quinta-feira, 16 de maio de 2013

Imagem atual do Brasil

                                         
      Depois de todo o oba-oba do Governo Lula da Silva – Brasil, sexta economia mundial! – não será mero detalhe que a sucessora Dilma Rousseff ora venha colecionando dados negativos.
           Voltou a inflação. A despeito de todas as dílmicas promessas vazias do gênero ‘não admitirei’, ela continua a diminuir as vendas e a tornar as notas de cem e cinquenta cada vez mais presentes nas transações do  dia-a-dia.
           Cai a confiança dos empresários em relação ao Brasil. De acordo com calculo de grande banco nacional, baixou o otimismo empresarial no que tange a nosso país. Assim, o índice de confiança medido entre janeiro e abril de 2013 está 10% menor do que o registrado em agosto de 2010.
          Por outro lado, consulta do Banco Mundial com 800 investidores, apenas sete disseram que o país apresenta as maiores oportunidades da América Latina.
          O Governo Dilma Rousseff preferiu passar ao largo das reformas, seja a fiscal, seja a política. Quanto a esta última, é demasiado eloquente a resposta dada pela chamada base de apoio parlamentar, que, a despeito de bem cevada em benesses e ministérios, não contribui com a recíproca da sustentação política. Em uma casa dividida, todos brigam e ninguém tem razão. E, no entanto, como só a recíproca é verdadeira, segundo ensina o velho preceito, as causas do descalabro parlamentar serão muitas, e todas as partes, a começar pelo Palácio do Planalto, têm culpa em cartório.
         Os governos petistas ignoram o investimento e a poupança. Optam pelos gastos correntes, daí o inchaço dos ministérios – que breve atingirão o mítico numero dos quarenta de Ali Babá. Mas não é só. Não é que com a desordem fiscal, a opacidade nas contas, e o virtual desaparecimento do superávit primário, a data de ontem teve uma estranha comemoração.  O Senado Federal aprovou 6.818  cargos de funcionários públicos em tecnologia de informações e outros, com uma despesa fixa de R$ 480 milhões por ano.
        Com todo o dever de casa, feito pelos Ministros Palocci e Meirelles, desde o início do governo de Nosso Guia houve enorme incremento nos gastos correntes da Administração, com a nomeação de grande número de funcionários. Passados os anos da planície, chegara o momento de premiar a militância dedicada de tantos quadros.
       Não se ignora que o aumento desproporcional dos gastos correntes no orçamento público implica em sobrepeso considerável para a União, eis que, como se infere, é uma das partes menos elásticas das contas públicas.
       Sem embargo, as más notícias continuam, com a sua costumeira importunidade, a acotovelar-se nas antecâmaras palacianas. Assim, a indústria brasileira tem o pior desempenho entre as emergentes, com queda de 2,6% na produção. Somente se lhe compara a Argentina de Cristina Kirchner. Por outro lado, o resultado negativo também se reflete enquanto componente do PIB, em que igualmente sofreu a maior contração no mundo emergente (a queda de Pindorama foi de 0,8%). 
        Mas as novas agourentas não param por aí. Após dez anos – terá algo a ver com o período do Partido dos Trabalhadores no governo ? – a dívida pública volta a crescer. Conforme previsão de grande banco, a dívida acumulada no setor público alcança o patamar de  36%  do PIB (a projeção é de que chegue a 38% em 2015).
         O quadro negativo também se estende às contas externas, como tem de resto sido assinalado. O Brasil não consegue superar a barreira de ser precipuamente um exportador de produtos de base (commodities). A nossa produção de manufaturas, máxime aquelas com maior agregação tecnológica, continua a ser insuficiente. Apesar de termos uma empresa que constrói aviões de médio alcance, e que enfrenta a concorrência a contento, a nossa produção industrial empalidece diante da pletora dos produtos primários, sina que nos persegue desde os tempos coloniais.
         Escusado dizer que o desempenho menos brilhante nas exportações contribui para engordar o déficit, que precisa ser pago no final do exercício. No passado, os IEDs (investimento estrangeiro direto) compensavam eventuais posições no vermelho, mas de uns tempos para cá, com a dílmica inflação e a vitrine econômica menos vistosa, o afluxo de tais inversões, se não secou, diminuiu deveras, com as consequências do endividamento que carece de ser zerado.
        O anti-modelo Brasil – temos o dúbio galardão do maior peso de impostos nas Américas – constitui o enigma que administrações, ou incompetentes, ou timoratas, não logram reformar.
        A carga do impostômetro representa por si só uma piada para todos os brasileiros. Reflete, com o seu caráter acumulativo, um obstáculo para o desenvolvimento,em que a cega ganância e a burrice se dão as mãos.
        E se isto é piada, é de muito mau gosto.

