domingo, 12 de maio de 2013

Papa Giovanni e Papa Francisco

                                   
        Assim como o argentino Cardeal Jorge Mario Bergoglio constituíu agradável surpresa para a Igreja, quando foi eleito Sumo Pontífice, depois de breve conclave, convocado pela inesperada renúncia de Bento XVI, igualmente o mundo recebeu o Cardeal de Veneza, Angelo Giuseppe Roncalli, com a perplexidade reservada a quem se rotulara, pela idade avançada, como um papa de transição.
        Depois do longo e rígido pontificado de Papa Pacelli (março de 1939 a outubro de 1958), por um Santo Padre de postura hierática e de aristocrática família, os cardeais eleitores terão preferido uma pausa na Santa Sé, com um pontífice idoso, que preparasse a Igreja para um sucessor seu mais jovem.
        E não é que o conclave de outubro de 1958, ao eleger um cardeal prestes a completar setenta e sete anos, realmente escolhera um Papa de transição. Não no sentido, porém, que se dera na eleição de Papa Giovanni. Como  disse o seu Secretário, Dom Loris Capovilla, bem outra era a transição que o breve, mas fulgurante pontificado de João XXIII traria para a Igreja.
        O Papa do Concílio – e ele que sabia não ter muito tempo à disposição, tratou de anunciá-lo a escassos meses de sua entronização, perante um punhado de atônitos cardeais na basílica de São Paulo fora dos Muros – convocara essa magna assembleia não para condenar, como deixou claro nas sua oração de abertura aos padres conciliares, mas para trazer a Igreja ao mundo.
       E,  para quem tivesse olhos e ouvidos, se bem atentasse, não deveria surpreender-se tanto. Quando lhe foi perguntado que nome escolheria, não trepidou em apelar-se João, apesar de ter sido abandonado pelos Papas por muitos séculos. E a mensagem já lhe indicava o magno propósito: João é o apóstolo das gentes. Quem hoje ousará negar que ali estava todo o programa de seu pontificado ?
      Ao contrário da postura de seu antecessor, Papa Giovanni iniciaria o seu ministério com a visita ao cárcere de Rebibbia, a prisão romana. E com a suas encíclicas e iniciativas pastorais, ele reintroduzia a primavera na Igreja, com o seu sorriso de boa vontade, o seu chamado a todos sem exceção e a sua faculdade de se aproximar não só dos irmãos separados, mas de credos e religiões que faziam da oposição e da contraposição extrema a própria estrela guia.
      Mais uma vez, para quem tivesse a fortuna de conhecer-lhe a longa caminhada, nada  seria uma surpresa.
      Além de tudo isso, João XXIII foi filho de camponeses pobres –  basta visitar-lhe o tosco abrigo onde nasceu para que , a um tempo,se admire os genitores pelo exemplo, o filho pelo esforço e o estudo, e a Igreja por elevar não só à Sé de Pedro, mas aos altares esse grande Papa que teve, a três de junho de 1963, morte inigualável.
      Com efeito, o seu desaparecimento foi saudado não com oficiais manifestações protocolares, em que a etiqueta se substitui ao sentimento. Perpassava  não só sensação de perda, mas também a consciência de que se afastava do nosso convívio um raro ser que tinha o condão de um verdadeiro traço de união entre as gentes.
     Descrever-lhe as qualidades é tarefa que de muito extravasa os limites deste artigo. Apreciaria, apenas,  sublinhar-lhe o dom do diálogo, fundado na boa vontade e nas qualidades que compõem a santidade. Esse raro fenômeno acompanharia a sua trajetória, tanto como Secretário do Bispo Radini Tedeschi[1], bispo de Bérgamo, quanto na longa e difícil estada na Bulgária e na Turquia, e até mesmo como Núncio Apostólico em Paris, nomeado por Pio XII, para surpresa da Cúria Romana.
     Conversar com o outro,  não como inimigo, mas com alguém que é digno de atenção e de compreensão, foi sempre uma característica do sacerdote Angelo Roncalli, em todos os avatares de sua longa caminhada, que não semelhara a muitos como predestinada às alturas por fim alcançadas, sempre como decorrência da própria personalidade e de suas qualidades humanas, jamais  postas ao serviço da ambição.      
     Dada a extensão de sua fama de santidade – manifesta para todos que tiveram a ventura de conhece-lo pessoalmente –  sua capacidade, em tão curto espaço de tempo, de transformar uma igreja triunfalista, cercada de ouropéis e de enganalados nobres, em um chamado a todas as gentes – através da inspiração do Concílio Vaticano II – assim como, de em palavras simples e de improviso – como no famoso discurso da Lua, feito por um extenuado Papa Giovanni ao cabo do longo dia da abertura do tão desejado Concílio, em que até hoje ouvimos o tocante clamor da multidão, embevecida pela espontaneidade da imagem.
     O culto popular à santidade desse Pontífice precedeu de muito o reconhecimento deveras tardio pela Santa Sé de sua beatitude. João Paulo II o elevaria aos altares somente no ano 2000. A própria negação de Paulo VI, seu sucessor, em fazê-lo santo, constituiria um enigma para o seu Secretário Particular, dom Loris Capovilla, que dedicaria inúmeras obras relativos às excelsas qualidades de Papa Giovanni.
    Não tenciono compará-lo a outros que obtiveram a canonização em tempos muito mais rápidos. Talvez a grandeza de Papa Giovanni – e a profundidade do culto que lhe é devotado – tenham causado essa longa pausa.
     Tomando como  mote as palavras de um grande teólogo – o maior do Concílio – o padre jesuíta Karl Rahner, que se referiu ao inverno na Igreja (o efeito doutrinal dos papas conservadores), quer-me parecer que estão colocadas as condições para que a Igreja acolha entre os santos a título pleno ao beato Angelo Giuseppe Roncalli.
     Não podemos negar à Igreja dos dias de hoje o benefício de tal reconhecimento. Ainda na Idade Média, os santos não eram consequência de processos clérico-burocrático em congregação romana. A santidade era proclamada pela comunidade dos fiéis, em função da experiência e da convicção.
      O presente Papa em tantos aspectos mostra alvissareiras semelhanças com o Papa do Concílio, e  tem pautado as suas primeiras semanas com gestos e mudanças tendentes a aproximar de suas raízes a Igreja de nossos dias.   
       A iniciativa de reconhecer a santidade do Beato João XXIII representaria o reconhecimento de uma nova primavera na Igreja de Cristo. Seria medida que pela sua magnitude não faria apenas justiça ao Papa do Concílio, mas o sinal de novos tempos com a mensagem de obediência e paz ao mundo que jamais se furtou às palavras e ao exemplo deste Santo da Igreja.

