segunda-feira, 21 de maio de 2012

Notícias do Front (20)

                                      
Desanda a CPI do Cachoeira

      Certeira a avaliação de Merval Pereira, em sua coluna de ontem n’O Globo: ‘O flagrante da mensagem do deputado petista Cândido Vaccarezza garantindo imunidade ao governador do Rio, Sérgio Cabral, é mais uma confirmação de que essa CPI do Cachoeira está se revelando o maior erro dos últimos tempos do grupo político que está no poder’.
     Os seus mentores – o ex-presidente Lula e José Dirceu -, sôfregos na busca de seus objetivos, tiveram a sorte de os que se aventuram a pescar em águas turvas. Espanta que políticos tão calejados tenham avançado nesse terreno, dados os notórios efeitos provocados por tal exercício para o governo em funções, no caso o da correligionária  Presidente Dilma Rousseff.
    O DEM já estava acuado pelas revelações acerca do Senador Demóstenes Torres. O problema é que a investida contra o governador de Goiás – e desafeto de Lula – fatalmente arrastaria o do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, e o próprio Sérgio Cabral, do Estado do Rio, exposto pelo blog do Garotinho.
    Ao blindar os três governadores, o acordo entre oposição e governo, se torna mais do que óbvio. A cereja do bolo é a não-convocação de Fernando Cavendish.
    A nave está igualmente fazendo água no intento de desestabilizar o promotor do mensalão, o Procurador-Geral Roberto Gurgel, assim como na ofensiva contra a revista Veja, com o escopo, quem sabe, de favorecer legislação de controle da mídia. Sem falar nos esforços de atrasar o julgamento deste ‘processo do século’, que também deu chabu, ao levar o revisor, Ministro Ricardo Lewandowski a anunciar que pretende apresentar seu voto ainda neste primeiro semestre.
    Talvez as coisas tenham saído ao revés, porque os idealizadores da CPI se deixaram conduzir pelo corcel da paixão e, ao destapar o frasco, não avaliaram com o peso e atenção devidos  os demais espíritos que o seu desejo de vingança fatalmente liberaria.
 

Beijing passa a outrem a conta de Chen Guangchen


    A foto de risonho Chen e de sua mulher, Yuan Weijing, reflete o alívio da tensão exitosamente atravessada e vencida. No entanto, a causa do problema de certa forma persiste, eis que o aparelho repressivo da ditadura chinesa se lança contra a rede de parentes e amigos do dissidente.
    Chen voou para os Estados Unidos, logrando levar o núcleo familiar. Para o PCC chegou a hora, no entanto, de punir os  que o tinham ajudado na empresa de desvendar a ilegalidade de um cárcere que constrangia sua pequena família.
    Se a liderança do Partido Comunista Chinês teve de engolir o trago amargo de sua fuga, as mesquinhas retaliações distribuídas àqueles que tinham tornado a façanha possível valem sobretudo como espécie de política de deterrência contra novos episódios do gênero.
      Um pássaro logrou fugir do ninho. Mas as regras vigentes na gaiola do Império do Meio não mudaram. E para que não subsistam dúvidas, os carcereiros-mor tratarão de infernizar a existência de muitos, na ilusão de os dissuadir de novas empresas.
     Não sabem eles, coitados, que a liberdade, chama que pode até queimar quem obedece suas pulsões, ressurgirá sempre, gloriosa na sua subversiva promessa.



O  Atraso no flagelo do Amianto


     Esta fibra, muito utilizada no passado, no fabrico de telhas e de caixas, e de outros materiais, somente agora tem o seu caráter de real ameaça cancerígena plenamente desvelado no Brasil.
    Desde muito, o amianto deixara de ser utilizado no Ocidente, pela comprovada toxicidade de suas fibras que, uma vez desprendidas, podem ser inspiradas pelo aparelho respiratório, com a sua localização nos pulmões dos infelizes.
    Às altas indenizações decretadas pela Justiça, decerto as pobres vítimas prefeririam dispensá-las em troca da saúde. Nesses termos, a decisão do Supremo Tribunal Federal que venha por fim banir o amianto não deve tardar, por mais que ela se tenha feito esperar pelo longo período de exposição causado pela ignorância do convívio com esse grave perigo.
 


