Eleição italiana
Estará datada a máxima do político mineiro Magalhães
Pinto, que dizia “eleição e mineração só depois da apuração”?
Apesar do indubitável progresso das predições dos institutos de pesquisa, as
urnas ainda reservam alguns mistérios.
No entanto,
o espaço para as eventuais surpresas, nos países mais adiantados, se não
desaparece, encolheu bastante. A boca de urna costuma delinear um quadro assaz
aproximado da realidade do sentir popular.
Berlusconi,
esse antifenômeno itálico, terá sido esvaziado demasiado depressa, para alguém
que dominara a política por décadas. O seu segredo talvez esteja em refletir
muitos traços do
ethos nacional, a
começar pela ojeriza do cidadão comum em pagar impostos. A par disso, as suas estroinices
e problemas com os juízes terão afastado partidários, mas persiste a sua
capacidade de imantar a direita (somada aos assumidos neofascistas e até mesmo a
separatistas do Norte).
Bersani,
da liga das esquerdas,com certa liderança nos sufrágios, tem de responder pela
inépcia de antigos chefes da respectiva coligação, que, ou perderam a ocasião
de neutralizar a Berlusconi, ou encabeçaram frágeis maiorias, que os expunham
às chantagens da extrema esquerda ou às traições sistêmicas de ‘aliados’ pouco
confiáveis.
Monti,
dentro da ótica de uma administração técnica, logrou cumprir a respectiva
tarefa. O seu problema está em que o seu
apoliticismo
é faca de dois gumes, por haver desperdiçado muitas oportunidades de faturar
sobre uma popularidade arduamente conquistada. As reviravoltas confundem o
eleitor, e contribuem para enfraquecer o tecnocrata. A sua esperança é
acessória, na medida em que estaria mais em compor
contingente com suficiencia para ajudar a
formar uma maioria.
Beppo
Grillo é o voto de protesto que, de uma forma ou outra, costuma
aparecer nas eleições italianas. Desta feita, dá a impressão de haver crescido
bastante. De qualquer forma, ao tirar sufrágios de Berlusconi, Beppo Grillo
pode estar dando um aporte substancial, seja para inviabilizar a formação das
sólitas maiorias do comendador, seja para facilitar a aglutinação de uma
coalizão das esquerdas responsáveis.
De volta a república sindical ?
O Governo Dilma Rousseff parecia imbuído da
resolução de quebrar o gargalo do poder sindical nos portos brasileiros através
da MP 595, que tramita no Congresso, para tornar menos paquidérmico o atual
modelo portuário. Abrindo licitações para esse setor, e o libertando dos altos
custos do modelo estatal sob controle sindical, a iniciativa assustou os
portuários.
A
proclamada greve dos portuários – liderados pela
CUT e a
Força Sindical – a despeito
de ilegal (pela decisão do Tribunal Superior do Trabalho), levou a suspensão do
trabalho por uma manhã inteira, até que o governo petista cedesse, aceitando
rever vários pontos da aludida medida provisória.
Assim, o
ministro Leônidas Cristino (da Secretaria dos Portos) declarou: “a gente tem que ter humildade de dizer
que precisa conversar, abrir o
leque de
negociação para que tenha um consenso”.
Com esse
tipo de postura, e a linguagem de Paulinho da Força Sindical, as perspectivas
de que a dita reforma venha natimorta, são fortes. Assim, para os sindicalistas
o
OGMO (órgão gestor da mão de obra) concentrará todas as contratações, tanto
para portos públicos, quanto privados. Considerado inegociável pelo referido
Paulinho, esse
Ogmo inova às avessas, eis que torna público o que deveria ser
privado.
Se
Dilma
ceder no capítulo, a escrita na parede para o poder sindical – com a sua defesa
de vantagens corporativas em detrimento do interesse nacional – ficará bastante
clara.
A MP 595 já era, e tudo fica como dantes no
quartel de Abrantes.
A perseguição judicial dos
mortos na Rússia
Na semana
passada, Sergei L. Magnitsky receberia notificação judicial de que o Estado
russo está abrindo procedimento fiscal a respeito de alegadas evasões fiscais
por ele praticadas.