 

( Fontes:  Annuario Pontificio 1988, The New York Review of Books )



[1] Bispo Giacomo Radini Tedeschi (1857-1914), bispo de Bérgamo, famoso pelo interesse na condição operária, foi modelo para o futuro Papa João XXIII, seu secretário.

domingo, 5 de maio de 2013

No Vermelho

     O turismo é apenas uma das facetas de nossas transações que está fazendo água. Como não se ignora, com o real ainda supervalorizado, há maiores incentivos para as viagens de brasileiros ao exterior.
     As passagens aéreas, geralmente indexadas em dólar, ficam mais acessíveis. A par disso, a maior atração comparativa das compras nos Estados Unidos e na Europa compõe  o quadro negativo.  Seja dito, outrossim, que os impostos a gravarem as mercadorias no Brasil, muito mais elevados do que os americanos, contribuem de forma não intencional para aumentarem as desvantagens nas contas externas.
     Dessarte, os brasileiros gastaram no exterior US$15,6 bilhões do que os estrangeiros aqui. Tal resultado deficitário pelas razões acima expostas (e os altos custos nacionais ) é a presente conformação deste importante ítem do balanço de bens e serviços.
     Assinale-se, por oportuno, que foram fatores determinantes na diminuição na vinda de estrangeiros ao Brasil em 2012 a crise na Europa, assim como a recessão na Argentina, eis que os nossos vizinhos constituem o contingente externo mais numeroso dentre os turistas que nos visitam.
     Por outro lado, a balança comercial que no passado representava o trunfo principal do Brasil - com os seus vultosos superavits acumulados nas trocas comerciais de mercadorias - não tem ora contribuído com saldos significativos que contrabalancem os déficits sofridos nas transações financeiras.
     Há muitas causas que explicam o porquê do aumento. Dentre elas não é das menores o chamado 'custo Brasil'. Crescem as remessas de lucros de empresas estrangeiras (especialmente as das montadoras de veículos sucursais de matrizes estrangeiras, eis que o Brasil deixou há muito de produzir veículos automotivos nacionais). Além disso, há outras remessas, muitas originadas da desnacionalização de determinados setores da indústria e de serviços.
      Como reporta a Folha de S. Paulo, o déficit nas transações correntes - viagens, aluguéis, remessas de lucros, pagamentos de juros, entre outras - deve ser coberto com dólares estadunidenses oriundos de empréstimos, aplicações financeiras ou investimentos de empresas multinacionais.
      No passado, os IEDs - investimentos estrangeiros diretos - cobriam integralmente o déficit. Infelizmente, isto não mais valerá para este ano.
      Não melhora decerto o quadro o ulterior aumento da dívida externa - agora ascendeu a trezentos bilhões de dólares - puxada pelo endividamento privado.
      Como o Banco Central acumulara vultosas reservas em dólares e os juros internacionais estão muito baixos, o cenário se afigura por enquanto dentro dos parâmetros da normalidade.
       Se, contudo, mudar o andor da carruagem - assumindo que a política do governo Dilma Rousseff permaneça substancialmente inalterada (falta de reforma fiscal, manutenção da pesada carga tributária existente),incremento das compras de combustível (gasolina) apesar da disponibilidade de recursos energéticos dada a autosuficiência da Petrobrás - a perspectiva seria que as reservas acumuladas no Governo Lula tenham de ser utilizadas de forma crescente.
       Nessas condições, se a gestão economico-financeira continuar a pautar-se pelas atuais características e a consequente falta de política estruturada tendente à criação de saldos em nossas transações com o exterior, se reforça de forma marcada a probabilidade que os tempos da bonança do governo Lula desapareçam.  Nesta hipótese, voltaria, assim, o desfavorável cenário financeiro que prevaleceu em passado não tão distante.


