Dimon e os dois
bilhões de dólares
A
princípio, o Presidente do J.P.
Morgan-Chase, Jamie Dimon tentara
negar que algo estivesse errado com o balanço do banco.Dimon aceitou responsabilidade
pela resposta inicial do Morgan: ‘Ficamos defensivos demais’.
A perda se originou da sucursal londrina
do banco. Teria feito aposta errada em derivativos, com a intenção de obter um
‘hedge’ (proteção) contra operações
de risco. Foram os mesmos
derivativos (credit default swaps)
que fizeram tantos estragos na última crise financeira internacional,
deflagrada pela falência do Banco Lehman
Brothers em 15 de setembro de 2008.
Jamie Dimon tinha boa imagem de
executivo, sobretudo porque mantivera o Morgan-Chase ao largo da crise.
No entanto, a peripécia dos dois bilhões
de dólares de prejuízo, mesmo para um banco que registrou um lucro em 2011 de 19 bilhões, aplicou irônica lição em
Dimon, na sua condição de crítico impiedoso da reforma financeira Dodd-Frank, sancionada pelo Presidente
Obama em Julho de 2010. O presidente do Morgan-Chase se queixou repetidas vezes
das maiores exigências de capital colocadas pela nova lei, chegando até a
considerar as disposições como ‘anti-americanas’.
Acoimou de contra-produtiva a chamada Regra Volcker. Ora, essa regra proíbe os
bancos de entrarem em transações especulativas envolvendo ativos de propriedade
do banco. Existe grande possibilidade de que a operação da sucursal de Londres
do banco terá sido em montantes que seriam abrangidos pela Regra Volcker.
Aqui cabe a pergunta. Por que a regra
Volcker – e outras normas da lei Dodd-Frank ainda não estão em vigor, quase
dois após a assinatura presidencial. Por dois motivos, segundo aduz o articulista
Joe Nocera, pela sua complexidade, e pelo fato de a sua regulamentação
continuar em exame, o que se deve, em parte, ao intenso lobbying dos bancos,
liderados pelo JP Morgan.
É de esperar-se que esse percalço – e a
renovada atenção trazida sobre o problema – venha a empurrar a regulamentação
não-aguada da Dodd-Frank, mas de forma a impedir que os bancos ajam como
estivessem no pano verde. Não importa apenas admitir – como o fez Jamie Dimon –
que o banco caiu em erro terrível, espantoso (egregious). É preciso agora submeter os bancos a regras que os
protejam deles próprios. Bem no estilo da Lei de 1933, a famosa Glass-Steagal, que proibia os bancos
comerciais de atuarem como bancos de investimento.
Que esta lei tenha sido revogada é a pecha
de Phil Gramm (R-Tx), Robert Rubin e Lawrence Summers, estes dois últimos Secretários do Tesouro na
Administração Clinton. Possibilitaria o laissez-faire
que caracterizou a gestão no Federal
Reserve de Alan Greenspan.
Não é demais, a propósito, incluir a irrespondível
observação do Prêmio Nobel Paul Krugman,
quanto à urgente necessidade de ultimar-se a regulamentação da Lei Dodd-Frank: mesmo hábeis banqueiros
devem ser limitados nas espécies de risco que podem assumir.
O Tea Party
detona outro moderado no GOP
Talvez
nenhum outro Senador republicano possa exibir
currículo como Richard G. Lugar. Senador pelo estado de Indiana desde 1976, com seis
mandatos, ele é o republicano mais antigo no Comitê de Relações Exteriores,
tendo-lhe ocupado a presidência nos períodos de maioria republicana. É
assinalado o seu empenho, junto com Sam
Nunn, então Senador democrata pela
Georgia, em preparar nos anos noventa
programa de desarmamento para a antiga União Soviética.
Dentro do espírito sectário e faccioso
que ora preside às relações entre republicanos e democratas, o Tea Party o incluíu entre seus alvos
preferidos. A sua tendência de cooperar com os democratas, consoante o espírito
de bipartidismo a que estava acostumado, se tornou objeto de ataques
constantes. A campanha chegou a tal ponto que Lugar teve de assumir posições da
direita, na tentativa de contornar a ameaça a sua reeleição.
Em vão. O seu rival Richard Mourdock, um típico espécime desse movimento reacionário de
ultra-direita, entre outras pérolas,
declarou: ‘o bipartidismo levou o país para a beira do abismo da
bancarrota’ e ‘a presente situação da nação exige um tempo de confrontação e
não de companheirismo’.
Fiado no bom senso dos eleitores, o
Partido Democrata vê uma boa oportunidade de conquistar cadeira no Senado, o
que seria praticamente impossível contra o respeitado octogenário representante de Indiana. Nesse
sentido, o candidato democrata,o Representante Joe Donnelly semelha dispor de melhores chances junto a
independentes e republicanos moderados, na sua disputa com Mr. Mourdock.
