segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O Juiz Garzón e mais Novas direto do Front

   Inédita renúncia de Cardeal

         Dando um bom exemplo, o  cardeal britânico Keith O’Obrien renunciou ao posto, e por conseguinte à sua participação no próximo conclave.
         O’Brien tinha sido acusado por quatro sacerdotes de acosso sexual nos anos oitenta.
         A atitude de O’Brien, de que não há precedente na história dos conclaves da Igreja Católica, constitui decerto um bom precedente que, se não elide o comportamento reprovável, o torna pelo menos causa para uma correta decisão.
 

O  Vexame  da  MP 595

         Dando sequência a uma resposta timorata e caudatária na questão da reformulação dos portos,  o governo continuou a ceder aos sindicatos de portuários, agora indicando por intermédio do ministro Leônidas Cristino, da Secretaria dos Portos, que tenciona oferecer mais incentivos aos portos públicos.
        Não é crível que o governo petista não haja examinado a questão com a necessária abrangência e equilíbrio, antes de submetê-la através da Medida Provisória  595 ao Congresso Nacional.
         A despeito de respaldado pelo Superior Tribunal do Trabalho, o governo preferiu ceder à greve ilegal dos portuários, com promessas de modificações no regime portuário.
         Com isso, o custo Brasil continua alto, refém das exigências descabidas dos sindicatos de estivadores, que são responsáveis pelo mau funcionamento do setor, e consequente prejuízo às nossas exportações.
         Não contente com a postura submissa e condescendente do fim de semana, o governo – temeroso de que as benesses prometidas não sejam bastantes – já assume que poderá oferecer ulteriores incentivos aos portos públicos. Com isso se descaracteriza a iniciativa em prol da competitividade dos portos, e se torna mais capenga a pretendida ‘reforma dos portos’.
         Como não é crível que o senhor Leônidas Cristino tenha cedido tanto sem o aval da Presidenta, verifica-se que falta tutano e vontade política de implantar uma autêntica reforma nos portos nacionais, com vistas a tornar mais competitiva a atuação brasileira no comércio internacional.
       À  maneira de um castelo de cartas, a férrea disposição da dílmica administração mostrou a sua verdadeira natureza. A república sindicalista continua de pé.

 
O  Caso Gurtel

          O juiz José Ceres determinou uma série de diligências para abrir as contas da campanha eleitoral das regiões autônomas de 2007, em que Francisco Camps (PP) foi reeleito presidente da Generalitat de Valencia.
          Segundo o noticiário do jornal El Pais, o magistrado em tela mantém as suas imputações à maior parte da direção regional do Partido Popular durante aquele período, assim como ao ex-vicepresidente da Generalitat Vicente Rambla.
           Nesse sentido a promotoria Anti-corrupção considera os dirigentes, acima citados, do Partido Popular culpados de financiamento ilegal (da campanha eleitoral). Tal se deve à circunstância de que tais indivíduos receberam vultosas somas de dinheiro das empreiteiras.
          Como se terá presente, foi com base no pretexto jurídico de que as escutas do caso Gürtel (financiamento ilegal das construtoras ao Partido Popular e a seus dirigentes) seriam ilegais do ponto de vista jurídico, a Corte Suprema na Espanha determinou o banimento do juiz Baltasar  Garzon (Audiência Nacional).
          Não é só o caráter pretextuoso da motivação jurídica que motivou uma grave (e injusta) decisão, que foi o afastamento por onze de anos da atividade como juiz de Baltasar Garzón. Dada a fragilidade da imputação, baseada em argumento contestável, e a manifesta amplitude do Caso Gürtel, que atinge o Partido Popular e seus dirigentes de forma ampla e incontestável, semelham colocadas as bases para uma pronta ação de anulação de um procedimento tão injusto, faccioso e de ultra-questionável base jurídica quanto o foi o lamentável banimento de um grande juiz como o é Baltasar Garzón.