 

( Fontes:  Folha de S. Paulo,  O  Globo )

quarta-feira, 15 de maio de 2013

A Crônica dos Erros

                                    
Aquecimento global

           Bill McKibben é respeitado especialista em meio ambiente. No seu último artigo para a New York Review (Volume LX nr.8) “Alguns gostam disso quente”, ele se serve do título da comédia de 1959 de Billy Wilder, traduzido no Brasil como “Quanto mais quente melhor”.  
           O título brasileiro é ainda mais apropriado, no contexto da acentuação do sombrio panorama climático. Malgrado as tergiversações e as negativas oficiais, a situação climática é consequência direta do tratamento negligente que lhe vem sendo dado pela maioria dos governos, empurrando para as próximas gerações esta herança maldita.
          A displicência das administrações – e há poucas exceções, com a Alemanha à frente – reflete um quadro desolador. A falta de acordos internacionais vinculantes e a inação nacional, com o desenvolvimento de novas tecnologias (como o fracking na busca de xisto betuminoso) e a continuada utilização de velhas práticas poluentes (com o carvão, v.g., tanto na China quanto nos EUA), só tendem a agravar a situação.
         O artigo de McKibben merece ser lido. Por isso, me cingirei a alguns tópicos:
(a)   Novo estudo de anais de temperatura em período de onze mil anos mostra que o planeta se está aquecendo 50 vezes mais rápido de que em qualquer época da civilização humana;
(b)   novos dados relativos ao Artico indicam que nos últimos trinta anos a área de vegetação avançou sete graus de latitude norte;
(c)    se uma elevação de um grau Celsius na temperatura basta para derreter o Ártico, a pergunta que se impõe é a da consequência de ulteriores alças.
       Não se trata apenas de derretimento de gelo – e do permafrost da Sibéria e do Alasca, com a liberação do gás metano (a que o artigo em tela não se refere), mas também a outros efeitos deste aquecimento. O quadro inclui a redução na disponibilidade de água, o risco da fome com o fracasso das colheitas, a desestruturação demográfica com as migrações causadas por essas catástrofes, e a disseminação de enfermidades pandêmicas.
         Nesse particular, McKibben cita o avanço da febre amarela, dada a circunstância de que o mosquito vetor, o nosso conhecido Aedes Aegypti, já se espalha em área de 2,5 bilhões de pessoas. Nesse contexto, se coloca o risco de surtos urbanos de febre amarela, tanto na África quanto na América do Sul. Cerca de 20% da população seria afetada, com alto nível de fatalidades.
         A elevação do nível do mar aumentará os deslocamentos de populações ribeirinhas. Qualquer leigo com um mínimo de boa fé ficará perturbado com os níveis de destruição alcançados pelo furacão Sandy, com a destruição das áreas costeiras de ilhas próximas a Manhattan, como Staten Island. Muitos daqueles que preferiram não abandonar suas moradas pagaram com a vida.
         Há diversos outros detalhes da marcha das intempéries que se deve quase exclusivamente à atitude humana de negação da respectiva periculosidade. Existem muitos motivos para tanto, que vão da obtusidade à má-fé.
         Para maiores detalhes sobre o estudo – que nada tem de sensacionalista – e se limita a reportar-se a fontes fidedignas, recomendo ao leitor que procure acessar o texto através da internet.  

 
O Erro de David Cameron

        Ao preferir olhar para trás e desconhecer toda a luta de antecessores seus, como Ted Heath, na década de setenta, e do próprio Tony Blair, em tempos recentes, o Primeiro Ministro David Cameron, pensando fazer jogada política, abriu uma caixa de Pandora, e recolou em discussão a participação inglesa na União Europeia.
        É conhecida a vocação insular da Grã-Bretanha, mas no século XX e no atual, com a decadência da antiga potência inglesa, se tornara indispensável uma união comercial com o Continente. Se no passado, a política britânica fora a de manter poucos laços com os países da terra firme, as condições econômicas do período pós-moderno apontavam claramente para a necessidade de estreitar laços, e não de afrouxá-los. A própria indústria inglesa não se pode dar ao luxo de confrontar-se com barreiras alfandegárias para as suas vendas à Europa, e não foi por sentimentalismo ou entranhado espirito europeísta que a Albion bateu à porta de Bruxelas para integrar a União.
       Vencidos os vetos de De Gaulle, em anos subsequentes, Londres assegurou o seu lugar na constelação europeia. O próprio Tony Blair teve que vencer o ressurgente nacionalismo britânico, logrando ganhar mais um referendo.
       A fraqueza do atual líder conservador o levou a cometer um duplo erro. Pensou que obteria concessões de Bruxelas com as suas veleidades secessionistas. O delicado equilíbrio que presidiu à construção da União Europeia – que dos seis países fundadores (Alemanha, França, Itália, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo) hoje tem 27 membros, sendo dezessete da Zona do Euro – não admite que membros isolados venham a tentar extorquir a continuada presença com tratamentos especiais. Qualquer político com um mínimo de discernimento perceberia que adentrava um beco sem saída.
       A opinião pública inglesa – que costuma ver os demais europeus do Continente com desdém insular – por desconhecer as consequências de tal gesto, com as consequentes dificuldades para a sua indústria que não mais fruirá das franquias da U.E., só sentirá o peso de seu ato impensado quando Inês estiver morta, cabendo aos eventuais sucessores de Cameron refazer o árduo caminho do reingresso.
       Cerca de cem deputados conservadores se dispõem a apoiar emenda crítica do programa da coalizão tory-liberal, por não incluir projeto que preveja a realização de um referendo sobre a continuação ou não da participação do Reino Unido na UE. Ao tergiversar por muito, e por distanciar-se de seus colegas em Bruxelas, Cameron ensejou o avanço à sua revelia do processo referendário. Como aprendiz de feiticeiro, David Cameron liberou forças sobre as quais não tem controle.
      Em meio aos oportunistas – que se valem de impulsos impensados – e outros marinheiros de águas turvas, ei-lo com um senhor problema. Além de dar marcha-a-ré para a respectiva economia, breve se verá acossado por tropéis de que nesciamente abriu as cancelas.

