domingo, 3 de março de 2013

Colcha de Retalhos A 9

                                         

 A Crise na Casa Real Espanhola
   

    A antiga popularidade e respeito devido pela nação espanhola ao Rei João Carlos I, se nos é permitida mais uma citação de Carlos Drummond de Andrade, há de parecer nos dias que correm apenas um retrato na parede.
        Se tal lembrança há de doer ao soberano de Bourbon, pensando bem, ele não terá senão a si próprio que inculpar. A esse propósito, a viagem a Botsuana pela sua falta de sentido crítico – e de respeito aos tempos difíceis que enfrentam os seus súditos –foi o erro principal, que serviu para catalisar uma nova situação.
        No século XX  , década de trinta, um antepassado seu, da casa de Bourbon, Alfonso XIII  foi forçado a exilar-se – jamais abdicou formalmente – por força da rejeição contra a monarquia, acirrada pela renúncia do ditador Primo de Rivera, e a ulterior proclamação da República a catorze de abril de 1931.
       Com a ditadura do general Francisco Franco, a Espanha atravessou uma longa noite (1939-1975). Formalmente, regente do Reino de Espanha, pensou assegurar a continuação do regime através da elevação de Juan Carlos ao trono. Para tanto, acertou com o pai, Juan de Bourbon,  herdeiro presuntivo à coroa, a transferência do filho para a Espanha e a longa preparação para sucedê-lo.
       Havia, a princípio, muito ceticismo quanto à durabilidade do reinado de Juan Carlos, cujo apelido em certas rodas era de Juanito el Breve. O assassínio do então Primeiro Ministro, Almirante Carrero Blanco, pelo ETA, a 20 de dezembro de 1973, terá contribuído para mudar o quadro político, dada a força de que dispunha Carrero Blanco. 
       Juan Carlos I granjeou o respeito do estamento político e dos principais partidos, pela sua participação determinante nos albores do novo regime, assegurando pela própria intervenção a consolidação da democracia.
       No entanto, a viagem a Botsuana, a par de evidenciar abismal falta de critério político,  marcaria o início de um processo na opinião pública que está longe de ter a página virada. Estarrece, a princípio, que, em pleno século XXI, Juan Carlos gaste soma considerável – em meio à crise da economia espanhola – para transladar-se a uma anacrônica e altamente reprovável caçada a elefantes. O castigo que sofreu – que o forçou a mais uma operação cirúrgica – não o ajudou a recuperar-se perante a opinião pública,sobretudo pela companhia da bela e dileta amiga, a princesa Corinna zu Sayn  Wittgenstein.
      Tampouco o pedido de desculpas à nação espanhola terá revertido a queda na popularidade do Rei de Espanha.
       Os males contra a Casa Real não se cingem a isto. O antes plebeu Iñaki Urdagarin, hoje genro do Rei (por casar com a Infanta Cristina virou Duque de Palma), vem enfrentando um processo judicial por supostas fraudes e irregularidades em uma fundação por ele dirigida. O atual duque, em depoimento ao juiz responsável, inocenta o monarca de qualquer participação nas contestadas movimentações de fundos.
       Por outro lado, a Rainha Sofia compareceu a culto de Jesus Cristo, a que não ia desde 2006. Um popular, informado da presença da rainha, comentou: ‘Pobre! Pelo que está acontecendo com a Casa Real, ela tem mesmo muito que rezar’.             
       No cenário político, a despeito do apoio prestado ao Rei pelos principais partidos – o Partido Popular (PP) e o Partido Socialista (PSOE) – há manifestações contrastantes. Assim, o líder socialista catalão Pere Navarro pediu a 20 de janeiro a abdicação de Juan Carlos. Já Carme Chacón, ex-Ministra, declarou ‘entender’ a Pere Navarro, quando fala da abdicação do Rei, mas não a comparte. Tal apoio, no entanto, semelha assaz dúbio, eis que complementa: “A coroa não está apresentando espetáculo edificante. Ela será transparente ou será difícil que continue.”
       Juan Carlos I submeteu-se ontem, dois de março, a mais outra operação cirúrgica (esta foi de hérnia discal). Durou três horas e segundo asseguram os médicos, teve pleno êxito. São doze, pelo menos, as principais intervenções a que se submeteu, muitas delas provocadas por atividades desportivas (ski, squash, caça em Botsuana).
 

A Guerra Civil Síria

         O  Exército Livre da Síria, que ora se empenha em um ataque contra a Academia de engenharia militar, está sob a direção do general Salim Idris (que abandonou as fileiras do exército de Assad em julho de 2012).  Idris , como o restante das forças rebeldes, não dispõe de armamento pesado e sabe da dificuldade de assenhorear-se de certos locais, dada a sua blindagem, destinada a resistir ataques do Tsahal de Israel.
         Os Estados Unidos se tem negado a fornecer esse tipo de armamento, tendo presente as possibilidades de que vá acabar em mãos dos jihadistas da al-Qaida, e outras forças extremistas. Essa posição é precipuamente da Casa Branca e de Barack Obama, como já se verificou, eis que a entrega de armamento pesado tinha sido recomendada, ao final do primeiro mandato, pelas principais autoridades responsáveis.
         Essa deficiência no equipamento do exército rebelde tem contribuído para prolongar o conflito, eis que os opositores de Bashar al-Assad – este, de resto, muito bem armado por Putin e o Irã dos ayatollahs – muita vez enfrentam obstáculos maiores por não terem o poderio de fogo indispensável.
         É o que está ocorrendo em Aleppo, a segunda cidade do país, no prolongado combate para assenhorear-ser dos principais núcleos de resistência das forças alauítas. Se,por vezes, remessas procedentes da Croácia, financiadas pela Arábia Saudita, colocaram armas de maior calibre e potência nas mãos dos rebeldes, tais fornecimentos ainda são raros.
         O domínio de Assad sobre a Síria não vai além de cinquenta por cento do território. A derrocada, contudo, de um regime que dispõe de um fluxo armamentista substancial – tanto a Rússia, quanto o Irã proverão Bashar das armas para resistência, enquanto este tiver condições militares para prosseguir. Teerã continuará a apoiar a ditadura alauíta enquanto tal for possível, pelo perda estratégica que sofreria com a queda do aliado (o que também afetaria as perspectivas de manutenção futura do Hezbollah no Líbano).
          Diante de o que está em jogo, é difícil entender a hesitação da Administração Obama em recusar ao Exército Rebelde da Síria os meios indispensáveis para ultimar a derrota de Bashar.  Será que apressar o fim do conflito não constitui um objetivo militar prioritário, seja para abreviar a guerra civil (e do número de baixas), seja de trabalhar para que os efeitos colaterais da revolução síria não continuem a pesar sobre os países vizinhos?