 

( Fontes:  El Pais,   O  Globo )            

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Colcha de Retalhos A.8

                                           

Eleição italiana

          Estará datada a máxima do político mineiro Magalhães Pinto, que dizia “eleição e mineração só depois da apuração”? Apesar do indubitável progresso das predições dos institutos de pesquisa, as urnas ainda reservam alguns mistérios.
          No entanto, o espaço para as eventuais surpresas, nos países mais adiantados, se não desaparece, encolheu bastante. A boca de urna costuma delinear um quadro assaz aproximado da realidade do sentir popular.
          Berlusconi, esse antifenômeno itálico, terá sido esvaziado demasiado depressa, para alguém que dominara a política por décadas. O seu segredo talvez esteja em refletir muitos traços do ethos nacional, a começar pela ojeriza do cidadão comum em pagar impostos. A par disso, as suas estroinices e problemas com os juízes terão afastado partidários, mas persiste a sua capacidade de imantar a direita (somada aos assumidos neofascistas e até mesmo a separatistas do Norte).
         Bersani, da liga das esquerdas,com certa liderança nos sufrágios, tem de responder pela inépcia de antigos chefes da respectiva coligação, que, ou perderam a ocasião de neutralizar a Berlusconi, ou encabeçaram frágeis maiorias, que os expunham às chantagens da extrema esquerda ou às traições sistêmicas de ‘aliados’ pouco confiáveis.  
         Monti, dentro da ótica de uma administração técnica, logrou cumprir a respectiva tarefa. O seu problema está em que o seu apoliticismo é faca de dois gumes, por haver desperdiçado muitas oportunidades de faturar sobre uma popularidade arduamente conquistada. As reviravoltas confundem o eleitor, e contribuem para enfraquecer o tecnocrata. A sua esperança é acessória, na medida em que estaria mais em compor  contingente com suficiencia para ajudar a formar uma maioria.
         Beppo Grillo é o voto de protesto que, de uma forma ou outra, costuma aparecer nas eleições italianas. Desta feita, dá a impressão de haver crescido bastante. De qualquer forma, ao tirar sufrágios de Berlusconi, Beppo Grillo pode estar dando um aporte substancial, seja para inviabilizar a formação das sólitas maiorias do comendador, seja para facilitar a aglutinação de uma coalizão das esquerdas responsáveis.
 

 
De volta a república sindical ?

           O Governo Dilma Rousseff parecia imbuído da resolução de quebrar o gargalo do poder sindical nos portos brasileiros através da MP 595, que tramita no Congresso, para tornar menos paquidérmico o atual modelo portuário. Abrindo licitações para esse setor, e o libertando dos altos custos do modelo estatal sob controle sindical, a iniciativa assustou os portuários.
           A proclamada greve dos portuários – liderados pela CUT e a Força Sindical – a despeito de ilegal (pela decisão do Tribunal Superior do Trabalho), levou a suspensão do trabalho por uma manhã inteira, até que o governo petista cedesse, aceitando rever vários pontos da aludida medida provisória.
          Assim, o ministro Leônidas Cristino (da Secretaria dos Portos) declarou: “a gente tem que ter humildade de dizer que precisa conversar, abrir o  leque de negociação para que tenha um consenso”.
           Com esse tipo de postura, e a linguagem de Paulinho da Força Sindical, as perspectivas de que a dita reforma venha natimorta, são fortes. Assim, para os sindicalistas o OGMO (órgão gestor da mão de obra) concentrará todas as contratações, tanto para portos públicos, quanto privados. Considerado inegociável pelo referido Paulinho, esse Ogmo inova às avessas, eis que torna público o que deveria ser privado.
          Se Dilma ceder no capítulo, a escrita na parede para o poder sindical – com a sua defesa de vantagens corporativas em detrimento do interesse nacional – ficará bastante clara. A MP  595 já era, e tudo fica como dantes no quartel de Abrantes.