( Fonte:  Folha de S. Paulo )






  

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Obama em crise

                                               
        O 44º presidente dos Estados Unidos da América está no seu segundo mandato. Como ele próprio disse, tratou de bem olhar o espetáculo do afluxo popular para a cerimônia de sua segunda posse, porque não lhe será dada a oportunidade de mais outra.
        Por tradição iniciada por George Washington, o primeiro Presidente, nenhum sucessor seu ousara quebrar-lhe o exemplo de cingir-se a apenas mais um mandato presidencial. Somente com Franklin Delano Roosevelt esta regra consuetudinária foi quebrada, logrando FDR mais dois mandatos. O último o interromperam as parcas, quando mal o iniciava, com a morte  a doze de abril de 1945.
        Na sua loucura, no bunker de Berlin, Adolf Hitler acreditara ver no passamento do  arqui-inimigo uma boa nova, que o livraria dos exércitos americanos (Frederico o Grande fora salvo pela morte da Czarina Elizabeth da Rússia, eis que o seu efêmero sucessor, Pedro III grande admirador do rei prussiano, mandou que o seu exército voltasse para a Rússia). Os tempos mudam mas, mesmo assim, o episódio me parece único na história.
       Sucedeu a Roosevelt o vice-presidente Harry Truman, e na eleição seguinte, os republicanos se apossaram do Congresso, o que não ocorria desde o início da presidência de FDR. Por iniciativa republicana, foi aprovada emenda à Constituição, limitando a dois os mandatos por presidente. O GOP cuidava de evitar que no futuro um outro êmulo de FDR lhe barrasse o caminho por longo tempo para a Casa Branca. Diga-se, de resto, en passant,  que emenda constitucional é coisa séria nos Estados Unidos. Além da aprovação com maioria qualificada pelas duas Casas, a emenda só entra em vigor depois de aprovada pela maioria das assembleias estaduais.
        Tal procedimento me parece preservar a Constituição, e não condicioná-la a movimentos intempestivos (no Brasil é tecnicamente possível aprovar uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) em menos de uma semana, o que pode levar a abusos e absurdos como os que ameaçam Pindorama nos dias correntes). Outros países, como a Grécia, v.g., condicionam a entrada em vigor de emendas constitucionais a que sejam aprovadas em duas legislaturas, o que de resto já referi nesse blog.
         Posto que o eleitorado americano conceda amiúde a reeleição a seus presidentes – não ser reeleito para um segundo mandato é lá uma espécie de estigma- existe uma crença assaz difundida quanto aos segundos mandatos de que não costumam ser bem sucedidos.
          Obama em seu primeiro mandato, depois de um biênio inicial considerado inábil e pouco efetivo, registrou alguma melhora na segunda metade daquele mandato. Por isso, logrou vencer a si próprio – o seu adversário mais difícil – e o rival Mitt Romney, do GOP. A vitória de Barack Obama, ele a deve à sua capacidade política de vencer essas disputas (que o diga Hillary Clinton), a sua abertura para os deserdados da sorte (afro-americanos, latinos e um vastíssimo etc.) e também a um bartender de reunião privada de doadores republicanos em Boca Raton. Esse bartender gravou o vídeo que mostra Romney referindo-se aos tomadores (takers) como os 47% do eleitorado parasita das benesses do Partido Democrata.
          Sem embargo, passaram os primeiros cem dias da segunda presidência Obama, e como assinala o especialista presidencial Albert R. Hunt, tudo continua como dantes. Talvez Hunt, que é democrata, seja um pouco severo com o 44º presidente, mas não muito.
           É verdade que, pelo seu domínio da Casa de Representantes, o GOP (e a diminuída facção ultra-direitista do Tea Party) persistam na política de confrontação que leva necessariamente à paralisia atual emWashington.
            No entanto,  o presidente Obama – que sabe  empatizar o sentimento da Nação quando atingida por flagelo ou desgraça (V. os exemplos da escola primária em Newtown no Connecticut, e o da maratona de Boston) – continua nesse segundo mandato a transmitir penosas impressões colhidas no primeiro, como no episódio da crise fiscal por causa da chantagem republicana com a crise pela renovação até então burocrática do teto da dívida fiscal.
            O malogro no Senado de conseguir levar avante um projeto de lei para coibir massacres como o de Columbine e o de Newtown – ainda que em versão enfraquecida – quando teoricamente Obama tinha os votos na Câmara Alta para lograr quebrar o filibuster armado pelo GOP, este tropeço mostrou um presidente incapaz de fazer valer o poder da Casa Branca, mesmo diante do apoio maciço da Nação (acima de noventa por cento).
             Com a precisão dos jornalistas americanos, se destrinchou o episódio e se expôs que Obama teria condições de fazer valer o interesse americano e não o da National Rifle Association (NRA). Preferiu omitir-se, evidenciando uma aparente falta de vontade de exercer a liderança em prol da sociedade.
            O fato de que Barack Obama não haja conseguido fazer com que democratas correligionários seus no Senado votassem o que era o manifesto interesse da Nação americana volta a levantar as sovadas dúvidas quanto à suposta dificuldade de afirmação deste Presidente americano. Em outras áreas a ação presidencial tem demonstrado que ele não refuga o risco, se a empresa é de interesse nacional. Por outro lado, enquanto professor de Harvard e intelectual respeitado, tampouco se coloca em dúvida  a capacidade de Obama.
             Não se desconhece que a política é atividade multifacética. No campo da concertação de vontades deixaria o 44º presidente a desejar? Até hoje não se vislumbrou nele a capacidade de forjar alianças e de impor-se em ambientes por vezes refratários, em que a obediência depende de consenso e não de força formalmente impositiva.
             Seria acaso justo compará-lo com o afastado antecessor Lyndon Johnson e a sua habilidade conjugada à uma grande força de vontade de molde a dobrar senadores e representantes ? Talvez não o seja, mas me recordo a propósito de  cena de velho filme esquecido, na qual oficial italiano reclama do seu adversário inglês quanto à severidade  de seu julgamento. Ao que o outro responde: eu lhe respeitaria se fizesse pelo menos um esforço nesse sentido...
           É a falta deste impreciso esforço que atenaza muitos comentadores (e comentadoras), pois  vêem em Barack Obama o preparo e a capacidade de vencer o desafio.