 

Democracia -  a  importância do testemunho

 
            Em O Globo de 27 de fevereiro, Zuenir Ventura nos recorda das mortes de Stuart Angel e de sua mãe, Zuzu Angel.
            Em dias difíceis – “naqueles tempos, todo cuidado era pouco”  nos recorda Zuenir, houve gente que procurou difundir a notícia do sacríficio da mãe pelo filho.
            Depois de ter sido informada da brutal e covarde morte de Stuart – “amarrado a um jipe, com a boca presa ao cano de descarga, passou a ser arrastado até que, com o corpo esfolado, morreu envenenado pelos gases tóxicos do carro”.  Isto, é bom que se frise, não ocorreu em um galpão interiorano, mas na Base Aérea do Galeão.
            Sua mãe, que não descansaria da faina da busca do corpo do filho e de informar personalidades do sucedido, por vezes pareceria cultivar a ironia (mesmo sem sabe-lo). Como qualificar a sua entrega ao Secretário de Estado Henry Kissinger, com as suas notórias preferências pelas ditaduras do Cone Sul, do dossiê elaborado pela mãe-coragem ?
            Zuzu Angel, depois de protagonizar o desfile-denúncia em pleno serviço comercial em New York (roupas estampadas com manchas vermelhas, pássaros engaiolados e motivos bélicos) seria ignobilmente assassinada em um acidente de carro, provocado pelos carrascos da ditadura. Ela não tinha dúvidas sobre o que a esperava: “se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”.
 

 
( Fontes:  El Pais, International Herald Tribune, O Globo )      

sábado, 2 de março de 2013

O Problema de Dilma Rousseff

                                

            A sorte pode ser caprichosa. Veja-se, por exemplo, o que está aprontando na área econômica para a atual Presidente da República. A despeito de seu empenho e vontade de acertar, as coisas não estão saindo bem para ela.
            Por outro lado, o seu antecessor e criador, Luiz Inácio Lula da Silva, se nunca deixou dúvidas sobre quem tinha as rédeas do poder, em matéria econômico-financeira não passava a impressão de ocupar-se da gestão do dia-a-dia. Se presidia e tomava as decisões cabíveis, ele sempre tratou de dar  responsabilidade ao ministro da pasta, reservando-se a prerrogativa de cobrar-lhe por eventuais erros e omissões.
            Assim, o presidente Lula, ainda que não a tivesse presente, aplicava às próprias funções presidenciais, a máxima de Talleyrand[1],  “sobretudo, nunca zelo em excesso”. Por sua vez, Dilma parece continuar a ver-se como super-gestora, como o era após suceder em meados de junho de 2005, sob o látego do escândalo do mensalão, a José Dirceu na chefia da Casa Civil.
             Por própria conveniência, Lula da Silva se servia de quem se encarregasse da Casa Civil como se fora um primeiro ministro.  Nesse contexto, se compreende a menção de José Dirceu a ‘seu governo’. Sob as suas ordens, já Gleisi Hoffmann não terá tais ilusões. A Presidente Dilma, além de não delegar funções, costuma sufocar os seus ministros com a sua imperial presença.
            Se as imagens da floresta tendem talvez a perder a antiga pertinência – dada a triste progressão do desmatamento e da crescente perda dos recursos naturais  únicos no mundo  – compreende-se ainda a referência de que sob as grandes árvores não costuma brotar muita vegetação. Pelo ativismo do temperamento, Dilma não dá muita autonomia ao primeiro escalão, contra o que trabalha um tanto contra o próprio interesse. Semelha preferir as mediocridades, que cuidam da casa sem muitas fumaças, do que a gestão afirmativa (do tipo, por exemplo, de José Serra quando Ministro da Saúde sob FHC).
          Dilma Rousseff herdou Guido Mantega do padrinho Lula. Ora, a Fazenda é demasiado importante para que tal pasta venha a ser confundida com a chusma de tantas outras irrelevantes, nesse ridículo ministério que beira os quarenta.
          Bafejados pelo favor presidencial, haveria no Ministério da Fazenda, segundo comentaristas de respeito, outras autoridades com acesso direto à Presidente. Nesse contexto, a velha máxima latina divide e impera pode ter os resultados que ora deparamos, em que a economia não vai bem.
          Sozinho, na sala de imprensa do Ministério, o Ministro Mantega, uma vez mais, nos traz más notícias. O Pibinho continua a encolher – agora o incremento é de  0,9% - e a voz ministerial trai alguma debilidade, que paira no ar, sobretudo diante das antigas projeções, agora reduzidas a pó.
           Salta aos olhos que não interessa a ninguém um ministro da Fazenda fraco. Sem embargo, a filosofia administrativa de Dilma Rousseff parece a contrario sensu estimular essa absurda situação.
           Já no terceiro ano de mandato, são manifestos os problemas enfrentados  por seu governo. Além da inflação, o pífio crescimento da economia – o mais baixo entre os BRICs e adeus ao efêmero sexto lugar – e o que é pior, a escolha equivocada do caminho para a sua ativação.
           D. Dilma & Cia. bate na porta errada, tentando a mágica pelo lado do consumo – com as desonerações fiscais para as grandes montadoras estrangeiras, o assistencialismo e a elevação desmedida do salário mínimo (com os notórios reflexos em cadeia). Esquece os estímulos a investimento e poupança, a par dos incômodos efeitos da desnacionalização.  
           Drummond não está mais conosco, mas a sua pergunta persiste:  E agora José ?