(Fonte:  O  Globo)

domingo, 20 de maio de 2012

Colcha de Retalhos CXIII


                  
Chen Guangchen nos Estados Unidos


       O dissidente cego Chen Guangchen, acompanhado de sua esposa e dos dois filhos, chegou afinal aos Estados Unidos. Após a sua estada na Embaixada americana em Beijing, quando da visita oficial da Secretária de Estado Hillary Clinton, Chen ficara em hospital chinês (para tratar-se de fratura no pé, ocasionada por sua rocambolesca fuga de sua casa na província, na qual tinha sido  mantido, após cumprir  pena de quatro anos, sob ilegal prisão domiciliar).
      A crise fora contornada ao transformar-se Chen de asilado político em candidato a  bolsa de estudos nos Estados Unidos. O advogado autodidata obteve a bolsa de estudos na New York University.
      Durante a viagem o contato de Chen com a imprensa foi restrito ao mínimo,tendo sido entrevistado por um único jornalista. Tampouco teve contato com a mídia e o público, ao chegar ao aeroporto de Newark, no estado de New Jersey.
     Como na canção sem lenço e sem documento, Chen receberu o passaporte já durante o voo para os Estados Unidos. A delicadeza da transferência se refletiu na determinação do State Department de que não tivesse ele contato com a imprensa (nem com público) ao chegar.
     Somente na New York University o sorridente Chen pôde ser visto e dar as usuais declarações.
    Começa agora talvez a parte mais difícil da estada nova-iorquina. De celebridade Chen passará a um bolsista chinês, no que não se diferencia de centenas de milhares de compatriotas seus.
    A par da incerteza quanto à possibilidade de retorno à pátria – teoricamente seria rotineira, mas quem há de dizer que a sua vinda se assemelhe às viagens dos demais estudantes chineses ? Além de ser mantido à parte com a família no vôo da companhia americana, o acompanharam no deslocamento diplomatas americanos, destacados para tanto por falarem mandarim. Por ora, Chen é monoglota.  

        

Mais uma do Ministro Pimentel


      O Ministro Fernando Pimentel (PT), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), segundo noticia a imprensa, usou avião fretado pelo empresário João Dória Júnior para viajar em outubro do ano passado da Bulgária para a Itália. Pimentel fazia parte da comitiva da Presidente Dilma Rousseff, então em viagem de cunho sentimental à Bulgária, terra natal de seu pai.
     O deslocamento para a Itália permitiu a Pimentel  reunir-se com empresários, em evento organizado por  Dória. A carona foi omitida em documento oficial – segundo o qual o trajeto de Sófia a Roma foi feito em ‘veículo oficial’ e não em avião privado.
     É de recordar-se que o Ministro Pimentel teve tratamento diferenciado quando da revelação de suas ‘consultorias’. Ao contrário do Ministro Palocci não foi obrigado a exonerar-se, permanecendo no cargo por expressa vontade da Presidente Dilma Rousseff, de quem é amigo pessoal.  
 

A enésima Reforma ortográfica


     O leitor decerto se recordará da última reforma ortográfica que nos foi presenteada pelos alegres membros da Academia Brasileira de Letras. Já faz tempo que milhares de publicações tiveram de conformar-se à nova ortografia. Apesar em pífias alterações, a ‘reforma’, aprovada ainda sob o governo de Luiz Antonio Lula da Silva, implicou na forçada substituição de muitos livros, tornados artificialmente defasados pelas novas regras acordadas, segundo foi amplamente divulgado pelas instâncias competentes para atender a reforma também aplicável em Portugal.
    O que a grande e ignara maioria do público brasileiro desconhece é um pequeno detalhe desta imprescindível reforma, feita para que o português de Portugal, e o português do Brasil fossem grafados de forma idêntica.
    Tenho para mim que as repetidas reformas ortográficas a que nós brasileiros somos submetidos – e nesses últimos cinquenta anos foram pelo menos três – são um sinal de subdesenvolvimento. O que era certo no ano passado, se torna um erro ortográfico para os acadêmicos.Enquanto isso, países mais atrasados – v.g., Estados Unidos, Reino Unido, França – atravessam séculos sem dar-se ao cuidado, julgado pelos nossos imortais indispensável, de modificar a grafia.
    Pois não é que, como alunos obedientes instauramos as novas (e inúteis) regras ortográficas  em Pindorama, mas Portugal, que seria a razão primacial das tais mudanças, prefere manter a sua grafia específica, que reflete a realidade falada em Portugal.
    A presente reforma – no papel decidida pelas autoridades governamentais, mas na prática feita pela mesa diretora da ABL de então (reporto-me aos que viajaram por conta das mofinas alterações) – constituirá acaso uma lição futura de como não se deva proceder em exercícios de tal gênero ? A par da inutilidade das modificações, o Brasil se vê impingido a seguir nova ortografia, supostamente para adequar-se ao exemplo da antiga metrópole.
     Esse exercício, além de multiplicar inúteis despesas para renovação de compêndios, constitui a prova irrefutável de uma adequação de índole colonialista, que em fim de contas gorou.
     E não se deve nem censurar o menor conhecimento do então Presidente Lula ao assentir a tais estultos projetos. Antecessores seus, com maior convivência livresca, se prestaram a outros exercícios igualmente desnecessários.
     Será que para alguma coisa há de servir este vexame ortográfico ? Somos acusados de macaquear estrangeirismos. Com isto, inovamos. Porque o governo se submete a um projeto de imitação, que acaba por não acontecer...