Não será a primeira vez que uma campanha
milionária dos financiadores do Tea
Party, depois de lograr derrubar o republicano moderado objeto de seu ódio,
colhe na primeira terça-feira de novembro a sua cruel paga, no caso por haver
aberto as portas do Capitólio para alguém ainda pior segundo a sua mui especial
visão política...
A guerra do
Sudão do Norte e o Sudão do Sul
O Sudão
do Presidente general Omar Hassan al-Bashir,
cuja prisão foi disposta pelo Tribunal Penal Internacional, tem a proteção da
China Comunista. Beijing cultiva
estranhos amigos, e neste caso o motivo é o petróleo, de que a RPC carece muito.
É muito pouco provável que Omar Bashir –
momentâneo companheiro de mesa, na Arábia Saudita, de Nosso Guia – venha a ser em breve prazo preso e conduzido à Haia,
para responder sobre as atrocidades em Darfur.
Eis que, logo após a formação sob o
patrocínio das Nações Unidas do Sudão Sul, esse país paupérrimo se acredita ver
na estranha contingência de empenhar-se em nova guerra contra Cartum. Depois da
longa campanha pela independência, o presidente Salva Kiir, em sua capital Juba, procura organizar as suas forças
para enfrentar o inimigo do Norte.
Os motivos do conflito seriam a demarcação
das fronteiras – a linha divisória se estende por mil e seiscentos quilômetros
– e a partilha dos rendimentos dos poços petrolíferos.
Existem nas relações internacionais, máxime
em áreas afastadas e de relativa pouca visibilidade política, os chamados
conflitos de baixa intensidade. Em outras palavras, dissídios que se permite
fazerem atos de sinistra presença pela circunstância de não afetarem grandes
concentrações demográficas ou por incomodarem regiões restritas, de acesso
difícil.
Para esse tipo de gente, a vida humana
parece ter diferentes valores.
Tudo isso é por certo inaceitável.
Surpreende deveras que o Conselho de Segurança – que afinal foi criado em Lake Success, ao fim da Segunda Guerra
Mundial, teoricamente para evitar a superveniência de tais problemas – não
adote medidas para impedir o absurdo conflito. Qual o sentido desse desperdício
e o decorrente morticínio de uma guerra do Sudão do Norte, que tem todos os
títulos para reivindicar status de
Quarto Mundo, e do Sudão do Sul, por certo mais pobre, e que ainda carece de
organizar-se como estado ?
O condomínio do petróleo – em área
limítrofe que tem tudo para justificar uma equa partilha, supervisionada pela ONU – representaria missão mais digna e
apropriada do que a possível destruição pelo Sudão do Norte, mais equipado
militarmente, das hordas tribais do Sudão do Sul, e de seus povoados.
O Sudão, e em particular o do Sul, já
padeceu demasiado para que se tolere mais esta guerra inútil e criminosa. Não é
caso de negligência benigna ou maligna. Cabe força das Nações Unidas que esteja
acima das partes, e não conivente com nenhuma delas, para criar as condições do
pacífico condominio e a eventual delimitação da fronteira em áreas não-petrolíferas.
O controle do
Congresso.
Não há dúvida sobre a importância do
confronto vindouro entre os Partidos Democrata e Republicano. Segundo Albert R. Hunt seria exagero
considerá-la como a eleição mais relevante de todas. Basta pensar nas de 1860,
em que Abraham Lincoln foi eleito, e
de 1932, na qual Franklin Delano
Roosevelt iniciaria o longo domínio democrata do poder, derrotando o
malogrado presidente Herbert Hoover.
A eleição presidencial entre o incumbent (presidente em função) Barack Obama e o seu provável adversário
Mitt Romney se anuncia uma disputa
difícil, que será decidida pelo voto eleitoral não com a facilidade de 2008,
mas por um grupo de estados (os swing
states), com resultados de difícil previsão.
Na composição do Congresso, o desempenho
dos dois candidatos à Casa Branca e, em especial, do presidente Obama terá
inegável influência para a composição e eventual maioria das respectivas Casas.
Diante da recuperação de Obama, saído da
tunda (shellacking) em que os democratas
perderam a maioria na Câmara de Representantes, os deputados e senadores
democratas passaram a mostrar mais disposição de associar-se a viagens e
visitas do Presidente no seu estado e respectivo distrito.
No momento, as previsões apontam para uma
decisão muito apertada para a Câmara, embora o desgaste do Tea Party na Casa de Representantes seja inegável, repercutindo
sobre o GOP. O Senado, em que
atualmente os democratas têm vantagem de 53 a 47, as possibilidades de acirrada
porfia, com estreita margem para um lado ou outro são também grandes. No
entanto, a indicação de Mourdock, do Tea Party,
como candidato republicano ao Senado por Indiana (V. acima) joga em favor do Partido Democrata, eis que Joe Donnely tem agora reais chances de
vencer, o que não ocorreria se o senador Richard
Lugar tivesse prevalecido na primária.