 

       
 ( Fontes subsidiárias:  O Globo, Rede Globo )       



[1] Talleyrand-Périgord, Charles Maurice, príncipe de Benevento, diplomata francês (1754-1838). Pela habilidade política e pouca ética, ocupou cargos importantes no antigo regime monárquico, no Diretório, sob Napoleão, sob os últimos Bourbons da Restauração, e no reino de Luis Filipe.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Bom Dia, dona Inflação !

                                                  

           O que é a inflação ? Posto que seja medida em números, através de índices e reajustes, ela decerto não se limita a isto. Mais de uma geração de brasileiros sabe o que é viver sob o império do dragão. Começada lá pelo início da década dos cinquenta, e acentuada pela construção de Brasília, ela se tornou um peso permanente para o brasileiro. A própria correção monetária, saudada de início como a maneira de evitar-se o ‘imposto’ da inflação, não tardaria em transformar-se em modo perverso de perenizá-la, e de dupla forma: não só a fazia ainda mais pesada (dessa faixa etária alguém se terá esquecido da expressão juros e correção monetária ?), mas também  passava a tratá-la como  algo permanente.
          A carestia se comprazia em exibir ,como se fossem cruzes de um cemitério de causas perdidas, extensa série de ministros da fazenda, que encetavam sempre a respectiva missão com promessas de abater o dragão. Foi uma longa cadeia humana de malogros sucessivos, muitos deles acompanhados de planos heterodoxos, que culminariam no Cruzado, com o seu mítico congelamento de preços. Houve até quem virasse fiscal do Sarney, em porta de supermercado, para exorcizar a ganância do comércio e a faina incessante (e maldita) das maquininhas de remarcação de preço.
         O milagre brasileiro desandou na década perdida, em que colecionamos planos (além do Cruzado, o Bresser e, por fim, a fogueira do grande confisco, o Plano Collor, que tantas desgraças provocaria). 
         Por isso, sendo presidente Itamar e ministro da fazenda Fernando Henrique, não poderia estranhar que o nosso povo recebesse o Plano Real com o pé atrás. No entanto, a seriedade e o respeito à ortodoxia econômico-financeira contribuíram para que o ceticismo inicial se fosse dissipando.
        O êxito do novo Plano, o foi construindo com paciência e sobretudo respeito às regras econômico-financeiras, a equipe de técnicos dele encarregada. Com o correr das semanas e dos meses, atendidas as metas, o cidadão brasileiro passou a conviver com outra realidade, a da estabilidade financeira, sem esquemas mágicos de iludir a desvalorização, nem a sinistra dança dos índices inflacionários.
       O brasileiro olhava à sua volta e gostava do que via. O Plano Real, pela sua demonstrada competência, tanto na elaboração, quanto na implantação, passou a ser  presença em nova situação, em que se via, por vez primeira em muitíssimos anos, dominada a inflação.
       Não espanta que houvesse uma corrente de opinião que discordava da aparência deste sucesso. Eles tinham motivos para tanto, posto que reflexos. Denunciaram o Plano Real e o combateram com afinco, como se tal Plano não passasse de impostura, similar aos planos heterodoxos do passado. Para cada meta do percurso de sua implementação, o PT de Lula da Silva anunciava-lhe o vindouro malogro. Desafinando do sentir da sociedade, por mais que gritassem a empulhação do Plano, a realidade cuidava de desmenti-los, pelo desaparecimento das maquinetas nos supermercados e pela estabilidade do real.
       Chegaram a contestar a Lei da Responsabilidade Fiscal – que se propunha coibir os gastos irresponsáveis, sem cobertura orçamentária, das autoridades executivas, muita vez em fim de mandato, legando ao respectivo sucessor ao invés de contas em regra, dívida e inadimplência.  E a raiva do PT era tal, que chegou a toldar-lhes o juízo, a ponto de baterem – debalde - nos tribunais para reverter o que o Congresso determinara.
