal escândalo, que é decorrência da hipocrisia de uma elite que, como nas ordenações filipinas, pensa tudo resolver no papel. Aí está o monstro que criaram. Se pode votar para presidente, será que as suas faculdades mentais não lhe permitem distinguir do acerto ou não de atos cínicos e brutais, como os estupros nos ônibus, e o assassinato frio do jovem que até o celular já cedera ?


Palpite infeliz

          Marina Silva literalmente pisou na jaca, ao solidarizar-se com o deputado do PSC.
          Se tem  o direito de confessar-se evangélica – esse credo, vindo do Norte, e que se dissocia da fé tradicional brasileira, que nos acompanha desde os albores da nacionalidade – a ex-Senadora e candidata a presidente com quase dezenove milhões de votos deveria ter refletido mais ao entrever preconceito nas críticas ao atual presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Deputado Marco Feliciano (PSC/SP).
         Não é por ser evangélico que o deputado Feliciano é estigmatizado pela mídia e  boa parte da opinião pública pensante. Ele é a pessoa errada naquela comissão, por ser preconceituoso, por não ter trânsito na sociedade civil em geral, e por ser réu de  processos que correm no Supremo.
        O que tem um eventual preconceito anti-evangélico a ver com isso ? Antes de pronunciar tal despautério, o povo brasileiro sabia que Marina Silva é evangélica. E sem embargo a consagrou, malgrado os pífios segundos da propaganda eleitoral, com aquele derrame de confiança no primeiro turno da eleição presidencial de 2010.


Na Argentina, Lula rasga a camisa

         Com que Lula temos a  ver ? O Lulinha ‘paz e amor’ de 2002, ou o barbudo radical dos primeiros embates presidenciais ? Não é pormenor de somenos importância, dados os rumores que, em partidário desespero, seria ele lançado pelo P.T. para uma hipotética terceira presidência, desarvorados diante das dílmicas confusões na economia.
        Não é pergunta acadêmica, pelas novas que nos chegam da Argentina. Ao ensejo da inauguração da Primeira Universidade Sindical (sic) na Argentina, Lula da Silva resolveu bater forte na imprensa, sempre o alvo preferido daqueles que partilham a telúrica raiva do finado Saddam Hussein contra os mensageiros.
       A reação do tirano de Bagdá não é tão fora do comum quanto os políticos daqui e de além mar nos querem fazer crer. A crítica, ainda mais quando veraz, morde fundo, e nos faz entender as baboseiras de Nosso Guia em terra portenha: “ Às vezes tenho a impressão de que a imprensa está exilada em meu país.”
       E por aí vai: “Quando nós os criticamos, eles dizem que estão sendo atacados. Quando nos atacam, falam em democracia...”
      No momento em que se propala nova investida de Cristina Viúva de Kirchner contra a mídia cujo o pendão de independência é levado pelo grupo Clarín, não se afiguram, SMJ, das mais apropriadas tais invectivas, que associam Nosso camaleônico Guia – estaremos diante do barbudo ardente de 1989, ou do domesticado contemporizador de 2002 – a uma causa que não é a da liberdade de expressão.
      O Brasil de D. Dilma tem sido muito bonzinho com os métodos da viúva do Caolho (minha fonte é a do uruguaio Tabaré Vázquez), retendo na bruta, sem qualquer base legal, as exportações brasileiras para lá. Ao fazer o nosso exportador pagar o pato da violência peronista, o dílmico governo mostrou fraqueza e perdeu credibilidade para brecar novos abusos dos muy amigos portenhos.
       Só não entendi da notícia que tipo de universidade é esta. Qual o currículo que a discípula do general Perón deseja implantar, por primeira vez, na América Latina ? Quais seriam as matérias a serem estudadas pelos delegados sindicais ? A programação temática acaso incluiria: como se articula uma greve? Como se arrebanha, com braço forte, a guarda para dissuadir os companheiros porventura discrepantes ? Qual o melhor modo de impedir a circulação de  folha contrária às sagradas teses do movimento ?
      

