quarta-feira, 4 de abril de 2012

CIDADE NUA V

O  Espelho  Mágico  (19)



        Embora se sentisse um tanto desconfortável, preferiu deixar sem resposta o e-mail  de Lúcia. Tampouco atendeu às chamadas pelo celular.
        Não era que fosse um avestruz, a meter a cabeça na areia e fazer de conta que não era com ele. E, no entanto, dentro de si a certeza crescia de que não havia outro jeito. Tinha de matar o caso de modo radical. Não havia lugar para explicações ou enrolações. Ainda que a maneira o fizesse sentir-se um pouco calhorda, achava que não existia outra escolha. Carecia de virar a página e o quanto mais cedo, melhor.

                                                 *      *

         Alberto,


         estou confusa e perplexa. O seu silêncio, não sei a que atribuí-lo. De repente, você começou a não responder a todas as minhas comunicações. Os e-mails, as chamadas pelo celular e até a tentativa de um contato pessoal no seu apartamento. Esta última foi a pior de todas. Prefiro calar acerca do que me pareceu mandar dizer ao porteiro que tinha viajado.
         Por tudo isso, queria pedir-lhe um favor. Se por azar, nos encontrarmos na rua, finja que não me conhece. Não tenha dúvidas que eu farei o mesmo.

                                Lúcia Maria

                                                 *      *

A nomination já é de Romney ?

                    
         Um primeiro exame dos resultados de ontem, levaria à aparente conclusão que Mitt Romney deve ser considerado como o virtual candidato presidencial do GOP. Com efeito, as três primárias de Wisconsin, Maryland e no Distrito de Columbia assinalam a vitória do ex-governador de Massachusetts. Por outro lado, Romney alcança mais da metade do total de 1144 delegados, que é o número necessário para arrebatar na Convenção de Tampa a colimada designação para a candidatura à Casa Branca, na chapa republicana.
        Em função dessa performance, o exultante Mitt Romney escolheu como destinatário de seu discurso o próprio Presidente Barack Obama, julgando-se já em condições de dirigir-se ao respectivo antagonista nos comícios da terça-feira, seis de novembro. Sob o coro dos próceres e maiores do Partido Republicano que, após o sinal dado pelo ex-governador da Flórida, Jeb Bush, acorreram pressurosos para a antecipada aclamação, o moderado Romney semelha considerar, na prática, ultrapassada a fase das primárias, e, por isso, solenemente ignora o seu principal adversário, o ex-Senador Rick Santorum.
        Estará realmente virada a página da luta intrapartidária, como o entoa um coro respeitável, formado não só por tantos dirigentes do GOP – que não desejam perder a oportunidade de agregar-se ao líder da corrida interna e aparente ganhador – senão pela própria mídia, como o demonstram artigos e declarações dos principais correspondentes ?
       Para responder tal pergunta, carecemos de examinar os percentuais obtidos por Romney e Santorum nas três primárias. O ex-Governador de Massachusetts arrebatou todos os dezesseis delegados do Distrito de Colúmbia (Santorum não estava inscrito). Em Maryland , Romney teve 49%, Santorum 29%, Gingrich 11%, e Ron Paul, 10%.
       Por fim, no estado mais importante, Wisconsin, Romney obteve 42%, Santorum 38%, Ron Paul 12% e Gingrich 6%.
      Nas vésperas da votação de ontem, Mitt Romney deixou claro que já se considerava na prática o nominee, galardoado que fora por boa parte da direção do GOP. No seu entender, portanto, toda a disputa intrapartidária não tinha mais sentido, e se deveria passar, o quanto antes, para a fase do candidato virtualmente selecionado, o que reverteria em favor do interesse partidário de não desperdiçar esforços em uma batalha já decidida. O quanto mais cedo se passasse para o combate com o candidato democrata, tanto melhor.
      A tais conselhos, na aparência fundados no bom senso, o ex-Senador Rick Santorum perguntou por que, se estava tão seguro do triunfo, dispendia Romney tantos milhões em propaganda negativa em Wisconsin dirigida contra ele, ex-Senador pela Pennsilvania.   
      Na verdade, Mitt Romney se prevalece de  situação um tanto equívoca. Excetuado o Distrito de Columbia onde não concorreu, os totais de Santorum – destinatário do voto conservador – tem sofrido, de forma sistemática, a sangria dos sufrágios destinados a Newt Gingrich. O ex-Speaker concorre na mesma faixa do ex-Senador pela Pennsilvania. Nas duas primárias de Wisconsin e Maryland, os sufrágios dirigidos a Gingrich foram suficientes para diminuir, de modo sensível, o total de votos de Santorum (como ambos se proclamam conservadores, a divisão das preferências só pode resultar em prejuízo para o candidato que reuna melhores possibilidades, como é o caso de Rick Santorum).
       Assim no Wisconsin, os seis por centos desviados para Gingrich foram o bastante para inviabilizar a vitória de Santorum  no estado, eis que reuniria 44% contra os 42% do moderado Romney. Já em Maryland, a saída de Gingrich não impediria o triunfo de Mitt, mas tornaria a disputa bastante mais apertada: seria Romney 49%  e Rick Santorum 40%.
      Como se verifica, a permanência na campanha de Newt Gingrich, mesmo sem nenhuma possibilidade real de colher a nomination, o tem transformado numa espécie de grande eleitor de Mitt Romney. Cindindo o voto conservador, Gingrich, na realidade, tem assim contribuído de forma determinante para que as vitórias do ex-governador de Massachusetts pareçam muito mais nítidas do que na verdade o são.