 
 A perseguição judicial dos mortos na Rússia

 
           Na semana passada, Sergei L. Magnitsky receberia notificação judicial de que o Estado russo está abrindo procedimento fiscal a respeito de alegadas evasões fiscais por ele praticadas.
           Não se pode dizer que a ordem instaurada pelo Presidente Vladimir V. Putin esteja inovando, porque nessa prática foram useiras e vezeiras as antigas tiranias, mas de todo modo ela provoca alguma espécie pela circunstância de que o réu Magnitsky faleceu em 2009.
           Acresce notar que Sergei Magnitsky foi uma vítima das cadeias russas, no que teve predecessores ilustres, como Fiodor Dostoievsky, que escreveu  Recordações da Casa dos Mortos, referentes aos anos em que esteve detido pelo Estado tzarista na Sibéria.
           Dostoievsky, no entanto, teve mais sorte do que Magnitsky. Se o regime era tão brutal quanto, ele pelo menos sobreviveu ao cativeiro e presenteou a Humanidade com mais obras literárias. Magnitsky, por sua vez, teve a morte apressada pela falta de qualquer atendimento médico digno desse nome.
           No ano passado, a administração Obama proibiu a entrada nos Estados Unidos de todas as pessoas acusadas de envolvimento no assassínio (por denegação de assistência médica) de Sergei Magnitsky,  ou de participação em abusos aos direitos humanos.
          Por estranha reforma no direito penal da Federação Russa, agora nem os mortos estão livres da perseguição da Justiça.  Os parentes da vítima do serviço carcerário russo procuraram bloquear esse simulacro de ação judicial, por ser inumano e politicamente motivado. 
           Para evitar que Magnitsky fique sem defesa – ou melhor, que o caso em tela não seja acoimado de nulo pela falta de contraditório, a corte Tverskoi designou um defensor público para ‘defender’ o falecido sr. Magnitsky.  
           Tudo nisso é pro-forma, excluído o ridículo e a sufocante extensão do poder – agora até sobre os mortos – do Presidente Vladimir Putin.                      

 
Na China, o passaporte é uma arma

          Os chineses, sobretudo os da etnia Han, não costumam ter problemas na obtenção de passaporte. Como noticia o New York Times, em 2012, as estatísticas registram 83 milhões de viagens para o exterior, 20% mais do que em 2011, e cinco vezes mais do que na década precedente.
          Ótimo, não é ?  A segunda potência econômica do planeta não mais dificultaria os deslocamentos de seus cidadãos ?  Pelos dados recolhidos na reportagem, a resposta pode ser um otimista sim, desde que acompanhado de reservas assaz manifestas para serem caladas.
          O chinês pode viajar, desde que não integre alguma das minorias que compõem a República Popular da China, sob a esmagadora maioria da etnia Han. Se o interessado em deslocar-se para o exterior for tibetano, uighur, mongol, ou porventura outra minoria submersa no mar Han, ou então mantiver opiniões pouco consentâneas com o PCC, as coisas tenderão a complicar-se.
          Em outras palavras, as possibilidades de que venha a obter o  mágico documento que lhe permitiria viajar para o exterior tendem a aproximar-se das práticas vigentes por países como Cuba, que se não tem a importância do gigante de Beijing, sóem no entanto aplicar regras ainda mais estritas no que concerne aos supostos direitos de seus cidadãos de valer-se de uma prerrogativa tão comum nas democracias.
          Não é consolo, mas vige a igualdade na falta de direitos também para os chineses que, vivendo no exterior, hajam por algum insondável motivo caído na lista negra da burocracia chinesa de segurança. Assim, um chinês que viva no estrangeiro e deseje visitar parentes ou amigos no Império do Meio, se estiver no longo elenco dos indesejáveis, a sua viagem para um aeroporto chinês (até mesmo em Hongkong) conduzira inexoravelmente a um outro avião que o devolva para onde veio.
         Como se vê, o passaporte não é um anódimo instrumento turístico-burocrático para o funcionário chinês encarregado do guichê dos viajantes. Para ele, esse documento de viagem é uma arma da RPC para o controle das minorias e dos dissidentes (aqueles que algum dia expressaram alguma opinião não estereotipada e inconforme com os padrões do PCC) !

 

( Fontes:  O Globo,  International Herald Tribune )

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Chávez terminal et al.