 
 Novo Comício contra Putin

           Cerca de trinta mil pessoas acorreram a manifestação de protesto contra a volta de processos políticos no sistema judiciário russo.
           Na segunda feira, 29 de abril,  marcaram o primeiro aniversário da reunião na Praça Bolotnaya, desfeita com uma série de prisões dos manifestantes.  Aquele evento marcou o fim dos protestos do inverno, que foram multitudinários e pacíficos.
          A reação do regime traduziu-se em série de leis repressivas, tendentes a restringir o direito de reunir-se, assim como para incrementar as multas por ajuntamentos não-autorizados.
          Desta feita, a afluência beirou os trinta mil, o que nas condições atuais de quase ditadura representa inegável êxito. A gente decide afrontar o regime, malgrado a brutalidade policial, e as possíveis penas a serem aplicadas pelo dócil judiciário.
         Os manifestantes levavam botões com as seguintes palavras : “A ação contra Navalny é também contra mim!”
         O protesto se dirige igualmente contra os processos do comício na Bolotnaya (28 pessoas estão sendo perseguidas judicialmente ‘por atacar polícias’, além de tomar parte em distúrbios da ordem.
         Diante da atitude do regime autoritário de Vladimir Putin, o propósito da multidão reunida na segunda, 29 de abril, pode parecer até romântico: congregar aglomeração grande o bastante para que o Kremlin pense duas vezes antes de continuar com as suas prisões em série, a par de condenar Navalny a cumprir pena.
         Se todas as revoluções, em suas primícias, podem ser qualificadas de quixotescas, os autocratas da estirpe de Putin não ignoram da têmpera do povo russo, e de seu cansaço diante de um regime autoritário e corrupto como o instaurado pelo ex-chefe da KGB. Dos tzares aos gerarcas soviéticos, a história da Rússia apenas experimentou, por breve período, a democracia. Como as ditaduras são embaladas no medo, a luta para derrubá-la continuará a exigir a sua cruel quota de vítimas, até que o poder do fuzil se torne insustentável. A resposta para o enigma estará naqueles que ousarem confrontá-lo e logrem derribá-lo antes que os devore.

 
Silêncio na Ucrânia

          Nada de novo no front ucraniano. Debalde a minha procura de sinais de resistência, seja do povo da Ucrânia, seja de sua corajosa defensora, Yulia Timoshenko. Ao seu catre no lazareto de Kharkov terão acaso cessado as visitas de dignitários estrangeiros.       
           Anotei neste blog que faz tempo  esta prisioneira política recebeu no confinado cárcere a visita da Presidente da Lituânia. Não sei se outro prócer terá seguido os passos desta manifestação de apoio.
           A linguagem diplomática tem sido inútil para que este ato de arbítrio venha a ser revogado. Não é com frases de comunicados que Viktor Yanukovych determinará a anulação desse processo ilegal. Que valor dão os burocratas de Bruxelas e os líderes das nações com relações econômico-financeiras com Kiev à democracia e à liberdade se pactuam, no próprio silêncio ou prática inação, com o presidente da Ucrânia ?
 

(Fonte:  International Herald Tribune ) 

Lula candidato ?

                                            
         O colunista Merval Pereira levanta a possibilidade de que o ex-presidente Lula da Silva irrompa como candidato do Partido dos Trabalhadores para a Presidência da República. À primeira vista, parece hipótese que margeia o absurdo, dado o enfático e reiterado apoio dado pelo criador à sua criatura Dilma Rousseff. Essa sustentação, que é decerto indispensável para a atual presidente, fora dada de forma inequívoca por Lula a Dilma, quando esta lhe pedira confirmação de que não pleitearia um terceiro mandato, e, a fortiori, por meio de múltiplas aparições da máxima figura do PT na propaganda da presidenta com vistas à desejada reeleição.
        Relembro, a propósito, por assaz oportuno, o dito do insigne e hoje um tanto esquecido político mineiro, José de Magalhães Pinto – o qual derrotara Tancredo Neves na eleição para a governança das Minas Gerais -  que comparou a política às nuvens, dada a mutabilidade das imagens que nos céus elas nos proporcionam.
        Por isso, por menos provável que a informação aparente , será sempre oportuno verificar os antecedentes da notícia.
       Qual a origem desta especulação ? Acredita-se entrever no presente comportamento de Eduardo Campos uma baixa no diapasão de sua pré-candidatura ao Planalto. Além de razões menores – como eventuais efeitos de suas ausências de Pernambuco, sua principal base eleitoral – acredita-se entrever na presente mais discreta modulação nos diversos movimentos ligados à ambição do chefe do PSB, governador e neto de Miguel Arrais, um críptico recado transmitido por Nosso Guia ao novel postulante.
       A estória pode ser apócrifa, mas carrega consigo certa verossimilhança. Consoante refere a coluna de Merval, Eduardo Campos haveria recebido mensagem de Lula da Silva encarecendo que ele pesasse bem os passos que estava dando, antes que fosse tarde demais.
       Em que se fundamenta o raciocínio do ex-Presidente ? Pelo visto, ele não considera imutável o quadro, eis que se intervier alguma ulterior mudança que exija a presença de Lula na disputa presidencial, como ficaria o governador de Pernambuco ? Estaria ele disposto a enfrentá-lo nas urnas ?
       Em outros termos, Lula recomenda prudência ao neófito Campos. Sobretudo, convém não ir com muita sede ao pote. Eia pois, não está descontada a possibilidade de que, e não tão de repente, compareça perante o povo brasileiro, encabeçando a chapa petista, não mais a companheira Dilma Rousseff, mas o mítico fundador e líder do Partido dos Trabalhadores, pronto para enfrentar a sexta campanha presidencial (três perdidas, uma para Collor e duas para FHC, mas duas vencidas, em sua nova encarnação, contra José Serra e Geraldo Alckmin).
       Para os que ensaiam seus passos no caminho do Planalto, não se afigura decerto hipótese tranquilizadora. E, por isso, mandaria elementar prudência que as armas sejam ensarilhadas para nova e menos árdua refrega.
      A outra pergunta que não quer calar se centra na motivação da súbita incerteza que se insinua no líder supremo do PT. A popularidade de Dilma, conforme as últimas atestações do Data Folha, permaneceria nas alturas, mas o que dizer da inflação, que diminui as vendas e a confiança do mercado, a incompetência política, incapaz de transformar a inchada base partidária em apoio confiável, as estripulias fiscais da Fazenda de um desprestigiado Guido Mantega, além da excessiva docilidade do Banco Central ? Presume-se, por conseguinte, que os companheiros petistas estejam nervosos com a vindoura prova do prélio das urnas. E, por isso, pensem sempre mais na segurança que lhes traria ter o velho capitão Luiz Inácio Lula da Silva, dourando a chapa dos Partido dos Trabalhadores com a aura das passadas conquistas e a sua telúrica força.
        Não importa que o tempo haja passado, e que Lula não tenha mais o antigo vigor. Ele seria a figura carismática que garantiria, a um tempo, o bom governo evidenciado no primeiro mandato, e a afirmação extra-continental trazida pelo segundo. Pelos tropeços da sucessora, e esquecida das verrugas, a militância sonha com a intervenção salvadora do grande Chefe.
       Nos céus, as nuvens erráticas não semelham trazer bons sinais. Por isso, batem à porta do velho timoneiro, de cuja decisão pendem todos, a começar pela senhora Presidenta.