 
( Fontes: Folha de S. Paulo, O Globo, Globo on-line )

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Obama e a Guerra na Síria

                                       
         Iniciada com comportadas passeatas de rua, em março de 2011, a evolução da insurgência na Síria parece haver seguido os manuais que descrevem o processo revolucionário.
        A princípio, o levante na Tunísia, que espoucara em janeiro de 2011 com o sacrifício pessoal do humilde verdureiro Mohamed Bouazizi, ultrajado pela bofetada recebida de uma torpe agente municipal, levaria em pouco menos de mês à queda do clepto-ditador Ben Ali, em fins de janeiro.
         O campo árabe, ressequido por tantas ditaduras, apresentava um cenário ávido de liberdade, pronto a reeditar as célebres revoluções europeias, ateadas pelo povo francês, em 1830 e 1848. Esse processo espontâneo, que não tardaria em configurar a Primavera Árabe, tal rastilho de pólvora atingiria o Egito, do trintenal déspota Hosni Mourabak, que cairia em março, e a Jamairia na Líbia, de Muammar Kaddafi, que tendo apeado o rei Idris em  1969, como flamante major, envelheceu no poder, por mais de quarenta anos, até ser abatido por gente que antes espezinhara, afinal alcançado, na solidão dos fugitivos, pelas Eríneas que lhe aplicaram a justiça por ele negada, ao longo das décadas, aos seus desgraçados súditos. Foi em 20 de outubro de 2011, e ele vinha de seu derradeiro refúgio na cidade de Sirte, de que já nos fala Heródoto em sua História.
         Compreende-se que este marco da Primavera Árabe tenha sido recebido com júbilo e até mesmo comemorações. Outro tirano já temia por sua sorte, embora a própria juventude não lhe refletisse a imanente crueldade. A visita da ruína e da morte é como a peste. Os autocratas a querem bem longe. Por isso, Bashar al-Assad mandou quebrar as mãos do cartunista Ali Ferzat, que ousara associá-lo ao ditador líbico.
         A conjura democrática se estenderia ao Iemen, onde o presidente vitalício Ali Abdullah Saleh seria por fim derrubado, após trinta anos de mando. No Bahrein, a Arábia Saudita cuidaria de sufocar a revolta da maioria xiita dominada por dinastia sunita.  
        Na Síria, a velha terra da passagem, de que tantos colunistas ocidentais louvam o regime e a tolerância nos credos – quase um regime laico no mundo islâmico – o nervosismo do poder alauíta – que via nas pacíficas multidões com tímidas palavras de ordem a vanguarda da temida sublevação – optou por lidar com as balas covardes de atiradores, ou com as sessões brutais de tortura nos fétidos porões dos serviços ditos secretos do Mukhabarat .
        A revolução na Síria já enceta o seu terceiro ano. Irrompeu em Derah, no sul, na fronteira com a Jordânia. Gradualmente, ela se espraiou por todo o país. A Liga Rebelde tem o reconhecimento da Liga Árabe, e o povo sírio constitui o seu principal sustentáculo. As monarquias sunitas do Golfo a apoiam, com armas e víveres. A Turquia, de Recip Erdogan, manifesta a crescente irritação com a postura de Bashar. A guerra civil continua a ceifar vidas – ora  se estima o total em mais de noventa mil.
        Além de afetar os países limítrofes, com refugiados na Jordânia, no Líbano e no sul da Turquia, a guerra tem desestabilizado as nações no seu entorno, ameaçando a estabilidade da dinastia hashemita do rei Abdullah II em Amã, a lábil paz no espaço turco, com o envolvimento da minoria curda, e o frágil Líbano, a cambaleante democracia ameaçada pelo Hezbollah do clérigo Nasrallah e o influxo de refugiados sírios, que estão presente em todos esses países vizinhos.
        É quase impossível determinar o número de vítimas desta cruenta guerra civil. Há um observatório, a cargo de um cidadão sírio, no Reino Unido, que apresenta os cômputos mais criveis. A violência do embate e sua pulverização nas campanhas tornam tais estatísticas intentos de aproximação, que não podem ter a certeza de uma contagem com provas e contra-provas.