   

( Fontes: CNN, O Globo, Folha de S. Paulo )    

sábado, 19 de maio de 2012

Recado do Grego Tsipras


                                
     O líder Alexis Tsipras , da coalizão Syriza,  segunda colocada na recente eleição grega, mandou um aviso para o diretório da União Europeia.
    Diante de declarações da Chanceler Angela Merkel, de que a Grécia deveria obedecer o combinado, ou então sair da Zona do Euro, Tsipras respondeu o que implicaria, no seu entendimento,  a saída de República Helênica da Zona do Euro.
    Em resumo, o recado de Tsipras é o seguinte: permitir que a Grécia saia significaria o fim da moeda única.  No seu entender, o problema grego é europeu. Nesse sentido, admitir que a Grécia dê o calote, ou abandone a zona do Euro, arrastaria também outros países, inclusive Espanha e Itália.
    Nas palavras do líder da Syriza: “Nosso escopo não é chantagear ou fazer terrorismo, nosso escopo é sacudi-los. Queremos convencê-los. Eles precisam mudar as políticas para a Grécia e mudar as políticas para a Europa, pois do contrário a Europa estará diante de um risco muito grande.”
     Alexis Tsipras insistiu que deseja que a Grécia continue no Euro – embora não sob as onerosas condições do atual acordo de salvamento (bailout). Tsipras reiterou que pretende honrar os compromissos assumidos de repudiar as condições que obrigaram os cidadãos gregos a pagar pelas loucuras dos imorais (sic) mercados financeiros.
     Talvez Tsipras não seja o radical que lance ultimatuns para a U.E., mas um frio estrategista que deseja testar a determinação dos líderes europeus, com Angela Merkel à frente. No passado, a Alemanha e outros países europeus consentiram em manobras de última hora para manter a Grécia na Zona do Euro, por força dos temores de que a abrupta saída implicaria em custo demasiado alto, acarretando  quebras de bancos e até a desestabilização do sistema financeiro internacional.
      A posição da Chanceler Angela Merkel sofreu nos últimos dias golpes que, se não são de extrema gravidade, tendem a enfraquecer-lhe as defesas. Merkel perdeu o seu fiel escudeiro – ou membro júnior da diarquia europeia,  Nicolas Sarkozy – derrotado na sua tentativa de reeleição. François Hollande, malgrado demonstrações de apreço (como visitar a Merkel no dia de sua posse o que não é testemunho dos menores) tem visão qualificada quanto à colimada austeridade preconizada pela Merkel.
     Esse relativo dissenso introduz  incógnita em realidade anteriormente  sólida. A falta de integral sintonia entre os dois principais países da U.E. implica disparidades nas visões dos novos ministros franceses, conforme já verificado. Por enquanto, observam-se algumas discrepâncias no que antes era marcha cadenciada.
     Por outro lado, o Primeiro Ministro David Cameron – o Reino Unido, como se sabe, preferiu não abandonar a libra esterlina – em palavras, sem dúvida discutíveis sob o aspecto ético, expressou sérias dúvidas sobre a sobrevivência do euro.
     Como se vê, o mar está encapelado para o Euro. Na principal economia europeia – que como forma de compromisso europeista deixara o Deutsche Mark para abraçar o euro – está a mais importante defesa (e por conseguinte enfrenta o maior desafio) para a sobrevida da moeda única dos dezessete países que conformam essa Zona monetária.
     Será crise de múltiplas consequências. De seu resultado depende não só a pequena economia helênica, senão um conjunto de gigantes, como o sistema da zona do euro, a posição da República Federal, consoante afirmada pela Chanceler Angela Merkel.
    Por isso, o repto de Alexis Tsipras merece  ser levado a sério.