     

( Fontes: CNN, International Herald Tribune )

terça-feira, 3 de abril de 2012

CIDADE NUA V

O  Espelho  Mágico  (18)



       E agora José ?

                                                 *      *

        A alternativa era simples. Segundo a mulher lhe dissera, se se visse num espelho, o encanto se desfaria. Será que julgava preferível voltar para a vidinha anterior, os papos no botequim com os seus cupinchas, e esquecer a janela que se abrira ? Porque o esquema tinha um defeito insanável. A sua transformação só valia para a moça enfeitiçada. Para todas as demais pessoas ele aparecia com a idade e o aspecto que tinha. Em outras palavras, um senhor para todos exceto a jovem ou menos jovem que estivesse sob as suas vistas.
        A solução só funcionava para mulheres sozinhas, sem amizades e sem parentes...
        Como foi o caso da Graça, de passagem pelo Rio, mas residente em New York...
        Aquele dom representava, na verdade, receita de solidão a dois. Ora, qualquer pessoa tem um círculo de relações, gente com quem costuma sair, fazer programas...  Assim, como mantê-la em espécie de cristaleira, agindo de forma a evitar qualquer contato, até mesmo ocasional, com quem quer que seja ? Não precisava pensar muito na hipótese, para que logo se convencesse de uma situação inarredável. Se se interessasse por  moça normal, radicada no Rio de Janeiro, a perspectiva de retê-la em relação mais duradoura tendia para zero. Só podia pensar em aventuras, o que tornava a coisa mais do que complicada, cansativa. Será que valeria a pena ?