       Por isso, surpreendeu a sociedade civil que o Presidente Lula da Silva houvesse respeitado, ao assumir em 2003, as práticas de seu antecessor, em matéria econômico-financeira. Comprovada a firmeza da disposição, a alça na inflação – que correspondera a reação nervosa e compreensível do mercado – foi controlada, e o primeiro mandato do governo petista, sendo Ministro da Fazenda Antonio Palocci, se assinalaria pelo fortalecimento da posição do Brasil, em termos de economia e finanças.
      No entanto, depois do escândalo do mensalão – e o do caseiro -, as coisas principiaram a mudar e não para melhor. Com o novo Ministro, Guido Mantega, os velhos truques foram voltando à cena, com as capitalizações do BNDES em realce. Posto que a desejada autonomia do Banco Central jamais tenha sido aceita pelo Planalto,  Henrique Meirelles soube guardar alguma distância da Fazenda, e assim zelar pelas precípuas funções do BC no controle da inflação.
     Se, com a marolinha da grande crise financeira internacional,  as capitalizações aumentaram, Lula da Silva passou a faixa presidencial para a sua candidata de algibeira com a inflação ainda sob controle.
     Já na segunda metade do mandato de Dilma Rousseff, quem poderá afirmar que a desgraçada inflação não está entre nós ? Este blog  é testemunha que bem cedo nesse governo vi com desconfiança a estranha maneira da Presidente lidar com a carestia.
     O seu combate  me pareceu reminiscente das antigas declarações de ministros da fazenda. A retórica vazia de que não se admitiria a sua volta não me pressagiava nada de bom. Inflação não se combate com retórica.
     Em economia e finanças, a dílmica proposta de governo levantou desde logo suspicácias. Retirou do BC os trapos de uma frágil autonomia consentida, a ponto de  a taxa de juros Selic permanecer no seu nível histórico mais baixo, malgrado a óbvia pressão da inflação. O próprio mercado já não confia na eventual elevação dos juros para desaquecer a demanda.
      Até a pouco, falava do perigo da inflação. Agora, não mais. A carestia  está de volta, e da sua obscena presença não faz qualquer segredo.
     Estão de volta todos os sinistros personagens que no final dos anos noventa o brasileiro pensara deles estivesse livre. Além de realidade social, a inflação é um estado de espírito. Criaturas antes em letargo, ou até desaparecidas, estão de volta !
      Retorna o espírito da ganância, reponta a complacente maquineta. Ainda mantém certa compostura, como se testasse o ambiente. Pipocam as greves, e as reivindicações, eis que os incrementos demagógicos no salário foram aprovados num piscar de olhos, como se não desencadeassem uma vasta explosão inflacionária nos campos ,os mais variados.
      A sopa infernal dos índices – e aqui vai censura ao Plano original que não os extinguiu de todo – recomeça o seu movimento de retro-alimentação da inflação, como deparamos a cada virada de ano, através da sôfrega e diligente atualização de sua cobrança.  
     Nessa nova e pouca auspiciosa constelação, parece que estamos retornando no tempo, com as promessas de demagogos no Congresso, e a atuação do Governo Dilma, em que na Fazenda, se sucedem os malabarismos fiscais, semeando desconfiança e insegurança por toda parte.
     Não é através dos efeitos que se combate a carestia, mas sim pelas causas. Ao invés, d.Dilma assume estratégia varejeira, enquanto evita os remédios principais.
     Na próxima eleição, a questão principal será a inflação. Tudo o mais dela depende, eis que, mesmo o assistencialismo da Bolsa Família e do Brasil sem Miséria o dragão transformará em pó.
     Lamentavelmente, não vejo no quadro atual quem nos acene com um novo cenário, ou que nos prometa retirar da UTI o  Plano Real.
     Sem embargo, o Brasil é o país da esperança, aquele que mais prometia entre os BRICS, não é ? 
     Será então que podemos esperar ? E se tal procede,  em quem ?