( Fonte:  International Herald Tribune)         

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A CPI na Encruzilhada


                                   
       Essa multitudinária situação representada pela chamada base de apoio é  fenômeno político marcado sobretudo pelo fisiologismo e o oportunismo. É uma aliança de conveniência, em que direita, centro e esquerda se misturam sem outra motivação que a cercania da bolsa do Governo.
       Costurada por Lula da Silva, para dar arrimo na bolsa de bondades do Erário ( tempo na dita propaganda política eleitoral) e, em consequência, colocar no Palácio do Planalto, como sucessora a sua criatura. O matiz ideológico da base se perde no furta-cor da mixórdia política, em que direita e esquerda se dão alegremente as mãos em frágil conjunção de conveniências.
     O caráter superficial desta associação – em que prevalece o interesse fisiológico – só tende a gerar comportamentos grupais ou tribais, que passam muito longe de apoio coerente a programas sérios da administração.
    O quadro é contristador.  Dada a sua superficialidade, se deveria ter mais prudência em enaltecer epifenômenos de grandes avanços democráticos, como no espetáculo palaciano da entronização da Comissão da Verdade.
    Deixemos, no entanto,  sua avaliação em suspenso, desejando que logre superar as teias e entraves que lhe foram apostas.
   A atual Comissão de Inquérito Parlamentar Mista (CPMI), mal iniciada, já dá turbadoras mostras de possível colusão política. Aparentando privilegiar a quantidade de suas convocações ao invés da própria qualidade, ela não aprofunda as denúncias, nem dá a impressão de seguir a norma do doa a quem doer de um punhado de bem-sucedidas antecessoras.
    Veja-se, v.g., a última pirueta de aprovar a convocação de 51 pessoas. Nessa profusa lista, será debalde a procura dos três governadores implicados nas escutas telefônicas das operações da Polícia Federal. O jovem relator da Comissão,  deputado Odair Cunha (PT-MG) nega acordo para blindar governadores (Marconi Perillo (PSDB-GO), Agnelo Queiroz (PT-DF) e Sergio Cabral (PMDB-RJ): “Chamá-los agora, sem indícios suficientes, é fazer da CPI palco para se defenderem.”
     De vários cantos do Congresso se ouviram declarações que negavam tal conluio. E à medida em que se repetiam, as assertivas confirmavam ainda mais a impressão contrária, como se devessem ser lidas ao revés.
     Muitos terão ainda presente o vídeo de Maurício Marinho aceitando displicente proprina de três mil reais. A visualidade da corrupção levaria à CPI dos Correios e, em seguida, às revelações de Roberto Jefferson e do Mensalão. Esta força inercial ainda não se viu no episódio presente, malgrado o desconforto proporcionado pelas fotos do blog do Garotinho, com Fernando Cavendish e os alegres compadres do Governador Sérgio Cabral na sua querida e tão visitada Paris.
      Os tempos seriam outros, ou as defesas ficaram mais bem-azeitadas ? É o que se verá no futuro.
      A alternativa semelha óbvia: para gáudio de um grupelho, a CPMI  transformar-se na pizza de tantas outras comissões, no modelo Orestes Quercia; ou, para assombro dos céticos, as hábeis costuras se rompem e a verdade, com todas as suas vergonhas, vem à luz.
       Ainda não sabemos o filme que nos reserva a tela do Parlamento. E, entrementes, a esperança,  aquela que morre por último, teima em aferrar-se a promessas de políticos...



( Fonte: O Globo )             

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Enfim a Comissão da Verdade

           
                             
       Quis o destino que a Comissão da Verdade fosse instalada em sessão solene por Presidente que se empenhou na luta revolucionária e que foi presa, torturada e condenada pelas instâncias da repressão. Naquela época, o Estado tinha outra fisionomia e outros princípios.
      Afirmou-se de forma inconfundível a emoção da autoridade que presidiu à cerimônia, e que se fez ladear de quatro ex-presidentes constitucionais (Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, José Sarney e Fernando Collor).
       Porque fundada em sofrida convicção, a motivação transcende não só as características das encenações de palácio, senão as limitações da Comissão, que são direta decorrência das relações entre o estamento político constitucional e as Forças Armadas.
       A verdade da Comissão é produto de laborioso processo, em que a liderança política civil acedeu em negociar com as instituições militares as condições de como se operaria essa passagem em revista do chamado período revolucionário.
       Se foi preservado o essencial – vale dizer, a existência da Comissão – houve demasiadas condições (os vetos sobre quem não poderia integrá-la, o prazo de dois anos, pouca autonomia orçamentária e – talvez a capitis diminutio mais gravosa -poder apenas de convidar e não convocar) que repontaram pela fraqueza da parte civil.
       De concessão em concessão – inclusive o patético simulacro de enfeitar  o vintênio da ditadura militar com franjas de períodos constitucionais – resta no entanto a estrutura de uma vontade.
      A comissão não se deve perder em falsas equipolências, pondo no mesmo nível torturadores e guerrilheiros. Um dos membros da Comissão verberou de modo apropriado essa contraposição (bobajadas), o que implicaria em colocar no mesmo saco, vivos e mortos, algozes e vítimas.
      O futuro dirá se o contributo da Comissão se encaixará no espírito do discurso da Presidente, em que emoção e conhecimento de causa se dão as mãos. Por vezes, as comissões transcendem os vícios de origem, pelos quais não podem ser responsabilizadas.
      A práxis política brasileira não se assemelha à platina, por exemplo. Nesta terra, há poucos políticos como Epitácio Pessoa. Dilma Rousseff, quem sabe, será um destes, e  surpresas podem vir da própria Comissão.
      É uma tarefa difícil sem dúvida, e a fortiori porque os cerceamentos tendem a dificultar-lhe a progressão.
      Como o futuro a Deus pertence, não estamos impedidos de desejar-lhe, nas palavras de Dilma, que realmente haja chegado o tempo de mostrar a verdade e de tirar as consequências, trazendo a luz, ao invés das sombras da tirania e do medo.  Que tal conscientização sirva para reforçar a democracia,  expressão do poder civil,forjado nas urnas do Povo soberano, em que a Lei é o traço de união de todos os cidadãos, sem distinções de privilégio ou corporação.  