                                                 *      *

O GOP quer Romney já

                                  
        Pelos artigos de que a mídia americana é a ventriloqua, não se pode negar que o establishment republicano chegou à conclusão de que a atual disputa intrapartidária entre Mitt Romney, o dianteiro no cômputo de delegados (571) e o rival Rick Santorum (que tem  264) só tende a enfraquecer o candidato do partido, e atribuir vantagem ao Presidente Barack H. Obama, que postula a reeleição a seis de novembro de 2012.
       Dada a largada  pelo ex-governador da Flórida, Jeb Bush, não só nas tomadas de posição em favor de Romney, mas também e sobretudo nas pressões ao candidato-rival Rick Santorum para que conceda, no interesse da nação republicana e para o bem de todos que almejam fazer Obama morder o chão da derrota nos comícios de novembro, a sua pré-candidatura em prol do ex-governador de Massachusetts. Tal seria a decisão apropriada e sensata, no juízo de tais próceres. Para eles, já estaria demonstrado pela sucessão de primárias o fato de que Mitt Romney é  o candidato natural a ser ungido na Convenção de Tampa, na Flórida.
       Por outro lado, e sempre de acordo com o consenso dos principais representantes do estamento partidário, seria mais do que hora de evitar a troca de acusações e o conflito intestino no Grand Old Party, o que não consulta ao desígnio da maior parte das autoridades e personalidades representantivas desse partido.
      Se no passado, a pré-candidatura de Mitt Romney reunia um apoio considerável, os resultados das primárias – e a circunstância de que  o ex-governador dispõe de metade dos delegados necessários para a nomination –  tornam a sua posição preponderante e o transformam no natural representante do partido, encimando a chapa para o juízo e escolha do eleitorado em seis de novembro p.f.
     Esse consenso dos notáveis se cristalizou com a vitória de Romney em Illinois, derrotando o contendor Rick Santorum por  vantagem de dois dígitos. Em outras palavras, a inevitabilidade da candidatura de Mitt Romney teria sido reforçada ironicamente no estado que foi a base política de Barack Obama. Nessa linha de raciocínio, a situação de o dianteiro na corrida metamorfosear-se em candidato republicano estaria muito próxima de confirmação, tão inelutável quanto inexorável no dizer de muitos insiders [1]que correm pressurosos para não perderem o band wagon (a imagem do vagão do trem em que antes viajavam os postulantes aos cargos políticos) do governador Mitt Romney. O ponto final dessa contenda interna seria dado pelo estado de Wisconsin nesta terça-feira, três de abril.
     Até o presente, apresentou-se a versão pró-Romney, consoante fraseada pela sua direção de campanha, e pelos representantes do estamento do GOP.      
    O otimismo seja de fachada, seja autêntico dos diretivos da organização montada por Mitt Romney para esta fase pré-Convenção, foi expresso por um assessor : Rick Santorum só poderia ganhar a luta pelos delegados pela ‘vontade de Deus’. A resposta do ex-senador pela Pennsilvania não deixou dúvidas quanto à sua disposição de permanecer na disputa: “Não sei o que você pensa, mas eu acredito na vontade de Deus.”
      As duas principais fraquezas, segundo o catecismo republicano, de Mitt Romney são a sua ‘moderação’ e, como corolário desta, ‘a deficiência de conservadorismo’. Como evidência de tal fragilidade está a sua comprovada incapacidade de vencer primária em um estado sulino, com exceção do Flórida, posto que este estado, por suas muitas idiossincrasias se diferencie do ‘Deep South’ (Sul profundo), onde Romney, malgrado a sua pletora de fundos (e de anúncios na tevê) não logrou vencer em um sequer, sendo derrotado por Santorum e pelo hoje marginal Newt Gingrich  em dois outros (Carolina do Sul e Georgia). Ora, depois que o Sul se bandeou para o partido Republicano (em função da melhoria da situação civil dos afro-americanos, que foi alcançada a partir de Lyndon Johnson), todos os candidatos republicanos que se tornaram presidentes tiveram o apoio dos estados sulistas. Ir para a eleição de novembro com um candidato que não conseguiu vencer até agora em nenhum estado do Deep South representa sinalização negativa, e portanto para Romney um risco  no particular na contagem dos votos indiretos, pela qual o pleito é adjudicado.
      Há outros pontos débeis do atual líder na disputa republicana: alegada falta de caráter conjugada com sua participação em firmas como Bain Capital (especializadas em cortar a gordura das empresas adquiridas, com as consequentes exonerações de empregados). Dentro desse ítem, se deve inserir a sua promoção de reforma de saúde no seu estado de Massachusetts, reforma esta que agora renega na sua oposição ao Obamacare, que reproduz muitos dos principais tópicos da exitosa reforma estadual. Além disso, o seu credo mórmon é um peso negativo, dada a rejeição de muitos eleitores a essa religião adventícia, que preconiza a poligamia.
      No entanto, alguns dos pontos que pesam contra Romney e a favor de Santorum (sobretudo os mais conservadores), tenderiam a favorecer o atual líder republicano nas primárias se porventura fosse designado  candidato oficial. Pois, ao contrário do ultraconservador Rick Santorum, Mitt Romney poderia ambicionar parte do eleitorado independente nos comícios de novembro. E nesse eleitorado estaria a chave da vitória, seja para Obama, seja para o candidato do GOP.  Nesse contexto, a eventual conquista por Rick Santorum da nomination, um evento possível porém improvável, abriria para o presidente Obama a larga fatia do voto independente, afastada de Santorum pela rigidez de seus pontos programáticos.
       É provável que Romney vença no Wisconsin. Este triunfo, no entanto, não deverá implicar na renúncia de Santorum  à competição. Com efeito, ele  espera recuperar em maio a sua trilha de vitórias,  visto que os estados em que se realizarão as primárias têm  perfil mais favorável ao ex-Senador da Pennsilvania.  São quase todos  estados do Sul ou limítrofes, v.g. Carolina do Norte e Virgínia Ocidental (8), Nebraska (15), Arkansas e Kentuky (22) e Texas (29).
       Se para a campanha de Santorum abril será um mês difícil, com derrotas  prováveis em New York, Connecticut, Rhode Island e Delaware, o grande desafio estará  na primária da Pennsilvania.  A sua vantagem no seu estado natal, antes substancial, hoje quase que desapareceu. Se for aí derrotado por Romney, será muito difícil para ele justificar a permanência na liça. Perdendo para o ex-governador de Massachusetts no estado que representou no Senado a sua posição se tornaria similar à atual de Newt Gingrich, cuja obstinação em aferrar-se a um pleito sem esperança – e que só contribui para dividir o voto conservador e, por conseguinte, prejudicar Rick Santorum – cria perplexidade quanto ao real escopo do ex-Speaker da Câmara de Representantes.
         Desde o início da campanha, se sabia que Ron Paul, o libertário, corria em faixa própria, sem outra ambição que inserir um que outro tópico na plataforma da Convenção. Os demais pré-candidatos, quando derrotados irrefragavelmente, não trepidaram em abandonar a arena.  Por isso semelha pertinente perguntar qual é a de Newt Gingrich, que não tem mais o que cortar em matéria de fundos, e, a despeito disso, continua na refrega, a colecionar malogros sucessivos.