 
( Fonte subsidiária: International Herald Tribune  )   

Trincheiras da Liberdade (III)

                                      
Timoshenko : ilegalidade da prisão

               A Corte de Estrasburgo de Direitos Humanos sentenciou a ilegalidade da prisão imposta a ex-Primeira Ministra da Ucrânia,  Yulia V. Timoshenko.
               O mais alto tribunal europeu a que recorrem as pessoas que se acreditam perseguidas judiciariamente – e que só intervém quando se acham esgotados todos os recursos na respectiva justiça nacional  - concedeu o que Eugenia, filha da Timoshenko qualificou de “o primeiro raio de luz” para a sua mãe encarcerada.
                Essa aparente benesse, no entanto, não atinge o cerne da questão. Com efeito, a determinação da ilegalidade da prisão a que está submetida Yulia Timoshenko não tem efeito de causar a nulidade desse ato jurídico.
               Dá à Timoshenko o consolo de afirmar o caráter político de sua prisão. No entanto, não obriga o sistema judicial da Ucrânia a determinar a libertação da ex-Primeiro Ministra.
               Com efeito, o apparatchik transformado em presidente Viktor F. Yanukovich – que puxa os cordéis dos títeres judiciais, à moda de seu amigo e vizinho Vladimir V. Putin – montou toda a série de processos para acossar e neutralizar a sua adversária (que esteve perto de ganhar a última e contestada eleição presidencial).
              Diante das cobranças da União Européia, Yanukovich tergiversa, tanto ao liberar peixes menores, quanto em dizer-se impedido pelos diversos processos (de cuja última responsabilidade é sabida a origem).
              Desse procedimento, de cinismo e crueldade orientais, transpira verdadeiro objetivo, conforme referidos por fontes próximas à Timoshenko: mantê-la encarcerada pelo maior tempo possível, a fim de torná-la irrelevante no mundo político ucraniano.


A deportação de Mark Lyttle

              A revista New Yorker publica em seu número de 29 de abril reportagem de William Finnegan intitulada “A Máquina da Deportação”.
              Nesse contexto, beira o caricato, pelas falhas no processo, a deportação do americano nato Mark Lyttle, um cidadão americano nascido no Condado de Rowan, na Carolina do Norte.
              Por erros constantes de um processo de contravenção que lhe determinou a detenção, ele entrou em maquinaria infernal, em que se conjugam os preconceitos dos funcionários, a negligente e maligna atenção, e uma suposta determinação superior ( e põe superior nisso) a deportar o maior número possível de alienígenas.
              Lyttle, apesar de sua condição legal de americano nato, acabou deportado para o México, de onde foi sucessivamente reexpedido para Honduras, Nicarágua, El Salvador e Guatemala. Despejado a dezoito de dezembro, por via aérea, para Hidalgo no Texas, aí foi ordenado a atravessar a ponte para Reynosa no México. O seu calvário só começaria a terminar quando afinal o seu caso foi parar nas mãos de uma funcionária inteligente e de boa vontade, a vice-cônsul estadunidense na Guatemala, Maria Alvarado. Ao ouvir a dicção de Lyttle, ela começou a suspeitar da responsabilidade americana na matéria. Pela sua atitude pró-ativa (no bom sentido) não tardou muito para que Lyttle  tivesse um passaporte americano, e o dinheiro para a repatriação.
             Há outros muitos detalhes, entre picarescos e inquietantes, que o leitor encontrará na citada revista.
             Mas há uma consideração que deve ser acrescentada. A Administração Obama deverá bater um sinistro recorde, em fins de 2014. Entre 1892 e 1997,  Tio Sam deportou 2,1 milhões de pessoas. Consoante as estatísticas oficiais, se o fluxo se mantiver – a ‘meta’ seria de quatrocentos mil por ano - esta Administração atingirá  o mesmo número de pessoas expulsas dos EUA em fins do ano próximo, em cerca de seis anos de governo.
             Parte dessa tendência se deveria à preocupação política da Administração democrata de fazer passar no Congresso a reforma imigratória. Parece  preço um tanto salgado para esse compromisso político de campanha.

 

(Fontes:  International Herald Tribune, The New Yorker )

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Dilma em Campanha Eleitoral ?