(Fonte: O Globo)     

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Negligência Benigna ?

                             
        A brutal diferença entre discurso e práxis nas instâncias governamentais no Brasil é um fenômeno que vem de longe. Nesse contexto, a confiança na lei não poderia ser lida como manifestação de realidade acessível a todos os cidadãos.
        Desde os tempos das ordenações filipinas que existe esta distinção implícita na aplicação (e serventia) da norma jurídica. O fato de que ela tenha sido sancionada e promulgada  não implica necessariamente que a sua aplicação e implementação seja integral. 
       Haveria, assim, no Brasil uma esdrúxula diferenciação quanto aos efeitos práticos de uma lei determinada. A sabedoria popular tem  explicação que, se não aprofunda as razões dessa situação, pelo menos expõe uma realidade: em nossa terra há leis que pegam e outras que não pegam.
       Tal fato sociológico admite inclusive uma variação que, se em nada altera a não-aplicação da norma, acrescenta-lhe uma firula no fazer crer: são as determinações para inglês ver.
      Esta elaboração suplementar serve decerto para enfatizar quão arraigado está o costume em tela, que chega a admitir sofisticações desse gênero quanto aos graus de inutilidade da norma.
      Dadas as suas características, o fenômeno pode ser federal, estadual ou municipal. O que está ocorrendo no centro do Rio de Janeiro terá acaso a ver com essas leis que, na prática, não saem do papel ?
     Formalmente, não. Ao tombar  sobrados da área central do Rio de Janeiro, as iniciativas do Patrimônio Histórico traduzem a vontade de preservação das construções, por considerações várias de caráter artístico, arquitetônico e cultural. O tombamento, no entanto, é uma condição com vistas a eventuais providências que serão presumivelmente tomadas pelos proprietários dos imóveis. A declaração implica que qualquer reforma deverá ser feita sob a fiscalização do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
    É aí que a porca começa a torcer o rabo. Esses belos espécimes de uma passada arquitetura são, muita vez, construções descuradas, que sofrem as consequências da a nova realidade econômica, i.e., a decadência dos centros citadinos.
    Por isso, as coisas principiam a complicar-se, pela diferença nas posses  dos atuais proprietários em relação aos prósperos negociantes do Império e da Primeira República, o que se reflete na sua capacidade de proceder ou não às imprescindíveis reformas tanto no aspecto estético do imóvel, quanto e sobretudo na sua estrutura, haja vista a crescente e inevitável deterioração material.
    Caminhar pelo centro do Rio pode ser  lição prática do quanto esses tombamentos constituem apenas uma faceta de complexo problema urbano.
    O abandono dos sobrados e antigas construções no centro do Rio de Janeiro dá decerto matéria para ótimas reportagens. A questão se complica se enveredarmos nas perguntas. Abandono por quem ? Legalmente os seus atuais proprietários ou inquilinos, no caso de realizarem ‘reforminhas’ que afetam a estrutura do imóvel.
     Em termos de política urbana, qual é a posição da Prefeitura? Há interesse na preservação do conjunto de construções ? Se a resposta é afirmativa, que medidas estão contempladas ?
       O tombamento é, sem dúvida, importante. Indica-se o que merece ser preservado. Se, no entanto, os inquilinos ou os proprietários não têm condições econômicas de providenciar as indispensáveis reformas, e se a prefeitura só se limita a alertar para o risco existente, sem querer ou poder assumir posição pró-ativa no capítulo, a questão tende a assumir outras cores, e terá mais a ver com a sociologia do que com políticas urbanas dignas desse nome.