 

( Fonte:   O Globo )  

terça-feira, 14 de maio de 2013

Rescaldo da Semana

                                         
 Reexumando velhos truques

          O Partido Republicano não se emenda. Sem dispor de questão (issue) com potencial de forte repercussão na opinião pública, e diante da acachapante derrota na eleição presidencial – em que seu ideario foi repudiado por grandes segmentos da população -, não é que agora resolve apelar para sovado e duvidoso truque, o de requentar tópicos passados, que abrangentes análises de comissões oficiais e as respostas das autoridades envolvidas já haviam respondido à saciedade ?
         Ao voltar a acenar os esfarrapados panos do criminoso ataque ao consulado em  Benghazi, e suas vitimas, notadamente o embaixador J.Christopher Stevens, o G.O.P., através do Speaker John A. Boehner, intenta dar credibilidade à nova investida, cujos objetivos, por inconfessáveis que sejam, luzem com todo o frescor dos pães dormidos de véspera. O seu fugaz calor só enganará os radicais de direita e os minguantes adeptos do Tea Party.
         Dois traços desta deplorável artimanha ressaltam: à falta de um tópico sério, tentar reexumar um novo processo político, baseado no feudo da Câmara de Representantes, para buscar importunar a Administração Barack Obama, e sobretudo, pondo os olhos temerosos no futuro, para montar, á guisa de espantalho, estória que possa ser empregada com escopo eleitoreiro, contra a possível candidata à sucessão do 44º Presidente,  Hillary Clinton.
         Ter-se-ão esquecido do malogro do processo confiado a Kenneth Starr, o de Whitewater, com que pretenderam destituir o popular presidente Bill Clinton ? Esse promotor especial despendeu com a vendeta política 45 milhões de dólares, colhendo tão só o dúbio galardão de agrilhoar testemunhas inocentes e de armazenar o vento em seus alforjes.
 

 Giulio Andreotti   (1919-2013)          

         A morte política de Andreotti antecedeu de muito o fato atuarial. Com efeito, a implosão do sistema centrado no domínio da Democracia Cristã em 1992 determinou-lhe não só o afastamento da chamada stanza dei bottoni (o quarto dos botões - de comando), senão o início do inverno dos processos judiciais, em que foi acusado de laços com a onorata società (a máfia). Réu em dois julgamentos e apesar de pronunciado inocente, ficou-lhe a pecha. As acusações eram de colusão com a máfia (em troca de apoio eleitoral) e envolvimento no assassínio de um jornalista que se dedicara à perigosa senda das denúncias do campo penal.
          Andreotti, antes próximo do Vaticano – sobretudo nos tempos de Papa Pacelli, Pio XII – foi sete vezes Presidente do Conselho na Itália, e era um mestre no jogo de compor maiorias em torno da D.C., com a participação de partidos menores havidos como laicos.
          Ligado a Alcide de Gasperi, o refundador da Democracia Cristã, nunca inspirou o mesmo respeito e ascendência de que fruíu o líder histórico da DC. A sua própria aparência, acentuada sob o peso da idade, facilitava aos cartunistas apresentá-lo como ave de rapina.
          No final da vida, guindaram-no ao cemitério especial dos senadores vitalícios (distinção prevista pela Constituição italiana que inclui personalidades insignes, como o poeta Eugenio Montale).
 