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A Igreja sentirá falta de Bento XVI ?

                          

          Hoje, 28 de fevereiro, por sua própria vontade, Bento XVI se afastará da Sé de Pedro. Um Papa conservador, candidato in pectore de João Paulo II, após cerca de oito anos de pontificado,  de certa maneira inova, ao tomar o caminho de S. Celestino V.
          As semelhanças, contudo, são enganosas. Escolhido por um conclave em crise, o monge Pietro del Murrone, que vivia em clausura não suportou o desafio da política do final do século XIII. Em poucos meses renuncia, para tornar-se um  virtual prisioneiro, encarcerado na vila de Fumone, sob as vistas suspicazes do sucessor Bonifácio VIII.
          Celestino V vivera em aura de santidade. Por isso fora ungido, e por isso renunciara. Os temores do sucessor – que para tanto tinha sobejas e egotistas razões – lhe acrescentaram mais títulos para a beatificação e canonização.
          Hoje Papa Ratzinger se transforma em pontífice emérito, o primeiro na bimilenar crônica da Sé de Pedro. Afasta-se cercado de multidões de súbito chorosas, que lhe dispensam calor e emoções antes não vistas. Também por sua determinação, segue com as honras devidas para Castel Gandolfo, a residência estival dos pontífices.
          Antes adotara as necessárias providências para as novéis circunstâncias, eis que a Sé vacante não surge por esta única feita por decorrência da morte do Papa reinante. Obviamente, não participará do conclave, embora não se exclua que tenha candidato, como ele mesmo o foi de seu antecessor, Papa Wojtyla.  Também fez saber que residirá em uma das inúmeras construções do Estado Vaticano, e que vestirá batina branca.
          Como nos reinos do passado, ele, enquanto vivo, relembrará assim a estirpe pontifícia, e disporá, ainda que na relativa modéstia dos antigos soberanos, de um círculo doméstico, que aglutinará os mais chegados.
         Toda renúncia de boa fé – como é claramente o caso - traz no seu bojo o desprendimento dos afagos do poder. Como agora nos diz o Sucessor de Pedro, enfrentou ele momentos difíceis. Na sua derradeira homilia, enquanto Papa reinante, ele disse: “Tive momentos de alegria e de luz, mas também momentos que não foram fáceis”. E nesse contexto, precisa: “momento de mares turbulentos e ventos contrários, como em toda a história da Igreja, em que o Senhor parecia dormir.”
         Como referido, o próprio Papa Ratzinger fez questionamento similar ao de sua alocução de despedida, na visita ao campo de concentração de Auschwitz, em 2006, onde morreram 1,5 milhão de judeus, exterminados por conta da solução final nazista, durante a Segunda Guerra Mundial: “Onde estava Deus naqueles dias ? Por que Ele silenciou ? Como pôde permitir o triunfo do Mal ?” Nesse contexto, Paulo VI fizera no caso do assassínio de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas pronunciamento ainda mais incisivo.
        Colocados diante da expressão da malignidade – e dificilmente se encontrará exemplo mais turbador do que a criminosa insânia da Solução Final do nacional-socialismo de Adolf Hitler – os papas se perguntam sobre a não-intervenção da Divindade.
        As visões da divindade variam através dos tempos. Do imóvel movedor de Aristóteles, que seria adaptado pela teologia de São Tomás de Aquino, a expressão de Deus tomaria muitas formas, inclusive a trina. Outra versão está na Confissão de Fé do vigário de Savóia[1], de Jean-Jacques Rousseau, que renderia ao cidadão de Genebra muitas perseguições por apresentar o divino com os trajes do deísmo, vale dizer a sua não-intervenção nas questões terrenas.         
         Foram, sem dúvida, muitas as crises no pontificado de Bento XVI, algumas vindas de pontificados anteriores, como a da pedofilia na Igreja, o desafio antes das seitas e agora evangélico, sobretudo na América Latina, e no ainda maior país católico do mundo, as contas do Banco Vaticano – o chamado Instituto Pontificio para as obras da Religião e o que se poderia chamar o escândalo do mordomo.
        Como Prefeito da Sacra Congregação para a Doutrina da Fé, o Cardeal Joseph Ratzinger seria um ativo e proficiente auxiliar do Papa polonês no combate à teologia da libertação e a seus proponentes mais em vista.
       No antigo Santo Ofício, de controversa memória, foram convocados ou enquadrados muitos teólogos como Hans Kung, Edward Schillebeeckx e Leonardo Boff, na época OFM. Do cordial acosso a este último também participaria o então cardeal do Rio de Janeiro, que tinha muito trânsito sob João Paulo II. De uma certa forma, a frase ‘o inverno na Igreja’ do maior teólogo do Concílio, Karl Rahner SJ, nos ajuda a entender tal período de repressão conservadora, sedulamente aplicada ao longo do pontificado do papa polonês.
      Dessa visão conservadora e delicadamente repressiva da Igreja o Cardeal Ratzinger seria a epítome nos tempos do  Papa João Paulo II, e por isso entraria no conclave desmentindo o velho dito (quem entra papa sai cardeal). Com efeito, a coalizão conservadora não faria alimentar muitas dúvidas acerca da indicação e posterior eleição do primeiro papa germânico em muitos séculos.
     Teólogo conservador, Ratzinger disporia da instrumentália para as amicais conversações com os teólogos que guiados pelo espirito joanino buscavam cooperar na abertura de janelas dos palácios vaticanos.
     Semelha bastante difícil, portanto, augurar a indicação de um pontífice com o espírito de Papa Giovanni, o papa do Concílio Vaticano II. Depois de um tão longo inverno,  afigura-se humanamente problemático que o habemus papam nos traga um purpurado da linha progressista.
     Sem embargo, os caminhos do Espírito Santo são insondáveis, e quem ousaria contrariá-los ?
      Se o leitor que já me conhece a preferência m’o permitir, gostaria de aditar algumas considerações que creio pertinentes.  Até hoje, o Papa Bom desperta a preocupação nos meios conservadores. Não terá sido por outra razão que só foi proclamado beato nos anos finais do pontificado de Wojtyla, que decerto não tardou em elevar aos altares personalidades como Escrivá de Ballaguer, sobre cuja santidade pesam tantas dúvidas.
      Tampouco nos seus oito anos de Sé pontifícia, Bento XVI terá considerado oportuno canonizar a João XXIII, o maior pontífice do século XX, cuja morte em três de junho de 1963 colheu o sentimento unânime dos grandes – e pequenos ! – de seu tempo, como nunca mais nos anos seguintes iria ocorrer com o Sé de Pedro.
       Ao invés de condenações, como asseverou no seu célebre discurso de abertura do Concílio, Papa Giovanni indicou o caminho de o que unia, no papel da Igreja de Mãe e Mestra através dos tempos.
      Ao invés de lamentações, é hora de trazer gente nova, que não seja zangada ou que preze o passado, pois a Igreja se deseja sobreviver ao desafio dos tempos, terá forçosamente de abrir as janelas e de aceitar os novos ventos, nunca descurando de sua eterna proposta de renovação.
      Será em tal atmosfera que as basílicas e as igrejas não representarão apenas obras de arte e de museu, vazias de fiéis e cheias de turistas. Não é olhando para o passado, com a sua pompa cerimonial, que adentraremos o futuro, de modo a que a Igreja corresponda à antiga etimologia grega, e nos prometa a repetida reunião em assembleias sempre renovadas de gente que continua a acreditar na sua eterna mensagem de justiça e fé.