                                    
           A  atmosfera  é de campanha, e o tom dos pronunciamentos entra na retórica que se poderia esperar de tal atividade. Importa pouco que Dilma Rousseff vista a sua alocução como se fora para o primeiro de maio.
            A presidenta se utiliza muito dos pronunciamentos em cadeia nacional. Em pouco mais de dois anos, este é o décimo-terceiro, o que contrasta com o maior cuidado de seu predecessor e criador político. Como assinala O Globo, no primeiro mandato, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou onze vezes em rede de tevê, e no segundo, dez.
             Se não é o próprio retrato da moderação republicana, a postura de Lula nesse aspecto já difere de forma sensível da utilização do mecanismo por Dilma.
             Com a experiência política adquirida ao longo de uma carreira que começara nas justas sindicais, o aprendizado de Lula, se formou ao longo de ascensão que teve a vantagem de não ser meteórica. Na sua repetida postulação pela presidência, o inesperado êxito de superar nas urnas um líder histórico da esquerda, como Lionel Brizola, o colocara de repente diante de um candidato-fenômeno, o caçador de marajás. Todos sabemos como terminou. O importante aqui terá sido o que aprendeu Lula com o episódio, e o relativo ganho em sabedoria política.
             Lula, o candidato vitorioso em 2002, ao cabo de três eleições, e até mesmo de inédita primária dentro do PT, era uma construção política muito mais sólida, adquirida não só nas ruas e nos comícios, nas salas grandes e pequenas, em avanço por vezes frustrante, mas que lhe dava – e nunca de mão beijada – a sensação de trazer consigo o caminho percorrido.
            Esta a principal faixa que Lula cingiu em 1º de janeiro de 2003. E as cãs de que muitos políticos brasileiros tolamente se envergonham, ele poderia mostrá-las como as marcas da escalada.
            É pena que Lula não tenha transmitido à sua discípula este pormenor do procedimento de quem ocupa a primeira magistratura da Nação.
            Há certos detalhes que um bom conselheiro não se furtaria transmitir. Como a virtude da moderação e da dosagem adequada. Sem o saber, Lula tinha presente o preceito aristotélico do meio, que é de determinação difícil, mas de fácil intuição quanto às suas qualidades.
            Quem tudo pode em termos de comunicação, deve guardar-se da porta escancarada, que nenhum cortesão terá coragem de fechar. A prática ensina que tal vantagem se empregada de forma excessiva perde a sua principal qualidade, que é a da valorização da mensagem.
            Se agora é difícil calar, e mais árduo emprestar à comunicação a força e a penetração que se deseja dar-lhe, a empresa se torna mais complicada – para usar uma palavra da moda -  se se ambiciona merecer a atenção do Povo brasileiro.
            Houve assessor de presidente, que no bilhete da partida lhe instou que não se apequenasse. E o então chefe Fernando Henrique Cardoso não o desmentiu e ao divulgar o conselho, engrandeceu-se.
            A  modéstia nas suas diversas formas, senhora Presidente da República, é uma veste que cai bem a todos aqueles que podendo o mais não enjeitam o menos.

 

(Fonte subsidiária :  O  Globo )

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Cartas ao Amigo Ausente (II)


                                                       II

 

           Meu mui prezado e bom Amigo Pedro,

 