       Mais que ao regime corrupto de Bashar e de sua minoria alauíta, a Liga Rebelde enfrenta inimigos poderosos, que não regateiam armas e fornecimentos, pela mera razão de que não podem aceitar a queda de Bashar, pelos prejuízos, seja materiais, seja geopolíticos que ela lhes acarretaria.
       A Federação Russa de Putin continua a prover o acossado regime alauíta, porque não admite perder a sua base naval de Tartus, de águas quentes no Mediterrâneo oriental. Por outro lado, na lógica dos recursos a fundos perdidos, o Kremlin já investiu demais em Bashar e tudo fará para mantê-lo.
      O outro grande aliado de al-Assad é a Teerã dos ayatollahs.  Pelo corredor iraquiano, propiciado pelo regime xiita de Bagdá, Ali Khamenei municia com homens e armas o seu aliado no planeta islâmico. Empenha-se em manter de pé a ditadura alauíta, porque a sua queda decretaria o enfraquecimento do fiel escudeiro do Hezbollah, que o braço radical militante da minoria xiita. Sem o bom Bashar, o hoje temido Hezbollah, com força preponderante no Líbano, e com laços com o Hamas, na Palestina, se descobriria em ominoso isolamento, circundado por um mar sunita.
     E quais são os aliados e as forças que apoiam a Liga Rebelde ? Além das belas palavras do Ocidente e das tópicas sanções econômico-financeiras  contra Damasco, o apoio dado pela Europa Ocidental e pelos Estados Unidos não pode comparar-se às contínuas remessas de armas de parte do eixo Moscou-Teerã.
     Entrementes, a guerra civil se arrasta. Há suspeitas – e talvez mais do que suspeitas – de utilização de armas químicas pelas forças de al-Assad contra os rebeldes. Obama fizera no passado uma advertência a Damasco, de que o eventual emprego de tais armas equivaleria a cruzar uma linha proibida. Ora, como ensina a sabedoria popular, ameaças só devem ser feitas se se tem a intenção de aplicá-las. Não foi o que ocorreu.
    A personalidade de Barack Obama terá traços hamletianos, mas no passado ele já demonstrou sobejamente que pode surpreender, ao autorizar ações em que a sua própria permanência na Casa Branca estaria em jogo. Basta mencionar os riscos assumidos com a operação dos comandos em Abbottabad, para que se entenda ser complexo o seu processo de decisão.
      Malgrado as recomendações de intervenção no conflito dos então  Secretária de Estado Hillary Clinton,  Secretário de Defesa Leon Panetta e  Diretor da CIA, David Petraeus, o Presidente Obama optou por não disponibilizar armas para a Liga, sob o argumento de que poderiam parar em mãos de radicais islamitas.
     A despeito de o país estar dividido em dois, os rebeldes dificilmente terão condições de precipitar a queda de um Bashar, cujo combalido exército continua a dispor da armada munificência dos abastecimentos de Moscou e Teerã.  O ranking republicano John McCain é outra voz em favor desse cuidado e monitorado armamentismo.
        Abandonados à própria sorte, com o apoio menor orquestrado pelo Qattar e a Arábia Saudita, as perspectivas de conseguir sobrepujar o exército de Bashar – que há pouco logrou  simbólica, mas relevante restauração de sua linha entre Derah e Damasco – tenderão a diminuir.
      E, não obstante o apoio majoritário da população síria, não é acadêmica a pergunta de por quanto tempo os rebeldes deverão enfrentar, sem reforços apreciáveis, um inimigo bem armado, e que semelha ter superado a fase da derrocada iminente.
      A história não costuma perdoar, nem ser leniente, com os indecisos e irresolutos. Será que depois de tão longa caminhada, o esperado desfecho não ocorrerá, e  o drama se transformará em trágica farsa ?