                                           

    O estado de Chávez

               O muro de silêncio e desinformação em torno do presidente enfermo Hugo Chávez Frias, à luz da história, nada tem de original. A mentira e o tráfico da notícia são instrumentos de um poder derivado, que costumam crescer à medida que definham os sinais vitais do soberano.
              São os chamados próximos do titular do poder. O exemplo que vem à mente – pela longa sucessão na sé pontifícia – é o do Papa, cuja saúde era preservada pelos ávidos familiares, até que exalasse o último suspiro.
              Como se depreende na longa marcha do coronel, depois que lhe apareceu a catadura do mal, o estamento dominante em Caracas se tem empenhado com comovente zelo em disfarçar e tergiversar sobre  sua condição.
              O próprio caudilho determinou as regras deste macabro jogo, preferindo internar-se no desvio do hospital dos irmãos Castro, do que submeter-se ao tratamento avançado do Hospital Sirio e Libanês. A razão é conhecida: abominando a transparência, o coronel optou por enfurnar-se no recesso cubano. Será mais atrasado, mas na amada Cuba o líder da Alba poderá reter por mais tempo a ilusão do controle acerca da informação.
            O retorno de Hugo Chávez a Caracas feito atrás das cortinas do oficialismo, o povo não viu. Supostamente, está internado em hospital militar, mas não há foto sequer que o documente.
            A verdade, no caso, semelha difícil de aferrar nos detalhes, mas, como sói acontecer nas longas encenações, os seus traços portentosos se vão delineando, no cediço cerimonial que cerca tais carregadas circunstâncias.
            Uma frase aqui de um ministro, outra do substituto designado, e o quadro agourento se irá completando, nas negras tintas do óbito anunciado.

  

A saga do menino Sean Goldman

          Em dezembro de 2009, por força de liminar concedida pelo Ministro Gilmar Mendes do STF, a guarda do menino Sean foi entregue ao pai David Goldman. Não foram estabelecidas quaisquer condições para que a avó materna, Silvana Bianchi, que tinha a guarda até então, após a morte da mãe Bruna, em agosto de 2008, pudesse ter contato e direitos de visita ao neto.
         Depois que o menino foi levado para New Jersey, as portas e o acesso ao menino Sean se tornaram inatingíveis. A avó e o padrasto advogado não desistiram da luta, apesar da postura do pai. Para que se tenha noção da nova situação, David Goldman, em correspondência de 2010, estabeleceu como condições para a visita o pagamento dos gastos que tivera com o processo (cerca de US$ 200 mil), e a desistência, de parte da família brasileira, de todas as ações que tramitam nos Estados Unidos.
         Salta aos olhos a inadmissibilidade, à luz do direito  internacional vigente na matéria, dessas condições que lembram às do personagem shakespeareano Shylock, no Mercador de Veneza. No entanto, como tudo nesse processo, não foi fácil a derrubada das iníquas exigências. Com efeito, em julho de 2012,  a divisão de apelações da Corte Superior de New Jersey decidira que a avó Silvana poderia continuar sua disputa pelo direito de rever  o neto. Nesse sentido, estabeleceu que as Partes tentassem um acordo para a visitação.  
          Como tal não foi possível, em decisão deste mês de fevereiro a Suprema Corte de New Jersey julgou procedente o pedido de visitação de Silvana. Por outro lado, considerou sem valor as exigências feitas pelo pai David.
          Entretanto, se a visita está permitida em tese, como declarou a parte brasileira, os juízes não determinaram como ela deva ser, nem fixaram data. Nesses termos, consoante disse a avó Silvana “ainda não estou com as malas prontas”.
         Na sua solicitude para atender à pretensão do pai David, o  ministro Gilmar Mendes cedeu, na liminar, a guarda do menino ao pai, sem estabelecer qualquer determinação resguardando os direitos da avó materna, que mantinha até então a guarda de Sean.  Se o fizesse, teria balizado de forma irretorquível os direitos da avó brasileira, dentro de o que prescreve a convenção internacional sobre a matéria. Se o ramo materno da ascendência do menino Sean não dispusesse de maiores recursos, não teria qualquer possibilidade prática de visitação do filho da brasileira Bruna.
           Mesmo com as facilidades de que dispõe o ramo materno, verifica-se que uma vez partido Sean para a terra de Tio Sam, sem quaisquer garantias, é deveras complicado (e oneroso) o exercício do comezinho direito da visitação.  Desde dezembro de 2009 até hoje a visita de Sean e a conversa com sua avó (será possível mantê-la em português ?) continua sendo apenas uma miragem.
           É de esperar-se que tão flagrante injustiça seja superada.