           Antes de te relatar o almoço com o Rezende, a que me referi na carta anterior, gostaria de partilhar contigo algo que pesa na minha consciência. O nosso último encontro foi a 26 de abril. Dessa quarta-feira até a data da tua partida, transcorreram dezoito dias. Cabe, portanto a pergunta que, insistentemente, me tenho feito: Por que diabos não te telefonei mais ? Poderia recorrer a um modismo que ora reponta, a cada instante, no linguajar corrente. A resposta não seria fácil, por serem as coisas mais complicadas do que parecem. Tinha arrostado um processo gripal que me forçara a adiar a reunião prevista para dezenove de abril; e na manhã seguinte ao almoço, viajara para Brasília, de onde retornei no domingo, 30, com uma recaída da afecção respiratória, que devo agradecer ao ar condicionado central do Itamaraty e aos contínuos deslocamentos aéreos.
          Passado o feriado do primeiro de maio, ficaria sozinho no apartamento, com a ida de Ana para Porto Alegre. A par dos tradicionais transtornos que a ausência uxorial tende a causar, houve outras questões materiais, como as dificuldades com a gestão da casa e inesperado desarranjo no sistema de refrigeração da moderníssima Brastemp, o que me tornaria não só dependente do eficiente sistema de atendimento e reparação, senão com o desconforto de não ter geladeira em terra quente como o Rio. Se, dentro desse contexto, se pôde manter esquema aceitável, eu o devo à experiência e boa vontade de nossa colaboradora Solange.
         Depois, e às vésperas do regresso ao posto, fui passar um fim de semana nos pagos. Seja dito, a propósito, que sempre invejei a tua resolução de limitar as viagens aos deslocamentos terrestres entre Rio e Petrópolis. Enfrentei nesse vôo a Porto Alegre um atraso de duas horas e meia, comunicado, de resto, e sem maiores explicações, a medida que a disponibilidade da aeronave se via ulteriormente afastada, em avisos sucessivos do pessoal da Gol (a atual preferida nos transportes internos).
         Já vai longe esse intróito justificativo e, sem embargo, não logro satisfazer-me, nem apartar o amargo ressaibo que me deixa a inarredável circunstância de  que, nesses dezoito dias, não reabri, no horário previsto das nove horas da noite, a janela para as nossas conversas telefônicas. Tantos assuntos que eu gostaria de comentar contigo, alguns mesmo que me esquecera levantar no almoço de 26 de abril, que as cruéis Parcas determinaram fosse o derradeiro. Decerto, conto retirá-los da bolsa do silêncio, em que os relegou o destino, mas, por muito que o diapasão se eleve, as palavras não ressoarão nos teus ouvidos, nem disporei do benefício do parecer do amigo, seja expresso tal obiter dictum[1], seja fruto de conhecimento e funda reflexão. 
        Não importa. A nossa longa prática, se qualquer coisa me ensina, é que as minhas observações, relatos, confidências não são obra do acaso, não são frases lançadas ao vento, ou gritos em busca do irracional consolo dos ecos erráticos e imprevisíveis nas anfractuosidades de vastas formações rochosas. Não se apaga amizade de quarenta anos, e tampouco me há de faltar a obstinada e para ti improvável convicção  de que, de alguma forma, essas palavras, essas frases, em vão, não hão de ser. Aqui suspeito entrever um leve sorriso do amigo, como se eu, aristotélico de boa cepa, me permitisse a platônica irrupção de vagas lembranças de existências anteriores... Com alguma trepidação, me animo a assegurar-te que não. Dentre as nossas afinidades, está a de nos incluirmos entre os simpatizantes do Estagirita, nessa divisão filosófica que ignoram os filisteus, ïj ðïëëïß[2], que crescem a olhos vistos, e já assumem, por toda a parte, a herança de um patrimônio que não construíram. Por isso, ó  Pedro, onde estiveres não interpretes essas minhas certezas como consequentes de desvios doutrinários. Elas, ao invés, pertencem àquelas noções que nos ensejam prosseguir na nossa jornada, e nos valem em horas difíceis, nas quais intentamos rasgar o pétreo silêncio de desafortunadas perdas.
        Tais considerações, se bem que necessárias, ora se estendem um pouco além do previsto. Cabe, portanto, reencaminharmo-nos ao convívio ameno do Urich, e da refeição que lá comparti com o comum amigo Rezende.
       Não diferiu do formato costumeiro que eu chegasse primeiro. Esperei largos minutos pelo  Rezende, que viria pouco antes da hora aprazada. Divisei a figura quando atravessava a porta; e com os meus acenos e a ajuda do teu conhecido e solícito garçom, cruzou sem tardança o restaurante repleto.
       Tão pronto nos abancamos, nos envolveu sensação de que faltava à mesa mais um conjunto de prato e talheres. O ambiente, o cardápio, as bebidas, a dupla remanescente, tudo evocava o amigo ausente. Pedimos a comida – desta feita, o Rezende se contentou em dividir o frango na chapa, a que agregou um arroz com brócolis, e eu as habituais batatas  fritas – e a princípio falamos das experiências havidas por força da tua morte.
       Contei da ida a Petrópolis, da missa na igreja da Ressurreição, a que acorreu o teu colega Luis Cláudio Cardoso e o até então para mim desconhecido Dr. Brito. Rezende, por sua vez, me disse da missa que encomendara no Icaraí. Expressamos a comum preocupação com a situação da Thérèse, de o que podia ser feito para ajudá-la, e o quanto fora providencial a assistência do Dr. Brito. Essa carta, para nós ignota, e que ciosamente guardaras na manga, se afigurava de muita importância para ajudar tua mulher neste transe, quando são escassos os recursos, e tantas providências surgem no plúmbeo caminho da implacável burocracia dos óbitos.
      Não vás porém iludir-te com tal exórdio. Pois os dois amigos lá estavam – e sem o ar compungido dos velórios – para recordar-te. Se permites a perífrase ... PëëÞëïõò äéáëåãüìåíïé, dðéìÝìíçíôáé  ÐÝôñïõò[3].
        O lugar nos era tão familiar, tantas vezes nos tínhamos ali reunido, seguindo uma sugestão minha, dado o manifesto e crescente desconforto que nos causava a refeição no Bar Monteiro. Se com o passar dos anos, a rotina dos almoços tivera que sofrer algumas modificações, na verdade apenas nos adaptávamos às circunstâncias. Assim, não mais nos encontramos previamente no Sebo da São José, pelo simples fato de que, tangidos pelo aumento do aluguel, os donos tiveram de mudar-se para uma loja acanhada na Primeiro de Março. Antes, já o mau cheiro da rua da Quitanda me induzira a alvitrar experimentássemos o restaurante Urich, que oferecia maior comodidade, inclusive a do ar condicionado. E lá nos quedamos, satisfeitos com o estabelecimento e a atenção do pessoal, em particular um garçom mais jovem, que nos dava atendimento preferencial.
       Sentados na apertada mesinha que reservam aos clientes, sentíamos ambos a sombra da tua presença, e se era estranhável o silêncio, tudo o mais colaborava para tornar senão real, pelo menos verossímil a sensação de que te achavas ao nosso lado, beliscando as azeitonas, remexendo nas tuas sacolas para entregar-nos xerox de um artigo, ou recorte de revista que, em duplicata, nos trouxeras das alturas serranas. Em geral, a produção do papel fora antecipada em telefonema, e se reportava a questão a que desejavas chamar a nossa especial atenção. Sempre tinhas o cuidado de nos proporcionar cópias idênticas dessas matérias, e para tanto chegavas ao requinte suplementar de sobrescritar o nome do destinatário.
        Se, no entanto, por acaso o recorte ou a folha datilografada não pudesse interessar ao Rezende, ou por tratar-se de tema que me concernia diretamente, ou por estar vazado em alemão, te esmeravas em m’o passar longe dos olhos do velho amigo. De resto, não tenho dúvidas de que, com igual atenção, evitavas que eu me desse conta do que destinavas exclusivamente ao Rezende. 
         Respeitamos o ritual dos encontros – que, no último ano da minha permanência no Rio, haviam escasseado, provavelmente por uma inconsciente relutância tua em empreender a travessia – ao ponto de que o Rezende enjeitou as suas iguarias para associar-se ao consueto e acima referido frango na chapa. E sem acacianos comentários e formais elogios, enveredamos pela conversa à rédea solta que sempre marcara tais almoços.
         A única diferença esteve no assunto. Com efeito, eis-te transformado em larga pradaria, que percorremos com a naturalidade de cavaleiros afeitos à paisagem. Da imensidão do campo, escolhíamos um que outro recanto, e lá nos demorávamos, a rememorar episódios, que havias cunhado com estilo e verve habituais.
        Para ti decerto não valia o dito les absents ont toujours tort[4], mas tampouco julgamos à altura do personagem choramingadas e louvaminheiras evocações.
        Com a sem-cerimônia das antigas amizades, não desdenhamos mesmo aqueles desvãos que outrem desconheceria. Dessarte, armados de malícia carioca, expusemos cenas em que explodia a característica impetuosidade do teu temperamento. Jamais hão de confundir-se o gesticular por vezes desordenado com a excitação do energúmeno. Esse traço da tua personalidade – a vibração nos cumprimentos, o ardor intempestivo a frisar no gesto largo uma assertiva específica ou a flama da emoção – se agregava às cuidadas, sopesadas  ponderações do intelectual que se empenha em sobraçar um tema em todas as suas facetas e implicâncias. Dos tempos acadêmicos, Rezende revivia os assomos de quem, no calor da discussão, à guisa de pontuação, não hesitavaa em girar acima da cabeça o próprio guarda-chuva... Escusado acrescentar que, estando no passeio público, tal demonstração seria suscetível de turbar ou contrariar a terceiros. O acúmulo das alheias reações acabaria por dissuadi-lo dessas efusões.
       Aludi então à peripécia de que não ficaria eu indene, quando, já ao cabo de acalorado debate, Pedro culminaria um argumento com largo, inopinado bracejo que lançaria por terra o meu copo de chopp e – o que foi pior – me forçou a movimento brusco que iria agravar afecção na coluna que pensava estar em vias de superar.
        Naquela hora, nada foi dito. Bastou a tua expressão mais do que contrafeita, na verdade envergonhada, pelo que intuías haver o teu arrebatamento provocado. E, não obstante o dano involuntário sofrido, como sentir-se agravado por atitude em que o eventual excesso se confunde com a ínsita, juvenil inocência de quem, indaa que de forma desajeitada, apenas ansia reforçar a conclusão de um raciocínio ?
        O almoço se acercava do fim e me descobri a espreitar um Rezende que, malgrado os dois copinhos de Ipioca e os dois chopes, permanecia lúcido e fagueiro. Com os seus oitenta e sete anos, o andar mais lento e a postura algo encurvada, terá provocado em nós alusões ao estado de sua saúde, o que tacitamente traduzia a preocupação comum de que, ao longe, repontasse o dia no qual viesse a faltar ao encontro dos três amigos.
        Nem a ti, ouso dizê-lo, nem a mim, acaso sobrepairou a dúvida de que tal suposta ordem não se cumprisse um dia. E, agora, eu deparo, quiçá não o Rezende que conheci, mas um senhor a movimentar-se pela cidade, a participar plenamente de existência povoada de filhos, esposa e amigos, sem nenhuma marca do avanço dos lustros que os inevitáveis e genéricos achaques físicos.