( Fonte:  O  Globo )   

terça-feira, 15 de maio de 2012

Rescaldo da Semana

                                   
Dimon e os dois bilhões de dólares

       A princípio, o Presidente do J.P. Morgan-Chase, Jamie Dimon tentara negar que algo estivesse errado com o balanço do banco.Dimon aceitou responsabilidade pela resposta inicial do Morgan: ‘Ficamos defensivos demais’.
      A perda se originou da sucursal londrina do banco. Teria feito aposta errada em derivativos, com a intenção de obter um ‘hedge’ (proteção) contra operações de risco. Foram os mesmos derivativos (credit default swaps) que fizeram tantos estragos na última crise financeira internacional, deflagrada pela falência do Banco Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008.
      Jamie Dimon tinha boa imagem de executivo, sobretudo porque mantivera o Morgan-Chase ao largo da crise.
      No entanto, a peripécia dos dois bilhões de dólares de prejuízo, mesmo para um banco que registrou um lucro em 2011 de 19 bilhões, aplicou irônica lição em Dimon, na sua condição de crítico impiedoso da reforma financeira Dodd-Frank, sancionada pelo Presidente Obama em Julho de 2010. O presidente do Morgan-Chase se queixou repetidas vezes das maiores exigências de capital colocadas pela nova lei, chegando até a considerar as disposições como ‘anti-americanas’.
     Acoimou de contra-produtiva a chamada Regra Volcker. Ora, essa regra proíbe os bancos de entrarem em transações especulativas envolvendo ativos de propriedade do banco. Existe grande possibilidade de que a operação da sucursal de Londres do banco terá sido em montantes que seriam abrangidos pela Regra Volcker.
     Aqui cabe a pergunta. Por que a regra Volcker – e outras normas da lei Dodd-Frank ainda não estão em vigor, quase dois após a assinatura presidencial. Por dois motivos, segundo aduz o articulista Joe Nocera, pela sua complexidade, e pelo fato de a sua regulamentação continuar em exame, o que se deve, em parte, ao intenso lobbying dos bancos, liderados pelo JP Morgan.
      É de esperar-se que esse percalço – e a renovada atenção trazida sobre o problema – venha a empurrar a regulamentação não-aguada da Dodd-Frank, mas de forma a impedir que os bancos ajam como estivessem no pano verde. Não importa apenas admitir – como o fez Jamie Dimon – que o banco caiu em erro terrível, espantoso (egregious). É preciso agora submeter os bancos a regras que os protejam deles próprios. Bem no estilo da Lei de 1933, a famosa Glass-Steagal, que proibia os bancos comerciais de atuarem como bancos de investimento.
      Que esta lei tenha sido revogada é a pecha de Phil Gramm (R-Tx), Robert Rubin e Lawrence Summers, estes dois últimos Secretários do Tesouro na Administração Clinton. Possibilitaria o laissez-faire que caracterizou a gestão no Federal Reserve de Alan Greenspan.
      Não é demais, a propósito, incluir a irrespondível observação do Prêmio Nobel Paul Krugman, quanto à urgente necessidade de ultimar-se a regulamentação da Lei Dodd-Frank: mesmo hábeis banqueiros devem ser limitados nas espécies de risco que podem assumir.



O Tea Party detona outro moderado no GOP    


       Talvez nenhum outro Senador republicano possa exibir  currículo  como Richard G. Lugar. Senador pelo estado de Indiana desde 1976, com seis mandatos, ele é o republicano mais antigo no Comitê de Relações Exteriores, tendo-lhe ocupado a presidência nos períodos de maioria republicana. É assinalado o seu empenho, junto com Sam Nunn, então Senador democrata  pela Georgia, em preparar nos anos noventa  programa de desarmamento para a antiga União Soviética.
       Dentro do espírito sectário e faccioso que ora preside às relações entre republicanos e democratas, o Tea Party o incluíu entre seus alvos preferidos. A sua tendência de cooperar com os democratas, consoante o espírito de bipartidismo a que estava acostumado, se tornou objeto de ataques constantes. A campanha chegou a tal ponto que Lugar teve de assumir posições da direita, na tentativa de contornar a ameaça a sua reeleição.
       Em vão. O seu rival Richard Mourdock, um típico espécime desse movimento reacionário de ultra-direita, entre outras pérolas,  declarou: ‘o bipartidismo levou o país para a beira do abismo da bancarrota’ e ‘a presente situação da nação exige um tempo de confrontação e não de companheirismo’.
      Fiado no bom senso dos eleitores, o Partido Democrata vê uma boa oportunidade de conquistar cadeira no Senado, o que seria praticamente impossível contra o respeitado  octogenário representante de Indiana. Nesse sentido, o candidato democrata,o Representante Joe Donnelly semelha dispor de melhores chances junto a independentes e republicanos moderados, na sua disputa com Mr. Mourdock.
     Não será a primeira vez que uma campanha milionária dos financiadores do Tea Party, depois de lograr derrubar o republicano moderado objeto de seu ódio, colhe na primeira terça-feira de novembro a sua cruel paga, no caso por haver aberto as portas do Capitólio para alguém ainda pior segundo a sua mui especial visão política...
 