 
A  Prisão pela Justiça Boliviana de torcedores do Corinthians

 
            O  filme  mostrado  na  sessão  da  justiça  boliviana  evidencia que o sinalizador náutico foi adrede apontado por membro da Gaviões da Fiel contra a torcida do San José,  de Oruro. Tal sinalizador, de fácil obtenção no comércio brasileiro, constitui óbvia ameaça à incolumidade alheia, se não manipulado corretamente.
            Uma revista decente na entrada do estádio eliminaria o perigo que esta arma representa. Inadmissível e criminosa a detenção do sinalizador em um estádio. Somente na atmosfera demencial que cerca  essas torcidas está a sua utilização, que  se destina à segurança da navegação. Só é imaginável nas torcidas organizadas – e não há santos nessa categoria – que constituem um triste fenômeno. De resto, os crimes recentes praticados, sem exceção de clube, por elementos de tais bandos, deveriam ser bastantes para determinar-lhes a supressão.  
            A morte do garoto Kevin Espada é mais uma consequência do caráter facinoroso dessas torcidas. Esperemos que os paredros não consigam anular as penalidades contra o Corinthians, que não pode alegar desconhecimento dos riscos envolvidos.
           Será através da severa penalização dos clubes que se colocam as condições determinantes para a inviabilização de tais grupos, verdadeiras associações para delinqüir.
 

 
( Fontes:  O Globo, Rede Globo, Folha de S. Paulo )

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Lições da Visita de Yoani

                                      

         O que nos ensina a vinda da blogueira Yoani Sánchez ao Brasil ? Em primeiro lugar, cumprimentos pelo êxito na ofensiva obscurantista organizada em reunião ilegal na embaixada de Cuba, sob a batuta do embaixador Carlos Zamora Rodríguez, e a participação de Ricardo Poppi Martins, assessor do Ministro Gilberto Carvalho, da Presidência da República.
         Tristes trópicos ! Alimentados pelos sólitos dossiês – que parecem interessar menos pelo risível conteúdo – do que pela falsa impressão dada, de mágicas provas e de ocos propósitos (nisso fascistas e comunistas se dão as mãos, pelo embuste da empresa, que se fundamenta na cínica máxima de que os fins justificam os meios).
         As reações à visita da blogueira Yoani nos tem mostrado várias coisas. Primeiro, registremos a presença de dona Intolerância, cuja visão nos deprime e nos revolta. Deprime, porque a sua cara, com o nariz de palhaço, é de gente jovem, mas que está a serviço de velhas ideias, que não são as da liberdade e da pacífica coexistência. Nada têm a ver decerto com os manifestantes que saíram de luto e apressaram a queda de Fernando Collor. Tampouco estão ligados à antiga UNE, aquela que defendia o governo democrático de João Goulart, e que teve por isso a sede empastelada e queimada. Hoje a UNE é chapa branca, o idealismo já era, mas tem verbas e prebendas do governo.
        Revolta, porque agem com a boçalidade das tropas de choque, que ao invés do debate preferem o silêncio imposto pela gritaria e a violência verbal (quando não gestual).
        A visita de Yoani tem sido  preocupante prova do poder da intolerância. E o que move esses bonecos da ditadura é o temor da verdade. Não podem permitir as palestras, filmes e noites de autógrafo dessa perigosa agente – que eles, como se vivessem no século passado, dizem ser da CIA! No caso em tela não sei o que mais seja ou censurável ou ridículo, se a fraqueza do Estado, ou a benigna negligência dos defensores da liberdade que permitem prevaleça essa deplorável rotina da baderna sob encomenda, de poucas mas contundentes ideias, e a carantonha da violência burra e intolerante.
        Entristece que se associem a juventude e a decrepitude do autoritarismo cubano ! Ao lado da maligna negligência do Estado  -  em que José Dirceu chega a exprobar de absurda a lei da Ficha Limpa e regurgitam cediços projetos de controle da imprensa e da temida opinião pública -  a visão do programa da blogueira embaralhado por baixarias e estúpidas perseguições revela, por vezes, a imagem deformada de uma juventude.
        A liberdade, essa tenra plantinha que mal convive com a violência, embuçada ou não, só pode progredir nos espaços em que as opiniões são respeitadas, e não pisoteadas pela ordem unida e a prepotência.
        Esse quadro de gente jovem a repetir slogans sob encomenda, em defesa de um regime anacrônico e antidemocrático, para acossar e perseguir com o braço longo da autocracia, a uma solitária dissidente – que quadro mais melancólico para a antiga generosidade dos jovens, hoje transmutados em bonecos a serviço de mal-disfarçada ditadura !
        E que fazer do P.T., antes o partido da ética, agora força auxiliar do obscurantismo?