 

(Fontes:  O Globo, Annuario Pontificio, Karl Rahner,SJ  )



[1] Célebres palavras de um ficcional vigário na Savóia, inserido no livro “ Émile, ou de l’Education” , de Rousseau.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Escárnio do Povo Soberano

                                     

        O que fazer do Congresso ? Será que Suas Excelências, do alto de suas regalias corporativas, pensam gozar do respeito do Povo brasileiro ?
        Não sei, ou melhor, não me animo a respondê-lo de modo enfático. De um lado, existe um portentoso fosso, criado por inúmeras vantagens auto-atribuídas e por  horário e carga semanal de trabalho que o cidadão comum – essa categoria a que, segundo Lula da Silva, os parlamentares não pertencem  - encara com raiva ou desencanto.
        Por outro lado, o cidadão brasileiro encara o Parlamento em Brasília como o cúmulo do artificialismo corporativo. Trabalham em geral por um dia inteiro – a quarta-feira – viajam na terça e na quinta (sempre às expensas do contribuinte), enquanto o corpo auxiliar de assessores (e dos inevitáveis aspones) dispõe de outro horário também absurdo, eis que só podem assinar o ponto de tarde...
        Trabalham pouco – veja-se a enorme carga de vetos presidenciais pendentes, e a judicialização crescente dos respectivos encargos – mas na estapafúrdia ciranda dos partidos, a maioria sem qualquer ideologia que não a sede de prebendas, ocupam descaradamente o horário nobre da televisão, com as suas repetidas inserções e vazias mensagens.
        Sem embargo, se pouco labutam – a ponto que nenhum patrão no mundo real os aguentaria por muito -  exigem mundos e fundos do erário público. Numa debochada retribuição pelo que auferem, não se percatam do afrontoso descompasso ao se colocarem, no cômputo imparcial das Nações Unidas, como o segundo Congresso mais caro no mundo !
        Como se tal não bastasse, ora preside o Senado quem já se demitiu no passado para evitar a cassação. De novo, a cidadania  - espicaçada pelos jovens que pelo próprio zelo e insistência nos acenam, apesar de tudo, com um futuro de esperanças – se movimenta, tanto no espaço herziano com milhões de assinaturas, quanto nas cercanias do Congresso, a exigir do presidente Renan Calheiros a renúncia.
        Ele tergiversa, diz que também já foi jovem, e chega a tocar na velha tecla de um suposto preconceito anti-nordestino. Se a recusa persistir, no entanto, ela irá alastrar-se, e como Anteu, há de retirar das entranhas da terra a força inexorável das causas populares, a que irão acudir os indecisos e os timoratos de hoje.
       Não é nota de pé de página, embora pareça. Blairo Maggi,do Partido da República, tem na corrente quarta-feira – o dia útil dos senhores congressistas – a eleição prevista para a presidência da Comissão de Meio Ambiente do Senado !
       Como determinar,  se é um escárnio, ou maneira agressiva de assinalar o que vale o P.V. na sua atual direção ou, até mesmo, a expressão ao revés da desimportância que o estamento político atribui aos recursos naturais em um país que ainda os guarda bastantes para despertar não só a inveja de outrem, mas a cupidez dos exploradores ? Eles têm pressa em abater as florestas restantes, acabar com os aquíferos, e um vastíssimo etcetera, para transformar o Brasil em um grande areal ou, bafejados pela sorte, em enorme savana !
         E, no final, tudo se encaixa: num Senado presidido por Renan Calheiros, Blairo Maggi deve presidir a Comissão do Meio Ambiente !

 

(Fonte :  O Globo )

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

De Política, Lá e Cá

                                         

          Começando pela eleição italiana, depois de semanas de nervosas predições aconteceu o que há muitos anos, com pequenas modificações, tem marcado o panorama itálico.
           Dividido entre tantos pretendentes a ter maioria nos palácios de Montecitorio (Câmara de Deputados) e Madama (Senado), de modo a instalar-se no Palácio Chigi (Primeiro Ministro), o mundo político peninsular fragmentou-se mais uma vez, cada um de sua parte em condições de proclamar a sua ‘vitória’.
           Tal espetáculo só mesmo seria imaginável na velha Itália, em que a reunificação feita pela Casa de Savoia se espelharia, em realidade, na profusão de antigos reinos, ducados, principados, para não falar da república de mais longa vida, e no Estado Pontifício nascido de uma doação que, na verdade, nunca houve.
          No entanto, Pier Luigi Bersani venceu, ainda que de forma apertada, a eleição tanto para o Senado (31,63%) quanto para a Câmara (29,54%). É, contudo, uma vitória no photo-chart, eis que Silvio Berlusconi, na reta final, aproximou-se muito da coalizão da esquerda, com 30,72%, para o Senado, e 29,18% para a Câmara.
         Como o gabinete a ser formado precisa ser respaldado com maiorias na Câmara e no Senado, e levado em conta o fato de que o partido do Primeiro Ministro Mario Monti teve um patamar baixo de votos – cerca de dez por cento em ambas as Casas – a governabilidade não se afigura factível apenas com a juntada do partido do atual Presidente do Conselho.
         Havendo o partido de Beppo Grillo atingido cerca de 20% do total, e sendo a proposta eleitoral do comediante uma verdadeira anti-proposta, com a negação dos políticos e da detestada austeridade, em princípio – na Itália todas as considerações políticas são possíveis – ter-se-ía que excluir da formação de gabinete o movimento do signore Grillo.   Como, no entanto, as fórmulas na constituição parlamentarista italiana são múltiplas, e podem incluir todo gênero de apoio externo negociado, não me atreveria a considerar fora do jogo das alianças esse bloco parlamentar.
         O que causou no passado, os tropeços e as quedas dos gabinetes foi a baixa confiabilidade das alianças de sustentação, sujeitas à rápida erosão e a possibilidade, nunca descartável, de insinuantes e desequilibrantes propostas alternativas da associação de partidos capitaneada pelo Cavaliere. A par disso, os governos têm de replicar no Senado, o mesmo esquema da Câmara, vale dizer a condição de manter uma maioria, o que duplica a dificuldade do jogo, sobretudo se tiver de recorrer a pequenos partidos de pouca confiabilidade.
        Por sua vez, através do Atlântico – e desta feita a imagem corresponde à realidade – o velho estadista Fernando Henrique Cardoso, que é um homem cordial, como nos foi dito ser próprio do nosso ethos, sabe igualmente dizer a palavra justa, e não se perder, como tantos outros mais jovens, nos meandros de um discurso de pouco impacto.
         Dilma ainda está fazendo o seu aprendizado na política. Se estivesse mais adiantada, teria evitado a areia movediça da declaração peremptória de não ter herdado “nada” da gestão tucana.
        Como isso é patente e gritantemente falso, avançando dessa forma desconsiderada, d. Dilma fica sujeita a ouvir o seguinte:
        “O que é que a gente pode fazer quando a pessoa é ingrata ?  Nada. Cospe no prato que comeu.” E só para completar: “ Quem não tem projeto é quem está no governo, porque eles pegaram o nosso.”
         FH tornou a defender o nome de Aécio como candidato, mas ainda não tem pressa:  “Não é o momento. Temos uma candidatura em construção. Não queremos uma pessoa, mas uma opinião.”
        O ex-Presidente tem toda a razão. Tanto em um caso, quanto noutro.