( Fonte: International Herald Tribune )



[1] os de dentro

segunda-feira, 2 de abril de 2012

CIDADE NUA V

O  Espelho  Mágico  (17)



         Alberto,

         obrigada por ter concordado. Eu gosto de você. Apreciaria muito, por isso, que a relação comece bem. Acho que concordará comigo.
        Depois de matutar bastante, resolvi ter uma conversa com minha melhor amiga, a Dirce – lembra-se que outro dia falei dela, e o quanto nos entendemos ?
       O papo foi ótimo. Ela ficou impressionada com o que disse a seu respeito. Vai daí que a Dirce me deu ideia que me pareceu muito legal.
        Vamos sair juntos, nós dois e ela com o namorado. É hora de abrir um pouco a relação. Sentia que os nossos programas estavam muito caretas, fechados demais. Tenho certeza que ambos iremos lucrar com esse esquema mais descontraído, na companhia de nossos amigos.
         Desta vez, você conhece a Dirce e o Bernardo. Depois sairemos com outros colegas meus. E acho que vai aderir e me apresentar também aos seus íntimos.
         Responde logo ! Saímos no sábado à noite, primeiro para uma comédia no teatro da Gávea, e, em seguida, vamos à Capricciosa, para uma pizza...   
         Com grande beijo, da tua
                   
                                Lúcia Maria

                                                 *      *      

        Aí ele se lembrou do que lhe dissera há muitos anos atrás um chefe seu : Alberto, só se vai a nocaute por um soco que saíu não se sabe de onde.
        Como alguém embrutecido, ficou olhando para a tela do computador, até que se fechasse por decurso de tempo.

                                                 *      *

Notícias do Front (13)

                                
O Brasil e os assassinatos de jornalistas


        Segundo o Comitê para a Proteção de Jornalistas, 909 jornalistas foram mortos de 1992 até hoje no mundo.  Na lista de países em que se mata esses profissionais da imprensa, o Brasil ocupa o 11º lugar, com 21 mortos. Por sua vez, o Paquistão é o 6º (42 mortos) e a Índia é a 8ª, com 28.
       Ora para surpresa de muitos, numa reunião em Paris da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), a 22 e 23 de março, a  delegação brasileira se aliou a esses dois outros países para impedir a aprovação imediata de plano de ação da ONU, que tem o objetivo de tentar  reduzir o assassínio de jornalistas no mundo, assim como combater a impunidade que costuma acompanhar muitos desses crimes.
      É deveras estranho que o Brasil, sob pretextos procedimentais, se associe  a Paquistão e Índia, com o escopo inconfessável de ganhar tempo no que tange à aprovação da medida. Ao não dar o seu apoio imediato, se posterga a apreciação do plano de ação para 2013. E não é muito difícil determina a quem aproveita esse gênero de procrastinação. Para tanto, a diplomacia brasileira não se afigura em boa companhia.
      Saddam Hussein não gostava de mensageiros, sobretudo aqueles que, por dever de ofício, lhe traziam más notícias. A democracia brasileira deveria prescindir da hipocrisia das supostas protelações para atrasar a aprovação de tais medidas.
     Como todo plano internacional, o seu efeito benéfico só poderá ser indireto, através da maior divulgação, acompanhamento e controle de casos em que os profissionais da imprensa são impedidos de exercer as suas funções, mormente quanto vítimas da violência.
     País não-conflagrado por graves problemas como são o Paquistão (frágil democracia sob a tutela do exército) e a Índia, grande democracia com grandes problemas, o Brasil perdeu boa ocasião de associar-se ao bom combate, pois, em princípio, não é de crer-se  que lhe aproveitem os maus tratos e a eliminação física dos jornalistas.