 

( Fonte:   O Globo on line )

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Dilma x Aécio

                                              

         É talvez cedo para a largada da campanha eleitoral de 2014. No entanto, de um lado e outro petistas e tucanos sentem que tudo induz à antecipação da retórica eleitoreira. O PT se reúne para comemorar dez anos na presidência. Lançada uma cartilha em que os contrastes se pintam com as tintas da propaganda, pondo nas alturas os governos Lula e Dilma, e acerbas críticas a FHC, o Partido dos Trabalhadores  organiza celebração em São Paulo, para que Lula indique Dilma, e dela participem os mensaleiros José Dirceu, José Genoino e João Paulo Cunha.
        O peixe-piloto Gilberto Kassab foi convidado para compor a mesa – com direito a vaias e hostilização pelo auditório. Já a trinca dos condenados pelo STF foram recebidos com entusiasmo pela assistência, mas não tiveram lugar na mesa dos dois gerarcas petistas, Lula da Silva e Dilma Rousseff.
       Ecoou na grande sala paulistana o discurso do senador Aécio Neves (PSDB/MG) pronunciado naquela mesma jornada no Senado Federal.
      Em tom ainda moderado, Aécio principia a assumir o papel de principal candidato oposicionista à candidatura petista de Dilma Rousseff, dissipadas as dúvidas sobre uma eventual postulação pelo ex-presidente Lula.
      Aproveitando a visita ao Brasil da blogueira Yoani Sánchez e a intolerância dos militantes do PT e do PCdoB que, conforme as possibilidades do local, perseguem sempre a denegação da palavra à ativista cubana – até ensaiado no próprio Congresso por senadores das esquerdas unidas – Aécio cuja oratória ameaça a quem não é do ramo, perguntou retoricamente: “ Mas afinal, qual é o PT que celebra aniversário hoje? O que fez do discurso da ética, durante anos, a sua principal bandeira eleitoral, ou o que defende em praça pública os réus do mensalão ? O  PT que considerava inalienáveis os direitos individuais ou o que se sente ameaçado por uma ativista cuja única arma é a sua consciência ?”
       Na sua alocução, Aécio citou o baixo crescimento econômico (no mesmo dia o Banco Central estimou em 1,35% o avanço do PIB em 2012), a inflação, a quebra de confiança dos investidores, e o descalabro das contas públicas.
       Devolvendo o ataque petista da cartilha, em que tenta denegrir o legado do governo de FHC, o Senador referiu-se à ‘herança bendita’  do governo tucano.  No entender do pré-candidato, a incapacidade de gestão se adensou e o Brasil parou. Nesse sentido, os fundamentos da economia estão em rápida deterioração, colocando em risco avanços que o país levou anos para implementar, como a estabilidade da moeda.
       Tudo leva a crer que o dragão estará na ribalta da eleição de 2014. Ainda mais cedo do que o esperado o presidente do BC se apressou em declarar que não haverá, por ora, aumento dos juros, o que não seria a seu ver necessário. Dada a postura de Dilma, o mercado estava certo em seu ceticismo quanto ao emprego de meios mais fortes no combate à inflação.
       Entrementes, os outros dois pré-candidatos, Eduardo Campos (PSB) e Marina Silva (‘Rede’) nadam sozinhos, no caudaloso rio das ambições, por ora cuidando de manter as próprias forças e respectiva relevância, nessa corrente em que infestam as piranhas.

 

( Fonte:   O  Globo )

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Pra que Nuclear ? Acosso a Yoani et al.

   
 Mais uma usina nuclear ?