Os Irmãos Inimigos

           Se a recomposição entre Angela Merkel (CDU-Alemanha) e François Hollande (PS – França) não tardou, apesar das flechas da campanha eleitoral em que o candidato socialista vencera por estreita margem a Nicolas Sarkozy, e manifestara teses favoráveis ao desenvolvimento e não à austeridade.
           O peso da economia alemã, e o virtual diretório franco-germânico na União Europeia, no entanto, terá logo contribuído para a recomposição entre Hollande e Merkel.
           Agora, a aproximação das eleições gerais na Alemanha, reacenderam esperanças  na grei da antiga SFIO (Section Française de l´Internationale Ouvrière[1]), como dantes se chamava, nos tempos de Léon Blum e da quarta república o atual PS,  remodelado por seu último grande líder, François Mitterrand.
           Acossados menos pela direita gaullista da UMP (União para o Movimento Popular), que pelo fraco desempenho de François Hollande, os socialistas veem diminuir a popularidade de seu presidente ao nível de 24%. A única exceção no rosário de indecisões e tropeços de Hollande está na intervenção no Mali, em que o exército francês logrou expulsar os tuaregues e islamitas que já se tinham apossado de metade daquele país do semidesértico Sahel, e que, defronte da debilidade das forças legalistas, não deveria tardar em ocupar o restante do país, com a capital Bamako, e a mais populosa região sul.
            Diante deste quadro um tanto sombrio, as esperanças de Hollande semelham repousar na vitória do candidato das esquerdas na Alemanha. É uma falácia que acompanha os governantes: muita vez esperam de seus homólogos, sobretudo daqueles com quem a história os força a manter estreitos laços, que uma vez passados da oposição para o poder, venham a assumir posições próximas do respectivo movimento político.
           Em realidade, a velha máxima de conquistar o mando pela esquerda, e governar com a direita tem um pouco a ver com a situação alemã, em que a sua liderança na União Europeia tende a estreitar as opções do novo Chanceler, na hipótese de que o falastrão Peer Steinbruck venha a vencer. Resta saber se as gafes do líder da SPD – contra as mulheres e contra os italianos – influenciarão o voto para o Bundestag[2]. Como se sabe, a CDU (União Cristã Democrática) tem uma seção na Baviera (a Uniâo Social-Cristã). Para governar, precisará do voto do FDP (Partido Liberal), que é o elo fraco da corrente. Por sua vez, a SPD se alia em geral aos Verdes. Os demais partidos dificilmente superam a barreira constitucional dos 5%.
            Se a Chanceler Merkel, pela sua experiência e firmeza, a par de a economia alemã registrar pequeno crescimento, contra a geral queda na UE,  surge como aparentemente favorecida para manter a chancelaria,  até setembro muita água há de passar e seria não só prematuro, mas também imprudente determinar-lhe a vitória como certa.
           Nesse quadro, malgrado as suas óbvias preferências pelo partido socialista alemão, François Hollande tem de pautar-se por suposta neutralidade, porque não interessa à França, pela situação da respectiva economia,  tornar as relações com Frau Merkel ainda mais difíceis.

 

(Fonte:  International Herald Tribune )      



[1] Seção Francesa da Internacional Operária.
[2] Assembléia Federal

É patriótico inviabilizar o bom Governo ?