 

( Fontes:  CNN,  International  Herald Tribune, Folha de S. Paulo )

O GOP tem medo do Povo ?

                                       

       O  Partido  Republicano,  o Grand Old Party,  sempre foi tradicionalmente o representante do conservadorismo. No passado, contudo, o partido de Lincoln não refletia apenas a direita, os brancos e protestantes, e as chamadas elites dominantes. Havia espaço em suas fileiras para os moderados, que chegaram a constituir corrente importante dentro da agremiação, com maior força na Nova Inglaterra, com líderes como Nelson Rockefeller e John Lindsay, que, se não empolgaram a presidência, exerceram no seu tempo bastante influência.
     O próprio Lindsay, ao conseguir reeleger-se prefeito em New York pela legenda do Partido Liberal, já mostraria a crescente resistência da militância republicana ao progressivismo dentro do GOP.  Com efeito, Lindsay perdera a nomination partidária na luta pela reeleição para um candidato mais do gosto conservador. E em 1971, ao mudar de partido – Lindsay deixou o GOP e registrou-se como democrata – de uma certa maneira, a corrente republicana moderada e progressista entraria em lenta decadência, com o avanço da direita conservadora.
      Naquela época o Partido Republicano teve de afastar a direita radical, como a John Birch Society. Por outro lado, com o divórcio do Sul profundo do Partido Democrata – por força da Presidência de Lyndon Johnson com os direitos civis e da política de integração para os afro-americanos – as maiorias sulistas, ligadas à antiga Confederação derrotada pelo Presidente Lincoln e o Norte, trocaram a aliança, ao se bandearem para o GOP.
      A corrente evangélica, ao identificar-se majoritariamente com os republicanos, completou, por assim dizer, o perfil militante, conservador, e estreitamente relacionado com os extratos demográficos da ur-América.
      Diante da avalanche de Barack Obama em 2008, a reação republicana, associada a plutocratas como os petroleiros irmãos Koch, assumiu características em que o obscurantismo (criacionismo, anti-ambientalismo, rejeição de minorias), se conjuga com obstinadas falsidades (o movimento dos ‘birthers’, que nega seja Obama um americano nato). Toda a intolerância e a raiva pequeno-burguesa correria nas veias do chamado Tea Party, que se reclamara do levante dos colonos no porto de Boston contra os desmandos tributários da Inglaterra imperial.
     Se os traços distintivos do atual GOP, que se identifica com a classe abastada e a alegada América profunda, o predispuseram para tentar absorver a facção do Tea Party, como uma ala na extrema direita da própria direita, o caráter oportunista e pequeno-burguês desse movimento o coloca, mutatis mutandis, dentre aqueles associados radicais da ultra-direita de que se servira através dos tempos o partido Republicano, para depois se ver constrangido a expeli-los  por somarem cada vez menos, transformando-se em autêntico contrapeso.  
      Dessarte, o descarado oportunismo do GOP, julgando poder instrumentalizar uma grosseira caricatura sua (no caso o Tea Party), se ainda persiste no cenário político americano, semelha claro que, após o êxito nas eleições intermediárias de 2010, com a sua onda de direita do shellacking (tunda), que castigou a inexperiência executiva de Obama[1], a reação democrática será longo processo, mas já bem encetado com a afirmativa vitória de seis de novembro de 2012, quando a profecia-mantra do líder da minoria no Senado, Mitch McConnell não se concretizou, com a reeleição do Presidente.
       O  Partido Republicano, no entanto, tem dado, diante do desafio de tentar empolgar o poder, uma resposta que se tende a dar-lhe rendimentos no curto prazo, deverá ser autodestrutiva em prazo médio.
        Muitos dos recursos eleitorais de que se vale o GOP são de legalidade questionável, além de trazerem dentro de si o germen da respectiva nulidade.
        Nas  últimas eleições, em estados com assembleias de maioria republicana, houve diversos expedientes tendentes a dificultar e/ou desencorajar o sufrágio de camadas demográficas identificadas com os democratas (afro-americanos, latinos, pobres). Dentre esses truques, está o requisito de apresentação de documento de identificação com foto, a complexidade intencional do processo de votação – com as longas filas que provoca e a cansativa demora ocasionada – como se viu na Flórida e no Ohio. Além disso, a campanha de Obama – sobretudo em estados swing (indefinidos)- manteve um plantão cívico para lidar com especiosas intervenções para negar a validade do voto das minorias não-favorecidas.  A estratégia do preconceito e da negação do temido sufrágio das camadas reprimidas, na verdade, não inova. Como no Sul da antiga Confederação, os supostos testes de conhecimento (literacy tests) que visavam denegar o voto aos negros.  Hoje o preconceito continua atuante, posto que com outras vestimentas. O objetivo precípuo, sem embargo, não muda: adulterar o processo eleitoral, ao dificultar seja por restrições ao voto antecipado, seja por incômodos e ulteriores obstáculos, o sufrágio das minorias que, por inúmeras razões, desejam que o respectivo direito seja respeitado, contribuindo para tornar a votação mais justa e abrangente.
      Os empecilhos acima-referidos, malgrado o seu caráter iniquo e malévolo, constituem, na verdade, a face relativamente light da estratégia do GOP, no que concerne aos respectivos esforços no campo aético de ganhar as eleições nos diversos níveis do governo estadunidense.         