 

( Fonte:  International Herald Tribune )

Cartas ao Amigo Ausente (IV)


 
                                                      I V 

 

         Meu estimado Pedro, Amigo e Mestre,

 

         desta feita, o prólogo será breve. Na sexta-feira, me telefonou de Miami a funcionária Luzia (z). Boas novas. Dessarte, vencemos uma etapa, na longa marcha da regularização da situação de Thérèse. Se não vai tão depressa quanto outros, vamos torcer – termo próprio dos esportes de cujas emoções sabiamente te poupaste para ocupações mais profícuas – para que em breve as contemplemos com a serenidade das cousas resolvidas.

        Não tenciono, porém, entediar-te com tais formalidades terrenas, que, a despeito de senhoras de gordas parcelas de tempo, de satisfações só nos legam o efêmero sentimento que os gregos definiam ½ä˜ óùèÝíôá ìåìíyóèáé ðüíùí.[1]  

        Quero estender-me em outro gênero de questão, a não adumbrar nem sombra de queixa ou mal-humorado ressaibo, nem vã melancolia diante da indiferença dos deuses imortais.

        Desejo falar da minha dívida para contigo. Não é obrigação que se possa contabilizar em livros de amanuenses, ou em letras promissórias de infindável crediário. Tampouco contar-se em áureas moedas ou verdes maços.  Reporto-me a valores não-quantificáveis, que transcendem às humanas flutuações das bolsas e à pertinaz usura dos bancos. Na verdade, é um dever que em haver se transforma, e que se nada tem a ver com a mesquinhez das cobranças e das inadimplências, mais firme resulta do que o palpável produto do trabalho material.

         Pedro, pela afabilidade e coerência, mas sobretudo pelo exemplo do estudo e na perene disposição de compartilhar as aras do saber, tu me confirmaste no amor do livro não como objeto de entesouramento, porém pródiga caixa para sempre dedicada a conter, aspergir e disseminar o conhecimento.

        Quando adentrei o quarto da pensão no Catete que havias transformado na tua proto-biblioteca, o que, a princípio, me impressionou não foram as tuas palavras, posto que desinteressadas e honestas. Na jovem memória do estudante candidato ao Rio Branco, não permanecem de pé as paredes do velho sobrado que decerto não mais existe; ficaram sim as estantes já atopetadas de livros, não a encarar-me com a soberba de armários envidraçados, a exibirem lombadas coloridas de couro bem-encerado, mas a oferecer-se, com generosa simplicidade, para o recém-vindo que aspirasse ingressar em um mundo diferente, em que o saber fosse cultivado não enquanto estéril criatura das repetições escolásticas, mas como senda sinuosa a embrenhar-se nos bosques acadêmicos, que acolhem a palavra, tanto falada quanto escrita, como vetor de noções, descrições, ideias, interrogações, aporias, hipóteses, interpretações, teorias, sistemas, entendimento e – quiçá entre as folhagens – a visão fugaz de ave tão bela quanto esquiva, emplumada com as diáfanas e profusa cores do saber.

         Por detrás de larga mesa, com incontáveis papéis e pilhas de tomos, Pedro não me recebia com a arrogância de catedrático encastelado em privilegiada sinecura. Com gestos amplos, a cabeça reclinada junto a prateleiras de que o conhecimento semelhava fluir, o novel diplomata não se espadanava em posições e prerrogativas adquiridas. De um certo modo, ainda o vejo participar da paisagem que soubera formar, com afinco, desvelo e sacrifício, nas longas visitas às livrarias e sebos daquele tempo, mais propícias e numerosas, em espaços menos confinados, ainda a salvo das leis de um mercado que as faria desaparecer quase todas.

        Breve, sem dúvida, é a lembrança. Contudo, não é fugidia, pois a tenho aferrada, surpreendente porta que deixaria entreaberta por um punhado de anos, até que revisse no tarmac do aeroporto de São Francisco de Quito, em hora para mim difícil, eivada de inquietudes e passados aborrecimentos. Por instantes, não soube ler o teu júbilo, que interpretei apressadamente como alimentado de minha suposta desdita. O futuro me ensinaria que não  reencontrava o diplomata e eventual chefete, mas o colega amável e discreto mestre.

       O convívio na pequena chancelaria da embaixada, uma casinhola nos fundos da residência, em que somente o Embaixador, Pedro e o Adido Militar dispunham de salas individuais, se foi desenvolvendo e estreitando com o passar dos meses. Como diplomata mais moderno eu dividia uma saleta com o Oficial de Chancelaria Oldemar Murtinho, um tipo casmurro que, filho de Embaixador, parecia carregar complexo com a circunstância de ser funcionário administrativo. Junto à entrada, havia um cubículo, denominado de ‘sala de comunicações’, onde, igualmente por ser o júnior, me cabia criptografar os telegramas na maquineta. Depois, era colar as fitas nas folhas da Western Union e mandar entregá-las no correio para a expedição. O telex, que já aparecera em alguns postos, tardaria em ser enviado para as missões menores. A minha faina como criptógrafo pesava um pouco mais pela obrigação de pôr em cifra as frases ocas e os floreios fantasiosos do Embaixador Haddock Lobo. Muita vez, cansado em transcrever auto-elogios, chegava até em pensar no corte da inútil gordura nessas comunicações, hipótese em que grafaria apenas o teor básico da mensagem. Ao cabo, preferia ater-me ao manuscrito, pois essa labuta ainda me seria menor do que tentar melhorar um texto ruim.