                           
          A Administração Barack Obama encontra no Senado imensas dificuldades para fazer aprovar as suas indicações para as chefias de ministérios – que lá se chamam secretarias – e de agências governamentais.
          Em outra vertente da chamada paralisia no Congresso, o Partido Republicano se empenha de todo modo para estorvar e até mesmo inviabilizar a plena entrada em funções das unidades administrativas que existem – a precisão aqui se me afigura necessária – não só para atender aos aspectos burocráticos de todo governo, mas também para servir ao cidadão e à sociedade em geral.
         Dentro da atmosfera de confrontação que se instalou em Washington – e constitui, de resto, indício preocupante de desfazimento sócio-político nesta fase pós-ataque às torres do World Trade Center e as ruinosas guerras de George W. Bush[1] - a atitude das bancadas do Grand Old Party tanto na Câmara de Representantes (onde é maioria), quanto no Senado torna motivo de chacota qualquer menção a espírito bipartidário.
         Se é mais do que compreensível o papel da oposição (que é o da crítica construtiva), decerto esse modelo convencional em todos os parlamentos nada tem a ver com uma disposição que visa a inviabilizar de todas as formas a função de governar, a qual segundo o modelo da democracia ocidental, vale dizer o Parlamento inglês, cabe às maiorias (que no parlamentarismo representam a base do gabinete ministerial, e que no presidencialismo americano sóem tornar possível a Administração eleita governar, enquanto a oposição fiscaliza).
         Por uma série de disfunções – em que não cabe aqui entrar – a oposição no Senado estadunidense já dispõe de uma série de instrumentos de controle dos atos e iniciativas da maioria. Como o bom senso aristotélico recomenda, o acerto e a virtude se encontram no meio-termo. A ausência de supervisão configura a desídia, enquanto o abuso dessas medidas descamba para uma postura que é destrutiva, e não mais construtiva. O acerto ou não da iniciativa não entra em consideração. No caso, a oposição republicana aplica, no Senado, mesmo sem o saber, a máxima de Mao Zedong, de que cumpre determinar a origem de cada proposta, eis que do adversário (inimigo) nada de bom pode ser presumido.
        No Senado, a maioria democrata – que não é bastante para superar a barreira da filibuster (sessenta senadores) – e tem 55 senadores (em total de cem) se depara com inúmeras dificuldades apenasmente para prover os cargos da Administração Federal. O líder da maioria, Senador Harry Reid (Dem/Nev.) hesita em reformar o regimento do Senado, que,originário de época de espírito bipartidista (quando os republicanos viam os democratas como adversários e não como inimigos) ora se presta a todo gênero de manipulação e de postergação com vista a lançar as propostas da Administração para as ditas calendas gregas (dia de São Nunca).
       Dado o volume e a animosidade prevalentes nas atitudes da oposição quanto às indicações da Administração Obama – até o presente o indicado para a Agência que protege o consumidor contra os abusos dos bancos e empresas está impedido, pela contínua postergação do GOP, de assumir o cargo. Infelizmente, essa atitude não é exceção. Dessarte, a respeitada ecologista Gina McCarthy se vê submetida a um acúmulo de atos procrastinatórios. Não se lhe discute os títulos e a competência. Quiçá tal preparo constitua a secreta motivação de que o GOP intente inviabilizar a sua designação para a Agência de Proteção Ambiental.
         Para que se tenha idéia da amplitude dessa manobra, tão soez quanto estúpida, a senhora McCarthy recebeu cerca de 1100 perguntas escritas, dos senadores republicanos sobre as suas futuras funções.  Para um partido que adota quanto ao meio ambiente – malgrado todos os avisos nada sutis de mãe-Natureza, o último dos quais o furacão Sandy – a postura negacionista, o número desses quesitos, se não é surpresa, carrega um inquietante obtuso radicalismo, que no mundo de hoje só pode ser atribuído à militante má-fé, porque mesmo a burrice encarniçada está circundada e enfraquecida pela profusão de fenômenos e desgraças ambientais.
        Por outro lado, o GOP se dispõe a contestar a senhora Penny Pritzker, com mais de vinte anos de experiência de empresas, para o posto de Secretária do Comércio; e a Thomas E. Perez, para Secretário do Trabalho (ele é atualmente advogado em funções no Departamento de Justiça). Para a obstrução cega, o peso do argumento contrário será apenas detalhe, folha de parreira para tentar encobrir a maciça  e facciosa rejeição do indicado, pela simples circunstância de sua origem partidária. Assim, Perez é contestado por ser ‘demasiado político’.
       É característico deste espírito sectário e obstrucionista, que David Medine, indicado pelo Presidente para encabeçar a Junta de Supervisão da Privacidade e das Liberdades Cívicas, precisou de 510 dias para ser confirmado! E é quase dispensável acrescentar que a sua confirmação não contou com um voto sequer dos senadores republicanos, todos em carneirada optando pelo ‘Não’.   

                                                                                                                       (a continuar)

 

(Fonte:  International Herald Tribune )



[1] De que oportunamente tratarei, sob o ângulo que já se convencionou denominar o ‘declínio’ da superpotência americana.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Cartas ao Amigo Ausente (III)


 

          Meu mui prezado Pedro,

 

          difícil acreditar, mas já transcorre hoje o primeiro mês da tua partida. Nesse exílio dourado, não sei como andam as coisas com Terezinha. Tenciono em breve comunicar-me com o Dr. Brito, em verdade mais para fazer-lhe sentir que não está sozinho, de o que com o intuito imediato de ajudá-lo. Da distância, no entanto, busco, de alguma forma, ser útil. Estou intentando, meu caro Amigo, reabrir a conta no Banco do Brasil que, me releva a observação, não devias ter encerrado. Entendo o significado do teu gesto. Aposentado aos sessenta anos, querias cortar os laços com o exterior. Esqueceste, porém, que  a dita conta representa instrumento indispensável para quem é membro do seguro em grupo do Itamaraty. Todos os pagamentos médicos – que num assomo emocional não solicitaste do Segrupex – teriam sido creditados nesta conta. Se nesses vinte e dois anos não terás feito nenhuma consulta, médica ou odontológica – o que pela lógica me é quase impossível admitir, por mais robusta que haja sido a tua saúde -, decerto Thérèse terá carecido de atenções médicas especializadas, pelo menos em função do problema auditivo. Não discuto, todavia,essa tua negação: como posição de princípio, não me compete julgá-la por critérios racionais.

         Discuto, isto sim, a desnecessária e – me perdoes a franqueza – desavisada resolução de fechar a conta. Por mais que a ingratidão do ministério te haja afrontado – e compartilho da justiça dessa mágoa -, continuaste a ser um diplomata, inda que aposentado. Essa tua inconcussa prerrogativa, nenhum capricho poderia torná-la írrita. E, por conseguinte, estavas registrado sob o número XXX no Segrupex, número este que é igualmente assignado a Terezinha, como tua dependente.

         Adrede emprego argumentação jurídica, pois aqui me dirijo ao advogado praticante, membro da O.A.B. Neste caso, forçoso será reconhecer que não te assistia o direito de privar a tua esposa da prerrogativa de uma conta no exterior do Banco do Brasil, em que serão depositadas regularmente as indenizações devida pelo seguro médico, além dos cem mil dólares a que faz jus pelo seguro de vida do M.R.E. Dada a tua perene preocupação em proteger Teresinha, não tenho dúvidas de que, neste passo, te deixaste arrebatar pelo corcel das paixões, e que, por tal motivo, não tinhas ideia da consequente dificuldade criada.