A guerra do Sudão do Norte e o Sudão do Sul 


      O Sudão do Presidente general Omar Hassan al-Bashir, cuja prisão foi disposta pelo Tribunal Penal Internacional, tem a proteção da China Comunista. Beijing cultiva estranhos amigos, e neste caso o motivo é o petróleo, de que a RPC carece muito.
     É muito pouco provável que Omar Bashir – momentâneo companheiro de mesa, na Arábia Saudita, de Nosso Guia – venha a ser em breve prazo preso e conduzido à Haia, para responder sobre as atrocidades em Darfur.
      Eis que, logo após a formação sob o patrocínio das Nações Unidas do Sudão Sul, esse país paupérrimo se acredita ver na estranha contingência de empenhar-se em nova guerra contra Cartum. Depois da longa campanha pela independência, o presidente Salva Kiir, em sua capital Juba, procura organizar as suas forças para enfrentar o inimigo do Norte.
    Os motivos do conflito seriam a demarcação das fronteiras – a linha divisória se estende por mil e seiscentos quilômetros – e a partilha dos rendimentos dos poços petrolíferos.
    Existem nas relações internacionais, máxime em áreas afastadas e de relativa pouca visibilidade política, os chamados conflitos de baixa intensidade. Em outras palavras, dissídios que se permite fazerem atos de sinistra presença pela circunstância de não afetarem grandes concentrações demográficas ou por incomodarem regiões restritas, de acesso difícil.
    Para esse tipo de gente, a vida humana parece ter diferentes valores.
    Tudo isso é por certo inaceitável. Surpreende deveras que o Conselho de Segurança – que afinal foi criado em Lake Success, ao fim da Segunda Guerra Mundial, teoricamente para evitar a superveniência de tais problemas – não adote medidas para impedir o absurdo conflito. Qual o sentido desse desperdício e o decorrente morticínio de uma guerra do Sudão do Norte, que tem todos os títulos para reivindicar status de Quarto Mundo, e do Sudão do Sul, por certo mais pobre, e que ainda carece de organizar-se como estado ?
     O condomínio do petróleo – em área limítrofe que tem tudo para justificar uma equa partilha, supervisionada pela ONU – representaria missão mais digna e apropriada do que a possível destruição pelo Sudão do Norte, mais equipado militarmente, das hordas tribais do Sudão do Sul, e de seus povoados.
    O Sudão, e em particular o do Sul, já padeceu demasiado para que se tolere mais esta guerra inútil e criminosa. Não é caso de negligência benigna ou maligna. Cabe força das Nações Unidas que esteja acima das partes, e não conivente com nenhuma delas, para criar as condições do pacífico condominio e a eventual delimitação da fronteira em áreas não-petrolíferas.    



O controle do Congresso.


     Não há dúvida sobre a importância do confronto vindouro entre os Partidos Democrata e Republicano. Segundo Albert R. Hunt seria exagero considerá-la como a eleição mais relevante de todas. Basta pensar nas de 1860, em que Abraham Lincoln foi eleito, e de 1932, na qual Franklin Delano Roosevelt iniciaria o longo domínio democrata do poder, derrotando o malogrado presidente Herbert Hoover.
     A eleição presidencial entre o incumbent (presidente em função) Barack Obama e o seu provável adversário Mitt Romney se anuncia uma disputa difícil, que será decidida pelo voto eleitoral não com a facilidade de 2008, mas por um grupo de estados (os swing states), com resultados de difícil previsão.
    Na composição do Congresso, o desempenho dos dois candidatos à Casa Branca e, em especial, do presidente Obama terá inegável influência para a composição e eventual maioria das respectivas Casas.
    Diante da recuperação de Obama, saído da tunda (shellacking) em que os democratas perderam a maioria na Câmara de Representantes, os deputados e senadores democratas passaram a mostrar mais disposição de associar-se a viagens e visitas do Presidente no seu estado e respectivo distrito.
    No momento, as previsões apontam para uma decisão muito apertada para a Câmara, embora o desgaste do Tea Party na Casa de Representantes seja inegável, repercutindo sobre o GOP. O Senado, em que atualmente os democratas têm vantagem de 53 a 47, as possibilidades de acirrada porfia, com estreita margem para um lado ou outro são também grandes. No entanto, a indicação de Mourdock, do Tea Party, como candidato republicano ao Senado por Indiana (V. acima) joga em favor do Partido Democrata, eis que Joe Donnely tem agora reais chances de vencer, o que não ocorreria se o senador Richard Lugar tivesse prevalecido na primária.
    Se o Presidente Obama, malgrado os erros do primeiro biênio, lograr a reeleição, e se o Congresso obtiver maioria democrata, isto pode ser determinante para o reforço do partido. Com sorte, o presidente poderá afinal apontar mais um liberal para a Suprema Corte, conseguindo reverter o predomínio da direita, que tem chegado a sentenças tão danosas para a democracia estadunidense, como a ilegal ‘eleição’ do minoritário George Bush em 2000 pela famigerada Bush v. Gore, e a Citizens United, uma liberação total em termos de financiamento de campanha eleitoral, que marcou  grave retrocesso na lisura do processo eletivo.      
 