       São muito mais preocupantes outras tendências e projetos do Partido Republicano, no terreno da subversão do resultado eleitoral. Se esses vetores são decerto ainda mais condenáveis, o grau há de variar entre aqueles que são ilegais, e outros que visam a deformar o resultado da eleição, ainda que respeitem pro-forma a legalidade.
       Quanto ao processo ilegal, a atual Câmara de Representantes tem representado para os observadores o que configura um falso enigma. A sua maioria republicana – ainda que emagrecida na última eleição – corresponde a um intenso processo de redesenhamento de circunscrições eleitorais, feito por assembleias estaduais de maioria do GOP.  Os distritos foram mudados de duas formas: aqueles urbanos, de maioria democrata, concentrados para que os representantes eleitos fossem em menor número; outros distritos, de bairros abastados, foram redistribuídos de modo a garantir as respectivas maiorias republicanas.
        Como prova de que os sufrágios, no âmbito estadual e distrital, não têm o mesmo peso, diferem os coeficientes da votação geral em cada estado e por distrito. O gerrymandering – ou seja os pesos diferentes do voto – fica patente no cotejo entre o valor do sufrágio em todo o Estado (v.g., nas eleições para presidente e governador) e naquele dos distritos eleitorais para cada deputado, em que o percentual do GOP é superior àquele do voto estadual.
        Não é fácil acabar com essa fraude eleitoral, mas se tornará ainda mais difícil o processo se a grande imprensa referir-se a essas estranhas maiorias na Casa de Representantes como consequências eventuais (ou até mesmo acidentais) de um mecanismo de redistritamento que não tenha um escopo precípuo. Não são nugatórias as consequências do gerrymandering. Dentro do anel rodoviário de Washington – o chamado beltway – não é de somenos a persistência do gridlock (o impasse institucional), que é alimentado pela Câmara de Representantes de maioria republicana.
         Por outro lado, dentro dos processos legais – mas de resultados duvidosos – se insere o novel truque do Grand Old Party de tentar resolver a sua menor votação no corpo eleitoral americano – o que se traduz, v.g., pela derrota de novembro do seu candidato Mitt Romney à  presidência – através de artificialismos e de truques o cômputo da votação nos Estados Unidos.
          Como se sabe, o voto é indireto na União Americana. Cada estado tem um certo número de votos (que correspondem a eleitores indiretos) e que refletem o seu volume demográfico. Assim, no cômputo final dessa votação indireta, terão mais peso os estados maiores como a California, o Texas e New York. Até o presente, e com a única exceção do Estado do Maine, o candidato que tiver a maioria no estado, leva todos os delegados desse Estado para a votação indireta no colégio eleitoral.
          Empenhados em resolver o problema de conquistar o poder, os republicanos voltam a recorrer a meios artificiosos e contábeis para tentar voltar à Casa Branca. Se não o conseguem pelos meios legais, o jeito será alterar tais meios, para que a vitória de seu candidato seja possível  (conquanto a legitimidade tenda a sofrer, eis que como se verá, crescerá a possibilidade de que o candidato eleito não seja aquele que haja colhido o maior número na totalidade do corpo eleitoral).
           A notícia ainda sai sem maior relevo, mas merece ser considerada com muita atenção, porque as intenções dos republicanos não são das melhores.
           Assim, o presidente do Senado da Pennsilvania, Dominic Pelaggi, introduziu formalmente projeto de lei para que os votos eleitorais sejam distribuídos proporcionalmente. A vitória de um candidato a presidente no colégio da Pennsilvania não irá assegurar-lhe a totalidade dos sufrágios do estado – que, assim, deixa de ter relevância com estado determinante na eleição – mas que garante que os votos sejam parcelados por distrito eleitoral.  No entender dos especialistas, esse truque contábil ajudaria que o candidato do GOP tivesse mais votos no cômputo fragmentado. Esse expediente – que segundo a Constituição e se a Corte Suprema estiver concorde é da estrita competência estadual – embaralharia as perspectivas futuras e tornaria menos difícil o triunfo do GOP.
             Se confirmado esse tétrico cenário – e se imitado por outros estados com maiorias de representantes do Partido Republicano  - as eleições presidenciais dependeriam de uma estranha contabilidade. Como é gritante o projeto de fraudar legalmente as eleições, o seu próprio êxito tenderia a inviabilizá-lo, com o ulterior recurso à eleição universal, não mais determinada pela votação indireta dos Estados. 
            Entretanto, o processo de emenda constitucional nos Estados Unidos – o que é uma de suas qualidades – não tem a facilidade que caracteriza as reformas no Brasil. Levaria bastante tempo – até mesmo décadas – para afastar de cena essa prospectiva deturpação de um procedimento que tem garantido resultados democráticos até a data presente, quiçá com uma única exceção, em que na prática o grande eleitor do Presidente dos Estados Unidos tenha sido a Suprema Corte.
 

( Fontes subsidiárias:  International Herald Tribune,  TPMDC )



[1] O livro de Ron Suskind, Homens de Confiança (Confidence Men) retrata muito bem tal período, em que a inexperiência executiva de Obama fez perder ao Partido Democrata a Casa de Representantes.