A Rússia de Vladimir Putin   


     Mikhail Khodorkovsky é um preso do sistema penitenciário russo, onde cumpre a sua segunda condenação judicial – que foi consecutiva à primeira – pela simples razão de haver ousado contrariar ao todo-poderoso presidente Vladimir Putin. Preso desde 2003, a ele não se permitiu que saísse da prisão por decurso de pena. O Kremlin tratou de prorrogar-lhe o status de penitenciário, para tanto empregando os argumentos da força nua do poder, ao servir-se de mais um juiz dócil às suas determinações. Esse ignavo vetor dos mandamentos de gospodin Putin, além de  ter o nome associado à flagrante injustiça, teve apenas, como reprimenda, ouvir em silêncio a objurgatória da mãe de Khodorkovsky, quando o diktat foi lido.
     O International Herald Tribune publicou nesta passada semana ‘Notas de trás da cerca’, escritas pelo prisioneiro Khodorkovsky. Nelas, com visão serena, ele se ocupa de personagens, detentos como ele no vasto arquipélago russo de penitenciárias. Procura compreendê-los mais como vítimas do sistema que algozes da sociedade. O leitor verifica que a têmpera de Mikhail Khodorkovsky não foi quebrada pelo poder autocrático. O antigo mega-empresário da companhia de petróleo Yukos não se deixa amargurar pelos abusos sofridos, nem abaixa a cabeça diante do déspota. Nesse estado de espírito se acharia quem sabe a razão determinante das condenações sucessivas.
     Se a qualidade literária não há de comparar-se, a leitura dessas notas de um penitenciário traz à lembrança o livro de outra vítima ilustre do absolutismo de todas as Rússias. Com efeito, após cumprir pena na Sibéria, Fiodor Dostoievsky escreveu as ‘Recordações da Casa dos Mortos’. Ao descrever as condições da prisão, o escritor russo teve o cuidado de assinalar que os eventuais excessos já tinham sido superados por determinação da clarividente autoridade tzarista. Terá sido nota indispensável decerto para que aquelas memórias passassem indenes pelo crivo dos censores...


Assad e o Plano Annan

     Não são nada favoráveis os primeiros ecos vindos da conflagrada Síria acerca da eficácia do Plano Annan. Há notícias de boa fonte de que os esforços de Kofi Annan de intermediar a paz e encetar transição política foram respondidos por Bashar al-Assad com novos ataques nas províncias de Aleppo e Idlib. Reincide assim o tirano de Damasco no comportamento habitual: com a direita, ele acena com ramo de oliveira, mas com a esquerda cuida de lançar as forças de segurança e o exército contra a oposição.
    Os ‘Amigos da Síria’, no entanto, já se reuniram neste domingo para agilizar o apoio internacional à revolução síria. A Administração Obama e vários países da Liga Árabe já prometeram contribuir num total de cem milhões de dólares, que se destinam a dar soldo ao Exército Livre da Síria, bem como equipamentos de comunicações, o que assistirá os rebeldes sírios a melhor se organizarem e evitar as forças militares do regime.
      Diante do veto russo no Conselho de Segurança, a nova tática dos amigos da revolução síria equivale a uma ‘guerra por procuração’ (proxy war), que se volta não apenas contra o exército de Assad, mas também para os seus aliados, notadamente Rússia e Irã.
       A Secretária de Estado, Hillary Clinton, disse, a propósito: ‘O mundo deve julgar Assad pelo que ele faz, não pelo que ele diz. Não podemos nada fazer e esperar por mais tempo.’
      A anfitriã da reunião foi a Turquia de Recep Erdogan. O Primeiro Ministro turco, após enfatizar que seu país não tinha a intenção de interferir na Síria, mas não podia assistir passivamente enquanto a oposição definhava numa confrontação desequilibrada com o armamento moderno do governo Assad. E acrescentou: ‘Se o Conselho de Segurança hesita, não haverá outra opção senão apoiar o legítimo direito do Povo Sírio de defender a si próprio.’
      Nesta segunda-feira, dois de abril, Kofi Annan deverá informar os quinze membros do Conselho. A esse propósito, a reunião instava o ex-Secretário-Geral a estabelecer um programa de ação (timeline) no que respeita a iniciativas na Síria.
       Nesse contexto, as ações de Bashar al-Assad estão conformes a seu comportamento pregresso, e não ao acordado com Kofi Annan. Continua o bombardeio das vizinhanças  de Homs, em Khalidiyeh e outras áreas da cidade. Há também choques em Damasco e metralhamento pesado na província de Daraa.
      Por outro lado, prosseguem as restrições contra jornalistas. Como sempre, as promessas de Bashar são obviamente encaradas por ele como meios para ganhar tempo, e não como indicativo de que esteja de boa-fé, e disposto a criar condições conducentes à paz.