         Por reputar imprescindível que a Thérèse venha a dispor da conta, não me conformei com a resposta do Arlindo (x), a qual, após consignar a atual inexistência de conta em nome do membro do serviço exterior brasileiro Pedro Carlos Neves da Rocha, a par do número de registro no Segrupex e a condição de dependente do cônjuge, indicava como solução a emissão de cheques em dólares pela seguradora. Assim, para cada transação, um cheque seria encaminhado pelo correio...

         Como aceitar um despautério dessa ordem ? Se, em tese, este expediente semelha absurdo, se tivermos presente a situação de Thérèse, meu estimado Pedro, a situação se agravaria deveras. E, nesse contexto, tudo aconselha que se adote a via mais garantida, mais discreta, e infinitamente mais prática, da conta em dólares na agência do Banco do Brasil em Miami.

         A celeridade da doença que veio abreviar os teus dias, se te poupou de sofrimentos, contribuíu e muito para o desorganizado estado de coisas com que se viu a braços a viúva, despreparada para lidar com as inúmeras consequências da fatalidade. Já me referi a essa situação – e enfatizei a preciosa e auguro continuada ajuda do Dr. Brito em atender às diversas formalidades da tua sucessão. Nesse quadro,  desejo ocupar-me por ora tão só da relevância do procedimento burocrático e bancário para reforçar a precária posição da viúva no que respeita à preservação de seus recursos.

         Por isso, me empenho em obter através de e-mails os dados necessários para que Terezinha possa abrir a aludida conta em Miami. A despeito da presteza do meio que nunca quiseste utilizar, a lentidão dos empregados continua a mesma dos tempos em que só se podia recorrer ao correio postal. Espero que a minha insistência venha a prevalecer, para que a tua mulher tenha afinal condições de exercer tal direito.

        Porque a alternativa, Pedro, se me afigura assustadora. Cercada pelo Hermes (y) e com as outras empregadas à espreita, a tua amada Thérèse corre sério risco. O Dr. Brito mora em Niterói. Se a sua presença eventual em Petrópolis mostra a essa gente que ela não está completamente desemparada, é mister reconhecer que se acha bastante exposta a mor parte do tempo.

        Hás de relevar o desabafo, porém me resulta muito difícil entender o motivo que te levou a manter como agregado à criadagem um indivíduo com os defeitos de caráter do Hermes. Apontam-me como motivo a tua bondade. Se a explicação corresponde à realidade, o que me parece provável, tal não me induz a aceitar-lhe a consequência. Até a bondade tem um limite, na medida em que, não obstante a caridosa intenção, a condescendência pode transformar-se em vetor de ulteriores efeitos danosos. Creio que onde te encontras, se vês o que ocorre na tua casa e, principalmente, o que pode aí acontecer, estarás decerto arrependido em haver tolerado a permanência de uma figura tão dúbia e repulsiva quanto o teu chofer.

       Assim, se lograr contribuir de algum modo para que a Terezinha tenha conta no Banco do Brasil, já me será bastante. Por ora, contudo, não é o momento de alvíssaras, pois o moço da gávea não distingue fímbria de terra à vista. Tenho de armar-me de muita paciência e tenacidade para vencer o egoismo humano, cujas funduras são insondáveis.

       Antes de ir adiante, julgo oportuno versar as dimensões da casa da Visconde do Uruguai e da criadagem que lá se acha. Dadas a inexistência de rendimentos colaterais e o esgotamento da poupança, pelos dispêndios com a tua enfermidade e passamento, salta aos olhos a disparidade existente entre os meios financeiros disponíveis e as despesas permanentes com a manutenção da residência, incluídos os salários dos empregados e as contribuições previdenciárias. Sei que será difícil para a Thérèse, mas se me afigura inevitável e urgente que ela se transfira para moradia mais conforme à sua situação, que lhe proporcione o que, a par de corresponder aos seus meios, melhor atenda à respectiva segurança. Pelo que vi, Terezinha não considera sequer a alternativa. Desejo sinceramente que ela não tarde demasiado em conscientizar-se dessa necessidade, de modo a que possa fazê-lo não tangida por credores e injunções judiciais, e que, em consequência, guarde certa margem de manobra, não só quanto à nova residência, senão para preservar as alfaias e objetos que lhe são caros.

        É de augurar-se que, nessa prova, o Dr. Brito confirme na prática a sua amizade. Como nu-proprietário, dele dependerá o êxito da transação, para que a viúva possa viver condignamente, com os recursos da pensão vitalícia, e em domicílio confortável, com a assistência de uma boa serviçal. Até o presente, todo o comportamento do teu amigo médico nos infunde confiança de que a tua indispensável intermediação será honesta e generosa.

       Cresceu o que pretendia ser apenas preâmbulo de correspondência, a ponto de transformar-se no seu teor precípuo. Malgrado não me tenha sido fácil levantá-lo, devo dizer-te que, como uma pedra no meio do caminho, não havia jeito de ignorá-lo. E é melhor que as verdades sejam expressas, mesmo aquelas a beirar o desagradável, para que não continuemos o nosso diálogo com a sobrecarga de pensamentos embargados por temores e precauções que ora não mais cabem.

       Essa carta, tão plena de incertezas e esperanças, comparte um pouco da dor das transições, que consigo carregam decisões passadas, de súbito e brutalmente questionadas pela precariedade da condição humana. Ao invés, sentiria mais prazer em referir o escrito na nossa memória, e que mais se coaduna com os traços marcantes da tua personalidade. É o que – se me valer a inspiração das musas e atendidas as injunções do diálogo – me proponho esboçar nas páginas adiante.