       Dessarte, quando o expediente m’o permitia, ia até a tua sala, à direita do corredor, a alguns passos do cômodo em que batia à máquina, deixando transcorrer as jornadas sem trocar palavra sequer com quem dividia a acanhada dependência. Entrar nos domínios do colega mais velho era ser introduzido em cenário menos sensaborão, onde sempre havia algo de novo a esperar-me, como, por exemplo, o último livro da Bookmailer que o contínuo Flores, um sexagenário encarquilhado, acabara de trazer do correio. Eram as esquálidas dependências postais – que visitamos um dia, tangidos pela tua suspeita de que prelibadas obras lá jazessem esquecidas – o poço de surpresas de onde vinham, sob os consideráveis atrasos com que a cultura de além-mar afinal aparecia, para ser folheada pelas mão sôfregas de quem a encomendara, e quase desesperava de recebê-la um dia, nas plácidas e verdejantes lonjuras daquele fim de mundo.

       Rasgavas o invólucro postal com a ansiedade de criança a dilacerar os papéis coloridos do presente de natal. Denotavas alegria quase sensual no afã de descobrir a dádiva que se escondia debaixo  do papel pardo dos envelopes da Bookmailer ou do papelão da E.J.Brill, Beijers ou Blackwell’s. Não te pejavas em manifestar o agrado e a expectativa que o volume oculto te prometia. Cedo me daria conta desta tua ligação com o livro, não como expressão de consumismo de mero bibliófilo ou de passageira afeição por simples novidade.  Muito mais havia nos longos aguardos, nas quase sofridas esperas, para que a ordem das teclas nervosas, com a cópia de papel carbono, enfim te trouxesse a obra colimada, que versaria aspecto ainda não suficientemente tratado. Entre aquele jovem quarentão, nem baixo, nem alto, robusto sem ser corpulento, existia um secreto liame com tomos encadernados, brochuras e o que impresso fosse, que de muito transcendia os vezos do colecionador.

        Por volta desse tempo, as tuas aquisições livrescas as fundamentavas sob largo projeto de história das origens do direito penal. Dessa premissa se abria um vasto leque de disciplinas, que se relacionavam com o tema que pretendias versar: paleontologia, história, antropologia, sociologia, o próprio direito, geografia humana, filosofia... Estudavas línguas mortas, como o acadiano em que se redigira o Código de Hammurabi, e nessa época te interessavas especialmente pela terra de Sumer e Akkad, um dos berços da civilização.

       A tua ânsia de saber por vezes te levava a alçar demasiado a expectativa em termos de capacidade de compreensão do texto adquirido. Estava contigo quando te chegou um pacote que trazia obra de autor muito citado, havido como autoridade na história da antiga mesopotâmia. Seu nome era Klim. Estranhou-me o teu ar descorçoado, depois de folhear as páginas de rosto e o prefácio. “Pedro, o que está havendo ?  Não é o livro que pediste ?” “É, sim !” “E, então, qual o problema ?”

       Com o semblante entre alheado e pensativo, respondeu, enquanto pousava o volume sobre a escrivaninha: “Está escrito em tcheco e não entendo nada...”

        No afã de informar-se junto aos melhores autores, acreditaras que com as suas noções de russo poderias ler o compêndio vazado em língua a que jamais tiveras acesso.

        Desse episódio, que não te provocou outra reação senão leve sorriso traquinas de menino colhido em alguma estripulia, me veio o hábito de chamar-te ‘o homem que sabia javanês’. Achaste graça com a analogia entre o personagem de Lima Barreto e a ti próprio. Se para ti era divertida a símile, hoje entendo plenamente a tua atitude. Fora simples percalço na tua diuturna busca do conhecimento, e como tal deveria ser visto. Quem se esforça por aprimorar-se terá a companhia ineludível do erro. Se risível acidente de percurso, ou intimidante obstáculo, dependerá da têmpera de cada um.

       Acostumada a ver Pedro entrar no apartamento sobraçando novos e pesados tomos, de quando em quando Thérèse ensaiava um reclamo, cujo teor não se me afigura difícil intuir: “Estás gastando demais com esses livros...” Para amortecer as queixas da consorte, importavas também volumes da Pléiade, os guardavas em armário da chancelaria, de onde os retiravas, aos poucos e em momentos oportunos, para encantar a esposa e fazê-la esquecer as exortações à economia, enquanto outros compêndios apareciam nas prateleiras.