Não se pode
dizer que a ordem instaurada pelo
Presidente Vladimir V. Putin esteja inovando,
porque nessa prática foram useiras e vezeiras as antigas tiranias, mas de todo
modo ela provoca alguma espécie pela circunstância de que o
réu Magnitsky
faleceu em 2009.
Acresce
notar que Sergei Magnitsky foi uma vítima das cadeias russas, no que teve
predecessores ilustres, como
Fiodor Dostoievsky, que escreveu
Recordações da Casa dos Mortos, referentes
aos anos em que esteve detido pelo Estado tzarista na Sibéria.
Dostoievsky,
no entanto, teve mais sorte do que Magnitsky. Se o regime era tão brutal
quanto, ele pelo menos sobreviveu ao cativeiro e presenteou a Humanidade com
mais obras literárias. Magnitsky, por sua vez, teve a morte apressada pela
falta de qualquer atendimento médico digno desse nome.
No ano
passado, a administração
Obama proibiu a entrada nos Estados Unidos de todas as
pessoas acusadas de envolvimento no assassínio (por denegação de assistência
médica) de Sergei Magnitsky,
ou de
participação em abusos aos direitos humanos.
Por estranha
reforma no direito penal da Federação Russa, agora nem os mortos estão livres
da perseguição da Justiça.
Os parentes
da vítima do serviço carcerário russo procuraram bloquear esse simulacro de
ação judicial, por ser inumano e politicamente motivado.
Para evitar
que Magnitsky fique sem defesa – ou melhor, que o caso em tela não seja
acoimado de nulo pela falta de contraditório, a
corte Tverskoi designou um
defensor público para ‘defender’ o falecido sr. Magnitsky.
Tudo nisso
é pro-forma, excluído o ridículo e a sufocante extensão do poder – agora até
sobre os mortos – do Presidente Vladimir Putin.
Na China, o passaporte é uma arma
Os chineses,
sobretudo os da etnia Han, não costumam ter problemas na obtenção de
passaporte. Como noticia o New York Times, em 2012, as estatísticas registram
83 milhões de viagens para o exterior, 20% mais do que em 2011, e cinco vezes
mais do que na década precedente.
Ótimo, não é
?
A segunda potência econômica do
planeta não mais dificultaria os deslocamentos de seus cidadãos ?
Pelos dados recolhidos na reportagem, a
resposta pode ser um otimista
sim, desde que acompanhado de
reservas assaz manifestas para serem caladas.
O chinês
pode viajar, desde que não integre alguma das minorias que compõem a República
Popular da China, sob a esmagadora maioria da
etnia Han. Se o interessado em
deslocar-se para o exterior for
tibetano, uighur,
mongol, ou porventura outra
minoria submersa no mar
Han, ou então mantiver opiniões pouco consentâneas com
o
PCC, as coisas tenderão a complicar-se.
Em outras palavras, as possibilidades de que
venha a obter o
mágico documento que lhe
permitiria viajar para o exterior tendem a aproximar-se das práticas vigentes
por países como Cuba, que se não tem a importância do gigante de
Beijing, sóem
no entanto aplicar regras ainda mais estritas no que concerne aos supostos
direitos de seus cidadãos de valer-se de uma prerrogativa tão comum nas
democracias.
Não é
consolo, mas vige a igualdade na falta de direitos também para os chineses que,
vivendo no exterior, hajam por algum insondável motivo caído na lista negra da
burocracia chinesa de segurança. Assim, um chinês que viva no estrangeiro e
deseje visitar parentes ou amigos no Império do Meio, se estiver no longo
elenco dos indesejáveis, a sua viagem para um aeroporto chinês (até mesmo em
Hongkong) conduzira inexoravelmente a um outro avião que o devolva para onde
veio.
Como se vê, o
passaporte não é um anódimo instrumento turístico-burocrático para o
funcionário chinês encarregado do guichê dos viajantes. Para ele, esse
documento de viagem é uma arma da
RPC para o controle das minorias e dos
dissidentes (aqueles que algum dia expressaram alguma opinião não estereotipada
e inconforme com os padrões do
PCC) !
( Fontes: O Globo,
International Herald Tribune )