       Com amizade e entranhada tristeza,

 

 
(x) e (y)  Pseudônimos.
 

O Governo Dilma Rousseff

                                  
          Devendo exclusivamente sua presença na sala presidencial do Palácio do Planalto ao seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva, e já visivelmente empenhada em preparar o quadro político mais consentâneo para a sua tentativa de reeleição, a pergunta que se impõe ao eleitor e observador político será a de que títulos e realizações Dilma Rousseff dispõe para pleitear um novo mandato.
         Não só o fato de achar-se presidente do Brasil que ela  deve ao seu criador Lula da Silva. O ex-presidente continua muito presente em seu governo. Não reedita, é verdade, literalmente o maximato mexicano, em que Plutarco Elías Calles sufocava os respectivos sucessores, verdadeiros títeres no palácio, até que Lázaro Cárdenas o tenha despachado por via aérea para o estrangeiro, pondo fim à inconstitucional presença de don Plutarco.
         As coisas não chegam a esse ponto na administração da antiga gestora – como chefe da Casa Civil – do governo Lula. Para tanto, Dilma semelha singularmente dotada, mas em termos de presidenta – como gosta de ser chamada – continua pendente a pergunta a que veio.
         Não é que careça de autoridade – tem até demais – mas a questão ainda não respondida será a da utilidade prática desse poder. Em um gabinete inchado aos limites do despropósito – acaba de nomear o seu trigésimo-nono ministro – nunca a quantidade se mostrou tão inimiga da qualidade.
         Todos são muito tementes aos destemperos de dona Dilma, mas tanta personalidade não se tem convertido em administração que encha os olhos da opinião pública. Além dos critérios de escolha, o número excessivo, além do inútil peso orçamentário, não sói ser sinônimo de bom governo.
        Há pouco falava de Lula da Silva. Em verdade, se não existe formalmente o maximato mexicano, o fundador do Partido dos Trabalhadores está em toda parte nesse governo.
        Dele é a discutível orientação de formar essa descomunal base partidária, de fome insaciável em termos de prebendas e vantagens, mas que se mostra relutante a aportar a  respectiva (e imponente) maioria parlamentar em apoio às medidas desejadas pelo governo de Dilma Rousseff. A sucessora de Lula,neste capítulo coleciona derrotas, como no Código Florestal, e agora na M.P. dos Portos. Diante da velha máxima de que só a recíproca é verdadeira, torna-se sempre mais candente a indagação de que serve tão inchada maioria, se ela tem por hábito tomar o freio nos dentes e fazer o que bem entenda, desrespeitando os recados da inepta assessoria parlamentar do Palácio do Planalto.
        Se a serventia para a Nação brasileira de tal criação lulesca se afigura mais do que duvidosa, a pergunta seguinte concerne aos efeitos do dílmico propósito de reeleger-se. Os meus leitores sabem o que penso sobre essa mais do que discutível contribuição de FHC. A reeleição é um instituto pernicioso, que em nada favorece o bom governo e muito menos o combate à corrupção. Essa camisa envenenada de Nesso disforma as administrações sejam federais, estaduais ou municipais. Se há referendo urgente neste país é o da consulta à Nação sobre a continuidade dessa dádiva maldita.
        Politicamente, Lula da Silva é a grande presença no governo Dilma Rousseff. Decerto presidirá à estratégia de viabilizar a reeleição de sua discípula. Para quem disso alimentasse dúvidas, basta ver a propaganda de Dilma, em que o ex-presidente comparece de forma avassaladora, com o que se frisa subliminarmente a mensagem de que o grande guia político continua a ser o fundador do P.T.
        Por enquanto, os adversários de Dilma são muitos, mas não amedrontam pelo peso. Aécio Neves não se inspirou no antepassado Tancredo Neves para preparar a base da própria candidatura. Tudo fez para enfraquecer a postulação de José Serra na eleição passada (negou-se a compor a chapa do PSDB; e o cristianizou em Minas). Agora, fica-lhe difícil unir o tucanato. Eduardo Campos tem carisma e encanta o eleitorado feminino. Mas a sua postulação pode ser um tanto prematura. Marina Silva é um nome simpático, e se apóia na magnífica performance da eleição passada, em que converteu ridículo tempo na propaganda em mais de dezoito milhões de sufrágios. A sua base partidária, minada por apparatchicks verdes, se afigura, contudo, débil, e  sua Rede por ora tampouco promete.
        É de estarrecer, por conseguinte, que Dilma e a situação se empenhem em enfraquecer no tapetão ainda mais o quadro político adversário.
        Será que o seu medo se deve aos tropeços do respectivo governo (volta da inflação, medíocre gestão fazendária, com queda do PIB, incremento da dívida, e desorganização na gestão, com a consequente paralisia nos investimentos) ?
       Lula mais Dilma funcionaram nos governos do fundador do P.T.  Menos do que Primeiro Ministro, Dilma seria a gestora administrativa, enquanto Lula cuidava de viabilizar politicamente a administração, permitindo que a política econômico-financeira (a cargo de Antonio Palocci e Henrique Meirelles) se desenvolvesse sem interferências.  As coisas começarem a não andar tão bem com a vinda de Guido Mantega.
       Agora, Lula da Silva paira, mas decerto não governa. E é aí que mora o perigo.