( Fontes: Folha de S. Paulo, International Herald Tribune )

domingo, 1 de abril de 2012

Colcha de Retalhos CIX

                          
O Porto

       O filme do finlandês Aki Kaurismaki acompanha, nas tomadas iniciais, de um lado, o velho engraxate Marcel Marx, interpretado por André Wilms, e de outro o porto do Havre, com os seus containers. Vemos Marx ao lado do vietnamita Chang (Quoc Dung Nguyen), em calçada movimentada, na silenciosa, quase patética oferta de serviços como engraxate de sapatos, os olhos fixos na monótona travessia de vários tipos de tênis e de sneakers.
       Por fim, um homem que leva um attaché-case preso com algemas ao pulso, pede que lhe engraxe o sapato. Na verdade, está sendo perseguido por gente mal-encarada, e o recurso ao engraxate é apenas  truque vão para livrar-se do bando. A tentativa não funciona e o homem interrompe o serviço de Marx para ser audivelmente liquidado pouco adiante, longe dos olhos da câmera.
      O outro quadro inicial mostra o arrombamento pela polícia de fronteira de um container. A despeito do calor e do ambiente claustrofóbico, poderia haver clandestinos no interior da caixa de aço, não se sabe se vivos ou mortos. As luzes das lanternas desvelam um grupo de gaboneses que expressam no olhar o malogro da própria tentativa de  vida melhor. Sentado à frente, um impassível jovem (Blondin Miguel). Antes que o agarrem o adolescente Idrissa logra escapar pelas estreitas vielas entre os containers. Nesse instante, quando um policial se apresta a alvejar o jovem, é impedido pelo comissário Monet (Jean-Pierre Darroussin).
      A princípio, Marcel Marx parece o  engraxate decadente e envelhecido, mais interessado em fumar o seu cigarro, tomar um conhaque e até afanar a baguette do armazém, como se fosse vigarista em fim de linha. O cenário muda, no entanto, quando entra, com a cachorra Laika,  na sua modesta casa, onde o espera sua mulher Arletty (Kati Outinen) a quem trata carinhosamente. Com  o sanduíche por ela preparado, volta ao cais,  onde vislumbra nos degraus submersos, com  água até a cintura, o fugitivo Idrissa. De propósito,  Marx deixa o sanduíche ao alcance do rapaz, e lhe recomenda que não saia dali, porque a polícia  está à sua procura.
      Colocados os personagens principais, a estória se desenvolve no formato de moderna fábula. Nela, com as dificuldades previsíveis, inclusive as sórdidas denúncias anônimas, a comunidade pobre mas não miserável tece o tapete mágico que poderá levar o jovem gabonês ao encontro de sua mãe, em Londres.
       O papel central, o desempenha Marcel Marx que, fundado no seu espírito de colaboração e companheirismo, é o artífice principal da elaborada tentativa – que dele exige inclusive viagem a Calais, com dispêndio de  parcas economias para localizar o avô do menino, que está detido em centro de deportação.
        Entrementes, a companheira de Marx sente mais forte a dor que lhe dilacera o estômago, e ele tem de interná-la. O médico Dr. Becker (Pierre Etaix) informa Arletty da doença, que supõe incurável. Preocupada com a reação do esposo,  ela pede ao médico omitir do marido a gravidade do estado, a que acede o compassivo clínico.
       Determinado o preço a pagar pela arriscada travessia, Marx pede tempo a Francis (Vincent Lebodo) para tentar levantá-lo. As amigas Claire e Yvette (as donas da épicérie e  do bar da vizinhança) se dispõem a entregar-lhe as respectivas economias, mas Marx recusa, por implicarem em sacrifício muito acima de suas possibilidades.
      Surge então a idéia de se organizar um show do artista Little Bob. Brigado com a namorada, ele se recusa a cantar. Marx não desanima e logra convencer o casal de velhos namorados  a se reencontrarem, com as desculpas exigidas.
      Durante a história, aparece com a imprevisibilidade dos cometas o comissário Monet. Todos temem a sua presença, que supõem nefasta, mas Monet, por entre o linguajar burocrático do policial, vai inserindo disfarçados mas óbvios avisos quanto às inúmeras insídias que cercam o personagem do rapaz Idrissa.
      A fábula avança, sob os olhos cúmplices dos diversos figurantes da trama, sem excluir as intervenções do insistente denunciador, interpretado por Jean-Pierre Léaud, o personagem de Truffaut, hoje transformado em obscena caricatura.
     Se não me disponho a desvelar o fim da travessia – a ser feita em frágil barco de pesqueiros através das procelas humanas e naturais do Canal da Mancha -  Aki Kaurismaki mantém a linha da fábula, onde se enfrentam as forças oficiais da ordem estabelecida, que se acreditam do bem, mas ao cumprir o respectivo papel trazem o mal, e a conspiração de muitos brancos e orientais, cada um a aportar um desinteressado esforço para ajudar o simbólico desconhecido, todos eles, agentes da lei e a mofina  mas humana gente de uma comunidade sem importância, empenhados zelosamente no cumprimento de o que pensam ser o próprio dever e/ou a sensação de sentir-se relevantes dentro da própria assumida insignificância.
     Por fim, talvez para mostrar que nada é perfeito, e que tudo a ocorrer pertence ao domínio de uma tresloucada fantasia de universal benemerência, o diretor, em aspecto pessoal e clínico, carrega na demão. Assim, o que possa parecer exagero, Aki Kaurismaki nos insinua que como tudo na vida cabe o pirandelliano assim é se lhe parece...  