       Que não te confundam com filisteu se chamavas, meio jocosamente, de ‘demagogias culturais’ os bem-encadernados volumes em papel bíblia da Pléiade, com que Thérèse se deliciava. Na verdade, se respeitavas a literatura, já te havias estabelecido ordem de prioridades. Sabias que, sem embargo da tua disposição para a leitura, limitado é o tempo que nos assignam as Parcas. Cumpria, pois, dedicá-lo àquelas matérias e disciplinas para as quais te sentias mais preparado. Com a tua vocação de scholar, de homem voltado para as ciências humanas, consideravas válidas outras opções, sem, no entanto, desviar-te da rota prefixada.

        Ao assinalar-te a ‘disposição para a leitura’, franzo o sobrecenho. A expressão me parece chocha e não traduz a ênfase, o quase arrebatamento da tua devoção à palavra escrita. Lá, nas montanhas quitenhas, no bucólico isolamento que então caracterizava aquele posto, quando os países sul-americanos se davam as costas, tive a fortuna de deparar com um verdadeiro intelectual, que se imergia nos livros sem descurar da realidade circunstante, de que lhe cabia, dada a mediocridade do chefe, informar a distante Secretaria de Estado.

        Desde cedo, ainda no clássico do Mello e Souza, começara eu a formar pequena  biblioteca, com volumes da Garnier, uns poucos da Pléiade e pocket-books de literatura inglesa e americana. Nos anos cinquenta, malgrado a inflação, o câmbio se mantinha acessível, mesmo para quem dispunha de exíguos meios.

        Quando passei no vestibular da Faculdade Nacional de Direito e cursei o primeiro ano em 1956, trabalhando como extranumerário na Comissão Permanente da Revendo do Material, do Ministério da Agricultura, aproveitava a hora do almoço para visitar as livrarias do centro. Além da Freitas Bastos, no Largo da Carioca, junto do antigo Tabuleiro da Baiana (ponto terminal de bondes), existia a Civilização Brasileira, na Sete de Setembro. Ambas exibiam ricos acervos, sendo que todo o espaçoso segundo andar da Civilização era reservado à literatura francesa. Na Ouvidor, próxima da esquina de Rio Branco, do lado esquerdo, estava a mais acanhada, porém prestigiosa José Olympio. Do outro lado, à direita, a meio caminho da Gonçalves Dias, se achava a Garnier, em que se reuniam, no passado, tantos expoentes literários. Já na rua do Rosario se situava a Kosmos, especializada em literatura germânica.

        Nunca discorremos especificamente sobre esse aspecto. O tardo florescimento que tive a oportunidade de vivenciar, só surgiria em nossas conversas como contraponto à decadência do centro e ao definhar das grandes livrarias, produto das transformações urbanísticas e da repressão da ditadura militar. A partir dos anos oitenta, restávam-nos a Leonardo da Vinci, sob a férula de dona Vanna, o declinante sebo da rua do Carmo, e mais para os anos noventa, a promissora Livraria da Travessa. Sobre as demais, como a antiga Acadêmica, na rua Miguel Couto, pairava a sombra pressaga dos magros estoques.

       E, não obstante, certamente as minhas caminhadas repetiam as tuas, se agregarmos a qualificação de quão mais amplo seria a ðåñßïäïò[2] tua, estendendo-se sinuosa pelos inúmeros sebos, e outras recônditas livrarias, como a das Edições Loyola, que me apresentarias mais tarde, nas alturas do edifício Sisal da Presidente Vargas.

        Voltemos, contudo, aos escassos, se bem que proveitosos, meses de meu estágio em Quito. Se lá te demoraste dezessete anos, e tantos colegas terão privado da tua companhia, coube a mim – e o digo com a singeleza dos fatos chancelados pelo tempo – efêmero cometa na prússica abóboda quitenha, colher o prêmio da tua amizade, arrimada nas afinidades eletivas do intelecto, e alinhavada com a beneditina perseverança das trocas epistolares, salpicadas, aqui e ali, com os rituais e aleatórios encontros do bar Monteiro e adjacências.