       Meu bom e insubstituível Amigo,’

 

        se a sorte madrasta te convocou, na sinistra chamada a que são raros aqueles que se precipitam em responder, a dupla remanescente te recordou ainda no cafezinho tomado no bar em frente. Timbravas em assumir a despesa com as três xícaras no balcão  do café Capital, cuja qualidade decrescera no curso dos anos. O dedo de prosa que ali gastamos, se não diferiu pela brevidade dos anteriores, acentuava, por outro lado, a tua ausência. Pois a rápida passagem por um bar decadente apontava para o último rito da liturgia de nossos encontros. Rezende e eu te acompanhávamos ao segundo andar do Terminal Menezes Cortes, aonde te esperava o ônibus que te transportaria para Petrópolis. Amiúde, no passado recente, o embarque se transferira  para a praça que ladeia o trecho final da Nilo Peçanha. No dia 26 de abril, todavia, o ponto voltara para o Terminal, e lá foi que, por derradeira vez, te abracei. Com a postura de sempre, alerta, alegre e altaneiro, me desejaste boa sorte, sem saber que, em futuro iminente, dela mais precisarias.
      Como de costume, me afastei sem esperar que soasse a hora do embarque e te sentasses à janela da poltrona dianteira. A passos largos, deixei para trás a imagem costumeira dos dois velhos conhecidos me acenando.
       Desta feita, as coisas sucederam diversamente. Na calçada esburacada, fronteira ao Capital, me despedi do Rezende. Sobraçando a quentinha, levada para a simpática segunda esposa Vera, ele caminharia, ajudado por bengala, até a Praça Quinze e as barcas, com destino a Niterói. O meu rumo era oposto, eis que seguiria até a quadra do edifício Central, onde apanharia o metrô, no regresso a Ipanema.
      Ao abraçá-lo, meu caro Pedro, já outros temores me assaltavam. Pensava na próxima travessia transoceânica e no meu presumível apartamento, em terra estrangeira e por longos meses, do convívio do Rezende. Ao regressar, como o encontraria ? O deus Cronos é inclemente com os anciãos e, por vezes, acelera o ritmo.
       Adivinho o teu sorriso. Terá um sopro de merencório, mas a ironia, eu a mereço. Quem sou para presumir da ordem das coisas, como antes se dizia ? As volúveis Parcas podem decidir doutra maneira: ô’ ìÝëëïí Püñáôïí. [5] 
      Com funda saudade, do amigo de sempre,

 

 

 

 

 

                                                       

 

         



[1] dito de passagem.
[2] os muitos, a multidão
[3] falavam entre si e lembravam Pedro (a citação original se refere a Sócrates).
[4] Os ausentes nunca têm razão
[5] O futuro é invisível.