A Lei de Assistência Sanitária Custeável (Contd.)

     Conforme a prática na Suprema Corte, há uma sessão em que os juízes fazem perguntas e os advogados das partes – o que incluía no caso o Solicitador-geral, Donald B. Verrilli Jr. – tentam respondê-las, buscando influenciar os membros do Supremo, conhecedores que são a fundo não só da jurisprudência atinente à questão, assim como das opiniões e tendências desses juízes.
     O ultraconservador Clarence Thomas tradicionalmente não faz perguntas. Quanto aos demais, as principais atenções se dirigiram para o juiz  Anthony M. Kennedy, que é considerado como o voto determinante qunto à constitucionalidade da Reforma Sanitária sancionada em 2010.
     Segundo indica a análise feita pelo New York Times, nesse tipo de exercício dos juízes, em geral colocam mais perguntas para os advogados de posições com as quais não estão de acordo. Nesse contexto, o juiz Kennedy fez seis interrogações ao Solicitador-Geral (que é o advogado oficial da Administração Obama), e apenas três para os dois advogados que propugnam a inconstitucionalidade da Lei.
     Uma das preocupações centrais do pensamento de Anthony Kennedy é o conceito de liberdade. Foi tendo este princípio guia muito presente, que Donald Verrilli Jr., ao concluir a sua defesa da constitucionalidade da lei, inseriu observações voltadas diretamente para o juiz Kennedy. No entendimento do Solicitador-Geral, existe profunda conexão entre a assistência sanitária e a liberdade : “Haverá milhões de pessoas com doenças crônicas como diabete e cardiopatia, e por causa da assistência sanitária que receberão, estarão libertos dos grilhões das incapacidades que tais enfermidades criam para elas, e terão a oportunidade de fruir das bênçãos da liberdade.”
     Ao contrário dos prognósticos pessimistas de que o destino da Lei de Assistência Sanitária já estaria selado, pela desenvoltura de quesitos acerca dos efeitos de uma decisão majoritária pela inconstitucionalidade do mandato, as renovadas dúvidas sobre a orientação desse virtual voto de Minerva trazem esperança aos atribulados causídicos que propugnam pela constitucionalidade do instrumento legal. O que fazer com o restante do longo articulado dessa lei ?  A própria juíza Ruth Bader Ginsburg que é favorável à constitucionalidade, reconheceu que, na hipótese de o mandato central ser denegado, a Corte se defrontaria com a alternativa de ‘operação de destruição’ (wrecking operation) e um ‘trabalho de salvação’ (salvage job).
     Diante de uma Corte dominada pelo voto conservador e republicano (é certo o voto contrário de Clarence Thomas e de Antonin Scallia, que já disse: ‘se o coração da lei é extraído, todo o resto deve ir junto’). Tampouco persiste muita incerteza quanto aos votos negativos do Juiz-presidente (Chief Justice) John G. Roberts Jr., assim como de Samuel Alito. Os quatro juízes liberais votarão pela constitucionalidade: Ruth Ginsburg, Stephen Breyer, Sonia Sotomayor e Elena Kagan.`
     No fim de contas, reforma da importância e da amplitude do Affordable Healthcare Act fica dependente de um único e solitário voto, emitido por um juiz conservador, indicado pelo republicano Ronald Reagan. Esta pesada responsabilidade – a inviabilização dessa reforma implicará  na denegação da cobertura sanitária para trinta milhões de pessoas. A cláusula do comércio interestadual – que foi barreira afinal vencida por FDR na sua luta contra um Supremo integrado por maioria conservadora – hoje implica na federalização da questão, e, portanto, da validade do mandato individual de aquisição de seguro médico. Como Paul Krugman analisa o problema, há duas maneiras de solucioná-lo: ou através de imposição de imposto federal (o que ocorreria com a opção pública), ou requerer de todo cidadão e residente nos Estados Unidos a compra de seguro.
      A inquietude quanto à decisão da Corte muito se alimenta do viés pró-republicano do atual Supremo, pela maioria de cinco a quatro em favor da linha conservadora. Esse caráter político da Corte contribui para a sua perda de prestígio, eis que a Constituição a criou não para favorecer este ou aquele partido, mas para assegurar a constitucionalidade da lei. A decisão do Supremo em favor de George W. Bush e contra Albert Gore, dando na prática a presidência ao candidato republicano, minoritário no voto popular, abalou decerto o prestígio da Corte. Outras decisões na linha pró-republicana como Citizens United, de que já me ocupei no blog, não acrescentam muito em expectativas favoráveis a uma sentença equitativa.
       Só resta torcer para que o conceito de liberdade induza o Juiz Kennedy a não juntar a própria assinatura a uma sentença ruinosa para a saúde do povo americano, e mormente para aqueles mais necessitados. Por outro lado, demolir um edifício cuja construção exigira mais de século de diversas tentativas, bem-intencionadas de resto, como o Plano de Hillary Clinton que malogrou no primeiro mandato do 42º presidente, só é pensável em um país onde o antagonismo partidário chegou a ponto de toldar o entendimento de muitos dos participantes...