        Se tínhamos, pois, interesses comuns, se já dispunha de incipiente biblioteca, não seria eu terra sáfara que enjeitasse  a tua palavra e exemplo. A modesta, encolhida chancelaria, ao invés das pobrezas burocráticas, seria para mim a óôïÜ[3] clássica, onde tu me abririas espaços antes ignotos, caminhos desconhecidos, distinções necessárias, mas até então mal apreendidas. Sem jactâncias, sem formalidades e subserviência, surgiam mestre e discípulo. Proscritas as mesuras acadêmicas, as horas acaso vadias do expediente passavam, com indicações de livrarias na Holanda, Inglaterra, Alemanha e França, aonde poderia encomendar obras sobre temas históricos, que então me interessavam. Nesse sentido, me ajudavas a fazer a triagem dos autores, a par de sinalizar-me um que outro livro introdutório ao estudo da filosofia. A tal respeito, ao referir-te aos ensaios de Camus, cuidaste de redimensionar-lhe a importância, frisando que os seus escritos pertenciam ao ensaísmo e não à filosofia. Em outras palavras, não possuíam o valor conceitual que eu lhes atribuía.

        Inexistia o propósito de desenvolver tópicos determinados. Repontavam os comentários em função de questões do dia, ou de expectativa da chegada próxima de algum livro relevante há muito ordenado. Por vezes, folheando um volume recém-vindo, me mostravas como ver as notas de pé de página, a bibliografia, e a estruturação das matérias, maneira expedita de verificar da seriedade da pesquisa e da amplitude da leitura que o precedera. Eras minerador exímio na procura das fontes, que te poderiam ser úteis para ulteriores estudos.

       Generoso nas indicações de títulos, nos conselhos de autores a merecerem especial atenção, sempre pronto a dirimir eventuais dúvidas, a corrigir, sem titubeios, mas tampouco sem rispidez, tinhas evidente prazer em partilhar o teu conhecimento ou os métodos para tanto imprescindíveis.

       À tua mão aberta para disseminar o saber, não correspondia, entretanto, igual inclinação em dar livros. De ti, só recebi dois livros bastante finos, impressos na Inglaterra, em papel da Segunda Guerra Mundial.

       Que dizer de emprestar ? Jamais colhi aceno de que me cederias por empréstimo algum volume. Decerto, davas todas as referências, em que livraria teria mais chance de encontrá-lo, e até mesmo, no caso dos leilões da Beijers, aconselharias que vulto de lance fazer, e que margem deixar ao leiloeiro, se grande fosse o meu interesse. Nada sonegar ao aprendiz, em termos de elementos, endereços, a par de apreciação do valor e da atualidade da obra que pretendia adquirir.

       Essa característica tua eu a assinalo sem a mais leve censura. Não há atalhos na marcha infinda em busca do saber. Ao encetá-la, nos armamos da socrática certeza de que não a completaremos nunca. Só os estultos têm certezas inabaláveis. Por isso, cada neófito deverá, com pertinácia de Sísifo, refazer o caminho de outrem, valendo-se dos próprios meios. Incumbe ao mestre colocar perguntas, sugerir alternativas, ressuscitar dúvidas, assinalar fatos e ferramentas para ir adiante. Por isso, não pensa em substituir-se ao discípulo.

       Como não te é facultado transmitir ao iniciando o conjunto de ideias associado à determinada obra, daí se segue a necessidade de que a adquira, não pela posse material, mas para que, em refazendo a trilha do mestre, alcance as próprias conclusões e cresça a sua aptitude de escolher novas sendas.

      Parafraseando o verso de Vinício de Moraes, que seja eterno enquanto dure o teu possessivo amor ao livro. Que importa, meu caro Amigo, se a tua luta obstinada e sem quartel não tem outra perspectiva senão a do fim abrupto e inelutável ? Viveste de, por e para os livros. A eles, consagraste a existência.

      E a essas estantes infindas, de que – estejas tranquilo – nenhuma internet ou novo sistema de informática logrará ocupar o espaço, não legaste apenas as prateleiras que se comprimem no anexo encimado pelo dístico Humanitas. Em boa hora, trocaste o ambicioso tratado das origens do direito penal por monografia sobre uma frase aristotélica aparentemente sem sentido. Depois das décadas votadas ao direito penal, por  cerca de quinze anos, estudaste, pesquisaste, estruturaste e, enfim, escreveste – nas teclas gastas, cansadas, obsoletas, inimitáveis e inesquecíveis da tua velha Olivetti – mais um livro, a somar àqueles que alimentam as insaciáveis bibliotecas. Todavia, à maneira do Filósofo que tanto leste e admiraste, será matéria a tratar em outro local.

      Creia-me, ilustre e preclaro Amigo, que funda sinto a falta do Mestre de sempre,

 

                                                    *         *

 




[1] Quão agradável uma vez salvos recordar-se dos trabalhos havidos.
[2] itinerário
[3] pórtico
(z) pseudônimo.