O Apoio de Obama ao casamento gay


    A posição presidencial, em tópico de tal ressonância, surpreendeu o ambiente político americano. De caráter pessoal, tomada depois de longa maturação, e quiçá um pouco atropelada pelo endosso dado à questão pelo vice-presidente Joe Biden, a decisão presidencial importa em riscos inegáveis, pela maneira ainda contenciosa com que o casamento gay é encarado em determinados estados da União Americana.
    Como refere o International Herald Tribune, na véspera em que Barack H. Obama desvelou o seu apoio, a Carolina do Norte – um estado crítico para a candidatura do presidente – votou por maioria de vinte pontos  emenda constitucional com o banimento do casamento do mesmo sexo. É o trigésimo primeiro  estado a passar emenda desse teor.
    Se as doações de campanha triplicaram logo após o anúncio, não resta dúvida que a decisão foi única, importante, mas não sem riscos políticos para o presidente.
   O futuro dirá se o apoio presidencial entrará para as questões controversas do candidato Mitt Romney. O palpite inicial de democratas e republicanos pende para o não. O virtual candidato do GOP já tem o prato da economia para alimentar as suas diatribes. Semelha pouco provável que fale muito sobre casamento gay.


A intrépida Líder da Oposição Ucraniana


    Com uma dócil justiça à disposição, o Presidente da Ucrânia, Viktor  Yanukovich pensou poder desembaraçar-se da líder da oposição, Yulia Timoshenko. Pela corajosa reação  desta mulher, as coisas não lhe saíram da forma antecipada. Vladimir Putin na Rússia utiliza esse ‘modelo’ para pessoas como o mega-empresário Mikhail  Khodovorsky (com condenação até 2017). Sem entrar em juízos éticos e morais, que não semelham afetar a esses déspotas, o principal erro de Yanukovich tem a ver com deficiente avaliação política. Não é crível que o seu ‘modelo’ Putin tivesse ousado investir contra personagem da estatura da Timoshenko. 
    Levado pela hubris, Yanukovich julgou possível desfazer-se da adversária política pela instrumentalização do aparelho de justiça. A par de considerações morais, faltou-lhe sensibilidade para dar-se conta do que teria pela frente.
     Chocados pela sua maneira brutal de lidar com a ex-Primeiro Ministro e chefe da oposição, os líderes europeus, com Ângela Merkel à frente, não pretendem engalanar-lhe o palanque, enquanto mantém no cárcere a sua antagonista nas últimas eleições presidenciais.
     Através da greve de fome e de  exigência de um tratamento médico digno de tal nome, Yulia Timoshenko logrou expor a gravidade da própria condição. Contou igualmente para tanto com o denodo da filha Yevgenia.
    É de esperar-se que o boicote da liderança européia aos eventos ucranianos force Yanukovitch a ceder, pondo um termo ao esquálido tratamento com que pensava transpor para a Ucrania o sinistro modelo da Bielo-Rússia, do presidente Alexandre Lukashenko.   
    Yanukovich deveria conscientizar-se do erro cometido (dez presidentes europeus boicotaram a reunião de cúpula sediada em Kiev). Até o momento não tem ele mostrado tal inclinação, ao afirmar que a Ucrânia não se deixará humilhar por boicote a Eurocopa 2012. Tal interpretação seria confundir alhos com bugalhos. Dificilmente as seleções europeias faltarão a um certamen importante, ao qual chegaram depois de passar por séries classificatórias.
    A persistência no erro, no entanto, só tenderá a tornar-lhe as consequências mais pesadas.
    No hospital de Kharkov, onde logrou ser internada, Yulia Timoshenko, que padece de problemas na coluna, recebeu a onze do corrente a visita da Presidente da Lituânia, Dália Grybauskeite.
    São gestos de relevo, que sublinham a densidade da rejeição política à torpe perseguição judiciária, encomendada por Yanukovich. Antes que seja demasiado tarde, está no seu interesse restabelecer a normalidade democrática na Ucrânia.

 

( Fonte: International Herald Tribune )