          A falta de bom senso e de consciência ecológica se evidencia na abstrusa decisão de construir mais outra usina nuclear.  Já temos duas e sem a menor necessidade o governo pensa em fazer mais uma.
          Para quê e por quê? São as perguntas  que se impõem.
          Quanto à serventia, o Brasil dispõe de duas próximas a regiões habitadas. Não terá acaso o governo Dilma Rousseff presentes os inúmeros acidentes que cercam a essa fonte energética ? Será que os de Three Mile Island (Estados Unidos), Tchernobil (Ukrania) e Tsushima (Japão)  não são suficientes para mostrar-lhes a periculosidade e os danosos  efeitos  sobre as populações vizinhas,  ceifando vidas, afetando gravosamente  outras, inviabilizando terras e aquíferos ?
         E o Brasil não é Japão, país desprovido de fontes energéticas e, mesmo forçado a recorrer ao nuclear, se vê constrangido a ter de cerrar usinas ?
         O que falta à nossa terra, e em especial a seus dirigentes, é um mínimo de discernimento. Além da fonte hídrica que nos proporciona energia barata e abundante, dispomos, além das usinas térmicas,  das alternativas eólica, solar e da biomassa. Nesse sentido, convém não exagerar no erro. Manda o mais elementar bom senso que nos restrinjamos às duas Angras. 
          Qual a necessidade de recorrer a tão perigosa alternativa, com tantos graves  prejuízos ao meio ambiente e à nossa gente ?
        

Yoani Sánchez e a democracia

          A blogueira Yoani, com sua boa vontade e simpatia, qualificou de comportamento democrático as atenções que vem recebendo de pessoas que atuam como se foram agentes da ditadura em Cuba.
           Por atenção com o país (e governo !) que a recebe, Yoani prefere disfarçar a atitude agressiva e fascistóide com que maltas do PT e do PCdoB têm procurado prejudicar eventos e reuniões por ela protagonizados, como se fossem características democráticas.
          Na verdade, esses atos provocados e teleguiados pelos apparatchicks de Havana nada têm a ver com a autêntica democracia.  O parentesco será com  as ignóbeis falsas democracias, aquelas adjetivadas, sejam fascistóides ou comunistóides, eis que nos métodos e na falta de qualquer sentido de atenção e respeito às pessoas que não tenham mentalidade de carneiro tais governos e regimes se parecem de forma comovente.
          Por outro lado, o dílmico governo – que nega mais manda funcionário da presidência para participar de reunião com direito a dossiê, e de organização de campanha difamatória e de acosso à visitante – com sua postura subalterna e hipócrita no caso merece sem dúvida  o Prêmio Pinóquio, com especial menção ao Ministro (e fiscal de Lula da Silva) Gilberto Carvalho !
            Não se pode confundir democracia com ditadura, nem acosso com a tradicional acolhida do brasileiro !


Um artigo importante

            O Governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, escreveu para a Folha um artigo relevante “O Congresso deve revidar”, publicado no jornal de domingo dezessete, na seção Tendências/Debates.
            Ler Tarso Genro é um prazer, primeiro pelo que escreve e a oportunidade de suas colocações, e segundo, pela descomunal diferença da indigência do outro PT, aquele que se filia à corrente de Lula da Silva.
            Concordando ou discordando de suas opiniões, nos sentimos a palmilhar outros terrenos, que deveriam ser igualmente visitados pelos companheiros petistas.
            Não se deve escorraçar – nem preterir - a inteligência, a cultura, a seriedade e a objetividade – antes atributos do Partido dos Trabalhadores quando na oposição – de uma formação política, ainda que no poder.
 

 
( Fontes:  Folha de S. Paulo, O Globo )

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Tragédia Síria: Indecisão de Obama

                         