Vitória da Suu Kyi em Myanmar


      A comissão do partido oposicionista anunciou a eleição de Daw Aung San Suu Kyi na sua circunscrição, ao sul de Yangoun. Foram reportadas algumas irregularidades na votação de ontem, de acordo com o partido de Suu Kyi. Embora a oposição reivindique ‘a vitória’, ainda não se sabe quantas cadeiras foram ganhas (concorria em 44 das 45 disponíveis) pelo partido da Prêmio Nobel e heroína  birmanesa.
       Sob o novo presidente, um general reformado, foi quebrado o longo isolamento imposto pela férrea (e corrupta) ditadura militar do general Than Shwe. Há esperança de que se inicie a volta à democracia, posto que seja ainda muito cedo para afirmá-lo com segurança. Havia um número bastante pequeno de assentos vagos – 45 em 600 – e, por isso, tudo dependerá da postura do governo de Thein Sein.
 

A meia-gafe de Rick Santorum

       
      O ex-senador e pré-candidato conservador Rick Santorum terá enveredado em Wisconsin por terreno perigoso, quando se referiu ao Presidente nos seguintes termos: ‘Nós conhecemos o candidato Barack Obama, como ele era: um pró-governo antiguerra crioul...’ Nesta altura, dando-se talvez conta da enormidade que estava vocalizando, Santorum mudou bruscamente de assunto, deixando pendurada a meia-palavra que, se completa, seria desastrosa gafe a atravessar-lhe  a campanha nas primárias.
      A palavra ofensiva que Santorum não pronunciou por completo é nigger. Ele disse nig... e a sua assessoria apressou-se em declarar que a suspeita é ridícula, e o que o candidato desejava dizer seria nik, uma forma reduzida de beatnik ou peacenik.
      Na internet, onde a cena já se encontra, não é isso que parece. Como se sabe, a palavra nigger em inglês tem carga pejorativa muito mais acentuada do que, v.g., crioulo em português.

    

( Fontes:  CNN, International Herald Tribune, O Globo )