Se o Presidente Obama, malgrado os erros do
primeiro biênio, lograr a reeleição, e se o Congresso obtiver maioria
democrata, isto pode ser determinante para o reforço do partido. Com sorte, o
presidente poderá afinal apontar mais um liberal para a Suprema Corte,
conseguindo reverter o predomínio da direita, que tem chegado a sentenças tão
danosas para a democracia estadunidense, como a ilegal ‘eleição’ do minoritário
George Bush em 2000 pela famigerada Bush
v. Gore, e a Citizens United, uma
liberação total em termos de financiamento de campanha eleitoral, que
marcou grave retrocesso na lisura do
processo eletivo.
O Apoio de Obama
ao casamento gay
A posição
presidencial, em tópico de tal ressonância, surpreendeu o ambiente político
americano. De caráter pessoal, tomada depois de longa maturação, e quiçá um
pouco atropelada pelo endosso dado à questão pelo vice-presidente Joe Biden, a
decisão presidencial importa em riscos inegáveis, pela maneira ainda
contenciosa com que o casamento gay é
encarado em determinados estados da União Americana.
Como refere o International Herald Tribune, na véspera em que Barack H. Obama desvelou o seu apoio, a
Carolina do Norte – um estado crítico para a candidatura do presidente – votou
por maioria de vinte pontos emenda
constitucional com o banimento do casamento do mesmo sexo. É o trigésimo
primeiro estado a passar emenda desse
teor.
Se as doações de campanha triplicaram logo após
o anúncio, não resta dúvida que a decisão foi única, importante, mas não sem
riscos políticos para o presidente.
O futuro dirá se o apoio presidencial
entrará para as questões controversas do candidato Mitt Romney. O palpite inicial de democratas e republicanos pende
para o não. O virtual candidato do GOP
já tem o prato da economia para alimentar as suas diatribes. Semelha pouco
provável que fale muito sobre casamento gay.
A intrépida
Líder da Oposição Ucraniana
Com uma
dócil justiça à disposição, o Presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich pensou
poder desembaraçar-se da líder da oposição, Yulia
Timoshenko. Pela corajosa reação
desta mulher, as coisas não lhe saíram da forma antecipada. Vladimir Putin na Rússia utiliza esse
‘modelo’ para pessoas como o mega-empresário Mikhail Khodovorsky (com condenação até 2017). Sem entrar em juízos éticos
e morais, que não semelham afetar a esses déspotas, o principal erro de
Yanukovich tem a ver com deficiente avaliação política. Não é crível que o seu
‘modelo’ Putin tivesse ousado investir contra personagem da estatura da
Timoshenko.
Levado pela hubris, Yanukovich julgou possível desfazer-se da adversária
política pela instrumentalização do aparelho de justiça. A par de considerações
morais, faltou-lhe sensibilidade para dar-se conta do que teria pela frente.
Chocados pela sua maneira brutal de lidar
com a ex-Primeiro Ministro e chefe da oposição, os líderes europeus, com Ângela Merkel à frente, não pretendem
engalanar-lhe o palanque, enquanto mantém no cárcere a sua antagonista nas
últimas eleições presidenciais.
Através da greve de fome e de exigência de um tratamento médico digno de
tal nome, Yulia Timoshenko logrou
expor a gravidade da própria condição. Contou igualmente para tanto com o
denodo da filha Yevgenia.
É de esperar-se que o boicote da liderança
européia aos eventos ucranianos force Yanukovitch a ceder, pondo um termo ao
esquálido tratamento com que pensava transpor para a Ucrania o sinistro modelo
da Bielo-Rússia, do presidente Alexandre
Lukashenko.
Yanukovich deveria
conscientizar-se do erro cometido (dez presidentes europeus boicotaram a
reunião de cúpula sediada em Kiev). Até o momento não tem ele mostrado tal
inclinação, ao afirmar que a Ucrânia não se deixará humilhar por boicote a
Eurocopa 2012. Tal interpretação seria confundir alhos com bugalhos.
Dificilmente as seleções europeias faltarão a um certamen importante, ao qual
chegaram depois de passar por séries classificatórias.
A persistência no erro, no entanto, só
tenderá a tornar-lhe as consequências mais pesadas.
No hospital de Kharkov, onde logrou ser
internada, Yulia Timoshenko, que padece de problemas na coluna, recebeu a onze
do corrente a visita da Presidente da Lituânia, Dália Grybauskeite.
São gestos de relevo, que sublinham a
densidade da rejeição política à torpe perseguição judiciária, encomendada por
Yanukovich. Antes que seja demasiado tarde, está no seu interesse restabelecer
a normalidade democrática na Ucrânia.
( Fonte: International Herald Tribune )