          A revolução síria já atravessou muitos marcos. Como muitas outras, começou com a insatisfação da cidadania, através de pacíficas passeatas, que o regime  alauíta respondeu com a violência. Se estava na sua própria lógica, sustentada na polícia secreta e na brutalidade institucional, o ditador Bashar al-Assad incidia na mãe de todos os erros das tiranias, a que os gritos de manifestantes de rua pela liberdade soam como mortais ameaças, que nelas provoca a reação do fuzil.
          O povo sírio soube distinguir a verdadeira resposta do governo de Assad não nos ocos discursos em assembleias  títeres, mas nos primeiros cadáveres de populares, seja aqueles abatidos pelos tiros da estúpida repressão, seja os restos mortais deformados pela tortura do Mukhabarat[1], que mais por intimidação são entregues às famílias.
         Há  23 meses  se arrasta a rebelião, que por cômputos incontestáveis estende o seu controle por boa parte do velho país sírio, a ponto de os aliados russos  aliados do déspota – além de providenciarem maciças transferências de compatriotas de volta para a Federação Russa -  reconheçam que os rebeldes dominam a maior parte do território.
         Os países e movimentos partidários de Assad o têm assistido com comovente pertinácia. Todos eles o fazem menos por simpatia do que por necessidade. O Kremlin teme pela perda da base naval de Tartus – a única que dispõe de águas quentes por todo o ano -  na costa síria, no Mediterrâneo oriental. Os ayattollahs de Teerã tem em Damasco um dos seus poucos aliados, a quem provê com auxílios de toda ordem, material e pessoal. Tais dispêndios mais do que contrabalançam o baque de ver o lado sunita do mundo árabe reforçado, e o respectivo isolamento estratégico incrementado. Por sua vez, o Hezbollah de Nasrallah que cresce no Líbano ainda democrático se veria enfraquecido com a respectiva expulsão da Síria, conduto até hoje propício para os armamentos procedentes do Irã. E, por fim, o Hamas na sua luta contra Israel veria complicadas as linhas de fornecimento iranianas.    
          Vladimir Putin tem sustentado o aliado Bashar com comovente coerência. O Conselho de Segurança das Nações Unidas tem recusado – por força do veto russo e do aliado pequinês – qualquer ação das Nações Unidas a não ser as desarmadas, o que levaram ao fracasso o Plano Annan. Apesar das naturais simpatias do regime Bouteflika na Argélia, o presente representante argelino, Lakhdar Brahimi, mediador  das Nações Unidos junto ao regime sírio tampouco tem condições de objetivamente ajudar a Damasco. Com poucas opções, sobre a mesa tem a proposta de um ‘diálogo entre regime e oposição’ em alguma sede das Nações Unidas. Não parece ser saída para o ‘túnel escuro’ em que se meteu a guerra civil síria.
         Por sua vez, Moscou principiou a retirar pessoal russo de um país em que claudica o poder de al-Assad. Dentro de um possibilismo forçado pelas circunstâncias, o chanceler Sergei Lavrov tenta salvar o que possa ser salvo, em um cenário no qual as opções se encolhem na perspectiva de uma solução negociada. Diante de Bashar al-Assad avulta o espectro do tribunal da Haia – o cômputo de vítimas mortais já toca as setenta mil – e o estreitamento de um final de reino, em que os caminhos de saída são progressivamente fechados, enquanto avultam as opções tipo Kaddafi (a morte nas mãos do inimigo), asilo em terra amiga (que se evaporam como o orvalho matinal, com a decadência acelerada do poder dos Assad), ou a custódia pelo tribunal da Haia (alternativa alimentada pela progressiva fraqueza política e o consequente peso negativo de contrariar a opção mais lógica).
         Nesse contexto, o presidente Barack Obama – que contrariou as posições de Hillary Clinton, no Departamento de Estado, de Leon Panetta, Secretário da Defesa, e do Diretor da CIA, que favoreciam o armamento seletivo da Liga Rebelde anti-Assad  - preferiu continuar na política de apoio não-militar, por temer que as armas acabem em mãos de radicais, como a al-Qaida.
        Uma das causas principais da longa resistência de Assad reside nas restrições impostas à oposição e aos rebeldes sírios, enquanto Teerã e no passado Moscou não trepidam em fornecer armamento letal ao regime.
         Essa falta de apoio – além de contribuir para a continuação de uma situação adversa à causa da Liga, tem trazido água para o moinho de Assad e de seus aliados – pode diminuir a influência de  Washington e do Ocidente no quinto e derradeiro ato da tragédia síria.
         A indecisão de Obama pode não só levar a uma prorrogação no sofrimento do povo sírio, senão a uma involução no pós-revolução. Se a possibilidade da alternativa da ‘jornada de tolos’ tende a enfraquecer-se, a perspectiva de uma falsa solução – com tantos interessados nesse sentido – não é de ignorar-se. De toda forma, as soluções tipo Pilatos  de mandar vir bacia d’água para lavar as mãos nunca foram as melhores para aqueles que se empenham em criar  condições dignas para um povo sofrido.

 

( Fonte subsidiária:  International Herald Tribune ) 



[1] Polícia secreta.