Descalabro no Transporte Público

                              
       Em terra carioca, basta esperar a luz verde do semáforo para que o pedestre se dê conta de que os ônibus se acreditam fora da lei. Pois o sinal vermelho não lhe dá segurança para atravessar a rua. É mais prudente verificar se nenhum coletivo vem a toda para aproveitar o sinal amarelo e o primeiro vermelho, por que eles em geral na sua pressa não se acham obrigados em respeitar a vez do transeunte.
      Dirão que é um pequeno detalhe, mas diz muito sobre a anarquia no tráfego. As manchetes do Globo de hoje são bastante sintomáticas da desordem no trânsito “Sem punição, ônibus não param de matar no Rio – Triatleta morre atropelado em faixa preferencial para ciclistas em Ipanema”.
      A prefeitura do senhor Eduardo Paes não parece dar muita prioridade à efetiva regulamentação dos ônibus. Não faz muito verificou-se  que um despencado de viaduto  não era vistoriado desde a década passada. Não obstante os padrões cariocas, a sua companhia era conhecida pelos acidentes e a irresponsabilidade dos motoristas.
      Quando se fala de regulamentos, o Brasil está entre os primeiros. Se  leis bastassem, estaríamos decerto dentre os mais favorecidos. O problema não está aí, como bem sabemos. Legislar não basta. Carece educar a população – no que se incluem os motoristas e demais condutores de veículo, além dos proprietários das empresas – para que se conscientizem dos riscos e da melhor maneira de enfrentá-los, que é respeitar a norma e o seu próximo.
      Para aplicar a lei – porque não vivemos nem na Suiça, nem na Escandinávia – carecemos de fiscais. Estarrece, a respeito, que a prefeitura do Rio apenas disponha de quarenta agentes para fiscalizar toda a frota de ônibus, táxis e vans.   
      Não me consta que a prefeitura tenha carência de funcionários. Na terra do empreguismo, não há de ser o caso. Por isso é uma piada de humor negro que esse ridículo número fique responsável para aplicar a lei.
      Segundo informa o jornal, só os coletivos citadinos receberam no primeiro trimestre de 2013 51.888 multas. Entretanto, somente no mês de abril, doze pessoas morreram e 53 ficaram feridas em nove grandes acidentes com coletivos.
      Contudo, e a despeito disso, menos da metade dos motoristas infratores é punida... E basta voltar para aquele não tão imaginário sinal, que os pedestres compreenderão uma das  causas desta perigosa desenvoltura: a virtual certeza da impunidade. De que vale um sinal que passa de amarelo para vermelho? Pouco ou nada, para um condutor que tem pressa por um conjunto de fatores (longos turnos ao volante e a confiança de que escapará uma vez mais por ‘queimar’ o sinal).
       Com muita presteza e docemente constrangida, a prefeitura há de conceder em junho próximo novos aumentos na passagem de todas as conduções. Na inflação de dona Dilma, tudo está controlado menos os preços...
       O senhor Eduardo Paes, que teve reeleição tão tranquila, semelha um pouco desconectado da realidade. Não hão de faltar, é certo, expressões de pesar pelos sacrifícios – alguns deles mortais – no trânsito.
      Creio, no entanto, que a prefeitura está sobrecarregando demasiado o meio de transporte que as estatísticas acima não mostram muito seguro e confiável.  Entre muitas leis, as autoridades devem igualmente respeitar a da oportunidade.
      Semelha, acaso, sensato restringir os meios de transporte do público? Não, seria a resposta automática.
      Infelizmente, não é o que está acontecendo. Basta andar de tarde pelas calçadas da Zona Sul – e há outras, sem dúvida, disponíveis – para que o observador se conscientize de que o transporte por ônibus está deveras sobrecarregado. Em cada ponto, vemos magotes de pessoas à espera de coletivos. Em certos pontos, eles chegam a organizar-se em mais de uma fila, para obter a sua vez no ônibus com um pouco menos de atropelo e tumulto.
       Com o fechamento da estação da Praça General Osório, em Ipanema – e consta que a sua reabertura não será na otimista data indicada – o metrô deixou de ser opção válida de condução para muita gente. Nesse contexto, terá sido sensata a proibição do transporte pelas vans na Zona Sul?
       Transferir de repente para as tardas e perigosas linhas de ônibus todo o fluxo de usuários do transporte público, podando sem piedade os meios auxiliares, será realmente a melhor solução ?
       Para quem tem transporte próprio – o egoísta automóvel que sói levar um isolado passageiro – a decisão não poderia ter sido melhor, não é?  E como fica aquele ou aquela que carece de transporte coletivo, sobretudo o oferecido pelos sobrecarregados ônibus do Rio de Janeiro ?
 

 
( Fonte:  O Globo)